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Revitalização
Uma nova ordem para o Brás
Por
Eduardo Fiora.
O
processo de revitalização, que nos últimos anos tem marcado o Centro de São
Paulo, vai, aos poucos, sendo incorporado por áreas contíguas. Um bom exemplo
disso é o Brás, bairro com nítido perfil comercial, que começa a rever a sua
organização urbana.
Várias
ações coordenadas tanto pelo poder público municipal quanto pela iniciativa
privada procuram dar nova cara à região do Brás, que se fixa, ao lado do Bom
Retiro, como importante pólo têxtil da cidade, sobretudo no que diz respeito às
vendas no atacado.
Nesse
sentido, um grande impulso à revitalização da região – particularmente do
quadrilátero formado pelas ruas Barão de Ladário, Júlio Ribeiro, Miller e João
Teodoro – veio com a reestruturação do SP Mega Mix, shopping atacadista e de
pronta-entrega, inaugurado em 1992. A partir de uma associação do Shopping
PoloModa com o grupo SP Mega Mix, nasceu, em setembro de 2005, um novo
empreendimento, o MegaPoloModa, que além de centro de compras onde estão
instaladas 400 lojas de pronta-entrega, abriga um centro empresarial com 800 m2
por andar, além de um hotel com 136 apartamentos.
O
projeto de ampliação do shopping consumiu cerca de R$ 40 milhões, sendo R$ 14
milhões financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES). O empreendimento foi projetado para atender a um público bem definido:
visitantes que chegam à região para fazer comprar ou realizar negócios,
pernoitando na cidade em função disso. “Este complexo comercial é o maior e
mais moderno do Brasil”, diz o Hernani Fernandes Afonso, engenheiro da Matec
Engenharia, empresa responsável pela obra. “Conta com heliponto, estacionamento
com 500 vagas cobertas para carros, terminal de ônibus com salão de embarque e
desembarque com ar condicionado, TVs, cyber café, 30 vagas para ônibus de
excursão, acomodações para motoristas e vestiários com chuveiros”, acrescenta.
Os
lojistas e consumidores, estes vindos de diversas cidades brasileiras, ganharam
várias comodidades para suas compras, já que o shopping dispõe de esteiras
rolantes, carrinhos de compras, elevadores, ambiente climatizado e segurança
com central de monitoramento em todos os setores. Além disso, há um andar de
serviços, com praça de alimentação, casa de câmbio e turismo, bancos e caixas
eletrônicos, correios, cabeleireiro e até clínica de beleza.
Intervenção
viária
Para
o engenheiro da Matec, o grande diferencial da obra é o estacionamento para os
ônibus de excursão, que aliviou o trânsito da região. “O local onde está
localizado o MegaPolo fica muito sobrecarregado, pois normalmente os
consumidores que chegam a São Paulo dispõem apenas de um ou dois dias para
fazer as compras. Assim, o estacionamento beneficiou toda a região do Brás”,
comenta.
De
fato, o Brás atual revigorou-se em termos da questão viária, definida como
prioridade de pela Subprefeitura da Mooca, pois, diariamente, cerca de 150
ônibus, com lojistas e sacoleiros de todo Brasil, chegam diariamente ao bairro.
Em dezembro, na época do Natal, esse número dobra. Num trabalho em conjunto com
a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a administração pública conseguiu
disciplinar o fluxo de veículos, impedindo que eles estacionassem
irregularmente na região. Nesse sentido, foi criado um bolsão próximo à Rua
Oriente (Complexo Oriente), com capacidade para receber 200 ônibus, além de
mais cinco estacionamentos particulares, entre eles o do MegaPolo. “Os ônibus
atrapalhavam não só o trânsito como também dificultavam a visualização das
lojas por parte das pessoas que circulavam pela região com seus carros ou a
pé”, comenta o chefe de gabinete da Subprefeitura. Outra vantagem lembrada por
Odlak é que, nos estacionamentos, tanto os ônibus quanto as bagagens ficam mais
seguros. Além disso, os motoristas não precisam ficar aguardando nos veículos e
os serviços de limpezas são efetuados com mais higiene. “Os detritos dos
sanitários químicos eram jogados em plena via pública, que muitas vezes servia
de banheiro para vários passageiros. Agora isso já não acontece, pois os
bolsões contam com sanitários masculino e feminino. Além disso, alguns são
dotados de lanchonetes e até mesmo alojamento, como é o caso do complexo
Oriente.”
Os
lojistas do centro atacadista do Brás reconhecem que, no tocante ao fluxo
viário, a Subprefeitura conseguiu uma vitória. “O trânsito melhorou e também
ficamos livres da sujeira que os ônibus deixavam na porta de nossas lojas”,
afirma um comerciante local. Mas há ainda quem desafie a lei. Vez por outra é
possível encontrar um desses veículos estacionados irregularmente, com
passageiros jogando de tudo pelas janelas: copos, sacos plásticos e garrafas
pet, por exemplo. Como se vê, é um trabalho que envolve mais do que a simples
fiscalização e abraça algo bem mais complexo que é o campo da educação para a
cidadania.
O
que animou a nova investida da iniciativa privada no Brás foram os números de
um comércio já consolidado e com capacidade de crescimento. As 55 ruas do
bairro abrigam cerca de 6 mil lojas e confecções. Juntas elas movimentam R$ 35
bilhões por ano, número bastante significativo, pois dados da Associação
Brasileira dos Lojistas de Shoppings (Alshop) mostram que, em todo o Brasil,
557 shopping centers faturaram R$ 50,8 bilhões. “Acontece que nesses locais
existe sempre uma ou mais empresas que funcionam como âncoras. No Brás, isso
não ocorre”, lembra o presidente da Alobras (a associação dos lojistas do
bairro), Shlomo Shoel.
A
expectativa dos gestores do projeto MegaPoloModa é um faturamento acima dos R$
500 milhões. “Somos a alavanca de moda que projeta o Brás na sua nova percepção
de atualidade, contextualizando, assim, todo o seu comércio”, afirma a diretora
do MegaPoloModa, Margareth Scordamaglio. “O complexo se sustenta por si só,
porque gera demanda de clientes cativos, que procuram essas facilidades para
fazer seus negócios”, acrescenta. Na visão dos executivos do novo
empreendimento, o shopping trará, a médio prazo, impactos positivos em todo o
entorno. A proposta é que o comércio vizinho, ao ver que um negócio de alto
nível está dando certo, também resolvam investir na modernização de suas
próprias lojas, potencializando ainda mais o bairro como um todo.
Novo
calçamento
Empenhado
na reurbanização do Brás, o presidente da Alobras aponta como modelo as ações
de revitalização que ocorreram na região central da cidade. “Todos nós pudemos
ver o sucesso das iniciativas apoiadas ou movidas pela Associação Viva o
Centro. Revitalizar nada mais é que organizar o espaço, incluindo a atividade
do comércio ambulante”, comenta Shlomo Shoel. Segundo ele, o que aconteceu na
região central serve de estímulo para as áreas vizinhas. “Cada lojista tem de
estar empenhado nesse processo de revitalização, cuidando do seu espaço e
zelando para que ninguém o deteriore. Isso vale tanto para o interior do
estabelecimento quanto para a área de calçada”, avalia o presidente da Alobras.
E justamente no que diz respeito ao calçamento
das ruas comerciais do bairro é que a Prefeitura quer trabalhar em conjunto com
a iniciativa privada. O objetivo é trazer para o Brás o bem sucedido projeto de
reforma do passeio público implementado pelos comerciantes do Itaim Bibi. “As
vendas na região tiveram um significativo aumento de 10% depois da reforma das
calçadas”, revela o secretário de coordenação das Subprefeituras, Walter
Feldman. “No Brás, a primeira rua a receber um novo calçamento será a Oriente.
Existe o planejamento, por parte dos comerciantes, de obras em 8 mil m2
de passeio público”, acrescenta.
Mas
mesmo antes da reforma no passeio público, o Brás ganhou jovialidade com o
investimento dos lojistas em novas vitrines. Em ruas como a Miller, que acabou
segmentada em moda feminina, os vitrinistas ousaram adotando um pé direito
duplo (cerca de seis metros), o que chama a atenção de quem passa pelo local,
hoje bem mais clean do que no passado, quando a poluição visual era um inibidor
de vendas, pois escondia a mercadoria em exposição. “Os lojistas da Miller e de
outras ruas do bairro contrataram vitrinistas acostumados a trabalhar com
importantes grifes de shopping centers. Foi possível adotar esse novo pé
direito em várias lojas que mantêm ativa suas próprias fábricas no andar
superior”, explica Shlomo Shoel.
Outra
iniciativa importante iniciativa da Alobras foi a criação de um fundo próprio
de requalificação do bairro. Num primeiro momento, os recursos levantados devem
ser investidos na revitalização do Largo da Concórdia, livre dos ambulantes.
Segundo Shlomo Shoel, essa iniciativa significa que os lojistas estão assumindo
a responsabilidade na retomada da liderança por um Brás mais organizado. “Os
empresários estão se mobilizando porque querem um bairro mais bonito, com uma
atmosfera agradável para clientes e moradores”, afirma ele.
Para
que essa idealização de um bairro belo e agradável se concretize na prática, a
Subprefeitura da Mooca teve de intervir, no início de janeiro, no Largo da
Concórdia, que mostrava a face ainda desordenada do Brás. Na verdade, nesse
espaço urbano, cujo nome lembra harmonia de um convívio, nada concordava com
nada. A porta de entrada para o setor comercial da Rua Oriente parecia ser
terra de ninguém. O que era passeio público, por exemplo, já não existia mais,
pois foi cada metro da calçada, até o meio-fio, havia sido literalmente tomado
pelos camelôs. Aglomerados num ponto de ônibus na Rangel Pestana, os
passageiros esperavam pelos coletivos em plena avenida, já que a calçada estava
apinhada de vendedores. Transitar pelo local, onde se aglomeravam centenas de
vendedores ambulantes, era uma verdadeira aventura, que requeria muita
paciência, pois só era possível andar a passos curtos, tamanha a concentração
de barracas e varais com produtos ilegais.
A
reforma dos 10 mil m2 de área urbana está sendo feita em parceria
com a Alobras (que desembolsará cerca de R$ 250 mil direcionados às obras. O
Largo está cercado com tapumes para reforma completa do piso. Estima-se que até
o início de maio os serviços de construção de canteiros, paisagismo,
arborização, pintura e colocação do novo passeio público estejam concluídos.
Como
cão e gato
Dentro
do contexto de reurbanização do bairro, os lojistas ainda esperam pela solução
da questão dos camelôs. Na tentativa de resolver o problema, a Subprefeitura da
Mooca fez uma rigorosa revisão do Termo de Permissão de Uso (TPU) – documento
base da atividade dos vendedores ambulantes – de milhares de camelôs, validando
no final 983 licenças. “No nosso entender não seria possível falar em
revitalização do Brás sem que se tocasse nessa delicada questão” , afirma o
chefe de gabinete da Subprefeitura, Eduardo Odlak, que coordena todo o processo
de readequação desse tipo de atividade.
Segundo
ele, a situação no Brás era caótica, tendo fugido ao controle dos órgãos
municipais. “Eram mais de 4 mil barracas espalhadas pela região, impedindo a
livre circulação de pessoas e carros. Além disso, boa parte das mercadorias não
tinha comprovação de origem”, afirma Odlak ao justificar as diversas blitzes
feitas em conjunto pela Subprefeitura, Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda
Civil Metropolitana (GCM), sobretudo na Rua Oriente, uma
das artérias comerciais do bairro.
Diante
desse aparato fiscalizador, os ambulantes acabaram reagindo, o que chegou a
gerar confrontos com as forças da PM e da própria GCM. “Isso já era esperado.
Mas mantemos firme o nosso propósito de só deixar nas ruas os vendedores com
TPUs regularizados”, confirma Eduardo Odlak. Segundo ele, a Rua Oriente, por exemplo,
suporta no máximo 200 barracas, que podem ser acomodadas adequadamente.
A
tarefa proposta pela Subprefeitura é de difícil implementação, já que se trata
de um verdadeiro jogo de cão e gato. Quando os agentes da fiscalização passam,
os camelôs irregulares recolhem as barracas. Assim que o fiscal deixa o local,
elas são montadas de novo. É quase impossível manter a ordem dentro dos padrões
legais que determinam uma distância de 15 metros entre as barracas.
Esse
cenário de aglomeração está presente, sobretudo, em trechos onde é forte a
venda ao varejo, que atrai um volume maior de compradores. Já em ruas como a
Miller, local que concentra o comércio atacadista, as barracas estão dispostas
como manda a legislação.
Movimento
na madrugada
Ciente
de que não basta proibir o comércio irregular nas ruas do bairro, pois há
sempre uma constante migração de barracas de um lugar para o outro, a
Subprefeitura da Mooca trabalha para de viabilizar um novo conceito de shopping
popular. O projeto piloto dessa iniciativa tem como palco a Rua Monsenhor
Andrade, vizinha à Rua Oriente. Em um terreno pertencente à Rede Ferroviária
Federal, a Prefeitura autorizou o funcionamento, à noite, de 1,6 mil barracas.
“Trata-se de uma grande feira popular. Avaliamos como positivos os resultados
desse tipo de proposta, tanto é que estamos planejando a abertura de mais três
shoppings de menor porte”, explica Odlak.
Mas
há quem não veja com bons olhos
essa idéia da Subprefeitura. E as críticas vêm justamente do setor empresarial.
Para a Alobras, o shopping da Monsenhor Andrade está longe de ser algo que
revitalize a região. Segundo a entidade, as atividades da chamada “Feirinha da
Madrugada” precisam de ajustes, pois as vendas antes do amanhecer não ficam
restritas ao shopping popular, invadindo também ruas vizinhas como a Oriente.
“A Subprefeitura não levou em conta que existem lojistas que abrem suas portas
bem cedinho, mas não podem fazer isso normalmente, pois muitos ambulantes, nas
primeiras horas da manhã, ainda mantêm suas barracas nas calçadas”, afirma
Shlomo Shoel.
Instalada
há mais de oito anos na Rua Oriente, uma comerciante de roupas femininas dá o
tom do descontentamento. “Não vejo melhora alguma com essa novidade do Shopping
Popular. Acho que até piorou, pois agora ao abrir a loja às 6 da manhã já
encontro um ambulante, que passou a madrugada vendendo seus produtos, bem na
porta do meu estabelecimento”, reclama a lojista.
E com todos esses
contrastes que o Brás apresenta – formal e informal; ordem e desordem; limpo e
sujo – esse bairro, que agora já não dorme mais, o questionamento feito pelo
lojista mostra, claramente, que além de fatores econômicos, a reurbanização de
determinados bairros da cidade passa pela análise de importantes variantes
sociais.
Um bairro de migrantes e
imigrantes
Os primeiros registros referentes
ao bairro do Brás são do início do século 18, quando foi solicitada a
edificação de uma capela em homenagem ao Senhor Jesus de Matosinho em uma
chácara pertencente a José Braz. As primeiras referências a esse senhor
constam em atas da Câmara dos Vereadores de 1769, quando se despachavam
várias petições em nome do mesmo. O Brás era uma região pacata e cheia de
chácaras até a chegada de imigrantes italianos. Por conta da presença da
Hospedaria dos Imigrantes, localizada até hoje no bairro, alguns italianos
chegavam na cidade e preferiam permanecer com suas famílias nas redondezas.
Dessa forma, a região passou a receber grande influência italiana, que, assim
como as fábricas locais, colaborou para o desenvolvimento da cidade. O tempo
passou e, em meados da década de 40, muitos nordestinos migraram para São
Paulo em razão de uma grande seca registrada naquela região. Por conta disso,
ao longo dos anos o Brás foi perdendo parte de suas características
italianas, cedendo lugar à cultura nordestina e à diversificação do comércio.
Hoje o bairro com seus três km2 faz parte do corredor da moda da cidade, com
forte presença de outras culturas como, por exemplo, a oriental (chineses e
coreanos).
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