Crônica dos equipamentos culturais de São Paulo
(Por Jorge da Cunha Lima)
São Paulo, que já foi cognominada a maior cidade industrial da América Latina, hoje éuma das maiores metrópoles culturais do mundo. É bonita na imensidão de uma tomada aérea e no requinte de um detalhe. Equipa-se com três culturas complementares: trabalho, paladar e prazer. Fiquemos com a última, que é um importante paradigma da ascensão dos serviços no cenário econômico.
Em maio de 2004 tive a oportunidade de pesquisar: de "A Babá", de Juca de Oliveira, a textos de Garcia Llorca, passando por Pirandello, Dario Fo, Goethe, Shakespeare, Guarnieri, Camus, Euclides da Cunha e Plínio Marcos, havia 142 espetáculos teatrais em cartaz
na cidade de São Paulo. Convencionalmente temos 79 teatros (incluindo salas de concerto) na área central (Centro Histórico e bairros do entorno). Daria para encenar quase duas peças por teatro, isto sem contabilizar os espetáculos informais, em bocas de cena de igrejas, escolas, hotéis, bares, cinemas e até sob lonas. Somente Paris, com 338 montagens teatrais no mesmo período, apresenta mais peças de teatro simultaneamente em cartaz. Em Londres somei 117, uma diferença favorável a São Paulo em 10%. Nossa cidade espanta por seu vigor cultural.
Quando Secretário da Cultura do Estado de São Paulo realizamos uma pesquisa de amplo espectro, na qual a principal pergunta era: O que é cultura para você? 60% dos entrevistados responderam: o Teatro Municipal. Essa surpreendente resposta mostra o quanto o equipamento cultural simboliza o setor, mesmo se os seus conteúdos são estranhos ao entrevistado. Se cultural é tudo o que favorece a identidade do cidadão, no caso do Teatro Municipal, o cidadão, inconscientemente, confundiu o símbolo com sua própria identidade. Os valores mais profundos e às vezes visíveis da identidade são sempre a compreensão, a contemplação e a participação. Nesse sentido, nada é mais relevante do que o papel do espaço público. Teatro é espaço público, tanto quanto a praça.
Em Paris, população e poder público se uniram quando a Avenida Champs Elysées, a mais importante da cidade, revelou sintomas de deterioração. Nouvell, o arquiteto chamado para resolver o problema, sabia que o que é belo não deteriora. Fez um projeto ambicioso. Calçadas e escadarias cobertas de granito, replante de duas fileiras de árvores seculares, acabamento impecável até na sarjeta. Deu no que deu: a avenida recuperou seu esplendor, voltou a ser um bem comum para uso e contemplação de todos.
Bem público
Em São Paulo, o Ibirapuera foi concebido por Niemayer no IVº Centenário da cidade como espaço aberto ao público em toda a sua dimensão vegetal e cultural, com edificações que acolheriam bienais, Picassos, acervos permanentes e transitórios do melhor da modernidade. Uma grande escultura de Brecheret abre o caminho desses prazeres. E, hoje, uma fonte luminosa e sonora os completa. Pena que a proporção de parques em uma cidade de mil quilômetros quadrados, como São Paulo, seja ainda diminuta, senão ridícula.
Espaço público tem que ser belo, limpo, iluminado, seguro e, definitivamente, público, sem o enxerto de bancas privilegiadas de revistas, de cozinhas ambulantes e balcões de vendedores irregulares. O bairro do Chiado – um bem cultural de Lisboa e da humanidade – queimou porque as vias públicas estavam congestionadas por esses utensílios privados, impedindo que o Corpo de Bombeiros tivesse acesso ao sinistro.
Na história dos bons governos, o Estado sempre teve papel relevante no planejamento, execução e manutenção dos espaços públicos, ao ar livre ou não. Na história recente há dois exemplos extraordinários: Barcelona e Paris.
Barcelona, a pretexto das Olimpíadas, concebeu uma nova cidade dentro da cidade já eterna. Embora todas as dimensões do urbanismo tenham sido pensadas – e realizadas –, a marca da transformação da cidade foi artística; portanto, cultural. Todo espaço, além de público, foi concebido como espaço de contemplação. Nunca se colocou tanta escultura – e poetas – nas ruas em tão pouco tempo e de tão boa qualidade.
Paris, sem qualquer pretexto, tem consciência disso desde que Hausmann redesenhou a cidade para transformá-la em monumento definitivo da humanidade. Mais recentemente, os governantes do pós-guerra entenderam que o lado cultural da cidade deveria prevalecer sobre os demais. Pompidou sintetizou essa estratégia com um plano ambicioso de equipamentos culturais, que previa o Centro Pompidou, o La Villete (Cidade das Ciências), o Museu D’Orsay, a Pirâmide e o grande átrio do Louvre e o Museu Picasso. A Biblioteca Nacional foi consolidada por Mitterrand.
Quando Pompidou apresentou a proposta, o ministro das Finanças disse que o custo seria absurdo, cerca de US$ 6 bilhões. Pompidou pediu-lhe, então, que trouxessem o mapa do anel rodoviário (Péripherique) em construção no entorno de Paris. Disse ao engenheiro que fizesse uma intersecção numa extensão do anel que custasse os mesmos US$ 6 bilhões. O traço pareceu exíguo na magnitude da obra. Pompidou afirmou: "É o que vamos gastar no projeto cultural". Tudo construído, anos depois, Paris foi a cidade que mais atraiu turistas no mundo, com divisas para o caixa do governo – desde a implantação da proposta – da ordem de US$ 30 bilhões.
Em números
Na cidade de São Paulo não há qualquer outra região, a não ser o Centro, em que a densidade de equipamentos culturais seja tão grande. Nos distritos que conformam a atual Suprefeitura da Sé, somados Pari e Brás, há nada menos do que 79 teatros e salas de concerto, quatro unidades do Sesc, 37 museus, 18 centros culturais e 19 cinemas. Das 348 bibliotecas existentes no município, 120 estão no Centro. Há na área 29 instituições de ensino superior com mais de 100 mil alunos e cerca de outros 100 mil em escolas públicas e privadas de ensino infantil, fundamental e médio, segundo dados de um estudo de Isaura Botelho e Carlos Torres Freire, intitulado "Equipamentos e Serviços Culturais na Região Central da Cidade de São Paulo", publicado em 2004.
São Paulo é bem provida de equipamentos culturais, mas com uma distribuição pouco democrática, como demonstra cabalmente o trabalho citado. A maioria dos equipamentos construídos pelo Estado localiza-se no Centro, e a dos equipamentos privados perto da moradia e do comércio das classes mais abastadas.
À exceção de alguns equipamentos públicos, geralmente municipais, como bibliotecas e centros esportivos, a periferia da cidade continua privada de qualquer tipo de equipamento cultural.
Se a população quiser ver uma grande exposição, assistir a um concerto importante, conferir um espetáculo teatral novo ou consultar um livro raro, deverá se deslocar para o Centro ou algum bairro nobre. Só há uma compensação para essa situação: o Centro é muito bem servido de transporte de massa, sendo atendido por várias linhas de ônibus circulares, pelas duas linhas de metrô, Norte-Sul e Leste-Oeste, e logo mais também pela Linha 4, que ligará a Estação da Luz à Vila Sônia, conectando-se à Linha Verde, da Paulista, e por trens suburbanos da CPTM.
Essencial
Pode ter havido uma ou outra variação nos dados acima, para mais ou para menos. Dificilmente terá mudado a proporção do desequilíbrio, pois a maioria dos novos equipamentos foi implementada com o auxílio das leis de incentivo fiscal à cultura, que beneficiaram quase sempre o ponto de vista do incentivado, mais influenciado pelo mercado do que pela necessidade social de cultura.
Os governos têm se mostrado mais ativos na percepção de que a cultura pode representar um bom investimento em imagem política, muito mais do que a infra-estrutura. Além de propiciar retorno institucional, a cultura tornou-se matéria de primeira necessidade para as camadas menos abastadas, pois hoje o conhecimento geral é um dos principais atributos para a obtenção de emprego.
Em uma grande cidade, a compreensão do fenômeno artístico-cultural pode se dar pela quantidade e pela qualidade dos produtos propostos à população. Como o gosto é uma questão de oferta, cidades com vocação cultural, como Paris, Barcelona, Nova York e São Paulo, precisam trabalhar em grande escala. Devem ser território livre a todo tipo de novidade e, ao mesmo tempo, exibir acervos que remetam à tradição, como devem abrigar múltiplas temporadas de eventos culturais.
Depois dos Jogos Olímpicos que transfiguraram sua paisagem urbana, Barcelona passou a abrigar o Fórum Mundial de Cultura em área totalmente recuperada do lumpen urbano, dispondo de uma quantidade invejável de equipamentos de natureza cultural, além de quatro hotéis cinco estrelas, o que nos remete a uma última questão.
Universalidade
A arte não pode ser apenas uma proposta da classe dominante, que se arroga o direito de impor seu juízo de valor, nem pode ser prerrogativa do ressentido ou do populacho. Uma arte exclusivamente propositiva, seja em salas de compreensão, ou mesmo de mero entretenimento, corre o risco duplo de se elitizar demasiadamente ou de vulgarizar-se por exigência do mercado. Arte é arte, sua fruição deve ser universal.
A questão é de participação. E participação tem um sentido muito amplo. Começa com a escolha do projeto cultural público a partir do mais amplo universo de representação da sociedade criativa. Participação pressupõe educação artística, coisa extinta de nossos currículos há muito tempo. Música instrumental, canto orfeônico, desenho artístico, teatro, dança, desapareceram da grade curricular na maioria das escolas. Onde funcionam, ainda que por exceção, produzem resultados fantásticos.
A participação pressupõe uma série de requisitos: montagem amadora de instalações e espetáculos artísticos, o hábito do sarau, incentivo à prática da produção coletiva e, acima de tudo, condições de acesso. Acesso se conquista pela oferta e pela publicidade da oferta. Acesso pressupõe condições favoráveis de preço, ou de gratuidade, em todos os espetáculos, ainda que em tempos delimitados como os da campanha "Vá ao Teatro", período em que o custo dos espetáculos têm preços reduzidíssimos.
Em grandes cidades participação requer, ainda, o hábito da associação entre os indivíduos – condição que pode se dar no âmbito institucional (universidades, institutos culturais, bibliotecas, cineclubes) ou ideológico, isto é, por ideal político, estético ou religioso. Seja qual for, todos sempre deságuam em um interesse artístico.
Agrupando
Na minha geração proliferaram os grupos. Quase todos se reuniam no Centro da cidade. Eu freqüentei por cinco anos a turma da esquina, do relógio do Mappin – todos eram súditos da Cinemateca. Havia a turma da Biblioteca, da qual participaram FHC e Giannotti, que por sua vez eram súditos freqüentadores da Biblioteca Municipal.
Havia as dezenas de turmas da Ipiranga com a São João, formadas por súditos do Jeca Tatu e do Pari Bar, que reunia membros das mais diversas tribos. Enquanto o crítico Sergio Milliet se sentava placidamente à mesa, que lhe era cativa, o poeta Roberto Piva chegou a dar tiros no toldo azul do bar, a bala cravando-se na cabeça de outro poeta, esse em bronze, Mário de Andrade.
Brilhantes freqüentadores do Barbazul e do Pari Bar foram uns jovens de Araraquara, de brilhantíssima e precoce estatura: o filósofo Roberto Salinas, o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o conselheiro José Celso Martinez Correia. Essas esquinas e esses bares também são espaços públicos, mas o maior deles, aprofundado na bela arquitetura de Joaquim Guedes e no proselitismo evangélico e musical de Paulo Cotrim, foi o João Sebastião Bar. Em sua gloriosa memória registram-se sobre o tampo do piano Gaveau, de Ana Stella Schic: Elis Regina, Claudete Soares, Ana Lucia, Elizete Cardozo e Silvinha Telles. Ao piano, Antonio Carlos Jobim. Ao violão, João Gilberto. Na escadinha do mezanino, dando sopa, Chico Buarque e dois meninos muito eloqüentes, chegados da Bahia: Gilberto e Caetano.
No dia 13 de dezembro de 1968 Cotrim fechou o João e pôs uma placa na porta: "Fechado por absoluta falta de inteligência". Parece que naquela noite também fechou o Centro. Pior, fechou a coisa pública, que só iria reabrir com o lento fim da ditadura: longa via – e sacra – que atravessamos até hoje.
*Colaborou na pesquisa Alessandro de Oliveira Fenner
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Equipamentos culturais na cidade e no Centro de São Paulo*
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Equipamento
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São Paulo
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Centro
| |
Biblioteca
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348
|
120
| |
Sala de teatro e de concerto
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157
|
79
| |
Museu
|
110
|
37
| |
Centro Cultural
|
40
|
18
| |
Centro Desportivo Municipal
|
136
|
1
| |
Escola de Samba
|
107
|
10
| |
Unidade do Sesc
|
16
|
4
| |
Shopping Center
|
52
|
8
| |
Patrimônio Tombado
|
139
|
77
|
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Dados de maio de 2004
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São Paulo
|
Paris
|
Londres
| |
Salas de cinema
|
236
|
989
|
391
| |
Salas de teatro e de concerto
|
157
|
160
|
114
| |
Espetáculos teatrais em cartaz
|
142
|
279
|
117
|
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