ANO IX   -   No. 37   -   abril / maio 2005
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  O Centro de São Paulo aguarda um rumo

Reportagem  Questões Sociais: Atenção total à criança e fim das esmolas (Por Gustavo Fioratti)
Conselhos Tutelares: Doe você também
Proposta Viva o Centro: Calçadões: Uma conquista que precisa de revisão e aperfeiçoamento
Estudar no Centro: Um Pólo Educacional na Região da Sé (Por Fábio de Paula)

Artigos Um novo centro para São Paulo (Por Miguel Jorge)
Incubação de empresas:uma nova vocação para o Centro de São Paulo? (Por Caio Cesar Saraiva)

Entrevista Renato Janine Ribeiro, a hora e a vez da filosofia

Idéias Centro Cultural Theatro Municipal de São Paulo (por Fábio Frutuoso)
Reinvenção da Metrópole e Reabilitação do Planejamento (Antônio Marcos Capobianco)

Cultura CAPA: A Broadway é aqui (Por Inês Figueiró)
CASA LUTETIA, ENDEREÇO DE ARTISTAS. (Por Federico Mengozzi)

Seções Carta ao leitor
Cartas
Galeria
Mix
Viva o Centro Notícias
Clique aqui para fechar esta janela


  Editorial  


Cultura e educação. Poderia haver um binômio mais adequado para promover a requalificação do Centro de São Paulo? Nesta edição a revista urbs registra três iniciativas que estão movimentando - ou vão movimentar - a região central nesses dois aspectos. Com a estréia da quarta produção da Broadway em seus palcos, o Teatro Abril confirma a vocação do Centro para grandes espetáculos. Foram mais de 1 milhão de espectadores até agora. Esse afluxo de pessoas interessadas em cultura produz uma reação em cadeia, que beneficia outros equipamentos da região, como hotéis e restaurantes. Os ateliês que estão sendo montados pela FAAP na Casa Lutetia, na Praça do Patriarca, também prometem trazer um público qualificado - de artistas brasileiros e estrangeiros. E os projetos se completam com a abertura de uma nova filial da PUC nas proximidades da Sé. Apesar de todas essas novidades, a Associação Viva o Centro e a revista urbs continuam atentas aos problemas que persistem. Desde a campanha eleitoral do ano passado, a Viva o Centro tem discutido propostas com candidatos, e agora com o prefeito eleito e sua equipe. A repercussão dos temas na imprensa tem sido grande e a urbs vem abrindo suas páginas para detalhar e aprofundar a discussão: nesta edição analisamos o sistema de calçadões. Para concluir nossa série de matérias sobre as questões sociais no Centro, entrevistamos o novo secretário da Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, que nos contou que priorizará os problemas relativos à criança e ao adolescente. Mostramos ainda como as pessoas físicas e jurídicas podem fazer sua parte, em reportagem sobre o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FUMCAD). Não faltam projetos interessantes, assim como não faltam questões a serem enfrentadas. Mas para embasar tudo isso, é preciso pensar, refletir, voltar para as questões de fundo. A entrevista com o pensador Renato Janine Ribeiro nos proporciona esse respiro, esse momento de introspecção de que precisamos para colocar ordem nas idéias.

Não podemos deixar de registrar neste número o falecimento da pessoa responsável pela excelência da urbs ao longo de seus nove anos de existência. O jornalista Jule Barreto colocou toda a sua energia e conhecimento nesta revista. Ao assumir esse projeto, espero corresponder a essa dedicação, para que a urbs seja, cada vez mais, um veículo que ajude a devolver a São Paulo o Centro que a cidade merece.

Lizandra Magon de Almeida

Editora

  Cartas  


MARIA BONOMI

À sra. Ana Maria Ciccacio

Rfte.: Reportagem da revista URBS nº 36

Escrever com claridade e elegância literária, mostra a estatura intelectual do escritor, em que o leitor sente até o espírito da obra da gravadora-escritora Maria Bonomi e de sua equipe ao criar o Painel na Estação da Luz. Parabéns!!!

Não é de se estranhar a beleza de suas obras, a sua origem da Itália, que é o país dos grandes mestres da pintura, da escultura, da música, do belo canto e também de escritores como Dante entre outros.

Na página 52 aparece a fotografia do senhor Alberto Gattoni, morador do Centro, que nos dá uma dica: apreciar a vista do alto dos prédios. "É uma vista fantástica!"

Concordo plenamente com ele. O ser humano, com o avanço de sua idade, percebe como nunca toda a beleza do mundo que nos rodeia. A sensibilidade é maior do que quando se é mais jovem.

Atenciosamente,
Haroldo R. Vargas
Diretor da Harvar do Brasil Ltda

REVISTA URBS

Como moradora da capital, gostei muito de conhecer a revista - um importante espaço para refletir sobre a realidade da qual fazemos parte e repensarmos nossa relação com a cidade.

Parabéns à equipe!

Immaculada Lopez
Jornalista

PROPOSTA VIVA O CENTRO

Prezados Amigos,

Na qualidade de Diretor da Ação Local Anhangabaú e de proprietário do Hotel Central na Av. São João, 288, quero manifestar meu entusiástico aplauso pela matéria do jornalista Eduardo Fiora sobre uma das propostas que a Associação Viva o Centro apresentou aos candidados à prefeitura: o excelente projeto de requalificação do Vale do Anhangabaú.

Os autores do projeto tiveram a felicidade de oferecer uma solução muito inteligente, em perfeita harmonia com o bom aproveitamento do espaço público e sem descaracterizar o que já está feito. Parabéns!

Tenho convicção de que - executado o projeto - o coração da área central requalificado terá um enorme e benéfico efeito sobre todo entorno e muito contribuirá para os propósitos maiores da Associação Viva o Centro. Espero que as autoridades mandem executar logo este projeto!

Atenciosamente,
Paulo Rocha
Hotel Central

PROJETO ANHANGABAÚ

Caro Marco Antonio R de Almeida,

Receba os meus cumprimentos, que peço estender à Promon e ao escritório Martinez Correa, pelo excelente projeto para a readequação do Anhangabau. É bom ver um projeto arquitetônico que pesquisa os problemas e apresenta soluções práticas. Na maioria dos casos, os arquitetos só valorizam as soluções estéticas, com obras caras e espetaculares, que trazem problemas maiores, pois não procuram conhecer a realidade do local. A reabertura das ruas Formosa e Anhangabau, e de trecho da Av. São João, é urgente e imperativa para a revitalização de área tão importante no centro da cidade. Só não concordo com a construção da passagem de nível no centro do vale. Ela é desnecessária se as passagens de nível nas ruas Formosa e Anhangabau, que permitem o acesso a Av. São João, forem prolongadas. A Associação Viva o Centro deveria sugerir também a volta da Pça do Patriarca como pequeno terminal de ônibus e táxis. Atualmente as pessoas são obrigadas a descer dos ônibus do outro lado do viaduto do Chá e andar mais de 500 metros para chegar ao Centro Velho. A praça está bonita, mas criou um espaço totalmente inútil, pronto para ser ocupado por vendedores ambulantes. Sem nenhuma razão, até a simpática e tradicionalíssima banca de jornais foi expulsa de lá!

Cordial abraço
Luiz Eduardo Reis de Magalhães

CALÇADÕES DO CENTRO

Salve colegas!

Sou morador do Centro, assino a revista da Associação Viva o Centro e tenho acompanhado todo este movimento, pelo qual tenho muito respeito, em direção à revitalização da região central de São Paulo. Sou entusiasta destas ações porque acredito na riqueza do Centro e da cidade. Mas devo confessar que esta idéia de abrir os calçadões do Centro Expandido para a circulação de veículos me parece ser um grande equívoco.

Quero dizer também que o debate para a reformulação permanente deste Centro, que tanto amamos, é válido e saudável, e que a região não é só dos comerciantes, mas também - e principalmente - dos cidadãos do mundo de São Paulo que por lá transitam sem necessariamente estarem comprando.

Um Abraço,
Makoto Ando
Arquiteto

Caro Makoto,

A Associação Viva o Centro não defende "abrir os calçadões do Centro", mas sim a revisão desse sistema. Na página 18 desta edição você poderá conhecer a nossa proposta na reportagem "Uma conquista que precisa de revisão e aperfeiçoamento".



MÚSICA NO CENTRO

Parabenizo toda a equipe da revista pela qualidade das matérias. Queria também sugerir uma pauta sobre a música no Centro. Por onde passamos sempre encontramos shows gratuitos em praças, latinos mostrando sua arte com flautas andinas, repentistas de pandeiro na mão, além de mambembes improvisados na Praça da República, Sé e redondezas. Estes artistas, por vezes marginalizados, contribuem para a rica difusão da cultura e estão presentes em nosso cotidiano sem que percebamos. Quantas vezes passamos apressados e não reparamos na arte que transborda no Centro de São Paulo?

Quanto a abordagem da revista, continua excelente, sempre valorizando a revitalização e sempre mostrando a importância da região por meio de debates enriquecedores. Parabéns.

Um abraço,
Elis Marchioni
Pesquisadora




Envie suas sugestões e comentários com seu nome completo e profissão para o e-mail urbs@vivaocentro.org.br



  Panorama  
O Centro de São Paulo aguarda um rumo


O Centro avança e melhora a olhos vistos. Começa efetivamente a ocupar sua enorme capacidade ociosa e ativar suas potencialidades. No entanto, precisamos de uma vez por todas definir um plano para o Centro de São Paulo. Ao longo dos quase 14 anos de existência da Viva o Centro e de cinco diferentes gestões no comando da Prefeitura, grandes conquistas foram alcançadas, mas nunca

houve um projeto que permeasse todas elas e estivesse acima de ingerências políticas. Um projeto que possa ser implementado de modo contínuo, lógico e sistemático, a fim de que as primeiras intervenções não tenham de ser refeitas quando o processo avançar.

Só para recordar: no final da administração Erundina foram concluídas as obras de recuperação do Vale do Anhangabaú, sem obediência, entretanto, ao projeto original, oriundo de gestões anteriores, o que, inclusive, motiva agora a proposta da Viva o Centro para o Vale, publicada na edição anterior desta revista. Com Maluf registrou-se a criação do ProCentro, proposto pela Viva o Centro à Prefeitura, que previa uma série de intervenções e diretrizes, nunca implementadas. Durante o governo Pitta, a Associação obteve importantes vitórias, como a aprovação da Lei da Operação Urbana Centro e da Lei das Fachadas, e, no bojo da renegociação da dívida do município, uma provisão para um empréstimo de US$ 100 milhões do BID para o Centro. No Go-verno do Estado, na gestão Mário Covas, são implementadas gran-des obras na área cultural, como a Pinacoteca e a Sala São Paulo, mas o entorno, afeto ao município, permanece igual.

Com a gestão Marta, o Centro foi definitivamente eleito dentre as prioridades da Prefeitura e esta passa a trabalhar na formulação de um plano para a área, além de transferir para a região várias secretarias e outros órgãos municipais. A primeira das formulações específicas para o Centro, Reconstruir o Centro, ocupou-se mais de listar algumas ações do que projetar intervenções, planificá-las e detalhá-las. A segunda, Programa Ação Centro, resultou de uma total reconfiguração da primeira e possibilitou o suporte para que o BID assinasse com a Prefeitura a contratação dos US$ 100 milhões em meados de 2004. No âmbito do Governo do Estado registram-se mais avanços na área da cultura - Estação Pinacoteca, Escola de

Música Tom Jobim, Estação da Luz e a transferência de secretarias e empresas do Estado para o Centro, bem como melhorias na segurança da região, porém, mais uma vez sem interferências urbanísticas no entorno.

Com o início da gestão Serra, o que ele encontra é uma priorização do Centro, mas nenhum projeto consistente a ser seguido, ainda que, ao lado do Ação Centro, haja também o chamado Plano Regional para o Centro, que faz parte do Plano Diretor. A confusão

impera e, além disso, a sociedade civil organizada não chegou a debater de fato nenhuma dessas formulações anteriores.

É momento de reverter esse quadro. Primeiro, estabelecendo um diagnóstico dos principais problemas, bem como das possibilidades e vantagens estratégicas do Centro; segundo, elaborando a partir desse diagnóstico um plano geral para a área, envolvendo inclusive o Governo do Estado e o próprio Governo Federal, dono das áreas da antiga Rede Ferroviária Federal. Plano no qual as propostas pontuais estejam integradas e possam ser implementadas de modo planificado para que não volte a acontecer Fura-Filas e São Vitos; e, finalmente, realizando uma ação permanente de comunicação, de mão dupla, para que o cidadão entenda e participe dos projetos propostos.

A Associação Viva o Centro pode auxiliar o governo intermediando a própria construção desse projeto com a coletividade pelo fato de ser uma entidade dedicada única e exclusivamente ao processo de recuperação do Centro, de ter realizado muitos estudos e seminários nacionais e internacionais, de congregar entidades dos mais variados estratos da sociedade e, ainda, de coordenar o Programa de Ações Locais, com representantes de mais de 3 mil empresas e organizações, além de moradores do Centro.

Isso não implica nenhuma interrupção no movimento da máquina administrativa. Ao mesmo tempo em que se trabalha no plano, outros projetos e ações podem ter andamento. Um projeto público municipal para o Centro implica ações imediatas para o cotidiano da cidade e ações estratégicas de longo prazo que, necessariamente, são mais demoradas do que os limites de um mandato.

A própria Viva o Centro sugere entre as suas "10 Propostas para o Centro" que a Prefeitura intensifique a zeladoria urbana, a atenção social para o atendimento à população carente, a iluminação, o disciplinamento do uso do espaço público. A Viva o Centro está aí para ajudar. Importante é que a sociedade saiba qual será o futuro do Centro e como poderá participar.



  Galeria  


Loja Social comercializa produtos de serviços assistenciais

Localizada na Rua Líbero Badaró, 569 (D6, E5), a Loja Social é um projeto que funciona como vitrine permanente de trabalhos realizados por usuários de serviços socioassistenciais conveniados à Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social (SMDAS). São peças produzidas em oficinas de convívio e capacitação da rede de albergues da cidade e de instituições que atendem crianças, jovens, adultos e idosos em situação de vulnerabilidade.

Instalada no andar térreo da SMDAS, a loja também promove a divulgação de práticas inclusivas e oferece acesso ao Banco de Dados das Organizações de Assistência Social da Cidade de São Paulo (Banorgas). O projeto integra o processo de revitalização do Centro. Mais informações pelo telefone (11) 3291-9664.

9.400

É o total de assinaturas que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo vendeu para a Temporada 2005. As vendas tiveram um aumento de 7,5% em relação ao último ano, quando foram vendidas 8.800 assinaturas. As apresentações acontecem na Sala São Paulo (C1-93).


Serviço de carruagens conduz visitantes pelo Centro

Em pleno século 21, passear por São Paulo em uma carruagem de estilo antigo parece um tanto inusitado. Mas vale a pena. Ainda mais quando o trajeto acontece em uma região que transpira história: o Centro da cidade. Com essa proposta, o engenheiro Tadeu Braz idealizou o projeto "Carruagens São Paulo", roteiro turístico realizado em charretes que percorre diferentes pontos turísticos da região central.

As saídas acontecem aos domingos, em frente ao Hotel Jaraguá (B6-83), e os percursos incluem lugares como o Teatro Municipal (D5-71) e o Edifício Copan (B5-80). Três carruagens estão operando, e o preço da saída - que depende do número de passageiros - é de até R$ 30 por pessoa. "Carruagens São Paulo" é também um projeto social: nos dias em que não há passeios, os cavalos são disponibilizados gratuitamente a pessoas que necessitam de eqüoterapia. Mais informações e reservas pelo telefone (11) 3237-4976, ou no site: www.carruagemsaopaulo.com.br

Bovespa traz crianças ao Centro

Com os objetivos de apresentar o complexo mundo do mercado de ações a crianças carentes e de proporcionar um passeio pelo Centro Histórico da cidade, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lançou o "Turismo Cultural", projeto que será desenvolvido ao longo de todo o ano.

O passeio começa com a exibição de um filme em três dimensões. Com os óculos especiais as crianças podem conhecer o funcionamento da Bovespa e entender, por exemplo, a agitação do pregão e os códigos falados pelos operadores. Depois da projeção, as crianças passam pelo Centro de Memória e pela biblioteca da instituição, que é o maior centro de negociações da América Latina.

O passeio pelo Centro começa no local onde a cidade de São Paulo nasceu: o Pátio do Colégio (F6-3). O Museu Paulista, a Pinacoteca do Estado (E2-100), a Praça da Sé, com seu Marco Zero (E6-13) e a Catedral (E7-14) também estão no roteiro. Informações sobre o projeto podem ser obtidas pelo telefone (11) 3233-2324.

Banco do Brasil investirá R$ 46 milhões em cultura

Segundo anúncio feito pelo diretor de Comunicação e Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, os Centros Culturais e o Circuito Cultural do Banco do Brasil receberão, em 2005, um investimento de R$ 46 milhões. O valor é quase 30% maior do que

os R$ 35 milhões investidos em 2004.A participação da instituição no fomento à cultura é muito importante já que, só no último ano, mais de 3 milhões de visitantes foram às exposições, filmes e peças teatrais promovidas nos espaços culturais do Banco. E a programação não se restringe apenas aos Centros localizados em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. O Circuito Cultural também leva a outras cidades do Brasil a programação do CCBB. Em 2005, 18 cidades devem receber o circuito itinerante.

Entre as atividades programadas para este ano, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo deverá apresentar as mostras "Retrospectiva Kieslowski", "Paulo José - 40 Anos de Cinema" e "Nelson Pereira dos Santos e Novíssimo Cinema Nórdico". Os tradicionais eventos "Festival de Curtas-metragens de São Paulo", "Mix Brasil", "É Tudo Verdade"

e "Festival do Minuto" também marcam presença na agenda cultural.

Morando perto do céu

Na São Paulo dos anos 20, um prédio de dez andares já era considerado monumental. Foi por isso que a partir de 1925 a cidade assistiu atônita à construção de um edifício de 130 metros de altura e 30 andares. Idealizado por Giuseppe Martinelli, o Edifício Martinelli (E5-42) levou oito anos para ficar pronto e foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Para provar que a construção era segura, o idealizador se mudou para o palacete localizado no topo do construção. Foto de Flavio Moraes.

Inclusão e cultura digital na Vila Buarque

No número 454 da Rua Rêgo Freitas (A5, A4), um projeto de inserção e cultura digital começa a funcionar a todo vapor.

Em sua primeira etapa, o "Ponto de Cultura Vila Buarque", programa que tem o apoio do Ministério da Cultura, tem como objetivo mapear entidades e ONGs ligadas a questões sociais e de incentivo à cultura na região. Para Adriano Angelis, coordenador executivo do projeto, "a intenção é capacitar integrantes dessas instituições para atuarem como multiplicadores da cultura digital, em suas respectivas bases de atuação".

As atividades estão focadas no cineclube e na rádioweb, mas haverá também o desenvolvimento de ações nas áreas de vídeo, software livre e reciclagem de equipamentos de informática. Debates, mostras e eventos também estão previstos.

Projeto proposto pelo Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO) e pela Editora Oboré, a coordenação do projeto está a cargo de Antonio Rezk, presidente da IPSO; Carlos Seabra e Zezé Pina, integrantes da IPSO; Sérgio Gomes Diretor da Oboré; e Adriano de Angelis.

Novo processo dificulta falsificação de documentos

Para aumentar a segurança e impedir a falsificação de documentos, o Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt (IIRGD) instalou, no Poupatempo Sé (G6-19), um processo digital para a expedição de carteiras de identidade. A tecnologia, totalmente nacional, foi desenvolvida pela Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp) e o processo consiste na captação de imagens digitalizadas da assinatura, fotografia e impressões digitais do cidadão.

O novo tipo de RG é semelhante à nova Carteira Nacional de Habilitação e por isso

dificulta o processo de falsificação: não pode ser plastificada e tem uma tarja plástica cobrindo os campos impressos; a fotografia, a assinatura e a digital também são impressas. Até o final de 2005, os Postos Poupatempo Luz, Santo Amaro, Campinas Centro e São José dos Campos também deverão passar a operar com a nova tecnologia. Só o Poupatempo Sé emite mais de 1,2 mil documentos de identidade por dia.
22,5 milhões

É o número de atendimentos registrados pelo Poupatempo Sé desde a sua inauguração,

em 1997. Em 2004, a média diária de atendimentos foi de 11,7 mil pessoas.

Loucos por canetas se reúnem em clube

Durante 50 anos, Mariano Prieto, falecido em 2001, esteve à frente do Posto Central de Canetas & Consertos, loja que fundou na Rua São Bento. A paixão passou de pai para filho, e Mario Prieto Jr., além de administrar o posto, também é o responsável pela criação e presidente do "Pen Collectors de São Paulo", o clube de caneteiros da cidade. Juntamente com outros fascinados pelo tema, como Joel Eurides Domingues e João Luiz Mendes, e com o apoio da marca norte-americana Sheaffer, o espaço foi fundado para possibilitar a troca de informações, além de disponibilizar uma biblioteca de revistas e livros especializados. "No futuro, pretendemos realizar uma grande exposição na capital paulista", afirma Prieto Jr. Para se tornar sócio, o interessado paga uma taxa de R$ 100. A mensalidade é de R$ 30. Quem quiser apenas conhecer o espaço, o clube também está aberto à visitação. Pen Collectors de São Paulo: Rua São Bento, 290, 2º andar, sobreloja (E6, E5). Tel: (11) 3107-3019

Restaurante-Escola completa um ano

Programa coordenado pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, em convênio com a Fundação Jovem Profissional, o Restaurante-Escola completou um ano de atividades. Com o objetivo de inserir um jovem profissional mais bem qualificado no mercado de trabalho, o projeto é voltado para o ensino de serviços de alta gastronomia. Durante seis meses uma turma de 60 alunos tem aulas sobre como carregar bandejas, preparar bebidas e pratos e servir corretamente uma mesa. Além das aulas de gastronomia, os participantes também recebem noções de cidadania, técnicas de higiene e estocagem de alimentos e, se necessário, reforço escolar.

Para quem quiser experimentar os pratos feitos pelos alunos, a casa está aberta ao público de segunda a sexta, das 12h às 15h. Sob o comando do chef Volmar Zocchi, no Restaurante-Escola há sempre um cardápio fixo e uma "sugestão do dia" que sai por R$ 12. O preço do cardápio fixo depende do prato escolhido. Às segundas-feiras existe apenas uma opção de prato, que sai por R$ 8. O Restaurante-Escola fica localizado no 1° subsolo da Câmara Municipal, no Viaduto Jacareí, 100 (C7).

Sede da Prefeitura volta a ser Edifício Matarazzo

Quando São Paulo completou 450 anos, a ex-prefeita Marta Suplicy mudou o nome da sede da Prefeitura, originalmente batizada de Edifício Matarazzo, para Palácio do Anhangabaú.

Em decreto publicado no Diário Oficial do Município, em 15 de fevereiro, o atual prefeito José Serra divulgou o retorno ao nome original. A medida foi tomada, de acordo com o decreto, com o "intuito de contribuir para a preservação dos marcos históricos do Município de São Paulo, assim como para o fortalecimento da memória das famílias e cidadãos que se destacaram no desenvolvimento econômico, social e cultural da cidade".

Associação Comercial investe no Centro de Curitiba

O desenvolvimento contínuo da região central de Curitiba através da implantação de um grande condomínio comercial, turístico e cultural. Esse é o objetivo da Associação Comercial do Paraná com o projeto "Centro Vivo", que visa garantir a dinâmica da região

por meio de parcerias entre o sistema educacional, iniciativa privada e os poderes público, municipal e estadual.

Diversas ações já foram colocadas em prática, como a padronização da

comunicação visual da região, a oferta de apresentações teatrais gratuitas

e ações para atrair mais consumidores para o comércio.Para 2005, o programa pretende

viabilizar novas ações, como o Centro de Atividades, que será direcionado

aos adolescentes e pessoas da terceira idade da região; o Seminário Habitacional do Centro Vivo, com discussões para encontrar formas de aumentar o número de moradores

da região; o projeto Arruma Centro, ação que visa melhorar o aspecto das praças, jardins, floreiras, bancos, lixeiras e postes da região. Para mais informações: www.centrovivo.com.br

Lisboa renovada

A degradação do ambiente urbano de Lisboa resulta, entre outros fatores, da existência de mais de 5 mil edifícios abandonados. Com o objetivo de divulgar essa situação, além de analisar e discutir soluções de requalificação, foram criados o projeto de cidadania "Lisboa Abandonada" e a associação "Vamos Renovar Lisboa". A idéia surgiu a partir de um site criado por um estudante, em dezembro de 2000, no qual eram registradas fotos de prédios abandonados na capital portuguesa. A página se tornou local de discussões e troca de idéias e, a partir daí, foi criado o "Fórum de Urbanismo" e a Associação.

Mais recentemente um novo site foi colocado no ar: o "Lisboa Renovada", que visa mostrar as conquistas do projeto, ou seja, registrar os edifícios que foram recuperados. Informações: www.lisboa

abandonada.net e www.lisboa-renovada.net





  Reportagem  

Questões Sociais

Atenção total à criança e fim das esmolas (Por Gustavo Fioratti)

Em nossas edições anteriores, discutimos alguns dos problemas sociais mais graves enfrentados pela população do Centro de São Paulo. Com a mudança de gestão na Prefeitura municipal e a transformação da Secretaria de Assistência Social em Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, a revista foi ouvir o novo titular da pasta para conhecer as diretrizes do trabalho social da Prefeitura na administração de José Serra.

O secretário Floriano Pesaro revelou que vai aproveitar a rede já existente, a qual considera boa, para ampliar o atendimento, concentrando-se principalmente na questão da criança e do adolescente. E promete uma ampla campanha contra a esmola e o assistencialismo.

A nova equipe da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social sinaliza poucas e pequenas mudanças nos programas seguidos pela gestão anterior, encabeçada por Aldaíza Sposati. A base do serviço da Prefeitura para a inclusão social de moradores de rua, a extinção do trabalho infantil e a assistência aos idosos - que são três dos principais problemas da metrópole - continua sendo o trabalho em parceria com ONGs, que recebem cerca de 95% dos recursos da Secretaria. As mudanças, segundo o novo secretário, estão restritas por enquanto a detalhes dos vários programas e à distribuição de verbas, que já começa prejudicada por dívidas anteriores que vão comprometer, em 2005,10% do orçamento da pasta.

No total, a Secretaria gastará R$ 53,47 milhões durante este ano, dos quais cerca de R$ 5 milhões deverão cobrir os repasses que não foram feitos até dezembro de 2004. "Teremos que ajustar o orçamento de acordo com as dívidas herdadas, e isso vai gerar um impacto em nossa rede. Mas vamos tentar evitar que esse impacto provoque a diminuição de vagas em nossos postos. Podemos cortar sem prejudicar o atendimento. No ano passado, gastou-se muito em pesquisa, junto a instituições acadêmicas, por exemplo. Esse é um dinheiro que, por enquanto, pode ser economizado", diz Pesaro.

As novas propostas, nesse início de ano, parecem visar uma adaptação, ou aprimoramento, do que já existia na gestão anterior. Assim, o trabalho dos albergues continua sendo a principal ferramenta de combate ao crescimento do número de pessoas em situação de rua; o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) permanece o carro-chefe de um programa de prevenção e luta contra o trabalho infantil, tocado por uma parceria entre ONGs, poder executivo e judiciário; as casas de acolhida e o Centro de Referência da Cidadania do Idoso, que funciona no Anhangabaú, ainda são os pilares de apoio dos serviços aos idosos. "Muitos dos programas continuam como eram antes. Por enquanto, pretendemos aprimorar esses serviços", afirma o secretário.

Até 2006, as principais atividades da Secretaria incidirão sobre planejamentos orçamentários, análises de programas e elaboração de propostas, o que significa que poucas mudanças serão percebidas. "Este é um ano de revisão, de auditorias, de reavaliação de projetos, de priorização de atividades. A Secretaria anterior priorizou a regulação da rede de assistência social. Vamos aproveitar essa regulação para ir direto ao ponto, que é dar assistência aos moradores de rua e combater o trabalho infantil, por exemplo, aumentando o número de vagas em albergues e também o número de pessoas beneficiadas por nossos programas", diz.

Combate à esmola

Das prioridades, há destaque para uma ação específica: a nova Secretaria prepara forte campanha junto à população da cidade para desestimular o ato de dar esmola. Ainda em fase de discussão, o projeto já foi motivo de protestos verbais e por escrito, principalmente de instituições religiosas. Mas Pesaro, apesar de não pretender destinar uma verba específica para a realização de uma campanha contra a esmola, segue convicto em sua proposta: "Se cada pessoa que dá esmola guardasse essas moedinhas em um cofrinho e, após um ano, doasse a quantia a uma das organizações que prestam assistência aos moradores de rua, teríamos muito mais resultados", defende.

De fato, há instituições espalhadas pela cidade que contemplam praticamente todos os bairros, segundo um mapa divulgado pela Prefeitura. No total, são mais de 600 organizações cuidando de atividades diversas - há desde abrigos para moradores de rua até organizações especializadas em lavar roupas. "Quem quiser contribuir pode contatar uma das instituições, pode visitá-la, pedir a planilha de custos, ver como funciona. Isso sim é cidadania. Não é abrir o vidro da janela até a metade num semáforo para dar um punhado de moedas para alguém que precisa deixar a rua", argumenta Pesaro.

Outra sugestão é a de que, em vez das esmolas, as pessoas façam doações ao Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (veja matéria na página 16). O motivo pelo qual não se deve dar esmolas, defendido hoje pela maioria das instituições assistenciais, é que a esmola mantém a pessoa na rua e impede que ela participe de programas promovidos pelo governo. Até quem tem possibilidade de conseguir trabalho acaba, muitas vezes, preferindo permanecer nas ruas.

Ex-secretário do projeto Bolsa-Escola, criado no governo Fernando Henrique Cardoso, Pesaro sabe bem que as ruas dos grandes centros urbanos são mais atraentes do que os programas oferecidos pela Prefeitura e pelo governo. "Quando fui secretário do Bolsa-Escola, sabia que nos centros urbanos o programa não tinha a eficácia que tinha nas cidades pequenas.

A criança que vive nas metrópoles consegue mais dinheiro na rua. O jeito de tirá-las das ruas é oferecer atividades sócio-educativas. ‘Conquista’ é a melhor palavra para isso. É uma questão de conquistar essas crianças".

Para tornar os programas atraentes aos olhos da criançada, a Secretaria pretende investir mais em atividades lúdicas (para crianças) e profissionalizantes (para adolescentes). Moda, gastronomia e pintura são alguns dos trabalhos que serão valorizados dentro da programação de casas de assistência, abrigos e nas escolas.

Prioridade: criança

Fica claro, nesse contexto, que crianças e adolescentes serão um capítulo à parte. O PETI, por exemplo, que hoje atende 2,5 mil pessoas, deve ser ampliado para atender até 4 mil indivíduos. "Os idosos não são o grupo mais vulnerável. Eles têm um benefício continuado, aposentadoria, meia-entrada nos transportes coletivos e em atividades culturais. Eles não sairão prejudicados nessa gestão, mas nossa prioridade serão as crianças e os adolescentes."

Ao herdar todo o equipamento deixado pela antiga gestão, que o próprio secretário considera "bom", a nova Secretaria também pode reunir força no trabalho de conscientização da população de São Paulo. "Faremos uma mobilização junto às diversas mídias, às ONGs, e às igrejas. Já estive com rabinos, com cardeais, com a Liga das Senhoras Muçulmanas, por exemplo", diz Pesaro, defendendo a idéia de que a modernização dos serviços sociais, hoje, depende não só da ação do Estado, mas também de toda a sociedade. Em outras palavras, hoje, todos são responsáveis pelo desenvolvimento da vida em comunidade.

Essa campanha de conscientização atingirá em cheio as instituições que distribuem comida pelas ruas de São Paulo, uma prática comum, apesar de condenada pelas principais entidades assistenciais do mundo, assim como pela Prefeitura. Essas organizações perderão a chance de receber verbas da Secretaria se mantiverem a prática do assistencialismo. "Existem muitos restaurantes populares pela cidade.

Só aqui no Centro são 17 instituições que servem refeições todos os dias, café, almoço e jantar. Para que comer na rua?", questiona o secretário.

O maior exemplo de que as atividades da Prefeitura ligadas a questões sociais podem ter bons resultados é a Cidade do México, hoje exemplo para várias metrópoles. Foi através da conscientização e de uma campanha eficaz contra esmolas que a cidade conseguiu tirar as crianças da rua e se tornou uma espécie de cidade-modelo nas questões relacionadas à infância. "Ações sócio-educativas, estágios, informação e capacitação dos pais ajudaram o México a vencer. E nós também vamos vencer", diz Pesaro.

Para o Centro de São Paulo, a nova Secretaria também traz metas importantes, que devem ser reforçadas, por não serem necessariamente novas. "Teremos uma ação forte na cracolândia, para retirar de vez aquelas crianças e adolescentes da rua. E também na praça da Sé. Não vamos permitir que as pessoas morem na praça, por exemplo. Também queremos promover uma limpeza urbana mais eficaz e, enfim, trabalhar junto ao PSIU (Programa de Silêncio Urbano)", diz Pesaro. Um dos principais problemas do Centro, hoje, são camelôs e bares que colocam música em volume muito acima do que é permitido por lei, em horários impróprios.

Para finalizar, dentro das estratégias da nova Secretaria ainda há uma nova cartada. Segundo Pesaro, havia uma certa falta de sintonia entre as Secretarias municipal e estadual na gestão passada, pois a administração do município estava nas mãos do PT e a administração do estado estava com o PSDB. Em seu primeiro mês como secretário, Pesaro já se reuniu com a secretária Maria Helena Guimarães de Castro (da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado), para buscar parcerias. "Estamos discutindo a municipalização dos serviços de assistência. A nossa parceria com o Estado vai ser muito positiva", diz Pesaro.

A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento do Estado de São Paulo ainda mantém abrigos, centros de acolhida para crianças, adolescentes, idosos e portadores de necessidades especiais. Esses postos podem ser transferidos para a Prefeitura durante a administração tucana. Estado e município também realizarão parcerias no aprimoramento de uma rede social municipal, nos mesmos moldes da estadual, agregando aos seus serviços funções empresariais e o terceiro setor. Vale lembrar que quem realmente põe a mão na massa, hoje em dia, são as ONGs vinculadas à Prefeitura, cabendo às Secretarias de assistência, em boa medida, as funções administrativas, reguladoras e de fiscalização.





  Reportagem  

Conselhos Tutelares

Doe você também

Cena do cotidiano. Fim de mais uma jornada de trabalho. O executivo deixa a sede de sua empresa no Centro paulistano. Pelo caminho desvia os olhos de um cenário que incomoda e assusta: crianças abandonadas nas ruas. Enquanto volta para casa, pergunta a si mesmo: "Haveria um meio de ajudar a acabar com esse problema?"

A dúvida que mexe com a consciência desse empresário também ocorre a outras pessoas. Poucos sabem que é possível reverter parte do seu imposto de renda - e os das empresas também - para os Fundos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (FUMCAD).

O Fundo tem por objetivo financiar ações necessárias ao desenvolvimento das políticas públicas voltadas à criança e adolescente. Cada município brasileiro tem competência legal para regulamentar o seu próprio FUMCAD. Em São Paulo, esse mecanismo, que foi criado pela Lei Municipal nº 11.247/92, está sujeito obrigatoriamente aos controles internos e ao Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM).

Para o presidente da diretoria executiva da Associação Viva o Centro, Marco Antonio Ramos de Almeida, o FUMCAD mostra o rumo que os brasileiros escolheram para a solução de graves problemas sociais do País: a união de esforços entre os setores público e privado. "Cada vez mais, as ONGs são parceiras do governo na implementação de ações sociais. E as pessoas físicas e jurídicas podem colaborar, usando instrumentos como o FUMCAD, um inteligente mecanismo pelo qual doações em dinheiro podem ser deduzidas do Imposto de Renda".

Pela legislação federal que regulamenta o IR, é possível abater as doações ao FUMCAD efetuadas até 31 de dezembro no imposto apurado na declaração relativa a esse ano. A dedução está limitada a 6% do valor do imposto devido pela pessoa física. Já as empresas que fazem apurações mensais ou anuais podem destinar 1% do IR devido para o Fundo.

Em São Paulo, as doações - que posteriormente serão abatidas do IR -, podem ser feitas em qualquer agência do Banco do Brasil, sediadas na capital paulista, através de depósito efetuado exclusivamente em conta corrente do FUMCAD, com o uso de formulário especifico.

Embora tenha sido criado na década de 1990, ainda hoje esse incentivo é pouco utilizado pelos paulistanos. Na prestação de contas de 2004, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) registrou uma entrada de 3.676.609,36. O potencial de doações poderia ser de mais de R$ 270 milhões, segundo estudo feito por Pedro Ernesto Fabri, ex-presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo. O trabalho de Fabri data de 2001, mas, ainda hoje serve como referencial para quem procura informações sobre o FUMCAD. Já o Sindicato Nacional dos Auditores da Receita Federal (Unafisco-SP) calcula que o potencial de arrecadação anual desse benefício é de R$ 1 bilhão em todo o Brasil.

A falta de informação e a necessidade de doar durante o ano, para só descontá-lo depois, quando da apuração do Imposto de Renda, talvez ajudem a explicar o baixo volume de doações. Mas uma outra peculariedade do FUMCAD em São Paulo também pode tornar os doadores mais tímidos. Na capital paulista, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), que aprova e fiscaliza os projetos onde a doação será empregada, não aceita que o doador especifique para qual projeto ele quer doar. Em São Paulo, conforme as doações entram, o Conselho determina para qual projeto o dinheiro será destinado.

Desde 2003, porém, por força do Decreto 43.135, as doações tanto de pessoas físicas quanto de empresas já poderiam ser direcionadas a projetos específicos aprovados previamente pelo CMDCA. É o que determina o artigo 3º da lei assinada pela então prefeita Marta Suplicy. "Modificamos a legislação com o objetivo permitir que pessoas físicas ou jurídicas tivessem a possibilidade de destinar recursos a um projeto específico, desde que o mesmo fosse relacionado à defesa da criança e do adolescente, e tivesse parecer favorável do CMDCA e da secretaria ou órgão da Prefeitura encarregado de acompanhá-lo", afirma Ubiratan de Paula Santos, que na gestão Marta era o chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Governo.

CMDCA emperra doações

Na prática, porém, o doador potencial não consegue se valer desse decreto. Os responsáveis pela gestão do FUMCAD dizem que não é possível fazer doações diretamente a um ou mais projetos, mas apenas aos chamados eixos de ação. O FUMCAD se pauta pelo que estabelece uma Resolução CMDCA, publicada no Diário Oficial do Município do dia 10 de novembro de 2003 (quase sete meses após a então prefeita Marta Suplicy ter assinado o Decreto 43.135). Ao todo CMDCA/SP estabeleceu 23 eixos de ação (Erradicação do Trabalho Infantil; Educação Inclusiva; Gravidez na Adolescência etc). Cada eixo engloba um ou mais projetos à espera de doações via FUMCAD.

Dentro de cada eixo, os projetos são submetidos a um ranking de prioridades. Se, por exemplo, Gravidez na Adolescência engloba quatro projetos aprovados, o CMDCA indica a posição de cada um deles num ranking interno. Essa classificação, segundo o órgão, é feita levando-se em conta parâmetros e indicadores sociais do município de São Paulo. Um empresário interessado em apoiar projetos na temática Gravidez na Adolescência, teria, segundo a Resolução do CMDCA/SP, como única alternativa doar o dinheiro para esse eixo de ação, onde o primeiro projeto do ranking interno é que teria a primazia de receber a doação. Uma vez tendo sido contemplado em 100% de sua demanda por financiamento, esse projeto sai da fila e a prioridade passa a ser dada ao segundo do ranking e, assim, sucessivamente.

Doadores e entidades que realizam projetos sociais aprovados concordam que esse mecanismo faz com que muitos doadores potenciais prefiram destinar seus recursos por outros meios, ou que até deixam de fazê-lo. Evidentemente uma mudança nesses critérios poderia trazer muito mais recursos para o Fundo e para os projetos aprovados pelo CMDCA.

De qualquer forma, há dezenas de bons projetos à espera de doadores. Para conhecê-los é só entrar em contato com o CMDCA, que fica na Rua Líbero Badaró, 119 - 2° andar, tel. (11) 3113-9651.

O FUMCAD e o Centro Paulistano

Nascida há 13 anos, a Associação de Apoio às Meninas e Meninos da Região Sé, cujo objetivo é trabalhar com um público em situação de rua ou em situação de risco, conseguiu, no ano passado, que o projeto Ser Mulher viesse a fazer parte da lista das 42 iniciativas aprovadas pelo CMDCA-SP e aptas a receber recursos do FUMCAD. "Nosso trabalho é direcionado às adolescentes e jovens que enfrentam um problema bastante comum: a gravidez precoce", afirma a coordenadora do Ser Mulher, Elba Teixeira. A proposta é atender a 45 mulheres, entre 12 e 21 anos, com uma série de serviços e atividades desenvolvidas por uma equipe multidisciplinar: educadores, psicólogos, assistente sociais etc. "Basicamente temos três grupos de trabalho: auto-ajuda; psicodrama e profissionalizante. Queremos nos estruturar para ampliar a nossa ação, pois, pensamos em dobrar o número de mulheres atendidas." O trabalho da equipe de Elba Teixeira no campo da gravidez precoce vem desde 2001. Naquela época o projeto Ser Mulher recebia 20 jovens e adolescentes grávidas, sem rumo e desestruturadas no tocante à questão da maternidade. "Com esse grupo, desenvolvemos várias atividades, inclusive oficinas de moda com o apoio do Sebrae-SP. Chegamos a criar uma linha de camisetas bordadas e desenhadas que foram apresentadas em feiras organizadas pelo próprio Sebrae", conta a coordenadora.

Para tocar adiante o Ser Mulher, Elba Teixeira resolveu entrar na lista de projetos do CMDCA e agora espera pela chegada dos recursos do FUMCAD. "O orçamento a ser coberto por esse tipo de financiamento é de R$ 214 mil, o que nos possibilitaria de atuar ao longo de 12 meses" , explica Teixeira.





  Reportagem  

Proposta Viva o Centro

Calçadões: Uma conquista que precisa de revisão e aperfeiçoamento

Durante a campanha eleitoral para a Prefeitura, em 2004, a Associação Viva o Centro apresentou aos candidatos dez propostas para impulsionar o desenvolvimento da região central de São Paulo. Na edição passada, abordamos a proposta de "Refuncionalização do Vale do Anhangabaú", com a sua transformação em portal de acesso ao Centro. A matéria repercutiu favoravelmente na imprensa e trouxe para a discussão a questão dos calçadões, cuja revisão e aperfeiçoamento é outra das propostas da Associação.

Desde que foram criados em 1976, durante o governo de Olavo Setúbal, os calçadões são vistos com carinho pela população, que se sente privilegiada por ter um espaço reservado para pedestres em uma cidade que não os trata com muita deferência. Mas os anos pesam nas costas dos calçadões. Quase três décadas depois, o sistema de calçadões do Centro de São Paulo não teve nenhuma atualização e o desgaste provocado pela circulação dos veículos autorizados e pela precária manutenção fez com que algumas de suas maiores vantagens se perdessem.

Na época em que foram implantados, o grande vilão do Centro era o intenso tráfego de veículos, que causava poluição ambiental e sonora. A idéia era, com a implantação do metrô, dificultar o acesso de carros ao Centro. E foi então que se ampliou a quantidade de vias pedestrianizadas dos Centros Velho e Novo e se proibiu a construção de garagens na área. No início da década de 90, com a construção dos túneis no Vale do Anhangabaú, a área restrita aumentou e com ela as dificuldades de acesso por veículo particular à região central. Hoje, são mais de 7 quilômetros de vias pedestrianizadas.

O projeto original levava em consideração os pisos, a drenagem de água, a iluminação e o mobiliário urbano. Áreas específicas foram determinadas para os equipamentos e as empresas que construíram o sistema prestavam manutenção constante. Com o tempo, porém, a manutenção deixou de ser feita e os equipamentos, cestos de lixo, bancos, telefones públicos, bancas de jornais, etc, foram realocados sem seguir as orientações originais. Com isso, não há mais padronização e a própria colocação desses equipamentos no espaço público atrapalha a passagem tanto das pessoas como dos veículos autorizados a transitar.

O que deveria facilitar a vida dos pedestres muitas vezes passou a complicar, já que muitos pontos dos calçadões são distantes dos terminais de ônibus e estações de metrô (veja os mapas das páginas 20 e 21). E muitas empresas acabaram se mudando ao perder o acesso de veículos para o transporte de pessoas e mercadorias. Quem mora na região sabe disso. "Sou a favor de uma maior flexibilidade para o trânsito de veículos nos calçadões. No momento de sua idealização, esse tipo de equipamento urbano foi pensado para ser utilizado como área de lazer e para facilitar o acesso dos pedestres ao comércio local, mas com o tempo, esse uso foi descaracterizado. Se essas ruas tivessem o tráfego de veículos organizado, acredito que as pessoas que deixaram de freqüentar os calçadões se sentiriam incentivadas a retornar", afirma Rita de Cássia Alencar, professora, moradora da galeria Boulevard do Centro, que liga a Rua D. José de Barros à Rua 24 de Maio (ambas calçadões).

A presença de camelôs e vendedores ambulantes é uma reclamação comum não apenas entre os moradores da região. O coordenador de Regulação Médica do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de São Paulo, Domingos Guilherme Napoli, explica por que eles incomodam: "Para agilizar o atendimento nos calçadões, não deveria ser permitida a presença de camelôs e suas barracas, que atrapalham a circulação de quaisquer veículos de emergência. Além disso, poderia ser demarcada no chão uma ‘faixa S.O.S.’ para circulação de veículos de emergência, com divulgação e orientação à população."

Organizando o tráfego

Os calçadões estão implantados em uma região por onde circula muita gente e onde o tráfego de veículos não foi completamente interrompido. Ambulâncias, viaturas policiais e de bombeiros, caminhões de lixo e outros veículos de serviços continuaram a percorrer as vias para abastecer o comércio e atender ocorrências. O resultado é a destruição do piso e conflito entre veículos e pedestres. A ocupação predatória do espaço público por camelôs e bancas prejudica o trânsito do pedestre e o dos veículos de atendimento a emergências graves, como incêndios, por exemplo. "Temos treinamento específico, com procedimentos para eventuais operações nessas áreas. Mas nos calçadões há excesso de gente e, principalmente, de camelôs", afirma o tenente Palumbo, do setor de imprensa do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. O capitão Milton Augusto dos Santos, da Zona Centro (responsável pelo Centro expandido) do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, concorda: "A viatura do Corpo de Bombeiros abrange boa parte da pista e, por isso, uma via de mão única para carros favoreceria nosso deslocamento pelo calçadão. Essa mobilidade de veículos de emergência é prejudicada pelos obstáculos de todo tipo que se encontram por ali. Na verdade, para nós o ideal seria a total liberação dessas áreas, com a substituição por autopistas livres de obstáculos e desimpedidas".

Se por um lado algumas ruas se tornaram pontos de encontro e facilitaram a circulação dos pedestres, outros logradouros tornaram-se áreas de concentração de problemas. Especialmente nas regiões estritamente comerciais, quando as ruas se tornam desertas logo após o horário comercial, o que traz problemas de segurança; em outras, o excesso de movimento e a instalação de camelôs e equipamentos desordenados no meio do passeio prejudicam a circulação.

Como a área onde estão implantados os calçadões é muito grande - tem cerca de 400 mil metros quadrados, com mais de 2 milhões de metros quadrados de área construída - surgiram pontos de estrangulamento para a entrega de mercadorias. Mesmo para os pedestres, existem locais em que as distâncias a serem percorridas a partir da estação mais próxima do metrô, de um estacionamento ou mesmo de um ponto onde possa desembarcar de um ônibus ou carro também são muito longas. "Não tenho automóvel, mas, de qualquer forma, é muito difícil chegar aqui com compras, mesmo a pé", conta Ana Lecy Alencar, também moradora da galeria Boulevard do Centro. Ela acredita que uma via de tráfego bem-definida no calçadão abriria caminhos para os pedestres e tornaria o trânsito de veículos mais organizado.

Em vários lugares do mundo existem calçadões, mas em geral a área restrita não é tão grande. Em locais como Curitiba e Buenos Aires, por exemplo, as ruas fechadas à circulação de veículos tem circulação livre nas ruas paralelas e contíguas e nas transversais, o que encurta a distância entre o destino e o ponto de parada dos veículos.

Repensar os calçadões

Diante da realidade atual dos calçadões, a Associação Viva o Centro propõe a revisão e o aperfeiçoamento desse sistema. O assunto não é novo. Em 1998, a Associação, em parceria com o Laboratório Cidade da Faculdade de Belas Artes de São Paulo e com o apoio da Associação Brasileira de Pedestres (Abraspe) e do Metrô, promoveu pesquisas, encontros e estudos para repensar essa estrutura e torná-la novamente um motivo de orgulho para quem vem ao Centro. Todo esse trabalho virou um livro, "O Calçadão em Questão - 20 anos de experiência do calçadão paulistano". Na edição n.º 27 da revista urbs, de julho-agosto de 2002, uma ampla matéria volta a discutir os calçadões e a necessidade de se repensar o sistema e noticia a entrega desses estudos pela Viva o Centro à gestão municipal de então.

A proposta busca rever o fluxo de circulação para definir se há ruas que devem se tornar calçadão, quais devem ser mantidas como tais e quais devem ser reabertas, de acordo com a ocupação atual do Centro e com uma visão de futuro. Prevê também aperfeiçoar os calçadões dotando-os de uma via de serviços, com leito carroçável, para disciplinar o trânsito de veículos que já existe e que se mistura aos pedestres de forma caótica e sempre em prejuízo destes.

A adoção de uma via carroçável com um piso reforçado e de fácil manutenção também é fundamental para que se evite a degradação do calçadão. Além do peso dos veículos, a falta de manutenção e de fiscalização do uso foram as causas principais da deterioração do piso pois, ao longo do tempo, várias concessionárias de serviços públicos perfuraram o solo para realizar reparos ou implantar dutos de todos os tipos e não retornaram o piso às condições originais.

Atualmente, a entrega de mercadorias, por exemplo, pode ser feita durante a noite ou nas manhãs de sábado, mediante o pagamento de pedágio. Nas tardes e noites de sábado e aos domingos essa circulação é livre. A permissão do tráfego em certas ruas ou a flexibilização do seu uso à noite já ajudaria. Outra ajuda seria melhorias no sistema de iluminação e a padronização dos equipamentos, como bancos, bancas e floreiras.

Apesar de todos os problemas existentes, a população vê os calçadões como uma conquista do pedestre e por isso merecem uma atualização que dê conta da evolução da própria cidade - que não é mais a São Paulo da década de 1970.

Proposta da Viva o Centro é Debatida pelo IAB-SP

Um debate sobre os calçadões paulistanos foi promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - Seção São Paulo (IAB-SP) no último dia 22 de março. A proposta da Associação Viva o Centro, de revisão e aperfeiçoamento do sistema de calçadões para o Centro, foi apresentada pelo presidente executivo da entidade Marco Antônio Ramos de Almeida. Expondo o ponto de vista da Prefeitura, o engenheiro Antônio José Ayres Zagatto, assessor e representante do subprefeito da Sé, afirmou que a Subprefeitura e os técnicos de trânsito da Prefeitura buscam a melhor solução para a região e por isso têm colocado todo o empenho no estudo do tema.

Como debatedores participaram os arquitetos Haron Cohen, Paulo Bruna e Pedro Paulo de Melo Saraiva - da equipe da Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb) à época da implantação dos calçadões; a coordenadora dos projetos para o Centro e ex-presidente da Emurb na gestão Marta Suplicy, Nádia Somekh; o engenheiro Marcos Romano, da Associação Brasileira de Pedestres-Seção SP (Abraspe-SP); o engenheiro Ricardo Figueiredo do Nascimento, da Agência Nacional de Transporte Público (ANTP); a arquiteta Mônica Bueno Leme, da equipe de estudos sobre os calçadões realizados pela Viva o Centro e pela Faculdade de Belas Artes em 1998; e, como coordenador, o professor da USP-EESC, arquiteto Renato Anelli. Após a intervenção dos debatedores, a palavra foi franqueada ao público com mais 11 intervenções. Ao final, apesar de algumas falas terem se desviado do tema principal, a grande maioria apoiou a iniciativa da Viva o Centro.

Uma breve avaliação do corpo de bombeiros

Entre os veículos autorizados a circular pelos calçadões, os que enfrentam maior dificuldade são as viaturas do Corpo de Bombeiros. Para o primeiro-tenente José Camilo dos Passos, comandante do Posto de Bombeiros da Sé, os problemas são diversos. "Além da grande concentração de transeuntes os calçadões não possuem guias rebaixadas para acesso. Existe também uma grande concentração de barracas de ambulantes, sem o devido afastamento mínimo, que é de três metros, para permitir a passagem das viaturas. O piso, além de ser escorregadio, não suporta o peso das viaturas, assim como as tampas de galerias subterrâneas das concessionárias. Isso acaba provocando acidentes e danos nos pneus. Vários obstáculos ornamentais também prejudicam o acesso, como vasos, correntes, lixeiras etc. E a ocupação desordenada por bancas e camelôs muitas vezes esconde os hidrantes, que são subterrâneos". Sua sugestão principal é que todos os hidrantes fossem de coluna, o que aumentaria a vazão de água e facilitaria a localização no caso de incêndio. A alteração dos pisos, para que suportassem o peso das viaturas, e a demarcação de uma faixa para deslocamento de veículos de emergência, com pelo menos três metros de largura, também seriam desejáveis, assim como o rebaixamento das guias que dão acesso aos calçadões. O comandante lembra, porém, que essa flexibilização deve ser muito bem planejada, para que não sejam criados bolsões de engarrafamento que prejudicariam ainda mais o acesso das viaturas em caso de sinistros.



  Artigo  

Um novo centro para São Paulo (Por Miguel Jorge*)


Nosso Centro guarda verdadeiros tesouros históricos e arquitetônicos pouco apreciados pelas novas gerações. O corre-corre dos paulistanos pode explicar, em parte, certo desinteresse por esse patrimônio, embora o afastamento das pessoas tenha ocorrido muito mais pelo descaso de anos para com a região. Ninguém quer visitar um local com sinais de abandono e ar de decadência.

Nas últimas décadas, a cidade passou por um processo de descentralização urbana, com a criação de novos pólos empresariais em regiões mais afastadas do Centro - avenidas Paulista, Faria Lima, Berrini, Juscelino Kubitscheck e outras, o que fez o Centro perder parte significativa de sua atividade econômica.

Seu entorno, de muitos apartamentos amplos e confortáveis, nas avenidas São Luís, Vieira de Carvalho, Maria Paula e

Praça da República, entre outros, perderam a maioria de seus antigos moradores. Ruas e praças, abandonadas, foram tomadas por camelôs, principalmente após os anos 70, de grandes movimentos migratórios causados por importantes obras viárias, como a do Metrô. Na época, São Paulo chegou a receber 400 mil moradores por ano.

O fim das obras e dos empregos menos qualificados trouxeram a ocupação desordenada dos terrenos, na periferia, e no Centro, a ocupação dos espaços urbanos pelos camelôs, estes, em grande parte, exatamente os migrantes não qualificados.

A deterioração do Centro afastou os paulistanos e os turistas. Essa situação só começou a mudar com o trabalho da iniciativa privada, de entidades da sociedade civil e de órgãos públicos, cientes da importância de se garantir um futuro nobre para a região. Aos poucos, o Centro começou a recuperar seu potencial histórico, arquitetônico, cultural e econômico. A revitalização proposta por entidades como a Associação Viva o Centro e a Ação Local Boa Vista - das quais o Santander Banespa é ativo participante - é exemplar.

Hoje, ir ao Centro já é um belíssimo passeio: o Teatro Municipal, a Sala São Paulo, na antiga estação Júlio Prestes, a Pinacoteca do Estado e o Mercado Municipal são um patrimônio incalculável. O Pátio do Colégio, a Catedral da Sé, a Estação da Luz, os viadutos do Chá e Santa Efigênia completam o roteiro, de outras inúmeras praças e edifícios.

Uma ação de destaque e que valorizou o potencial do Centro foi a mudança da sede da Prefeitura para o antigo prédio do Banespinha, na Praça do Patriarca. Com o Shopping Light e o viaduto do Chá, forma o portal da região.

Para felicidade de São Paulo, a nova administração garante que continuará o processo de revitalização do Centro. Andréa Matarazzo, ex-embaixador do Brasil em Roma e novo sub-prefeito da região da Sé, não esconde seu entusiasmo com os desafios de movimentar ainda mais o Centro, buscando também atrair novos segmentos econômicos para a região.

O Santander-Banespa participa desse esforço. Mantém, por exemplo, o programa Redescobrindo o Centro de São Paulo, que leva crianças e adolescentes assistidas pela Fundação Abrinq para visitar pontos turísticos, como a Catedral da Sé, o Marco Zero e a Capela de Anchieta, entre outros. O roteiro termina no Museu e na Torre do Banespa, na praça Antonio Prado. A 160 metros de altura, a Torre proporciona uma visão única da cidade, num raio de até 40 km. Convido a todos para apreciarem a cidade de lá: a vista é deslumbrante.

Os paulistanos - nascidos aqui ou os de coração - querem que o Centro de São Paulo retrate sua grandeza, com respeito à sua história e valores. Há trabalho para todos. Ao poder público, cabe devolver a pulsação ao Centro, modernizar sua infra-estrutura, reforçar a segurança e oferecer novas opções de lazer.

A iniciativa privada, dentro de uma postura cidadã, pode continuar criando e apoiando projetos em prol da região.

Ao cidadão, fica a missão de conhecer, proteger e se orgulhar do Centro, um dos maiores patrimônios da capital paulista.

* Miguel Jorge, jornalista, é vice-presidente de Recursos Humanos e Assuntos Jurídicos e Corporativos do Santander Banespa



  Artigo  
Incubação de empresas:uma nova vocação para o Centro de São Paulo? (Por Caio Cesar Saraiva*)


Acompanho as atividades da Associação Viva o Centro e tenho muita simpatia e admiração pelo esforço empreendido por ela, bem como por outras organizações e pelo poder público, no sentido de revitalizar o Centro da capital paulista. Tal região da cidade é, para mim, fascinante e merece mesmo reflorescer.

É com pesar que freqüentemente leio notícias sobre a existência de edifícios públicos e privados desocupados, abandonados ou simplesmente com uso inadequado para aquela região. E é com interesse que leio artigos comentando que o Centro reúne boas condições para se transformar em um pólo universitário.

Parece-me que também existe uma outra oportunidade, quem sabe até mesmo uma outra vocação para a região central de São Paulo. Na condição de professor universitário das disciplinas "Empreendedorismo" e "Incubadora de Empresas" venho estudando, pesquisando e praticando o assunto dessas disciplinas já há algum tempo e sempre me pergunto: Por que não instalar incubadoras de empresas nos edifícios públicos (incluindo também os históricos) ou privados, desocupados ou com uso inadequado?

O Centro possui a infra-estrutura necessária e condições convidativas para esse tipo de empreendimento.

A possibilidade da região se tornar um pólo universitário me leva a pensar que essa duas "vocações" se complementariam muito adequadamente. Alguns edifícios vazios ou com uso inadequado poderiam passar a ser ocupados por faculdades e/ou universidades. Outros desses edifícios poderiam ser ocupados por incubadoras de empresas. Teríamos assim uma situação em que a mão-de-obra formada por essas faculdades poderia se estabelecer na forma de empresas nascentes, abrigadas junto às incubadoras, que proveriam o necessário e precioso suporte para os dois primeiros anos de vida empresarial.

Ao término do período de incubação, que é denominado "graduação", a empresa é obrigada a deixar a incubadora. É razoável supor-se que pelo menos uma parte dessas empresas tenderia a se estabelecer na mesma região central, uma vez que existe a possibilidade de a empresa graduada manter um vínculo com a incubadora, a fim de continuar a receber algum tipo de apoio. A empresa poderia ainda querer ficar próxima de eventuais fornecedores e clientes que desenvolveu durante o período em que ficou incubada. É válido lembrar que as incubadoras costumam apoiar atividades econômicas que tenham as características da região em que se encontram. Isso provocaria uma demanda por imóveis comerciais e/ou de serviços adequados para empresa de pequeno porte no entorno da incubadora.

Também é razoável supor-se que pelo menos uma parte desses agora empresários e/ou seus colaboradores poderia morar na região, uma vez que, desta forma, se beneficiariam da proximidade do local de trabalho e ainda do pólo cultural e de entretenimento já em formação no Centro. Neste contexto, teríamos a criação de uma demanda por imóveis adequados para a moradia.

Isso sugere a constituição de algo que seria um "fluxo virtuoso", baseado na formação de mão-de-obra, na criação de empreendimentos, no crescimento de empresas, na geração de empregos, na demanda por moradia e por serviços de apoio e entretenimento.

Um exemplo de aplicação do projeto de incubadoras é o município de Santos.

A cidade tomou a dianteira e instalou uma incubadora de empresas em um edifício histórico localizado no centro de sua cidade. Essa ação faz parte do programa de revitalização daquela região. O destino que as empresas tomarão, depois de graduadas, será vital para o sucesso da iniciativa. Com o tempo saberemos se o fluxo virtuoso aconteceu.

É certamente possível fazer um levantamento de todos os imóveis que se encontram desocupados, abandonados ou com uso(s) inadequado(s) na região central de São Paulo; se é que esse levantamento já não existe. Não seria este o momento de se estudar a viabilidade do uso aqui proposto para alguns deles?

Permito-me ainda estender a abrangência da idéia para outras regiões da cidade. A reportagem "A redescoberta da São Paulo parada no tempo", publicada no jornal O Estado de São Paulo de 4 de julho de 2004, página C6, comenta a situação de "velhas fábricas ou galpões industriais que, ultrapassados pelas exigências de novas tecnologias ou abandonados por empresas que fugiram para o interior, perderam a antiga função". Tais galpões, em número de centenas, encontram-se ao longo dos trilhos das Ferrovias Santos-Jundiaí, Sorocabana e Central do Brasil, nas chamadas Diagonal Sul (do parque D. Pedro à divisa com o ABC) e Diagonal Norte (da Barra Funda a Pirituba).

A reportagem informa também que o BID financiará um projeto no valor de US$ 100 milhões para o mapeamento desses galpões, a fim de identificar quais poderão ser demolidos e quais deverão ser preservados, devido ao seu valor histórico.

Tenho o conhecimento de pelo menos um projeto que "propõe o reaproveitamento desses antigos galpões para novos usos, para convertê-los em mini-bairros ou em vilas".

Vai aqui a proposta de se destinar alguns desses galpões para o uso de incubadoras, que poderiam contribuir para a revitalização e a dinamização dos bairros em que fossem instaladas. Dada a característica de promover empreendimentos adequados à região em que atua, poderíamos imaginar, por exemplo, uma incubadora para o setor metal-mecânico no Ipiranga, outra para o setor madeireiro no Brás, uma terceira para o setor de confecção no Bom Retiro etc.Teríamos assim, a formação de um "eixo de incubadoras" ao longo das chamadas Diagonais Norte e Sul, que estaria possivelmente induzindo a formação do mencionado fluxo virtuoso em vários pontos da cidade.

Em recente visita à região do Mercado Municipal Paulistano, estive na estação ferroviária do Pari e verifiquei a existência de pelo menos um galpão (que ostenta, imponente e orgulhosamente, a data de 1891 em sua fachada), que poderia eventualmente se prestar para o uso aqui proposto. Em um exercício de imaginação, as características da região me levam a pensar em uma incubadora voltada para o setor alimentício, cujas empresas incubadas poderiam se valer da proximidade do Mercadão (que após sua reforma viu sua visitação aumentar de 10 mil para 20 mil pessoas por dia, conforme comenta o jornal O Estado de São Paulo de 25 de janeiro, na página C40) para iniciar lá as suas vendas.

Claro, isso é uma mera especulação. Para comprovar-se a viabilidade de tal iniciativa, seria necessária a realização de um estudo específico.

* Caio Cesar Saraiva é professor universitário na Unibero. Leciona as disciplinas "Empreendedorismo" e "Incubadora de Empresas". É também consultor de empresas e possui um projeto incubado no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas da USP (Cietec). E-mail: ccsaraiva@gvmail.br


  Reportagem  
Estudar no Centro


Um Pólo Educacional na Região da Sé (Por Fábio de Paula)

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) pretende instalar um novo complexo educacional no Centro, trazendo para a região cursos tradicionais como o de Direito e ampliando o atendimento a alunos da cidade de São Paulo

Foi graças a um colégio que a cidade de São Paulo foi fundada e, mais de 450 anos depois, é a educação que começa a delinear mais uma vocação para o Centro da cidade. Atualmente, já existem mais de 15 instituições de ensino superior no Centro e arredores e, a partir de 2006, uma das principais universidades brasileiras promete fincar raízes na região.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) prevê a inauguração de um novo campus no Centro de São Paulo, com a incorporação de dois prédios e alguns casarões localizados nas Ruas Venceslau Brás e Roberto Simonsen, entre o Pátio do Colégio (F6-3) e a Praça da Sé (E6-F6). "A PUC já está fazendo as negociações para incorporar os imóveis, que são de propriedade das irmãs de Santa Tereza. Os entendimentos estão bastante avançados", afirma Guilherme Simões Gomes Junior, chefe de gabinete da Reitoria da PUC-SP.

Com a presença da universidade, que tem cerca de 18 mil alunos matriculados, o Centro de São Paulo deve receber mais estudantes e professores. "A transformação da região em um pólo do ensino superior contribuirá para que, dia e noite, ela tenha mais dinamismo, circulação, lazer e vida cultural", acredita Simões.

Representante da arquitetura eclética do início do século XX, o Palacete do Carmo deve ser o primeiro prédio a ser restaurado, a fim de abrigar o curso de Direito. "Como a região central concentra a maioria das instituições jurídicas de São Paulo, o novo campus beneficiaria nossos alunos e professores. Por isso, estamos em entendimento com a Faculdade de Direito", revela o chefe de gabinete da PUC.

Os outros edifícios do conjunto, também ecléticos, têm acesso pela Rua Roberto Simonsen e se articulam ao casarão no interior da quadra. Eles devem abrigar outras faculdades e cursos, como os de extensão e idiomas, aliviando o limite de ocupação física dos dois grandes campi da PUC-SP - Monte Alegre e Marquês de Paranaguá.

Atualmente, a PUC-SP recebe majoritariamente alunos das zonas oeste e sul.

A criação do campus Centro faz parte de uma estratégia de atração de alunos das regiões norte e leste, porque ele estará a menos de 100 metros da estação Sé do Metrô. Mas, além de responder à necessidade de expansão da instituição, a criação do novo campus acompanha a tradição da PUC/SP, e da própria Igreja Católica, de participar dos acontecimentos significativos para São Paulo (leia Box "Tradição em novos bairros"). "As pessoas perguntam: por que o Centro? A PUC deseja participar ativamente do movimento de valorização do local onde a cidade nasceu e onde a educação católica paulista começou. A incorporação do Palacete do Carmo também é uma oportunidade para a Universidade ocupar mais um conjunto arquitetônico importante", revela Guilherme.

Aniversário

Os imóveis que a PUC pretende incorporar são administrados, nesse momento, pela Mitra Diocesana. Até o final do primeiro semestre de 2005, as negociações deverão estar concluídas. E o restauro do Palacete do Carmo, que é a primeira etapa das obras, deverá estar parcialmente concluído ainda em 2006. "O nosso objetivo é ter uma parte do espaço funcionando em meados do próximo ano, quando a PUC-SP comemorará 60 anos", promete Simões.

A segunda fase será dedicada à recuperação dos edifícios da Rua Roberto Simonsen e a terceira, à construção de um novo edifício com biblioteca, auditórios, salas de aula, estacionamento e entrada pela praça da Sé. Ele também deve dar suporte à circulação do conjunto, para que as escadarias e elevadores dos antigos edifícios não fiquem sobrecarregados.

Ainda não está definido se o projeto de restauro será objeto de um concurso promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) ou se será feito por um profissional convidado. "A execução da obra depende de recursos da Caixa Econômica Federal, que é proprietária de imóveis na região, como o Conjunto Cultural da Caixa. Estamos certos de que também podemos contar com o apoio de grandes escritórios privados, que têm ou tiveram relação com a PUC-SP", completa ele.

Centro do Direito e das Ciências Sociais

Além do Palácio da Justiça, na antiga praça Clóvis Bevilácqua, e do Fórum, na praça João Mendes, a região central abriga a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e a maior parte dos tribunais e escritórios de advocacia de São Paulo. "Para nós é fundamental que a Faculdade de Direito da PUC-SP esteja, em parte, presente no Palacete do Carmo. Tão tradicional quanto a São Francisco, nossa escola de Direito merece ocupar o território central", acredita Simões.

A universidade também tem a intenção de ocupar o Palacete do Carmo com parte dos cursos que compõem o currículo do curso de Ciências Sociais. "Espera-se que a PUC-SP traga para o Centro gente em busca de educação e, também, de espaços culturais, como o Centro Cultural do Banco do Brasil, o MASP da Galeria Prestes Maia e o Conjunto Cultural da Caixa", completa ele.

A iniciativa da PUC segue a tendência de ocupação do Centro por estudantes e atividades ligadas à educação. Atualmente, 15 instituições de ensino têm campi na região (leia Box "Instituições de ensino superior no Centro e nos bairros centrais"). Além de bares, comércio e serviços especializados, elas estimulam o uso e a ocupação do espaço público. Em 2005, outras duas faculdades ocuparão o Centro da cidade: a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e também a União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp).

A Faap está recuperando a Casa Lutetia, imóvel da década de 1920, tombado pelo Conselho Municipal de Preservação (Compresp). O restauro inclui uma área de exposições, em funcionamento, e a criação de moradia para artistas e estudantes nos andares superiores. No total, serão dez lofts (veja matéria na página 36).

A Uniesp, atualmente com seis campi em funcionamento no interior, comprou as Faculdades Integradas Renascença de São Paulo (Farsp) e anunciou sua instalação em um edifício no Largo do Café, próximo à Bovespa e BM&F. A nova unidade entrou em funcionamento em janeiro, com cursos de Administração, Ciências Biológicas, Ciência da Computação, Hotelaria, Informática, Letras, Matemática, Pedagogia e Secretariado. Em breve, a Uniesp também pretende criar cursos de Direito, Ciências Contábeis e Tecnologia, além de um espaço cultural permanente para exposições de arte e artesanato paulista.

Tradição em novos bairros

Reconhecida como universidade em 1946, a PUC já faz parte da história da construção da cidade de São Paulo. Quando a instituição concluir as negociações para a criação do campus Centro, ele se tornará o quarto na cidade, junto dos campi Monte Alegre, em Perdizes, Marquês de Paranaguá, no bairro da Consolação, e Santana, em implantação na zona norte.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo foi criada a partir da junção da Faculdade Paulista de Direito com a Faculdade de Filosofia e Letras de São Bento. O conjunto neobarroco do campus Monte Alegre, construído a partir de 1920 em Perdizes, e a quadra modernista projetada por Rino Levi para o campus Marquês de Paranaguá, na Consolação, são dois símbolos da participação da universidade na construção do espaço urbano paulistano.

A democracia sempre foi defendida pela instituição. Durante o regime militar (1964-1984), a PUC-SP assumiu um papel de resistência, com professores como Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Paulo Freire. A retomada do movimento estudantil no Brasil e a campanha pela anistia aos exilados foram iniciadas em uma reunião da União Nacional dos Estudantes (UNE) na PUC-SP, em 1977. E, nos anos 1980, ela se tornou a primeira

universidade brasileira a eleger um reitor pelo voto direto de alunos, professores e funcionários.

Outra reforma importante

A Universidade de São Paulo (USP) está recuperando uma das edificações mais emblemáticas do movimento estudantil brasileiro, localizada na Rua Maria Antonia. Palco de uma violenta briga de estudantes em 1968, quando abrigava a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP), o edifício Joaquim Nabuco está sendo recuperado conforme projeto do escritório Una Arquitetos, também responsável pela reforma do edifício dos Correios no Vale do Anhangabaú. "A obra deve estar concluída no início de 2006", garante Lorenzo Mammì, diretor do Centro Universitário Maria Antonia, que ocupará o espaço.

Situado ao lado do edifício Rui Barbosa, famoso por suas colunas, o Joaquim Nabuco deve se converter em um dos principais pontos de encontro da região central paulistana, com espaços para exposições de arte, auditório, café e um pátio central.

O edifício também abrigará a coleção do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), fundado em 1997 por Raquel Arnaud e outros colecionadores de arte contemporânea, e que somente agora terá uma sede própria.

O novo uso combina com a tradição do local de concentrar atividades estudantis: o primeiro estabelecimento de ensino a ocupar o conjunto foi o Colégio Rio Branco, em 1936. A USP comprou o conjunto e, entre 1949 e 1968, utilizou-o como sede das Faculdades de Ciências Econômicas e de Filosofia, Ciências e Letras.

Mas uma briga de rua travada entre alunos da FFLCH e da vizinha Universidade Mackenzie, em 1968, interrompeu a vocação estudantil do conjunto. Encerrado com uma morte, incêndios, vários feridos e a ocupação do edifício pela Polícia Militar, o confronto levou o Governo do Estado a antecipar a transferência das faculdades para a Cidade Universitária. Somente em 1991, os prédios do conjunto foram devolvidos à USP. O edifício Rui Barbosa foi reaberto em 1993 como Centro Universitário Maria Antonia, e a reforma do Joaquim Nabuco foi iniciada em 2002. "Ele terá sua fachada em estilo art-déco restaurada e seu espaço interno remodelado", afirma Mammi.

Com um custo estimado em cerca de R$ 4 milhões, o MariAntonia - como é conhecido pelos freqüentadores da região - também terá suas fundações, estruturas e escada recuperados. O pátio central terá acessos pelas ruas Maria Antonia e Dr. Vila Nova, incentivando a interligação do espaço público aos edifícios que pertencem à USP. Com isso, o espaço deve se converter em um dos principais pólos de arte paulistanos, com espetáculos teatrais, cinema, música, literatura e artes plásticas. "A idéia da reforma desse prédio é transformar a região com a criação da praça e a abertura do espaço para a rua. Após passar por um período de esvaziamento, a volta da USP deve ajudar a devolver ao Centro sua identidade", acredita o diretor do espaço.

Serviço:
Rua Maria Antônia, 294, CEP 01222-010, Vila Buarque, São Paulo/SP.
Tel.: (11) 3255-7182
Site: www.usp.br/mariantonia
Funcionamento: 2ª a 6ª, das 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 9h às 18h.

Instituições de ensino superior no Centro e bairros centrais:

Faculdade Cásper Líbero
Avenida Paulista, 900 - 5º andar
Bela Vista. Tel.: (11) 3170-5880
Site: www.facasper.com.br

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo
Largo São Francisco, 95
Sé. Tel.: (11) 3111-4000
Site: www.usp.br/fd

Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 61
Higienópolis. Tel.: (11) 223-9922
Site: www.fcmscsp.edu.br

Faculdade de Tecnologia (Fatec - SP)
Praça Cel. Fernando Prestes, 30
Bom Retiro. Tel.: (11) 3322-2200
Site: www.fatecsp.br

Fundação Armando Álvares Penteado (Faap)
Rua Alagoas, 903
Higienópolis. Tel.: (11) 3662-7000
Site: www.faap.br

Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp)
Rua General Jardim, 522
Vila Buarque. Tel.: (11) 3123-7800
Site: www.fespsp.com.br

Instituto Presbiteriano e Universidade Mackenzie
Rua da Consolação, 930
Consolação. Tel.: (11) 3236-8634
Site: www.mackenzie.br

Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) Campus Centro
Rua Beneficência Portuguesa, 29
Santa Ifigênia. Tel.: 0800-16-3766
Site: www.fmu.br

Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) Campus Liberdade
Rua Taguá, 150
Liberdade. Tel.: 0800-16-3766
Site: www.fmu.br

Faculdades Integradas Tibiriçá
Rua Líbero Badaró, 616
São Bento.Tel.: (11) 3105-5155
Site: www.fati.br

Faculdades Integradas Hebraico Brasileiras Renascença (Uniesp) Campus São Paulo
Rua Álvares Penteado, 216
Largo do Café. Tel.: (11) 0800-771-1040
Site: www.uniesp.edu.br

Universidade Anhembi Morumbi Campus Centro
Rua Dr. Almeida Lima, 1134
Brás. Tel: (11) 6090-4500
Site: www.anhembi.br

Universidade Anhembi Morumbi Campus Anhangabaú
Rua Líbero Badaró, 487
São Bento.Tel.: (11) 3292-1555
Site: www.anhembi.br

Universidade Paulista (Unip) Campus Paulista
Av. Paulista, 900
Bela Vista. Tel.: (11) 3170-3700
Site: www.unip.br

Universidade Paulista (Unip) Campus Vergueiro
R. Pires da Mota, 1116
Aclimação. Tel.: (11) 3347-1000
Site: www.unip.br

Centro Universitário Álvares Penteado (UniFecap)
Av. da Liberdade, 532
Liberdade. Tel.: 0800-55-1902
Site: www.fecap.br

Senac < Unidade Consolação
R. Dr. Vila Nova, 228
Vila Buarque. Tel.: (11) 3236-2050
Site: www.sp.senac.br

Faculdades Oswaldo Cruz
Rua Brigadeiro Galvão, 540
Barra Funda.Tel.: (11) 3824-3660
Site: www.oswaldocruz.br

Faculdades Associadas Oswaldo Cruz - Faiter (Faculdades Integradas Interamericanas)
Rua Conselheiro Brotero, 475
Campos Elísios. Tel.: (11) 3824-3660
Site: www.oswaldocruz.br



  Cultura  
CAPA: A Broadway é aqui (Por Inês Figueiró)


Em quatro anos de funcionamento, o Teatro Abril trouxe ao Brasil três superproduções da Broadway e movimentou o Centro de São Paulo com mais de 1 milhão de espectadores. Esse afluxo de pessoas que gostam de música e teatro impulsiona não só a própria casa de espetáculos, mas também o turismo na região.

Se muitos brasileiros já prestigiavam os espetáculos grandiosos da Broadway, em Nova York, agora não é mais necessário pegar um avião para assistir a essas superproduções. Desde 2001, espetáculos musicais de grande bilheteria por lá vêm sendo montados em São Paulo - mais precisamente no Teatro Abril, o antigo Paramount.

E o brasileiro parece confirmar seu gosto pelos musicais. Nesse período, e três espetáculos apresentados, o Teatro Abril já recebeu um público de 1 milhão de espectadores. Em abril mais um clássico dos palcos nova-iorquinos estréia no palco da casa, que traz no currículo uma ligação íntima com a formação musical brasileira. É o espetáculo "O Fantasma da Ópera", de Andrew Lloyd Webber, que conta a história da órfã e jovem cantora Christine, criada nos bastidores da ópera e por quem o fantasma do título se apaixona.

A expectativa dos produtores é a de que o título supere o recorde de público do gênero na cidade, que foi atingido com "A Bela e a Fera" - musical visto por 600 mil pessoas ao longo dos 18 meses em que esteve em cartaz. A platéia não deverá sair frustrada. A Corporação Interamericana de Entretenimento (CIE), maior grupo da América Latina no segmento de entretenimento ao vivo, responsável por essa vinda da Broadway para o Brasil, não brinca em serviço. Alta para os padrões brasileiros, os três espetáculos apresentados somaram investimentos superiores a R$ 20 milhões.

"Identificamos a brecha para a criação do circuito latino da Broadway, com as peças em português e espanhol. Faltava essa oferta", explica o diretor comercial da CIE, Paulo Octávio Pereira Almeida.

A partir daí, o grupo, cuja matriz fica no México, negociou a compra dos direitos dos espetáculos que seguem não só para o Brasil. México, Argentina e Espanha fazem parte desse novo circuito da CIE.

A expectativa de recorde de público baseia-se no mesmo pragmatismo que definiu a linha de atuação da empresa por ocasião de sua chegada no Brasil. Uma pesquisa indicou que, pela lembrança espontânea, "O Fantasma da Ópera" era o espetáculo da Broadway mais lembrado pelos brasileiros. Daí a iniciativa de montar a peça que ainda segue em cartaz em Nova York. Os dados sobre a montagem são mantidos em segredo. Mas a concepção é a mesma dos musicais anteriores. Todo o espetáculo montado pela CIE segue ao pé da letra o original. "É a mesma produção", destaca Almeida, exceto pela língua, pelo elenco e orquestra.

Elenco brasileiro

Para garantir a qualidade, o pacote fechado entre a CIE e a Broadway prevê que todos os espetáculos tenham como diretores os mesmos responsáveis pelas montagens originais. Há ainda a figura dos diretores residentes brasileiros. Esses profissionais ficam responsáveis pelo acompanhamento das produções após a estréia. A atriz Paula Capovilla, que interpretará a personagem Madame Giry, uma senhora idosa, viúva, que serve de ponte entre o fantasma e a direção do teatro, já tem experiência nesse padrão de trabalho.

Paula tem 27 anos, e veio de Brasília a São Paulo para tentar um papel no primeiro espetáculo da CIE no Teatro Abril, o musical "Les Misérables", em 2001. Para ela, o esquema de trabalho é completamente diferente dos padrões nacionais.

A atriz foi aprovada, cantou no coro e substituiu a responsável pelo papel principal, a personagem Francine, em algumas apresentações. Segundo ela, há uma rigidez e disciplina muito fortes. Todas as funções são bem definidas e há horário para tudo: para aquecimento vocal, corporal, teste de microfone. Mas o tom não é de queixa. Pelo contrário, Paula afirma que todo esse mecanismo "traz uma segurança muito grande de que o espetáculo vai acontecer".

Para garantir a apresentação, cada papel tem, pelo menos, dois atores substitutos. As peças montadas no Abril envolvem no mínimo 150 pessoas que trabalham nos bastidores do palco com tanto afinco como quem está sendo visto pela platéia. Isso para garantir que tudo saia exatamente como o previsto no contrato com a Broadway. Assim, roupas, cenários, maquiagem são exatamente iguais aos usados em Nova York. Esse material, inclusive, pode ser reaproveitado no circuito latino que inclui teatros como a Ópera de Buenos Aires; o Lope de Vega, de Madri; e o Metropolitan, da Cidade do México.

"O cenário de ‘A Bela e a Fera’ que estava aqui seguiu para o México", conta Almeida.

Revitalização do entorno

Mas nem só os altos investimentos e o retorno financeiro foram levados em conta no contrato entre a Broadway e a CIE. Pelo menos é o que conta Paulo Octávio Pereira de Almeida. Segundo ele, havia a recomendação de que o local de apresentação dos espetáculos estivesse inserido em um projeto de revitalização.

É um resgate do início da Broadway, que foi instalada inicialmente em um trecho decrépito de Nova York e que se estabeleceu aos poucos como um trecho cultural de peso na cidade. Vem daí o interesse pela instalação do teatro no Centro de São Paulo. "Primeiro definimos o modelo de negócio e depois o teatro", declarou o executivo.

Bom para o Teatro Paramount e para a região central de São Paulo, que ganhou uma casa de espetáculos de alto nível - que veio se juntar às quase duas dezenas de teatros espalhados pelo Centro. O grupo mexicano adquiriu o Paramount e, por meio de uma parceria com o Grupo Abril, foi reaberto em 2001 sob o nome de Teatro Abril, depois de uma grande reforma. Do antigo prédio em estilo art nouveau, inaugurado com pompa no ano de 1929, restou apenas a fachada e o foyer. A casa, na realidade, perdera muito de seu glamour. Depois de ter sido praticamente destruída em um incêndio em 1969, foi reconstruída e ao longo dos anos 70, 80 e até 96, quando fechou suas portas, funcionou como teatro e cinema, tendo seu espaço dividido em cinco salas.

Quem olha hoje para o Teatro Abril vê de longe o saldo positivo da chegada dos musicais. O prédio amarelo, cor da época de sua inauguração, se destaca em meio a edifícios de construção mais recente. Internamente, o palco, a platéia e as demais instalações foram redesenhadas com o objetivo de aumentar a capacidade do teatro para 1.552 lugares, com visibilidade total de qualquer uma das poltronas.

A caixa cênica - espaço acima do palco que a platéia não vê - ganhou as proporções necessárias para abrigar as grandes produções. Com 32 metros de altura e 25 de largura, os cenários não precisam ser dobrados quando recolhidos.

O novo palco tem área de 225 metros quadrados e boca de cena com 10 metros de altura por 15 de largura. Há ainda um fosso com 86 metros quadrados em frente à platéia, que permite abrigar uma orquestra de até 80 músicos. Todo o local recebeu um cuidadoso revestimento acústico para garantir o isolamento do som. "Deu certo", confirma o advogado Moacir Carlos, que mora colado ao Teatro. Os cuidados na reforma incluíram ainda um minucioso trabalho de restauro, que identificou as cores originais das paredes do saguão de entrada - com predominância do bordô. São elas, aliás, que fazem o diálogo entre a parte antiga do teatro e a nova.

Além das benfeitorias físicas, o entorno registrou mudanças com a chegada dos musicais. A segurança está muito melhor. Carlos, que vive na região há 26 anos, lembra que nos últimos anos de funcionamento do Cine Paramount, na década de 1990, o número de carros violados para furto era enorme. "Cansei de ver carros sendo arrombados, aqui na frente de minha casa", narra sem deixar de destacar quanto se sentia impotente diante da ação e do temor de represálias. Hoje isso mudou, pois a quantidade de estacionamentos da região aumentou. Hoje, há quatro, contando apenas o bloco em que está localizado o Teatro e o da frente.

Turismo reforçado

O movimento proporcionado pelos espectadores do Teatro Abril ajudou não só a revitalizar o entorno, mas também a aumentar o movimento de restaurantes da região central e garantir clientes para outras atividades ligadas ao turismo de um dia. Opções culturais e gastronômicas são o forte do lazer de São Paulo. Cientes disso e de olho num aumento da ocupação dos hotéis nos finais de semana, quando o turismo de negócios cai em volume, as redes do setor hoteleiro começam a apostar suas fichas nessas atrações. Espetáculos como os musicais da CIE funcionam como atrativos de hóspedes e são usados em campanhas específicas para estimular a vinda ou permanência na cidade. Quem está planejando desde outubro do ano passado um trabalho específico em relação ao "Fantasma da Ópera" é a rede Atlantica Hotels, com 16 estabelecimentos na cidade.

A gerente de vendas de dois desses emprendimentos, Cláudia Secioso, destaca que uma previsão modesta é a de que os hotéis vendam dez convites por final de semana, ou seja, cinco casais. Essa abordagem de marketing é bem recente, começou em setembro do ano passado. Com um investimento baixo e uma campanha de última hora - a divulgação foi feita basicamente por e-mails e informações nos apartamentos - houve três grupos, num total de 60 pessoas, que responderam e vieram para o hotel especialmente para assistir "Chicago". Dois deles do Rio de Janeiro. "Queremos aumentar a ocupação dos finais de semana", avisa Cláudia. Dados da rede Atlantica indicam que o tempo médio de estadia em 2004 foi de 3,2 dias. O objetivo é ampliar e os espetáculos funcionam como um chamariz.

Outro que se beneficia das atrações culturais paulistanas é Luciano de Abreu, diretor da Checkpoint, empresa que atua na área de receptivo há mais de oito anos. Segundo ele, os espetáculos do Abril já são referência. "É como falar do Terraço Itália, são produtos que a gente vende fácil", destaca. Para ele, as vendas só não são maiores porque há dificuldade na hora da compra dos ingressos. Ele se queixa da falta de uma linha de atendimento especial para agentes do turismo. Ele não ganha pela venda do ingresso, mas o Teatro alavanca sua atividade que é o transporte. Abreu informa que os dois primeiros espetáculos apresentados pela CIE trouxeram muito retorno para sua empresa. Apesar da queda em "Chicago", há expectativa de bons negócios com o "Fantasma".

E se os brasileiros viajam nove horas e meia num avião para chegar a Nova York e ir a Broadway, muitos são os que não se importam de passar quase oito horas num ônibus para ver um desses espetáculos em São Paulo. Sônia Cristina dos Santos Balbino mora em Presidente Prudente, cerca de 560 quilômetros da capital, e esteve em São Paulo pelo menos duas vezes por causa do musical Chicago. Dona de uma agência de turismo, a Balbino Tur, um dos pacotes que oferece é o de um final de semana na capital paulista. O programa, que custa R$ 290, inclui uma ida ao teatro, além de passeios pelo Centro e visitas a uma exposição de destaque na cidade.

"Em ‘A Bela e a Fera’ também levamos crianças", conta a empresária que, entre as clientes fixas, tem uma senhora de 70 anos que não perde as atrações, apesar da distância. Sônia conta que os grupos que traz, entre 20 e 40 pessoas, são predominantemente formados por mulheres solteiras na faixa dos 30 anos. Para "O Fantasma da Ópera", já fechou um grupo de 35 pessoas. "Nesses casos, o boca-a-boca funciona muito. Quem volta conta que gostou e aí mais gente nos procura", explica. O preço dos musicais varia de R$ 50 a R$ 150 e, embora longe de ser popular, não tem afugentado o grande público.

Eles passaram por lá

Se as poucas paredes originais do antigo Paramount falassem, contariam muito da história da música popular brasileira. Embora tenha aberto as portas com a primeira exibição na América do Sul de um filme falado - Alta Traição, de Ernest Lubitsch - seu palco apresentou ao país, em muitos casos em primeiríssima mão, os grandes nomes que fizeram a música brasileira e que a influenciam até hoje.

Foi lá, em 1964, que Elis Regina testou o que viria a marcar seu estilo musical, a "desdobrada", ou seja, aquele momento da música em que os versos são cantados mais lentamente. Os mesmos compassos, porém num tempo bem mais dilatado.

O efeito é imediato. "Além de ressaltar a marcação da frase, a desdobrada causava um dinamismo tão invulgar que o público era levado a aplaudir ali mesmo, antes da música terminar", explica o jornalista e historiador musical Zuza Homem de Mello.

Foi também no Paramount - então chamado Teatro Record Centro - que os famosos festivais da canção se consolidaram, e com eles nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Nara Leão, Edu Lobo, Gilberto Gil. Este último chegou até a ficar doente antes de apresentar seu Domingo no Parque, por temer a inclusão dos toques do criticado iê-iê-iê de Roberto Carlos, guitarra elétrica e berimbau em uma mesma música, uma ousadia para os padrões da época.

Tom Zé, que venceu o Festival de 1968, não sem antes, a exemplo de outros companheiros, ter de alterar alguns versos por ordem da censura, também estreou por lá. Assim como Martinho José Ferreira, hoje conhecido como Martinho da Vila. Não é pequena a lista, que inclui Sérgio Ricardo, cantor que protagonizou uma das cenas mais inusitadas da história do Teatro. Depois de uma grande vaia, o cantor quebrou o violão e o arremessou contra o público. Ninguém saiu ferido.



  Cultura  
Residência Artística

CASA LUTETIA, ENDEREÇO DE ARTISTAS. (Por Federico Mengozzi)
Em plena Praça do Patriarca, o prédio concebido por Ramos de Azevedo está em reforma e terá dez lofts que funcionarão como residência artística

Há cerca de 2.000 anos, às margens de um rio que hoje conhecemos como Sena, os romanos estabeleceram uma colônia à qual deram o nome de Lutetia (Lutécia). É a Paris de nossos dias. Nos anos 20, o engenheiro e arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo projetou três prédios independentes, mas com uma única fachada, na praça do Patriarca, em São Paulo - é a Casa Lutetia, que evoca o antigo nome de Paris. Assim, nada mais natural que a construção, tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo e cujo prédio central integra hoje o acervo imobiliário da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), traga à lembrança a Cidade-Luz. Essa afinidade espontânea, como se fosse um prenúncio da vocação do imóvel, será reforçada com a inauguração da Residência Artística - FAAP, projeto inspirado na Citè Internationale des Arts, que recebe artistas de todo o mundo na capital francesa. Se tudo correr como o previsto, já no final de abril parte dos dez lofts para artistas do Lutetia, dois por andar, estará em funcionamento.

Desde meados dos anos 90, a FAAP envia alunos e professores a Paris, e a partir dessa experiência, diz o advogado e administrador de empresas Antonio Bias Bueno Guillon, diretor-presidente da Fundação, surgiu a idéia de fazer do Lutetia uma residência de artistas. Desde a construção, o prédio era ocupado por advogados e médicos, imobiliárias e óticas, mas nos últimos tempos refletia a decadência pela qual passava a região central. "Recentemente", diz Guillon, "a FAAP restaurou o edifício de Ramos de Azevedo. Em princípio, estava destinado a exposições do acervo da Fundação, mas a idéia foi ampliada e surgiu a possibilidade de reservar alguns apartamentos para residência de artistas em visita a São Paulo, de acordo com as premissas da Associação de Residências de Artistas, uma entidade internacional. Seria o equivalente à Cité des Arts, de Paris." Cerca de 90 países, dos mais importantes aos mais periféricos, têm representação nessa instituição francesa instalada perto da ilha St-Louis, região em que os romanos estabeleceram sua colônia.

Lígia Clark, Ivens Machado, José Rezende, Manfredo de Souza Neto e Ester Grinspum foram alguns artistas brasileiros que, ao longo das décadas, instalaram-se em Paris e se aprimoraram no ambiente de estímulo e intercâmbio da Cité des Arts. Hoje, a entidade ocupa dois endereços: um na rua de L’Hôtel de Ville, no bairro do Marais, e o outro na rua Norvins, em Montmartre, e continua a receber artistas estrangeiros do mundo inteiro, que podem permanecer de dois meses a um ano. Até hoje, já recebeu cerca de 15 mil pessoas e foi reconhecida como de utilidade pública pelo governo francês. Os artistas podem se candidatar diretamente ou ser escolhidos por organismos de seu país, caso da FAAP, que tem um loft na fundação alugado por 50 anos. A permanência não é gratuita. O pagamento permite a manutenção da estrutura da "cidade" e é um elemento de valorização da proposta. São 290 ateliês, 260 no Marais e 30 em Montmartre, que servem de residência e local de trabalho, mais espaços comuns de criação e exposição, estúdios de ensaio e sala de concertos, biblioteca, teatro etc. Os ateliês medem de 20 a 40 m2 e dispõem de pequena cozinha e banheiro.

A FAAP destina seu ateliê mobiliado na Cité des Arts a alunos, ex-alunos e professores para permanência de um semestre. Os interessados devem se candidatar apresentando uma proposta de pesquisa em artes a ser desenvolvida no período, além de um portfólio recente. Uma comissão encaminha lista tríplice à diretoria executiva, que escolhe um nome. O eleito recebe passagens de ida e volta, seguro-saúde e ajuda de custo - as despesas com a Cité des Arts correm por conta da Fundação. Para a Residência Artística - FAAP, o procedimento ainda está em processo de formulação e certamente será adaptado conforme os artistas forem chegando e a experiência se configurar. Em princípio, diz Guillon, poderia haver artistas nas mais diversas áreas - artes plásticas, cinema, fotografia. "Haverá regras gerais, mas cada caso será um caso. Seremos flexíveis diante das propostas.

A regra é que as pessoas se apresentem, enviem currículos. Aprovados, assinariam um contrato conosco." Alguns artistas, franceses e russos, já fizeram propostas, mas apenas um nome já está definido: Anatoli Zhuravlev. O artista plástico russo chegará para a abertura da exposição "A herança dos czares", que será inaugurada dia 26 de abril no Museu de Arte Brasileira (MAB), e será o primeiro inquilino da Residência. Segundo Guillon, a idéia é fomentar uma espécie de acordo bilateral, fazendo com que os artistas estrangeiros venham e que os brasileiros também sejam recebidos pelos países que os enviarem.

A Residência Artística - FAAP vai pelo mesmo caminho da Cité des Arts, garante o diretor-presidente. "Nós nos inspiramos no apartamento que a FAAP tem em Paris. A idéia é transportar esse conceito para cá, para receber artistas do exterior, que, em troca da hospedagem num dos apartamentos, fariam palestras na Fundação, manteriam contatos com os alunos, desenvolveriam oficinas. Eventualmente, poderiam criar um trabalho para ser doado ao Museu de Arte Brasileira, da FAAP." A Fundação, que oferece sete cursos para quase 13 mil alunos e está abrindo novas sedes no interior do Estado de São Paulo, entra com o conceito e o imóvel de sua propriedade. E quer parceiros. "Como o projeto envolve despesas", observa Guillon, "queremos a participação da iniciativa privada, como acontece em Paris. No começo, vamos por nossa conta, mas depois esperamos que as empresas adotem apartamentos, sejam patronas de lofts, respondendo por suas despesas. Elas poderiam, quem sabe, indicar este ou aquele artista."

O edifício Lutetia tem oito pavimentos, mais térreo e subsolo. A fachada, com exceção do piso térreo, preserva as características originais, com uma arquitetura eclética que, coincidência ou não, lembra a de certos prédios parisienses.

A restauração começou no ano 2000, abrangendo inicialmente a fachada e o hall de entrada. Em 2003, os trabalhos continuaram, com o restauro das escadarias e halls de circulação, além da instalação de uma infra-estrutura moderna, com novos sistemas elétricos, hidráulicos e de ar-condicionado, redes de cabeamento de lógica e telefonia. Tanto quanto possível, as novas tecnologias convivem com o ambiente original. Para instalar os lofts, do terceiro ao sétimo andares, desapareceram as divisões - originalmente cada uma abrigava sete pequenos conjuntos de escritórios. O subsolo e o térreo terão livrarias; o primeiro e segundo andares, salas de exposições - já foram realizadas mostras sobre a vida e obra de Ramos de Azevedo e de esculturas do acervo do MAB -; o oitavo será o lounge, a sala comum.

Os apartamentos terão dois tamanhos: 69 e 79 m2 - no sétimo andar, ao invés de um apartamento de 79 m2, terá um de 68 m2 -, e todos serão mobiliados e equipados com ar-condicionado, fogão elétrico, geladeira, telefone e computador com internet. Cinco escritórios de arquitetura respondem pela decoração dos lofts: Ciccone/Freitas (3º andar), Ana Maria Vieira Santos (4º), Arthur de Mattos Casas (5º), Esther Giobbi (6º) e Pedro Mendes da Rocha (7º). Os apartamentos do terceiro andar já foram concluídos e mostram uma decoração despojada, com móveis concebidos pelo designer Michel Arnoux. O lounge do oitavo andar será decorado pelo arquiteto Jorge Elias. Tudo isso em pleno Centro de São Paulo, ao lado de instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil e o Masp Centro, sem contar aquelas que estão em processo de implantação, como os centros culturais da Caixa e dos Correios.

Guillon não quer somente o apoio da iniciativa privada, mas também estabelecer convênios com as instituições instaladas na região, como o CCBB. Ele não tem nenhuma dúvida de que a iniciativa da FAAP é uma importante contribuição para o processo de requalificação da área central paulistana. O Centro, nota, já reúne equipamentos interessantes e pode se tornar um expressivo pólo cultural. "A FAAP tem feito a sua parte e recuperado seu patrimônio na área. E, de maneira geral, não podemos esquecer, os artistas qualificam um lugar." Ao trazer "moradores" altamente qualificados, a Residência Artística - FAAP estabelece um diferencial no processo de renovação do Centro.

Um charme só. Afinal, o Lutetia é um pouco de Paris transplantado para o planalto de Piratininga.

Galeria Olido recebe grupos de dança

Um espaço qualificado de ensaio para grupos de dança. Essa é a

proposta da área de dança da recém-inaugurada Galeria Olido, iniciativa que ocupa o prédio do antigo cine Olido, na Avenida São João, e se insere, como a Residência Artística - FAAP, no processo de requalificação do Centro de São Paulo. O conceito de residência da galeria é bem diferente do conceito do Casa Lutetia e, basicamente, compreende a cessão de espaço para que os bailarinos criem e ensaiem seu espetáculo. Eles não dormem na galeria, mas trabalham lá.

Em troca, a Secretaria Municipal de Cultura exige que as companhias realizem apresentações gratuitas, ensaios e workshops abertos. Segundo Sueli Andrade, articuladora da área de dança, obter espaço para trabalhar é um problema que afeta 90% dos grupos, já que

existem poucos lugares públicos e os demais são alugados. "A maioria dos grupos não tem onde ensaiar e a Secretaria oferece quatro salas novíssimas", explica, "com piso especialmente projetado, equipamento de som etc. Os grupos saem maravilhados".

A galeria oferece três períodos de trabalho, pela manhã, à tarde e à noite, com três horas cada. Por enquanto, a ocupação do espaço não tem regras muito definidas e se dá a título provisório, mas está sendo preparado um edital para discipliná-la. "Os grupos se inscreverão e uma comissão elegerá aqueles que ocuparão as salas", esclarece Sueli. Recentemente, companhias como a Bicicletas Voadoras e Os Invasores, ambas de São Paulo, mais os 23 grupos que participam da Mostra de Dança Contemporânea, realizado no final do ano passado, ensaiaram no local. Era tanto trabalho que havia sempre movimento no segundo andar da galeria, reservado para a dança. A Galeria Olido é um espaço multidisciplinar - artes gráficas e web design, cinema, circo, teatro, vídeo - 9.000 m2, distribuídos por cinco pisos, para a produção e a difusão cultural. F.M.

Artistas ocupam casarão para refletir o centro (Por Claudia Casanova)

A idéia de abrir espaço para a criação de artistas também faz parte do projeto do Ateliê Amarelo, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. O projeto promete utilizar a arte como fonte renovadora e de intervenção na região conhecida como "cracolândia", ou seja, os quarteirões da região de Santa Ifigênia e Luz.

Instalado no número 23 do Largo General Osório (D2), o projeto oferecerá, durante um ano, um ateliê de trabalho para artistas vindos da capital e do interior. Segundo a secretária de Estado da Cultura, Claudia Costin, o objetivo é enriquecer o chamado Corredor Cultural - formado por equipamentos como a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado e a Estação Pinacoteca, o Museu de Arte Sacra, o Jardim e a Estação da Luz, estimulando a sinergia entre os artistas e o entorno. "Oferecemos duas vantagens: a primeira é o espaço para artistas que muitas vezes não têm onde trabalhar e, em contrapartida, solicitamos que eles registrem poeticamente a região", explica a secretária.

O edital com as regras e critérios para a escolha dos artistas que ocuparão o Ateliê no primeiro ano foi publicado no Diário Oficial de 25 de fevereiro, e as inscrições vão até 25 de abril. Os ocupantes do casarão, construído em 1946, serão escolhidos por uma comissão presidida pela artista plástica Maria Bonomi e composta pelos artistas Cildo de Oliveira e Paulo Von Poser, pelo crítico João Spinelli e pela

jornalista e escritora Leila Gouvêa. "A seleção não leva em conta idade ou especialização.

O critério será a avaliação de currículo e a intenção do projeto-produto que melhor corresponder à proposta de sintonia com o entorno. O Ateliê Amarelo vai preceder a teoria de como se deve olhar e modificar uma cidade com a cabeça e com o coração", explica Bonomi. O tema, obrigatório, é uma reflexão social e poética sobre o a região central da cidade.

Durante a estadia no Ateliê, os artistas receberão o apoio dos curadores. A exposição ultrapassa os limites da casa, avançando sobre o Largo General Osório e promovendo o encontro da sociedade com a arte. "A casa também será aberta ao público e qualquer interessado poderá acompanhar o processo criativo das obras. A intenção é criar um espaço público", afirma Claudia Costin.

Maria Bonomi acredita que o projeto pode provocar, para o cenário artístico brasileiro, um grande chamado à ação transformadora do olhar. Para ela, o trabalho feito no Centro, ou que tenha a região como referência, é um auto-reconhecimento que nos leva a olhar para o ponto mais sensível de nossa identidade.

"A região central é uma fonte inspiradora de produções artísticas. Do ponto de vista visual, ela possui uma fisiologia riquíssima de formas, signos, de camadas e estilos em vitais conjunções. E do ponto de vista poético, a região central contém todas as nações, desejos, vícios e esperanças extremamente mescladas e expostas em convívio pujante. O que mais podemos desejar do que este livro aberto para desenvolver uma visão inspiradora?"



  Entrevista  
A hora e a vez da FILOSOFIA (Por Ana Maria Ciccacio e Jorge da Cunha Lima)


EPensar em cidade é pensar em política. E política é uma das vertentes da atuação apaixonada do professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, também diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação

Democracia e república fazem parte da "boa política" que o século 20 legou à humanidade, diz Renato Janine Ribeiro nos livros "A Democracia" e "A República" (Publifolha, 2001). "É preciso fazer convergir a demanda do desejo democrático, que vem de baixo, e a preocupação com a coisa pública, que se expressa na maneira como se administram essas demandas populares e legítimas."

Mestrado na Sorbonne e doutorado na USP, autor do contundente "A Sociedade Contra o Social: o Alto Custo da Vida Pública no Brasil", livro que lhe valeu o Prêmio Jabuti de 2001, Janine Ribeiro é um homem que se ocupa de questões pouco freqüentes do dia-a-dia dos brasileiros, mas que aos poucos começam a pedir passagem, forçam a entrada na roda, porque estamos todos sentindo muita falta de debater o que são, e para o que servem, cidadania, ética, planejamento, enfim, de que substância são feitas as ações que visam ao bem comum e como tudo isso pode nos beneficiar como povo. Ou seja, questões típicas da filosofia.

"Agir. Tem sido essa uma das grandes questões teóricas com que trabalhei nos últimos anos, em filosofia política, em Maquiavel, até mesmo escrevendo sobre televisão", já disse o professor a um grande jornal de São Paulo. "Agora que exerço a diretoria de avaliação da Capes, vejo a chance de transformar idéias em atos. Essa chance de agir talvez seja boa para qualquer pessoa, mas para quem lida com a teoria política é especialmente importante e, sobretudo, porque acho que o problema do Brasil está na ação que fica travada e que a grande questão hoje é como gerar uma ação que seja inédita, criativa e emancipadora". Com a palavra, Renato Janine Ribeiro.

urbs - No programa Café Filosó-fico (gravado no Espaço Cultural CPFL, de Campinas, e reproduzido pela TV Cultura de São Paulo), o senhor lembrou da impossibilidade de Édipo escapar ao destino. Quando pensamos em São Paulo, com mais de 10 milhões de habitantes, o que um mito como esse tem a ensinar, sobretudo hoje, com o destino contando tão pouco na administração de uma cidade?

Renato Janine Ribeiro - Não é que conte pouco, mas hoje o mito pessoal é que sejamos capazes de controlar o destino, o que não quer dizer que o controlemos efetivamente. Para nós, muito mais do que em qualquer outra época, é insuportável que as coisas escapem ao nosso controle. Ficamos o tempo todo procurando, de alguma forma, ver como poderemos controlar as coisas, como poderemos gover-ná-las, mas isso não quer dizer que consigamos. É apenas um desejo forte, básico até. Ele define nossa identidade. Mas isso não significa que o peso do destino diminuiu nas grandes cidades, e sim que, quanto mais pessoas se encontram relacionadas, maior fica a dimensão do imprevisto em suas vidas. O imprevisto tem um peso extraordinário na vida das pessoas, porque estamos em contato com diversas variáveis. Por exemplo, hoje tivemos uma tempestade terrí-vel [a entrevista foi feita numa sexta-feira, 25 de fevereiro, com a cidade de São Paulo mergulhando na escuridão em plena tarde, e em seguida sofrendo as conseqüências de uma chuva torrencial]. Como ficam os nossos projetos de vida, e mesmo os do fim de semana? Não é que o planejamento não funcione necessariamente,

mas é que sobre a vida incide um número de variáveis cada vez menos controladas.

Maquiavel contrapôs ao antigo fatalismo do destino o dever de os governantes planejarem ações e realizá-las, domando a natureza e vencendo obstáculos. Por que essa máxima pouco vicejou em uma cidade como São Paulo? Hoje choveu torrencialmente, várias partes da cidade foram alagadas, mas é histórico que esses lugares são sempre alagados. Somos incapazes de planejamento?

A máxima de Maquiavel define a mo-dernidade. O anseio da modernidade é exatamente esse: ser capaz de controlar as variáveis, ser capaz de dominar tudo. Não deixar nada escapar ao planejamento. Para o grego era dife-rente: ele não controlava quase nada, e quem tentasse controlar, como Édipo, era considerado louco. Afinal, que absurdo é esse de você querer governar o que por natureza escapa ao controle humano? Na Grécia existe uma idéia de conforto por não podermos dar conta desses elementos. A diferença é que aqui, agora, nós não suportamos a idéia de que algo escape ao nosso controle, e por não suportar essa idéia, acabamos desenvolvendo um esquema que permite enfrentar até mesmo aquilo que não foi planejado. Nós temos essa fantasia de que estamos controlando, mas como isso funciona apenas em escala limitada, as coisas se complicam.

O caso da tempestade de hoje...

É um bom exemplo. Um lugar que sempre padece são as margens dos rios Pinheiros, Tietê e Tamanduateí, rios que foram, de alguma forma, gravemente penalizados. São Paulo tem muitas avenidas de fundo de vale, como a do Rio Aricanduva, daí a tragédia. Poucos se dão conta, mas as margens são do rio, antes de serem da gente.

Foi um erro monumental, mantido ao longo dos anos, fazer as marginais e tirar as margens dos rios. As margens são justamente a segurança do rio.

O rio tem um regime de águas que varia. Quando as águas sobem, o escoadouro natural são as margens, mas se no momento de escoar há uma avenida, realmente ficamos sem esse espaço. E o que a gente faz? Reclama, protesta... A melhor coisa seria destruir as marginais e devolver as margens aos rios, além de restaurar os meandros desses mesmos rios, que em muitos casos também foram eliminados. Mas onde vamos colocar o tráfego? Na Faria Lima? Impossível. Só vamos resolver esse problema no dia em que tivermos desenvolvimento. Talvez possamos afundar extraordinariamente a calha dos rios, mas isso não bastará, porque existem os córregos, há todo um sistema. E o jogo vai ficando muito complexo, pois existem aí dois elementos antagônicos: por um lado, isso é fruto de planejamento, quer dizer, antes de haver planejamento, os rios seguiam seu contorno natural; depois do planejamento, houve um desfiguramento.

A modernidade, então, construiu uma ruptura com a possibilidade do limite?

Exatamente. A modernidade é a proposta de a gente superar os limites. Ganha-se por um lado, mas perde-se por outro, pois começa-se a fazer coisas que causarão um dano tremendo. Por exemplo: fazer avenida de fundo de rio, por um lado, é uma vitória do planejamento, mas por outro, dizemos que o planejamento foi ruim, inadequado, insuficiente. Não estou dizendo que não se deva fazer nada, esse é o nosso caminho. Só quero mostrar que existe uma fantasia aí, a de que uma escolha seja simplesmente "a verdade", sem que ou-tras alternativas sejam consideradas.

Agora, isso tudo é muito curioso. Maquiavel, numa passagem célebre, diz que, após chuvas torrenciais, podemos planejar e construir represas, pontes, enfim, o que nos proteja de desastres futuros. O ponto notá-vel é que agora vivemos exatamente o limite destas construções - isto é, precisaríamos ir além disso nos planejamentos futuros. É como se tivéssemos esgotado a visão do planejamento que se resumia em obras, para entrar numa que requer o equilíbrio ambiental.

Com o fim da Guerra Fria, o mundo experimentou um período de relativa calmaria. Certos acontecimentos recentes, contudo, voltaram a provocar temor: o tsunami que varreu cidades na Ásia, a destruição das torres gêmeas nos Estados

Unidos, os fundamentalistas anunciando o apocalipse, a perspectiva de mudanças provocadas pelo aquecimento global ou por inovações como as dos transgênicos e da nanotecnologia. Que mundo está acabando?


É muito difícil responder. É muita especulação: que mundo está acabando? Estamos num cruzamento. Ao longo do século 20, todas as previsões de como seria o futuro no ano 2000, por exemplo, não deram certo. O que está acabando e o que está voltando? Hoje não existe nada mais conservador, quando se pensa em costumes, do que [George W.] Bush. É engraçado, mas Bush e os fundamentalistas islâmicos, embora em conflito, são muito parecidos nesse sentido. Mas quem podia prever, anos atrás, que isso viria a acontecer? Quem poderia, por exemplo, prever, há 10 anos, que nos Estados Unidos de hoje está diminuindo o número de relações sexuais entre os adolescentes. Até alguns anos atrás crescia, agora está diminuindo.

A inapetência sexual dos jovens já seria resultado da ação conservadora que se observa nos EUA?

Provavelmente. Eu não estou dizendo que isso seja ruim, os jovens são muito irresponsáveis e é bom que tomem cuidado com o sexo inseguro. O que estou dizendo é que o rumo parecia definido, mas de re-pente houve uma mudança. Por isso é difícil dizer o que está acabando, porque alguns podem dizer que o que está acabando são os sonhos, a utopia, a idéia de um mundo melhor. A própria idéia de um mundo mais livre é totalmente diferente para um americano fundamentalista e um li-beral: para o liberal, um mundo mais livre é o que for mais solidário, mais igualitário, e sexo é uma coisa natural; para o cristão fundamentalista, o sexo continua sendo, não digo peca-minoso, não dá para fazer caricatura disso, mas algo a ser rigorosamente controlado. Hoje é muito difícil apostar em identidades definitivas para as pessoas, pois elas são plurais e vivem em antagonismo.

Houve tempo em que se discutiam dicotomias como capitalismo x comunismo ou socialismo. Hoje o debate coloca em cena os riscos da desmedida, excesso x equilíbrio.

Mas ao mesmo tempo em que isso acontece, há novas identidades, identidades duras, fortes. É difícil assegurarmos que o mundo já tenha tomado um determinado rumo. Mesmo o comunismo, no século 20, foi muito imprevisto: era para ter surgido em um país desenvolvido, economicamente forte, mas surgiu na Rússia, um país atrasado.

É possível que uma maneira de administrar esse imbróglio seja a negociação; ela pode ser um canal para conseguirmos viver nesse novo mundo extremamente complexo que se desenha?

Eu acho que é um bom canal, conseguir negociar, compor. Negociar exige da gente muita disposição para rever constantemente as coisas.

O Sr. tem insistido em não se banalizar a cidadania, uma vez que ela é o eixo dos direitos em uma sociedade regulada por leis com fins ao bem comum. Que papel cabe à ética nesse tipo de sociedade a qual almejamos?

O principal. Na modernidade a política se separou da moral, isto é, da moral religiosa, mas quando pensamos numa das principais dimensões da política de nosso tempo, que é a dimensão republicana, percebemos que é impossível visar o bem comum, a república, sem uma intensa opção ética. Ora, quais são os valores éticos básicos envolvidos na relação política com o outro? Podemos afirmar como um deles a reciprocidade em direitos, já enunciada por Kant em outros termos, e que sintetiza - hoje - liberdade e igualdade. Esses valores implicam tanto certas formas da ação - a liberdade do voto, de organização, de expressão - quanto certos fins dela, entre eles a redução das desigualdades sociais, a supressão da miséria, a luta contra a injustiça. Em suma, a ética na política não pode ser entendida como uma proposição genérica, mas sim como um imperativo que tem conseqüências bastante precisas.

Voltando a refletir sobre a metrópole, o habitante da cidade mantém com São Paulo uma relação conflituosa, de amor e ódio. Um Centro requalificado teria algum papel na construção de uma boa relação entre o paulistano e a sua cidade?

Acho que sim. Um Centro requalificado seria muito bom para todos nós. Existiria uma relação com a cidade bem melhor, sentiríamos muito mais orgulho. Realmente seria muito bom, mas eu acho que precisaria acontecer uma grande mudança na cidade para que isso realmente funcionasse e fizesse bem para as pessoas.

Mudança em que sentido? De comportamento das pessoas? Uma mudança urbanística? Intervenções materiais ou de outra ordem?

As coisas referentes às intervenções representam uma mudança tanto material quanto afetiva, e efetiva. As coisas fazem parte da maneira como as pessoas se relacionam, e essa maneira como as pessoas se relacionam é muito afetada também pelo material. Mas qual é a proporção do material? Quando Niemeyer planejou Brasília, sua idéia era que Brasília fosse uma cidade exemplar, uma cidade na qual as pessoas morassem juntas, mais perto umas das outras, mas isso não aconteceu. As pessoas continuaram tendo uma relação bastante política, bastante fria até.

Além disso a maioria das pessoas mora em cidades-satélites.

Exato, não aconteceu o que ele planejava.

Que papel o Centro de São Paulo pode desempenhar na elaboração de uma São Paulo mais humanizada, uma cidade melhor?

O Centro deveria ser um lugar onde as pessoas se sentissem mais felizes; as pessoas querem que o Centro seja seguro e aberto à população. Mas falta muito para isso. A sensação de não sermos respeitados é muito grande. Fomos aceitando com normalidade coisas que não são normais. No século 19, quando as pessoas começam a ir muito para a cidade, há um choque enorme, pois elas se cruzam na rua e não se cumprimentam, e isso é um problema muito sério. Hoje nos acostumamos a isso, mas para alguém que vem do interior ainda é um choque, embora com o passar do tempo todos se acostumem e adotem isso como norma. Talvez nem percebam mais, mas é uma violência. A questão básica é como se supera esse tipo de coisa.

Para certos moradores de São Paulo, os povos que vieram para cá seriam os responsáveis pela falta de identidade cultural e pela falta de cooperação entre os habitantes da cidade. A Viva o Centro trabalha numa perspectiva inversa, apostando na energia da diversidade. Como a filosofia pode contribuir para uma melhor compreensão de uma cidade de tamanha diversidade, para que essa diversidade seja capitalizada a favor das pessoas,

a favor da cidade?


Acho que é através da compreensão recíproca. O importante é que quando se começa a filosofar, ou a pensar, você pode impor aos outros os seus valores. Há formas diferentes de ver a vida em sociedade. Esse preconceito contra o imigrante é uma das coisas mais cruéis que existe. Há pessoas que foram forçadas economicamente a deixar seu local de origem para viverem em um lugar onde ganham mais, porém os referenciais culturais são bem diferentes. Com base na experiência com minha coluna semanal no site da AOL, noto que muitas pessoas não param para pensar, não lêem com atenção, nem vão até o fim de um texto e já reclamam, já protestam. A educação formal no Brasil é extremamente rara, pouca gente tem de fato. Isso faz com que as pessoas não valorizem a instrução e isso também faz com que a maneira das pessoas se relacionarem fique muito complicada.

Tudo indica que São Paulo está se transformando de metrópole industrial, a maior da América Latina, em uma cidade de serviços. Quais os pressupostos morais para que o novo paradigma de trabalho, ou seja, uma metrópole de serviços que condicione uma cidade de serviços, não seja um engodo para o cidadão?

A grande questão é a seguinte: ao apostar só nos serviços corre-se um risco muito grande de se apostar só no que é fútil. Ao apostar no que é muito fútil corre-se o risco de se ter uma desqualificação de valores que são historicamente mais importantes. Eu me lembro de uma vez em que uma economista tucana falou que a saída para o Rio de Janeiro era os rapazes favelados, que têm muita ginga no corpo, serem todos dançarinos. Isso é totalmente ridículo, não resolve situação econômica nenhuma.

Até porque nem todos os jovens querem ser bailarinos.

Não serão e nem querem ser. Depois, mesmo que todos quisessem, o mercado seria para poucos, mas o que mais me chocou foi a idéia da exibição: se você não tem mais nada para fazer, vai fazer turismo sórdido para turista, e isso não constrói um laço social bom. A idéia de fazer as relações sociais limitarem-se cada vez mais a uma relação com o mundo da representação, o mundo que mostra as coisas, mas não faz as coisas, é muito grande. A idéia de uma socie-dade de serviços tem seus méritos, eu acho que está tudo mudando mesmo, mas temos que pensar no que isso quer dizer.

Em países economicamente fortes convivem os setores agrícola, industrial, de serviços, informática, tecnologia de ponta etc. Aqui haveria uma propaganda maciça apenas dessa cidade de serviços?

O problema também é que aqui no Brasil há um imediatismo muito grande. Surge uma nova tese, uma nova idéia do que deve ser feito, e as pessoas não pensam quais serão os efeitos, as conseqüências que isso pode trazer para a sociedade, se será bom ou não. É muito imediatismo; deveríamos pensar mais nas coisas.

No caso da cidade de São Paulo, o que o prefeito deveria acrescentar às virtudes de administrador para governar a cidade de um modo interessante?

Bastante imaginação e criatividade. Não dá mais para continuar governando a cidade só com cabeça de economista. A cidade de São Paulo precisa mais do que isso, porque ela é uma cidade muito complexa. O risco que eu vejo hoje é que se deu tanto valor ao economicismo que as pessoas têm dificuldades em imaginar um paradigma diferente. Seria preciso reverter isso, deixar claro que tem seus méritos pensar na economia, mas que ela está longe de ser tudo.



O senhor costuma passear pelo Centro? O que mais o atrai e o que mais o decepciona?

Como atualmente estou morando em Brasília, estou sem esse contato freqüente com São Paulo. Acho o Centro de São Paulo muito bonito. "Ir para a cidade", como a gente falava, era uma coisa usual. Hoje existem gerações que nunca foram ao Centro, o que é muito preocupante. O Centro dá uma configuração à cidade, o que não se tem sem ele. Conhecer a cidade é importante. Eu só fui conhecer o Pátio do Colégio há três, quatro anos, e fiquei impressionado: uma coisa fortíssima em São Paulo é que o Pátio é todo fake, ele foi demolido e reconstruído, e isso dá também uma sensação de vertigem, pois nós pensamos: moramos numa cidade cujo Centro não é de verdade, seu local de nascimento é uma construção, um artifício. Tem todas as razões, tudo isso sempre tem uma ótima explicação. Mas é engraçado ter uma situação em que você vê inteiramente, e de fato, que nós perdemos a própria marca inicial da cidade. Não estou dizendo que isso é preocupante, acho isso simplesmente curioso. Até faz parte do estilo de São Paulo, que é uma cidade na qual o nervosismo e a presença do novo são constantes.

O senhor nasceu na cidade de São Paulo?

Nasci em Araçatuba, mas fiquei lá por pouco tempo. Minha mãe estava para ter o primeiro filho e meus pais acharam melhor eu nascer perto da família dela. Eu me considero paulistano, pois foi em São Paulo que fiz tudo, o principal da minha vida.

Eu considero São Paulo uma cidade muito difícil, mas tenho observado que as pessoas estão gostando mais da cidade. Parece que as pessoas estão gostando mais de São Paulo e isso é bom.




  Idéias  
Centro Cultural Theatro Municipal de São Paulo (por Fábio Frutuoso)

Desenvolvido para a conclusão da graduação no curso de Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, este trabalho propõe que as atividades do Theatro Municipal de São Paulo sejam ampliadas e, desta forma, contribuam ainda mais com o processo de revitalização do Centro


Revitalização

O Theatro Municipal de São Paulo, às vésperas do centenário de sua inauguração, apresenta-se como um dos mais emblemáticos prédios que abrigam atividades culturais da cidade e, em especial, do Centro Histórico de São Paulo.

Uma série de intervenções e reformas de equipamentos e edifícios em suas imediações apontam a vocação cultural do Centro como gerador de ocupação e uso. Como exemplo a reforma da Praça do Patriarca, a instalação do MASP-Centro, o anexo Faap-museu e o Centro Cultural Banco do Brasil. Além disso, há o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, salas de cinema (a maioria desativada),

a Galeria do Rock, o Hotel Jaraguá, a Biblioteca Mário de Andrade, sem falar na mudança da Prefeitura de São Paulo para o Edifício Matarazzo, o "Banespinha".

A ampliação das atividades do Theatro e de seu apelo à população, de forma não pendular (para não criar apenas fluxos noturnos ou diurnos), é importante no processo de revitalizar/repovoar o Centro.

No entanto o prédio concebido pelo escritório de Ramos de Azevedo, e inaugurado em 1911, não se ajusta aos usos que dele se faz hoje, o que gera carência de espaços adequados para funções elementares como manutenção, limpeza, bilheteria e mesmo atividades administrativas. Portanto, torna-se impensável a ampliação de atividades dentro do quadro atual.

Proposta

Analisando-se a área de entorno, observamos a subvalorização de espaços muito interessantes, como as galerias subterrâneas que ligam o subsolo do Theatro à Praça Ramos de Azevedo. As galerias eram utilizadas para ventilação da platéia e hoje encontram-se desativadas, sendo utilizadas como depósito de material de manutenção e de jardinagem. Valorizar esses espaços tão ricos geraria, sem dúvida, impactos muito positivos na Praça Ramos de Azevedo e no deteriorado Vale do Anhangabaú.

Observa-se também que na Escola de Bailado e no Museu do Theatro Municipal (no Viaduto do Chá) há um aspecto de "provisoriedade" em sua ocupação e de "aprisionamento" à impossibilidade de intervir na arquitetura do Viaduto. Isso pode se observado com a vedação improvisada que se utilizou para desativar a escadaria que leva do Museu ao piso inferior do Viaduto.

Ainda há, atrás do Theatro, na esquina da Rua Conselheiro Crispiniano, um prédio deteriorado e sem características de interesse arquitetônico, que era ocupado pelas Casas Bahia. Esse imóvel faz divisa com o Cine Marrocos e com o Hotel Esplanada, dois prédios com indiscutível importância histórica e arquitetônica.

Centro Cultural

A princípio pensou-se em utilizar esse terreno de esquina para um prédio complementar ao Theatro, abrigando o corpo administrativo e o Museu, e liberando espaço do Viaduto do Chá e dos camarins do Theatro, hoje utilizados em parte como salas administrativas. Pensou-se em interligar os dois pontos através das galerias subterrâneas da Praça Ramos, construindo novos nichos e criando um único complexo.

Estudando a idéia, passou-se a um redesenho das galerias subterrâneas, com pés-direitos maiores, abrindo-se (visualmente) para o Vale do Anhangabaú, Dessa forma, ganhou forma a atual proposta apresentada aqui: um complexo de atividades complementares ao Theatro, construído atrás de suas instalações, vizinho ao hotel e ao cinema, formatando um edifício que abriga toda a administração do espaço e também da Escola de Bailado. Seu subsolo se liga a uma galeria de salas subterrâneas onde se instalarão as atividades da Escola, novas salas de ensaio de música e uma pequena Sala de Teatro (Dramático). Esta galeria liga-se ao viaduto do Chá que, por sua vez, reorganiza o espaço interligando o piso da Praça Ramos ao piso inferior: no primeiro piso propõe-se um restaurante e no segundo um acervo de material audiovisual relacionado ao Theatro Municipal. Esse é/seria o Centro Cultural Theatro Municipal.

O Edifício

O edifício proposto para a esquina da Rua Conselheiro Crispiniano tem seis andares (mais térreo e subsolo). Seu gabarito procura alinhar-se ao hotel Esplanada, ao mesmo tempo mantendo o recuo lateral em relação a esse. O edifício recua ao alinhamento da calçada, em direção ao fundo do terreno, minimizando o bloqueio visual da fachada lateral do hotel. Para isso (permitido pela orientação favorável) propõe-se ele inteiramente de vidro (plantas e corte abaixo).

A laje que cobre o térreo e avança sobre a calçada cria um espaço de circulação protegido, procurando redesenhar a esquina. No primeiro andar, ela serve como varanda a ser utilizada como área comum pelos funcionários do prédio.

Localizou-se toda a circulação vertical na parte posterior do terreno, junto à empena cega do cine Marrocos. O acesso social se dá pela divisa com o hotel, enquanto há um acesso especial de serviço, com garagem para carga e descarga, pela Rua Conselheiro Crispiniano.

O buraco em que se vê, do térreo, o subsolo, revela o centro cultural emergindo da terra. Cercado por caixilhos reversíveis, pode ser utilizado para exposições e eventos, permitindo a apreciação ou interação do público transeunte. O acesso ao pátio se dá por uma escada situada junto ao acesso à circulação vertical do edifício.

Galerias Subterrâneas

A exemplo das galerias que já existem abertas para a Praça Ramos, propõe-se a escavação de todo o subsolo da rua lateral ao Theatro a fim de obter novas e maiores galerias, que possam ser utilizadas para diversas atividades, como ensaio de música e teatro pela Escola de Bailado. Grandes caixilhos de vidro revelam as atividades internas. A fonte permanece intacta e por trás dela também corre o caixilho.

Por dentro, o acesso às salas se dá pela escada que liga a passarela na mesma cota da Praça Ramos à cota inferior. A circulação pelas passarelas revela o que acontece nas salas, através dos caixilhos que todas têm voltados para a passarela (cortes na página anterior).

Os pés-direitos diferenciados entre as salas justificam-se pela iluminação: os que não puderam ter abertura direta para o Anhangabaú dividem-se em duas salas de pé direito normal e recebem iluminação indireta através de um poço inglês.

Propõe-se também a construção de uma pequena sala de teatro, com um desnível significativo entre o fundo da platéia e o palco e na qual, devido à ausência de altura para uma caixa de palco, as baias com iluminação e cenários correm lateralmente.

Os vestiários localizam-se no meio das galerias, sendo o feminino sobre o masculino. Há também duas ligações com o Theatro Municipal (já existentes) permitindo-se o livre acesso ao salão dos arcos, incorporando esse espaço de exposições ao centro cultural.

Viaduto do Chá

Quanto ao Viaduto do Chá, uma vez deslocadas as atividades da Escola de Bailado, o espaço fica livre para nova ocupação: um foyer para todo o conjunto e um restaurante no nível da praça. Toda caixilharia é modificada e aumentada, ampliando as aberturas para captação de luz natural.

Reabilita-se os acessos à Rua Xavier de Toledo e à escada que liga esse piso ao inferior para o qual se propõe um centro de consulta e empréstimo de acervo áudiovisual referente ao Theatro Municipal (música clássica, dança e teatro). Há também um café nesse piso.

Fecham-se os acessos ao Anhangabaú e cria-se um novo acesso de serviço pelos fundos (divisa com o Shopping Light). Por ali chega-se às salas de manutenção e limpeza. A escada e um elevador dão acesso à área de serviço do restaurante, além de toda entrada de alimentos. Por fim, para saída de lixo, abre-se uma porta junto à escada já existente no Viaduto do Chá.

*Arquiteto formado na FAUUSP em 2004 (fabio_frutuoso@hotmail.com).

Fotos: Ricardo Lima (rico@poloweb.com.br). Simulações eletrônicas: A Casa de Carmem Miranda Digitalização Espacial (acasadecm@hotmail.com).


  Idéias  

Reinvenção da Metrópole e Reabilitação do Planejamento (Antônio Marcos Capobianco*)



O planejamento é indispensável à gestão e ao próprio viver. Isso é tão óbvio quão benéfico é pensar o futuro, e prever, prevenir, prover, precaver, providenciar. Todavia, planejar é também ordenar, regular, restringir, contrariando inevitavelmente objetivos de segmentos da sociedade, em benefício do conjunto. Isso vale tanto para o planejamento econômico-social quanto para aquele mais de cunho territorial urbano. No planejamento urbano, local ou regional, o maior interesse confrontado é o do segmento ligado à produção física da cidade, e muitas vezes o dos operadores políticos contrários às restrições de uso do solo. Nas últimas décadas o planejamento foi atacado à esquerda e à direita; o planejamento econômico foi acossado à direita por sua natureza restritiva ao próprio espírito do capitalismo, ao laissez faire, tachado de limitador do crescimento. Note que o keinesianismo (do entre guerras até o início dos anos 70) significou também uma contra-ofensiva, ou melhor, um "doar os anéis" do capitalismo ante o avanço do socialismo, com maior intervenção e regulação estatais, maior planificação. A consolidação da hegemonia do capitalismo, especialmente nos anos 80, traduz-se também como relativa perda de espaço do planejamento do desenvolvimento econômico, especialmente nos países periféricos (Estado mínimo/"mercado máximo"; desregulamentação; privatização etc.).

O planejamento urbano mutatis mutandis foi atacado pelas mesmas razões. Foi fustigado pela esquerda (marxista) que, vendo os problemas urbanos como contradição de classes, via o planejar físico-territorial como amortecedor dessas contradições, garantia da continuidade do sistema. Pois o planejamento subsistiu aqui e alhures, com maior ou menor vigor e resultados. A partir de 1973 foram institucionalizadas as primeiras Regiões Metropolitanas (RMs). A despeito de contarem com recursos consideráveis para a infraestrutura, a crise fiscal do "milagre" mostrou as insuficiências do modelo ultracentralizador e padronizador (dos serviços/funções públicas de interesse comum, ao desconsiderar sua diversa importância em cada região).

A Constituição Federal de 1988 promoveu a descentralização política e tributária, aportando grande autonomia política aos municípios, que galgaram a posição de entes federativos, passando o Brasil a ter um dos mais descentralizados sistemas tributários entre os países em desenvolvimento. Esse espírito reativo ao centralismo do regime autoritário contribuiu para debilitar a questão metropolitana na Constituição Federal e nas estaduais. A questão foi tratada de forma um tanto superficial e fragmentada. Em São Paulo a única função pública de interesse comum mencionada claramente foi o transporte coletivo. A participação da sociedade civil também é colocada de forma genérica.

Com o Executivo estadual tendo a Autarquia e o Conselho de Desenvolvimento da RM a ele vinculados e detendo a maioria da representação, num quadro de escassos recursos financeiros, deu-se o esvaziamento progressivo da coordenação da integração intermunicipal.

Mas o nó metropolitano resulta mais da ausência de um modelo que some as autonomias, dissolvendo suficientemente as soberanias num comando realmente integrado e coercitivamente monolítico.

Embora a descentralização tributária tenha incrementado a capacidade de investimento municipal, a redução das inversões de recursos federais nas RMs, e o repasse de novas funções e serviços à tutela dos municípios, num quadro recessivo, fez agravar a situação social. Nesse cenário, e com a crise fiscal que atravessou os anos 90, deu-se o progressivo esvaziamento da coordenação (estadual), da integração intermunicipal e das políticas e agências metropolitanas.

Cerca de 42% dos municípios brasileiros têm alto Índice de Exclusão Social (IES), e 86% deles estão no Norte e no Nordeste1. Todavia, esses 42% representam apenas 21% da população. E nas RMs estão cerca de 40% da população total do País (20% concentram-se em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) ou 84% da população apenas urbana. Ocorre que as RMs apresentam um quadro de miséria e extrema desigualdade social2. Em 11 delas concentram-se 78% da população favelada e 33% do déficit habitacional do país3. Acumulação de riqueza e a miséria convivem mesmo na capital paulista, onde mais de 2 milhões de pessoas vivem em mais de 1,5 mil favelas4. Em 2002 ocorreram 40 chacinas e em 2003 a média de assassinatos foi de 12 por dia. Distritos da periferia registram taxas de homicídio superior a 80 (por 100 mil habitantes), enquanto outros têm taxas abaixo de 10.05. E a desigualdade se reproduz entre os municípios da RMSP, onde temos São Caetano do Sul entre os cinco com mais alto Índice de Desenvolvimento Humano do Estado, e outros em péssima situação, como Francisco Morato na 606ª posição6. O crescimento das áreas periféricas foi assustador: a população do Distrito de Anhangüera aumentou 619%; a de Cidade Tiradentes, 2.114%; e a de Parelheiros (totalmente em área de mananciais), 223%. Os moradores estão migrando da área urbanizada para as periferias desprovidas de equipamentos.

A pior situação das RMs vis-à-vis as outras áreas é verificada também pela maior perda de renda dos 40% mais pobres, pela maior concentração de renda, pelo maior número e crescimento dos índices de desemprego.

Felizmente há indícios de que o planejamento e a gestão metropolitanos vêm sendo reabilitados no Brasil (nesse planeta, essa nave Gaia que já em 2007 terá a maior parte dos passageiros vivendo nas cidades). O Governo Federal demonstra grande interesse pela questão, tendo criado inclusive a sub-chefia de Assuntos Federativos, que dialoga com três Associações Nacionais de Prefeitos. O Ministério das Cidades promove constantes discussões sobre a questão metropolitana, prevista também na construção da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU); a Prefeitura de São Paulo deu destaque ao tema no Congresso da URBIS em 2004; a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (EMPLASA) dedica-se ao processo de construção da Agenda Metropolitana de Ações Estratégicas.

Já está na Câmara dos Deputados o PL 3.460/04 - "Estatuto da Metrópole" -, que institui diretrizes para a Política Nacional de Planejamento Regional Urbano (PNRU) e cria o Sistema Nacional de Planejamento e Informações Regionais Urbanas. A PNRU "caracteriza-se por um conjunto de objetivos e diretrizes, por meio da qual a União, em articulação com os Estados, Distrito Federal e Municípios integrantes de unidades regionais urbanas, estabelecerá critérios para a organização regionalizada do território nacional, de modo a assegurar o equilíbrio do desenvolvimento dessas unidades e do bem-estar da população".

O Projeto de Lei atribui à União, através do Ministério das Cidades - de forma articulada com as unidades subnacionais regionais urbanas - a elaboração dos planos nacional, regionais e setoriais urbanos de ordem territorial e de desenvolvimento econômico e social, a serem instituídos por lei. O PL reforça os mecanismos para a responsabilização política (accountability) e controle social, através de audiências públicas no processo de elaboração dos planos e relatórios de acompanhamento e avaliação da sua eficácia. Prevê também a participação da sociedade civil organizada no Grupo de Assessoramento Técnico, para a formulação da PNRU, remetendo, todavia, à póstera resolução do Ministério das Cidades as condições dessa participação. Não trata dessa participação diretamente nas RMs. Também não interfere na soberania atual do Executivo Estadual em face da Agência e do Conselho de Desenvolvimento da RM. Ampliam-se as competências do Ministério das Cidades, que poderá propor critérios de compensação financeira aos municípios integrantes de unidades regionais urbanas.

A despeito de sua importância, o projeto, que não foi proposto pelo governo, não tem tramitado com celeridade. A relatoria mantém o parecer favorável e prevê audiências públicas para abril.

A outra grande novidade é o PL 3.884/2004, enviado pelo Presidente da República ao Congresso, em 06/2004, para regulamentar o Art. 241 da Constituição no que tange aos consórcios públicos. É saudado como incrementador da cooperação entre os entes federados e do próprio pacto federativo. Não retira do Estado membro a competência constitucional para criar RMs, aglomerações urbanas e micro-regiões. O PL é positivo também na medida em que, sem criar novo ente federativo, disciplina a associação dos entes existentes de todos os níveis, dando a necessária solidez à integração e à cooperação federativas. Com a participação da União facilita-se o incremento do financiamento e da fiscalização dos recursos aplicados nas áreas abrangidas pelos consórcios.

O PL não afronta (inconstitucionalmente) a autonomia dos entes e nem a União interfere indevidamente em questões dos Estados e municípios, pois a adesão ao Consórcio Público é voluntária e, além disso, sua criação é condicionada à participação do Estado membro.

Todavia, mesmo com personalidade jurídica, com direitos e obrigações e saindo do informalismo e voluntarismo atuais, os consórcios públicos são uma via auxiliar e nunca um sucedâneo ao Sistema de gestão e de planejamento metropolitanos, inclusive porque, por sua natureza, não congregam o conjunto dos municípios da RM e nem o conjunto dos setores e funções públicas de interesse comum, dentre outras diferenças.

A RMSP permanece até hoje à margem do que preconizam as Constituições Federal e Paulista, e a Lei Complementar 760/94, que regula as RMs paulistas, como efetivamente ocorre com as da Baixada Santista e da Região de Campinas. Em novembro passado o governador Geraldo Alckmin anunciou a preparação de projeto de lei complementar para a (re)institucionalização da RMSP, com a criação de novos Conselho, Agência e Fundo de Financiamento e Desenvolvimento. Nesse sentido é algo auspicioso o apoio político à medida já externado até por prefeitos do PT na RMSP, e a possibilidade de o Fundo começar com um montante razoável de recursos.

O impasse do modelo brasileiro de gestão metropolitana talvez esteja mostrando que é imperativa a necessidade de ir além, de renovar radicalmente o arcabouço institucional que rege as relações intergovernamentais metropolitanas, buscando avaliar experiências de outros países e extrair o que há de proveitoso, adaptar as boas soluções e moldar o formato adequado à nossa realidade política e cultural. Vale dizer, discutir nova estrutura federativa e a criação de novo ente - federativo ou não - similar, por exemplo, ao condado ou ao Kreis alemão, em cujo molde se dissolvam (na medida necessária) a atual autonomia municipal do município metropolitano e a atual coordenação do Estado membro.

Competição entre os municípios, descontinuidade político-administrativa, diversidade de porte econômico e político dos municípios, diversidade de projetos político-partidários, dentre outros, são fatores que agravam a dificuldade maior, que no caso das regiões metropolitanas é a própria autonomia política desses municípios. A grande interdependência dos municípios metropolitanos - com maior ou menor conurbação, mas muito interesse comum (funções públicas) - exige reformulação do modelo de articulação e do papel dos entes políticos, impõe maior homogeneização do conjunto.

Tudo deve ser discutido: eleição por sufrágio universal de representação legislativa (ou também executiva, dependendo do modelo), portanto com poder de editar leis e regular os assuntos metropolitanos; e arrecadação tributária. Isso já ocorreu em muitos lugares.

Cabe ao Congresso Nacional e à sociedade enfrentar a questão. E para apressar o processo poderá a própria sociedade - agora com o aperfeiçoamento em curso (PEC 194/2003) da Iniciativa Popular na proposição de projeto de lei - exercer a sua soberania.

*Antônio Marcos Capobianco, sociólogo, desenvolve a questão no ensaio Relações Intergovernamentais na Metrópole - Adequação Institucional para a Ação (Instituto de Estudos Avançados IEA/USP - Coleção Documentos, nº 26, 24 p., 2004/SP) e em outra versão publicada na Revista de Administração Municipal (IBAM, nº 252, março-abril, 2005/RJ). Publicou na Folha de S. Paulo (p.A-3,Tendências/Debates, 27-07-04) versão sucinta e menos abrangente do presente artigo. e-mail: marcap@uol.com.br




  Mix Mesa  


Tempero baiano, pasta e vino (Por Claudia Casanova)

Segunda-feira. Ainda não são nove horas da manhã e a sinuosa Rua Avanhandava já tem um intenso movimento de veículos e pessoas que fazem entregas aos restaurantes ali localizados. No interior da cantina Famiglia Mancini o clima não é diferente: o salão do restaurante passa pela limpeza diária e muitos funcionários andam apressados de um lado ao outro para garantir que às 11h15, horário em que chegam os primeiros clientes, tudo esteja em perfeita ordem.

O preparo dos pratos é função do baiano José Vieira de Souza, o Zezito. Natural de Botuporã, o chef começa sua rotina fazendo o inventário de tudo o que há na casa. A responsabilidade é grande pois, para se ter uma idéia, para a preparação da comida tipicamente italiana, a casa utiliza 320 kg de tomates por dia e uma tonelada de massa por mês.

Depois de contabilizar o que há na cantina, Vieira começa a preparar os pratos mais difíceis e demorados, como a perna de cabrito e a lasanha. São centenas de tipos de pratos para atender as quase mil refeições servidas por dia. São 70 tipos só de molho. É claro que Zezito não faz tudo sozinho: sua equipe conta com sete cozinheiros e sete ajudantes. A famosa mesa de buffet, com mais de 100 tipos de antepastos, é preparada por outra equipe, treinada para isso: "Sempre foi essa fartura de comida, mas como tudo é feito bem no capricho, tudo tem sucesso", afirma sorrindo.

A familiaridade com as panelas começou desde cedo: "Eu nasci e me criei na roça. Em casa, quando era criança, ajudava minha mãe a fazer a nossa comida caseira. Eu ia com ela para o fogão e cozinhávamos de tudo". Por pouco, quando veio para São Paulo em 1972, o chef não acaba em outra profissão: "Quando cheguei aqui trabalhei durante 21 dias em uma obra. Não gostei do serviço e pedi demissão. No mesmo dia soube de uma vaga em um restaurante". Desde então só trabalhou na área, inclusive no tradicional restaurante Gigetto, outra estrela da Rua Avanhandava - e a única que não pertence aos Mancini.

O baiano de 47 anos se tornou chef em 1993, ano em que foi convidado para trabalhar no Famiglia Mancini. O gerente da cantina o avisou que ele havia sido indicado e queriam que ele fosse o chef. "Respondi que pelo conhecimento que tinha não custava nada tentar. Graças a Deus até hoje estou aqui."

A criação dos pratos tem sempre a marca do restaurateur Walter Mancini: "Ele traz a idéia, nós formamos o prato". E as inovações sempre acontecem: "O sr. Walter está viajando, com certeza quando ele chegar coisas novas entrarão". Zezito fala sobre o chefe com muito carinho: "Ele entra e fala com todo mundo, cumprimenta a todos, não interessa se é o chef, o cozinheiro, o ajudante, todo mundo para ele é igual". O resultado se reflete nos funcionários, que trabalham sorrindo e se transformaram, como finaliza o simpático chef "em uma família mesmo".

O Famiglia Mancini

A tradição de 25 anos em funcionamento aliada à comida farta e saborosa transformaram o Famiglia Mancini em um dos ícones da gastronomia italiana em São Paulo. A casa se destaca também pelo ambiente: objetos antigos, máscaras venezianas e uma galeria de fotos de artistas nacionais e internacionais que conheceram e freqüentam o restaurante.

No cardápio, massas, carnes, peixes e frutos do mar. Os antepastos também são uma atração. Um dos pratos mais pedidos é o Mezzaluna à Mama di Lucca. "É uma massa feita com o mesmo formato do ravióli e recheada com queijo e tomate seco. O molho é feito com tirinhas de filé, creme de leite, gorgonzola e um pouco de molho ao sugo para ficar rosado. Fica um molho bonito", explica Zezito.

A cantina é um dos quatro restaurantes de propriedade do paulistano Walter Mancini. Os outros - Walter Mancini Ristorante, Avanhandava 34 e Camarim 37 - também ficam localizados na Rua Avanhandava. Juntos, formam um império gastronômico localizado em pleno coração da cidade.

Famiglia Mancini - Endereço: Avanhandava, 81 - Bela Vista (B6, A7) Tel.: (11) 3356-4320


  Mix Artes e Espetáculos  


Sociedade de Cultura Artística inicia temporada 2005 de música erudita

Concertos para violoncelo inauguram a Temporada Internacional do Cultura Artística na Sala Esther Mesquita. Nos dias 25 e 26 de abril, Antônio Meneses, renomado solista e camerista brasileiro, apresenta seu programa que traz a integral das suítes de Bach para violoncelo solo. Natural de Recife, o músico ganhou notoriedade internacional quando conquistou, em 1982, a medalha de ouro no Concurso Tchaikovsky.

A temporada segue nos dias 12 e 19 de maio com o concerto do grupo holandês Combattimento Consort Amsterdam. Formado há 20 anos, o grupo é liderado pelo violinista Jan Willem de Vriend e tem a peculiaridade de investir em obras quase desconhecidas. Muitas dessas obras foram resgatadas de bibliotecas antigas e existem apenas em manuscritos. O mês de maio ainda traz as apresentações do Quarteto Guarnieri, Arnold Steinhardt, John Dalley, Michel Tree e David Soyer.

A casa ainda receberá, nos dias 20 e 21 de junho, a Lincoln Center Jazz Orchestra, que é liderada pelo famoso trompetista Wynton Marsalis; nos dias 29 e 30 é a vez de Il Giardino Armonico, grupo formado por jovens músicos formados em importantes escolas européias.

A programação do segundo semestre e as informações sobre as assinaturas para a temporada podem ser obtidas no site http://www.culturaartistica.com.br

Sociedade de Cultura Artística (B6-84) R. Nestor Pestana, 196 São Paulo - SP Fone (11) 3256-0223

Henry Moore na Pinacoteca

No próximo ano, o prédio da Pinacoteca do Estado celebrará seu centenário, mas as comemorações já começam em abril de 2005, com a apresentação da primeira retrospectiva do inglês Henry Moore (1898-1986) no país.

Considerado um expoente da escultura moderna e um dos maiores artistas do século 20, cerca de 300 peças - entre esculturas, desenhos e gravuras - serão expostas em sua mostra.

Uma das características principais do artista é privilegiar o aspecto tátil em suas obras. Para Moore, cada material tinha suas próprias qualidades individuais, que deveriam ser utilizadas ativamente no processo criativo. Grande parte de seu trabalho é inspirado em formas do mundo natural, muitas vezes na figura humana. A imagem de uma mãe junto ao filho e a figura feminina recostada estão entre seus temas preferidos.

Pinacoteca do Estado (E2-100) Praça da Luz, 2 Fone (11) 3299-9844.

Aberta de terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia), grátis aos sábados.


Encontros Estéticos

Com o intuito de contribuir para a agitação intelectual paulistana, o Conjunto Cultural da Caixa - Galeria Paulista - promove, durante todo o ano, o ciclo de palestras "Encontros Estéticos". Enfocando temas de variadas manifestações de arte, em abril estão programados cinco encontros, sempre às 20h.

Dia 26 - Palestra do artista com exposição no Conjunto Cultural da Caixa em São Paulo

Dia 27 - O Teatro Futurista - Mt. Vera d´Agostino (atriz, professora da Faap-SP)

Dia 28 - Processos Indutivos na criação artística - Dra. Ana Maria Guimarães Jorge (professora de Mídias Digitais da Faap - SP)

Dia 29 - As dimensões no campo das artes Visuais - Mt. Antônio Santoro Júnior (museólogo, crítico ABCA, APCA e AICA)

Dia 30 - Pascal: A Estética da Verdade - Dr. Luís Felipe Ponde (filósofo, professor Faap-SP e PUC-SP). Este encontro acontecerá às 17h.

A duração de cada palestra é de aproximadamente 50 minutos. Mais informações no telefone (11) 3107-0498.

CCBB: Quatro Anos com Muita Agitação

Para comemorar seus quatro anos de funcionamento, o Centro Cultural Banco do Brasil apresentará diferentes eventos especiais como exposições e peças teatrais. Entre as exposições, as comemorações começam com um grande panorama das obras de Farnese de Andrade. Conhecido por elevar à categoria de arte peças como armários, oratórios e outros objetos considerados de segunda mão, a mostra "Farnese: Objetos" estreou em 16 de abril.

São 130 peças, algumas inéditas, que mostram o aspecto singular das obras do artista mineiro. Os trabalhos se espelham na face de medo, espanto e sonho do homem contemporâneo. Entrada franca.

Exposição mostra As cores de Alfredo Oliveira

Dia 14 de maio o Centro Cultural Banco do Brasil inaugura a exposição com as obras mais recentes do artista autodidata Alfredo Oliveira. Representado através de 50 obras em guache sobre papel trabalhado, todas têm 22 X 22 cm e mostram as diferentes correntes estéticas com as quais o artista interage: do concretismo sul-americano a colagens cubistas. As cores são muito valorizadas e, por meio delas, algumas composições ganham nomes próprios. Belém, por exemplo, refere-se a trabalhos que utilizam, na composição, os mais diversos tons da fruta que caracteriza as avenidas e alamedas da cidade paraense, a manga.

Formado em Economia pela Universidade Mackenzie, Alfredo viveu em Nova York por dez anos. Foi nessa época que ele aprimorou sua veia artística e estreou sua primeira exposição. Em cartaz até 19 de junho, a entrada é franca.

Um Homem Indignado

PUm estúdio alugado é palco do último espetáculo de um velho ator: ele prepara a gravação de sua própria morte e, enquanto isso, conversa com antigos companheiros de profissão, jornalistas, um político e até uma candidata à atriz. Essa obsessão que o personagem tem pela imagem, que fará de sua morte uma espécie de reality show, é o tema de "Um Homem Indignado", monólogo escrito e encenado por Walmor Chagas para comemorar os 55 anos de carreira. A obra ce-lebra também os quatro anos do CCBB.

Dirigida pelo cineasta Djalma Limongi Batista, a peça une a linguagem teatral a recursos audiovisuais. Foi essa técnica que permitiu que Walmor contracenasse com personagens virtuais que acompanham seus últimos momentos de vida. Com duração de 70 minutos, a peça estreou dia 17 de março no Centro Cultural Banco do Brasil e fica em cartaz até 22 de maio. Recomendada para maiores de 12 anos. Os ingressos custam R$ 15,00 e R$ 7,00 (estudantes, maiores de 60 anos e classe teatral).

CCBB (E5-45)

R. Álvares Penteado, 112 São Paulo - SP

Fone (11) 3113-3651

Monólogos no Centro

Além do monólogo "Um Homem Indignado", em cartaz no CCBB, quem é fã do gênero tem mais duas opções em casas culturais da região central.

- "O Céu É Cheio de Uivos, Latidos e Fúria dos Cães da Praça Roosevelt", de Jarbas Capusso Filho, traz um prostituta, Noemi, às voltas com seu envelhecimento. Sem boas perspectivas de vida ela convive com os fantasmas do passado e se vê atormentada pela ação destrutiva de um cliente assíduo. Com direção de Alberto Guzik, a obra fica em cartaz no Espaço de Satyros até o final de maio.

- Adaptação inglesa do livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o monólogo "Brás Cubas, Últimas Palavras", tem autoria do professor canadense Powell Jones, que reside em Londres. Trazida por Zadoque Lopes, diretor brasileiro e ex-aluno de Jones, a obra esteve em cartaz no Teatro Fábrica São Paulo até 24 de abril e reestréia na primeira quinzena de maio no Teatro Sérgio Cardoso.


  Mix Livros  


Diagnóstico do Centro

Em 2004 muito se falou sobre o empréstimo que a Prefeitura paulistana obteve com o BID para o programa Ação Centro - projeto que prevê mais de 130 ações na região central. Para a contratação do financiamento, uma série de estudos foi solicitada pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) ao Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Compilados no livro Caminhos para o Centro - Estratégias de desenvolvimento para a região central de S. Paulo, a obra revela-se uma referência para estudantes, pesquisadores e interessados no assunto pois colabora para o entendimento da dinâmica da região. Os estudos nos permitem conhecer as principais causas associadas à deterioração do Centro, o perfil das atividades que ainda se mantém dinâmicas, os principais obstáculos ao desenvolvimento econômico-social, além de oferecer sugestões de diretrizes e ações. A obra não é vendida ao público, mas pode ser consultada na bibilioteca da Associação Viva o Centro. A Associação possui também uma versão digital do livro que pode ser copiada. Mais informações sobre a biblioteca no site www.vivaocentro.org.br

Transporte público

Nos ambientes urbanos podemos perceber que a qualidade de vida está ligada diretamente ao transporte e a sua capacidade e forma de garantir o deslocamento das pessoas. A obra Transporte Público Urbano (Rima Editora, 388 páginas, R$ 36,80), de Antônio Clóvis Pinto Ferraz e Isaac Guilherme, traz a busca de sistemas de transporte mais racionais que garantam mais qualidade e eficácia do serviço - o que resultaria na melhora das condições de vida dos cidadãos.

Estudantes e profissionais que tenham interesse na área encontrarão no livro os fundamentos do transporte público, com destaque para o ônibus. A obra foi produzida a partir da adaptação de textos antigos dos autores e de material produzido para outras publicações.

Transformação da cidade

Publicado originalmente pela editora Duas Cidades, o livro São Paulo, Três Cidades em um Século (Cosac & Naif, 191 páginas, R$33,00), de Benedito Lima de Toledo, estava fora de catálogo há anos. Reeditado pela Cosac & Naif com projeto gráfico e texto renovados, a obra mostra a importância da fotografia como ferramenta de pesquisa e reflexão sobre a vida das cidades. As imagens utilizadas, quase todas pertencentes ao acervo do autor, revelam uma relação entre as duas paixões de Toledo: a fotografia e a arquitetura. O livro, que já está na terceira edição, é uma reveladora viagem pelo tempo que nos remete a um questionamento: as construções e destruições das cidades devem prosseguir? Nesse sentido, a obra é um importante instrumento para a ação de planejar as cidades. A publicação ainda traz um mapa que localiza os pontos aproximados onde os autores de algumas imagens se posicionaram para fazer as fotografias.

A história do comércio

A história dos imigrantes árabes e da Rua 25 de Março do fim do século XIX ao início do século XXI. É esse o período retratado por Rose Koraicho no livro 25 de Março: Memória da Rua dos Árabes (Editora Kotim, 162 páginas, R$250,00) para reconstruir a memória de um povo que foi o precursor na formação do comércio em São Paulo.

A idéia de produzir a obra surgiu quando Rose, descendente de sírios, desembalou uma caixa de pertences de seu falecido pai, Fuad Koraicho, e deparou com muitos jornais e recortes sobre as realizações do comerciante. No material encontrado havia também muitos documentos e fotos de personagens que ajudaram a construir a rua. Para realizar o trabalho, a autora teve a colaboração da historiadora Soraya Moura e da redatora Laís de Castro. O design do livro é bastante caprichado, a começar pela capa que é uma réplica da placa da rua. Infor-mações para adquirir o livro no site www.koema.com.br

São paulo e sua gente

Uma homenagem aos habitantes que acompanharam as transformações da capital paulistana no período em que a cidade registrou seu mais decisivo e estrondoso progresso. Mais do que isso, São Paulo, 1860-1960, A Paisagem Humana (Editoras Albatroz e Terceiro Nome, 256 páginas, R$140) é um livro dedicado aos detalhes: o cotidiano, os costumes, a riqueza, a pobreza e o vestuário, enfim, a essência da metrópole. Os paulistanos podem ser vistos nas mais diversas situações, como nas comemorações do 4° Centenário, na celebração da Copa do Mundo de Futebol de 1954, na Revolução de 32, ou simplesmente andando pelas ruas da cidade.

A obra é uma parceria das editoras Albatroz, de Ruy Mesquita Filho, e Terceiro Nome, de Mary Lou Paris - membro do Conselho Editorial da revista urbs. São 230 imagens em preto e branco que pertencem, em sua maioria, aos arquivos do jornal

O Estado de S. Paulo. Dividido em décadas, cada período é introduzido pelos textos do jornalista Fernando Portella. O leitor também é contemplado com textos de intelectuais e personalidades da época retratada.





  Mix Sites  


Itaú cultural: www.itaucultural.org.br

Quem acessa o site do Itaú Cultural apenas para pesquisar a programação da casa, irá se surpreender. Além de divulgar os eventos, a página é uma grande biblioteca virtual sobre diferentes elementos da cultura brasileira. O internauta tem à disposição uma revista on-line, a "Cibercultura" e a "Enciclopédia Artes Visuais" - na qual pode encontrar mais de 3 mil biografias de artistas brasileiros ou estrangeiros que trabalham no Brasil, além de pesquisar conceitos de diferentes escolas e movimentos artísticos. Visitas virtuais a igrejas brasileiras e uma aventura para encontrar quadros do Academismo Brasileiro são algumas das surpresas que a Midiateca reserva.

New york changing: www.newyorkchanging.com

Os mesmos lugares de Nova York, a mesma câmera fotográfica, o mesmo dia e hora. De diferente apenas o fotógrafo e o ano: são mais de seis décadas que separam as fotos feitas por Berenice Abbott, trabalho realizado em 1930, e Douglas Levere, com imagens produzidas entre 1997 e 2003. O resultado - publicado no livro New York Changing - é uma prova em preto e branco da transformação sofrida pela cidade que hoje é tida como a capital do mundo.

O site da publicação traz 42 pares de fotos que valem a pena serem vistas. A página traz também uma entrevista em vídeo com Levere. Em inglês.

My city: www.mycity.com.br

Foi entre os meses de março de 1999 e dezembro de 2000 que o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro sediou a primeira exposição mundial de citywebdesign. Trata-se de um projeto cultural que selecionou 46 web designers para que cada um produzisse um site sobre o lugar onde haviam nascido e crescido. Ao todo, 43 cidades do mundo estão representadas, entre elas, Jacarta, Bangkok, Cingapura, Oslo e São Paulo. Mesmo tendo acontecido há bastante tempo, vale a pena conhecer as páginas produzidas pelos artistas. A maioria dos sites está em inglês.

Di Cavalcanti: www.dicavalcanti.com.br

Dedicado ao pintor Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo, o Di Cavalcanti, o site traz informações sobre sua vida e obra, fotos e algumas reproduções de suas telas, entre elas "Paquetá" e "Duas Mulatas".

Considerado um dos primeiros artistas a buscar uma linguagem plástica brasileira, os dados e imagens estão divididos por década - dos anos 30 aos anos 70 - e uma cronologia traça um panorama de toda a carreira do pintor carioca.





  Notícias  


Educação Ambiental, mais uma edição

Pelo terceiro ano consecutivo, a Associação Viva o Centro estabelece parceria com o Centro de Educação Ambiental (CEA) Jardim da Luz para proporcionar aos membros das Ações Locais mais um curso na área. Na atual edição o curso tem como tema a "Educação Ambiental como Projeto" e o objetivo de contribuir com o processo de sensibilização das pessoas para as questões ambientais com as quais todos convivemos no dia-a-dia. A região central é tomada como exemplo por refletir os problemas existentes nas demais regiões da cidade, servindo de ponto de partida para amplas reflexões sobre qualidade de vida em geral. As aulas, na sede da Associação, irão até meados do ano.

Mídia apóia Viva o Centro por um Anhangabaú renovado

Jornais como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Comércio e DCI, além de emissoras de rádio, como a Eldorado e Bandeirantes, e de televisão, como a Cultura e a Globo, dedicaram amplas reportagens à proposta formulada pela Associação Viva o Centro para que a Prefeitura restaure o tráfego local no Vale do Anhangabaú e promova a revisão e o aperfeiçoamento de todo o sistema de calçadões do Centro da cidade de São Paulo. A proposta, festejada por José Serra ainda candidato, foi entregue em janeiro ao subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo, e ao presidente da CET, Roberto Scaringella, e está em estudos em instâncias técnicas municipais no momento. Como ponto alto, editoriais do Estadão e do JT, de 9 de fevereiro, firmaram posição: "A região central pode ganhar vida com a reabertura do Anhangabaú ao trânsito local".

Publicidade luminosa no Centro de São Paulo

Valentim Germano Bruno Sola, dono da Publitas Comunicação Visual, anunciou em visita à Associação Viva o Centro a inauguração de um luminoso do Bradesco no topo de um dos prédios da Rua Maria Paula. O painel de 35 metros de comprimento por sete metros de altura tem o nome do banco em tubos de neon, além de um relógio e um termômetro que exibem suas informações a cada dez segundos. Com vista total para o Vale do Anhangabaú, o luminoso é um serviço de utilidade pública para aqueles que transitam pelo Vale. E a intenção de iluminar a região continua. Valentim Sola espera, se tudo der certo nas negociações, instalar outro grande luminoso: agora no topo do Edifício Zarzur e Kogan.

Um outro painel também está prestes a ser reinaugurado na Praça Ramos de Azevedo por iniciativa do Banco Itaú, associado à Viva o Centro. Em um trabalho institucional do banco afinado com o processo de requalificação do Centro, o luminoso será o primeiro relógio que trará a nova marca do Itaú na cidade.

Reitora da Puc-sp visita associação

Em reunião realizada em fevereiro na sede da Associação Viva o Centro, a reitora da PUC-SP, Profª Drª Maura Pardini Bicudo Véras, acompanhada de assessores, anunciou os preparativos para a instalação de um campus da Pontifícia Universidade Católica em plena Praça da Sé, em um conjunto de dois prédios e alguns casarões a 100 metros do Pátio do Colégio. Será o terceiro campus da PUC na cidade de São Paulo, ao lado dos campi Monte Alegre (em Perdizes) e Marquês de Paranaguá (na região da Rua da Consolação). Instituições de ensino, com seus professores, estudantes e funcionários animam as regiões onde se acham instaladas, tornando-se clientela cativa dos equipamentos culturais próximos, bares e restaurantes, lojas e prestadores de serviços. O incremento do ensino no Centro está entre as bandeiras para a requalificação da área.

Dirigentes da Viva o Centro e das Ações Locais recebem subprefeito da SÉ

Atendendo a convite da Associação Viva o Centro, o subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo, esteve na entidade duas vezes, em março, para expor seus planos para o Centro. Na primeira, em 17/3, falou à Diretoria, associados, membros dos Conselhos Deliberativo e Fiscal e Comissões Consultiva de Assuntos Jurídicos, Consultiva de Turismo e do Conselho Editorial da revista urbs, funcionários e colaboradores da entidade. Na ocasião, Matarazzo afirmou que a recuperação do Centro passa por intervenções firmes, como a que se verificou na região do Pólo Luz-Santa Ifigênia, estímulo a novas atividades econômicas no Centro, incentivo à habitação de classe média e, como fator de credibilidade nas ações do governo, uma zeladoria cada vez mais competente em toda a área central. Na segunda visita, em 22/3, dirigindo-se especialmente a diretores das Ações Locais, o subprefeito da Sé afirmou que o apoio das Ações Locais será indispensável. "Focalizando suas microrregiões, esses núcleos serão os ‘olhares’ atentos para fornecer informações do pequeno ao grande problema, para que as soluções sejam providenciadas por nós."

Alguns números da reciclagem no Centro

No Centro funcionam há um bom tempo, e já com ótimas marcas, pelos menos dois projetos de coleta seletiva de recicláveis com apoio de Ações Locais. São eles: o Núcleo Seletivo do Glicério, ligado à Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista, e o Recifran, organizado pela Província Franciscana com apoio das Ações Locais São Francisco, Roosevelt, Barão de Itapetininga e Maria Paula. O Núcleo do Glicério, criado em 1998, reúne 80 catadores e recicla, em média, 300 toneladas de lixo por mês, com aproveitamento de 70% de material reciclável. O Recifran, com atividades < iniciadas em julho de 2002, congrega 95 catadores que trabalham em dois espaços também no Glicério, triando e encaminhando a média mensal de 110 toneladas às indústrias de reciclagem. O que se estuda, no momento, para que as duas experiências ganhem ainda mais eficácia é que os recicláveis sejam recolhidos por veículos e que a coleta seja feita diretamente nos prédios e levadas aos núcleos onde os catadores possam fazer a separação e comercialização, sem ter que percorrer o Centro puxando carroças.

Os 10 anos do programa de Ações Locais

A Associação Viva o Centro já planeja as comemorações dos 10 anos do Programa de Ações Locais, criado e coordenado por ela. O Programa teve início em agosto de 1995 com a fundação das cinco primeiras Ações Locais - Barão de Itapetininga, Álvares Penteado, Paissandu, Líbero I e Líbero II. Muitas das melhorias verificadas no Centro de São Paulo devem-se às Ações Locais. Hoje existem mais de 40 núcleos, congregando mais de 3 mil representantes de empresas, instituições, condomínios e lojas estabelecidos na área central, além de moradores e proprietários de imóveis na região, zelando pelas ruas e praças do Centro. São esses representantes, chamados de Conselheiros da Comunidade, que escolhem os membros da Diretoria e do Conselho Fiscal da Ação Local da rua onde se acham estabelecidos. O modelo, uma invenção da Viva o Centro, atrai interessados do país inteiro e mostra-se eficaz pelo fato de desenvolver na coletividade local o sentimento de pertencimento. O Programa de Ações Locais tem o apoio da BM&F e da Bovespa.

Centro requer zeladoria permanente

Ações simples como faxina constante, manutenção de mobiliário urbano, substituição de lâmpadas queimadas em postes públicos e atendimento efetivo à população carente e de rua, além de policiamento contínuo, dão qualidade a qualquer área urbana. No Centro da cidade de São Paulo, em vários logradouros a existência de um padrão mínimo de zeladoria já faz a diferença e atrai a atenção para o que pode se tornar ainda melhor. Falta estender esse padrão a todo o território do Centro, além de não falhar nos lugares onde já são visíveis os seus benefícios. A Associação Viva o Centro tem insistido há anos que o Centro requer zeladoria intensa e permanente, uma vez que são 2 milhões de pessoas circulando por ele todo dia. E isso é perfeitamente possível, pois o Centro ocupa apenas 0,5% da área da cidade.



PATROCINADORES Revista URBS

Patrocínio:

Banco Itaú

Serasa

 

Bank Boston

 

Apoio Institucional:

Prefeitura do Município de São Paulo
Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

Redação, Administração e Circulação:
Rua Libero Badaró, 425 - 4o. andar
CEP 01009-000 São Paulo
Fone (011) 3106-8205
Fax (11) 3398-5066
e-mail urbs@vivaocentro.org.br

urbs pode ser adquirida através de assinatura e venda avulsa e é distribuida gratuitamente a um mailling especial da Associação Viva o Centro.