ANO IX   -   No. 36   -   janeiro / fevereiro 2005
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Marco Antonio Ramos de Almeida

Reportagem  Questões sociais Crianças de rua e trabalho infantil
Proposta Anhangabaú, um portal para o Centro
Economia informal A perversa cadeia gerada pelos camelôs
Centros brasileiros Tecnologia no Centro de Recife
Comportamento O Centro e seus moradores

Artigos Será o Banco Imobiliário o responsável pela decadência do Centro? por Michel Gorski
Sobram incentivos fiscais para crianças e adolescentes, por Eduardo Szazi

Entrevista Ugo Giorgetti, um cineasta paulistano

Idéias Registros da Vida Urbana
Vida nova para os galpões paulistanos

Cultura Artes Plásticas Maria Bonomi e equipe criam um painel gigante que é a cara de São Paulo

seções Cartas
Galeria
Mix
Viva o Centro Notícias
Clique aqui para fechar esta janela


  Cartas  
VIVA O CENTRO

À
Revista Urbs
A/C da Redação

O objetivo da minha carta, em primeiro lugar, é cumprimentar toda a diretoria da Associação Viva o Centro pelos resultados obtidos até agora e por todo o programa que se desenvolverá ao longo do tempo.
Como paulistana e freqüentadora, por muitos anos, da região central, onde trabalhei, via com tristeza a degradação dessa região.
A nossa expectativa é que todo este esforço seja realmente recompensado, e que locais tradicionais como a Praça da República, a Avenida São João, a Avenida Ipiranga possam ser novamente freqüentadas e que empresários decidam reinvestir em estabelecimentos que possam atrair o público.

Sabemos que esse processo de restauração envolve não apenas obras, mas uma mudança de comportamento e uma visão cultural que motive a população a se interessar. Acabar com hábitos como pichações e depredações de patrimônio público é um trabalho de longo prazo.

Os primeiros resultados desse trabalho desenvolvido por Vv. Ss. já pode ser sentido com a restauração de algumas obras importantes, como a ida da Prefeitura para o prédio do Banespa, a restauração do Hotel Jaraguá, da Biblioteca Mario de Andrade, da Estação da Luz.
O caminho é longo e o ritmo tem muito a ver com a nossa própria realidade. Mas o importante é dar continuidade e buscar cada vez mais apoio. Esperamos que, com a posse do novo prefeito, José Serra, a Associação Viva o Centro encontre um apoio ainda maior para que o ritmo dos trabalhos seja dinamizado.

Parabéns. Parabéns também pela revista urbs, cuja qualidade reflete a competência dos diretores da Associação.

Sueli Almeida
São Paulo


ACESSIBILIDADE

Extremamente oportuna a matéria sobre acessibilidade na edição passada da revista urbs. É importante que as pessoas discutam as políticas de segurança para pedestres, que em última instância favorecem todos cidadãos. Parabéns pela atualidade das pautas.

Roberto Rios
Jornalista e deficiente



REVISTA URBS

Ler a revista urbs dá a certeza de que há esperança para tornar nossa cidade mais bonita, mais cidadã e mais segura. Os projetos e idéias que são externadas incentivam a participar de ações em prol da cidade.

Vera Moreira
Jornalista



BUROCRACIA E ACESSIBILIDADE

Caros editores,
Escrevo para parabenizá-los pelo número 35, da revista urbs. Como paulistana e, desde sempre, freqüentadora assídua dessa região específica, defendo a beleza e a revitalização da área, apesar de tantos "especialistas" afirmarem ser esta cidade uma mistura de estilos sem valor ou identidade. Valor e identidade encontram-se em cada esquina, ainda que, não raro, escondidos pela sujeira, espremidos entre os passantes.
Das matérias da revista, destaco "Cidade universal" e "Luzes, câmara, ação", por enfocarem dois grandes problemas enfrentados por quem decide valorizar, freqüentar e divulgar o centro de São Paulo: as péssimas condições de ruas e calçadas e os entraves impostos pelos órgãos responsáveis aos profissionais que desejam fotografar ou filmar a região.

Em "Cidade Universal", Fábio de Paula aponta um problema que acomete não apenas os portadores de necessidades especiais, mas todos os que caminham pelos lados do Centro: calçadas esburacadas, excesso de lixo e de vendedores ocupando o espaço dos pedestres. Não raro presenciamos pessoas caindo, torcendo o tornozelo, afundando em bocas-de-lobo. Nesses locais, andar já é complicado; com cadeira de rodas ou carrinho de bebê, então, torna-se uma aventura comparável aos esportes radicais.

Isabella Rebelo, que assina a segunda reportagem, levantou com precisão a via crucis enfrentada por quem opta por utilizar o Centro como locação de filmagens, sejam elas comerciais ou não. Um sem-fim de formulários a preencher; pessoas a serem contatadas, e dificilmente encontradas; prazos longos demais, que costumam não ser cumpridos... e tudo para quê? O resultado de todo esse esforço e tempo empregados costuma ser uma das alternativas seguintes: a autorização para filmagem é finalmente concedida, mas tarde demais; a autorização chega a tempo, mas o acúmulo de lixo; uma enchente; outra das tantas obras que surgem de repente ou qualquer outro imprevisto arruínam a locação. Há ainda a extrema falta de segurança que, se é crítica durante o dia, imagine de madrugada, quando grande parte das filmagens é feita.

Por esses e por tantos outros motivos, é difícil para nós, produtores de filmes, convencermos os clientes, ou a nós mesmos, de que vale a pena continuar insistindo. Mas ainda assim, continuamos. Amar, valorizar e divulgar o Centro virou profissão de fé.

Congratulações à revista, aos repórteres e aos publicitários que, contra todas as disposições em contrário, ainda valorizam e mostram com elegância a bela face, tão decantada, da cidade de São Paulo.

Luciana Moreira
Produtora de DVD



IVALDO BERTAZZO

Gostaríamos de cumprimentar a equipe da revista urbs pela qualidade editorial das matérias e pela abrangência de temas que vêm sendo publicados. Muito interessante a entrevista com o artista Ivaldo Bertazzo. Tive a oportunidade de assistir ao espetáculo "Samwaad" no Sesc Belenzinho e me emocionei muito com a performance dos alunos desse projeto incrível. É um trabalho que todos os que tiverem a oportunidade devem conhecer, pois mistura elementos da nossa cultura com a cultura indiana, com um resultado que traz lágrimas aos olhos.
Marta Azevedo
São Paulo



CASAS NOTURNAS

O Centro de São Paulo está cada vez mais recheado de atrações culturais e musicais imperdíveis. São tantos bares, restaurantes e boates que atraem pessoas de todas as regiões da cidade que a região já virou ponto de encontro de muitas tribos. Sugiro que vocês façam uma matéria sobre as opções noturnas da região, para todos os tipos de público.
Um abraço,
Luciana Mello
Designer



Envie suas sugestões e comentários com seu nome completo e profissão para o e-mail urbs@vivaocentro.org.br



  Panorama  
UMA NOVA GESTÃO E O ENTUSIASMO DE SEMPRE PELO CENTRO


A Associação Viva o Centro começa a interagir com a quinta gestão municipal desde sua fundação, em 1992. De lá para cá houve uma evolução excepcional nesse relacionamento, com a progressiva melhora do entendimento da administração pública sobre a importância da recuperação do Centro para o futuro da Metrópole não apenas como política unilateral de governo, mas como resultado do diálogo franco e propositivo entre Prefeitura, sociedade civil organizada e população em geral.

São Paulo está ganhando de volta o seu Centro e recuperando seu espaço na experiência, no imaginário e no afeto dos paulistanos. Com seu perfil de usina de idéias, a Viva o Centro conseguiu sensibilizar os meios de comunicação, o poder público e, principalmente, a própria sociedade para a importância estratégica de um Centro eficiente e que confira identidade à Metrópole. O processo de recuperação da área central entrou definitivamente na agenda dos governos, da iniciativa privada e da mídia.

Por parte da Prefeitura destacamos a emblemática intervenção na Praça do Patriarca, com a instalação do pórtico-cobertura sobre o acesso à Galeria Prestes Maia, proposto pela Viva o Centro em 1992 e implantado em 2002 pela prefeita Marta Suplicy. Destacam-se, também, a mudança da sede da Prefeitura para o Palácio do Anhangabaú, bem como a reforma do Mercado Municipal, a concretização do empréstimo de US$ 100 milhões do BID para o Centro e o início do enfrentamento efetivo da questão dos camelôs.

Por parte do Governo do Estado, é importante mencionar as grandes obras da cultura, como a Sala São Paulo na gestão Mário Covas, a Estação Pinacoteca e o restauro da Estação da Luz, já na gestão Geraldo Alckmin. Na área de transportes, também foi inaugurada a Integração Centro, que liga as estações do Metrô e da CPTM, e houve significativo reforço do policiamento no Centro. Destacamos ainda, tanto por parte do Estado como da Prefeitura, a transferência maciça de secretarias e empresas estatais para o Centro.

Por parte da iniciativa privada é preciso lembrar a permanência, ampliação e modernização das sedes da BM&F e Bovespa, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Teatro Abril, o novo Hotel Jaraguá e o apoio do BankBoston, Votorantin e Klabin na manutenção e restauro dos jardins e monumentos do Vale do Anhangabaú e da Praça Ramos de Azevedo.

O Centro está paulatina, mas continuamente, se tornando mais limpo, iluminado, seguro e foco de atenção para investidores. Dentro desse cenário, as expectativas da Viva o Centro com a gestão José Serra são as melhores possíveis. Em visita à Associação, ainda na condição de candidato, Serra mostrou-se entusiasmado com as dez propostas formuladas pela entidade para a nova gestão, dizendo que as "assinava embaixo". A positividade de nossas expectativas deriva, além disso, da necessidade intrínseca de haver, em prol do Centro, uma ação fortemente sinérgica entre Municipalidade e Governo do Estado, o que agora pode ocorrer de maneira muito mais efetiva. Acrescente-se que a Viva o Centro, junto com as Ações Locais, hoje integradas por mais de três mil empresas, está à disposição com toda a energia para que o Centro prossiga se requalificando.



  Galeria  


Centro ganha novo teatro de câmara

O Centro ganhou um novo ponto cultural no dia 21 de dezembro, com a inauguração do Teatro São Bento. O novo teatro de câmara do Mosteiro de São Bento foi restaurado em sua arquitetura histórica e também sofreu reestruturação acústica e técnica, o que o equipou com as melhores condições para concertos, peças teatrais, dança, conferências e outras atividades.

No evento de inauguração apresentaram-se o violoncelista Antônio Meneses e o pianista Frédéric Meinders.

O concerto também assinalou a nova fase do Teatro, que assume agora uma vida autônoma mas ligada aos projetos culturais do Colégio e da Faculdade de São Bento. O projeto de restauração foi coordenado pelo reitor do Colégio e da Faculdade, D. Carlos Eduardo Uchoa Fagundes Jr.

Para 2005, está prevista uma programação musical que inclui uma temporada anual de concertos internacionais, com curadoria do produtor cultural Antonio de Arruda Ribeiro, além de master classes com artistas estrangeiros. Mais informações pelo telefone (11) 3328-8794.


Revitalização do centro histórico de Santos inicia segunda fase

Localizada no litoral paulista, Santos é uma das cidades mais antigas do país. Povoada a partir de 1540, seu apogeu econômico ocorreu no século 19, quando suas exportações de café chegaram a representar a metade do PIB brasileiro. Dessa época datam diversos casarões, museus e igrejas cuja importância arquitetônica e cultural começou a ser reconhecida nos anos 80, quando muitos prédios foram tombados. Mas foi a partir de 1997 que a Prefeitura da cidade, por meio de sua Secretaria de Planejamento (Seplan), começou a revitalizar a região, visando alavancar o turismo e a economia do município.

Em 2001, o programa foi reformatado com o nome de Alegra Centro, e em 2003 se transformou em Lei Complementar. Na primeira fase foram instaladas uma linha turística de bonde e uma incubadora de empresas. Diversos prédios com valor histórico, como a Bolsa do Café, a Casa da Frontaria Azulejada, entre outros, também foram reformados.

Para incentivar o projeto, foi instituído um Corredor de Proteção Cultural e as esferas governamentais promovem, além da restauração de edifícios públicos, incentivos fiscais – isenção do IPTU ou ISS da obra, entre outros – para quem restaura edificações com níveis de proteção cultural (NPC) 1 (interna e externa) e 2 (fachada e telhado).

No dia 4 de novembro foi lançada a segunda fase do projeto, na qual representantes da Seplan apresentaram novas formas de parcerias com a iniciativa privada para a restauração e posterior uso dos 840 imóveis históricos inseridos em Área de Proteção Cultural, NPC 1 e 2. O objetivo é, cada vez mais, desenvolver ações que potencializem a implantação de atividades econômicas, turísticas e culturais.

CASAS BAHIA NO ANTIGO PRÉDIO DO MAPPIN

O comércio da região central ganhou mais um reforço: neste final de ano a rede varejista Casas Bahia inaugurou uma nova filial no antigo prédio do Mappin, reativando o ponto considerado um dos principais ícones do comércio da cidade. Com 15 mil m2 distribuídos em dez andares em plena Praça Ramos, na frente do Teatro Municipal, o novo espaço abriga a maior loja da rede e a única a oferecer toda a linha de produtos – que chega a 7 mil itens – e a incluir a linha de confecções.

Para a reabertura do prédio, desativado em 2003, foram investidos R$ 1 milhão. As reformas estruturais, que visam facilitar a circulação dos clientes, incluíram oito elevadores e 14 escadas rolantes. O interior da construção também recebeu um novo sistema de sinalização. O restaurante do último andar, que nos tempos áureos era freqüentado pela elite paulistana, deve ser reaberto em fevereiro do próximo ano.

A loja oferece também uma estrutura de alimentação – que inclui cafés, lanchonetes e quiosques de chocolate – em cada um dos andares.

Para atender o público, a loja conta com uma equipe de cerca de 300 funcionários, dos quais 150 direcionados para o atendimento ao público. A expectativa, segundo o diretor administrativo-financeiro da rede, Michael Klein, é a de realizar 30 mil vendas mensais, com um faturamento de R$10 milhões.

De propriedade da Santa Casa de Misericórdia, o valor estimado do aluguel do imóvel é de R$ 200 mil. O contrato das Casas Bahia tem um prazo de 10 anos.

Pólo de Moda ganha novo empreendimento hoteleiro

O Bom Retiro já foi uma bucólica região de sítios e chácaras. No século 19, famílias ricas passavam os finais de semana em suas casas de descanso. A característica comercial teve início na década de 1920, quando judeus com experiência no ramo têxtil montaram as primeiras confecções. Nos anos 60, os sul-coreanos começaram a chegar e a adquirir muitas lojas. Hoje, além da face multicultural – afinal, diversas comunidades convivem na região, como coreanos, gregos, italianos, israelitas e bolivianos –, o bairro é reconhecido como um dos principais pólos de moda do país: milhares de clientes vêm de outras cidades, Estados – e até do exterior – para negociar com os produtores de confecções.

Com a intenção de oferecer uma hospedagem de boa qualidade para esse público, a rede de hotéis Chambertin lançou, em 28 de outubro, o Luz Plaza. A rede, que representa um grupo holandês, conta com outros 14 empreendimentos no Brasil.

Localizado na rua Prates, 145, o hotel tem 102 apartamentos e uma ampla estrutura que inclui desde televisão, telefone, cofre eletrônico, internet banda larga, até um business center com três salas de eventos que comportam até 250 pessoas. O hotel ainda oferece um spa com diferentes tipos de sauna, um fitness center e uma piscina para os visitantes relaxarem. Informações sobre reservas podem ser obtidas pelo telefone (11) 3315-9298.

Fachada da Estação da Luz concluída

Após um ano de obras, a reforma da fachada da Estação da Luz – lado sul da construção, na Rua Mauá – foi concluída. Os órgãos de preservação – o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico (Condephat), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) – aprovaram os trabalhos executados. No total, 1.015 metros de muro e duas marquises foram restaurados. Em 2005 deve ser a vez do saguão com vista para o Parque da Luz.

Os elementos artísticos reconstituídos ganharam nova pintura e a construção foi tratada com produtos antifungos. A reforma total da edificação histórica é parte do Programa Integração Centro que, com implementação da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), permitirá a integração gratuita dos trens com o metrô da Luz. O corredor que faz essa ligação recebeu um painel gigantesco da artista plástica Maria Bonomi (leia mais na página 48).

A pé, uma incursão pela história da cidade

Conhecer a riqueza histórico-cultural do Centro da capital paulista. Com esse propósito, o Shopping Light e a Graffit Turismo estão promovendo o city tour a pé: "Nas pegadas de Anchieta".

O passeio de duas horas busca trazer o reconhecimento do triângulo histórico da cidade como ponto de referência para a evolução urbana da terceira maior metrópole do mundo. Para isso, o circuito aborda características e fases da história paulistana desde a São Paulo de Piratininga até a República. Carlos Silvério, diretor da Graffit Turismo, esclarece que "o programa busca divulgar, conscientizar e enobrecer os valores histórico-culturais e turísticos de São Paulo. O tour é conduzido por um guia especializado, que busca levar o participante a interagir com o contexto histórico da cidade".

O circuito parte do Edifício Alexandre Mackenzie, o Shopping Light, e percorre uma trilha histórica que engloba: Viaduto do Chá, Praça Patriarca, Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Faculdade de Direito, Catedral Metropolitana da Sé, Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Páteo do Colégio (não inclui visita ao Museu de Anchieta), Mosteiro de São Bento e depois retorna ao shopping. As saídas acontecem aos sábados e a taxa do circuito é de R$15,00 por pessoa. Mais informações e reservas: (11) 5549-9569 – 5579-3629





  Reportagem  

Questões sociais Crianças de rua e trabalho infantil

O nó do trabalho infantil

Diariamente, crianças e jovens passam o dia nas ruas, pedindo esmolas, vendendo balas, fazendo malabarismo ou – em casos extremos – usando drogas e cometendo delitos. A legislação que deveria impedir isso já existe, mas ainda não é suficiente para evitar o problema. Nesta segunda reportagem da série sobre os problemas sociais no Centro, discutimos a questão das crianças e dos adolescentes e o que está sendo feito para colocá-los em seus lugares: a família e a escola.

A série de matérias que retrata problemas sociais urbanos de São Paulo publicada pela revista urbs, que em sua última edição teve como tema a vida dos usuários de albergues e abrigos do município, faz agora uma avaliação das situações provocadas pelo desrespeito às leis que visam proteger crianças e adolescentes. Qualquer pessoa pode detectar exemplos de que essas leis não são observadas com o rigor necessário, o que leva meninos e meninas a continuar nas ruas, à vista de todos, inclusive das autoridades competentes.

A realidade de muitas crianças e adolescentes que ainda vivem nas ruas de São Paulo se opõe radicalmente ao que determina a Constituição Federal e outros códigos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Para quem lida com o problema, o grande inimigo é o trabalho infantil. O problema é combatido pela Emenda Constitucional n° 20 (de 1998), que determina 16 anos como idade mínima para o trabalho e 14 anos como idade permitida para serviços que se enquadrem na condição de aprendiz.

As explicações para a situação irregular – que não é exclusiva de São Paulo – seguem várias vertentes. Para os órgãos responsáveis pela aplicação das leis relacionadas ao assunto, a principal vilã é a economia do país. De maneira geral, as crianças vão para as ruas principalmente em função da pobreza, agravada pelos altos índices de desemprego, que em 2004 ultrapassaram a casa dos 20%. "Sem renda, muitas famílias apostam no trabalho de crianças como alternativa, sem saber o prejuízo social que causam", comenta Rose Pereira, assessora da Secretaria de Assistência Social (SAS) do município durante a gestão Marta Suplicy.

A responsabilidade, no entanto, não pode ser atribuída apenas às famílias que desconhecem as razões da proibição do trabalho infantil. O ECA, instituído pela Lei nº 8.069, de 1990, estende a toda a sociedade as obrigações relacionadas à infância. O Estatuto especifica que "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

O trecho acima, extraído do artigo 227, não deixa dúvidas de que o Estado não é o único responsável pela proteção dos direitos das crianças e adolescentes. Em seus artigos são relatados todos os tipos de dispositivos que visam protegê-los de injustiças variadas, que vão desde o abuso sexual até a impossibilidade do estudo.

As especificações, no entanto, soam ingênuas para quem vive uma realidade oposta ao utópico mundo que o ECA prevê. Em muitas ruas da cidade notamos o retrato de uma infância de quem vive na miséria, pedindo dinheiro e trabalhando em semáforos ou catando latas de alumínio. "Os casos mais numerosos dos problemas combatidos são os de crianças que trabalham. E nós sabemos que a maior parte delas tem um lar e uma família", conta Max Dante, gerente de comunicação da Fundação Projeto Travessia, que funciona no Centro de São Paulo.

O trabalho da Fundação – cujo objetivo principal é promover o retorno de crianças e adolescentes para seus respectivos núcleos familiares – integra a rede coordenada pela SAS, que destina mais de 60% de sua receita às causas relacionadas à infância e à adolescência. O sistema funciona com o trabalho independente de instituições e uma base de diretrizes estipuladas pela Prefeitura. Algumas instituições recebem verbas do governo, outras são apoiadas pela iniciativa privada. A SAS propunha uma ação articulada com as entidades, atuando apenas onde não houvesse a presença de uma instituição. Os esforços das entidades, por enquanto, se restringem ao controle da situação atual. Pouco se consegue fazer para avançar no sentido de reverter o quadro.

O número de crianças que vivem permanentemente nas ruas não varia muito. Segundo dados da Travessia, essa quantidade permanece na casa dos 300. As maiores conquistas, por enquanto, ficam no campo da legislação, que desde 1990 oficializou várias regras para a proteção às crianças e adolescentes por meio da elaboração do ECA. O terreno para a consolidação dos direitos desses pequenos cidadãos, ao menos, já está preparado.

Reestruturação familiar

Segundo Rose Pereira, os principais esforços da SAS para a erradicação do trabalho infantil se concentraram na reestruturação familiar. A Prefeitura via a educação dos pais, tios, avós e demais parentes como um meio de combater a exclusão de menores. "Não dá para trabalhar a exclusão da criança apenas com ela. O sucesso dos programas que desenvolvemos depende de um trabalho com toda a família", diz a assessora.

O carro-chefe da operação é o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que a SAS desenvolveu junto ao Ministério Público do Trabalho para fiscalizar a proibição de qualquer forma de trabalho infantil, assim como regulamentar o trabalho de adolescentes. "É um trabalho que exige muita paciência. É mais difícil do que o trabalho de inclusão de adultos, uma vez que a vida da criança depende da reestruturação completa de sua família", diz a procuradora do Trabalho Mariza Mazotti, uma das coordenadoras do NETI (Núcleo de Erradicação do Trabalho Infantil), que integra a coordenadoria da Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos.

Para completar o trabalho de reestruturação do núcleo familiar, o PETI previa o pagamento de bolsas de R$ 40 para cada criança participante do programa. A condição é a de que a criança não trabalhe e esteja matriculada em uma escola. O valor da bolsa, entretanto, é pequeno. Segundo Mariza, ainda é difícil convencer muitos pais de que seus filhos não podem trabalhar, mesmo com o apoio financeiro do Estado. "Por dois motivos principais: porque o trabalho dessas crianças pode render até R$ 600 reais por mês para a família, como eu mesma constatei conversando com uma menina que vende produtos em um semáforo. E porque existe no Brasil uma cultura de que o trabalho dignifica, de que ele faz parte da formação, até mesmo quando o trabalho em questão é o de uma criança. E isso não é verdade. Essa

criança está tendo seus direitos violados", afirma Mariza.

O trabalho da procuradora no Ministério Público do Trabalho tem caráter de fiscalização das aplicações legais especificadas não só pelo ECA, mas também por dispositivos e portarias baixadas pela Justiça da Infância e da Juventude. Através de denúncias realizadas principalmente pelas Subprefeituras, o Ministério Público chega aos infratores, que estão empregando a mão-de-obra infantil (às vezes escrava). Também há numerosos casos de crianças que sofrem vários tipos de violência, doméstica, sexual e de outros gêneros.

O desafio maior do Ministério, no entanto, é coordenar uma ação junto às famílias, evitando a punição. "Não podemos simplesmente punir os pais que exploram o trabalho do filho, pois eles não estão cientes do mal que causam", diz Marisa. As punições, segundo a promotora, são aplicadas para situações específicas, como nos casos de abuso sexual comprovado, que segundo o ECA deve ser tratado da seguinte forma: "Verificada a hipótese de maus-tratos, opressão ou abuso sexual impostos pelos pais ou responsável, a autoridade judiciária poderá determinar, como medida cautelar, o afastamento do agressor da moradia comum".

Esse corpo-a-corpo muitas vezes exige uma integração maior do Ministério Público com determinadas comunidades da cidade, onde se concentram os casos mais graves de desrespeito aos direitos das crianças e dos adolescentes. "Um dos mais bem-sucedidos trabalhos realizados foi feito em lixões de São Paulo, onde crianças trabalhavam em situação precária. Em muitos deles, a situação foi normalizada. Além de tirar as crianças desses lugares, regularizamos o trabalho de adultos para que eles trabalhassem de forma menos insalubre. Mas ainda há alguns focos que precisam ser resolvidos", conta Marisa.

Para a procuradora, a fiscalização é muito mais difícil do que parece, pois não se restringe à simples proibição da exploração do trabalho infantil por seus pais ou qualquer outra pessoa ou corporação. "Se eu proíbo a criança de trabalhar em um lugar, logo mais ela está trabalhando em outro. O correto é convencer essas pessoas, por meio da conscientização e pela tentativa de ensiná-las a conquistar recursos que permitam uma vida mais adequada, de que o trabalho infantil viola os direitos de quem o executa", explica Marisa.

Responsabilidade coletiva

Quem compra produtos vendidos por crianças, ou mesmo quem dá esmola a elas, também ajuda a mantê-las em situação de rua. Essa conclusão é aceita praticamente por todas as entidades que encampam a luta pelo direito dos menores. "Se você dá dinheiro para a criança nessa situação, é óbvio que ela voltará àquele ponto para conseguir mais dinheiro. Se ninguém der dinheiro, parte do problema é resolvida, pois elas param de trabalhar naturalmente. O problema é que, geralmente, a criança inspira comoção e acaba conseguindo um trocado", comenta Mariza.

Para agravar o quadro de assistencialismo, muitas entidades perpetuam práticas condenadas pela SAS. "Há organizações que distribuem comida nas ruas, por exemplo, o que dificulta muito nosso trabalho. Se crianças, ou mesmo adultos, têm acesso à comida nas ruas, ficar fora de casa é mais fácil. Precisamos dificultar a permanência nas ruas para que as crianças voltem para os seus lares, ou procurem uma das instituições que possa realmente ajudá-las a se reintegrar à sociedade", afirma Max Dante, do Projeto Travessia.

As crianças sem lugar para ir, ou porque são maltratadas dentro de casa ou porque são rejeitadas pelos pais, são recebidas pelas casas de acolhida, que também funcionam por meio do sistema de parceria com a Prefeitura. Nesses lares, as crianças permanecem em caráter provisório e recebem auxílio para que reencontrem suas famílias, além de um mínimo de estrutura, como cama e refeições. Muita gente confunde o trabalho das casas de acolhida com outra instituição: o abrigo.

Os abrigos recebem crianças que viverão ali em caráter permanente. Se os assistentes das casas de acolhida não conseguem, por motivos diversos, levar alguma criança para sua família, o caso passa a ser tratado por uma instância judicial. A criança é cadastrada na Vara da Infância e da Juventude e fica sob a guarda de um juiz, que a encaminha para um abrigo da Prefeitura. "Ainda assim, nossos esforços se concentram na volta da criança para a família, mesmo que seja para a casa de um tio, ou de seus avós. Preferimos que ela passe o menor tempo possível nesses abrigos e lares, pois o tratamento familiar é sempre a melhor opção", explica Rose.

Famílias voluntárias

Para complementar a tarefa dos abrigos e Casas de Acolhida e adicionar um ingrediente importante, que é a necessidade de afeto, a SAS desenvolveu, em parceria com o Poder Judiciário, o projeto Família Guardiã. Nele, a adoção é feita de forma provisória e menos burocrática: a família responsável ficaria com a guarda da criança por um tempo. Assim que a situação da família verdadeira fosse normalizada, ele voltaria para a guarda de seus pais.

O projeto ainda não foi implantado, mas estimava-se que as primeiras experiências do piloto, que contemplaria 20 crianças, teriam início em 2005. O projeto tem o apoio de uma instituição beneficente italiana chamada ARAI, onde o modelo foi desenvolvido com bons resultados.

As reformas realizadas pela SAS se estendem ao tratamento de menores infratores, um grupo composto mais por adolescentes (maiores de 16 anos) do que por crianças. A punição por meio da detenção está sendo revista e as medidas sócio-educativas em lugares abertos, valorizadas. Outra vantagem para os adolescentes são as entidades que, através do convênio com a SAS, oferecem formação e capacitação profissional nas áreas de prestação de serviço, comércio e indústria.

Seguindo as orientações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT – legislação aprovada por decreto de 1° maio de 1943 mas que foi mudada diversas vezes até hoje) insere o trabalho de aprendizado no âmbito da educação profissional de nível básico, que deve conjugar a formação profissional e o desenvolvimento cultural do indivíduo. A prática do trabalho de aprendiz deve ser necessariamente articulada ao ensino regular.

Apesar de toda essa estrutura montada para combater o desrespeito aos direitos da criança e do adolescente, em instância federal houve mudanças que desagradaram várias instituições que encampam a causa. Uma portaria publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, em outubro, extinguiu os Grupos Especiais de Combate ao Trabalho Infantil e de Proteção do Trabalhador Adolescente (Gectipas) nas Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), que se dedicavam exclusivamente a essa questão.

Agora, todos os fiscais do Ministério passam a ser responsáveis pelo combate ao trabalho infantil. Não existem mais unidades especializadas. O problema é que esses fiscais ganham benefícios por meio de pontuação, e o controle sobre o trabalho de crianças não conta pontos. Entre as ações que valem bônus, estão a fiscalização do registro empregatício, da arrecadação de FGTS e das condições de saúde do trabalhador.

A política de atendimento e assistência às crianças está sendo redefinida com a nova estrutura da Prefeitura municipal, que não prevê a existência de uma Secretaria de Assistência Social nos moldes da existente durante a gestão Marta Suplicy. A revista urbs estará atenta para esses desdobramentos, procurando reportar as novas abordagens do problema.


Medo e preconceito reforçam o problema

A imagem que a maioria das pessoas tem quando pensa em crianças de rua é em bandos de menores andando pelas ruas, praticando furtos e vandalismo, cheirando cola, ameaçando as pessoas. O que muitos não percebem é que por trás das aparências existem crianças que, antes de tudo, precisam de proteção. Esse comportamento anti-social é fruto principalmente do abandono e da rejeição.

Para quem lida diretamente com essas crianças, o medo é um dos pilares do problema. Tratá-las como "trombadinhas" só contribui para o crescimento de uma postura agressiva desses pequenos indivíduos. "Nós, que procuramos nos aproximar dessas crianças diariamente, sabemos que, no fundo, elas querem colo. Já num primeiro contato dá para sentir. Elas te tratam com certa agressividade no início, pois têm de adotar uma postura defensiva, mas acabam se mostrando sempre muito doces depois de determinado tempo", comenta Max Dante, da Fundação Projeto Travessia.

A instituição contou cerca de 300 crianças (abaixo dos 14 anos) que usam a rua em período integral, para dormir inclusive, em toda a cidade de São Paulo. Mas existe uma espécie de rotatividade embutida nesse número: o grupo se renova constantemente, conforme essas crianças voltam para seus núcleos familiares (o que muitas vezes acontece de forma espontânea), e conforme outros meninos e meninas deixam suas casas, em razão de problemas domésticos, como maus-tratos e ausência dos pais. "Essas crianças que realmente dormem nas ruas não são sempre as mesmas. E posso garantir que elas não representam risco de morte. Nunca soube de um caso em que uma criança que tenha matado alguém", afirma Dante.

O maior risco a que essas crianças estão submetidas reside na exploração de seu trabalho por adultos: ingênuas, muitas delas acabam sendo induzidas à prostituição, ou exercendo a função popularmente conhecida como "avião", o indivíduo que transporta drogas, mediando traficantes. É o primeiro passo para uma vida criminosa. Sem o apoio da sociedade, e ainda com a rejeição a que são submetidas, a chance dessas crianças de voltarem a usufruir dos direitos concedidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, acaba se esvaindo. Responsabilidade de todas, segundo o ECA.





  Reportagem  

Proposta Anhangabaú, um portal para o Centro

ANHANGABAÚ:

Durante a campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, a Associação Viva o Centro apresentou dez propostas aos candidatos. Uma delas – que dá início a uma série de matérias na revista urbs – propõe a refuncionalização do Vale do Anhangabaú, com um projeto inspirado nas ramblas de Barcelona.

A obra que resultou no atual Vale do Anhangabaú, da forma como foi executada, resolveu um dos grandes problemas da cidade de São Paulo – a ligação rodoviária norte-sul/sul-norte – mas gerou outra grave questão: tornou o Centro ilhado e estrangulado. Resolveu o problema de passagem, mas eliminou o tráfego local. O imenso calçadão do Centro Velho fundiu-se ao do Centro Novo, a partir do novo calçadão no Anhangabaú. Para irrigar o interior do coração da cidade, restaram apenas o circuito formado pela ruas Boa Vista e Líbero Badaró, no Centro Velho, e Xavier de Toledo e final da Conselheiro Crispiniano, no Centro Novo. Só se adentra nessa imensa área por veículo coletivo ou particular, pela Praça da Sé ou pela Xavier do Toledo (veja mapa na pág. 18). Qualquer problema em uma dessa vias pára o Centro, a rótula central (o anel viário em torno dessa área) e os acessos a ela.

Os imensos edifícios do Vale estão impedidos de receber visitantes em suas garagens. Os hotéis, lojas e edifícios da Avenida São João, entre a Rua Líbero Badaró e o Largo do Paissandu, estão se deteriorando e qualquer aproveitamento da famosa Quadra 27, localizada ao lado do edifício dos Correios, está comprometido (veja planta na pág. 18). Além disso, veículos com autorização especial para entrar nos calçadões (carros-fortes, carros oficiais e de concessionárias, bombeiros, polícia e outros) circulam e estacionam desordenadamente pelo Vale, em conflito com pedestres e danificando o piso dimensionado para os transeuntes. À noite, a imensidão do Vale, sem a circulação normal de veículos, não é atrativa para o turista ou para o transeunte em geral, devido à insegurança que gera.

Para resolver esses problemas, a Associação Viva o Centro apresentou a proposta de refuncionalização do Vale do Anhangabaú, que objetiva restituir-lhe a função de "portal do Centro". A proposta é, sem perda das características de pequeno parque central do Vale, restabelecer o trânsito de veículos no local, junto aos edifícios, e criar uma rambla contínua para o pedestre, na Avenida São João, entre o Largo do Paissandu e a Rua Líbero Badaró. Cria-se assim um acesso adequado e fácil ao Centro, facilita-se a circulação e a segurança do pedestre no Centro, aumenta-se a segurança à noite, viabiliza-se economicamente o Vale e desobstrui-se o coração da Cidade. Com isso o Centro poderá se consolidar como âncora das atividades ligadas ao turismo, lazer, cultura e entretenimento, altamente geradoras de emprego e renda.

Para transformar essas idéias em projeto, a Viva o Centro buscou o apoio e a parceria de empresas que conhecem profundamente o Centro e a Cidade. A Promon Engenharia e a JBMC Arquitetura e Urbanismo receberam análises já realizadas anteriormente pela entidade e montaram uma equipe que aprofundou os estudos e produziu um projeto, aqui exposto em linhas gerais, que equaciona as questões acima colocadas e que a Viva o Centro disponibilizou para a nova administração municipal. O prefeito eleito, José Serra, em visita à Associação Viva o Centro durante a campanha, já se manifestou favorável a esta proposta e à necessidade de maior permeabilidade na rede de calçadões do Centro.

A atual configuração do Vale do Anhangabaú foi fruto de um concurso cuja base era a solução para o tráfego de veículos, que os concorrentes dariam para a transposição do Vale e para o acesso, via Avenida São João, ao Centro Velho (R. Líbero Badaró) e ao Centro Novo (Largo do Paissandu). Venceu a equipe encabeçada pelo arquiteto Jorge Willhem, que propunha a transposição via túneis e para os acessos laterais a criação de duas alças que, emergindo dos túneis, entrariam pela Av. São João, uma em direção à R. Líbero Badaró e outra em direção ao Largo do Paissandu. Durante a finalização da obra, na gestão Luísa Erundina, as alças foram suprimidas. A hipótese de implantá-las agora, como projetadas, se mostra impraticável.

A nova configuração proposta

O projeto resultante do trabalho desenvolvido resolve de forma simples e criativa os problemas. Os acessos pelo eixo norte-sul/sul-norte se dão normalmente pelas alças de retorno existentes nas extremidades do Vale. Já a solução do acesso ao Vale, através da Av. São João, leva em conta as necessidades de pedestres e motoristas, tendo como fonte de inspiração as famosas ramblas de Barcelona (grandes calçadões com lojas, restaurantes, bares e hotéis). "Projetamos uma rambla de oito metros de largura no centro da Avenida São João, através da qual os pedestres transitariam livremente e sem obstáculos entre o Largo do Paissandu e a Rua Líbero Badaró. Os automóveis circulariam por vias paralelas de sete metros de largura cada", explica Martinez Corrêa. "Os hotéis ganhariam com a circulação de táxis, o que implicaria numa melhor classificação dos serviços hoteleiros."

Mas como é que o motorista, trafegando perpendicularmente à rambla, conseguiria transpor o Vale no eixo da Avenida São João? Quem explica é o próprio Martinez Corrêa: "Não haverá transposição direta da São João. Os fluxos vindos dos dois lados do Anhangabaú, que cruzam o eixo da São João, seriam direcionados para uma passagem de nível (com três metros de pé direito), exclusiva para veículos, algo que lembra um pouco o antigo ‘buraco do Adhemar’" (veja ilustração abaixo).

Essa reengenharia viária, reafirma o arquiteto, permitiria aos pedestres cruzar livremente o Vale pelo eixo da São João, facilitando a locomoção entre o Centro Novo e o Velho. Quem vem pela rambla, por exemplo, chegaria pelo Vale caminhando por cima da passagem de nível. Para dar maior conforto a quem circula a pé, Martinez Corrêa sinaliza que serão feitas intervenções nas ruas Formosa e Anhangabaú, com a recomposição do calçamento. "Dessa forma, restabelecemos totalmente as vias de comunicação na região do Vale, que volta, como antigamente, a se ligar à Libero Badaró, ao Paissandu e ao sistema Y (eixo norte/sul)."

A Associação Viva o Centro considera que o projeto é fundamental para a requalificação não só do Anhangabaú, mas do Centro como um todo. "A nossa proposta fixa, claramente, o Vale como o portal de entrada para a região central da cidade, que se beneficiará com a melhor circulação de veículos e pedestres", afirma Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente executivo da Viva o Centro.

Do ponto de vista técnico, a execução das obras é relativamente simples, de acordo com o engenheiro da Promon, Ronan Ayer. "Todas as intervenções previstas podem ser executadas num prazo de três a quatro meses", afirma. Dados preliminares levantados pela Promon Engenharia dão conta de que os custos para a implantação do projeto giram em torno de R$ 12 milhões, relativamente baixos para uma intervenção desse tipo. Esse custo baixo deriva do fato de a maior parte da obra ser de superfície, do local da passagem de nível já estar rebaixada e do sistema de drenagem aproveitar a antiga configuração das ruas que existiam no local.

Cartão de Visita

Quando o tema revitalização do Vale do Anhangabaú emerge numa roda de arquitetos e urbanistas, sempre surgem propostas e idéias de uma ampla verticalização da paisagem local, com a construção de modernos edifícios. Porém, no entender de Martinez Correa, "é inadmissível, hoje, pensar que um grande empreendimento imobiliário no Vale possa vir a ser bem sucedido sem que haja a possibilidade de fácil acesso por veículos particulares". A maior parte dos especialistas concorda que o Anhangabaú tem essa clara vocação para a verticalização, comportando a construção de edifícios de grande porte nas imediações do prédio do Correio, onde existem imóveis abandonados ou subutilizados. Nos anos 90, o arquiteto Fábio Penteado, por exemplo, foi autor de um ousado projeto para a Quadra 27, que propunha a transformação do local em um verdadeiro centro de negócios. O projeto incluía shopping center com cinco pavimentos e uma imensa torre de 67 andares, que seriam destinados a serviços de hotelaria (face voltada para o Largo Paissandu) e salas comerciais (face voltada para o Vale). Haveria também a construção de subsolos para estacionamento com capacidade para 4 mil vagas.

No entanto, há quem defenda, como o arquiteto Roberto Loeb, a manutenção da atual volumetria dos edifícios existentes. Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), considera oportuna a construção de duas torres de 33 andares: "o Vale comporta grandes e modernos edifícios que, uma vez erguidos, ajudariam a revitalizar ainda mais a vida econômica e cultural do Centro", afirma. Segundo ele, a Quadra 27, hoje parcialmente degradada, é ideal para esse tipo de empreendimento. Para tanto, faz-se necessário um empenho da administração municipal, pois a construção de novas torres comerciais implica em desapropriar imóveis.

O diretor da Embraesp lembra que quando Fábio Penteado apresentou seu projeto de intervenção no Vale, um grupo de investidores chegou a mostrar disposição para pagar adiantado à Prefeitura os valores a serem utilizados na desapropriação. "O Centro tem instituições importantes e uma boa infra-estrutura, o que qualifica o Vale a receber um grande marco imobiliário, que serviria de estímulo para a revitalização do Anhangabaú", afirma Luiz Paulo Pompéia.

Seja qual for a proposta de empreendimentos imobiliários para o Vale, uma coisa parece certa: elas só se concretizariam com uma total reengenharia da circulação de veículos no local em harmonia com o movimento dos pedestres, exatamente os dois aspectos básicos contemplados na proposta da Viva o Centro. Diante disso, fica claro que a pedra angular da recuperação do Vale do Anhangabaú depende, sobretudo, de vontade política capaz de dar novamente a essa região o status de "cartão de visita de São Paulo", conforme fazia questão de enfatizar um dos mais destacados prefeitos da capital, o engenheiro Prestes Maia.



  Reportagem  

Economia informal A perversa cadeia gerada pelos camelôs


Cadeia Improdutiva

Camelôs ocupam as calçadas de quase toda a cidade, especialmente da região central. Atrás das pechinchas e do emprego informal, uma cadeia formada por elos de crimes e ilegalidades prejudica não só quem tenta caminhar pelas calçadas, mas também a economia e a segurança de toda a cidade.

O Centro de São Paulo ainda abriga milhares de ambulantes irregulares, apesar das promessas e tentativas de sucessivas gestões municipais de organizar o comércio informal. Deixando de lado a questão da origem do problema, fruto do aumento do desemprego ou da falta de outras oportunidades, o comércio dos camelôs esconde aspectos nem sempre evidentes, mas certamente graves. Além de contribuir para a deterioração do espaço público e de fazer concorrência predatória aos estabelecimentos comerciais formais, grande parte dos produtos vendidos são originados de atividades criminosas, como o contrabando, o roubo de cargas e a pirataria.

Enquanto indústria e comércio regulares têm dificuldade para sobreviver pagando todos os tributos relativos à produção, serviços e direitos trabalhistas, a cadeia produtiva ligada ao comércio informal burla toda a legislação, criando um poder criminoso paralelo que foge de todos os deveres, em todos os seus elos.

De forma geral, há três tipos de camelôs nas ruas da região central: o legalizado, com cadastro na Prefeitura e portador do Termo de Permissão de Uso (TPU); o empregado em barracas regulares; e o ambulante irregular que ocupa ilegalmente o espaço público, foge ou corrompe a fiscalização e comercializa mercadorias ilegais. Os ambulantes que possuem o TPU só podem comercializar produtos autorizados e seu trabalho deve ser controlado pelos fiscais da Prefeitura. "Já a atuação dos ambulantes ilegais representa um problema para a sociedade porque, além de invadir calçadas e desagregar o espaço urbano, fomenta atividades criminosas", argumenta Mário Jordão, delegado titular da seccional Centro. "A maior parte dos produtos comercializados por camelôs irregulares origina-se da pirataria, do roubo e do contrabando", completa. De acordo com dados fornecidos pela Subprefeitura da Sé no final de 2004, na região central havia 1.244 ambulantes com permissão; os ambulantes ilegais estariam em torno de 1 mil.

A fiscalização realizada pela Guarda Civil Metropolitana e pelos fiscais da Prefeitura não é suficiente para conter a atuação desses camelôs. Na Rua 24 de Maio, onde apenas 32 ambulantes eram regularizados, cerca de 110 barracas – a maioria com roupas falsificadas de grife – disputam cada metro quadrado do calçadão de apenas dois quarteirões. Na Rua 25 de Março, em vez dos 81 permitidos, havia cerca de 600 camelôs.

Segundo Sérgio Torrecillas, titular da Subprefeitura da Sé na administração passada, os fiscais estão diariamente nas ruas, mas enfrentam dificuldades: "há máfias atuando no setor, mesmo que tenha havido diminuição na quantidade de camelôs nas ruas".

Esses grupos mafiosos são responsáveis pela origem e distribuição dos produtos comercializados ilegalmente. A fiscalização ineficaz abre espaço para que todo tipo de produto seja vendido, sem controle de origem – de alimentos e medicamentos até produtos pirateados, como CDs e DVDs, eletroeletrônicos, roupas, brinquedos. A procedência pode ser uma indústria clandestina, o contrabando ou a carga de um caminhão roubado.

Os ambulantes irregulares, portanto, atuam como receptadores e vendedores das mercadorias provenientes dessas atividades. Tudo isso é crime. Como não pagam impostos, seus produtos são vendidos por valores inferiores aos praticados pelo comércio formal. E os consumidores, ávidos por preços baixos, compactuam com essa rede de crimes e ilegalidades.

Prejuízo recorde

A mercadoria originada do contrabando chega ao ambulante irregular por falta de fiscalização nos portos, fronteiras e estradas, além da corrupção. De cigarros a produtos eletroeletrônicos, os produtos entram no Brasil sem qualquer tipo de controle de qualidade ou pagamento de taxas aduaneiras. Por sua vez, os produtos falsificados podem tanto vir do contrabando como ser fabricados em indústrias clandestinas instaladas em todo território nacional: milhares de cópias ilegais de CDs de software e música, assim como roupas e sapatos, são fabricadas diariamente no Brasil. O roubo de cargas em cidades, estradas e depósitos é outra fonte de mercadorias para os camelôs.

Atualmente, o Brasil tem um dos maiores índices de roubo de carga do mundo. No Estado de São Paulo, por exemplo, as ocorrências e o prejuízo causado pelo roubo de cargas tem apresentado um crescimento significativo desde 2001, segundo dados divulgados pela Assessoria de Segurança da Federação e Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp/ Setcesp). Se comparada à média de 2003, a média mensal do primeiro semestre de 2004 indica um aumento de 2,82% no número de ocorrências. O prejuízo, por sua vez, cresceu 5,38% em relação ao mesmo período de 2003.

"De janeiro a junho de 2004, foram registradas 1.296 ocorrências de roubo de cargas, o que equivale a 216 ocorrências por mês, em média", revela o coronel Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança da Fetcesp/Setcesp. Em todo o ano de 2003, foram registrados 2.521 casos de roubo no Estado. No primeiro semestre de 2004, o prejuízo das transportadoras paulistas com roubo de cargas foi de R$ 101,88 milhões, o que equivale a quase R$ 17 milhões mensais. Em 2003, o prejuízo total acumulado atingiu R$ 193,37 milhões.

A cidade de São Paulo e os demais municípios da região metropolitana respondem por 60% das ocorrências. "Desse total, 15% foi realizado no Centro de São Paulo. Por isso, é possível associar o roubo de carga à atividade praticada por comerciantes ilegais, como os camelôs", alerta o coronel Souza. Na região central, a distribuição das mercadorias para os ambulantes irregulares ocorre no início da manhã. Pequenos caminhões-baú circulam pela região do Mercado Municipal e da rua 25 de Março distribuindo mercadorias aos donos dos pontos, que capilarizam a distribuição. "O crime só acontece porque existe o receptador e o consumidor", completa Souza.

Ação predatória

Outra característica negativa do comércio ambulante é sua ação predatória no espaço público. Para o delegado Mário Jordão, "além de concorrer deslealmente com o comércio formal, o ambulante causa a deterioração do espaço urbano e gera um acentuado aumento de criminalidade na área central, especialmente das ocorrências de roubo, furto, estelionato e tráfico de entorpecentes. A ocupação do espaço urbano pelos camelôs dificulta o trabalho preventivo da Polícia Militar e o trabalho investigativo da Polícia Civil".

Uma solução para o problema do comércio ambulante no Centro de São Paulo – e das atividades criminosas ligadas a ele – seria a ação integrada da Polícia Militar (PM), que zela pela segurança e combate a violência, e da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que, em parceria com os fiscais da Prefeitura, cuida da fiscalização dos ambulantes. Com isso, haveria o combate do crime desde a origem até a venda dos produtos, passando pela receptação.

Um exemplo recente de cooperação ocorreu em 2002, com a criação de uma Força Tarefa entre a Guarda Civil Municipal e a Polícia Militar para combater e fiscalizar a pirataria e o comércio ambulante ilegal. "Estatisticamente, comprova-se que em áreas com grande concentração de camelôs, índices altíssimos de criminalidade diminuíram em até 80% quando de sua saída", argumenta Jordão. Para ele, ainda há muito trabalho a se fazer: "a Polícia Militar tem feito uma série de flagrantes", comenta. Depois de um ou dois dias, porém, o ponto é novamente ocupado por outro indivíduo com mercadorias ilegais.

Pop Centros

"A maior parte dos camelôs quer apenas trabalhar. Garantir a inclusão social desses indivíduos e ajudá-los a sair da ilegalidade são iniciativas fundamentais para acabar com as atividades criminosas associadas ao seu trabalho", salienta Roberto Mateus Ordini, diretor da Associação Comercial de São Paulo. Uma das soluções criadas pela Associação em 2003, em parceria com a Prefeitura, é o Pop Centro – shopping popular com infra-estrutura completa para os ambulantes trabalharem como comerciantes formais, sem os custos de uma micro-empresa. A primeira unidade foi inaugurada em 8 de dezembro de 2003, na Rua Florêncio de Abreu. Outros dois Pop Centros foram criados em 2004: um na Avenida Senador Queirós, e outro na Ladeira Porto Geral.

Além da isenção de alguns impostos e da oferta de infra-estrutura completa, os Pop Centros permitiriam que as mercadorias originadas de atividades criminosas não pudessem ser comercializadas. Muitos camelôs, porém, preferem continuar trabalhando na rua. "Não dá para ficar dentro de uma loja, ninguém vai comprar", afirma um dos muitos ambulantes irregulares que comercializa roupas no calçadão da rua Dom José de Barros, próximo ao Largo do Paissandu. Afinal, assim como a ocasião faz o ladrão, a disponibilidade do camelô facilita o consumo.

No Centro: questão social ou anti-social?

"No Centro, o comércio dos camelôs assume um viés profundamente anti-social", diz Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da Diretoria Executiva da Associação Viva o Centro, que explica: "Da forma como é praticado no Centro, esse comércio cria um clima de caos urbano, dificulta a limpeza, gera insegurança, prejudica o comércio legalizado e, como conseqüência final, penaliza cerca de 2 milhões de pessoas que vem ao Centro diariamente, além de atrapalhar o turismo na região".

Ramos de Almeida explica que o turismo é hoje a atividade que mais gera emprego e renda no mundo e que os centros das metrópoles são as âncoras dessa atividade: "Um Centro degradado prejudica a atividade turística em toda a metrópole".

Para equacionar essa questão no Centro (distritos Sé e República), a entidade propõe que a Prefeitura crie um ou dois centros populares de compras para os 892 camelôs ali autorizados (com TPUs) e proíba totalmente esse tipo de comércio nas suas ruas e praças. Tais centros de populares de compras, em moldes de mercados municipais, funcionariam em terrenos ou galpões adquiridos ou locados pela municipalidade para esse fim.



  Artigo  
Será o Banco Imobiliário o responsável pela decadência do Centro?


Elaborando um roteiro a pé na área central de São Paulo, minha cidade, me coloquei fisicamente ao encontro de memórias e reminiscências paulistanas. Andando, anotando e pensando, tentei restabelecer as relações com alguns espaços – desejava saber quando tinha sido a primeira vez que ouvi algo sobre esses lugares. De repente me lembrei e caiu a ficha, ou melhor, as cartelas e o tabuleiro do Banco Imobiliário. Muitas daquelas ruas me eram conhecidas do jogo, um dos meus favoritos na década de 1960.

Resolvi viajar no tempo e verificar o que saiu e o que entrou no tabuleiro que é, desde aquela época, um dos jogos mais populares do mundo. O jogo atual é fácil de achar, mas o "daquele tempo" só o encontrei no Museu da Estrela, na Casa dos Sonhos. Obtive autorização para verificar que cidade era aquela em que, na minha infância, apostávamos todos os nossos recursos imaginários. Pude também compará-la ao tabuleiro atual.

Até então, nunca havia observado atentamente os logradouros oferecidos pelo jogo. No fundo, o tabuleiro é uma confusão generalizada de ruas, bairros, regiões, parques e aeroporto. Acredito que nunca houve reclamações, afinal, o objetivo era jogar e ganhar aqueles desejados dinheirinhos de papel. E, na verdade, isso ainda é o que importa.

Sei que o Centro e as áreas mais tradicionais da cidade passaram por um grande período de abandono, mas não havia percebido que esse descaso fora incorporado aos jogos infantis, notadamente este que fala de pontos e valores imobiliários. O choque foi grande. Imagino que mesmo cidades destruídas por guerras não tenham sofrido mudanças tão radicais na renovação urbana. São Paulo protagonizou uma autêntica revolução espacial: se analisarmos os logradouros da área central, podemos constatar que o Banco Imobiliário também desistiu do Centro de São Paulo.

Tanto o jogo antigo como o novo têm caráter nacional e o tabuleiro é dividido entre a capital carioca e paulista. No tabuleiro antigo eram dez endereços para cada cidade e, no novo, 12 para São Paulo e dez para o Rio. Nesse período, milagrosamente, os valores do "dinheiro" do Banco Imobiliário, acompanhados apenas de um cifrão, sem cruzeiros, cruzados ou reais, mantiveram-se quase inalterados, bem diferente da vida real, em que o preço de compra do próprio jogo deve ter aumentado milhares de vezes.

Durante minha pesquisa, o Monopoly – título original do jogo criado em 1934, nos Estados Unidos —, fez 60 anos e foi reconhecido como o jogo do século, com mais de 200 milhões de unidades vendidas em 80 países; só no Brasil são mais de 100 mil jogos vendidos por ano.
Há muitos aficionados, alguns até organizam grupos – reais ou virtuais – para troca de experiências. Até no Orkut, famosa comunidade virtual com mais de 2 milhões de usuários, já existe um grupo de "loucos por Banco Imobiliário". Nas discussões, conversam sobre estratégias e formas de dominar o tabuleiro, além de explicarem como derrotar os adversários para ficar, literalmente, com tudo. Entretanto, nas comunidades não se fala do caráter de cada cidade e de sua mudança espacial.

Será que estratégias politicamente corretas tornariam o jogo chato? Por exemplo, quem investisse em áreas deterioradas não pagaria imposto ou quem oferecesse incentivos fiscais para os hotéis das áreas centrais ganharia uma casa. Será que daria certo? Cada jogo tem sua dinâmica e quem atualizou o nosso Banco Imobiliário não nos deve satisfações, mas, provavelmente, sentiu a realidade demonstrada por nossa cidade: a especulação, a criação de novos bairros e o abandono de locais antigos e consagrados tornam decadentes até mesmo os espaços com boa infra-estrutura.

Na verdade, a principal característica das brincadeiras infantis é brincar de ser "gente grande", imitando os adultos e a vida social em atitudes e formas de conduta. O sucesso da boneca Barbie, para citar um único exemplo, está aí para comprovar a tese. Mas se o jogo fosse condescendente com a cidade, ele seria irreal e falso? Não sei responder.

Resolvi restringir a discussão à área central de São Paulo, de onde saiu a maioria dos endereços que faziam parte do jogo na década de 1960: a Praça da Sé, local que abriga o marco zero da cidade; a Avenida Ipiranga que, entre outros fatores, é muito famosa por conta de seu cruzamento com outra, a São João; a Rua Anchieta, que poucos conhecem e não sei como entrou no jogo; os Campos Elíseos, um antigo bairro chique, onde ficava o Palácio do Governador e acabou sendo deteriorado, com seus casarões transformados em cortiços. Mais especificamente, esses eram os logradouros da cidade, hierarquizados por valores para compra: Av. Ipiranga ($ 360), Rua Anchieta ($ 350), Av. Paulista ($ 350), Praça da Sé ($ 260), Av. 9 de Julho ($ 260), Pacaembu ($ 220), Jardim América ($ 180), Aeroporto de Congonhas ($ 140), Campos Elíseos ($ 100) e Parque Ibirapuera ($ 100).

No tabuleiro de 2004, os logradouros aumentaram de dez para 12 e são: Morumbi ($ 400), Interlagos ($ 350), Jardim Paulista ($ 280), Brooklin ($ 260), Av. Brigadeiro Faria Lima ($ 240), Av. 9 de Julho ($ 220), Av. Rebouças ($ 220), Av. Europa ($ 200), Rua Augusta ($ 180), Av. Pacaembu ($ 180), Av. Paulista ($ 140) e Jardim Europa ($ 140). Como podemos notar, a maioria dos logradouros do Centro sumiu. Na verdade, essa configuração já vem da década de 1980, e se o jogo fosse absolutamente fiel à especulação imobiliária, já seria hora de incorporar novos pólos.

Mas como será o Banco Imobiliário de 2010? Só trará Shopping Centers? A dinâmica da cidade poderá alterar a configuração do jogo? Com os movimentos de revitalização do Centro de São Paulo, a volta de órgãos governamentais, a possível desmontagem do Minhocão, que provocará uma revalorização dos Campos Elíseos e circunvizinhanças, quem sabe, nos Bancos Imobiliários do futuro, as velhas cartelas de logradouros das áreas centrais da capital paulista não serão reabilitadas e reincorporadas?

*Michel Gorski é arquiteto
e urbanista em São Paulo


  Artigo  
SOBRAM INCENTIVOS FISCAIS PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


Muitos projetos sociais destinados à proteção de crianças e adolescentes que vivem no Centro de São Paulo podem receber doações, com abatimento integral do valor doado diretamente do imposto de renda. Mais ainda, é possível que o patrocinador escolha o projeto a ser apoiado. Como? É o que veremos a seguir.

Os Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente (FDCA) foram concebidos em 1990 com o propósito de amealhar recursos para a causa, e para tanto, oferecem incentivos fiscais para os seus apoiadores, concedendo aos indivíduos a possibilidade de abaterem integralmente o valor doado – seja em dinheiro ou em bens – de seu imposto de renda devido, no valor de até seis por cento deste. As empresas que adotem o regime de lucro real podem deduzir também, mas o limite é de um por cento do imposto. O procedimento de dedução da doação está previsto nas Instruções Normativas 258/2002 (indivíduos) e 267/2002 (empresas), ambas da Secretaria da Receita Federal.

Até aqui, para muitos de vocês, leitores, o assunto pode não ser novidade. O que poucos sabem, porém, é que é possível escolher o projeto onde o dinheiro será aplicado aqui em São Paulo, assim como em várias outras localidades.

Em nossa cidade, o FDCA foi criado pela Lei Municipal 11.247, de 01.10.1992. Sua última regulamentação foi determinada pelo Decreto 43.135, de 25.04.2003, o qual previu expressamente (art 3º § 3º,) que, no caso de doação condicionada à utilização em projeto específico, proposto por órgão governamental ou pela sociedade civil e aprovado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), permanecerão no FDCA dez por cento do valor doado para subsidiar outras propostas.

Ou seja, ao contrário do que muita gente pensa e sustenta, a legislação paulistana autoriza que um doador escolha o projeto a apoiar – de uma ONG, por exemplo – e, mais ainda, que para ele sejam canalizados 90% dos recursos doados. É a chamada doação "carimbada".

Mas, como fazê-lo? Em primeiro lugar, é necessário que a ONG proponente esteja inscrita no CMDCA. Depois, é necessário que o projeto tenha consistência técnica e financeira e que esteja alinhado com a política pública de proteção à infância e adolescência para que, então, possa ser submetido à avaliação do Conselho de Orientação Técnica e, depois, aprovado pela plenária do CMDCA.

O financiamento do projeto será realizado sob a forma de convênio, pelo prazo máximo de um ano, com a secretaria municipal que detenha competência técnica relativa à área de ação do projeto (educação, assistência social, saúde etc). Ao seu término, será necessária uma detalhada prestação de contas, tanto dos gastos como dos resultados alcançados, podendo, inclusive, serem as ações incorporadas à rede pública de serviços regulares, a depender da boa avaliação que tiver.

Enfim, uma ótima possibilidade para que as empresas e pessoas que atuam ou vivem no Centro escolham projetos na região e os apóiem financeiramente, com incentivos fiscais. Tudo autorizado pelo Decreto 43.135, de 2003.

O ano está começando, há sempre projetos que precisam de recursos e os incentivos fiscais não se acumulam de um ano para o outro. Planeje desde já suas doações.

*Advogado e professor de direito aplicado ao Terceiro Setor.



  Reportagem  
História e tecnologia no Centro de Recife


Um projeto coordenado de recuperação social, arquitetônica e digital está revitalizando o Bairro do Recife, no Centro Histórico da capital pernambucana, comprovando que a união de iniciativas públicas e privadas garantem o sucesso da empreitada.

A História tem seus marcos geográficos e o Bairro do Recife, situado na ilha que deu origem à cidade, sem dúvida é um deles. No Brasil Colonial, foi um dos mais importantes centros de comércio e um dos principais pólos exportadores do País. Devido à riqueza gerada com o ciclo açucareiro, a região foi saqueada por piratas e invadida pelos holandeses. O período de dominação holandesa deixou suas influências, não só na arquitetura dos prédios, mas também na engenharia, em construções importantes como o Forte do Brum, edificado para a defesa do porto.

Muito tempo depois, no ano de 1910, o bairro sofreu a primeira reforma urbana que, já naquela época, atribuiu-lhe um perfil mais comercial, diretamente relacionado à atividade portuária. Nesse período também houve o rompimento do istmo que ligava a cidade ao continente, o que transformou o Bairro do Recife em uma ilha, hoje unido ao resto da cidade por quatro pontes.

Assim como aconteceu com muitas regiões que cresceram rapidamente e se transformaram em grandes cidades, durante muito anos o centro histórico da capital pernambucana foi degradado e abandonado. A decadência começou na década de 1930, quando o bairro se tornou um símbolo da boemia ligada à prostituição e marginalidade. Para Manoelita Falcão Brito, coordenadora do Escritório de Revitalização do Bairro do Recife, diversos fatores contribuíram para essa situação, como "o surgimento de outras centralidades e o fato de bairros periféricos, que antes haviam sido engenhos ou sítios, serem considerados mais agradáveis para morar", além do descaso e da falta de investimentos. "No imaginário popular, o centro histórico passou a ser um lugar onde não se devia ir. Por isso, a região acabou, de certa forma, abandonada", explica Manoelita. Como as pessoas preferiram morar em outras regiões, o bairro não se tornou vítima da especulação imobiliária, o que possibilitou que suas características originais, por mais que estivessem deterioradas, fossem mantidas.

Somente depois de cinco décadas de abandono, em meados dos anos 80, surgem ventos de mudanças, com a formulação do primeiro esboço de uma política de revitalização e a criação do Escritório de Revitalização do Bairro do Recife, encarregado de coordenar o processo de requalificação do Centro da capital pernambucana. Resgatado o valor histórico da região, o objetivo então era o de restituir o valor cultural e a importância econômica dos tempos áureos.

Plano de Revitalização

Iniciado na década de 1990, o Plano de Revitalização do Bairro do Recife dividiu a região em cinco pólos de atuação: Bom Jesus, Alfândega, Pilar, Arrecifes e Fluvial. Desde então, as ações de recuperação vêm sendo cumpridas continuamente, sempre buscando o desenvolvimento econômico, cultural, social e turístico. O sucesso dessas ações se deve, principalmente, à parceria entre as iniciativas pública e privada que garantem, até hoje, que o processo continue a pleno vapor. Houve momentos, segundo Manoelita, em que o investimento privado superou o público.

As primeiras iniciativas colocadas em prática focavam o pólo Bom Jesus. Formado por 12 ruas, o destaque da área é a presença de bares, restaurantes, shows ao ar livre, feiras de artesanato e atividades culturais e de lazer que atraem um público diferenciado. Nessa região, foram recuperados imóveis históricos e criada a infra-estrutura urbana e de saneamento.

O pólo da Alfândega é região que abriga os principais monumentos históricos da região. Um de seus grandes tesouros é a Igreja Madre de Deus, construção do século XVIII em estilo colonial, mas cujo altar é representante da arte barroca brasileira.
É no pólo do Pilar que se concentra a maioria dos moradores do Bairro do Recife. Na favela de mesmo nome, cercada por muros, vivem cerca de mil habitantes. Nessa comunidade está sendo desenvolvido o Programa de Requalificação do Pilar que busca, segundo Manoelita, "a inserção da comunidade no tecido urbano". Outros passos também estão sendo dados na área habitacional. Um deles é o Programa Morar no Centro, que tem como objetivo atrair moradores de todas as classes para a região.

No pólo Fluvial estão concentradas as principais instituições políticas e econômicas da cidade, como secretarias e tribunais, além de diversas agências bancárias e estabelecimentos comerciais e de serviços.
Entre as diretrizes iniciais do plano de revitalização, havia a intenção de atrair para a região algum tipo de instituição que atuasse na área de tecnologia e informática, uma vez que Recife concentra alguns dos principais pesquisadores e centros de produção científica da área. No início, porém, essa implantação não estava definida. Foi a partir de 2000 que o sítio histórico teve sua revitalização reforçada pela chegada do Porto Digital, um bem-sucedido parque tecnológico-urbano que hoje serve de modelo para projetos semelhantes.

O Porto Digital

"O Porto Digital veio como conseqüência do processo de revitalização, já que o Bairro do Recife passou a dar claros sinais de que tinha condições de ser uma ilha de excelência. E, uma vez instalado, revelou-se fundamental, pois passou a dar mais dinamismo à vida diurna da região", acredita Manoelita. Com a recuperação das áreas voltadas para a cultura e o lazer, o Bairro do Recife já atraía muitas pessoas à noite. Mas o Porto Digital trouxe mais diversidade e sustentabilidade ao local, o que os pólos culturais sozinhos não poderiam garantir.

Resultado de iniciativas conjuntas das esferas governamentais, universidades, órgãos de fomento e empresas privadas, o Porto Digital é um complexo de tecnologia localizado no pólo do Bom Jesus, que atualmente abriga 68 empresas. O local é administrado pelo Núcleo de Gestão do Porto Digital, que possui um contrato de gestão com o Governo de Pernambuco. A estrutura também inclui o Instituto Porto Digital, organização que articula a inclusão social e digital na região Nordeste. Para abrigar todo o complexo, foram revitalizados 22 mil km2 do bairro, com a recuperação de edifícios para a instalação de empresas.

Entre os integrantes, nomes de peso internacional como as empresas IBM, Oracle Modular Mining Systems e Watterloo Hydrogeologic. A maioria das empresas do parque, porém, surgiu a partir de teses apresentadas nas universidades. Algumas delas fazem parte, por exemplo, do C.E.S.A.R, empresa que originalmente surgiu no Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal de Pernambuco, e emprega atualmente 280 pessoas. Dentre os clientes, estão empresas como a Motorola, além da Receita Federal e o Ministério da Ciência e Tecnologia. Atuam hoje no parque tecnológico 1,6 mil profissionais de tecnologia da informação e comunicação.

A presença do Governo no Porto Digital se dá por intermédio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Desde janeiro de 2003, a sede ocupa um imóvel da década de 1920, considerado um dos mais representativos e ricos exemplares da arquitetura eclética do Bairro do Recife, onde em outra fase da história funcionaram a sede da Fiscalização do Porto do Recife e do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis.
Uma das preocupações dos responsáveis pelo Porto Digital é a promoção de uma modernização que mantenha as características da região histórica. "Fazer conviver o antigo com o novo e seguir uma recuperação criteriosa", como defineLeonardo Guimarães, gerente de projetos de arquitetura e urbanismo do Porto Digital. O cenário se traduz por edificações seculares recuperadas, com pisos de madeira que encobrem eletrocalhas, conduítes e cabeamentos estruturados. Balcões e vitrôs se contrapõem a salas refrigeradas em que o cliente determina, por exemplo, a quantidade de bandas de Internet que deseja para seu negócio.

Para o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Cláudio Marinho, o Porto Digital é uma apropriação coletiva de um espaço público, de um lugar denso em História e simbolismos. "A reocupação do velho casario do Bairro do Recife para sua revitalização econômica com novo uso, o da economia digital, é uma apropriação legítima porque de interesse público."

Guimarães e Marinho concordam que o empreendimento do Porto Digital só é bem-sucedido graças a seus três pilares – a universidade, o poder público e a iniciativa privada. "Seria muito difícil realizar operações tão complexas, em que estão envolvidos valores tangíveis (propriedades, espaços públicos, prédios históricos) e intangíveis (memória urbana); nenhum agente por si só seria capaz disso", afirma o secretário. O arquiteto lembra que historicamente "o Bairro do Recife tem um processo mais antigo de preservação, é uma região que vem recebendo investimentos ao longo do tempo". Por isso ele afirma que sem as iniciativas públicas, as pretensões acadêmicas e corporativas teriam menos vigor.

Efeitos econômico-sociais

Os benefícios da era digital no Bairro do Recife vão além da restauração de seu conjunto arquitetônico ou do incremento de negócios no ramo tecnológico. Um dos outros aspectos positivos do projeto é a revitalização social da Comunidade do Pilar, conforme lembra Guimarães: "É um projeto complexo, com uma conta financeira difícil de fechar, mas estamos trabalhando com afinco para melhorar a qualidade de vida dos moradores da comunidade".

O arquiteto também cita a biblioteca do Porto Digital para exemplificar a interação com a comunidade. "Quando começamos a emprestar livros, em abril de 2002, foram 49. Em abril de 2004, alcançamos o recorde de 1.347 livros emprestados", comemora.

Marinho realça outro aspecto econômico do Bairro do Recife, revigorado pelo Porto Digital. Os restaurantes na região, segundo ele, cresceram muito e se esmeram em atender cada vez melhor os trabalhadores do complexo. Ele frisa ainda o impacto da revitalização urbana no turismo, outra grande fonte geradora de recursos para o Estado. "Já flagrei várias vezes os guias turísticos mostrando os nossos prédios-âncoras, como o da Secretaria, do cais. E o melhor, todos falando com muito orgulho da região".

O Bairro do Recife é um dos onze bairros que formam o Centro da capital de Pernambuco. Para Manoelita, "o centro histórico é um pequeno recorte da cidade, com todos seus aspectos e atores". A idéia é, no futuro, estender as ações para os demais bairros, de forma que o bem sucedido programa possa revitalizar todo o Centro e, assim, beneficiar a identidade cultural da população.

TRÊS INSTÂNCIAS DE FOMENTO

A idéia de criar um ambiente de negócios voltado para a área começou em junho de 2000, quando o Governo do Estado decidiu investir R$ 33 milhões em infra-estrutura básica para o complexo tecnológico. O Porto Digital também recebe incentivos públicos dos três níveis de governo. Como complexo de tecnologia, beneficia-se da Lei de Informática. No plano estadual, tem redução de ICMS e usufrui de três fundos: de Aval (de empresas de software), de Capital de Risco para Empresas Emergentes e de Capital Humano (para formação de gestores). Na esfera municipal, tem apoio da lei de incentivo à ocupação do solo e isenção parcial ou total do IPTU, conforme o grau de intervenção no imóvel.

No plano acadêmico, a abundância de especialistas exigiu a transformação do conhecimento em negócios. Existem em Pernambuco 17 unidades de ensino de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e o Centro de Computação (Cin) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), uma das cinco melhores instituições de computação da América Latina, que conta com mais de 50 professores doutores – o que representa 31% dos pesquisadores na área. Para a fusão entre universidades e empresas, o ciclo se fecha com o C.E.S.A.R (Centro de Estudos Avançados do Recife), atualmente uma empresa-âncora do Porto Digital, com cinco unidades de negócios que fornecem serviços para empresas como Motorola e IRS.



  Entrevista  
Imagens de São Paulo

PAULO FERNANDO CAPUCCI*
Se existe um representante do cinema da cidade de São Paulo, alguém que se pode chamar de legítimo cineasta paulistano, essa pessoa é Ugo Giorgetti.

Em seus filmes, São Paulo não é necessariamente cenário, mas personagem.

Sua mais recente ficção, O Príncipe, de 2002, conta a história de um professor universitário que deixou o País na década de 1970 para morar na França e nunca mais voltou ao Brasil. Quando retorna para tratar do funeral da mãe, encontra o caos. A cidade, as pessoas, tudo mudou. O que parecia não poder piorar – afinal, o protagonista fugira da ditadura militar – está pior.

A inadequação, a falta de uma pátria, os novos atores da história do Brasil e, em torno disso tudo, a cidade que oprime são alguns dos temas do filme. Apesar de uma certa amargura – ou daquele humor tragicômico típico dos italianos (e conseqüentemente dos ítalo-paulistanos) – o filme faz pensar, mas não deprime. Tem a cara acinzentada da cidade, mas também tem a vibração. E, como o próprio Ugo prefere ressaltar, tem as pessoas.

Sua obra também inclui documentários memoráveis – muitos sobre São Paulo – e filmes divertidíssimos, como o impagável Boleiros, cuja continuação Giorgetti promete para o ano que vem. Em dezembro, o CineSESC exibe seu trabalho mais recente: "Variações sobre um quarteto de cordas", um documentário sobre o músico Johannes Oelsner, integrante do Quarteto de Cordas Municipal de São Paulo por 35 anos e o único remanescente da primeira formação do grupo criado por Mario de Andrade em 1942.

Nesta entrevista, o cineasta fala sobre a cidade e suas pessoas, e sobre os documentários e projetos que está desenvolvendo.

urbs – Você tem uma ligação forte com São Paulo. Em todos os seus filmes, a cidade é quase uma personagem. Até sua produtora se chama SP Filmes de São Paulo.
Ugo Giorgetti – Minha ligação com a cidade acontece primeiro porque eu nasci aqui. Meu pai nasceu aqui. Minha mãe nasceu aqui. Meus filhos nasceram aqui. Meus irmãos. Eu sempre vivi em São Paulo, nunca morei fora. E, por outro lado, preciso da cidade, pessoalmente. Isso significa que eu percorro o espaço público. Não consigo viver em condomínio, pegar meu carro para ir trabalhar e depois voltar para o condomínio. Tenho que andar pelas ruas. Sempre andei, minha geração é de andarilhos, não tinha carros. Ninguém tinha carro quando eu era adolescente, era muito raro. Então eu percorro muito a cidade. Isso faz com que você tenha uma ligação maior com ela. Mas São Paulo ficou um horror. É uma coisa interessante... Na verdade nem sei se podemos chamar São Paulo de urbs. Essa palavra com seu sentido ancestral, de formação de cidade, de organização do espaço público, nesse sentido acho que São Paulo não é mais uma urbs. É o caos.

E mesmo sendo um caos, essa ligação se mantém?
O caos foi se instalando, mas a cidade não era visivelmente caótica. A não ser o caos do trânsito, que sempre foi ruim. Mas estou falando dos anos 50, quando havia um esforço para ordená-la, coisa que eu não vejo mais. Até porque ficou muito difícil, mas não impossível. Então, para quem precisa da cidade para uma experiência quase pessoal como eu, ela é muito difícil, porque você não encontra mais uma cidade. No fundo, você começa a se valer de uma cidade imaginária que só existe em sua cabeça.

É essa a cidade dos seus filmes?
Talvez. Mas é a cidade que eu vivi também. Eu passo pelas ruas e, inconscientemente, as preencho com meu imaginário. Passo na Av. Rio Branco, perto do Largo Paissandu, e percebo que hoje aquilo está degradado. Mas nem sempre foi assim. Por isso, eu passo um pouco mais incólume ao horror – justamente porque sei que ali tinha havia outras coisas. Você refaz a cidade com lembranças.
Isso tem muito a ver com o monólogo do personagem Otávio Augusto, em seu filme O Príncipe, ali na Galeria Metrópole, falando sobre a importância cultural dela e daquele entorno?
Isso mesmo. No fundo, estamos sempre à procura da cidade que se perdeu. Em outros lugares do mundo é a mesma coisa, as cidades também são imaginárias. Ao pensarmos em Paris, por exemplo, não sabemos mais o que é ela mesma e o que é a descrição de Victor Hugo em seu livro Os Miseráveis. De qualquer forma, nenhuma cidade mudou tanto como São Paulo. No mundo ainda encontramos lugares que mantém a organização e o aspecto do século 19, mas as mudanças sofridas por São Paulo transformaram a cidade em uma loucura completa e absoluta.

Nesse sentido, o Centro é uma das únicas regiões da cidade a manter uma referência do passado.
Sem a menor dúvida. Apesar de toda degradação que a região passou, eu ainda acho que sim, que o Centro é uma referência. Mas é preciso lembrar que durante muito tempo, o Centro da cidade foi o maior referencial, mas hoje não é mais assim: não existe um único centro, existem vários.

O que deve ser feito, então, para manter e requalificar o Centro?
Acredito que o Centro histórico da cidade deveria receber mais atenção. Muitas empresas dizem se preocupar muito com a região central, mas criam espaços culturais em outras partes da cidade. Por que não criar no Centro? Eu sei que é muito complicado, porque novas centralidades estão sendo criadas, mas esses novos centros não são históricos, não têm personalidade. A única forma de se preservar o Centro da cidade é investindo no lazer da região. Porque o problema é a noite. Durante o dia existem atividades que atraem pessoas de toda a cidade, mas a noite é mais difícil. É o caso do Centro de Nova York que foi sustentado pela Broadway. Caso os teatros tivessem ido não sei para onde, a classe média não seria obrigada a ir lá. Mas essas pessoas vão para a Broadway, mesmo com a presença de marginais e prostitutas. É essa mistura que mantém o lugar, é uma mistura necessária.

Falando agora de seu trabalho, como está o documentário sobre o edifício São Vito?
Na verdade, não era um projeto pessoal meu. Não me lembro exatamente de como tudo começou, mas o [arquiteto] Roberto Loeb estava envolvido com a reforma do prédio e um dia me ligou para conversar. Achava que algo poderia ser feito, que era preciso documentar aquele trabalho. Apesar de não ser nada certo, isto é, de não fazer diretamente parte dos meus planos, isso acabou saindo na imprensa. Com isso, alguns jovens que já estavam fazendo um documentário sobre o São Vito há bastante tempo ficaram preocupados. Eles consideraram o projeto deles acabado pois achavam que se eu também filmasse, iria obter mais atenção da mídia. Então vieram conversar comigo e eu quis ver o que tinham feito. Achei o material muito bom e me ofereci para fazer a produção para eles. E acabei reconhecendo no material um pouco do meu trabalho no Martinelli, em 1975. Naquela época, acompanhei toda a ação de despejo dos moradores. A diferença é que no São Vito não houve uma ação de despejo. Foi uma negociação muito mais suave, as pessoas saíram e o que tinha de ser feito já foi terminado. Isso tudo foi documentado. Mas os meninos estavam fazendo tudo na raça, com a cara e a coragem, e agora o dinheiro acabou. O que nos interessa agora é acompanhar o trajeto dessas pessoas enquanto elas esperam o prédio e o destino delas. Teríamos que fazer as entrevistas enquanto esperamos o avanço da obra. Mas por enquanto estamos atrás de patrocínio.

E o que você achou do que viu no São Vito, até mesmo em relação ao Martinelli?
Para mim, a solução daquele prédio era arrumar o elevador. Só isso. O elevador era muito complicado. Fora isso, a fachada era aterrorizante. Mas não havia uma correspondência interior. O terror de fora não correspondia ao terror de dentro. As pessoas diziam que não se podia entrar. No seu prédio pode? Não. Lá também não, porque tinha portaria e síndico, o que não acontecia no Martinelli. Lá no Martinelli sim, era muito complicado. Havia três bares funcionando em andares diferentes. Como restringir alguém que ia a um bar? Era uma loucura total. Se um apartamento estivesse vago, as pessoas invadiam. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, um dos elevadores do prédio era ocupado por uma família. O homem viu que estava quebrado fazia um ano e ninguém o arrumava e, por isso, levou a família para lá. No São Vito não era assim.

E como era a relação entre os moradores do prédio?
Era uma convivência estranha, mas que, de certo modo, era comovente. O pessoal do documentário conseguiu captar um momento que parece cena dos filmes de [Pedro] Almodóvar: um travesti comemorava seu aniversário com três ou quatro amigos também travestis. De repente, começam a chegar várias crianças do prédio – de uns oito ou dez anos —, todas bem arrumadas para o aniversário. Uma vizinha também chega para comemorar. Imagina você aqui "fora" mandar um filho teu para a festa de um travesti? Não existe essa possibilidade, mas lá não, eram pessoas que se conheciam, que estão juntas lá há bastante tempo. Eles viviam lá de uma maneira razoável. Não era um inferno. O que a princípio era estranho é que todos os apartamento tinham a porta e uma grade. Como era kitchenetes muito pequenas, em época de calor era necessário abrir a porta para que entrasse mais ar. Então, você passava e a pessoa estava lá assistindo TV, detrás daquelas grades. E as pessoas se cumprimentavam "Oi, tudo bem?". Podia parecer uma cela, mas não era. Ninguém queria sair de lá.

Com o projeto de reforma, os apartamentos serão remodelados, não haverá apenas kitchenetes. A idéia é justamente promover uma mistura de classes, porque só assim o edifício poderá ser sustentável, sobreviver com o condomínio. O que você acha dessas idéias?
Tudo bem, esse prédio será exemplar, mas e o entorno? Há uns 40 São Vitos pequeninhos por ali. Aliás, muitos moradores do próprio São Vito se mudaram para eles. Acho muito complicado e tenho muitas restrições em mexer na vida das pessoas dessa maneira. Ações do tipo "eu sei o que é melhor para você". Não se trata apenas de restaurar fachadas. O São Vito ficará bonito, mas isso não basta. É preciso restaurar as pessoas que vivem nele. Restaurar o poder educacional delas, enfim, instituir cultura, civilidade. Veja bem, não sou contra a restauração, mas é um erro achar que recuperar a cidade apenas geográfica e plasticamente renderá alguma coisa. Porque dessa forma a cidade não se mantém. Se a cidade está ruim, é porque as pessoas estão ruins. Essa coisa de não querer ver o próximo é muito típico de São Paulo. Condomínio mental. As pessoas estão piores que a cidade, não querem se encontrar. A forma como a cidade está é uma obra de todo mundo. Nós fizemos isso aí. E não é só no Centro. O que fizeram, por exemplo, no bairro da Vila Madalena foi devastador. Percebi isso porque quando filmamos O Príncipe, alugamos uma casa aqui perto da produtora. Então passávamos muito na rua Delfina, que era muito residencial – tinha um único restaurante. Hoje, a Delfina está invadida, há três bares e os manobristas chegam a estacionar os carros aqui, a quase 500 metros de distância. Fico pensando em uma pessoa que, com muito esforço, juntou dinheiro e comprou uma casa nessa rua. De repente, tem diante de si aquilo que está lá. Não é justo. Eu acho que o poder público perdeu totalmente o controle. Periodicamente ouvimos falar de Plano Diretor, mas depois tudo fica por isso mesmo.

E além da produção desse documentário, quais outros projetos você está trabalhando?
No próximo ano provavelmente vou filmar Boleiros 2. É um projeto que tenho há algum tempo, mas não estava conseguindo concluir a captação. Então vou fazer com o dinheiro que tenho. Às vezes temos que modificar as intenções. O importante é que a qualidade não caia, você tem que fazer sociedade, coisa que nunca havia feito e agora fiz. No cinema você tem que se virar. Ainda mais agora que virou uma coisa muito oficial, quase uma propriedade da televisão. O cinema oficial do Brasil hoje pertence à Globo. Então temos que fazer o nosso e não devemos nos queixar muito. Além desse, que é ficção, estou começando a filmar um documentário sobre pizza. Mas não é sobre a migração italiana, as adaptações da receita, essas coisas. O que me interessa é a pizza de mussarela e o que está em torno dela. Vou filmar um roteiro de pizzarias desde a favela de Heliópolis, onde a pizza custa R$ 8, até a "A tal da pizza", na Granja Viana, onde todas as pizzas – inclusive a de mussarela – custam R$ 48. Nesse caminho, vou passar pelo Jardim Ângela, pelo Brás, Jardins, Higienópolis. É a mesma pizza, mas quem come? Quem leva? O que me interessa é o entregador, o guardador de carros, a hostess, enfim, a pessoa que trabalha ao redor dessa pizza.

É mais um filme sobre a cidade? Na verdade, estou chegando à conclusão de que não é exatamente a cidade que está presente em todos os seus filmes; seu interesse na verdade são as pessoas. É isso?
A cidade são as pessoas. Outras coisas da cidade me interessam também, como a arquitetura, mas o que resta mesmo de São Paulo são as pessoas. O Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma natureza tão exuberante que tem até a mesma importância das pessoas. É tão lindo que as pessoas passam a ser algo dentro daquele conteúdo geográfico. São Paulo não tem nada, é horrível, então o que resta? As pessoas. Os amigos. Eu acho que isso é a única coisa boa de São Paulo, primeiro porque é uma cidade de migrantes, e ela recebe todo mundo muito bem. Ela tem uma hospitalidade que você não encontra em outro lugar.

Você, naturalmente, é de família italiana, mas em que bairro nasceu?
Nasci em Santana, um bairro que tinha migração italiana, mas também tinha migrantes de muitos outros lugares, como judeus e armênios. Cada rua era de uma colônia.

Você acha que o fato de ter um grande público aqui em São Paulo provém da identidade com a cidade presente em seus filmes? Como é o retorno em outros estados?
Na verdade o grande público, para tudo, é daqui. Mas em outras grandes cidades meus filmes também acabam se defendendo, porque têm características comuns das grandes capitais. Depende do filme também, estou falando de Sábado e Boleiros. O Príncipe foi mal em todos, eu sabia que era um filme para um público pequeno – mas nem tanto... De toda forma, faria de novo, do mesmo jeito. Em nenhum momento me arrependo de ter feito esse filme. Eu precisava ter feito, porque estava com muita coisa engasgada.

Foi um exorcismo seu? Estão lá todos os personagens da elite atual, o gerente de marketing, o empresário corrupto, o jornalista frustrado...
Acho que sim, um pouco. Mas espero que esse filme não vire o que o Plínio Marcos falava. Para ele, se suas peças fossem escritas em um país decente, estariam superadas em cinco anos. Mas aqui no Brasil viravam clássicos, podiam ser encenadas em qualquer tempo. Quando o Lula entrou eu pensei que haveria mudanças maiores. Mas eu poderia ter feito O Príncipe hoje, porque não mudou nada.
A única forma de se preservar o Centro da cidade é investindo no lazer da região.
Não se trata apenas de restaurar fachadas. o São vito ficará bonito, mas não basta. é preciso restaurar as pessoas que vivem nele.



  Idéias  
Registros da Vida Urbana São Paulo,


Em 2002, por seis meses, recorri e orientei os percursos de bolsistas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas FAU-PUC no Centro de São Paulo. Minha referência era o Corredor Cultural definido pela Prefeitura da capital.

Deambular, andar, passear, flanar. Qualquer que seja o nome, o intuito era o de um fluir antenado, levado pelos pés e pelos atrativos que surgissem aos olhos e às mentes, e que fosse documentado, em textos e fotos, tudo o que fosse visto, ouvido, pensado, sentido, conversado. Os relatos foram chamados de "jornalários", nome extraído de Galáxias, livro-viagem de Haroldo de Campos.
Este artigo é parte do trabalho e o dedicamos à cidade, aos que a usam, aos que a fazem e à vontade de compreendê-la.

Depoimento/Haroldo de Campos

São Paulo é uma megalópole que nasceu de um umbigo colonial: o Pátio do Colégio, marco zero da cidade. Cidade de grande miscigenação racial e religiosa, que o prolongado e lento convívio apaziguou. Rica de arquitetura, pela diversidade de formas, pela variedade do imaginário cultural trazidos pelos imigrantes de várias origens. Reflexo deste caldo, ela não possui identidade que se possa dizer reconhecível: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mario de Andrade, é seu paradigma.

A diversidade de características é a sua característica.

A vida nela é dinâmica, múltipla, caótica. Espalha-se horizontal; expande-se vertical. Geometria de formas duras, miscelânica, plural, que se quebra pela atuação de artistas que a tornam menos áspera em formas e em texto, som e imagem.

Jornalário — dia 1 Considerei três caminhos: descer na Estação São Bento e ir à Praça do Patriarca. Subir pela Líbero Badaró; descer na Estação Anhangabaú e, a partir daí, optar entre atravessar o Vale do Anhangabaú e subir as escadarias da Galeria Prestes Maia, ou percorrer as escadas rolantes que partem da rua Formosa em demanda da Cel. Xavier de Toledo. Escolhi este para ir à Patriarca de forma mais lenta, como a alguém a ser apresentado. Para tê-la por inteiro, só à distância.

De perto é possível vê-la apenas pelos cantos: escolho um e o percorro em sentido anti-horário. Dia claro. Nuvens cinzas cobrem o sol, inviabilizam sombras. Registrei o que pude: grupos de pessoas, táxis, carros, ônibus, motoqueiros, camelôs, tudo em profusa confusão. Quatro bêbados ao pé da estátua do Patriarca (e ainda é manhã!), presos em seu mundo. Na calçada, a polícia tenta garantir, pela presença, a segurança dos pedestres. Catadores de papel e suas carrocinhas dificultam o trânsito de passantes apressados.

Interesso-me pelas motos estacionadas ao longo do meio fio. Busco o melhor ângulo para uma foto. Do carro forte, deparo com o olhar atento do motorista. Faço um sinal amistoso, fotografo e saio em direção à Estação São Bento e tento ser o mais natural possível. Lá, na área que virou praça de alimentação, um conjunto de jazz acompanha o almoço.


Depoimento/EMURB

A Cidade industrial se perdeu para a de serviços. A vida das indústrias mecânicas está em transformação. Só resistem as menos poluentes e ruidosas. A indústria elétrico-eletrônica se instala. A cidade está em nova transformação, privilegia eventos, congressos, feiras, convenções e a área cultural. Edifícios são erguidos para abrigar essas novas funções.

A cidade de serviços, de ensino especializado e cultura pressupõe outros tipos de relacionamentos: o convívio com o ambiente urbano. As relações humanas nesses ambientes, da forma como eram, estão na contingência de um processo de transformação.

Jornalário — dia 2

Sábado,13 horas. Viaduto do Chá lotado: transeuntes, místicos, vendedores e curiosos assistem ao campeonato de skate organizado pela Prefeitura, na continuação da praça Ramos de Azevedo. A cada manobra radical o público reage com um "oohh!" sincronizado. Os jogadores de búzios, as cartomantes e, principalmente, as ciganas, aproveitam o movimento para pegar na mão das pessoas. Dizem: "só vou dizer o nome de um falso amigo seu". Espero o momento certo para falar com a cartomante, mas ela está sempre com clientes.

Por volta das 14 horas, ela fica sem clientes. Chego perto e vejo que ela começa a almoçar, com uma coxa de frango na mão. Pergunto se pode me atender. Diz que sim, que é só terminar de comer. Chama-se Lena, tem 64 anos, é cigana e trabalha há 30 como cartomante. Está no Viaduto do Chá há onze. Durante a semana, menos domingos e feriados, trabalha cobrando 15 reais por 15 minutos de consulta. Também atende em casa: são 30 reais por uma consulta mais longa. Tem clientes fixos e atende sem parar, às vezes nem vai ao banheiro para dar conta de todos os compromissos.

A relação das pessoas que trabalham aqui é a de bons vizinhos, um ampara o outro. Enquanto falamos, um menino chega para buscar o dinheiro que havia deixado com ela. Pensei que fosse seu filho. Soube que, pela manhã, alguns moleques tentaram tirar-lhe os 11 reais que havia ganho engraxando sapatos. A cartomante os espanta e sugere guardar o dinheiro. Ele viria buscá-lo ao ir embora.

Dona Lena lê minha sorte. Antes de mexer no baralho, diz que eu pareço freqüentar a Igreja Universal; fiquei com pé atrás: nunca entrei numa. Quer saber nome completo, idade, data de nascimento e signo. Descreve o perfil de leão. Depois diz que sou vaidoso, mas de uma vaidade voltada para a família, pois penso em todos e não só em mim; diz que detesto pessoas que reclamam e não lutam; que não pararei nunca meus estudos e que uma pessoa mais velha me dará bons conselhos sobre a profissão; que viajarei ainda este ano; que meu relacionamento amoroso ainda não está completo, talvez por me dedicar a várias atividades e ser mais independente; que meu coração palpita de vez em quando; que meu pai está com pressão alta; que ele é mais calmo que minha mãe; que ela terá vida longa.

Descreve duas pessoas, a primeira, com vinte e poucos anos, tem o cabelo claro e me aconselha muito; a outra parece ser mais velha que eu, mas não é: sua aparência é assim por ser responsável, super-objetiva e muito engraçada. A observação sobre a pessoa ser engraçada me fez acreditar no relato. No final, disse que eu era iluminado e que nunca havia atendido alguém tão bem estruturado.

Na volta, esperando o ônibus para casa, um senhor sugere que uma grade cerque o Teatro Municipal para evitar a sujeira, o mau cheiro, os ambulantes!


Depoimento/Maurício Faria

Toda cidade tem pólos de centralidade. A primeira de São Paulo partiu de sua origem histórica. Quando a primazia da economia se estabeleceu, a centralidade migrou para a Av. Paulista, o que gerou o esvaziamento do Centro histórico e a polarização de outras atividades para o eixo dessa Avenida. Atualmente, outra centralidade aparece na Av. Faria Lima e em sua extensão, a Av. Eng. Carlos Berrini. Outras centralidades existem, com cunhos diferenciados: cívica, simbólica, geográfica. Assim, hoje em dia, shopping centers são fortes referenciais de centralidade. As antigas centralidades costumavam ser referenciadas nos cartões postais.

O Centro histórico da cidade não é mais um lugar de vivência urbana, mas sua requalificação busca superar essa crise, com a compreensão de que o uso do espaço público da região tem de voltar a ser um lugar de caminhar, de centros públicos de sociabilidade, de bolsões de espaços fechados para o estar e da visão da arquitetura a partir da rua. A Operação Urbana Centro incentiva essa atitude com a revitalização da Biblioteca Mario de Andrade, as apresentações na escadaria do Teatro Municipal, o alargamento de calçadas, de modo a permitir o fluxo urbano e assim propiciar o consumo e o lazer.
Conta-se também com a requalificação estética da paisagem urbana, fazendo com que, no seu conjunto, a recomposição do conceito de passeio público seja incentivada, promovendo o retorno do Centro como espaço de moradia, de interesse social, comercial, administrativo; enfim: recuperando antigos e criando novos fatores de vitalidade.

Jornalário — dia 3

Manhã de segunda-feira: outras caminhadas e corre-corre. Mesmo estando tranqüilo (sou tranqüilo), a movimentação das pessoas me deixa agitado. A cada hora o Centro recebe mais gente, parecendo um enxame de abelhas.

Começo a perceber que atingir minha meta será mais difícil do que imaginava: a cada informação que peço fica mais complicado encontrar o que procuro. As pessoas às quais me dirijo não conhecem de fato o Centro: é um monte de "acho que", que me faz andar de um lugar ao outro. O engraçado é que procuro uma igreja que não existe na região, mas sou mandado para outras igrejas, como se fosse a procurada.

Depois de muito andar, resolvo ir à igreja de São Francisco falar com algum padre. Assunto: a vida no Centro. Uma beata fala quem é o mais indicado para o pretendido: o Frei Filipinho. Ela entra em contato com os padres, volta e diz que não poderei ser atendido. A Quaresma ocupa a todos; entrevista, só depois da Páscoa.

Enquanto espero, converso com uma senhora, aparentando 60 anos, mulata, serena, que adora falar e rir, isso faz o tempo passar desapercebido. Mora do outro lado da cidade e veio para conversar com um frei; também não foi atendida. Não desisto: vou à igreja de Santo Antônio. Lá me dizem para voltar mais tarde pois o padre está ocupado. Tudo bem; saio, mas continuo no entorno. Vou ao Hotel Othon, pego um número de telefone para marcar entrevista; na Casa Fretin, a porta da frente está aberta, mas as demais trancadas; na Loja Colombo, os vendedores não querem conversar. Mesmo o gerente tendo autorizado a conversa, dizem que o dono da loja – que está presente – achará ruim; na Casa Lutétia, só está o faxineiro, e não sabe me informar com quem posso conversar.

Enfim, ando de um lado ao outro sem atingir a meta: conversar sobre a vivência no Centro. Decidido, volto à igreja de Santo Antônio e, finalmente, o padre Giorgio me recebe. Cabelos brancos, tranqüilo, estrangeiro, italiano com certeza. Falamos sobre a vida no Centro: as ocupações desordenadas do espaço público, o trabalho informal, como dar assistência aos inúmeros moradores de rua; como garantir um cinturão verde para a cidade; a necessidade de requalificação; banheiros públicos; educação para o povo; crianças, adolescentes e mulheres marginalizadas. Apesar de curta, foi uma boa conversa.

Depoimento/Terezinha Gonzaga

Um fenômeno mundial, principalmente nos países em desenvolvimento: cresce o número de mulheres que são chefes de família. Aqui, com a saída do homem de casa, 26 a 28% suportam as necessidades domésticas, sustentam casa e filhos. No caso do Centro expandido, o número de mulheres chefes-da-casa chega a 37%. Muitas habitam cortiços e são mães solteiras, separadas ou abandonadas. Há um grande número de idosas e viúvas.

A entidade municipal União de Mulheres realiza um trabalho junto ao grupo Ação de Moradia de Cortiço no Centro, oferecendo apoio psicológico às tensões que surgem por medo de ação de despejo, problemas familiares e pessoais.

Outro grande problema é o de mulheres que apanham dos maridos. A violência doméstica é bastante arraigada em classes sociais desfavorecidas e muito usual nas culturas comandadas pela autoridade masculina. As mulheres têm mais medo de falar que apanham dos maridos do que de apanhar deles. Vivem uma cultura de conivência e cumplicidade, em que apanhar de um homem que já viveu a sua intimidade profunda é agravante, mas para as leis antes vigentes e ainda arraigado no comportamento existente, é atenuante.

As mulheres são educadas para serem divididas e os homens para serem unidos. O Movimento das Mulheres propõe uma reeducação, busca aumentar a auto-estima, assim como a consciência dos direitos e de que a violência doméstica é crime. No centro expandido atuam as seguintes entidades: Centro de Informação da Mulher, União de Mulheres Feministas Autônomas de São Paulo, União de Mulheres Comunistas do PC do B, Católicas pelo Direito de Decidir, Coletiva de Mulheres Lésbicas, Oriexé – Banda de Mulheres Negras, AMAM – Associação de Mulheres que Amam Mulheres.

Jornalário — dia 4

Sábado começa cedo: ainda não são oito horas e o sol já queima. Agora, às nove horas, o sino toca assim que chego ao Largo de São Bento. Para surpresa minha, o sino faz "blan, blan" e não "blein, blein", como eu supunha.

Estamos no lugar e hora certos! Alguns transeuntes já estão espalhados pela praça. Depois de ver o desenho de alguém da minha equipe, um deles pergunta o que fazemos e conversamos. Pergunto se posso tirar uma foto dele. Ele resiste um pouco, mas cede em troca da promessa de receber uma cópia.

Vou ao Restaurante Girondino, tomo um café. Sigo para a igreja de São Bento, onde alguns visitantes são guiados por um monge do mosteiro. Ele fala sobre a construção da basílica, do mosteiro e do colégio. Ao sair, um ciclista passa e não hesita em fazer o sinal da cruz em respeito à casa de Deus, enquanto quase me atropela.

Entro na Florêncio de Abreu. Cada vez que paro, pessoas curiosas se detêm para ver o que faço. Ruas lotadas de camelôs; sinto-me angustiado, acuado, num labirinto onde tantas informações existem ao mesmo tempo: despertadores tocam juntos; auto-falantes anunciam CDs piratas; gritos sobre promoções; cheiro de suor de pessoas que passam apressadas; cheiro de lixo que o calor faz exaltar; cheiro de urina, de churrasquinhos grelhando; roupas coloridas penduradas nas áreas de serviço dos prédios; marmitas sendo comidas: eis a dinâmica da vida urbana acontecendo sob meus olhos.

Na Sé, grande concentração de trombadinhas, moradores de rua, pessoas da classe dos despossuídos. Um faz a barba na fonte; outro, sentado, dorme; outro fala sozinho; alguns conversam entre si. Em comum, todos nos olham com desprezo, como quem diz: "aqui é nosso território". Um até declara em alta voz: "a burguesia é podre – como dizia o Cazuza".

Eis o Centro, com o seu inesperado, onde tudo o que pode acontecer acontece. No Centro Cultural Banco do Brasil, na hora em que a fome baixa, somos recebidos com um coquetel matutino. Inauguração da mostra do pintor ítalo-argentino Lucio Fontana.

Jornalário — dia 5

Agora na Av. São João, defronte aos Correios, um estacionamento de carrinhos de ambulantes, com suas famílias inteiras, nos olham com desprezo. Num bar, ao nos ver passar, um homem nos chama de manada.

Guardas municipais tentam acordar um homem estirado na escada, chutando-o, sacudindo-o, mas sem obter nenhuma reação. Parece dopado, não se mexe, não abre os olhos, está todo mole. Um ambulante, ao ver o mau jeito dos guardas, se aproxima e tenta acordá-lo com tapinhas no rosto, joga água, também sem sucesso. Muito tempo depois, o homem levanta e sai cambaleando, vivo!

Entro no Municipal, ouço e vejo em uma sala duas moças que ensaiam uma ópera: dois espetáculos diferentes - um lá fora, outro cá dentro. Duas realidades que se chocam, se complementam. Faz-me pensar a cidade, tentar descobri-la, conhecê-la.

Jornalário — dia 6

Tarde de sábado. Ladeira da Memória. Começo a descê-la: pessoas sobem e descem a passos largos e rápidos. Camelôs por toda a parte. Tanto som junto, não se distingue quem canta o quê. Tanto som não incomoda os que dormem profundamente; crianças brincando, ajudando os pais, encolhidas pelo frio que faz; pessoas conversando, outras tocando, outras cantando, fazendo do Centro o seu lugar de estar.

Neste cenário, vemos a falta de cuidado para com a cidade. Um homem desce a escada de acesso para a rua Formosa e urina tranqüilamente na calçada, sem se preocupar com os que passam; estes sim, incomodados, desviam-se.

Ao andar pela região as pessoas parecem não notar o espaço que lhes vai à volta; ensimesmadas, por proteção, talvez, não olham a Cidade que os cerca e se concentram na busca de seu destino. A cidade, enquanto espaço e história, não existe para elas.

Na procura de um termo que contenha todas as suas representações, é preciso falar em multiplicidade, plurifuncionalidade, polifonia, interatividade, tempo acelerado, fragmentação, mosaico. Entretanto, entre a cidade que temos e a que está em nossos desejos, há um distanciamento difícil de aproximar. Apesar disso, perceber e sentir a vida urbana, ampliar nosso imaginário, sonhos e atuações sobre ela, extrair a poesia de cada dia, é uma possibilidade imediata que a arte permite realizar.


"Cuando se trate con seres humanos en cuanto individuos, lo primero que hay que considerar es su capacidad sensorial, o sea las vias a través de las cuales estos seres humanos, como usuarios activos y exploradores del medio, lo perciben sensorialmente y le ortogan un significado".
Amos Rapaport

"Você sabe melhor que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles".
Italo Calvino
*Arquiteto, doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e artista plástico.




  Idéias  
VIDA NOVA PARA OS GALPÕES PAULISTANOS

São Paulo cresceu com a industrialização e a marca desse desenvolvimento ficou registrada em bairros fabris do Centro Expandido, como Mooca, Ipiranga, Barra Funda e outros. Restaram galpões em terrenos imensos, que transformaram muitas ruas em verdadeiros desertos. O projeto propõe o reaproveitamento desses antigos galpões para novos usos, com sua conversão em mini-bairros ou vilas.

FOTOS e croquis CEDIDOS PELOS AUTORES
Sandra Landi Romanhole, Sumaia Rodrigues Lima e Ernesto Almeida Neto*




No decorrer da história das construções na cidade, os galpões e vilas de galpões sempre foram ocupados pelas indústrias. Com o crescimento de São Paulo e a instauração das leis de zoneamento, esses tipos de edificações em bairros como Mooca, Ipiranga, Tatuapé, Barra Funda e Água Branca – entre outros – foram abandonados ou descaracterizados.

O projeto – "Riabitare" cujo nome deriva do italiano "reabittare", reabitar – teve como ponto de partida as iniciativas do Serviço Social do Comércio (Sesc), que costuma recapacitar galpões e edifícios antigos, onde instala sedes de arquitetura instigante, como é caso do Sesc Pompéia, um projeto de Lina Bo Bardi. As instalações da Universidade Anhembi-Morumbi no Brás, que reaproveitaram os edifícios das indústrias Alpargatas, também tiveram sua estrutura e edificação mantidas, mas a função modificada.

Muitos projetos estrangeiros também partem do conceito de refuncionalização de edificações pré-existentes – como no caso das docas do Puerto Madero, em Buenos Aires, transformadas em restaurantes e edifícios de escritórios. Mas o Projeto Riabitare foi desenvolvido a partir da realidade nacional e da necessidade de preencher os vazios urbanos com a revitalização de bairros que, em geral, são bem localizados e providos de toda infra-estrutura necessária para moradia e trabalho. Dessa forma, evita-se a construção de novos edifícios para atender demandas como moradia, comércio, lazer, cultura, saúde, educação etc.

O objetivo do Projeto é dar uso e aproveitamento a esses galpões desocupados – ou com utilização improvisada –, privilegiando sempre o favorecimento arquitetônico e urbanístico, principalmente das construções mais antigas. Além do aproveitamento das construções em si para outras finalidades, acreditamos que a reutilização dos espaços – muitos desativados há mais de 20 anos – provocará uma ampla revitalização de seu entorno.

Definições

O mercado habitacional pede boas moradias, além de exigir segurança e preços justos. Por essa razão, o uso desses galpões é bem definido pelo "Riabitare": os aspectos de conforto, beleza e, especialmente, o custo-benefício são essenciais para o embasamento do projeto. A preservação da arquitetura local, assim como o aproveitamento de sua estrutura, também são pontos que não podem deixar de ser considerados.

Busca-se o desenvolvimento de um plano urbanístico que mesclará moradia, escritórios, comércio e lazer, com a transformação do espaço interno em "mini-bairros", ou "vilas", nos quais a circulação será responsável pela ênfase dos espaços contemplativos, tais como praças, vielas e áreas de lazer.

Lembrando que os bairros-alvo sofreram esvaziamento, o "Riabitare" visa a caracterização de um novo uso para a ocupação residencial e comercial. Um outro objetivo a ser alcançado é o aproveitamento da malha viária através da intensa atividade de transporte local e também o uso de conceitos de autonomia e recursos naturais, tais como água, chuva, esgoto e energia solar.

Estruturação

Como as construções serão apenas reformadas, em nosso projeto pretendemos dividir os galpões em várias moradias ou escritórios, com baixo custo de construção e manutenção. Por exemplo, um galpão de 500m2 poderá ser transformado em até oito moradias do tipo lofts, ou ainda em edifício de serviços – office. Existe também a possibilidade de um mesmo conjunto de galpões agregar duas ou mais funcionalidades.

De acordo com estudos realizados nessas áreas, os espaços de lazer existentes nas moradias contemporâneas são pouco desfrutados pelos moradores. Oferecidos pelos incorporadores e construtores como diferenciais, tornam-se apenas encarecedores das unidades habitacionais e da taxa de condomínio. Observa-se ainda que o mercado imobiliário está paralisado com vários empreendimentos dessa natureza, pelo baixo custo-benefício. No caso das unidades do Riabitare, os custos baixos são proporcionados justamente pela dispensa de áreas como piscina, churrasqueiras, quadra de esportes, sala de ginástica, entre outros. Esses mesmos serviços podem existir, mas de forma terceirizada.

De acordo com a localização e bairro, essas construções poderão transformar-se em moradias populares, tendo como principal referência o entorno da linha férrea, o que baratearia a construção e contribuiria ainda mais para a diminuição do déficit habitacional.

A estruturação do Projeto Riabitare é flexível, pois ele se adequa ao tamanho e necessidades da área. Como resultado, os espaço voltados para o logradouro público serão destinados ao pequeno comércio, suprindo as necessidades do condomínio e favorecendo a revitalização do entorno. Como os serviços e lazer coletivo – academia, lavanderia, lan-house, cyber-café, entre outros – serão terceirizados no sistema "pay-use", haverá a geração de verbas para a própria manutenção do condomínio. As áreas também podem ser adaptadas a equipamentos culturais, como teatros, cinemas e bibliotecas.

*Ernesto F. Almeida Neto, Sandra Landi e Sumaia Rodrigues Lima são arquitetos.
e-mail: riabitare@uol.com.br



  Cultura  
ARTES PLÁSTICAS

Painel criado por Maria Bonomi, na Estação da Luz, é a um só tempo arte pública e coletiva.


A DUAS,
A QUATRO,
A MIL MÃOS

De um lado, vitrines de várias lojas, como numa autêntica rua comercial. Do outro, uma imensa obra de arte: um colorido painel de concreto de 3m de altura por 73m de comprimento, retratando a Epopéia Paulista. Quem assina? Maria Bonomi, uma das maiores artistas plásticas do país, além de artistas convidados como o venezuelano Carlos Pedreaniz, de Maracaibo – um grande centro de resistência cultural na Venezuela, com sua Bienal do Barro – e o argentino Leonardo Ceolin, o mestre impressor Antonio Pereira Garcia e o aprendiz William Roger Peres, o marceneiro Francisco Brito Vieira, do Ceará, e outras tantas mãos engajadas na feitura dessa obra de arte a um só tempo coletiva e pública.

Uma verdadeira sinfonia se acha orquestrada nesse enorme painel da Luz, provavelmente a maior obra de arte já realizada no Brasil. A matriz da xilogravura se converte em molde para a concretagem, ou como diz Lorenzo Mammi, diretor do Centro Cultural Maria Antonia, que exibiu este ano uma retrospectiva das gravuras de Maria Bonomi, o concreto aparente se torna suporte de um novo tipo de estampa, acentuando seu caráter escultórico. "É um capítulo importante da relação entre arte e urbanismo em São Paulo", observa o pesquisador, com a gravura chegando ao limite de seu desdobramento no espaço, algo já intuído pelo arquiteto Vilanova Artigas, que colocou uma gravura de Bonomi na rampa do edifício da FAUUSP.

"Quando se mergulha em um processo de criação, a obra se desliga da gente, começa a circular independentemente e passa a nos devolver novas visões do próprio trabalho", diz Maria Bonomi. "Foi a escritora Clarice Lispector, uma pessoa muito especial, que anos atrás me motivou a olhar com outros olhos as matrizes de minhas gravuras. Era alguém que não queria uma gravura, mas uma matriz. Clarice demonstrou para mim a importância da crítica, de uma visão desde fora do fazer e da própria obra de arte. Com isso, desde os anos 70 desenvolvo painéis cuja execução pode se dar de maneiras diferentes, mas sempre privilegiando essa possibilidade táctil, do sulco cavado, do alto e do baixo relevos, para os quais se transferem emoções sob o efeito da luz (leia mais em Obras em espaços públicos).

Desde essa época, Bonomi se empenha por essa emoção mais fisiológica, do corpo a corpo com o público, ou do visual impregnado por essa poética extremamente humana, que leva as pessoas a tocarem-se e às coisas. Na Estação da Luz, na parede oposta à das vitrines comerciais, o público poderá tocar, por exemplo, na representação dos cerca de 700 objetos pinçados na seção de achados e perdidos da CPTM. Ao alcance das mãos haverá guarda-chuvas, canetas, carteiras, brincos, bonés, colares, bolsas, cartas, sapatos, bengalas, blusas, chaveiros, livros... a memória, enfim, de cada um e de todos nós.

Uma epopéia

Foi há pouco mais de um ano que a CPTM convidou Maria Bonomi a enfrentar o desafio de cobrir com arte o paredão resultante da grande intervenção produzida na Estação da Luz pelo Projeto Integração Centro (leia mais em Racionalidade nos trilhos). Muito trabalho intelectual, pesquisa e planejamento rolaram nos primeiros meses, sem que se tivesse notícia de qualquer materialidade da obra monumental.

O caráter de produção coletiva da obra, contudo, aflorou com viés de happening em meados de abril, no anexo do Museu de Arte Contemporânea da USP, na Cidade Universitária, onde a artista instalou uma oficina inteiramente aberta a estudantes de arte e, parcialmente, ao público em geral, atendendo a um convite da própria universidade para uma residência artístico-didática de três meses. Os visitantes dessa oficina puderam participar da elaboração em madeira das matrizes para o painel, com a mídia duplicando-se em divulgadora do evento e chamariz de mais estudantes de arte e público à confecção das matrizes.

Coincidentemente, a minissérie da Globo sobre o modernismo, "Um Só Coração", de Maria Adelaide Amaral, comemorativa dos 450 Anos de São Paulo, mostrava Maria Bonomi ousadíssima na juventude, interpretada pela atriz Maria Luiza Mendonça, desafiando conceitos e preconceitos na construção de sua carreira. Mas isso é assunto para historiador da arte ou crítico de TV.

Em síntese, o painel Epopéia Paulista é divido em três movimentos ou planos. A faixa alta, em amarelo, faz uma releitura dos principais fatos históricos ocorridos em São Paulo, no Brasil e no mundo até as vésperas da entrega da obra, usando a linguagem do cordel, numa homenagem aos nordestinos que participaram da construção da cidade. A parte central, com elementos abstratos na cor branca, representa a página de São Paulo que está por ser escrita. A parte baixa, na cor vermelho-terra e ao alcance da mão, é a dos 100 anos da Luz, com a representação dos achados e perdidos, numa reminiscência de todos os povos que estão na base da formação histórica de São Paulo. Ao todo o trabalho comporta 185 matrizes.

A concepção dessa majestosa sinfonia em três movimentos não é fruto apenas do amadurecimento artístico de Bonomi, como principalmente de intensa reflexão. Em 1999, em tese de doutorado defendida na ECA-USP, "Arte Pública, Sistema Expressivo da Posteridade", a artista demonstrou que a gênesis da arte pública é, ou deve ser, totalmente diferente da concebida para ambientes privados. Importante: a tese de doutorado está para ser publicada pela Edusp.

"Arte pública não é qualquer arte que se coloca na praça. É arte pensada para o lugar, conceituada especialmente para ele", diz Maria Bonomi. Para conceber o painel da Luz a artista passou meses pesquisando o lugar. Olhando, estudando, vendo até mesmo que cores predominavam nas vestimentas dos passageiros da CPTM e do Metrô.

"Por que a arte no Metrô faz tanto sucesso? "Porque as obras foram encomendadas para aquele espaço, sob aquela luz, com aquelas pessoas passando... isso é arte pública. Com esse trabalho na Luz pude exercitar o conceito de produzir algo para um lugar específico, sabendo quem o verá ao passar por ali, além de poder homenagear uma série de pessoas, entre elas o meu avô, Giuseppe Martinelli, que ergueu o famoso prédio da Líbero Badaró, o Edifício Martinelli, segundo arranha-céu da cidade, entre 1925 e 1929, no coração paulistano. Foi com ele, aliás, que cheguei na Estação da Luz vinda do Rio, em 1946", diz Bonomi.

Irradiações

Como exemplar típico de arte contemporânea, o painel Epopéia Paulista já produziu várias irradiações, ou numa linguagem menos precisa, porém mais assimilável, vários subprodutos. A TV-USP fez um documentário sobre a elaboração das matrizes no MAC, sob a coordenação de Pedro Ortiz. A impressão em papel de matrizes superpostas foi exibida em outubro na Trienal de Gravura, em Praga, na República Tcheca. O mesmo trabalho deve seguir para a Bienal de Buenos Aires.

O projeto ainda prevê a produção de um livro-documento pela Editora Mandarim, com tiragem de cinco mil exemplares, e a distribuição de três mil kits de atividades de arte-educação.

Por fim, representando o Brasil em artes gráficas, Maria Bonomi comparece neste final de ano com praticamente uma individual de seus trabalhos na cidade andaluz de Granada, na Espanha, dentro da enorme coletiva intitulada Arte Gráfica do Mercosul. Ou seja, é Maria Bonomi permanentemente fiel à produção de uma arte para muitos.

RACIONALIDADE NOS TRILHOS

O Projeto Integração Centro, coordenado pela CPTM, vai agilizar o acesso entre as regiões Leste e Oeste, passando pelo Centro, ao eliminar as obsoletas e morosas baldeações no Brás ou na Luz, quando plenamente implantado. É a racionalização dos trilhos em um trecho de sete quilômetros e três estações metroferroviárias – Brás, Luz e Barra Funda –, que sofreram profundas intervenções. Na Luz, que ao fim das obras terá capacidade para a circulação de 300 mil pessoas/dia, o ponto culminante das intervenções foi a construção de uma passagem subterrânea interligando as estações da CPTM e do Metrô. Antes dela, as pessoas eram obrigadas a sair à superfície e atravessar a Rua Mauá para fazer a baldeação.

Obras em espaços públicos

Não é de hoje que a arte de Maria Bonomi ocupa espaços públicos, de livre acesso portanto, ou recintos privados de uso coletivo, como o saguãos de bancos e de hotéis. Datam de 1976 seus murais em concreto no Clube Sírio Libanês e na fachada externa do Edifício Jorge Rizkallah Jorge, além de um tríptico na Igreja Mãe do Salvador, em São Paulo, da mesma forma que os dois murais criados para o Macksoud Plaza Hotel (1979). Entre outras obras do mesmo naipe estão: mural em concreto e cobre, no Banco Exterior da Espanha, em Santiago do Chile (1984); mural em concreto no Banco Sudameris, em São Paulo (1987); mural "Futura Memória" em solo cimento, no Memorial da América Latina (1989); "Anjo", monumento-herma em pedra e bronze gravado, na Praça Ci, São Paulo (1992), atualmente desaparecida por ter sido roubada; a escultura "Páginas", em alumínio gravado, para o Arquivo do Estado de São Paulo (1997); dois painéis em alumínio doados pela Serasa ao acervo tombado do Palácio dos Bandeirantes e o díptico "A Construção de São Paulo", em concreto, na Estação Jardim São Paulo da Linha Azul do Metrô (1998); Nemeton", painel em concreto plástico no saguão do Edifício Premium da Construtora G. Halbreich (2000); e a escultura "Ginete", em alumínio fundido, para a nova sede da Serasa (2002).

FINO TRAÇO

Outro trabalho em finalização para a Estação da Luzé da arquiteta, urbanista e artista plástica Teresa Saraiva, colaboradora da urbs na seção Traço e doutorandapelaFAUUSP com uma tese sobre a centenária estação construída pelos ingleses. Teresa cria um grande painel (1,20 mde altura por 12,50 m de comprimento) compostode duas partes, tendo cada uma sete chapas de 1,20 mpor 0,85 m, que serão afixadas nas paredes contíguas à escada rolante de um dos acessos do saguão 2, na área de integração entre a CPTM e o Metrô. Teresa optou pela técnica de fundição para transferir os desenhos preparatóriospara as chapas deaço patinável, cedidas pela Cosipa, um material que desenvolve uma pátina sob a ação do tempo, ganhando a coloração do ferro utilizado na estrutura da Estação. A própria Estação, dadoo caráter da obra, de arte em processo de criação,seja pelo fazer criativo que lhe é imanente, seja pelas características do material, serviu como ateliê para a artista, que registrou em desenho a lápis enanquim todo o clima da Luz, sua movimentação diária, personagens e arquitetura, sempre às vistas de todos que circulavam pelo local. A linguagem utilizada no paineltraduz a Estação da Luz em sinais gráficos, transcendendo o figurativo que esteve na gênese de tudo.


  Reportagem  

O Centro e seus moradores
Um bairro para morar

O Centro oferece todos os serviços de outros bairros e muito mais. Quem mora na região encontra
diversidade e vibração e não quer se mudar.


Todas as qualidades de um bairro, onde se passeia no fim de semana com o cachorro pelas calçadas largas, com serviços de todo o tipo à disposição. E também toda a agitação do coração de uma cidade grande e pulsante, de uma das maiores metrópoles do mundo. Esse é o Centro sob o ponto de vista de seus moradores. São cerca de 70 mil pessoas que vivem em uma de suas 350 ruas. É só conversar com um deles para comprovar. E depois de alguns minutos de papo, é bem possível que você saia convencido de que mudar para o Centro pode ser uma ótima opção.

Para alguns, o encantamento está na vista que têm de suas janelas – que pode ser um prédio construído na primeira metade do século passado, uma praça cheia de árvores ou simplesmente as luzes da cidade vistas de cima. Para outros, a sedução é a heterogeneidade típica das regiões centrais e a possibilidade de encontrar nas redondezas tudo o que procura: do pão quentinho ao comércio especializado. Outros ainda são mais notívagos e se encantam com a vida social agitada, que hoje atrai pessoas de todas as "tribos" para grandes baladas noite adentro.

Quando o assunto é balada, o Centro é pródigo em programas para todos os públicos. Um exemplo interessante é o casario antigo da Vila dos Ingleses, nas proximidades da Estação da Luz. O conjunto de 28 sobrados geminados, construído entre 1915 e 1919 para abrigar os profissionais britânicos e suas famílias que vieram para o Brasil para trabalhar na construção da Estação da Luz, é palco freqüente de festas badaladas. O mesmo acontece com o edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, e ponto turístico de São Paulo. Além de abrigar um café onde se toma um dos melhores capuccinos de São Paulo – o Café Floresta, tocado pelos mesmos donos há cerca de 30 anos – é na sobreloja de um dos seus restaurantes que acontecem baladas dançantes que ganham mais e mais freqüentadores.

Um deles é o ator Eduardo Estrela, que esteve em cartaz com a comédia PS. Seu gato morreu, em 2004, no Teatro Augusta. "Tem música da melhor qualidade, som garimpado mesmo", diz. Estrela adora dançar e é freqüentador assíduo das festas do Copan, para onde vai e volta a pé. Há três meses, mudou-se para a Praça Roosevelt – onde parece que vai ficar por bastante tempo. Quer comprar um imóvel nas imediações, que, segundo ele, têm personalidade.

E quando assunto é dançar, Estrela dá as dicas. Ali perto, no início da Avenida Nove de Julho, o Hotel Cambridge virou ponto de festas agitadas. Na Rua Álvaro de Carvalho, paralela à Nove de Julho, outros bares surgiram. Aos sábados, a festa Trash’80 – embalada exclusivamente por músicas dos anos 80 – lotam o Caravaggio, atraindo pessoas de toda a cidade.

Quem prefere o coração do Centro e um agito mais moderado fica pelo Largo do Café, na região das ruas do Comércio e Três de Dezembro. Às sextas-feiras, mesas na rua e som seguram até de manhã, quando sai o primeiro metrô, muita gente que passou o dia trabalhando por lá. Leda Duarte, responsável pelo Museu do Teatro Municipal, faz parte da turma que não mora no pedaço, mas já foi adotada por ele. Trabalhando há 27 anos na região, ela já se considera "local". Além de reconhecer as pessoas e ser reconhecida, faz compras, almoça, vai ao salão de beleza, manda arrumar roupas, sapatos, enfim, faz tudo na região – inclusive o happy-hour.

Um dos lugares lembrados por Leda é o Bar do Museu, na sobreloja do prédio 324 da Avenida Ipiranga. Nas décadas de 30 a 50, o local era reduto de artistas, profissionais da imprensa e nomes importantes da época como Ciccilo Matarazzo.

A pulsação do Centro, porém, não está apenas nas noitadas. Há uma variedade de atividades culturais, muitas gratuitas, nos diversos centros de cultura da região. Exposições, cinema, shows e uma diversidade de workshops são oferecidos diariamente em lugares como o Centro Cultural Banco do Brasil, um semelhante na Caixa Federal, outro na BM&F, e, mais recentemente, na Galeria Olido, onde até 2001 funcionava o antigo cinema homônimo. E como alimentação também é cultura, vale lembrar que a região oferece possibilidade de folias gastronômicas de diferentes etnias – árabe, na região da rua 25 de março; japonês na Liberdade ou grego no Bom Retiro.

Quem procura acha

O Centro também é farto em opções para as compras dia-a-dia. Supermercados, padarias, feiras – tudo o que um bairro oferece também está à disposição dos moradores. E eles ainda têm alguns privilégios: não é nada mau ter o Mercado Municipal à mão, onde se encontra a maior variedade de frutas, carnes e produtos importados da cidade, principalmente depois da reforma concluída em 2004.

A decoradora Eliane de Sena Madureira Sales, apaixonada pela região, se empolga contando sobre sua rotina diária e como ela está toda concentrada no Centro. "Faço tudo por aqui e, sempre que posso, evito pegar o carro." O automóvel fica restrito às compras maiores. Do contrário, o meio de transporte é o sapato. E aí Eliane se queixa das calçadas, nem sempre bem conservadas.

Há nove anos morando nas proximidades da Praça da República, ela diz não se incomodar com o agito. Sua mudança para a região está intimamente ligada à relação de amor à primeira vista que ela e o marido estabeleceram com o apartamento onde moram, em uma movimentada esquina da região. Eliane conta que a segurança do local melhorou muito desde a sua chegada. Da varanda de seu apartamento, freqüentada por diversas espécies de pássaros, ela chegou a assistir cenas de furtos no início.

Hoje, a situação é boa. "Quem caminha pelas ruas já notou que pode andar mais tranqüilamente", afirma. Satisfeita, destaca que, embora viva há quase uma década no Centro, nem ela nem o marido, que trabalha nas imediações e vez por outra almoça em casa, tiveram problema com furto. A moradora atribui a melhora à implantação do policiamento comunitário em 1996.

Quem só vem ao Centro a trabalho ou às compras não imagina que os moradores têm acesso gratuito a diversas atividades. Aos domingos, em frente ao coreto da Praça da República, são oferecidas aulas de tai-chi-chuan. Diariamente, a partir das 7h15, há aulas de rádio taissô – uma espécie de alongamento – em frente à Secretaria de Educação.

Não muito longe dali, Minerva Maluf, moradora da Av. São João há mais de uma década, mas freqüentadora do bairro desde os tempos de criança, acredita que a segurança ainda precisa melhorar naquela região. Otimista, ela continua apostando nas reuniões dos moradores no Conselho de Segurança para pressionar por mais policiamento na área. Os encontros acontecem a cada terceira segunda-feira do mês.

Prestigiando os locais

O gosto dos moradores pelo bairro se reflete também na hora das compras. Eliane explica que procura fazer todas as suas no Centro para valorizar o comércio local. Minerva tem o mesmo discurso. Diz não se importar de pagar um pouco mais caro se for preciso, contanto que compre de comerciantes das proximidades. A idéia de fortalecer a economia da vizinhança acaba também reforçando os laços entre moradores e trabalhadores.

O agente comercial Alberto Gattoni conta que esse reconhecimento é muito positivo. Morador de um prédio na região do calçadão da Rua 24 de maio há 14 anos, Gattoni não poupa elogios à vizinhança. "A qualidade de vida aqui só não é ótima por conta de algumas falhas com segurança", diz.

Para ele, 80% do problema estaria resolvido com a retirada dos camelôs, que, segundo conta, são muitas vezes obrigados a acobertar a ação de assaltantes, sob pena de sofrerem agressões físicas. Apreciador da programação cultural do bairro, ele diz que faz tudo a pé e se sente tranqüilo.

Angela A. Carrocelli Kleber faz parte desse time. Quando tem reuniões na região central à noite costuma voltar para casa a pé, sem qualquer problema. Ruas desertas e escuras são evitadas, como em qualquer outro bairro ou cidade. A moradora, que vive em um apartamento na região da Câmara de Vereadores há cerca de 30 anos, destaca que o crescente número de faculdades instaladas no Centro aumentou o número de pessoas que estão ainda pelas ruas à noite. Ela também é adepta das caminhadas de manhã cedo. Todo dia, com duas amigas, caminha no Vale do Anhangabaú por uma hora. "Nunca tivemos problema algum", afirma.

Depois de três décadas na região, Angela, que é instrutora de rádio taissô, conta que já se tornou uma "uma celebridade local". Ao sair de casa é cumprimentada por inúmeras pessoas, de porteiros a engraxates, passando pelos funcionários das bancas e moradores de rua. "Até os cachorrinhos já me conhecem de longe", conta. Um comportamento que combina mais com o estereótipo que temos de um pequeno bairro ou cidade e não de uma região por onde passam 2,5 milhões de pessoas por dia.

Tanto ela quanto Gattoni comentam o reconhecimento existente entre os vizinhos, que leva a uma sensação de pertence – também destacada pelo produtor cultural e sociólogo Geondes Antonio, há dez anos morador do Largo do Arouche. Ele afirma que para morar no Centro é preciso vivê-lo, o que significa caminhar pelas ruas, conhecer a vizinhança. E leva isso a sério, percorrendo o Vale do Anhangabaú e seus arredores em longos passeios de bicicleta. Conta ainda que, ao sair à rua, se sente em casa, pois conhece e é conhecido pelos vizinhos.

Apaixonado pelo Centro, onde sonhava viver quando ainda morava no interior de Pernambuco, Antonio afirma que "seu bairro" surpreende por resgatar um certo ar bucólico de cidade do interior. "Pessoas idosas passam a tarde lendo na praça e crianças brincam na rua", diz, em referência a uma rotina diurna que chega a ser pacata – em contraste com a efervescência da noite, quando o ar bucólico cede espaço aos bares e boates.


  Mix Mesa  


LE chef de MACAPARANA

Assim como grande parte dos migrantes nordestinos, Antônio Jerônimo da Silva veio de Macaparana a São Paulo, na década de 1960, em busca de melhores oportunidades de emprego. Pouco tempo depois de chegar, um amigo o avisou de uma vaga de ajudante de cozinha no restaurante La Casserole. O pernambucano, mesmo sem ter experiência na área, não titubeou: "É claro que eu vou".

O acaso levou Jerônimo — como gosta de ser chamado — a descobrir uma paixão: "Eu amo minha profissão, amo o que faço". Antes de ser promovido, trabalhou por cinco anos em outras funções, o que o fez aprender as nuances da clássica culinária francesa. Mesmo assim, na primeira vez que substituiu interinamente o chef que iria sair de férias, sentiu um frio na barriga e duvidou de sua própria capacidade. Mas acabou mostrando que havia nascido para aquilo, e em 1967, aos 27 anos, se tornou o chef da casa.

Nunca imaginou que trabalharia por tanto tempo em um dos restaurantes mais tradicionais da metrópole. Afinal, já são 37 anos à frente da cozinha. Sua equipe inclui quatro cozinheiros no fogão, um copeiro, um lavador de pratos, duas pessoas para a limpeza e um responsável pelas massas. Por falar nessa especialidade, o pernambucano parece ter caído mesmo no lugar certo. Sorte dele não ter ido trabalhar em um restaurante italiano, pois entre as coisas que não gosta de cozinhar estão as massas. "Eu até faço profiteroles, essas coisas, mas trabalhar com ravioli, capeletti, isso não é comigo. Mas da culinária francesa, pode vir o que vier", afirma sorrindo.

Entre as especialidades mais solicitadas estão o filet au poivre, faisan aux mûres, costeleta de cordeiro e coelho ao molho de ameixa. Jerônimo lembra que o cardápio é quase o mesmo desde a inauguração, com algumas adaptações e atualizações. É o caso do coelho ao molho de ameixa. "O cliente é quem manda. As novidades são incorporadas a partir de testes. Se forem bem aceitas, continuam no cardápio. Graças a Deus, tenho andado na linha certa."

Uma das características mais marcantes de Jerônimo é a sua simplicidade, qualidade que encanta a todos. Ele não deixa de agradecer a oportunidade que teve: "eu adoro trabalhar aqui, principalmente porque os patrões me apoiaram muito. Mesmo sendo do Norte, não falando francês, eles depositaram toda confiança em mim". Assumir essa tarefa proporciona o retorno devido: muitos clientes vão ao La Casserole só por causa do chef. Um apreciador de coelho, por exemplo, pede sempre o civet de lapin e faz questão de que a carne seja desossada. Por isso, sempre pergunta: "O Jerônimo está aí?".

"Já fui chamado para trabalhar em outros restaurantes, mas não vou. Meu lugar é aqui." A sintonia com a casa é tão forte que um parece não viver sem o outro. Marie, dona do restaurante, completa: "O Jerônimo é a alma da cozinha do La Casserole".

La Casserole

Localizado no Largo do Arouche, em frente ao Mercado das Flores, foi o primeiro bistrô da cidade a oferecer o clima de Paris e o cardápio da clássica cozinha francesa. Inaugurada em 1954 por Roger e Fortuneé Henry, a casa é comandada há 17 anos pela filha do casal francês, Marie France Henry.

Marie faz questão de imprimir sua marca ao trabalho, unindo o clássico ao contemporâneo, mas não deixa de preservar o estilo do restaurante. Para isso, todas as intervenções feitas são sempre de restauração e nunca de modernização. Uma das características evidenciadas pelos freqüentadores é a comida cuja qualidade nunca oscila. Marie conta que, recentemente, um cliente pediu o mesmo prato que comia quando era criança. "Ele ficou emocionado porque o gosto e o clima eram os mesmos de quando vinha comer com o pai."

La Casserole - Endereço: Largo do Arouche, 346 – Metrô República (B5) Tel.: (11) 3331-6283


  Mix Artes e Espetáculos  


Antoni Tàpies no ccbb

Assim como os consagrados pintores Miró e Picasso, Antoni Tàpies é considerado um dos mais importantes e célebres artistas espanhóis, um marco do informalismo na pintura européia.

Na década de 1960, enveredou pela pintura povera, nascente conceito italiano que buscava eliminar as barreiras entre arte e cotidiano. Com essa essência, utiliza materiais inusitados e "pobres" – que é a tradução para a palavra italiana –, como trapos, terra, palha, madeira etc., em busca de uma redefinição dos objetos do dia-a-dia. Nos anos 1980, entretanto, o artista retorna à sua trajetória pictórica mais tradicional.

Nascido em 1923 em Barcelona, Tàpies recebeu diversos prêmios, entre eles o de aquisição da 2ª Bienal de São Paulo, em 1953. A obra premiada, Ásia, faz parte do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo. Em 1958 e em 1993 foi premiado na Bienal de Veneza, uma das mais importantes do cenário internacional.

Com o objetivo de aproximar o artista catalão do público brasileiro, a produção das últimas três décadas, além de alguma peças da fase povera, poderão ser vistas na mostra que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) preparou para marcar as comemorações dos 15 anos da instituição, cuja primeira unidade foi inaugurada no Rio de Janeiro.

A seleção de obras do CCBB traz cerca de 100 peças, todas do acervo da Galerie Lelong de Paris e Zurique, entre pôsteres, pinturas e gravuras. Formando um painel da rica trajetória de Antoni Tàpies, a exposição fica em cartaz até 9 de janeiro, depois segue para o CCBB do Rio de Janeiro. Entrada gratuita.

Exposição de Imagens e Sentimentos

Imagens que buscam dissecar a personalidade dos retratados, trazendo à tona sentimentos e mistérios. Parte do trabalho do fotógrafo Juan Esteves que assume essas características poderá ser vista na exposição Visages, no Espaço Nossa Caixa. Ao todo são 36 retratos de personalidades ligadas, em sua maioria, ao cenário cultural, como artistas plásticos, fotógrafos, atores e músicos. As atrizes Zezé Motta (à esq.) e Emanuelle Beart (à dir.) estão entre os retratados.

Conhecido principalmente por sua forma de retratar as pessoas, o fio condutor do trabalho de Esteves é o contraste entre o claro e o escuro. Para a execução dos retratos, realizado nos últimos cinco anos, o fotógrafo utilizou um estúdio ambulante que era transportado e remontado a cada trabalho.

Com curadoria de Antonio Carlos Abdalla, a mostra ficará em cartaz, de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h, até 14 de janeiro de 2005. A entrada é gratuita.

CCBB traz peça da escritora francesa MargueritE Duras

A partir do dia 13 de janeiro, a peça "Cinema Éden", de Marguerite Duras, fará parte da programação de artes cênicas do Centro Cultural Banco do Brasil. Integrante da corrente literária denominada noveau roman – que nos anos 1960 acompanhou a nouvelle vague do cinema –, a escritora francesa é conhecida no Brasil pelo roteiro do filme "Hiroshima, Mon Amour", e pelos livros "A Dor" e "O Amante".

Em "Cinema Éden", Duras conta a saga de uma professora francesa nas primeira décadas do século passado. Baseada em dados biográficos referentes à infância da autora na Indochina, suas relações amorosas e a forte presença da mãe e dos irmãos, a peça escrita especialmente para o teatro será encenada pela primeira vez no país.

Com tradução e direção de Emílio di Biasi, o elenco é formado por Cleyde Yáconis, Maria Manoella, André Fusco, David Y. W. Pond e Newton Saiki.

Em cartaz até 27 de fevereiro, as sessões acontecem de quinta a domingo, às 19h.

Gabinete de Gravura estréia com Renina Katz e Sheila Goloborotko

Com o objetivo de preservar, divulgar a arte da gravura no país e promover os artistas brasileiros, a Pinacoteca do Estado inaugurou o Gabinete de Gravura Guita e José Mindlin. Sua implantação total será concluída em 2005, no antigo prédio do DOPS, que foi anexado à Pinacoteca, quando serão instalados um Ateliê de Impressão destinado a projetos de artistas e uma Reserva Técnica associada a uma Sala de Consulta para público especializado. Para a inauguração do novo espaço foi preparada mostra com obras de Renina Katz, que ficará em cartaz até fevereiro de 2005.

A artista plástica nascida no Rio de Janeiro, em 1926, enriquece a gravura brasileira há 50 anos. A exposição, com seu trabalho singular, tem curadoria do empresário e bibliófilo José Mindlin. São cerca de 70 peças, entre gravuras, matizes e álbuns, todas do acervo da instituição.

E o espaço expositivo do gabinete foi inaugurado dia 23 de outubro, com a mostra da artista brasileira Sheila Goloborotko. São 146 gravuras que formam um panorama do que a artista produziu nos últimos dez anos. Nascida em São Paulo, fundou um estúdio em Nova York, onde mora desde 1983. Recebeu muito prêmios, como quatro edições seguidas do Brooklyn Arts Council Regrant Award, de 2000 a 2003. Alguns trabalhos da artista integram o acervo permanente de gravuras da Biblioteca Pública de Nova York. As gravuras de Goloborotko ficam em exposição até 13 de fevereiro.


  Mix Livros  


Dicionário de urbanismo

Ao longo de sua extensa atuação profissional e docente, o engenheiro Celson Ferrari sempre divisou a dificuldade semântica apresentada pela linguagem técnica de assuntos relacionados ao urbanismo. Foi por esse motivo que, há mais de 20 anos, começou a registrar palavras e expressões que foram reunidas no Dicionário de Urbanismo – Termos de Urbanismo, desenvolvimento regional, engenharia de tráfego e áreas afins (Disal Editora, 452 páginas, R$ 69,00). Com definições completas e objetivas dos principais termos utilizados na área, além de verbetes complementares, o dicionário se tornou uma ferramenta de consulta multidisciplinar para engenheiros, arquitetos, estudantes e todos aqueles que tenham interesse na temática. A obra, entretanto, não se direciona aos especialistas de cada conhecimento em particular, mas aos profissionais e estudantes que buscam informações que não pertençam às suas áreas específicas. São mais de 2 mil termos de planejamento urbano, desenvolvimento regional, engenharia de tráfego e assuntos afins, além de glossários abrangentes com a tradução dos principais termos o inglês, francês e espanhol.

SÃO PAULO EM POEMAS

Nos seus 450 anos, São Paulo é novamente homenageada, desta vez com uma antologia poética que conta a história da cidade através das palavras de 70 poetas contemporâneos. Mário de Andrade, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Vinicius de Moraes, entre outros, são alguns dos autores dos 130 poemas que formam o livro Paixão por São Paulo - Antologia Poética Paulistana (Terceiro Nome, 184 páginas, R$ 35,00). Organizada pelo também poeta Luiz Roberto Guedes, a compilação tem o objetivo de traçar um painel poético que retrate o crescimento e dinamismo vivido pela metrópole. Para obter uma obra pluralista, Guedes pesquisou diferentes vozes, de distintas gerações e escolas, por cerca de um ano.

PLANO DIRETOR

Em 2001 foi aprovada a Lei 10.257, mais conhecida como Estatuto da Cidade, que determina, até 2006, a revisão ou elaboração dos Planos Diretores de todos os municípios com mais de 20 mil habitantes ou que possuem áreas de interesse turístico e de influência de empreendimentos. Com a implementação do estatuto, o perfil do Plano Diretor foi alterado: deixou de ser apenas um instrumento técnico para tornar-se uma lei que, além das diretrizes para o desenvolvimento do município, deve estabelecer a própria função social da cidade e da propriedade.

Com o objetivo de oferecer mais uma ferramenta de apoio para o cumprimento da determinação, o Ministério das Cidades – por intermédio da Secretaria Nacional de Programas Urbanos –, em parceria com o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), lançou o livro Plano Diretor Participativo – guia para a elaboração pelos municípios e cidadãos (170 páginas). A publicação é gratuita e não tem a intenção de esgotar o assunto, mas convida à reflexão e discussão. Dividida em duas partes, a primeira destina-se ao auxílio a Prefeituras e cidadãos na execução do Plano Diretor Participativo. A segunda traz 12 textos sobre assuntos discutidos durante a Conferência Nacional das Cidades, ocorrida em 2003. O download do livro está disponível no site do Ministério das Cidades (http://www.cidades.gov.br). Para receber a versão impressa é necessário enviar um e-mail para programasurbanos@cidades.gov.br ou ligar para (61) 2108-1944.

a CONSTRUÇÃO DA CIDADE

A cidade de São Paulo – e sua constante transformação – também é tema do livro São Paulo, a construção da cidade 1872 - 1914 (Rima Editora, 174 páginas, R$ 27,90). Tomando por base o período do inicio da modernização da capital paulista, Paulo Cesar Xavier Pereira faz uma análise da área da construção civil que, ao mesmo tempo em que busca o embelezamento da cidade, produz efeitos danosos aos moradores e trabalhadores. O autor considera que a compreensão do desenvolvimento da construção imobiliária e urbana da metrópole só será possível com o conhecimento das formas de produção do espaço urbano e de como elas condicionam a diversidade do viver na cidade moderna. A publicação é direcionada a arquitetos, urbanistas, geógrafos, historiadores, sociólogos, economistas e cientistas sociais e também a todos aqueles que buscam entender os meios pelos quais a cidade muda.

Capitais Brasileiras

Buscador de arquitetura:
www.arq.com.mx

O site mexicano traz notícias, reportagens e informações sobre diversos eventos internacionais. Com o objetivo de compilar e classificar as informações disponíveis na internet sobre a área, o site existe desde 1989 e disponibiliza mais de 6 mil páginas de consulta. Para acessar o conteúdo gratuito — que inclui o download de mais de 5 mil arquivos desde aplicações para AutoCad, planos de casas, até leis e regulamentações de diferentes países — o internauta precisa se cadastrar. Existe ainda uma seção que vende cursos online de diversos assuntos de interesse da área de arquitetura. Em espanhol.

fotosite:
www.fotosite.com.br

Portal de fotografia que se tornou uma referência para profissionais, estudantes e pessoas interessadas no assunto. Com notícias, colunas, matérias e portfolios de profissionais da área, o site é uma ferramenta de fomento à fotografia nacional, inclusive de novos talentos. Jovens fotógrafos, por exemplo, podem enviar seus trabalhos para a seção "Visor". As fotografias são selecionadas pelos editores e recebem comentários. Disponível há quatro anos, o Fotosite possui um extenso arquivo de informações especializadas, portfolios etc., e os internautas ainda podem se cadastrar para receber um boletim de informações.

Viver Cidades:
www.vivercidades.org.br

ViverCidades é uma organização não-governamental de capacitação e desenvolvimento de soluções e políticas públicas, urbanas e regionais. O site da organização traz uma revista eletrônica com notícias, artigos, entrevistas e teses sobre arquitetura, cultura, gestão urbana, meio ambiente, sustentabilidade e política. Há também uma seção de poesia e uma outra com a publicação de artigos enviados pelos leitores. A cada três meses, uma versão impressa da revista é publicada com uma seleção das melhores matérias do período.

THEATRO MVNICIPAL de São Paulo:
www.theatromunicipal.com.br

Um dos principais aparelhos culturais e ponto turístico da cidade, o Teatro Municipal de São Paulo possui sua própria página na Internet. Com informações sobre a grade de programação e mapa de localização dos assentos, o site traz também um link com a história da casa que foi construída a partir de projeto do escritório de Ramos de Azevedo, e inaugurada em 1911. Quem acessar o site poderá conhecer também um pouco da história e a ficha técnica dos Corpos Estáveis, entre eles a Orquestra Sinfônica Municipal, o Balé da Cidade de São Paulo e o Coral Paulistano. O site também disponibiliza um serviço bastante interessante: através do link "grátis", o internauta passa a conhecer toda a programação gratuita oferecida pelo teatro.



  Notícias  


Viva o centro apresenta propostas aos candidatos

José Serra e Marta Suplicy, que foram ao 2º turno pela Prefeitura de São Paulo, visitaram a Viva o Centro antes das eleições para falar de seus projetos e receber uma cópia do documento São Paulo Centro, Eleições 2004 – Carta aos Candidatos, com as dez propostas da Associação para a futura gestão municipal. De forma geral, ambos se posicionaram favoravelmente. O terceiro colocado no 1º turno, Paulo Maluf, também esteve na entidade. Essa foi a quarta vez, desde 1992, que a Viva o Centro promoveu em sua sede o encontro dos candidatos à Prefeitura de São Paulo com a coletividade do Centro. José Serra, eleito prefeito para a gestão 2005/2008, elogiou o trabalho desenvolvido pela Associação. "Quando li as dez propostas da entidade me identifiquei tanto com elas que disse: vou até lá para assinar embaixo."

Segundo José Serra, a questão do Centro é importantíssima sob vários aspectos: econômico, social, cultural e de auto-estima da população paulistana.

"Dificilmente São Paulo retomará seu papel em termos de oportunidades se o Centro não for recuperado em sua plenitude", afirmou. "Fico entusiasmado porque sei que este é um movimento organizado, com propostas boas e objetivas."

Ações Locais levam o Centro às urnas

No final de 2004, mais de 40 núcleos de ações locais, congregando mais de 3 mil empresas, instituições, condomínios, lojas, agências, escritórios e também moradores do Centro renovaram as Diretorias e Conselhos Fiscais para outro ano de atividades. Mais de 600 postos foram preenchidos. O Programa de Ações Locais da Viva o Centro, criado em meados de 1995, é hoje reconhecido como um dos mais destacados agentes do processo de recuperação da área central e de sua gestão cotidiana. Muitas das melhorias registradas no Centro devem ser creditadas ao trabalho das Ações Locais, associações formadas por empresas, instituições, condomínios, lojas, escritórios e moradores para zelar por suas respectivas microrregiões. As Ações Locais tecem uma valiosa rede de relações e de troca de informações no Centro, fiscalizam a atuação do poder público e formulam reivindicações comuns, além de implementar parcerias público-privadas para melhorias na região. O resultado, no caso das empresas, é também a melhoria de seus negócios, sem contar que, participando, também exercem sua responsabilidade social. O Programa de Ações Locais tem o patrocínio da BM&F e da Bovespa. As eleições deste ano foram realizadas no saguão do Shopping Light, com apoio do TRE, que disponibilizou urnas e cabines para a votação. O trabalho das Ações Locais poderá ser maximizado com a implantação da proposta que a Viva o Centro fez aos candidatos à Prefeitura, entre eles, o prefeito eleito José Serra, de implantação de um sistema territorializado (por microrregião) de zeladoria urbana, segurança e fiscalização (leia mais em urbs 35, pág. 14, ou no portal www.vivaocentro.org.br).

Os 13 anos da Viva o Centro

A Associação Viva o Centro completou 13 anos em outubro de 2004, com muito a comemorar e vários planos para que o processo de recuperação do Centro prossiga. Ao evidenciar a importância do Centro para o futuro da Metrópole e ao obter o compromisso dos prefeitos eleitos ao longo desses anos com um programa mínimo de projetos e ações, a Viva o Centro tem conseguido manter o processo de recuperação do Centro como um projeto cívico e apartidário, que até agora permeia quatro gestões municipais e se prepara para adentrar a quinta, sob o comando de José Serra. Não é demais lembrar, entre as conquistas, a conclusão das obras no Anhangabaú, no final da administração Erundina; a criação do ProCentro, na gestão Maluf; a aprovação das leis de Operação Urbana Centro e de Fachadas, além da recuperação dos viadutos do Chá e Santa Ifigênia, e, no bojo da renegociação da dívida do município, uma provisão para um empréstimo de US$ 100 milhões do BID para o Centro, no governo Pitta; e, na gestão Marta Suplicy, a admissão do Centro definitivamente como prioridade pela Prefeitura, com a implementação de uma extensa lista de realizações, entre elas a mudança da sede da Prefeitura para o Anhangabaú, o enfrentamento da questão dos camelôs e a concretização do empréstimo do BID.

Klabin formaliza apoio à Praça Ramos de Azevedo em evento na VIVA O CENTRO

Em concorrido encontro realizado no último dia 11 de novembro, na sede da Associação Viva o Centro, de que é associada, a Klabin, empresa líder nacional na produção de papéis para embalagem e embalagens de papel, anunciou à comunidade do Centro e à cidade em geral o início do restauro do piso da Praça Ramos de Azevedo e a continuidade, por mais dois anos, da conservação do conjunto escultórico em homenagem a Carlos Gomes e da Fonte dos Desejos no mesmo logradouro, ao lado do Teatro Municipal de São Paulo. O anúncio decorre da renovação, pela empresa, do Termo de Cooperação assinado recentemente com a Secretaria Municipal da Cultura, por intermédio do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). O acordo também prevê a colocação de uma placa-totem junto à Fonte dos Desejos, que compõe o conjunto escultórico, contendo informações históricas sobre as esculturas. Para os trabalhos, a Klabin contratou uma empresa especializada na área, a Companhia de Restauro.

Os jardins da praça, por sua vez, têm sido mantidos pela Cia. Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantim, também filiada à Viva o Centro.

VIVA O CENTRO adota novo logotipo

A Associação Viva o Centro, que ao longo de sua existência ajudou a mudar o destino do Centro de São Paulo, adotou uma nova marca. O logotipo criado pela 100% Design para a VIVA O CENTRO é uma versão estilizada do marco zero da cidade, localizado diante da Catedral da Sé. Segundo a diretora de criação da 100% Design, Lilian Chiofollo, a idéia foi criar uma marca com apelo emocional capaz de atrair turistas e moradores da cidade para conhecer ou revisitar o Centro. "A 100% Design captou perfeitamente o espírito da entidade", diz Marco Antonio Ramos
de Almeida, presidente da Diretoria Executiva da Viva o Centro. "Leve e moderna, a estilização inspirada no marco zero da cidade sintetiza bem o avanço da Associação, que nasceu muito ligada à
cultura, tendo como símbolo o Teatro Municipal, logo incorporou em sua ação toda a diversidade que caracteriza o Centro e que faz dele um poderoso instrumento para a reestruturação da metrópole em termos de maior eficiência, competividade e eqüidade social. No redesign do marco zero, os braços da estrela ultrapassam o círculo que a envolve. A idéia é mostrar que tudo que acontece no Centro repercute por toda a metrópole."



PATROCINADORES Revista URBS

Patrocínio:

Banco Itaú

Serasa

 

Bank Boston

 

Apoio Institucional:

Prefeitura do Município de São Paulo
Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

Redação, Administração e Circulação:
Rua Libero Badaró, 425 - 4o. andar
CEP 01009-000 São Paulo
Fone (011) 3106-8205
Fax (11) 3398-5066
e-mail urbs@vivaocentro.org.br

urbs pode ser adquirida através de assinatura e venda avulsa e é distribuida gratuitamente a um mailling especial da Associação Viva o Centro.