Registros da Vida Urbana São Paulo,
Em 2002, por seis meses, recorri e orientei os percursos de bolsistas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas FAU-PUC no Centro de São Paulo. Minha referência era o Corredor Cultural definido pela Prefeitura da capital.
Deambular, andar, passear, flanar. Qualquer que seja o nome, o intuito era o de um fluir antenado, levado pelos pés e pelos atrativos que
surgissem aos olhos e às mentes, e que fosse documentado, em textos e fotos, tudo o que fosse visto, ouvido, pensado, sentido, conversado. Os relatos foram chamados de "jornalários", nome extraído de Galáxias, livro-viagem de Haroldo de Campos.
Este artigo é parte do
trabalho e o dedicamos à cidade, aos que a usam, aos que a fazem e à vontade de compreendê-la.
Depoimento/Haroldo de Campos
São Paulo é uma megalópole que nasceu de um umbigo colonial: o Pátio do Colégio, marco zero da cidade. Cidade de grande miscigenação racial e religiosa, que o prolongado e lento convívio apaziguou. Rica de arquitetura, pela diversidade de formas, pela variedade do imaginário cultural trazidos pelos imigrantes de várias origens. Reflexo deste caldo, ela não possui identidade que se possa dizer reconhecível: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mario de Andrade, é seu paradigma.
A diversidade de características é a sua característica.
A vida nela é dinâmica, múltipla, caótica. Espalha-se horizontal; expande-se vertical. Geometria de formas duras, miscelânica, plural, que se quebra pela atuação de artistas que a tornam menos áspera em formas e em texto, som e imagem.
Jornalário — dia 1
Considerei três caminhos: descer na Estação São Bento e ir à Praça do Patriarca. Subir pela Líbero Badaró; descer na Estação Anhangabaú e, a partir daí, optar entre atravessar o Vale do Anhangabaú e subir as escadarias da Galeria Prestes Maia, ou percorrer as escadas rolantes que partem da rua Formosa em demanda da Cel. Xavier de Toledo. Escolhi este para ir à Patriarca de forma mais lenta, como a alguém a ser apresentado. Para tê-la por inteiro, só à distância.
De perto é possível vê-la apenas pelos cantos: escolho um e o percorro em sentido anti-horário. Dia claro. Nuvens cinzas cobrem o sol, inviabilizam sombras. Registrei o que pude: grupos de pessoas, táxis, carros, ônibus, motoqueiros, camelôs, tudo em profusa confusão. Quatro bêbados ao pé da estátua do Patriarca (e ainda é manhã!), presos em seu mundo. Na calçada, a polícia tenta garantir, pela presença, a segurança dos pedestres. Catadores de papel e suas carrocinhas dificultam o trânsito de passantes apressados.
Interesso-me pelas motos estacionadas ao longo do meio fio. Busco o melhor ângulo para uma foto. Do carro forte, deparo com o olhar atento do motorista. Faço um sinal amistoso, fotografo e saio em direção à Estação São Bento e tento ser o mais natural possível. Lá, na área que virou praça de alimentação, um conjunto de jazz acompanha o almoço.
Depoimento/EMURB
A Cidade industrial se perdeu para a de serviços. A vida das indústrias mecânicas está em transformação. Só resistem as menos poluentes e ruidosas. A indústria elétrico-eletrônica se instala. A cidade está em nova transformação, privilegia eventos, congressos, feiras, convenções e a área cultural. Edifícios são erguidos para abrigar essas novas funções.
A cidade de serviços, de ensino especializado e cultura pressupõe outros tipos de relacionamentos: o convívio com o ambiente urbano. As relações humanas nesses ambientes, da forma como eram, estão na contingência de um processo de transformação.
Jornalário — dia 2
Sábado,13 horas. Viaduto do Chá lotado: transeuntes, místicos, vendedores e curiosos assistem ao campeonato de skate organizado pela Prefeitura, na continuação da praça Ramos de Azevedo. A cada manobra radical o público reage com um "oohh!" sincronizado. Os jogadores de búzios, as cartomantes e, principalmente, as ciganas, aproveitam o movimento para pegar na mão das pessoas. Dizem: "só vou dizer o nome de um falso amigo seu". Espero o momento certo para falar com a cartomante, mas ela está sempre com clientes.
Por volta das 14 horas, ela fica sem clientes. Chego perto e vejo que ela começa a almoçar, com uma coxa de frango na mão. Pergunto se pode me atender. Diz que sim, que é só terminar de comer. Chama-se Lena, tem 64 anos, é cigana e trabalha há 30 como cartomante. Está no Viaduto do Chá há onze. Durante a semana, menos domingos e feriados, trabalha cobrando 15 reais por 15 minutos de consulta. Também atende em casa: são 30 reais por uma consulta mais longa. Tem clientes fixos e atende sem parar, às vezes nem vai ao banheiro para dar conta de todos os compromissos.
A relação das pessoas que trabalham aqui é a de bons vizinhos, um ampara o outro. Enquanto falamos, um menino chega para buscar o dinheiro que havia deixado com ela. Pensei que fosse seu filho. Soube que, pela manhã, alguns moleques tentaram tirar-lhe os 11 reais que havia ganho engraxando sapatos. A cartomante os espanta e sugere guardar o dinheiro. Ele viria buscá-lo ao ir embora.
Dona Lena lê minha sorte. Antes de mexer no baralho, diz que eu pareço freqüentar a Igreja Universal; fiquei com pé atrás: nunca entrei numa. Quer saber nome completo, idade, data de nascimento e signo. Descreve o perfil de leão. Depois diz que sou vaidoso, mas de uma vaidade voltada para a família, pois penso em todos e não só em mim; diz que detesto pessoas que reclamam e não lutam; que não pararei nunca meus estudos e que uma pessoa mais velha me dará bons conselhos sobre a profissão; que viajarei ainda este ano; que meu relacionamento amoroso ainda não está completo, talvez por me dedicar a várias atividades e ser mais independente; que meu coração palpita de vez em quando; que meu pai está com pressão alta; que ele é mais calmo que minha mãe; que ela terá vida longa.
Descreve duas pessoas, a primeira, com vinte e poucos anos, tem o cabelo claro e me aconselha muito; a outra parece ser mais velha que eu, mas não é: sua aparência é assim por ser responsável, super-objetiva e muito engraçada. A observação sobre a pessoa ser engraçada me fez acreditar no relato. No final, disse que eu era iluminado e que nunca havia atendido alguém tão bem estruturado.
Na volta, esperando o ônibus para casa, um senhor sugere que uma grade cerque o Teatro Municipal para evitar a sujeira, o mau cheiro, os ambulantes!
Depoimento/Maurício Faria
Toda cidade tem pólos de centralidade. A primeira de São Paulo partiu de sua origem histórica. Quando a primazia da economia se estabeleceu, a centralidade migrou para a Av. Paulista, o que gerou o esvaziamento do Centro histórico e a polarização de outras atividades para o eixo dessa Avenida. Atualmente, outra centralidade aparece na Av. Faria Lima e em sua extensão, a Av. Eng. Carlos Berrini. Outras centralidades existem, com cunhos diferenciados: cívica, simbólica, geográfica. Assim, hoje em dia, shopping centers são fortes referenciais de centralidade. As antigas centralidades costumavam ser referenciadas nos cartões postais.
O Centro histórico da cidade não é mais um lugar de vivência urbana, mas sua requalificação busca superar essa crise, com a compreensão de que o uso do espaço público da região tem de voltar a ser um lugar de caminhar, de centros públicos de sociabilidade, de bolsões de espaços fechados para o estar e da visão da arquitetura a partir da rua. A Operação Urbana Centro incentiva essa atitude com a revitalização da Biblioteca Mario de Andrade, as apresentações na escadaria do Teatro Municipal, o alargamento de calçadas, de modo a permitir o fluxo urbano e assim propiciar o consumo e o lazer.
Conta-se também com a requalificação estética da paisagem urbana, fazendo com que, no seu conjunto, a recomposição do conceito de passeio público seja incentivada, promovendo o retorno do Centro como espaço de moradia, de interesse social, comercial, administrativo; enfim: recuperando antigos e criando novos fatores de vitalidade.
Jornalário — dia 3
Manhã de segunda-feira: outras caminhadas e corre-corre. Mesmo estando tranqüilo (sou tranqüilo), a movimentação das pessoas me deixa agitado. A cada hora o Centro recebe mais gente, parecendo um enxame de abelhas.
Começo a perceber que atingir minha meta será mais difícil do que imaginava: a cada informação que peço fica mais complicado encontrar o que procuro. As pessoas às quais me dirijo não conhecem de fato o Centro: é um monte de "acho que", que me faz andar de um lugar ao outro. O engraçado é que procuro uma igreja que não existe na região, mas sou mandado para outras igrejas, como se fosse a procurada.
Depois de muito andar, resolvo ir à igreja de São Francisco falar com algum padre. Assunto: a vida no Centro. Uma beata fala quem é o mais indicado para o pretendido: o Frei Filipinho. Ela entra em contato com os padres, volta e diz que não poderei ser atendido. A Quaresma ocupa a todos; entrevista, só depois da Páscoa.
Enquanto espero, converso com uma senhora, aparentando 60 anos, mulata, serena, que adora falar e rir, isso faz o tempo passar desapercebido. Mora do outro lado da cidade e veio para conversar com um frei; também não foi atendida. Não desisto: vou à igreja de Santo Antônio. Lá me dizem para voltar mais tarde pois o padre está ocupado. Tudo bem; saio, mas continuo no entorno. Vou ao Hotel Othon, pego um número de telefone para marcar entrevista; na Casa Fretin, a porta da frente está aberta, mas as demais trancadas; na Loja Colombo, os vendedores não querem conversar. Mesmo o gerente tendo autorizado a conversa, dizem que o dono da loja – que está presente – achará ruim; na Casa Lutétia, só está o faxineiro, e não sabe me informar com quem posso conversar.
Enfim, ando de um lado ao outro sem atingir a meta: conversar sobre a vivência no Centro. Decidido, volto à igreja de Santo Antônio e, finalmente, o padre Giorgio me recebe. Cabelos brancos, tranqüilo, estrangeiro, italiano com certeza. Falamos sobre a vida no Centro: as ocupações desordenadas do espaço público, o trabalho informal, como dar assistência aos inúmeros moradores de rua; como garantir um cinturão verde para a cidade; a necessidade de requalificação; banheiros públicos; educação para o povo; crianças, adolescentes e mulheres marginalizadas. Apesar de curta, foi uma boa conversa.
Depoimento/Terezinha Gonzaga
Um fenômeno mundial, principalmente nos países em desenvolvimento: cresce o número de mulheres que são chefes de família. Aqui, com a saída do homem de casa, 26 a 28% suportam as necessidades domésticas, sustentam casa e filhos. No caso do Centro expandido, o número de mulheres chefes-da-casa chega a 37%. Muitas habitam cortiços e são mães solteiras, separadas ou abandonadas. Há um grande número de idosas e viúvas.
A entidade municipal União de Mulheres realiza um trabalho junto ao grupo Ação de Moradia de Cortiço no Centro, oferecendo apoio psicológico às tensões que surgem por medo de ação de despejo, problemas familiares e pessoais.
Outro grande problema é o de mulheres que apanham dos maridos. A violência doméstica é bastante arraigada em classes sociais desfavorecidas e muito usual nas culturas comandadas pela autoridade masculina. As mulheres têm mais medo de falar que apanham dos maridos do que de apanhar deles. Vivem uma cultura de conivência e cumplicidade, em que apanhar de um homem que já viveu a sua intimidade profunda é agravante, mas para as leis antes vigentes e ainda arraigado no comportamento existente, é atenuante.
As mulheres são educadas para serem divididas e os homens para serem unidos. O Movimento das Mulheres propõe uma reeducação, busca aumentar a auto-estima, assim como a consciência dos direitos e de que a violência doméstica é crime. No centro expandido atuam as seguintes entidades: Centro de Informação da Mulher, União de Mulheres Feministas Autônomas de São Paulo, União de Mulheres Comunistas do PC do B, Católicas pelo Direito de Decidir, Coletiva de Mulheres Lésbicas, Oriexé – Banda de Mulheres Negras, AMAM – Associação de Mulheres que Amam Mulheres.
Jornalário — dia 4
Sábado começa cedo: ainda não são oito horas e o sol já queima. Agora, às nove horas, o sino toca assim que chego ao Largo de São Bento. Para surpresa minha, o sino faz "blan, blan" e não "blein, blein", como eu supunha.
Estamos no lugar e hora certos! Alguns transeuntes já estão espalhados pela praça. Depois de ver o desenho de alguém da minha equipe, um deles pergunta o que fazemos e conversamos. Pergunto se posso tirar uma foto dele. Ele resiste um pouco, mas cede em troca da promessa de receber uma cópia.
Vou ao Restaurante Girondino, tomo um café. Sigo para a igreja de São Bento, onde alguns visitantes são guiados por um monge do mosteiro. Ele fala sobre a construção da basílica, do mosteiro e do colégio. Ao sair, um ciclista passa e não hesita em fazer o sinal da cruz em respeito à casa de Deus, enquanto quase me atropela.
Entro na Florêncio de Abreu. Cada vez que paro, pessoas curiosas se detêm para ver o que faço. Ruas lotadas de camelôs; sinto-me angustiado, acuado, num labirinto onde tantas informações existem ao mesmo tempo: despertadores tocam juntos; auto-falantes anunciam CDs piratas; gritos sobre promoções; cheiro de suor de pessoas que passam apressadas; cheiro de lixo que o calor faz exaltar; cheiro de urina, de churrasquinhos grelhando; roupas coloridas penduradas nas áreas de serviço dos prédios; marmitas sendo comidas: eis a dinâmica da vida urbana acontecendo sob meus olhos.
Na Sé, grande concentração de trombadinhas, moradores de rua, pessoas da classe dos despossuídos. Um faz a barba na fonte; outro, sentado, dorme; outro fala sozinho; alguns conversam entre si. Em comum, todos nos olham com desprezo, como quem diz: "aqui é nosso território". Um até declara em alta voz: "a burguesia é podre – como dizia o Cazuza".
Eis o Centro, com o seu inesperado, onde tudo o que pode acontecer acontece. No Centro Cultural Banco do Brasil, na hora em que a fome baixa, somos recebidos com um coquetel matutino. Inauguração da mostra do pintor ítalo-argentino Lucio Fontana.
Jornalário — dia 5
Agora na Av. São João, defronte aos Correios, um estacionamento de carrinhos de ambulantes, com suas famílias inteiras, nos olham com desprezo. Num bar, ao nos ver passar, um homem nos chama de manada.
Guardas municipais tentam acordar um homem estirado na escada, chutando-o, sacudindo-o, mas sem obter nenhuma reação. Parece dopado, não se mexe, não abre os olhos, está todo mole. Um ambulante, ao ver o mau jeito dos guardas, se aproxima e tenta acordá-lo com tapinhas no rosto, joga água, também sem sucesso. Muito tempo depois, o homem levanta e sai cambaleando, vivo!
Entro no Municipal, ouço e vejo em uma sala duas moças que ensaiam uma ópera: dois espetáculos diferentes - um lá fora, outro cá dentro. Duas realidades que se chocam, se complementam. Faz-me pensar a cidade, tentar descobri-la, conhecê-la.
Jornalário — dia 6
Tarde de sábado. Ladeira da Memória. Começo a descê-la: pessoas sobem e descem a passos largos e rápidos. Camelôs por toda a parte. Tanto som junto, não se distingue quem canta o quê. Tanto som não incomoda os que dormem profundamente; crianças brincando, ajudando os pais, encolhidas pelo frio que faz; pessoas conversando, outras tocando, outras cantando, fazendo do Centro o seu lugar de estar.
Neste cenário, vemos a falta de cuidado para com a cidade. Um homem desce a escada de acesso para a rua Formosa e urina tranqüilamente na calçada, sem se preocupar com os que passam; estes sim, incomodados, desviam-se.
Ao andar pela região as pessoas parecem não notar o espaço que lhes vai à volta; ensimesmadas, por proteção, talvez, não olham a Cidade que os cerca e se concentram na busca de seu destino. A cidade, enquanto espaço e história, não existe para elas.
Na procura de um termo que contenha todas as suas representações, é preciso falar em multiplicidade, plurifuncionalidade, polifonia, interatividade, tempo acelerado, fragmentação, mosaico. Entretanto, entre a cidade que temos e a que está em nossos desejos, há um distanciamento difícil de aproximar. Apesar disso, perceber e sentir a vida urbana, ampliar nosso imaginário, sonhos e atuações sobre ela, extrair a poesia de cada dia, é uma possibilidade imediata que a arte permite realizar.
"Cuando se trate con seres humanos en cuanto individuos,
lo primero que hay que
considerar es su capacidad
sensorial, o sea las vias a través de las cuales estos seres humanos, como usuarios activos y exploradores del medio,
lo perciben sensorialmente y
le ortogan un significado".
Amos Rapaport
"Você sabe melhor que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles".
Italo Calvino
*Arquiteto, doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e artista plástico.
|
|
 |