COM OS DOIS PÉS NO CHÃO
O coreógrafo e educador Ivaldo Bertazzo expõe sua recente experiência com mais de 50 jovens ligados a ONGs de São Paulo, que resultou no espetáculo Samwaad – Rua do Encontro.
Um som de cítaras e tambores enche o ar do Sesc Belenzinho. Em seguida, um grupo de mais de 50 garotos e garotas – entre 12 e 22 anos – entra no palco especialmente criado para o espetáculo. Começa a apresentação de Samwaad – Rua do Encontro, espetáculo de dança protagonizado por jovens que militam em sete ONGs de São Paulo. Quem assiste ao espetáculo não imagina que a apresentação impecável de dança, que mistura elementos brasileiros e indianos, exigiu apenas dez meses de preparação e ensaios. E muito menos a transformação que o processo provocou nos garotos, que hoje são multiplicadores – e vão levar às suas comunidades um pouco do que aprenderam.
Por trás desse projeto está o coreógrafo e bailarino Ivaldo Bertazzo – que hoje, aos 55 anos, se define como um educador. A bem sucedida experiência com os garotos é um desdobramento do trabalho que Bertazzo vem desenvolvendo há vários anos em São Paulo, na escola que leva seu nome. Mais do que em formar bailarinos profissionais, ele se especializou em criar cidadãos conscientes de seu corpo – que usam a dança como uma ferramenta para chegar ao equilíbrio e a uma qualidade de vida superior.
Urbs – Como começou sua carreira na dança?
Ivaldo Bertazzo – Comecei aos 14 anos, com um desejo adolescente de me transformar em bailarino. Tinha como modelo aquele dançarino que voa, que faz coisas mirabolantes. Mas no período em que comecei a dançar, há 40 anos, não havia essa diversidade de hoje, só existia o balé clássico. É até compreensível que o preconceito seja muito menor atualmente, porque você vê muitos garotos fazendo street dance, hip hop e dizendo "eu danço". Mas naquela época era preciso ter muita determinação para dizer: "quero fazer balé", inclusive porque também eram poucas escolas. Comecei estudando com a Marika Gidali. Ainda não existia o Balé Stagium, mas passei por todos os professores de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Urbs – E quando aflorou esse seu lado educacional?
IB – Logo na primeira vez que dei uma aula caiu a ficha: percebi que minha carreira era ser professor. Depois também virei coreógrafo. Devia ter meus 23 ou 24 anos quando decidi que meu "barato" era ensinar, e então fui estudar um pouco de fisioterapia, me especializei na Bélgica, em uma escola muito específica que oferecia cursos sobre cadeias musculares. Nessa época, eu já percebia o problema de se trabalhar em grupo: a diversidade. Um aluno tem uma coluna com mais curvas na lombar, outro tem a coluna retinha. Aí você se pergunta: dou o mesmo exercício para esses dois? Não. Isso é muito sério. Então, foi necessário um estudo mais apurado para saber lidar com o grupo. O brasileiro, entre aspas, é misto. É a raça mais mista que existe. Se você, por exemplo, der aula para franceses, vai ver corpos muito parecidos na sala de aula. Aqui não. Essa mistura é mais intrigante, mas é complexa. Foi por disso que abri minha escola, em 1974, comecei a dar aulas e deixei para trás esse desejo de dançar.
Urbs – Como começaram os espetáculos com pessoas comuns, isto é, com quem não era bailarino profissional?
IB – Em 1976 comecei a desenvolver a idéia do cidadão-dançante, uma experiência livre, intuitiva. Um dia cheguei para os meus alunos e falei: "vamos fazer um espetáculo?" Não achei jamais que alguém desejasse. Pedi que os interessados comparecessem no outro domingo e quando cheguei, havia 70 pessoas.
Urbs – Essa experiência aconteceu em São Paulo?
IB – Sim. Eu me inscrevi no festival que havia no Teatro Galpão – que era o teatro da dança. Participavam apenas grupos profissionais e cheguei com meu bando. Digo "meu bando" porque não tinha um padrão, até podia parecer caótico. Mas não era. Na verdade foi um trabalho muito demorado o de democratizar a visão do corpo humano. Um gordo, um baixo, um redondo, um misto. O espetáculo fez muito sucesso, então começaram os questionamentos. Os profissionais especializados em dança não entendiam o que aquilo significava. Perguntavam: "Todo mundo pode dançar"? Veja bem, todo mundo pode dançar se investir em um trabalho. Mas é uma dança diferente da que se propõe um bailarino profissional, que precisa ter um dom e o biotipo para isso.
Urbs – E qual é o "barato" do trabalho com os cidadãos-dançantes?
IB – Vou dar um exemplo, só para fazer uma comparação: os bailarinos fazem aquela coisa que se chama meia-ponta, tirando o calcanhar do chão. A bailarina chega, no balé clássico, a subir na ponta. No trabalho com o cidadão acontece o oposto: ensino a colocar o pé inteiro no chão, usar a percussão, ter a sensação do esqueleto. Não tenha dúvida de que, quando você diminui a base, você aumenta o esforço do corpo inteiro para se manter em pé, e paga um preço alto por isso. Meu cidadão não precisa disso, porque dançar também significa outras coisas: alargar a bacia – isso até pode parecer estranho em uma época em que todo mundo quer emagrecer. Mas não é alargar criando mais gordurinha, não, é alargar o esqueleto, a estrutura, alargar a base da coluna. Sentir que, ao apoiar-se na bacia, você se apóia em um centro de gravidade. Isso dá mais sustentação, e exige força nos abdominais.
Urbs – Como é o trabalho para chegar a esse controle do corpo?
IB – Você vai educando o aluno para que ele organize sua musculatura. Ensina como a tensão muscular – que é natural, necessária – caminha pelo corpo. Porque essa tensão caminha, ora está na mão, ora chega no ombro, desce pelas costelas, passa pelo quadril. E é assim que deve ser. Tanto que, quando dormimos, naturalmente trocamos de posição. Para chegar a essa qualidade, é preciso fazer um trabalho de coordenação motora que deixe em um plano muito consciente a maneira que o indivíduo se organiza para cada gesto, sem automatismos. É um trabalho psicomotor. Psicomotricidade tem muito a ver com o desenvolvimento da nossa espécie, que conseguiu essa qualidade de gestos que outros animais não têm: o homem é bípede, ou seja, ao caminhar, ele se apóia em um pé só. Esse é um refinamento de organização motora muito complexo. O jeito como o homem manipula os objetos, como usa as mãos, a relação que tem com o olhar, são exclusivos do ser humano – que chega ao extremo de ficar horas no computador, olhando para uma tela, construindo um universo. Mas tanto a gente enche o aluno, que uma hora ele liga a chave.
Urbs – E como isso acontece?
IB – Para esses automatismos serem conquistados e percebidos na hora em que você os aciona, existe uma maneira certa de trabalhar. Utilizamos muito a percussão, e não só para os garotos de periferia. Uma senhora de 60 anos que entra aqui na escola também aprende percussão. Não quero saber se ela é avó, se tem neto, apesar de que, se ela chegar a fazer isso para o neto [batuca no peito, criando um ritmo], será um sucesso, o neto vai falar "isso que é avó!". A percussão é a vibração do esqueleto, o deslocamento do tônus muscular e a modificação de ritmo. Com o adolescente é muito eficaz, você conquista a atenção dele na mesma hora.
Urbs – E para trabalhar com o adulto, que tem outras inibições?
IB – Ao começarmos a ensinar alguém, não devemos entrar no aspecto da limitação: "olha o que você não sabe, olha o que você não é". O trabalho consiste em mostrar as coisas como em um quebra-cabeças. Você parte de uma estratégia para envolver o aluno. Com o tempo, ele percebe que aquilo está acontecendo porque ele está fazendo, e aí, aos poucos, começa a modificar a "visãozinha" da imagem que tem de si mesmo. Mas não pode ser na primeira, pois não é um trabalho psicológico, é um trabalho psicomotor, mexe no psiquismo, mas começa por uma experiência mecânica.
Urbs – Em seu trabalho com as crianças, como o trabalho artístico ajuda a desenvolver as questões sociais?
IB – Tudo começa com as relações sociais para depois chegar à parte artística. Mesmo em situações privilegiadas, os jovens não têm uma relação social muito bem organizada, então tudo tem que ser refeito com muita rapidez. Todos os problemas são pensados por uma equipe que tem pedagogas, assistente social, psicólogos, professores. Depois, abrimos rodas de discussão com os participantes. Então, quando esse processo termina, os alunos percebem o que é um trabalho em equipe, que nunca chegamos a uma decisão imediata e que as decisões não são autoritárias nem vêm de uma pessoa só.
Depois entra o trabalho com o ritmo, por exemplo em uma aula de percussão musical, com várias vozes e sons. Os jovens aprendem que é necessário aguardar para entrar, sabem que tonalidade usar para não cobrir o outro grupo. Essas medidas sensoriais motoras de escuta, de timing, equilibram o grupo e favorecem o trabalho em equipe. Todas as empresas deveriam ter um grupo de percussão! Uma coisa que me incomoda – e digo isso no livro do projeto – é quando algum empresário diz: "meu office-boy não está pensando no futuro, ele sai correndo às 6 horas porque tem um grupo de rock". Graças a Deus! Pois ele está tendo um aprendizado, está construindo um conhecimento. Há três ou quatro décadas, as escolas prometiam esse conhecimento integrado, mas isso não foi cumprido. Dizia-se que a escola integraria o teatro ao professor de português para que, quando o menino desenvolvesse um discurso de um texto, precisasse discutir, refletir sobre a construção daquela linguagem. Mas não foi o que aconteceu. A arte virou matéria extra-curricular. Nossa sociedade, nos seus compromissos, nos seus métodos, no sistema de ensino, não teve coragem de integrar a educação. É pena, porque há um preço caro para isso: a criança está se desinteressando de estudar. Outro aspecto muito importante é fazer os alunos lidarem com a frustração. Não saber assusta. No aprendizado trabalhamos o lúdico dos jovens. Errar 180 vezes uma escala musical ou um gesto e o professor dizer "não, você não foi pelo caminho correto", no início isso é um ataque à "personalidadezinha" dele. Os mais inibidos recuam e se assustam, os mais agressivos te olham dizendo "pô!", até entenderem que esse é o grande barato. Só aí começa o trabalho de verdade.
Urbs – Em que espaço vocês desenvolveram esse trabalho?
IB – No SESC Belenzinho. Mas não é um espaço que já existia, a gente não usa teatro convencional, não usa o palco italiano. Em geral, você chega em um teatro lindo e ele já tem som, luzes, mas é a dimensão para expor o corpo não é legal. Não como queremos mostrar. Quando o aluno chegou pela primeira vez na sala de trabalho, ele teve que tirar o sapato para se relacionar com o chão. Com o tempo, aprendeu a deitar no chão todo dia para se organizar. A sala precisa ser preparada, precisa ser um espaço legal, não pode ser estático e nem decorado. Essa interação com o ambiente é que faz ele construir imagens que não vão mais se apagar. Freqüentemente, porém, o empresário e o governo não investem nesse tipo de instalação, na criação de um ambiente adequado para o jovem. Qualquer lugar está bom. Mas com isso nada muda, porque o jovem está cada vez mais fechado nas periferias. Ele dorme no quarto com cinco irmãos, e certas mães não os deixam nem sair para a rua. Em um espaço próprio ele pode usar as próprias expressões. Muitas vezes o jovem se assusta quando, no começo, falo: "bate mais alto, vai, faz esse som mais forte". Ele vê que pode ocupar aquele espaço, atravessar a sala, isso é muito importante pois ele passa a ter uma relação com o espaço que não conhece: o espaço vazio, ele vai aprender usar o silêncio que é fundamental e ele não sabe o que é. Quando terminar o exercício, ele deverá parar, regularizar a respiração, a gente segura ele trinta segundos, depois pode começar a falar. É um desafio.
Urbs – No espetáculo, há muito de música e dança indianas. Como se deu a influência oriental em seu trabalho?
IB – A primeira vez que vi uns dançarinos indianos em um espetáculo, fiquei instigado. Havia algo que eu não sabia o que era, senti uma profunda curiosidade devido ao desconhecimento. Hoje em dia eu entendo: era a linguagem das mãos, como eles as movimentavam. Hoje eu me preocupo com o trabalho de reeducação das mãos, porque todo tipo de atividade manual ocupa um espaço muito grande no córtex cerebral. Quanto mais se ampliam os exercícios manuais, mais se estimula o cérebro e mais se abre espaço de armazenamento, de memória, de concentração, de refinamento. É um trabalho exaustivo porque mexe muito com as enervações. Mas ajuda em todas as atividades que a pessoa for desenvolver.
Urbs – Como é a evolução do trabalho? Os jovens percebem as mudanças?
IB – A diferença de hoje com os primeiros testes é gritante. Nem mal se reconhecem. No começo, é uma loucura por causa da dispersão: boca aberta, olhar sem foco, mãos sem expressão. São indícios que mostram a falta de concentração da criança para o estudo, inclusive intelectual. Agrupar as mãos, juntá-las, aproximar os pés – eles vivem de pernas abertas – fazer a respiração nasal, fechar a boca, organizar do olhar, tudo isso é muito importante, ajuda na concentração. Um exemplo engraçado aconteceu em uma das apresentações. Às quartas-feiras o espetáculo é feito para outras ONGs, e algumas têm jovens especialmente complicados. Então apareceram todos aqueles jovens e começaram a fazer piadas, mexer com as garotas e provocar os garotos, durante o espetáculo. E eu adorei, fiquei lá morrendo de curiosidade de ver como eles iam reagir. Vi que ficaram fulos da vida, mas começaram a se empenhar cada vez mais e em pouco tempo a platéia inteira foi ficando quieta e entrou no espetáculo, alguns até choraram no final. Foi fantástico! No final, fui cumprimentar o pessoal e uma garota me disse: "Que falta de respeito, que absurdo!" Então eu respondi: "Pois é, igual a vocês quando começaram!" E aí eles se deram conta de toda a mudança que aconteceu...
Urbs – Essa é a primeira turma do projeto em São Paulo? Você já teve um trabalho no Rio, não foi?
IB – É, comecei na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, onde fiquei três anos indo e voltando para São Paulo, para a escola. Fizemos três espetáculos com o pessoal do Rio, mas infelizmente não o patrocínio não continuou. Vim para São Paulo e aqui eu já comecei essencialmente com professores que trouxeram alguns dos seus melhores alunos das ONGs, ou seja, esses jovens já têm o objetivo de obter algum aprendizado. Não é só fazer espetáculo, dançar. É levar isso adiante e se tornar multiplicador.
Nesse projeto, damos ajuda de custos para as crianças, um pagamento maior para os professores que trouxeram, porque eles acompanham o trabalho, e temos assistentes sociais, pedagogos, vans que os transportam, alimentação, médico, dentista, roupas de ensaios, materiais de ensino, os professores que dão as aulas, espaço para isso, tudo durante oito meses. Nos dois meses finais a gente entregou para Deus e continuou a ensaiar. E o patrocínio é ambicioso porque soma também espetáculo, mídia do espetáculo para reverter ao patrocinador, figurino, troca figurino, lavanderia, contra-regra, som, equipamentos. Sem contar o espaço, que é caro, pois foi montado especialmente para o espetáculo.
Urbs – E quais os próximos planos?
IB – Gostaria de trabalhar um pouco mais com o grupo, viajar. Porque esse trabalho é bastante refinado e complexo, eles ainda estão se desenvolvendo. O objetivo não é existir muito mais tempo, não vamos formar uma companhia de dança. Tudo bem se isso acontecer, se formar outro espetáculo, mas o plano é que esse método, a partir do livro, forme professores de ONGs. O sonho mais ambicioso é chegar aos professores de ensino fundamental. Com as ONGs, a princípio, é mais viável, porque estou tentando fazer meu livro chegar a grupos interessados em Juazeiro do Norte, Altamira, com essa parceria do Sesc.
Urbs – Mas haverá um novo grupo?
IB – Não, não… essa história de patrocínio é infernal porque – eu até entendo – o mercado tem muita gente fazendo coisas legais, tem muita gente precisando de dinheiro para desenvolver seu trabalho, então você não consegue manter o grupo por muito tempo, não é? Vamos ver se o Sesc deseja que a gente faça isso virar um projeto fixo, mas tudo é muito incerto.
Devido ao sucesso, o espetáculo foi prorrogado até agosto. Depois, o espetáculo vai a Santo André, onde deve ficar em cartaz até 5 de setembro.
O projeto mescla música brasileira e indiana
A idéia é levar o projeto a todo o país
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