ANO V   -   No. 35   -   agosto / setembro 2004
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Marco Antonio Ramos de Almeida

Reportagem  Televisão Luz, câmera, ação!
Eleições Municipais Na boca da urna
Habitação Utopia modernista
Financiamento BID libera recursos para Ação Centro
Acessibilidade Cidade universal
Sociedade Vida no albergue

Artigos Doenças urbanas ou cidades saudáveis?
Um bem finito e econômico

Entrevista Ivaldo Bertazzo

Idéias Museu de Arquitetura A busca de sustentabilidade no edifício
Rua Avanhandava: Um cluster de entretenimento e gastronomia

Cultura Cultura em obras

Seçðes Cartas
Galeria
Mix
Viva o Centro Notícias
Clique aqui para fechar esta janela


  Cartas  
AGRADECIMENTO

Agradeço a gentileza do envio de mais um exemplar dessa excelente revista. Votos de contínuo êxito em suas atividades.
Antonio Salim Curiati
Deputado estadual
Por e-mail



EDIFÍCIO SÃO VITO

Gostaria de esclarecimentos sobre como ocorreu a contratação dos profissionais citados, envolvidos na recuperação do Edifício São Vito, pois a informação não foi passada na reportagem e eu não guardo na memória concurso divulgado com essa finalidade. Não se trata de duvidar da competência desses profissionais (qualidade que já foi demonstrada em vários projetos), e sim de propriedade em um governo transparente.
Aproveito para parabenizar a equipe pela grande qualidade da revista, assim como da Associação Viva o Centro que eu conheço desde o início. É uma pena não termos um revista voltada para as questões da arquitetura, combativa e atuante como é a Urbs nas questões urbanas.
Fernando Antônio Pires
arquiteto
Por e-mail


Caro Fernando,
Segundo nos informou a Assessoria de Imprensa da Secretaria da Habitação e Desenvolvimento Urbano do Município de São Paulo, a contratação do projeto de reforma do edifício São Vito foi feita em 2003 por meio de licitação pública e obedeceu o critério de menor preço.


REVISTA URBS

Prezados Senhores,
Há algum tempo acompanho o trabalho desenvolvido pela Associação Viva o Centro, mas somente agora pude ter um contato com sua publicação, a Revista Urbs. Realmente é um informativo de qualidade, com matérias interessantes e que merece todo o nosso apoio. Não há paulista ou paulistano que não deseje a recuperação do centro da cidade, e que dele não tenha se afastado por razões óbvias.
Fazer obras é fácil, restaurá-las já é uma tarefa complicada e demorada. Se os recursos não chegam para setores fundamentais, como a educação e a saúde, como esperar que sejam destinados a projetos dessa natureza? Por tudo isso, vendo a dimensão do projeto e as dificuldades que existem pela frente, só posso aplaudi-los, fazendo votos de que encontrem respaldo não somente nas autoridades, mas também na comunidade paulistana, sempre tão solidária, ao mesmo tempo que tão prejudicada por governos visionários e inescrupulosos.
Compartilho de uma preocupação, a mesma estampada no editorial do presidente da Associação Viva o Centro, sr. Marco Antonio Ramos de Almeida, com relação ao adensamento de população de baixa renda, na região central. Restaurar edifícios como o São Vito é necessário, mas não deve se tornar uma regra no que se refere à sua destinação.
Inúmeros são os edifícios abandonados pelo poder público e por particulares, cito o exemplo do antigo prédio de Finanças, na Av. Prestes Maia, assim como o Hotel São Paulo. O Centro poderia se transformar numa grande favela, a curto prazo.
Tenho esperança de que a força de São Paulo mais uma vez se manifeste, através de grupos como a Associação Viva o Centro, impedindo que isso aconteça com a sugestão de ações que abriguem estas populações, sem prejudicar ainda mais essa importante área da cidade.
Luiz Carlos de Almeida
jornalista


Como arquiteto e morador do Centro gostaria de parabenizar o trabalho desta revista e da Associação Viva o Centro na busca por melhores condições de habitação e trabalho na área central da cidade. A reportagem sobre restauro de imóveis mostra uma situação em que a existência de incentivos públicos poderia facilitar obras de restauro com benefícios para todos, dos moradores aos usuários da região. Alguns edifícios importantes como o São Vito podem servir de referência para intervenções de grande porte, mas a grande maioria dos imóveis centrais precisa de reformas específicas, principalmente no que se refere às instalações elétricas.
Parabéns pelo trabalho.
Francisco Soares
arquiteto e morador de Santa Cecília


Prezados Senhores
Como leitor assíduo da revista Urbs, gostaria de identificar os locais das fotos, que ilustram a matéria intitulada São Paulo, "Capital Gastronômica", pgs. 59 e 60 da revista mencionada. Esperando resposta, agradeço antecipadamente.
Saudações.
Nicolau Vergueiro Malheiros

Caro Nicolau,
A foto visualizada na página 59 é da Cantina Roperto, localizada na Rua Treze de Maio, no Bexiga. Já a fotografia da página 60 é de uma lanchonete que fica na Zona Leste. A imagem faz parte do acervo do fotógrafo e ele não soube precisar o nome do estabelecimento.

Prezado (a) Senhor (a),
Saudações!
Embora há 12 anos distante de São Paulo, pelo que recordo da cidade posso afirmar que a foto inferior da página 57, da Urbs nº 34 (abril/maio de 2004) não corresponde à Av. São João.
Imagino que, se minha memória não me trai, a paisagem belamente fotografada, tendo por referência o valente galinho da torre da Igreja de Santa Iphigênia, corresponde ao encontro da Av. Cásper Líbero, do Viaducto Santa Iphigênia, e das Ruas Antônio de Godoy e do Seminário.
À direita a foto ostenta o "Mirante do Vale". Nela disputam a cena central os prédios do antigo Banespa e do Banco do Brasil.
Posso até estar enganado, mas é difícil esquecer os caminhos por onde um dia fluímos apaixonados...
Agradecido,
Hermann de Oliveira (Florianópolis - SC)

As informações do leitor estão corretas.


ERRATA

Peço o favor de retificarem a nota publicada na página 56 da última edição (nº 34) sobre a exposição da Coleção Brasiliana na Pinacoteca do Estado. O nome correto da exposição é "Vistas do Brasil". Coleção Brasiliana/Fundação Estudar na Pinacoteca.
Valéria Piccoli
Curadora Assistente
Coleção Brasiliana/Fundação Estudar
Por e-mail


  Panorama  
REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO UM PROJETO QUE PERMEIA GESTÕES

MARCO ANTONIO RAMOS DE ALMEIDA
Presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO


São Paulo mobiliza-se para escolher quem conduzirá a cidade nos próximos quatro anos. E, pela quarta vez em sua história, a VIVA O CENTRO dirige-se aos candidatos à Prefeitura para expor suas propostas de medidas prioritárias para a área central.

Em que pese a relevante participação da iniciativa privada e da sociedade civil organizada, a coordenação do poder público, especialmente o municipal, tem caráter decisivo para o sucesso do processo de recuperação do Centro Metropolitano de São Paulo. Por essa razão, a Associação VIVA O CENTRO vem exercendo uma ação articuladora da sociedade civil, com rigorosa isenção político-partidária, mas reconhecendo esse papel decisivo da Prefeitura Municipal.

Ao evidenciar a importância do Centro para o futuro da Metrópole, e ao obter o compromisso dos candidatos com um programa mínimo de projetos e ações, a VIVA O CENTRO tem conseguido manter o processo de recuperação do Centro como um projeto cívico e apartidário, permeando, já, quatro gestões municipais.

Após a criação da Associação, em outubro de 1991, o processo de requalificação do Centro começou efetivamente a deslanchar, no âmbito do poder público municipal, no final da administração Erundina, com a conclusão da obra do Vale do Anhangabaú; na gestão Maluf, prosseguiu com a criação do ProCentro pela Prefeitura; no governo Pitta, a Associação VIVA O CENTRO conseguiu a aprovação da Lei da Operação Urbana Centro e da Lei das Fachadas, além da recuperação dos viadutos do Chá e Santa Ifigênia, e, no bojo da renegociação da dívida do município, uma provisão para um empréstimo de US$ 100 milhões do BID para o Centro. Finalmente, na gestão Marta, o Centro foi definitivamente colocado como uma das prioridades da Prefeitura. Uma extensa lista de realizações foi implementada, com destaque para a mudança da sede da Prefeitura para o Anhangabaú, com a questão dos camelôs enfrentada e o contrato de empréstimo de US$ 100 milhões sendo assinado. E mais uma vez, demonstrando a importância da continuidade do "projeto permeando gestões", o dinheiro desse empréstimo quem irá efetivamente investir será a gestão a ser eleita este ano.

Questões importantes estão agora sendo novamente colocadas pela VIVA O CENTRO para os candidatos. A par da manutenção das conquistas que já deram um novo patamar de qualidade e eficiência ao Centro, a entidade insiste em pontos já anteriormente colocados e ainda não alcançados e coloca novos objetivos dentro da dinâmica que preside sempre os processos de transformação social, qual seja, o avanço gradual com a revisão de algumas metas e a reafirmação de outras.

Nesta edição, urbs traz um resumo das postulações da entidade e um retrospecto das conquistas efetivadas.

Perplexidade

No fechamento desta edição em que, inclusive, a questão dos moradores de rua e albergues é tema de uma das reportagens principais, fomos surpreendidos pela série de crimes que vitimaram 16 deles em pleno Centro de São Paulo, provocando revolta e indignação em todo o país. Foi o pior reforço a uma das recomendações que a Associação VIVA O CENTRO vem sistematicamente fazendo aos candidatos a prefeito, qual seja, a de que a Prefeitura, visando dar um encaminhamento digno a essas pessoas, assuma efetivamente a coordenação e gestão da rede de instituições públicas e privadas que lhes prestam assistência e acolhida. Em nota oficial amplamente difundida, e reproduzida na página 60 desta edição, a Associação manifesta sua profunda repulsa a esses crimes e sugere medidas para evitar sua repetição.


  Galeria  


Passeio ciclístico noturno no Centro

Não é preciso ser atleta para participar de uma atividade inusitada que a Prefeitura de São Paulo está promovendo: passeios ciclísticos noturnos pelo Centro da cidade. Sem trânsito e toda iluminada, a região ganha uma beleza especial à noite.
O passeio não exige preparo físico, basta apenas disposição e uma bicicleta em boas condições. São oito quilômetros de percurso, com o acompanhamento de monitores. As saídas acontecem às 21h do último sábado de cada mês. A intenção é que os passeios se tornem semanais, incorporando novos roteiros.
O ponto de encontro é a Praça do Patriarca (E6-34), e o roteiro inclui pontos turísticos como a igreja de Santa Ifigênia, Estação da Luz e Praça da República. Para garantir a segurança dos ciclistas, o evento é monitorado pela Guarda Civil Metropolitana e pela Polícia Militar.
A primeira saída aconteceu dia 22 de maio e contou com 300 participantes. Para se inscrever, basta comparecer ao local antes do horário de saída, e fazer a inscrição gratuitamente.

Mercado Municipal terá espaço cultural

Quando foi inaugurado, em 1933, o edifício do Mercado Municipal de São Paulo incluía um Salão de Leilões. Com duas paredes de ladrilhos belgas e escada de mármore, o local ficou esquecido e os anos o transformaram, entre outras coisas, em um depósito de entulho.
Grande parte dos funcionários do Mercado, que também utilizavam o espaço como vestiário, desconheciam o projeto original. Com a grande reforma que está sendo realizada, ao se esvaziar o depósito, descobriu-se que o local, na verdade, é o que melhor conserva as características do projeto original de Ramos de Azevedo. A parede, a escada e até mesmo o piso se mantiveram intactos.
O salão, que tem área de 510 metros quadrados, está sendo restaurado pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), que pretende manter o projeto original e transformar o local em um espaço cultural. A conclusão da reforma do Mercado Municipal (G4-59) está prevista para setembro.

Jovens da Febem estagiam em espaços culturais

Com o intuito de dar oportunidades a jovens que passaram pela Febem e não conseguem um emprego, o Governo do Estado criou um programa que leva 25 jovens egressos da instituição para estagiar em lugares como a Pinacoteca (E2-100) e outros museus, teatros e espaços culturais.
Os estagiários passaram por um processo seletivo que priorizou a afinidade com atividades culturais, demonstradas, por exemplo, pela participação em oficinas e cursos livres. Para participar, eles devem estar matriculados no Ensino Médio. Cada um recebe uma bolsa de R$ 162,50 mensais para trabalhar cinco horas por dia, durante seis meses, além de cesta básica e vale transporte. A bolsa é paga por uma parceria entre diversas instâncias do Governo do Estado, incluindo Secretarias e Febem, e a iniciativa privada – o projeto é apoiado pela CBA, do Grupo Votorantim.

Ação Social revitaliza Centro de Recife

Oriundos do Projeto Oficina Escola de Restauro, jovens carentes da capital pernambucana serão os responsáveis pela pintura de oitenta fachadas da Rua Velha, localizada no bairro da Boa Vista. A compra de tintas e materiais fica por conta de moradores e empresários, mas os jovens recebem uma bolsa que será financiada pelo projeto, com patrocínio da Caixa Econômica Federal e da Prefeitura de Recife.
Os participantes receberam 240 horas de aula com treinamento em pintura, alvenaria, carpintaria, cantaria, estuque e ferragens. Para participar, os jovens precisam estar matriculados em programas de educação de jovens e adultos ou no curso noturno do Ensino Fundamental de escolas da rede pública.
Unindo inclusão social e revitalização da região, o projeto Oficina Escola de Restauro faz parte do programa Morar no Centro, ação que vem sendo discutida pela Prefeitura recifense desde 2001.

Livro discute contradições de São Paulo

Uma das principais características da cidade de São Paulo é a contradição resultante de seu crescimento desordenado. Submoradias como cortiços e favelas e falta de saneamento básico em determinadas regiões se contrapõem a modernos prédios auto-suficientes e condomínios fechados de classe alta. Esses e outros aspectos da urbanização, assim como o desenvolvimento econômico-social, a vida da população, a visão de um novo padrão urbano e a própria construção da cidade podem ser verificados no livro São Paulo Metrópole (Imprensa Oficial/Edusp, 296 páginas, R$ 120,00).
Produzido a partir de dados coletados em pesquisas feitas desde o final da década de 1980 pelas arquitetas Regina Prosperi Meyer, editora de Urbanismo da revista urbs e membro do Conselho Editorial, e Marta Grostein, que também participa do Conselho Editorial da urbs, e pelo economista Ciro Biderman, professor da FGV, a obra faz análises críticas das políticas que foram desenvolvidas nos últimos anos. Também são apontadas soluções para um futuro que pode garantir o bem-estar de seus habitantes – desde que seja feito o devido planejamento.
Para completar o painel da cidade, São Paulo Metrópole é ricamente ilustrado por fotos e mapas feitos durante vôos de helicóptero. Para uma região cujo crescimento é contínuo, a obra revela-se uma verdadeira radiografia de sua transformação.

iFHC RECEBE BILL Clinton

No dia 22 de maio foi inaugurado o Instituto Fernando Henrique Cardoso, o iFHC (D5). A programação começou no Hotel Renaissance com uma coletiva do fundador à imprensa e conferência do ex-presidente dos EUA, Bill Clinton. À tarde, na sede da instituição, ocorreram dois seminários, com a participação de Armínio Fraga, Gustavo Franco, Boris Fausto, entre outros convidados.
O Instituto – localizado na Rua Formosa, no centro de São Paulo – propõe-se a promover, através de seminários, conferências e mesas-redondas, o debate de problemas políticos, econômicos e sociais do Brasil. O iFHC colocará à disposição dos pesquisadores um vasto acervo documental relacionado às atividades acadêmicas, intelectuais e políticas de seu fundador, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O site do Instituto é www.ifhc.org.br.

São Paulo em longa-metragem

A capital paulista ganhará um longa-metragem que mostra as impressões de cineastas estrangeiros, e também da brasileira Daniela Thomas, sobre a cidade. O filme "Bem-vindo a São Paulo - Welcome to São Paulo" é uma produção do casal Leon Cakoff e Renata de Almeida, organizadores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e conta com a participação de quinze diretores que já tiveram seus filmes exibidos na Mostra. Entre eles, o alemão Wolfgang Becker (Adeus, Lênin), o australiano Phillip Noyce (O Colecionador de Ossos) e a portuguesa Maria de Medeiros (Capitães de Abril).
As imagens do filme foram captadas em vídeo, sem limite de tempo para cada segmento – por isso há participações bastante pequenas e outras de até quinze minutos. O Centro atraiu muitos olhares. A Praça da Sé, o Edifício São Vito e a esquina da Ipiranga com a São João foram alguns dos cenários escolhidos. A produção ficará pronta no início do segundo semestre e os direitos internacionais de distribuição já foram comprados.


  Reportagem  
LUZES, CÂMARA, AÇÃO

Nem só de praias exuberantes vivem os cenários das propagandas brasileiras. O Centro de São Paulo é palco de muitas filmagens e sua condição de metrópole atrai produtores brasileiros e também permite que os filmes sejam exibidos fora do Brasil.

Isabella Rebelo

Se fosse preciso determinar um único bom motivo para explicar porque o Centro de São Paulo é cenário de tantos comerciais, dos mais diversos produtos e serviços, essa razão seria a universalidade que a região inspira.

Para diretores e produtores de comerciais exibidos na televisão e no cinema, filmes publicitários rodados na área têm um resultado cosmopolita, o que permite que sejam exibidos em qualquer lugar do mundo.

"As imagens da região central paulistana podem associar-se a qualquer outra metrópole do mundo", diz Simon Gregory, assistente de direção da Republika Filmes – produtora responsável por campanhas da Fiat e da Telefonica, muitas delas rodadas no Centro. "O comercial do Fiat Stilo, por exemplo, foi vendido para a Turquia devido a essa característica."

Existem, porém, muitas outras razões para que a região central seja, entre os demais bairros da metrópole, preferida em muitas produções. "Temos aqui diversas locações interessantes, com mistura de arquiteturas, que ajudam a trazer um olhar diferente para o filme", explica Gregory. "Se o produto, por exemplo, é um carro, conseguimos obter uma iluminação mais homogênea, porque a área tem sombra na maior parte do tempo."

Claudio Borrelli, diretor da Cia. de Cinema – produtora responsável por filmes como a recente campanha da Audi –, enumera outros motivos para o uso do Centro como palco dos comerciais, além da evidente beleza dos logradouros. "Já usei a área em cerca de dez campanhas por ter ruas largas, além de prédios e ‘cantinhos’ favoráveis para as filmagens."

As propagandas de veículos parecem ser mesmo as que mais utilizam a "fotogenia" da região. Proprietário e diretor de filmes da produtora Jodaf, João Daniel Tikhomiroff valeu-se do Centro para produzir o comercial de lançamento do automóvel Honda Civic 2004. Percorrendo a área em alta velocidade, o carro levanta as saias das moças que circulam por suas ruas e viadutos. "Procurávamos locações visualmente fortes e, por isso, usamos a região da Praça Roosevelt, além de construções clássicas e históricas que poderiam contrastar com as linhas modernas do carro", recorda o diretor.

"Adoro o Centro. Não é de hoje que o escolho", confessa Tikhomiroff, que foi um dos criadores da célebre propaganda do jeans Staroup durante o regime militar, vencedor do Leão de Ouro de 1988 em Cannes e medalha de ouro em Nova York. Rodada em locais do Centro como o Pátio do Colégio, a campanha foi uma das mais premiadas da história da propaganda.

Preparativos

A equipe responsável pelo filme da Audi contou com 60 profissionais.

Já o comercial da Brahma, em que uma tartaruga faz "embaixadas" com uma bola em plena Alameda Barão de Limeira, exigiu a presença de 800 figurantes. Essa é uma característica dos comerciais rodados na região – o alto número de pessoas envolvidas nos projetos. Devido à dificuldade dos preparativos e à grande estrutura exigida para a produção, o time de publicitários e artistas costuma engrossar o já movimentado Centro da metrópole.

É justamente por isso que os diretores de produção – e, naturalmente, a Prefeitura de São Paulo, que concede as autorizações – optam pelas filmagens aos domingos e durante a madrugada. Além disso, a instalação de geradores e o estacionamento dos numerosos veículos da produção são mais fáceis nesses períodos.

Diretora de produção da Zero Filmes, produtora responsável pelo filme da Brahma, Ana Soares descreve o processo de produção de uma campanha. "Após recebermos o ‘briefing’, contratamos um produtor de locação para buscar locais que se encaixem com a idéia proposta pela agência de publicidade", explica. A aprovação final sobre o logradouro, no entanto, é do contratante. "Diretores de cena, de fotografia, de arte e de produção se reúnem e montam uma pasta para o cliente, que aprova ou não o projeto", descreve a diretora de produção. Depois que a campanha é aprovada, tem início o "calvário" de autorizações e reuniões na Prefeitura e Subprefeituras.

"No Rio de Janeiro, por exemplo, falamos com uma só pessoa da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), para que as ruas sejam fechadas e o público seja isolado. Em São Paulo é mais difícil, pois temos de procurar primeiramente a Subprefeitura local e pagar uma taxa, para só depois marcar uma reunião com a CET", diz Ana Soares.

Após as negociações com a CET – que geralmente estabelece datas e horários possíveis para a filmagem –, ainda é preciso solicitar o apoio da Polícia Militar. "Mas, mesmo com a presença da Polícia, não abrimos mão de nossa equipe de seguranças particulares, principalmente devido à presença dos camelôs na região, que, embora estabelecidos ilegalmente, recusam-se a abandonar os locais de filmagem", lamenta a diretora.

"A partir do momento em que escolhemos o local, mandamos carta para a Prefeitura pedindo a autorização, e a aprovação demora cerca de sete dias. Para facilitar o processo, contratamos profissionais para conversar com os órgãos municipais. A presença dos seguranças particulares é essencial, porque os policiais, mesmo acionados, não permanecem na locação, apenas passam de vez em quando", acrescenta Simon Gregory, da Republika Filmes.

No caso do registro de fachadas tombadas, é preciso ainda efetuar o pagamento de outras taxas. Todo esse processo poderia ser facilitado caso fosse implantada na capital paulista uma "film commission", como acontece em outras cidades ao redor do mundo (ver quadro abaixo).

João Daniel Tikhomiroff também cita como empecilho uma portaria municipal publicada no "Diário Oficial" de 25 de dezembro de 2003, que teria dificultado ainda mais o processo de produção de comerciais no Centro.

"A lei exige, por exemplo, uma antecedência de dez dias úteis para entrada do pedido de filmagem e o pagamento por hora e local filmado. Quem editou a portaria não tem conhecimento de como é difícil cumpri-la: dependemos inclusive do clima, que é imprevisível. Isso tem nos levado a filmar fora de São Paulo, pois outras Prefeituras facilitam e valorizam muito mais o trabalho", afirma o proprietário da Jodaf.

Estética

As dificuldades de produção de comerciais no Centro, infelizmente, não se restringem aos empecilhos burocráticos. Outros obstáculos seriam a existência de fiação aérea, a excessiva quantidade de postes, as pichações e a mistura de arquitetura refinada e construções de estética duvidosa. "Por vezes, filmar no Centro é uma situação delicada, já que trabalhamos com a plasticidade", explica o diretor Claudio Borrelli.

Obstinados, produtores e diretores resistem aos problemas, utilizam cada vez mais os logradouros da área central e apenas esperam por mais melhorias – algumas delas já visíveis na região. Para Simon Gregory, a recuperação urbanística de maior vulto foi o recapeamento das ruas. "Especialmente para quem produz campanhas de carros, é uma melhoria fundamental."

"De uns tempos para cá, pudemos assistir à recuperação de vários edifícios da região central, como o antigo prédio do Dops. Isso os fez mais evidentes. O Centro está bonito, está voltando a ‘acontecer’", come mora Tikhomiroff, engrossando o coro de seus colegas de profissão.

Escritórios de produção

Implantadas para facilitar o trâmite de autorizações para a filmagem de produtos audiovisuais em lugares públicos, sejam campanhas publicitárias ou longas-metragens, as film commissions são comumente encontradas em cidades norte-americanas e em países como Espanha, Austrália, Alemanha, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Coréia, Áustria, Luxemburgo e Albânia.

A film commission é, na maioria dos casos, um escritório da administração pública municipal que agrega diversos órgãos, tais como polícia e companhias de trânsito, de água e de eletricidade. Por meio do pagamento de uma taxa – cujo valor é revertido para a própria conservação do serviço e da cidade –, o produtor interessado em executar uma campanha no espaço público acessa a film commission e recebe, quase que imediatamente, todo o apoio da Prefeitura de que necessita, dentro de um cronograma pré-estabelecido.

De acordo com profissionais do setor, cidades do porte de Nova York – cujas ruas abrigam produções quase diariamente – devem, obrigatoriamente, possuir suas film commissions. "Em metrópoles que possuem esses escritórios, o processo de filmagem é muito mais simples. Os produtores dão entrada no pedido e recebem rapidamente a autorização. Isso porque as prefeituras locais acham vantajoso mostrar e ‘vender’ a cidade por meio da televisão e do cinema. É uma espécie de marketing turístico", diz João Daniel Tikhomiroff, da produtora Jodaf.

Alguns Estados brasileiros, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, esboçaram tentativas de criar suas film commissions, mas a medida ainda precisa ser melhor desenvolvida e – acima de tudo – ser estendida a metrópoles como São Paulo, sob o risco de ocorrer uma migração de filmagens dessas cidades para outras, que apóiam as produções audiovisuais de forma mais concreta.

http://members.aol.com/lpmickey/Filmcommissions.index.html

é possível obter uma lista com as diversas film commissions dos Estados Unidos e de outros países


Escritórios de produção
Implantadas para facilitar o trâmite de autorizações para a filmagem de produtos audiovisuais em lugares públicos, sejam campanhas publicitárias ou longas-metragens, as film commissions são comumente encontradas em cidades norte-americanas e em países como Espanha, Austrália, Alemanha, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Coréia, Áustria, Luxemburgo e Albânia.

A film commission é, na maioria dos casos, um escritório da administração pública municipal que agrega diversos órgãos, tais como polícia e companhias de trânsito, de água e de eletricidade. Por meio do pagamento de uma taxa – cujo valor é revertido para a própria conservação do serviço e da cidade –, o produtor interessado em executar uma campanha no espaço público acessa a film commission e recebe, quase que imediatamente, todo o apoio da Prefeitura de que necessita, dentro de um cronograma pré-estabelecido.

De acordo com profissionais do setor, cidades do porte de Nova York – cujas ruas abrigam produções quase diariamente – devem, obrigatoriamente, possuir suas film commissions. "Em metrópoles que possuem esses escritórios, o processo de filmagem é muito mais simples. Os produtores dão entrada no pedido e recebem rapidamente a autorização. Isso porque as prefeituras locais acham vantajoso mostrar e ‘vender’ a cidade por meio da televisão e do cinema. É uma espécie de marketing turístico", diz João Daniel Tikhomiroff, da produtora Jodaf.

Alguns Estados brasileiros, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, esboçaram tentativas de criar suas film commissions, mas a medida ainda precisa ser melhor desenvolvida e – acima de tudo – ser estendida a metrópoles como São Paulo, sob o risco de ocorrer uma migração de filmagens dessas cidades para outras, que apóiam as produções audiovisuais de forma mais concreta.



  Reportagem  
NA BOCA DA URNA

VIVA O CENTRO apresenta suas propostas para a área central nos próximos quatro anos e promove encontro entre a coletividade do Centro e os candidatos à Prefeitura de São Paulo

Ana Maria Cicaccio


Com a campanha eleitoral a pleno vapor, a Associação VIVA O CENTRO, como fez nas três últimas eleições, convida os candidatos à Prefeitura de São Paulo a expor suas plataformas para enfrentar os grandes problemas da cidade, com ênfase na região central. Nesta quarta vez, como nas anteriores, a VIVA O CENTRO enviou a cada postulante a cópia de um documento contendo propostas de medidas prioritárias para a área central nos próximos quatro anos – o "São Paulo Centro, Eleições 2004 – Carta aos Candidatos" (leia na página 17).

Esses encontros, que desse modo vão se tornando tradicionais e a cada eleição atraem mais atenção, proporcionam um utilíssimo tête-à-tête com os candidatos da coletividade do Centro, representada por diretores e filiados à VIVA O CENTRO, além dos participantes das Ações Locais – associações formadas por empresas, instituições, condomínios, lojas, escritórios e moradores para zelar pelas ruas e praças do Centro. As discussões abordam temas muito próximos ao cotidiano dos cidadãos, mas privilegiam a especificidade e importância do Centro paulistano para a economia, a prática democrática, a eqüidade social e o acesso à educação e cultura, tanto da própria capital como da Região Metropolitana, do Estado de São Paulo e, com certeza, também do país.

"Hoje já se constata que o Centro, longe de ser um problema, pode ser a solução para muitos dos impasses de São Paulo. Só com uma área central que articule transportes, serviços, atividades de ponta, cultura e, sobretudo, imagem e auto-imagem, São Paulo poderá ser ao mesmo tempo uma metrópole economicamente competitiva, inserida na ordem global, e socialmente justa e equilibrada, anulando as barreiras e enclaves e a segregação sócio-espacial. Uma política de Centro, portanto, é uma política de cidadania", diz o presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida.

De uns anos para cá, em decorrência do processo de requalificação, que deslanchou a ponto de não admitir retrocessos, o Centro volta a ser motivo de orgulho para os paulistanos, ao mesmo tempo em que se assiste a um progressivo fortalecimento do comércio e setor de serviços, sem contar a chegada de novos empreendimentos, como call centers, televendas e web hosting (leia box Conquistas alcançadas) e o retorno dos principais organismos governamentais, tanto do Município como do Estado.

Dentro de seu espírito propositivo, e cada vez mais animada com o que já foi realizado no Centro, a Associação formulou dez propostas ao poder público municipal para a próxima gestão, algumas das quais certamente exigirão cooperação entre as diversas esferas de poder e parcerias com a iniciativa privada. São elas:

1. Requalificação do Pólo Luz-Santa Ifigênia. Esta importante região da área central recebeu nos últimos anos profundas intervenções: ganhou o Complexo Cultural Júlio Prestes (com a Sala São Paulo, a Estação Pinacoteca no antigo prédio do Dops e a Escola de Música Tom Jobim) e vê concluir-se a implantação do Projeto Integração Centro, na Estação da Luz, que além de permitir a conexão entre as linhas férreas e de metrô para todas as regiões da cidade contém o ponto inicial da nova Linha 4 do Metrô, cujas obras já começaram. O que falta é a reurbanização na cota zero (nível da rua) do entorno do Complexo Cultural Júlio Prestes, da Estação da Luz e da Avenida Casper Líbero, para que se aproveite todo o potencial dos equipamentos culturais ali instalados (Pinacoteca do Estado, Jardim da Luz e Museu de Arte Sacra incluídos) e se viabilize a integração e sinergia locais e com o núcleo central. A VIVA O CENTRO coloca seus estudos e propostas para essa região à disposição dos candidatos;

2. Refuncionalização do Vale do Anhangabaú. Mais de dez anos depois de uma grande reforma, o Vale exibe uma configuração inadequada às novas demandas. Embora numa área servida por duas estações de metrô, dois terminais urbanos de ônibus e por onde escoa boa parte do fluxo na ligação norte-sul da cidade, o projeto, da maneira como foi executado, resolveu o problema da ligação viária norte-sul e vice-versa, mas criou um problema de acessibilidade ao próprio Centro. A Associação propõe o restabelecimento do trânsito local no Anhangabaú, sem perda de suas qualidades de pequeno parque central, mas com vias bem delimitadas, incluindo a criação de uma rambla contínua para o pedestre, entre o Largo do Paissandu e a Rua Líbero Badaró. O objetivo é facilitar o acesso de veículos que se dirigem aos edifícios da área e dar maior segurança e facilidade de circulação ao pedestre. Um projeto detalhado está sendo oferecido pela VIVA O CENTRO aos candidatos;

3. Requalificação da rótula central. Este importante anel viário que circunda o núcleo do Centro necessita urgentemente de um processo de requalificação de suas calçadas, geometria veicular, paisagismo e iluminação, de modo a proporcionar conforto e segurança aos pedestres e facilitar o trânsito de veículos coletivos e particulares;

4. Revisão do sistema de calçadões. Uma importante conquista do pedestre, o sistema de calçadões perdeu qualidade e deixou de cumprir seu objetivo de espaço propício à circulação do próprio pedestre e à requalificação do entorno. Após mais de 20 anos de uso, requer uma atualização, por estar entre as condições relevantes ao desenvolvimento harmônico do Centro. A Associação já realizou importantes estudos e pesquisas sobre o assunto e disponibiliza aos candidatos dezenas de diretrizes e propostas para essa revisão;

5.Construção de garagens subterrâneas. Elas são vitais para o Centro, onde o estacionamento ao nível da rua é cada vez mais raro, e estimulariam a permanência de empresas e serviços na região por garantir o mínimo de vagas às suas necessidades operacionais e eventuais clientes. A VIVA O CENTRO reivindica a urgente licitação, pela Prefeitura, da construção e operacionalização dessas garagens pela iniciativa privada, nos moldes da lei já aprovada pela Câmara com essa finalidade;

6. Implantação de um sistema circular de bonde. Para favorecer a microacessibilidade no Centro, a Associação propõe que a cidade opte por uma tecnologia de ponta, nos moldes dos sistemas implantados em Zurique, Genebra, Praga, Grenoble e Atenas (neste último caso, para agilizar o acesso de atletas e do público aos torneios das Olimpíadas), sistemas estes dotados de veículos modernos, confortáveis e de desenho avançado. No caso do Centro de São Paulo, o sistema deverá articular os terminais de transporte de massa, as grandes garagens e os pólos de atração de público existentes no Centro, além de transitar com segurança pelos calçadões;

7. Criação de espaços adequados ao comércio informal. Hoje o município já se acha munido de dispositivos legais e de recursos que lhe permitem disciplinar o uso do espaço público no Centro, coibindo seu uso irregular. Para abrigar os 892 camelôs legalizados nos distritos Sé e República — o Centro Histórico, coração da cidade —, a VIVA O CENTRO propõe a criação de um ou dois centros populares de compras nos moldes de um mercado municipal em terrenos, prédios ou galpões adquiridos ou locados pela Prefeitura para tal fim. Com isso, haverá a total desprivatização e liberação do espaço público do Centro para o uso exclusivo do pedestre;

8. Implantação de uma eficiente coordenação e gestão, pela Prefeitura, da rede de instituições públicas e privadas que atendem e/ou acolhem pessoas em situação de rua do Centro. Pessoas dormirem na rua, principalmente em um centro metropolitano, não pode ser considerado um fato normal e aceitável. A banalização dessa situação, além de tornar tais pessoas vulneráveis a toda sorte de violência, praticamente impossibilita a prestação de socorro a eventuais vitimados por agressões, doenças, alcoolismo ou drogas, pois dificulta distinguir entre quem está simplesmente dormindo e quem está caído, inconsciente, precisando de socorro.

9. Implantação de um sistema territorializado (por microrregião) de zeladoria urbana, segurança e fiscalização. A gestão integrada de cada microrregião do Centro, em cooperação com as Ações Locais, deve garantir qualidade e eficiência à zeladoria urbana e à rede de proteção social, objetivando: atendimento à população carente, controle do uso e ocupação do espaço público e melhoria da segurança com estímulo à integração operacional, por microrregião, entre as polícias Militar e Civil e Guarda Civil Metropolitana, padronização e manutenção de calçadas, automatização da coleta de lixo, melhorias na iluminação, limpeza pública e controle da poluição visual e sonora.

10. Guichê Inteligente do Centro. Criação de um protocolo único para receber projetos e empreendimentos propostos para a área central, com a função de encaminhá-los, de forma centralizada e desburocratizada, à aprovação dos órgãos públicos competentes, e de articular a solução de eventuais conflitos entre esses órgãos, a fim de viabilizar sua realização no menor tempo possível. Flexibilização e compatibilização das normas, por vezes conflitantes, relativas aos projetos de reforma, reciclagem e restauro de edificações, de forma a incentivar a modernização e melhor utilização do estoque imobiliário do Centro.

Principais Conquistas
O processo de requalificação do Centro registra grandes conquistas especialmente a partir de 1991, com o surgimento da VIVA O CENTRO, cuja atuação vêm permeando as gestões municipais e estaduais desde então.
Entre as principais conquistas dessa luta, registram-se
  • permanência das duas bolsas, Bovespa e BM&F, na área;
  • restauros dos edifícios do: Teatro Municipal, Museu de Arte Sacra, Mosteiro de São Bento, Pinacoteca do Estado, Paramount, que se transformou em Teatro Abril, e antigo Dops, para acolher a Estação Pinacoteca;
  • criação de novos equipamentos culturais, entre eles: Sala São Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil, espaços culturais da BM&F, da Caixa Econômica Federal e da Nossa Caixa, e filial do Masp na Galeria Prestes Maia;
  • requalificação da Praça do Patriarca e instalação do pórtico-cobertura, criado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha;
  • inauguração de uma extensão do Museu de Arte Brasileira da Faap no histórico Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca;
  • retorno de secretarias, empresas e autarquias públicas municipais e estaduais para o Centro, além da sede da Prefeitura, e instalação de um Gabinete Especial do Governador;
  • implantação dos shoppings Light e Porto Geral;
  • recuperação do Vale do Anhangabaú, da Praças Ramos de Azevedo e dos viadutos do Chá e Santa Ifigênia;
  • reforma da Praça D. José Gaspar e da Rua Xavier de Toledo (Corredor Cultural);
  • restauro e modernização da Estação da Luz;
  • inauguração dos hotéis Mercure Downtown e Holiday Inn Select Jaraguá
  • implantação do conjunto habitacional Parque do Gato em substituição à Favela do Gato;
  • reforma do Mercado Municipal; ruas e praças cada vez mais limpas, iluminadas e seguras;
  • aquisição pelo Sesc do prédio da antiga Mesbla na Rua 24 de Maio para instalar uma nova unidade no Centro, com projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha;
  • empréstimo de US$ 100 milhões do BID para o Programa Ação Centro, da Prefeitura, que prevê 130 intervenções para recuperar a área central.


  • São Paulo Centro, Eleições 2004 – Carta aos Candidatos


    Esta é a quarta vez que a Associação VIVA O CENTRO dirige-se aos candidatos que pleiteiam a Prefeitura de São Paulo. Ao longo desses 13 anos, o trabalho desenvolvido pela Associação, desde o seu surgimento, em 1991, evoluiu tal como deve evoluir toda atividade inserida em um processo de transformação social: gradualmente, revendo alguns princípios e reafirmando outros. As relações que a entidade manteve com as três instâncias de poder — municipal, estadual e federal — e com os grupos representativos da sociedade forjaram um caminho de grande responsabilidade. É com o respaldo desse caminho trilhado e das conquistas já obtidas que a Associação está, mais uma vez, oferecendo sua contribuição aos candidatos à Prefeitura de São Paulo.

    O Centro volta hoje a receber investimentos públicos e privados, projetos e ações de desenvolvimento e requalificação. Concentram-se aqui, de forma crescente, notáveis equipamentos públicos, inclusive na esfera da cultura. A população que mora e/ou trabalha na área, bem como as empresas e organizações aqui sediadas, articulam-se em cada microrregião do núcleo central, por intermédio do Programa de Ações Locais, criado e coordenado pela VIVA O CENTRO para pleitear melhoramentos e, por meio de parcerias, dar suporte a iniciativas do poder público.

    O Centro já demonstrou que é um território fértil e promissor. Marcado historicamente pela diversidade funcional e social, concentra e testemunha os 450 anos da cidade em seu rico patrimônio histórico e arquitetônico. É a única região na qual o conjunto da população convive com as principais instituições públicas, sedes de órgãos de governo, serviços avançados e alguns dos mais importantes equipamentos culturais do país.

    O Centro necessita hoje da presença qualificada e equipada do poder público no encaminhamento da reflexão e das ações que se instalam em seu território. Além de um projeto de requalificação urbana e funcional amplo e globalizante, o Centro Metropolitano de São Paulo necessita, para prosseguir com a retomada estratégica de sua trajetória, de um organismo eficiente, apto a gerir e articular os seus diversos setores de atividades e funções, e amparar e estimular o caráter processual que toda transformação urbana exige. Acreditamos que a Prefeitura de São Paulo, que possui um papel decisivo na coordenação desta transformação que deverá obrigatoriamente contar com as providências e apoio das instâncias federal e estadual, precisa preparar-se para assumir de forma efetiva esse papel.

    Recuperado e requalificado, o Centro proporcionará um enorme retorno à metrópole como um todo ao fixar-se ainda mais como marca emblemática da cidade, funcionando como âncora das atividades ligadas ao turismo, lazer, cultura e entretenimento, altamente geradores de emprego e renda. Para o encaminhamento de soluções objetivas, a Associação aponta dez providências prioritárias (leia no corpo da matéria).


      Cultura  
    CULTURA EM OBRAS

    Quando estiverem implantadas, cinco instituições contribuirão para valorizar ainda mais a região central de São Paulo.

    Federico Mengozzi


    Conforme o Centro de São Paulo vai sendo requalificado, sua vocação de pólo cultural da cidade torna-se mais evidente. Diversos centros culturais e museus foram implantados nos últimos anos, e já garantem a oferta de uma programação constante e de qualidade, e a afluência dos mais diversos tipos de público. É o caso do Centro Cultural Banco do Brasil (E5), inaugurado há três anos e já na linha de frente do que melhor se faz em cultura na cidade, e da Estação Pinacoteca (F1), que veio complementar o espaço para exposições de que carecia a Pinacoteca de São Paulo (E2).

    Outras instituições, inauguradas ou por inaugurar, poderão alavancar o setor cultural ainda mais, para somar elementos fomentadores de um Centro vivo e atuante. Algumas já estão com obras em andamento, outras ainda buscam recursos para sua conclusão e operação. Mas em 2005 é bem provável que novas opções já estejam disponíveis no Centro de São Paulo.

    É o caso do Sesc 24 de Maio, a nova mega-unidade do Sesc de São Paulo, que ocupará o prédio do antigo magazine Mesbla. As obras para adaptação do prédio localizado na Rua 24 de Maio com Dom José de Barros (C4) estão orçadas em R$ 6 milhões. Se a finalização ocorrer no prazo previsto, a unidade deverá ser inaugurada no segundo semestre de 2005. A expectativa é a de receber por volta de 6 mil pessoas ao dia, que serão atraídas para as atividades culturais, esportivas e de lazer que o Sesc desenvolve.

    No projeto de Paulo Mendes da Rocha estão previstos uma praça interna e espaços de convivência, teatro com 130 metros quadrados de palco e 290 lugares, restaurante popular, biblioteca e internet, galeria de arte, oficinas culturais, ginásios esportivos e quadras, salas de atividades físicas e de dança, piscina aquecida e solário, lanchonete, vestiários e área de administração. O público-alvo são os adultos que trabalham no comércio e serviços locais, mas também crianças e adolescentes, idosos e a população em geral – a proximidade com a Galeria do Rock poderá resultar em "diálogo" entre as instituições.

    A idéia da nova unidade surgiu quando, em 2001, a instituição percebeu que a compra do prédio de 13 andares da Mesbla, então fechado, dava a oportunidade de, além de atender aos comerciários, oferecer atividades também às pessoas que moram ou trabalham no Centro e, assim, exercer no entorno um efeito indutor de qualidade urbana pela cultura e pelo esporte. "A cidade e, principalmente, o seu Centro", diz o diretor regional do Sesc, Danilo Santos de Miranda, "é o meio ambiente físico, social e cultural onde trabalha e vive o cliente para o qual desenvolvemos nossa missão, pela alta concentração de atividades comerciais e de serviços. Trata-se de uma atuação na ótica de uma ecologia das relações sociais, que pode ser altamente educativa e propiciar nova visão de mundo e de novas relações com a cidade e sua vida cotidiana".

    Outro local com obras em andamento é o Centro Cultural da Caixa, na Praça da Sé (F6), que já vinha atuando com destaque, principalmente nas artes plásticas. Com o projeto do Quadrilátero da Sé, que visa restaurar e dar novo uso ao conjunto de prédios históricos da instituição bancária situado entre o Pátio do Colégio (F6) e o coração da cidade, o papel cultural da Caixa Econômica Federal crescerá. Parte das obras, principalmente o restauro das fachadas, já foi entregue para as comemorações dos 450 anos de São Paulo. Parte ainda está em curso. Os edifícios de números 54 e 64 da Rua Floriano Peixoto, por exemplo, abrigarão teatro, auditório e sala de exposições, enquanto os de números 85/89 e 97/101 da Rua Roberto Simonsen sediarão as oficinas culturais e o futuro museu da CEF.

    O Quadrilátero não se restringe à área artístico-cultural, mas também social. Um dos subprojetos é a construção de um prédio para moradia, 26 famílias, a ser erguido num terreno vago da área e inserido no Programa de Arrendamento Residencial, PAR.

    Reformas, enfim

    Inaugurado em novembro de 2000, o Masp Centro (D6) também está passando por reformas. Cenário de algumas importantes de exposições de arte desde a inauguração, o espaço nunca tinha sido estruturado para sua função de filial central do Masp. "A infra-estrutura elétrica e hidráulica do prédio estava em ordem quando o recebemos da Prefeitura, mas não foram feitas reformas físicas. Assim que assumimos, o escritório do arquiteto Julio Neves elaborou um projeto que foi aprovado pela Emurb e pelos órgãos de patrimônio, mas até hoje não tínhamos conseguido recursos para colocá-lo em prática", explica o administrador Celso Vieira.

    Criado para abrigar exposições de arte, especialmente de artistas brasileiros, e ocupando os 6 mil m2 da Galeria Prestes Maia – que liga a Praça do Patriarca ao Vale do Anhangabaú – o Masp Centro é um retorno à origem central do museu, que começou na Rua Sete de Abril em 1947. Com as reformas, a Galeria será equipada com um sistema de última geração de ar condicionado, e será criada a infra-estrutura adequada para abrigar a parte administrativa da unidade. Serão mantidos os mármores trazidos da Europa na década de 1930, assim como os amplos salões.

    É o começo da concretização do projeto de 2000, que será concluído no primeiro semestre de 2005, se os recursos forem captados conforme a previsão.

    Segundo Vieira, concluídas as obras, serão planejadas exposições itinerantes para o espaço – que não deve manter um acervo permanente. A próxima exposição já está determinada: em 16 de novembro estréia a segunda edição da mostra Arte e Artistas, que revela talentos nacionais.

    As atividades do espaço também serão dinamizadas com a parceria fechada com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), que resultará na criação do Instituto da Moda, o primeiro do país, misto de centro de atividades, museu e show-room para a promoção da cultura da moda, enfocando criação, gestão, marketing e tecnologia. Para sua instalação, prevêem-se reformas orçadas em R$ 6 milhões, incluindo biblioteca para 30 a 40 mil livros, auditório para até 150 pessoas, salas de administração, cafeteria etc. O Instituto da Moda será instalado no nível Anhangabaú da Galeria, e nele funcionará o primeiro museu da moda brasileiro.

    Previsões conservadoras

    Enquanto obras caminham de um lado, outros dois projetos ainda não têm previsão de término. Um deles é a restauração completa do Conservatório Dramático e Musical e outro o do Centro Cultural dos Correios (D4). Estão no Centro três das principais salas de música da cidade, o Teatro Municipal, Sala São Paulo e a Sociedade de Cultura Artística, e a cena musical paulistana ficaria ainda mais sólida se o Conservatório funcionasse a pleno vapor. Apesar de haver cursos em andamento, falta visibilidade à escola. No âmbito das comemorações dos 450 anos da cidade, a secretária da Cultura do Estado, Cláudia Costin, incluiu o projeto de restauração completa da escola – as obras, porém, ainda não começaram.

    O prédio, tombado pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico Municipal, é um projeto de 1895 e foi importante ponto de encontro de músicos e intelectuais no início do século 20 – Mário de Andrade estudou e, por ocasião da Semana de Arte Moderna, lecionava na instituição.

    A restauração da fachada do edifício, que se abre para a avenida São João, foi empreendida em 2002 com um triplo objetivo, dar vida nova à instituição, contribuir para a requalificação da região central e capacitar jovens carentes para o ofício de restaurador. O projeto de restauro se valeu dos serviços da Oficina do Tempo, iniciativa sócio-cultural que quer capacitar jovens carentes ao ofício de restaurador. Os trabalhos envolveram o tratamento das ferrugens da estrutura do balcão, a reintegração dos elementos decorativos, a recomposição do piso em mármore do hall de entrada e a restauração da estátua de Euterpe, musa da música, no alto do edifício. À frente da Oficina do Tempo está o restaurador Júlio Barros, que traz em seu currículo, entre outros, trabalhos na reforma do Pelourinho, em Salvador (BA).

    Já o Centro Cultural dos Correios, projeto resultante de um concurso realizado em 1999 não deve sair do papel tão cedo. O projeto vencedor da Una Arquitetura, prevê a manutenção no edifício histórico, da Agência Central dos Correios e da Agência Filatélica, e a implantação de atividades culturais e filatélicas, com o Museu Postal, um restaurante, uma cafeteria, um auditório, um centro de convenções e uma livraria. Em um novo bloco anexo, articulado pela praça Piolim, seriam construídos um teatro e duas salas de cinema, transformando a área descoberta da praça no centro dinâmico do complexo.

    Vários contratempos vêm tumultuando a obra – além da falta de destinação de recursos – orçada em R$ 40 milhões. Inicialmente, o Centro Cultural dos Correios seria totalmente construído e bancado pelos Correios, que tem a maior fonte de suas receitas em São Paulo. Mais tarde, com a mudança dos gestores da Instituição, os Correios decidiram bancar a reforma apenas do prédio histórico para, ao custo de R$10 milhões, reinstalar no térreo a Agência Centro dos Correios, e no mezanino a Agência Filatélica e instalar, no mezanino, um "espaço cultural". Segundo explica o assessor de Comunicação dos Correios, Fausto Weiler, para a fase seguinte, da nova construção, seria preciso encontrar um parceiro disposto a bancar os R$ 30 milhões restantes.

    O projeto assim dimensionado, passou por uma licitação, vencida pela Triunfo Construtora. Em 2002 as obras começaram, mas em outubro de 2003 a empresa começou a dar mostras de que não teria fôlego para cumprir o contrato. Foi o que aconteceu e por isso as obras pararam. A prioridade, agora, continua sendo a instalação da Agência Centro dos Correios, explica Weiler, já que enquanto o prédio original permanece fechado, as atividades postais estão sendo desenvolvidas em um prédio alugado na Rua Líbero Badaró, ao custo de R$ 100 mil mensais.

    "O Centro Cultural é outra história. Queremos outros parceiros, porque esta não é a atividade-fim dos Correios. Vamos precisar encontrar instituições que também administrem o Centro, como fundações ou associações que já tenham esse conhecimento", diz Weiler. Como a construtora não conseguiu prosseguir as obras, apenas 50% da reforma da Agência Central foi concluída. Agora uma nova licitação será feita, o que ainda deve levar três meses. "As obras devem recomeçar este ano e esperamos que estejam concluídas no primeiro semestre do próximo ano, para que possamos reinstalar a Agência Central, que é um marco no Centro de São Paulo. Será uma Agência moderna, com 50 guichês de atendimento e a mais alta tecnologia na área postal", afirma.

    Quanto ao Centro Cultural, a reforma preparará o terreno para a nova edificação e deixará as instalações do edifício original prontas para as atividades culturais que poderão ser implantadas. "Só começaremos a buscar parcerias e a fazer os processos necessários para inscrever o projeto em leis de incentivo quando a Agência Central estiver pronta, em funcionamento. É bem possível que o Escritório de Consultoria e Negócios em Marketing Direto, que funciona na Avenida São Luís, também vá para a Agência Central. É um aluguel a menos para pagar", conclui Weiler.


      Reportagem  
    UTOPIA MODERNISTA


    Mais um passo importante no sentido de atrair novos moradores e regularizar a situação de quem vive em habitações precárias no Centro foi dado pela Prefeitura, com a realização do HabitaSampa – um concurso que premiou dois projetos arquitetônicos de moradia inéditos. O concurso faz parte do programa Morar no Centro, da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sehab), e exigiu dos arquitetos participantes um estudo detalhado da realidade dos locais, para que se propusesse uma opção de moradia "sob medida", a ser construída pela Prefeitura.

    Promovido pela Sehab, em parceria com a seção São Paulo do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SP), o HabitaSampa abriu espaço para que profissionais da arquitetura apresentassem projetos visando à construção de conjuntos habitacionais na Rua Cônego Eugênio Marino (Barra Funda) e Rua da Assembléia (próxima à Catedral da Sé), na região central da cidade. "Ambos funcionarão pelo sistema de Locação Social, dirigido a famílias com renda mensal de até três salários mínimos, que vivem em habitações subnormais (favelas e cortiços) e não têm acesso a linhas de financiamento para a compra de casa", explica Helena Menna Barreto, coordenadora do programa Morar no Centro.

    Moradia digna

    Pelo projeto Locação Social, os aluguéis são subsidiados pela Prefeitura de acordo com a renda e o tamanho da família. As taxas condominiais são pagas pelos moradores. "Estimamos que o valor da locação nos dois conjuntos do HabitaSampa gire em torno de R$ 70,00", prevê a arquiteta Helena Menna Barreto. Ao todo, segundo ela, 11 áreas centrais da cidade estão sendo beneficiadas com projetos de construção ou reforma de prédios para Locação Social que integram o programa Morar no Centro, totalizando mais de 1,6 mil unidades habitacionais. Entre elas está a Favela do Gato, no Bom Retiro, local que receberá nove edifícios, com um total de 486 apartamentos. O concurso HabitaSampa, patrocinado pela Caixa Econômica Federal, foi mais uma etapa do programa Morar no Centro, que tem como objetivos principais melhorar as condições de vida de quem já reside na área central, atrair novos moradores (de diferentes classes sociais), e reciclar prédios vazios. "O repovoamento dessa área da cidade é estratégico para a sua preservação e para o desenvolvimento equilibrado da metrópole", afirma Helena Barreto. Ela lembra que, em apenas duas décadas, a população dos 13 distritos centrais – entre eles Barra Funda, Bela Vista, Belém, Bom Retiro, Brás, Cambuci, Pari e Sé – caiu de cerca de 751 mil pessoas para 526,6 mil, segundo dados de 2000 do IBGE.

    As duas novas construções serão ocupadas, preferencialmente, por uma população já enraizada na região central, mas que mora em habitações precárias. "Vamos dar a essas famílias uma moradia digna, guardando pontos de identidade delas com a cidade, promovendo, assim, um convívio democrático." Ambas as obras serão erguidas com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e deverão ser entregues em 2005.

    Ecos de Lúcio Costa

    Ao todo, 179 projetos foram analisados por uma comissão julgadora formada pelos arquitetos Antonio Carlos Sant’Anna Júnior, João Filgueiras Lima, Eduardo de Almeida, Joan Villá, além da própria coordenadora do Morar no Centro.

    A proposta vencedora para o conjunto da Rua da Assembléia – que terá 160 apartamentos – leva a assinatura dos arquitetos Vinicius Andrade, Marcelo Morettin e Renata Vicente Azevedo. O trio recebeu um prêmio de R$ 12 mil. Já o conjunto da Barra Funda (240 unidades) será construído com base no projeto de Juliana Corradini e José Alves, premiados com R$ 15 mil.

    Ao justificarem as razões que os levaram a participar do HabitaSampa, os vencedores enfatizaram os aspectos públicos e sociais do concurso. "Fazia tempo que os arquitetos não eram chamados para um debate sobre a função social da moradia, algo de fundamental importância em uma cidade tão complexa como é a capital paulista", afirma Vinicius Andrade. "Assim que fui ao terreno da Barra Funda, fiquei encantado com o lugar, que surge poético e tranqüilo. Percebi que era possível projetar um conjunto que valorizasse as relações humanas", diz José Alves.

    Uma fonte inspiradora parece permear as duas propostas vencedoras: Lúcio Costa. O arquiteto brasileiro, símbolo da utopia modernista de igualdade social, propôs para Brasília o conceito das superquadras. Elas suportariam, no pavimento superior, um prédio com apartamentos de um a quatro quartos (contemplando famílias de tamanhos e classes sociais diferentes). O solo seria totalmente liberado para que qualquer pessoa circulasse aleatoriamente no quarteirão (sem uma rua a seguir) tendo um playground ou escola à sua frente, o que tornaria menos rígida a propriedade privada.

    Tanto na Rua da Assembléia quanto na Cônego Eugênio Marino, há o desejo expresso de um diálogo franco entre as áreas públicas e privadas. O elemento mediador é a praça, espaço já existente em ambos os terrenos. "O morador desce de seu apartamento e encontra uma praça pública.

    A área de lazer passa a ser a cidade e não o jardim do prédio", sustenta Vinicius Andrade. Na mesma linha segue José Alves, ao falar do entorno imediato do terreno da Barra Funda: "Temos uma generosa praça ora muito ensolarada, ora sombreada pelas árvores, além do térreo livre, que pode abrigar a estrutura para lazer. Nada de compartimentar o espaço, e sim compartilhar", afirma o arquiteto.

    O ideal e o possível

    Em Brasília, a aventura utópica de Lúcio Costa acabaria por se concretizar apenas em parte. Vingou a idéia do solo como espaço público, porém não houve como fazer o senador e o motorista morarem no mesmo edifício. A realidade falou mais alto, sufocando o sonho da utopia social. Em São Paulo, os arquitetos do HabitaSampa têm consciência do limiar que separa o ideal do possível, e não se surpreenderão se seus projetos sofrerem adaptações. "A questão da segurança carrega consigo as grades de proteção para os edifícios, um fator para delimitar mais intensamente os espaços públicos e privados", avalia Vinicius Andrade.

    Ao justificar seu projeto junto à comissão julgadora, José Alves e Juliana Corradini salientavam que a proposta elaborada era movida pelo desejo da liberdade, com espaços generosos de convivência e troca, possibilitando sempre o encontro. "Sabemos que isso pode ser alterado. Ainda vivemos numa cidade marcada pela violência, o que determina medidas de proteção", avalia Alves. "Mas no projeto fica esse lado poético. Todo o conjunto foi projetado visando sempre às relações humanas", acrescenta.

    Já prevendo, a longo prazo, dinâmicas de ocupação diferentes das atualmente planejadas para o conjunto da Rua da Assembléia, Marcelo Morettin confirma que o projeto original é bastante flexível. "Será possível, sem grandes transtornos, juntar ou dividir unidades, de acordo com eventuais demandas ainda não existentes."

    O conjunto da Barra Funda, além dos apartamentos colocados à disposição, receberá também o Centro de Capacitação para Reforma e Restauro de Imóveis, espaço onde haverá aulas de alvenaria, hidráulica, elétrica e acabamento. Já o projeto da região da Sé contempla uma área destinada a estacionamento da Secretaria de Negócios Jurídicos, que por meio de um acordo transferiu o terreno da Rua da Assembléia para a Sehab.

    Com a ocupação dos dois terrenos centrais, a tendência é que surja uma nova dinâmica no relacionamento humano e nas atividades comerciais no entorno dos dois edifícios. "Trata-se de uma transformação que gera novas transformações", avalia Vinicius Andrade. Nesse movimento dialético, é bem possível que surja um novo comércio para atender novas demandas. "Quem é que não gosta de um pão quentinho?", pergunta o arquiteto, sugerindo que alguém pode vir a se interessar em abrir, por exemplo, uma boa padaria nas imediações dos conjuntos habitacionais. "Além disso, o Centro ganhará um movimento extra, já que as famílias devem receber a visita de parentes e amigos vindos de outras regiões da cidade", prevê.

    Ao redigir e desenhar o Plano Piloto de Brasília, Lúcio Costa sustentou que a cidade deveria ser concebida "não só como urbs, mas também como civitas". Todo o cenário que circunda o HabitaSampa – desde a proposta de ação concreta por parte do poder público até o conteúdo dos projetos vencedores – faz crer que a partir da região central, a face "urbs" de São Paulo, onde se sedimentam os elementos físicos que caracterizam a cidade, caminha para um reencontro com o lado "civitas", o aspecto cidadão de uma Metrópole cujo Centro guarda, atrás do concreto e do asfalto, uma alma completamente cosmopolita. "O que se busca agora é que esse convívio tão diverso seja efetivamente democrático", afirma Helena Menna Barreto. Em outras palavras, o que a população espera é que São Paulo seja, de fato, um lugar plenamente habitável, em toda a sua dimensão, seja ele "urbs" ou "civitas".

    O Projeto da Rua da Assembléia prevê uma integração direta com o entorno do edifício, estreitando as relações entre os moradores com a região.

    Identidade preservada

    Rua da Assembléia:

    Um local de intervenção marcado pela dinâmica e variedade dos eventos urbanos que o compõe. Foi essa a impressão que os arquitetos Vinicius Andrade, Marcelo Morettin e Renata Vicente Azevedo tiveram no primeiro contato com o terreno da Rua da Assembléia. "Entendemos que o projeto deve incorporar o entorno.

    A intenção é intervir sem negar a realidade existente", diz Renata.

    O ponto de partida para a construção do conjunto é transformar o platô existente na Rua Dr. Rodrigo Silva no prolongamento da Praça Carlos Gomes, criando um patamar para implantação dos dois prédios novos. Para completar, a ala de baixo do terreno, livre de construções, é convertida num plano inclinado que faz a ligação da esquina junto ao Viaduto Dona Paulina com a praça dos edifícios. Sob esse plano ficará o estacionamento da Secretaria de Negócios Jurídicos. "Esse sistema de espaços públicos, composto de elementos existentes e projetados, cria novas possibilidades de conexão dentro da malha urbana e promove a integração do lote com a cidade", avalia a arquiteta.

    VENCEDORES REMETEM A LUCIO COSTA

    Na Barra Funda, o projeto prevê amplos espaços de convivência, que facilitem o encontro entre os moradores.

    Vicente Marino: Amplos espaços

    O terreno da Rua Cônego Vicente Marino com a Rua Cruzeiro é, na verdade, um enorme trapézio plano. O lado maior faz divisa com a linha férrea e seu lado menor tem como limite uma grande praça. O entorno se caracteriza por edificações baixas, geralmente de dois pavimentos, compostas, de modo geral, por residências e galpões. "Projetamos elevar do solo tanto as habitações quanto o Centro de Capacitação, deixando o térreo todo livre. Assim, o chão da cidade entra no lote e o espaço torna-se único", explica Juliana Corradini. "O contato visual é permanente e o terreno se une com a praça ao lado, sem que as edificações formem barreiras indesejáveis a essa comunicação."

    Os edifícios são formados por duas lâminas com dez metros de distância entre si e implantadas paralelas à Rua Cônego Vicente M. Marino. "Dessa forma afastamos as moradias da divisa com a linha férrea, marcamos a divisa do lote e oferecemos uma grande praça em seu interior, aproveitando melhor o terreno", afirma a arquiteta. Os apartamentos (kitchenette, 1 e 2 dormitórios) foram colocados lado a lado e uma extensa passarela os comunica com as escadas, diminuindo os custos com circulação (não há elevadores). As unidades adaptadas aos portadores de deficiências físicas ficam no térreo, para facilitar o acesso.

    Os corredores, escadas e conjunto de rampas, mais que aparatos de circulação, são espaços onde os moradores se vêem, se encontram, se conhecem. Os três tipos de apartamentos (de 30 m2 a 45 m2) não foram setorizados no pavimento, muito menos em blocos diferentes. "Eles estão misturados em um mesmo piso para que não haja nenhum tipo de diferenciação entre os moradores", ressalta Juliana Corradini.


      Reportagem  
    BID LIBERA RECURSOS PARA AÇÃO CENTRO

    Da Redação


    No último dia 2 de junho o contrato do empréstimo de US$ 100,4 milhões destinado ao programa Ação Centro, que prevê mais de 130 ações voltadas para o Centro paulistano e concedido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi assinado pela prefeita Marta Suplicy e pelo representante do BID no Brasil, Waldemar Wirsing.

    A cerimônia de assinatura ocorreu na noite do dia 2, no Palácio do Anhangabaú (sede da Prefeitura). No mesmo dia, a prefeita recebeu os representantes do BID, os secretários municipais e os representantes da sociedade civil para um almoço em seu gabinete. Em ambos os eventos, a Associação Viva o Centro foi representada pelo presidente de sua Diretoria Executiva, Marco Antonio Ramos de Almeida.

    O programa Ação Centro é coordenado pela Emurb (Empresa Municipal de Urbanização) e envolve 16 secretarias municipais e cinco empresas públicas. As iniciativas – entre projetos sociais e intervenções urbanas – têm o objetivo de revitalizar a região central da cidade, devolvendo-lhe sua potencialidade. As ações englobam a recuperação de áreas degradadas, a melhoria da qualidade ambiental, o fomento da pluralidade econômica, a inclusão social e a reversão do esvaziamento residencial do Centro.

    Em um prazo de cinco anos, o total de investimentos será de US$ 168 milhões, dos quais US$ 67,6 milhões correspondem à contrapartida da Prefeitura. Entre 2001 e 2003, o governo municipal já investiu R$ 92 milhões na região e, com a liberação do empréstimo, obras de maior porte poderão ser iniciadas, entre elas, a solução das enchentes no Vale do Anhangabaú com a construção de dois piscinões.

    Dentre as ações já iniciadas encontram-se a implementação do modelo de zeladoria especial em manutenção e remoção do lixo, a revitalização da Praça do Patriarca e a introdução de programas sociais como o Morar no Centro. Outros passos também foram dados com a restauração do Mercado Municipal – que deve ficar pronta em setembro –, a revitalização do corredor cultural – área que compreende a Rua Xavier de Toledo, a Praça Dom José Gaspar e a Praça Ramos – que ganhou novo piso, mobiliário e iluminação. O Parque Dom Pedro está sendo reurbanizado para que sua área verde seja aumentada em mais 135 mil metros quadrados. Na esfera social, o projeto inaugurou a Oficina Boracea para as pessoas que vivem nas ruas.

    O primeiro projeto a receber os recursos do BID será o Morar no Centro, para finalização do conjunto habitacional do Parque do Gato. Outras obras estão previstas ainda este ano: reforma e recuperação paisagística da Praça da Sé, criação do Museu da Cidade no Palácio das Indústrias e melhorias na iluminação pública. O restante dos recursos será liberado em forma de reembolso à medida que as obras forem sendo feitas. Caso haja interrupção do programa, o financiamento será estancado.

    Diversas ações já estão programadas a partir do próximo ano, como por exemplo a restauração de monumentos históricos como o Edifício Martinelli, a Casa da Marquesa de Santos, o Beco do Pinto e a Casa Número 1. Lugares públicos também serão revitalizados, praças como a República, Roosevelt e o Largo do Arouche terão o paisagismo valorizado, assim como o piso, a iluminação e o mobiliário. Para garantir que os investimentos feitos sejam preservados, já foram criadas pela Subprefeitura da Sé, dentro do programa Ação Centro, equipes de manutenção especial para efetuar reparos necessários nos lugares públicos com eficiência e rapidez.

    Na área da qualidade ambiental, além dos dois piscinões para o Vale do Anhangabaú, outras obras para controlar as inundações na região serão feitas como o reforço dos trechos do túnel do córrego Morenguinho e a reforma das galerias do córrego Saracura, sob a Av. Nove de Julho. Ainda nesta esfera, estão previstas reformas em calçamentos e implantação de mobiliário urbano para aumentar as áreas permeáveis do Centro. Em 2005 serão iniciadas as obras de restauração e modernização interior da Biblioteca Mário de Andrade. O edifício será integrado com a praça Dom José Gaspar – revitalizada este ano.

    Para assegurar a continuidade da requalificação da região, haverá monitoramento do próprio BID e fiscalização pela Coordenação Executiva do Programa Ação Centro que é formado por representantes da sociedade civil, entre elas, a Associação VIVA O CENTRO e o poder público.

    A Coordenação Executiva do Programa Ação Centro é presidida por Nadia Someck, presidente da Emurb. O programa também será fiscalizado pelo Fórum de Desenvolvimento Social e Econômico do Centro, cuja posse ocorreu na solenidade de assinatura do acordo. O objetivo do Fórum, além da fiscalizar o programa, é a busca de soluções compartilhadas com a sociedade civil.

    Para o pagamento do empréstimo há uma carência de seis anos e meio e a Prefeitura terá 25 anos para pagar. As taxas de juros são de cerca de 2,5% ao ano.


      Artigo  
    DOENÇAS URBANAS OU CIDADES SAUDÁVEIS?

    PAULO FERNANDO CAPUCCI*


    Há hoje uma questão freqüentemente posta em debate: Há doenças urbanas? Nossa saúde está mais em risco porque vivemos em cidades?

    De modo genérico, diria que não! Categoricamente, vivemos mais tempo hoje em um Brasil onde cerca de 80% das pessoas moram em cidades do que vivíamos no Brasil rural da primeira metade do século passado. Vejamos alguns números. Em 1930, por exemplo, o peso proporcional das causas de morte – um bom jeito de medir as doenças – em todo o país dava o primeiro lugar (45,5%) às doenças infecto-parasitárias. Além disso, a expectativa média de vida não passava de 40 anos. Hoje, ao nascer, esperamos viver em média 70 anos, com risco maior de morte causada por doenças cardiovasculares, cânceres e por causas externas (27,2%, 13,2% e 12,9% respectivamente).

    Bem, esses números mostram que vivemos mais. E isso ocorre, muito provavelmente, porque vivemos gregariamente em cidades, espaços criados pelo ser humano para trocar possibilidades e oportunidades de satisfação das coisas que os humanos precisam. Porém, cabe perguntar: Vivemos melhor? A resposta a essa questão vai depender da inserção social de quem responde, pois, se de um lado aumentamos muito a oferta de bens de consumo que facilitam a vida das pessoas, de outro o acesso a esses bens é desigual e está muito aquém da demanda potencial da população em geral.

    Se formos adiante pelo caminho da análise das causas de morte, veremos que o risco de morrer, para um menino de 16 anos, morador de um bairro pobre e distante do Centro e do eixo dos bairros ricos, em uma cidade populosa como São Paulo, é diferente de outro que vive em melhores condições de vida e saúde na mesma cidade. O primeiro poderá acabar compondo como mais uma morte nas estatísticas das cidades grandes porque, antes de completar 25 anos, será maior o risco de ser assassinado, atropelado ou de cair de um balancim enquanto limpa janelas de arranha-céus no Centro da cidade. Poderá morrer jovem, apesar de morar em uma megalópole plena de possibilidades para a vida se prolongar com saúde. O segundo, poderá, muito mais facilmente, usufruir as condições que tendem a afastá-lo das "causas externas" que matam jovens adultos nas grandes cidades, alcançando um nível educacional e desenvolvendo um estilo de vida que pode protegê-lo mais de um ataque cardíaco, e prevenir o aparecimento de tumores. É provável que chegue à velhice com saúde, mesmo morando em uma megalópole.

    Ou seja, as doenças – e a morte – se distribuem de forma desigual na cidade, mas não exatamente porque vivemos em cidades. Ou porque elas sejam grandes. Nesse sentido, não podemos nem mesmo dizer que há uma doença urbana! O que arriscaria dizer é que há cidades doentes, organizadas desigualmente, onde a produção, a alocação e a distribuição de bens podem gerar mais saúde e bem-estar, ou então gerar mais e novas doenças. Se você tem trabalho e renda para sustentar a vida, sua e de seus familiares, mora em um local salubre, vai de um lugar ao outro em condições dignas de segurança e conforto, pode compartilhar momentos de lazer com outros moradores em seu bairro, é provável que viva muito e com saúde em uma cidade, seja ela grande ou pequena. Portanto, é a forma de organização da vida coletiva que causará mais ou menos saúde, que promoverá uma cidade saudável ou doente. Mas uma coisa é certa: será sempre numa cidade, essa maravilhosa invenção de homens e mulheres que sabem que precisam viver em grupos, mas que ainda tentam aprender a compartilhar os benefícios da urbe, especialmente vida longa e saudável.

    * Educador em Saúde Pública, mestre em Administração Pública pela Getúlio Vargas e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. Pesquisador do Centro de Estudos, Pesquisa e Documentação em Cidades Saudáveis – CEPEDOC Cidades Saudáveis.


      Artigo  
    UM BEM FINITO E ECONÔMICO

    JOSÉ ORLANDO PALUDETTO SILVA E MAURO GOMES DOS SANTOS FILHO*


    A escassez de água tem sido um dos temas ambientais mais discutidos pela comunidade científica e civil e no âmbito governamental. O crescimento econômico gera o aumento da demanda por este recurso natural e, conseqüentemente, o aumento da quantidade de esgotos lançados nos corpos d’água. A combinação desses dois fatores, associada à utilização indiscriminada da água para usos menos nobres, propiciou, em um curto espaço de tempo, um cenário de escassez ou ainda de pressão sobre recursos hídricos em proporções não imaginadas por nossos planejadores do passado.

    Antes, a escassez de água se limitava às regiões áridas e semi-áridas do planeta. Atualmente o fato ocorre nas mais diversas áreas, e principalmente nos grandes centros urbanos onde a demanda de água é, por vezes, superior à disponibilidade hídrica local. Para se ter um exemplo, na Figura são comparadas as disponibilidades hídricas nas bacias hidrográficas brasileiras e suas respectivas demandas de água.

    O que se nota é a grande a concentração da demanda nas bacias das regiões Sul e Sudeste, em detrimento de uma maior disponibilidade hídrica no Centro-Oeste e Norte. Isso se explica pelo intenso crescimento econômico e evolução da ocupação humana ocorridos no Sul e Sudeste do País, o que induziu, no decorrer das últimas décadas, à exploração excessiva dos mananciais de abastecimento de água.

    A situação se agrava nos grandes centros urbanos, onde, além da escassez de água, outros fenômenos – como a ocupação desordenada de fundos de vale e das margens de represas ou ainda os processos de poluição indireta decorrentes do carreamento de sedimentos e contaminantes pela drenagem urbana (cargas difusas urbanas) que são resultantes da excessiva impermeabilização do solo – colaboram para um quadro de maior complexidade.

    Na Região Metropolitana de São Paulo, a bacia hidrográfica do Alto Tietê, que deveria ser a principal fonte de recursos hídricos, apresenta uma disponibilidade hídrica natural de apenas 179,3 m3/hab./ano, quando o limite considerado crítico é de 500 m3/hab./ano. Ressalte-se que a recomendação da Organização Mundial de Saúde é de 1.500 m3/hab./ano.

    A escassez dos recursos hídricos é, nesse caso, compensada pela transposição de águas de outras bacias, o que desencadeia outros agravantes, como o aumento da vazão de esgotos e a necessidade de ampliação dos sistemas de coleta e tratamento, e também o aumento dos impactos nos corpos receptores que recebem as cargas remanescentes desses sistemas. Além das agressões ambientais, a transposição gera conflitos entre os usuários das bacias doadoras e receptoras motivados pelo direito de uso das águas.

    De acordo com a lei federal 9.433/97, é função precípua dos comitês de bacia arbitrar, em primeira instância administrativa, os conflitos relacionados aos recursos hídricos. Neste caso a utilização de instrumentos eficazes de gestão é indispensável, de forma a garantir que as ações tomadas sejam revertidas em benefícios dos usuários.

    Os instrumentos de gestão devem ser baseados na definição constitucional do conceito da água como um bem público, finito e econômico. Modelos de outorga e cobrança pelo uso dos recursos hídricos, que já vêm sendo implantados em diversa bacias brasileiras, têm demonstrado grande eficiência como ferramentas de gestão.

    A outorga para o uso dos recursos hídricos propicia um controle em longo prazo dos usos que se desejam na bacia, garantindo que a oferta de água seja sempre compatível com o desenvolvimento local, sem abrir mão das garantias de suporte ambiental dos corpos d’água. A cobrança pelo uso da água é talvez a ferramenta de gestão mais eficaz no que diz respeito à gestão da demanda. É com a cobrança que se atribui o conceito de valor econômico à água, gerando recursos financeiros destinados às melhorias necessárias nas bacias, disseminando, direta ou indiretamente, os conceitos de conservação de água aos usuários.

    Conservação da água é sinônimo de uso eficiente, ou seja, se a água é um bem finito, dependente do ciclo hidrológico em termos quantitativos e da atividade humana, do ponto de vista qualitativo, as ações que estimulam sua conservação serão sempre a base para o estabelecimento de diretrizes para o gerenciamento dos recursos hídricos de maneira eficaz e ambientalmente correta.

    Seguindo a linha de conservação, muito se tem feito para minimizar o uso da água, ou, mais recentemente, o reuso de águas tem conquistado o seu espaço nos foros de gestão de recursos hídricos. A técnica de reuso, que é o aproveitamento de águas previamente utilizadas, uma ou mais vezes, em alguma atividade humana, vem sendo intensamente pesquisada nos centros acadêmicos, e já encontra um vasto leque de aplicações, principalmente na área industrial, associando o conceito de conservação ao de responsabilidade ambiental.

    A gestão dos recursos hídricos deve, portanto, ser feita de forma sistemática, sob os aspectos de quantidade, qualidade e conservação da água, para evitar ou reduzir conflitos e permitir sua exploração responsável.

    *José Orlando Paludetto Silva é engenheiro químico, mestre e doutorando em engenharia hidráulica e sanitária pela Escola Politécnica da USP. Consultor da Engecorps e sócio-diretor da GEA Consultoria e Projetos Ltda. Mauro Gomes dos Santos Filho é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP, sócio-diretor da Engecorps.




      Reportagem  
    CIDADE UNIVERSAL

    Engana-se quem pensa que a acessibilidade universal em áreas públicas e edifícios interessa apenas aos portadores de necessidades especiais. A adequação dos espaços à circulação deles aumenta a segurança de todos os pedestres – inclusive de idosos e pessoas que circulam com carrinhos de bebê.
    Fabio de Paula


    As cidades brasileiras não costumam ser bons exemplos de segurança e facilidade de circulação em espaços urbanos, transportes e edificações por pessoas portadores de deficiências ou com mobilidade reduzida. Os passeios e praças públicas do Centro de São Paulo, porém, já apresentam algumas características que garantem a acessibilidade universal – termo técnico que define o acesso completo e de boa qualidade a todos os cidadãos, para que possam exercer com plenitude seu direito de ir e vir.

    Regida por regras estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a acessibilidade universal pode ser identificada em corrimãos, pisos especiais e rampas de acesso para idosos e pessoas em cadeiras de rodas. Equipamentos como estes contribuem para aumentar a segurança de todos os pedestres. Em calçadas niveladas e sem buracos, por exemplo, o risco de acidentes é menor. No Centro de São Paulo, a qualidade da circulação é melhor do que na maioria dos bairros de São Paulo. Nos edifícios, porém, ainda há muito a ser feito.

    O jornalista Renato Laurenti considera as calçadas do Centro "as mais bem adaptadas aos deficientes e pedestres". Em uma caminhada feita entre as Praças da República e da Sé (leia o box da página 36), porém, ele constatou que, além dos buracos nos pisos, alguns defeitos atrapalham a vida de quem circula. Renato se locomove em cadeira de rodas e trabalha como repórter para a Rede Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação, a Rede Saci. Sua função é visitar locais públicos e avaliar as condições de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais, como deficientes físicos, visuais e auditivos.

    Para todos

    Mesmo quem não é portador de deficiências se beneficia com a acessibilidade universal. Para os deficientes, porém, ela representa a única possibilidade de circular com segurança pela cidade. Segundo o censo realizado em 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1,5 milhão de pessoas que vivem em São Paulo possui algum tipo de necessidade especial. Com o envelhecimento da população paulistana, o número de indivíduos cuja locomoção é dificultada pela falta de acessibilidade aumenta para quase 3 milhões. Pela região central do município, onde mais de 2 milhões de pessoas caminham diariamente, a acessibilidade tem sido incluída nos projetos governamentais relativos ao espaço público. Dentro do acordo assinado em junho com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) pela Prefeitura de São Paulo (veja matéria na página 26), entre as cerca de 130 iniciativas do Programa Ação Centro, está o Programa Andar e Cuidar do Centro, que determina ações específicas para o espaço público da região, como a adequação às normas técnicas de acessibilidade. O programa considera, entre outros aspectos, que espaços públicos acessíveis estimulam o uso do transporte coletivo.

    Um exemplo de projeto de recuperação do espaço com adequação ao deficiente é o da Avenida Nove de Julho, que já foi concluído entre a Praça da Bandeira, no Centro, e a Avenida São Gabriel, no Itaim Bibi, e deve chegar até o final da Avenida Santo Amaro. Os ônibus, com porta à esquerda e piso baixo, estão circulando junto ao canteiro central, onde foram plantadas árvores. A altura das plataformas nos pontos de parada caiu de 92 para 28 centímetros. O acesso foi facilitado para deficientes e idosos, que contam com piso de ladrilho hidráulico "podotátil" – que permite identificar a sinalização de solo pelo contato dos pés – em toda a avenida. Há reforço na sinalização e iluminação dos passeios e travessias, com semáforos em cruzamentos e faixas de pedestres – dois metros mais largas que as antigas. As novas travessias foram alinhadas e as guias rebaixadas.

    "Desenho universal"

    Em São Paulo, os espaços públicos não são os únicos em que os deficientes encontram obstáculos para circular. A maioria dos edifícios, por exemplo, não dispõe de equipamentos desenhados para atender às normas de acessibilidade. O termo que os arquitetos e os designers usam para definir as características desses equipamentos é "desenho universal".

    Esse conceito já faz parte de alguns projetos de novos edifícios, como o do arquiteto Paulo Mendes da Rocha para o edifício do Serviço Social do Comércio (Sesc), que está sendo reciclado na Rua 24 de Maio, no Centro. Para Renato Laurenti, que considera os edifícios do Sesc um exemplo de boa acessibilidade, "essa preocupação é decorrência da grande quantidade de idosos que usam o serviço".

    Um levantamento feito pela Rede Saci indica que a inclusão das normas de acessibilidade em projetos de arquitetura eleva o custo da construção de novos edifícios em 0,6% do valor total. Para reformas, esse índice é ligeiramente superior. Em edifícios tombados, as normas de acessibilidade devem seguir a Instrução Normativa nº 1, lançada em novembro de 2003 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura (MinC).

    O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP), também no Centro, oferece todas as condições de acessibilidade sugeridas pela instrução do Iphan. Rampas, acessos especiais e corrimãos colaboram para que deficientes e idosos circulem com segurança pelo espaço cultural. Mas a maioria dos edifícios do Centro, tombados ou não, ainda precisam de uma série de adaptações, como rampas e corrimãos. Os proprietários desses imóveis devem consultar a Prefeitura e realizar reformas para que todos possam circular livremente por eles.

    Entre a República e a Sé

    A equipe de reportagem encontrou Renato Laurenti, o Repórter Saci, na esquina das Avenidas São Luiz e Ipiranga, e propôs um passeio entre as Praças da República e Sé. No percurso de menos de um quilômetro – passando pela Avenida Ipiranga, Rua Barão de Itapetininga, Praça Ramos, Viaduto do Chá, Praça do Patriarca e Rua Direita –, ele constatou que as ruas do Centro são adaptadas ao deficiente, mas ainda apresentam defeitos:

    1. Calçamento: a calçada de ladrilho hidráulico da Avenida Ipiranga e os pisos recentemente reformados da Praça Ramos e Viaduto do Chá foram apontados como os que estão em melhores condições de uso. Já os calçadões das ruas Barão de Itapetininga e Direita apresentam buracos, desníveis e trechos inteiros sem calçamento.

    2. Semáforos: os semáforos para pedestres não dispõem de avisos sonoros, impossibilitando a travessia segura de deficientes visuais.

    3. Rampas: a declividade das rampas de acesso ao meio-fio é sempre superior à recomendada. Isso aumenta o risco de tombo entre os pedestres – especialmente de idosos, deficientes e pessoas com carrinho de bebê. Praticamente nenhuma loja ou edifício possui rampas de acesso, exceto as agências bancárias.

    4. Equipamentos urbanos: postes e telefones públicos, além de bocas-de-lobo, não são circundados por pisos podotáteis ou requadros de concreto, aumentando o risco de acidentes, especialmente para os deficientes visuais. A Rede Saci centraliza as ações de órgãos públicos, movimentos e entidades voltados para os portadores de deficiência e é mantida pela Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e Atividades Especiais da Universidade de São Paulo (Cecae/USP), pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Amankay e pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NCE/UFRJ). O trabalho da entidade pode ser conhecido no site www.saci.org.br.

    Aprenda a cuidar de sua calçada

    Proprietários de imóveis no município de São Paulo podem obter explicações sobre como cuidar das calçadas no Guia para Reconstruir as Calçadas do Centro e dos Bairros Centrais, lançado em maio de 2001 pela Prefeitura. O Guia enumera os direitos e os deveres dos cidadãos sobre o espaço público. Além disso, oferece explicações detalhadas sobre como executar diferentes tipos de pisos, segundo a Lei 10.508/88 – que determina a aplicação das normas técnicas de acessibilidade no município.

    O Guia é gratuito e pode ser obtido nas Subprefeituras da Sé e República. Os interessados também podem solicitá-lo pelo tel. (11) 228-7766, r. 2722, ou pelo e-mail: passeioarse@prefeitura.sp.gov.br.


      Reportagem  
    VIDA NO ALBERGUE

    O Centro de São Paulo é um microcosmo da sociedade brasileira, e conseqüentemente suas ruas também refletem os problemas sociais que ainda atingem parcela da população. Nesta primeira reportagem de uma série, a revista urbs aborda as questões relativas à população adulta que vive em situação de rua.

    Gustavo Fioratti


    Nota da redação
    Esta reportagem foi feita durante os meses de junho e julho, antes dos trágicos acontecimentos que abalaram São Paulo em agosto. O problema das pessoas em situação de rua é uma das maiores preocupações da Associação VIVA O CENTRO e nesta matéria pretendemos mostrar como são atendidos e as opções oferecidas a quem se encontra nestas condições no Centro de São Paulo. A discussão dos problemas sociais no Centro continua na próxima edição.


    Nesta série de matérias que se inicia nesta edição, a revista urbs faz um mapeamento dos principais problemas sociais da metrópole paulistana, que se refletem diretamente sobre o Centro de São Paulo, e das medidas que vêm sendo tomadas pelos órgãos competentes para resolvê-los.

    De maneira geral, o Centro ainda reúne proporcionalmente a maior quantidade de pessoas em situação de rua, sejam elas crianças, adultos ou idosos. Mas mesmo dentro da mesma faixa etária, os problemas não são comuns a todos: as motivações que levam cada um às ruas são diferentes. Alguns adultos estão nas ruas por falta de oportunidades de trabalho, outros perderam seus vínculos com a família devido a problemas mentais, ou são vítimas do alcoolismo e das drogas. Algumas crianças ainda convivem com a família, e vêm ao Centro para trabalhar – vendendo miudezas ou pedindo esmolas. Outras perderam o contato, pois saíram de casa motivadas pela violência doméstica.

    Nesta primeira reportagem da série, abordamos as questões relativas às pessoas em situação de rua, que são atendidas pelos albergues cadastrados pela Prefeitura. Nas próximas edições, o leitor terá uma visão das questões que envolvem menores, idosos e pessoas com problemas mentais.

    Essas pessoas não são consideradas pela Prefeitura como inválidos, pedintes, mendigos, mas como uma população que, por diversos motivos, apenas não consegue, sem um incentivo, se integrar novamente à "normalidade" dos cidadãos com renda suficiente para a própria autonomia.

    Um dos motivos que levam os adultos às ruas é o desemprego, que cresceu na cidade, principalmente a partir de 1997. Naquela época, 13,9% da PEA (população economicamente ativa) estava desempregada. No início de 2004, o índice de desemprego medido pelo Dieese ultrapassou os 20%. A conjuntura ameaça desencadear novos problemas sociais, o que significa mais fome, mais violência, mais exclusão. Em relação aos desabrigados, no fim dos anos 90, contava-se pouco mais de 8 mil indivíduos em situação de rua. Hoje, esse número ultrapassa 10 mil. O número é resultado de uma das pesquisas feitas pela Prefeitura, em parceria com a FIPE-USP. A pesquisa também revelou que muitas pessoas estão envelhecendo nas ruas e que grande parte delas tem um certo nível de escolaridade e chegou ao Centro em busca de oportunidades de trabalho informal, especialmente na região do Mercado Municipal.

    Parcerias estratégicas

    A Secretaria de Ação Social (SAS) da Prefeitura de São Paulo tem atuado sobre tais problemas e também tem feito pesquisas quantitativas e qualitativas para ajudar a definir melhor os problemas e as pessoas afetadas. As ações são desenvolvidas sob a coordenação da Secretaria, mas implementadas por cerca de 550 ONGs cadastradas. A Prefeitura procura uniformizar e fiscalizar as ações dos grupos de apoio, dentro de uma política que prevê a reinserção social e o resgate da cidadania. É por isso que a Prefeitura condena, por exemplo, os grupos que levam ajuda esporádica a moradores de rua. "Ao oferecer comida para pessoas que dormem na rua, essas organizações estão ajudando a fixá-las no local. Nosso trabalho prevê não só o suprimento das necessidades básicas, mas todo um conjunto de ações para devolver a auto-estima e ajudar a pessoa a voltar para a família, se for o caso, arrumar um emprego ou uma nova atividade produtiva e assim por diante. Assistência paternalista alivia mais a culpa de quem dá do que o problema como um todo", explica Viviane Patrícia Delgado, assistente técnica da SAS.

    Desde o trabalho de um pequeno centro que acolhe pós-operados em situação de rua, realizado pela casa de Transição Batuíra, no Centro, até o volumoso trabalho de reinserção social de menores, feito pela Fundação Projeto Travessia, também no Centro, pequenas e grandes organizações podem ajudar. E a proposta da Prefeitura é que todas as instituições beneficentes procurem unir esforços com as ONGs já cadastradas.

    As ações da SAS, hoje, funcionam da seguinte forma: a secretaria estipula suas regras, focando determinado assunto (trabalho infantil, pessoas em situação de rua, desemprego) e delega o serviço, com repasse de verbas, às organizações. "Nossas parcerias têm dado muito certo, pois essas entidades podem se especializar em determinado trabalho, enquanto nós cuidamos do dinheiro, da legislação, das concorrências e da fiscalização. Quando queremos oferecer um serviço novo, dizemos qual é o caráter desse serviço, as ONGs apresentam seus trabalhos, nós promovemos uma audiência pública. E depois remuneramos. Existe uma legislação de parcerias, que legitima tudo isso", explica a coordenadora do programa Acolher (para desabrigados), da SAS, Adelina Baroni.

    Albergue 24 horas

    Para atender à população em situação de rua, as parcerias entre a Secretaria e as entidades seguem duas linhas principais: suprir a população carente com o mínimo de recursos (cama, higiene e comida) e fazer um acompanhamento assistencial e educativo. Abrigar e alimentar não é suficiente. A SAS já se deu conta de que só aliviar a fome não basta. É preciso um acompanhamento educacional, por exemplo. O serviço assistencial evoluiu justamente ao enxergar alguns erros cometidos nos anos 90. Os albergues já não obrigam seus usuários a deixar suas instalações ao amanhecer, como acontecia antes. Os horários rígidos de entrada e saída existiam com a desculpa de incentivar a pessoa em situação de rua a procurar emprego. Mas eram cruéis ao desconsiderar a auto-estima dos usuários e até mesmo sua saúde.

    Hoje, os albergados podem passar o dia dentro dos abrigos, com a condição de que exerçam alguma atividade ou função, seja junto às escalas de funcionários do próprio abrigo, seja na participação de palestras, oficinas e cursos. Além disso, ninguém mais come em marmitas de alumínio, com colheres de plástico. "A recuperação da auto-estima deles é muito importante para essa inclusão social. Quando uma pessoa em situação de rua chega a um albergue, não podemos apenas alimentá-la. Isso acaba em assistencialismo. Nosso trabalho, hoje, é mais consistente. Essa pessoa tem de dormir em lençóis limpos. Tem de comer carne. Tem de sentir que é uma pessoa normal, como todas as outras", diz Baroni.

    Reinserção social

    Por adotar com certo rigor este pensamento, o Projeto Oficina Boracea atingiu no exterior o status de albergue modelo. Localizado na Barra Funda, inova por oferecer, dentro de suas instalações, um programa com oficinas de arte e música, grupos de discussão, palestras e outros auxílios que facilitam a reinserção social de pessoas em situação de rua. "Nós também fazemos reuniões para discutir os problemas do albergue. Essas pessoas têm de sentir que a opinião delas, no próprio espaço onde elas vivem, é importante", diz a diretora do albergue, Maria Magdalena Alves. "Os serviços para moradores de rua têm melhorado muito. É graças à ajuda deles que estou conseguindo uma esperança de vida melhor", comenta o paranaense Luís Silvio da Silva, catador e vendedor de papéis que migrou para São Paulo há sete anos e teve de dormir na rua por muito tempo, principalmente por não se adaptar ao antigo sistema de albergues. "As antigas regras espantavam a gente. Tinha horário para tudo. E não tinha lugar para guardar os carrinhos", conta ele.

    Luís é um exemplo que deu certo: aos 33 anos, narra histórias da época em que vivia nas ruas, dormindo embaixo de sua carroça, se barbeando em fontes, "para, pelo menos, manter uma boa imagem", conte ele. Ao ser acolhido, conseguiu se reorganizar. A força de vontade ressurgiu, e aos poucos conseguiu juntar dinheiro com a venda de papéis usados que recolhe na rua. O suficiente para comprar uma carroça melhor e começar uma poupança. Luís completa seis meses de Boracea. Segundo as atuais regras da Secretaria, ele teria de deixar seu abrigo, pois só são permitidas estadias de um semestre. Depois deste período, o albergado tem de deixar o abrigo. Mas, no caso de Luís, a direção resolveu apostar. "Se ele voltar à rua poderá perder tudo o que conseguiu até hoje. Então nós consentimos que ele permaneça mais um tempo", diz Magdalena.

    A exemplo de Luís, 30% das pessoas em situação de rua, com ajuda dos albergues, conseguem retomar sua autonomia. A maioria, no entanto, demora mais de seis meses para conseguir essa independência, sendo que 7% permanece na rua, com dificuldade de reinserção social. Geralmente, nesse último grupo entram os casos de pessoas com problemas com álcool e drogas, velhice e saúde mental. "Os idosos e os esquizofrênicos não conseguem emprego, e só podem sair dos albergues com a ajuda de familiares ou amigos. Já em relação aos viciados e alcoólatras, não temos um estudo mais profundo: não sabemos se a situação deles leva ao consumo dessas substâncias, ou se é o contrário – se o vício é que os leva à situação de rua", avalia Baroni.

    Ainda existem os casos de quem não quer ir para os Albergues, para não se sujeitar às regras impostas pela Secretaria. Beber dentro dos albergues, por exemplo, é proibido. Para convencer a pessoa em situação de rua a procurar a ajuda das instituições, existe um serviço exclusivo, o CAP (Central de Atendimento Permanente), que percorre a cidade tentando convencer, indivíduo por indivíduo, a aceitar ajuda. Durante a noite, especialmente na época de frio, esse serviço se faz ainda mais presente. São 50 assistentes, que abordam as pessoas na rua e propõe o deslocamento para o albergue. Mas a vontade individual prevalece: quem se recusa a deixar a rua, tem o direito de permanecer.

    Apesar do cuidado da Secretaria de Assistência Social em preservar os direitos dos moradores de rua – com base no direito de ir e vir, existem leis que permitem à polícia prender por um período de quinze dias a três meses aqueles que se enquadrem em "contravenções penais" como vadiagem, embriaguez e mendicância. Mesmo sendo obsoleta, essas regras, introduzidas pela Constituição de 1941, da era Vargas, ainda são empregadas: entre 1997 e 2002, 1.006 pessoas foram presas por vadiagem.

    Qualidade x quantidade

    No albergue da Comunidade Metodista, no viaduto Pedroso, que passa sobre a 23 de Maio, o sistema de palestras, os cursos de alfabetização e as discussões coletivas também têm gerado bons resultados, apesar de haver uma certa insatisfação da própria direção do albergue diante das restrições impostas pelo número de usuários. "Quanto mais gente recebemos, menos qualidade podemos oferecer", diz Samuel Duarte de Souza, coordenador pastoral do albergue. "Nosso ideal é trabalhar com um grupo mais reduzido, podendo oferecer uma educação específica para ele, com um programa de qualidade. Quando aumentamos o número de leitos, perdemos espaço para oficinas e cursos. Acabamos com um serviço superficial, que dá o peixe, mas não ensina a pescar", argumenta.

    Infelizmente, neste ponto há um entrave, que o próprio pastor da igreja Metodista reconhece: não há como negar cama e comida para alguém que bate à porta de um albergue, especialmente durante o inverno. Por isso, muitos deles oferecem refeições extras e o pernoite, além das vagas normais. De junho a setembro, os albergues conseguem muitas vezes abrigar mais de 20% de suas capacidades, com leitos extras e instalações improvisadas. Isso ocorre porque existem cerca de 7.336 vagas em albergues – o que representa uma defasagem de cerca de 3 mil lugares. E, como revela Samuel, é inevitável que a qualidade do serviço caia, também, nessa época do ano. Para Baroni, "Os albergues têm obrigação de trabalhar em suas capacidades máximas, especialmente no inverno. Em primeiro lugar, temos de pensar na saúde desses usuários. Não podemos deixar ninguém morrer de frio". Segundo a coordenadora, as entidades vinculadas à Prefeitura e ao Governo do Estado devem atender a toda a demanda, durante o inverno.

    O resultado realmente não é muito feliz. Com exceção do Boracea, que adequou suas instalações para situações de emergência, mantendo 400 leitos permanentes e 250 extras, os albergues acabam adaptando suas instalações de forma precária: as salas de tevê e até mesmo os corredores viram quartos. Aumentam o número de roubos e de brigas. Problemas relacionados ao uso de álcool, porém, não acontecem, pois as direções dos abrigos são rígidas: não é permitida a entrada de pessoas embriagadas e drogadas. Para interessados em oferecer ajuda, a melhor sugestão é procurar por uma das instituições vinculadas à Prefeitura. Muitos abrigos aceitam doações de agasalhos e alimentos. Vale até um bate-papo com os albergados, uma palestra sobre saúde, higiene, ou mesmo uma discussão sobre literatura. Para entrar em contato com as instituições, veja os endereços e telefones na tabela abaixo. Outra forma de auxílio à pessoa em situação de rua, e a mais simples delas, é entrar em contato com o CAP para indicar alguém que esteja precisando de ajuda. Basta ligar para os telefones 3392-6739 ou 3392-6571.


      Idéias  
    A busca da sustentabilidade no edifício

    Trabalho desenvolvido por alunos da FAUUSP propõe um museu de arquitetura que seja o mais integrado possível ao meio.

    Texto e croquis: Marcio Macedo Porto*


    A busca por tornar o edifício mais e mais integrado ao meio em que vivemos, a busca pela sustentabilidade, passou a ser um dos objetivos maiores, encontrado no trabalho de arquitetos de ponta. É como se um novo ideal a ser seguido aparecesse nas mentes inquietas. Esse novo ideal vem para preencher o espaço cedido pelo movimento moderno.

    O campo da pesquisa científica, disponível na universidade, é onde o aprofundamento do conhecimento acerca do tema pode ser obtido. Por meio de exercícios de projeto e da veiculação dos resultados na mídia, haverá a conscientização da viabilidade da utilização de técnicas que possibilitam a redução do uso de energia, da possível redução do uso da água, do aproveitamento das águas da chuva, da utilização de materiais recicláveis etc.

    Da universidade, o conhecimento chega a profissionais capazes de utilizá-lo em seus escritórios, como Ken Yeang, Norman, Foster, Richard Rogers, Sigeru Ban, e entre nós João Filgueiras Lima, Sidonio Porto, entre outros.

    É notável a modificação do aspecto formal dos edifícios quando componentes tecnológicos que proporcionam sustentabilidade são incorporados ao projeto. Há cerca de dez anos a arquitetura Pós-Moderna saiu de cena, dando lugar às extravagâncias de Frank O'Gery, notória no museu Guggenheim de Bilbao por um lado, e à forma vinculada à técnica, na busca da sustentabilidade, presente nos projetos de Renzo Piano, como o Centro Cultural de Noumea, na Nova Caledônia.

    Os casos especiais e os excessos sempre terão lugar, mas a tendência é de que projetos dessa natureza sejam sempre pontos, circundados por um entorno de edifícios inteligentes, automatizados, eficientes e auto-reguladores.

    Mas não somente de aparatos tecnológicos se faz o edifício sustentável. A aplicação dos conhecimentos básicos de arquitetura é fundamental para a total eficiência da edificação. A correta implantação do volume construído, de forma a adequá-lo ao percurso do Sol, o correto dimensionamento das aberturas em relação aos ventos predominantes, a coerente implantação da obra na topografia do terreno no sentido de equalizar adequadamente os níveis, o uso da vegetação local, criando o correto micro-clima etc., tem de estar na raiz dos projetos. Na realidade, a busca pela sustentabilidade sempre foi uma meta arquitetônica. Hoje, porém, contamos com equipamentos capazes de proporcionar a solução de problemas como obtenção de energia, contornar a escassez de recursos hídricos, bem como usar materiais menos nocivos ao meio. É preciso saber utilizar tais inovações e difundir seu uso.

    Tomaremos o trabalho elaborado no segundo semestre de 2003, para a disciplina de pós-graduação da FAUUSP, AUH 5849 – Teoria e Prática da Arquitetura, ministrada pelos professores Paulo Bruna, Mônica Junqueira e Lucio Gomes Machado, como um exemplo de uma das muitas maneiras de abordagem do tema "A Busca da Sustentabilidade no Edifício".

    O edital solicitava aos alunos que projetassem um museu de arquitetura no quarteirão do Instituto de Arquitetos do Brasil, na região central de São Paulo, mais precisamente na esquina das Ruas Bento Freitas e General Jardim (B5). Da quadra existente, poderiam ser abstraídas todas as edificações, mas deveriam necessariamente permanecer os edifícios sede do IAB e da Aliança Francesa.

    O projeto foi pensado de forma a obedecer a um complexo programa que abrangia desde um conjunto de auditórios, passando pelas salas de exposições temporárias e permanentes, até um prédio de escritórios para locação.

    Todo o programa foi atendido de forma a tornar a execução do museu viável sob o aspecto construtivo e funcional. Sua volumetria apresenta-se muito adequada dentro do tecido urbano. Todos os requisitos primordiais que um museu deve contemplar foram atingidos.

    Mas o projeto vai além de tais pressupostos. No que tange ao aspecto da conservação de energia, a cobertura do conjunto foi elaborada de forma a produzi-la. Composta de células fotovoltaicas, sobre uma extensão de mais de 7 mil m2, a cobertura do museu é capaz de gerar em torno de 1200 KWh/dia.

    A energia gerada, armazenada em uma sala de baterias, localizada no 1º subsolo do complexo, pode ser utilizada no abastecimento das atividades básicas de manutenção do museu.

    Dispostas em forma de shed, as placas fotovoltaicas, orientadas para Norte, recebem incidência solar quase direta, durante todo o dia. Dessa forma o aproveitamento de seu potencial gerador é de praticamente 100%. Ao mesmo tempo, sua conformação possibilita o sombreamento do telhado de vidro, através do qual a claridade zenital ilumina o interior das salas de exposições.

    Mas a luz solar somente penetrará após haver sofrido múltiplas reflexões, tanto na face posterior dos sheds, como no entre-forro, onde estão localizados defletores solares.

    Toda a iluminação natural interna ao museu, proveniente do sistema de cobertura, é ainda controlada por uma membrana, formada por um forro tipo grelha metálica, que garante aos interiores a qualidade luminosa desejada, uma vez que os raios ultravioletas foram filtrados por tal sistema. No que tange ao aspecto do conforto térmico, a incidência solar nas fachadas do edifício é atenuada por uma carenagem ou brise, que circunda os pisos superiores e que sombreia os inferiores. Ao ser justaposto às fachadas nos dois últimos níveis, esse elemento abriga os equipamentos de ar-condicionado nas faces Leste e Oeste e abriga a varanda de serviços na face Norte.

    Além disso, essa "segunda pele" representa um obstáculo às incidências solares, diretas às paredes do edifício, diminuindo seu aquecimento interno e por sua vez a demanda de climatização artificial. No nível térreo, essa função é reproduzida, não devido à justaposição da segunda pele, mas a sua projeção em forma de beiral.

    É importante ressaltar, que todos os componentes do projeto voltados ao propósito da sustentabilidade aparecem no desenho do edifício, arquitetonicamente integrados ao conjunto, jamais destoando ou caracterizando-se como um aplique high-tech sobre uma obra de arquitetura. Esse talvez seja um desafio tão grande, quanto o próprio desafio do desenvolvimento tecnológico pela sustentabilidade. As imagens mostram o projeto completo para o Museu de Arquitetura Sustentável.

    *Marcio Macedo Porto é mestrando pela FAU-USP, arquiteto coordenador do Escritório de Arquitetura Sidonio Porto Arquitetos Associados. Trabalho realizado sob a orientação do Prof. Miguel Alves Pereira. E-mail para contato: marcio.porto@sidonioporto.com.br


      Idéias  
    UM CLUSTER DE ENTRETENIMENTO E GASTRONOMIA

    O prédio de Oswaldo Bratke tem a beleza e a peculiaridade de seguir o desenho curvo da Rua Avanhandava, de maneira muito feliz do ponto de vista da inserção do objeto no contexto urbano. Em seu projeto, o arquiteto buscou introduzir elementos capazes de destacar a presença do edifício no local.

    Samuel Szpigel*


    São Paulo já integra a rede de cidades mundiais que concentrará, de modo cada vez mais intenso, as funções da economia global neste novo milênio. Como aconteceu com grandes metrópoles do mundo – Nova York, Paris, Tóquio – essa transformação passa pela revitalização de sua área central, onde está sua identidade histórica, sua marca e onde se localizará o epicentro dessa nova dinâmica.

    Equipamentos especiais para atender a uma clientela cosmopolita e internacional tenderão a se multiplicar na área. Os referenciais da memória coletiva, os novos estabelecimentos culturais, o padrão da hotelaria, a qualidade dos bares e restaurantes, das casas noturnas de entretenimento, dos centros de eventos serão o grande chamariz para atrair mais turistas e novos investimentos. Falta na área, contudo, um espaço de eventos multiuso diferenciado, com vocação para o showbiz. Espaço que teria, na Rua Avanhandava, o local ideal para se instalar.

    O projeto prevê a criação de um centro de lazer no edifício.

    Um pouco de história

    Na década de 1960, quando o Centro da Cidade ainda polarizava a cultura, o turismo e o lazer paulistanos, a Rua Avanhandava despontou como point privilegiado de gastronomia e entretenimento diferenciados.

    A alta concentração de estabelecimentos culturais e de interesse turístico no entorno – a antiga sede do jornal O Estado de S. Paulo, na esquina da Rua Martins Fontes com a Avenida São Luís; o Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, palco dos concertos mais importantes de música erudita da Cidade; o Teatro Abril; a Biblioteca Mário de Andrade na Praça D. José Gaspar, sede dos eventos culturais que, nas décadas de 1950 e 60, costumavam atrair a elite da intelectualidade paulistana; a presença de hotéis importantes, como o Jaraguá, recém-reinaugurado; entre outras localizações –, criou público para restaurantes e casas noturnas de entretenimento em uma das ruas mais aconchegantes do Centro, por seu traçado sinuoso, paisagismo, moradores ilustres, padrão de edificações.

    Oswaldo Bratke, mestre da arquitetura, foi morador da rua, em casa onde nasceram seus filhos, a mesma em que posteriormente instalou seu escritório e onde finalmente construiu um edifício de escritórios, marcante por sua harmoniosa inserção no desenho sinuoso da rua.

    Tradição e boemia

    Do início da década de 1960 até meados de 70, funcionou na Rua Avanhandava (quase esquina com a Martins Fontes) o Jogral, casa noturna do compositor Luiz Carlos Paraná, que se tornou ponto de referência da cultura musical de São Paulo na época. Paulo Vanzolini, compositor de "Ronda", ícone maior da boemia paulistana, era um de seus habituais freqüentadores.

    No início dos anos 1970 chegou o restaurante Gigetto, tradicional ponto de encontro da classe teatral nos fins de noite, avançando pela madrugada. Em 1980, chegou o Famiglia Mancini, cantina-fenômeno que virou atração turística e triplicou o número de freqüentadores das atrações da rua. Funcionando, desde sua instalação, da hora do almoço até o último cliente na madrugada, conquistou uma clientela que hoje alcança mais de mil pessoas por dia, entre empresários, executivos, turistas, gourmets, artistas, intelectuais, personalidades da noite, cantores, colunáveis, boêmios.

    Com uma história como esta, povoada de personagens ilustres, atrações especiais e freqüentadores diferenciados, o Cluster resistiu à deterioração que penalizou a Área Central ao longo das últimas décadas, despontando hoje, no momento em que o Centro renasce como identidade histórica para o cidadão paulistano – referencial de memória para uma população que protagonizou um dos processos de urbanização mais intensos do século XX –, como eixo privilegiado para localizações afinadas com os novos tempos e que, nesta medida, potencializem sua marca, associando tradição, cultura, entretenimento e modernidade.

    Novos investimentos

    Com o processo de reciclagem por que passa o Centro, sob a ação dos governos estadual, municipal e entidades civis como a Associação Viva o Centro, a área central da Cidade entrou em tempo de mudanças: de usos, de freqüentadores, de hábitos, de costumes e de padrões de atendimento.

    Um novo segmento de público volta a freqüentar o Centro para negócios, trabalho, estudo, turismo e lazer. Um público internacional, formador de opinião, interessado em memória, referenciais históricos, música, arte, cultura e alimentação diferenciada cria um segmento de demanda mais exigente para hotéis, bares, restaurantes, casas noturnas de entretenimento, espaços de eventos de diferentes usos e portes. Os empresários da hotelaria, da gastronomia, do turismo e do entretenimento são estimulados a investir na área em estabelecimentos diversificados e de padrão diferenciado.

    As demandas crescem e os empresários mais antenados com as mudanças identificam onde estão as melhores oportunidades.

    Avanhandava e Martins Fontes

    Primeiro foi a Famiglia Mancini que, em 1997, investiu em uma ampla reforma para aumentar sua capacidade e direcionar sua atratividade para um público diferenciado. Com a reforma, definiu com mais nitidez o seu público e triplicou sua clientela, consolidando uma imagem de cantina-fenômeno, líder de público e de introdução de modas e novidades (foi a Famiglia Mancini que introduziu uso da balança em São Paulo; já no ano de sua inauguração, em maio de 1980, e, mais recentemente, o pagamento parcelado de refeições por cartão de crédito). Em seguida, o Hotel Braston, na Rua Martins Fontes, foi reformado visando o turista de negócio e, em seguida, foi vendido ao grupo Holiday Inn, responsável também pelo Hotel Jaraguá, na mesma rua.

    Em 2001, foi a vez novamente da gastronomia, com a inauguração do Walter Mancini Ristorante no térreo do edifício de Oswaldo Bratke da Rua Avanhandava. O novo restaurante introduziu sofisticação ao cluster, credenciando-se a um público internacional e recebendo, por isso, em poucos meses de funcionamento, o Prêmio ABREDI (Associação de Bares e Restaurantes Diferenciados de São Paulo) de Melhor Restaurante do ano de 2001. Em 2003, o cluster recebeu um reforço de peso com a reinauguração do Hotel Jaraguá, ampliado mediante a incorporação do antigo prédio do jornal O Estado de S. Paulo e dotado de um centro de convenções com capacidade para 5 mil pessoas.

    A Cara do Centro

    Na condição de freqüentador antigo da Avanhandava e imediações, e de responsável pelo projeto das duas últimas intervenções no local – a reforma do restaurante Famiglia Mancini e a instalação do Walter Mancini Ristorante – tive a oportunidade de conhecer mais a fundo as características da área, entender a dinâmica do cluster, o charme de sua história, a força de sua presença no Centro e o perfil de suas novas potencialidades.

    Desse conhecimento pessoal, compartilhado com pessoas interessadas na revitalização da área, em particular com os proprietários dos terrenos onde deverá ser instalado o centro de eventos, nasceu o projeto Via Avanhandava Hall – uma intervenção pontual com o poder de agregar mais valor ao processo de recapacitação do Centro.

    O novo espaço pretende introduzir uma atividade cultural e de entretenimento inédita no Centro da Cidade, configurando um centro de eventos multiuso formado por dois espaços articulados, superpostos, e um restaurante internacional anexo. Suas atrações, gestão e dinâmica de funcionamento deverão introduzir no Centro de São Paulo o evento-festa, o evento-espetáculo, o evento "selo de qualidade" e/ou formador de opinião, segundo um leque diversificado de atividades de notório impacto de público.

    Os espaços são integrados por um hall monumental de 12 metros de pé direito, dois elevadores panorâmicos e duas escadas metálicas aparentes. Os dois ambientes, em clima de café concerto, contam com palcos dotados de urdimento, camarins e camarotes frontais e laterais, próprios para eventos sociais, corporativos, shows musicais (nacionais e internacionais) e, em sistema de grade complementar, para desfiles de moda, lançamento de produtos, convenções, happenings etc.

    O restaurante anexo, com autonomia de funcionamento, terá cozinha industrial com capacidade para os eventos e bar internacional, de frente para grande varanda com vegetação aérea, em clima de happy hour.

    Trata-se de um empreendimento sob medida para parceria entre proprietários, investidores fundadores e patrocinadores. Submetido a uma prévia do ponto de vista de aprovação pela Prefeitura Municipal de São Paulo, levando em consideração a Operação Urbana Centro, o projeto está, no presente, em fase de prospecção de parcerias junto a investidores fundadores para a sua construção.


      Entrevista  
    COM OS DOIS PÉS NO CHÃO

    O coreógrafo e educador Ivaldo Bertazzo expõe sua recente experiência com mais de 50 jovens ligados a ONGs de São Paulo, que resultou no espetáculo Samwaad – Rua do Encontro.

    Um som de cítaras e tambores enche o ar do Sesc Belenzinho. Em seguida, um grupo de mais de 50 garotos e garotas – entre 12 e 22 anos – entra no palco especialmente criado para o espetáculo. Começa a apresentação de Samwaad – Rua do Encontro, espetáculo de dança protagonizado por jovens que militam em sete ONGs de São Paulo. Quem assiste ao espetáculo não imagina que a apresentação impecável de dança, que mistura elementos brasileiros e indianos, exigiu apenas dez meses de preparação e ensaios. E muito menos a transformação que o processo provocou nos garotos, que hoje são multiplicadores – e vão levar às suas comunidades um pouco do que aprenderam.

    Por trás desse projeto está o coreógrafo e bailarino Ivaldo Bertazzo – que hoje, aos 55 anos, se define como um educador. A bem sucedida experiência com os garotos é um desdobramento do trabalho que Bertazzo vem desenvolvendo há vários anos em São Paulo, na escola que leva seu nome. Mais do que em formar bailarinos profissionais, ele se especializou em criar cidadãos conscientes de seu corpo – que usam a dança como uma ferramenta para chegar ao equilíbrio e a uma qualidade de vida superior.

    Urbs – Como começou sua carreira na dança?
    Ivaldo Bertazzo – Comecei aos 14 anos, com um desejo adolescente de me transformar em bailarino. Tinha como modelo aquele dançarino que voa, que faz coisas mirabolantes. Mas no período em que comecei a dançar, há 40 anos, não havia essa diversidade de hoje, só existia o balé clássico. É até compreensível que o preconceito seja muito menor atualmente, porque você vê muitos garotos fazendo street dance, hip hop e dizendo "eu danço". Mas naquela época era preciso ter muita determinação para dizer: "quero fazer balé", inclusive porque também eram poucas escolas. Comecei estudando com a Marika Gidali. Ainda não existia o Balé Stagium, mas passei por todos os professores de São Paulo e do Rio de Janeiro.

    Urbs – E quando aflorou esse seu lado educacional?
    IB – Logo na primeira vez que dei uma aula caiu a ficha: percebi que minha carreira era ser professor. Depois também virei coreógrafo. Devia ter meus 23 ou 24 anos quando decidi que meu "barato" era ensinar, e então fui estudar um pouco de fisioterapia, me especializei na Bélgica, em uma escola muito específica que oferecia cursos sobre cadeias musculares. Nessa época, eu já percebia o problema de se trabalhar em grupo: a diversidade. Um aluno tem uma coluna com mais curvas na lombar, outro tem a coluna retinha. Aí você se pergunta: dou o mesmo exercício para esses dois? Não. Isso é muito sério. Então, foi necessário um estudo mais apurado para saber lidar com o grupo. O brasileiro, entre aspas, é misto. É a raça mais mista que existe. Se você, por exemplo, der aula para franceses, vai ver corpos muito parecidos na sala de aula. Aqui não. Essa mistura é mais intrigante, mas é complexa. Foi por disso que abri minha escola, em 1974, comecei a dar aulas e deixei para trás esse desejo de dançar.

    Urbs – Como começaram os espetáculos com pessoas comuns, isto é, com quem não era bailarino profissional?
    IB – Em 1976 comecei a desenvolver a idéia do cidadão-dançante, uma experiência livre, intuitiva. Um dia cheguei para os meus alunos e falei: "vamos fazer um espetáculo?" Não achei jamais que alguém desejasse. Pedi que os interessados comparecessem no outro domingo e quando cheguei, havia 70 pessoas.

    Urbs – Essa experiência aconteceu em São Paulo?
    IB – Sim. Eu me inscrevi no festival que havia no Teatro Galpão – que era o teatro da dança. Participavam apenas grupos profissionais e cheguei com meu bando. Digo "meu bando" porque não tinha um padrão, até podia parecer caótico. Mas não era. Na verdade foi um trabalho muito demorado o de democratizar a visão do corpo humano. Um gordo, um baixo, um redondo, um misto. O espetáculo fez muito sucesso, então começaram os questionamentos. Os profissionais especializados em dança não entendiam o que aquilo significava. Perguntavam: "Todo mundo pode dançar"? Veja bem, todo mundo pode dançar se investir em um trabalho. Mas é uma dança diferente da que se propõe um bailarino profissional, que precisa ter um dom e o biotipo para isso.

    Urbs – E qual é o "barato" do trabalho com os cidadãos-dançantes?
    IB – Vou dar um exemplo, só para fazer uma comparação: os bailarinos fazem aquela coisa que se chama meia-ponta, tirando o calcanhar do chão. A bailarina chega, no balé clássico, a subir na ponta. No trabalho com o cidadão acontece o oposto: ensino a colocar o pé inteiro no chão, usar a percussão, ter a sensação do esqueleto. Não tenha dúvida de que, quando você diminui a base, você aumenta o esforço do corpo inteiro para se manter em pé, e paga um preço alto por isso. Meu cidadão não precisa disso, porque dançar também significa outras coisas: alargar a bacia – isso até pode parecer estranho em uma época em que todo mundo quer emagrecer. Mas não é alargar criando mais gordurinha, não, é alargar o esqueleto, a estrutura, alargar a base da coluna. Sentir que, ao apoiar-se na bacia, você se apóia em um centro de gravidade. Isso dá mais sustentação, e exige força nos abdominais.

    Urbs – Como é o trabalho para chegar a esse controle do corpo?
    IB – Você vai educando o aluno para que ele organize sua musculatura. Ensina como a tensão muscular – que é natural, necessária – caminha pelo corpo. Porque essa tensão caminha, ora está na mão, ora chega no ombro, desce pelas costelas, passa pelo quadril. E é assim que deve ser. Tanto que, quando dormimos, naturalmente trocamos de posição. Para chegar a essa qualidade, é preciso fazer um trabalho de coordenação motora que deixe em um plano muito consciente a maneira que o indivíduo se organiza para cada gesto, sem automatismos. É um trabalho psicomotor. Psicomotricidade tem muito a ver com o desenvolvimento da nossa espécie, que conseguiu essa qualidade de gestos que outros animais não têm: o homem é bípede, ou seja, ao caminhar, ele se apóia em um pé só. Esse é um refinamento de organização motora muito complexo. O jeito como o homem manipula os objetos, como usa as mãos, a relação que tem com o olhar, são exclusivos do ser humano – que chega ao extremo de ficar horas no computador, olhando para uma tela, construindo um universo. Mas tanto a gente enche o aluno, que uma hora ele liga a chave.

    Urbs – E como isso acontece?
    IB – Para esses automatismos serem conquistados e percebidos na hora em que você os aciona, existe uma maneira certa de trabalhar. Utilizamos muito a percussão, e não só para os garotos de periferia. Uma senhora de 60 anos que entra aqui na escola também aprende percussão. Não quero saber se ela é avó, se tem neto, apesar de que, se ela chegar a fazer isso para o neto [batuca no peito, criando um ritmo], será um sucesso, o neto vai falar "isso que é avó!". A percussão é a vibração do esqueleto, o deslocamento do tônus muscular e a modificação de ritmo. Com o adolescente é muito eficaz, você conquista a atenção dele na mesma hora.

    Urbs – E para trabalhar com o adulto, que tem outras inibições?
    IB – Ao começarmos a ensinar alguém, não devemos entrar no aspecto da limitação: "olha o que você não sabe, olha o que você não é". O trabalho consiste em mostrar as coisas como em um quebra-cabeças. Você parte de uma estratégia para envolver o aluno. Com o tempo, ele percebe que aquilo está acontecendo porque ele está fazendo, e aí, aos poucos, começa a modificar a "visãozinha" da imagem que tem de si mesmo. Mas não pode ser na primeira, pois não é um trabalho psicológico, é um trabalho psicomotor, mexe no psiquismo, mas começa por uma experiência mecânica.

    Urbs – Em seu trabalho com as crianças, como o trabalho artístico ajuda a desenvolver as questões sociais?
    IB – Tudo começa com as relações sociais para depois chegar à parte artística. Mesmo em situações privilegiadas, os jovens não têm uma relação social muito bem organizada, então tudo tem que ser refeito com muita rapidez. Todos os problemas são pensados por uma equipe que tem pedagogas, assistente social, psicólogos, professores. Depois, abrimos rodas de discussão com os participantes. Então, quando esse processo termina, os alunos percebem o que é um trabalho em equipe, que nunca chegamos a uma decisão imediata e que as decisões não são autoritárias nem vêm de uma pessoa só.

    Depois entra o trabalho com o ritmo, por exemplo em uma aula de percussão musical, com várias vozes e sons. Os jovens aprendem que é necessário aguardar para entrar, sabem que tonalidade usar para não cobrir o outro grupo. Essas medidas sensoriais motoras de escuta, de timing, equilibram o grupo e favorecem o trabalho em equipe. Todas as empresas deveriam ter um grupo de percussão! Uma coisa que me incomoda – e digo isso no livro do projeto – é quando algum empresário diz: "meu office-boy não está pensando no futuro, ele sai correndo às 6 horas porque tem um grupo de rock". Graças a Deus! Pois ele está tendo um aprendizado, está construindo um conhecimento. Há três ou quatro décadas, as escolas prometiam esse conhecimento integrado, mas isso não foi cumprido. Dizia-se que a escola integraria o teatro ao professor de português para que, quando o menino desenvolvesse um discurso de um texto, precisasse discutir, refletir sobre a construção daquela linguagem. Mas não foi o que aconteceu. A arte virou matéria extra-curricular. Nossa sociedade, nos seus compromissos, nos seus métodos, no sistema de ensino, não teve coragem de integrar a educação. É pena, porque há um preço caro para isso: a criança está se desinteressando de estudar. Outro aspecto muito importante é fazer os alunos lidarem com a frustração. Não saber assusta. No aprendizado trabalhamos o lúdico dos jovens. Errar 180 vezes uma escala musical ou um gesto e o professor dizer "não, você não foi pelo caminho correto", no início isso é um ataque à "personalidadezinha" dele. Os mais inibidos recuam e se assustam, os mais agressivos te olham dizendo "pô!", até entenderem que esse é o grande barato. Só aí começa o trabalho de verdade.

    Urbs – Em que espaço vocês desenvolveram esse trabalho?
    IB – No SESC Belenzinho. Mas não é um espaço que já existia, a gente não usa teatro convencional, não usa o palco italiano. Em geral, você chega em um teatro lindo e ele já tem som, luzes, mas é a dimensão para expor o corpo não é legal. Não como queremos mostrar. Quando o aluno chegou pela primeira vez na sala de trabalho, ele teve que tirar o sapato para se relacionar com o chão. Com o tempo, aprendeu a deitar no chão todo dia para se organizar. A sala precisa ser preparada, precisa ser um espaço legal, não pode ser estático e nem decorado. Essa interação com o ambiente é que faz ele construir imagens que não vão mais se apagar. Freqüentemente, porém, o empresário e o governo não investem nesse tipo de instalação, na criação de um ambiente adequado para o jovem. Qualquer lugar está bom. Mas com isso nada muda, porque o jovem está cada vez mais fechado nas periferias. Ele dorme no quarto com cinco irmãos, e certas mães não os deixam nem sair para a rua. Em um espaço próprio ele pode usar as próprias expressões. Muitas vezes o jovem se assusta quando, no começo, falo: "bate mais alto, vai, faz esse som mais forte". Ele vê que pode ocupar aquele espaço, atravessar a sala, isso é muito importante pois ele passa a ter uma relação com o espaço que não conhece: o espaço vazio, ele vai aprender usar o silêncio que é fundamental e ele não sabe o que é. Quando terminar o exercício, ele deverá parar, regularizar a respiração, a gente segura ele trinta segundos, depois pode começar a falar. É um desafio.

    Urbs – No espetáculo, há muito de música e dança indianas. Como se deu a influência oriental em seu trabalho?
    IB – A primeira vez que vi uns dançarinos indianos em um espetáculo, fiquei instigado. Havia algo que eu não sabia o que era, senti uma profunda curiosidade devido ao desconhecimento. Hoje em dia eu entendo: era a linguagem das mãos, como eles as movimentavam. Hoje eu me preocupo com o trabalho de reeducação das mãos, porque todo tipo de atividade manual ocupa um espaço muito grande no córtex cerebral. Quanto mais se ampliam os exercícios manuais, mais se estimula o cérebro e mais se abre espaço de armazenamento, de memória, de concentração, de refinamento. É um trabalho exaustivo porque mexe muito com as enervações. Mas ajuda em todas as atividades que a pessoa for desenvolver.

    Urbs – Como é a evolução do trabalho? Os jovens percebem as mudanças?
    IB – A diferença de hoje com os primeiros testes é gritante. Nem mal se reconhecem. No começo, é uma loucura por causa da dispersão: boca aberta, olhar sem foco, mãos sem expressão. São indícios que mostram a falta de concentração da criança para o estudo, inclusive intelectual. Agrupar as mãos, juntá-las, aproximar os pés – eles vivem de pernas abertas – fazer a respiração nasal, fechar a boca, organizar do olhar, tudo isso é muito importante, ajuda na concentração. Um exemplo engraçado aconteceu em uma das apresentações. Às quartas-feiras o espetáculo é feito para outras ONGs, e algumas têm jovens especialmente complicados. Então apareceram todos aqueles jovens e começaram a fazer piadas, mexer com as garotas e provocar os garotos, durante o espetáculo. E eu adorei, fiquei lá morrendo de curiosidade de ver como eles iam reagir. Vi que ficaram fulos da vida, mas começaram a se empenhar cada vez mais e em pouco tempo a platéia inteira foi ficando quieta e entrou no espetáculo, alguns até choraram no final. Foi fantástico! No final, fui cumprimentar o pessoal e uma garota me disse: "Que falta de respeito, que absurdo!" Então eu respondi: "Pois é, igual a vocês quando começaram!" E aí eles se deram conta de toda a mudança que aconteceu...

    Urbs – Essa é a primeira turma do projeto em São Paulo? Você já teve um trabalho no Rio, não foi?
    IB – É, comecei na Favela da Maré, no Rio de Janeiro, onde fiquei três anos indo e voltando para São Paulo, para a escola. Fizemos três espetáculos com o pessoal do Rio, mas infelizmente não o patrocínio não continuou. Vim para São Paulo e aqui eu já comecei essencialmente com professores que trouxeram alguns dos seus melhores alunos das ONGs, ou seja, esses jovens já têm o objetivo de obter algum aprendizado. Não é só fazer espetáculo, dançar. É levar isso adiante e se tornar multiplicador.

    Nesse projeto, damos ajuda de custos para as crianças, um pagamento maior para os professores que trouxeram, porque eles acompanham o trabalho, e temos assistentes sociais, pedagogos, vans que os transportam, alimentação, médico, dentista, roupas de ensaios, materiais de ensino, os professores que dão as aulas, espaço para isso, tudo durante oito meses. Nos dois meses finais a gente entregou para Deus e continuou a ensaiar. E o patrocínio é ambicioso porque soma também espetáculo, mídia do espetáculo para reverter ao patrocinador, figurino, troca figurino, lavanderia, contra-regra, som, equipamentos. Sem contar o espaço, que é caro, pois foi montado especialmente para o espetáculo.

    Urbs – E quais os próximos planos?
    IB – Gostaria de trabalhar um pouco mais com o grupo, viajar. Porque esse trabalho é bastante refinado e complexo, eles ainda estão se desenvolvendo. O objetivo não é existir muito mais tempo, não vamos formar uma companhia de dança. Tudo bem se isso acontecer, se formar outro espetáculo, mas o plano é que esse método, a partir do livro, forme professores de ONGs. O sonho mais ambicioso é chegar aos professores de ensino fundamental. Com as ONGs, a princípio, é mais viável, porque estou tentando fazer meu livro chegar a grupos interessados em Juazeiro do Norte, Altamira, com essa parceria do Sesc.

    Urbs – Mas haverá um novo grupo?
    IB – Não, não… essa história de patrocínio é infernal porque – eu até entendo – o mercado tem muita gente fazendo coisas legais, tem muita gente precisando de dinheiro para desenvolver seu trabalho, então você não consegue manter o grupo por muito tempo, não é? Vamos ver se o Sesc deseja que a gente faça isso virar um projeto fixo, mas tudo é muito incerto.

    Devido ao sucesso, o espetáculo foi prorrogado até agosto. Depois, o espetáculo vai a Santo André, onde deve ficar em cartaz até 5 de setembro.

    O projeto mescla música brasileira e indiana

    A idéia é levar o projeto a todo o país


      Mix Mesa  
    GASTRONOMIA DE FLORENÇA

    Da Redação


    Em meados da década de 1990, o chef italiano Giancarlo Marcheggiani conheceu o restaurateur brasileiro Sérgio Arno e recebeu a proposta de abrir um restaurante no Brasil. Deixou o La Vecchia Cucina, de Florença, e veio a São Paulo. Assim que chegou, conheceu aquela que se tornaria sua esposa – em pouco tempo estavam morando juntos – e decidiu ficar. A sociedade com Sérgio Arno não vingou, mas Marcheggiani abriu seu próprio restaurante, o Ponte Vecchio, no Itaim Bibi. Uma homenagem à famosa ponte de sua cidade natal.

    O restaurante durou alguns anos, e foi muito bem recebido pela crítica especializada e pelo público. Mas se quem nasceu aqui não consegue entender a economia brasileira, quem dirá um italiano. Com tantas oscilações e planos econômicos, Marcheggiani decidiu fechar o Ponte Vecchio em 1997. Foi então convidado a assumir a cozinha do tradicional Terraço Itália. O simpático chef reforçou o tempero italiano do cardápio internacional, mas manteve os pratos tradicionais que tornaram o Terraço Itália conhecido em todo o Brasil.

    Em 1997, o Terraço Itália completou 30 anos e passou por uma grande reforma. Marcheggiani lembra do susto que levou quando conheceu o lugar. "Sempre trabalhei em ristorantes piccolinos", fala com seu forte sotaque toscano. "São quatro salões, com cerca de 30 pessoas na cozinha e uma estrutura quase hoteleira", completa. Mas nessa época já tinha quase 25 anos de carreira, e decidiu encarar o desafio.

    Sua especialidade é a comida italiana, que incorpora alguns elementos brasileiros – mas com certa parcimônia. "Costumo usar palmito, mandioquinha e, é claro, folhas e legumes nas saladas. Mas nesse ponto os chefs franceses são privilegiados: podem fazer a mistura que quiserem, que as pessoas acham ótimo. Quando um chefe italiano faz a mesma coisa, pode ficar una porqueria", brinca.

    O Terraço Itália

    Localizado no Edifício Itália, o restaurante foi um presente que o empreendedor italiano Evaristo Comolatti deu à cidade em 1967. São quatro salões que, atualmente, recebem mais de dez mil visitas por mês. Além da famosa cozinha, um dos principais atrativos é a vista de 360 graus da cidade de São Paulo, a 160 metros de altura.

    Por ter resistido à deterioração que a região sofreu durante muitos anos, Marcheggiani acredita que o prédio deveria ser considerado um dos principais símbolos do Centro. O chef apóia o processo de revitalização da área e acha que São Paulo ainda tem traços arquitetônicos que podem e devem ser conservados. Para ele, conservar o Centro é preservar a história da cidade. "E um povo sem história, não é um povo", finaliza o chefe.

    Terraço Itália - Endereço: Av. Ipiranga, 344 – 41º andar – Metrô República (B5) Tel.: (11) 3257-6566


      Mix Artes e Espetáculos  
    Chicago no Centro de São Paulo


    O Teatro Abril é palco de mais um grande sucesso da Broadway: o musical "Chicago" que estreou originalmente nos Estados Unidos em 1975, dirigido e coreografado por Bob Fosse.

    Baseado em fatos reais – o julgamento de duas mulheres que foram acusadas de homicídio em 1924 – a peça conta a história das sedutoras Velma Kelly, vedete que está no auge de sua carreira, vivida por Danielle Winits, e da aspirante à fama Roxie Hart, papel de Adriana Garambone. Depois de presas, surge o inescrupuloso advogado Billy Flinn, interpretado por Daniel Boaventura, que promete alçá-las ao sucesso que elas tanto desejam.

    A versão atual da peça, que reestreou na Broadway em 1996, foi supervisionada e recoreografada pela viúva de Fosse, Ann Reiking. A montagem nacional foi produzida pela CIE – Brasil, a um custo de US$ 2 milhões.

    No elenco também estão os atores Jonathas Joba e Selma Reis. No total são 23 atores-cantores-bailarinos e também 15 músicos. A temporada está prevista até dezembro de 2004.

    Teatro Abril (D7)
    Av. Brig. Luiz Antonio, 411
    Fone (11) 6846-6060


    Crianças aprendizes


    O mundo da música erudita pode ser desbravado pelas crianças no espetáculo "O Aprendiz de Maestro", em cartaz na Sala São Paulo. O trabalho de Regina Galdino e do maestro João Maurício Galindi tem o intuito de despertar nas crianças o gosto por esse gênero musical. De forma divertida, os pequenos aprendem como funcionam os instrumentos, quais são as notas musicais, tomam contato com os grandes mestres e também entendem o que significam aqueles misteriosos movimentos do maestro. E além disso, também têm oportunidade de desfrutar da Sala São Paulo, uma das mais modernas salas de concerto da América do Sul – que em geral é mais freqüentada por "gente grande".

    O espetáculo mostra as aventuras do boneco Allegro, vivido pelo ator Cássio Scapin, que desperta graças aos sons dos instrumentos no porão de uma velha sala de concertos. Ele se torna o mascote do Sinfonieta Fortíssima, conjunto que toca o repertório da peça ao vivo e é composto por 30 estudantes de música. A orquestra foi formada especialmente para o espetáculo.

    A produção é da Cia. Casca de Arroz e da Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral (TUCCA), para a qual a renda é revertida. As apresentações acontecem uma vez por mês. As datas podem ser conferidas na TUCCA (tel. 3057-0131) e na Sala São Paulo. Os dois locais também vendem o ingresso.

    Sala São Paulo (C1-93)
    Praça Julio Prestes, s/nº
    Fone (11) 3337-5414


    Bela Vista tem novo centro cultural


    Um novo equipamento cultural foi inaugurado no bairro da Bela Vista, com uma programação musical de qualidade, sempre aos domingos, além de palestras e seminários culturais. O novo centro cultural é a Casa de Dona Yayá, residência doada à Universidade de São Paulo (USP) como herança jacente. Aberta ao público desde março, o local – que é tombado pelo Condephaat – foi totalmente restaurado para assumir sua nova função.

    Apelido de Sebastiana de Mello e Freire, Dona Yayá era, aos 19 anos, a única herdeira de sua família. Com o passar dos anos, apresentou problemas de desequilíbrio emocional e quando o quadro de insanidade mental se agravou sua residência foi transformada em hospital psiquiátrico privado. Por esse motivo, nos anos 50, a casa recebeu um solarium para que a paciente pudesse caminhar e tomar sol. Nascida em 1887, em Mogi da Cruzes, Dona Yayá foi declarada interdita judicialmente em 1919. Ela morreu em 1961 e seus bens foram doados à USP.

    Para respeitar as características da casa, equipes da Comissão de Patrimônio Cultural fizeram um restauro conservativo, com o mínimo de intervenção. Na infra-estrutura, para que pudesse sediar o Centro Cultural, foram instaladas redes de telefonia, informática e as instalações elétricas e hidráulicas foram modernizadas. O restauro ganhou o prêmio Rodrigo Melo de Franco, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na categoria Preservação do Patrimônio Cultural.

    Casa de Dona Yayá
    - Agendamento de visitas (11) 3106-3562 ou 3105-2318, das 8h às 17h, seg. a sex.
    E-mail: cpcadm@usp.br ou www.usp.br/cpc.


    Pequenos Burgueses no Teatro Fábrica São Paulo


    O texto escrito por Máximo Górky em 1901 mostra um grupo de indivíduos que desejam uma vida melhor porém estão paralisados por suas próprias torpezas. Com direção de Roberto Rosa, o clássico com tradução de Zé Celso e Fernando Peixoto estreou em maio e a temporada está prevista até 26 de setembro.

    Em um trabalho que coloca 16 atores em cena, a montagem feita pelo Fábrica São Paulo mostra um painel no qual são exploradas as tensões dos estados psicológicos mórbidos que transitam pelo potencial sugestivo de imagens simbólicas. Valores predominantes nos dias de hoje como o individualismo e o consumismo tornam a peça um texto contemporâneo.

    A Companhia Fábrica São Paulo se formou em 1983 com o objetivo de criar espetáculos, desenvolver pesquisas, e também ensinar e difundir arte. Suas montagens de "A Falecida", de Nelson Rodrigues, Macbeth, de Shakespeare e "Em alto mar" do autor polonês Slawomir Mrozec atraíram mais de 600 mil pessoas.

    Teatro Fábrica:
    Rua da Consolação, 1623
    Fone (11) 3255-5922


    Megalópoles em foco


    Integrando-se às comemorações dos 450 anos da cidade, o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo terá seu foco temático dedicado este ano às grandes metrópoles mundiais – entre elas Los Angeles, Nova York, Seul, Tóquio, Bombaim, Cidade do México e, como não poderia faltar, a capital paulista. A 15ª edição o evento acontecerá de 26 de agosto a 4 de setembro e retratará em algumas dessas produções as peculiaridades da rotina das megacidades, considerando aspectos como as pequenas histórias, a diversidade cultural, os contrastes, a convivência entre os cidadãos e seus diferentes comportamentos e o lado bom e ruim de se viver nesses lugares.

    Organizado pela Associação Cultural Kinoforum, o festival é o principal evento dedicado aos curtas-metragens da América do Sul, sendo o maior panorama da produção audiovisual brasileira.

    Consulte a programação no site: www.kinoforum.org




      Mix Livro  


    Legislação para arquitetos

    A fugacidade do mundo moderno também atinge os profissionais da arquitetura e, por isso, como em qualquer área, não sobra muito tempo para uma reflexão aprofundada sobre as responsabilidades legais inerentes ao exercício profissional. Pensando nesse contingente de profissionais que desconhecem a legislação, o arquiteto Jorge Königsberger se uniu à advogada Lízia Manhães de Almeida para fazer o livro O Arquiteto e as Leis - Manual Jurídico para Arquitetos (Editora Pini, 242 páginas, R$ 57,00). São dois volumes que reúnem informações jurídicas que orientam os profissionais da área sobre as leis gerais e especificações que norteiam as atividades profissionais, como por exemplo as responsabilidades legais e os direitos autorais. No segundo volume há comentários sobre o Novo Código Civil. Lançado pela Asbea o livro pode ser adquirido pelos telefones (11) 4001-6400 (SP) ou 0800-5966400 (demais cidades) ou pelo site www.piniweb.com

    marco da arquitetura moderna

    A valorização da realidade brasileira era um dos pilares do movimento modernista. Nesse contexto, quando começam a surgir as construções que traduziam esse sentimento, os arquitetos Adhemar Marinho e Álvaro Vital Brazil projetam, em 1934, o prédio que se tornou o marco da arquitetura moderna brasileira, o Edifício Esther. Situado na Praça da República, o prédio tem sua história e importância retratadas no livro de Fernando Atique, A trajetória do Edifício Esther (Rima Editora, 364 páginas, R$ 85,00). Na publicação, o autor faz uma análise do projeto de arquitetura e mostra diversas leituras da construção, assim como as iniciativas de restauro que estão em andamento. A reação da imprensa ao aparecimento do edifício – que foi um dos primeiros de grande porte da cidade – também é relatada.

    Pensamento geográfico brasileiro

    Milton Santos Testamento Intelectual (Ed. Unesp, 140 páginas, R$ 25,00) faz parte da coleção Perfis Brasileiros, série que traz sempre um especialista falando de sua atividade, tendo como pano de fundo uma entrevista. Coordenada por Jézio H. B. Gutiérre e por Jesus de Paula Assis, a coleção foi lançada pela Unesp para, de certa forma, sanar o esquecimento a que são submetidos os intelectuais e a própria produção científica brasileira. Esta edição com o geógrafo Milton Santos traz, porém, uma singularidade: em vez da entrevista como pilar central do livro, utilizou-se o seu Testamento Intelectual, escritos pessoais sobre questões-chaves que permeiam a evolução, os conflitos e as tendências do pensamento geográfico brasileiro. Milton Santos tinha interesse especial pela problemática da urbanização do terceiro mundo e pela teoria e metodologia geográfica. Ele foi professor da Universidade Federal da Bahia, Professor Titular e Emérito da Universidade de São Paulo e doutor honoris causa por universidades do Brasil, França e Espanha.

    Cotidiano de São Paulo

    Professor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e fundador da Faculdade de Direito do Mackenzie, Jorge Americano foi reitor da USP na década de 1940. O autor de São Paulo Naquele Tempo (1895-1915) (432 páginas, R$ 54,00) revela como poucos a "vida miúda" de uma cidade que via sua população duplicar e chegar a quase 600 mil habitantes, tornar-se palco de transformações radicais e espelho da realidade mundial. A obra, lançada originalmente em 1957, foi relançada graças a uma co-edição das editoras Carbono 14, Narrativa Um e Carrenho Editorial e reúne crônicas sobre o cotidiano paulistano e os temas discutidos nas principais rodas da cidade na época. Uma deliciosa leitura, que nos mostra as mudanças da capital paulistana nos últimos anos do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Além do texto, o autor nos brinda com diversas ilustrações de acontecimentos, objetos de uso e também de lugares que não existem mais.

    Cidades paulistas reveladas

    O Estado de São Paulo tem 645 municípios, muitos deles com nomes em tupi-guarani que significam coisas que nem imaginamos. Também há diversas homenagens a pessoas ilustres em seus tempos, mas que hoje não sabemos quem são. Afinal, o que significa Pindamonhangaba? Quem foi Álvares Machado? Para sanar essas dúvidas e, ao mesmo tempo, fornecer informações curiosas e dados sobre a história paulistana, surgiu A Origem dos Nomes dos Municípios Paulistas (Imprensa Oficial, 312 páginas, R$ 120,00). Organizado e ilustrado por Ênio Squeff, tem consultoria de Helder Perri Ferreira para o tupi-guarani. Foram mais de quatro anos e meio de pesquisa que resultaram em uma gostosa leitura e, para facilitar a procura, os verbetes são apresentados em ordem alfabética.


      Mix Sites  


    Arcoweb: www.arcoweb.com.br

    É destinado a arquitetos, engenheiros, urbanistas, designers e pessoas que se interessem por essas áreas do conhecimento. O site traz uma lista de fornecedores, entrevistas com profissionais da área e notícias. Há também textos resumidos de matérias e artigos publicados originalmente nas revistas Projetodesign e Finestra. A seção Agenda mantém informações atualizadas sobre seminários, cursos e congressos. No Arcoweb, o internauta encontra um fórum muito interessante onde pode participar e responder dúvidas sobre, por exemplo, "Como escolher o melhor CAD para arquitetura?", entre outras.

    Sampacentro: sampacentro.terra.com.br

    Criado para o projeto experimental de formatura do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, o Sampa Centro é uma declaração de amor à região central da cidade de São Paulo. No link "Quem faz" você conhecerá um pouco da história das seis alunas que decidiram, além de fazer pesquisas e entrevistas, morar por um mês no Edifício Copan para ficar mais perto de seu campo de estudo. O site traz informações sobre as principais construções e pontos turísticos, além de notícias e artigos. A atualização é constante e as informações da noite no Centro assim como os programas mais inusitados estão lá. Vale a pena conferir!

    Galinsky: www.galinsky.com

    Esta página traz informações e fotos de construções da América do Norte e Europa. Foi elaborada inicialmente pelos estudantes da Harvard Graduate School of Design mas agora aceita (e pede!) colaborações de interessados no assunto, pois somente dessa forma poderá expandir seu conteúdo. O site permite fazer pesquisas por construções ou por arquitetos e ainda, para quem for viajar, existe a opção de imprimir um sumário com as principais construções – para assim determinar o que pode ser visitado. Em inglês.

    Asbea: www.asbea.org.br

    O site da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura foi reformulado para garantir uma comunicação mais ágil e eficiente entre os profissionais, estudantes de arquitetura e pessoas que se interessem pelo tema. A principal mudança foi disponibilizar a legislação e também uma ferramenta de busca para que o internauta cadastrado possa acessar com mais facilidade o conteúdo desejado. Com o tempo mais novidades serão disponibilizadas, como, por exemplo, atualização de notícias em tempo real. Determinados conteúdos da página são direcionados exclusivamente aos associados.


      Notícias  


    Atentados à população de rua em São Paulo

    A brutal série de atentados contra indefesos moradores de rua, perpetrados em pleno Centro da cidade, choca o povo de São Paulo e do Brasil. Esses crimes constituem mais um rude golpe na imagem do nosso país e de forma alguma podem ficar impunes. Neste momento, a Associação Viva o Centro, procurando interpretar o pensamento de seus Associados e da própria comunidade do Centro, considera que é preciso, de imediato, concentrar esforços em duas frentes: descobrir os autores desses crimes e dar proteção emergencial a todos os que potencialmente continuem ameaçados. Quanto ao Centro de São Paulo, palco dessa tragédia, a Associação Viva o Centro considera que: A banalização da situação de pessoas dormindo nas ruas, principalmente em um centro metropolitano, não pode ser considerada um fato normal e aceitável. Além de tornar tais pessoas vulneráveis a toda sorte de violência, essa situação praticamente impossibilita a prestação de socorro a eventuais vitimados por agressões, doenças, alcoolismo ou ingestão de drogas, pois dificulta distinguir entre quem está simplesmente dormindo e quem está inconsciente, precisando de socorro. Para um encaminhamento digno às pessoas em situação de rua, impõe-se a necessidade da implantação de uma eficiente coordenação e gestão, pela Prefeitura, da rede de instituições públicas e privadas que atendem e/ou acolhem essas pessoas em São Paulo. Com relação à segurança, o Centro é hoje a região mais bem policiada da cidade, tanto pela Polícia Militar como pela Polícia Civil e pela Guarda Civil Metropolitana e conta ainda com intensa vigilância privada por reunir muitos bancos e sedes de empresas e órgãos governamentais. Como a região recebe cerca de dois milhões de pessoas no período diurno dos dias úteis, é nesse período que se concentra a maioria dos efetivos policiais destacados para a área. Em vista disso, faz-se necessário o reforço permanente do policiamento do Centro também durante as madrugadas e nos fins de semana. Associação VIVA O CENTRO

    Platéia lotada na 2ª Convenção das Ações Locais

    As Ações Locais, associações de caráter local formadas por empresas, instituições, condomínios, lojas, escritórios e moradores para zelar e lutar por melhorias nas ruas e praças do Centro, onde se acham estabelecidas, conquistaram tanto respeito das autoridades e da coletividade da área central de São Paulo nos últimos anos que o Programa de Ações Locais, criado em 1996 e coordenado pela Associação VIVA O CENTRO, com o patrocínio da BM&F e Bovespa, passou a requerer, desde o ano passado, convenções anuais para a atualização de conceitos e definição de metas de atuação. A 2ª Convenção dos Dirigentes de Ações Locais, realizada no teatro Franco Zampari em meados de junho deste ano, reuniu o dobro dos participantes da primeira. Foram três palestras na primeira parte, e, fechando o dia, um descontraído churrasco. O presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO Marco Antonio Ramos de Almeida abriu a convenção saudando os presentes. "Hoje contamos com 3.300 conselheiros da comunidade e mais de 500 diretores em 43 Ações Locais atuantes no Centro", disse. "Daí a importância desta 2ª Convenção." Em sua palestra, a consultora de empresas Ana Lúcia Rocha falou sobre "A Ousadia de Comover-se e Agir", exortando o trabalho em rede a partir de estratégias bem formuladas e com visão de longo prazo. Jorge da Cunha Lima, presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta (Rádio e TV Cultura), discorreu sobre a importância do espaço público e a considerável oferta de atrações culturais no Centro. E o pesquisador Donald Nelson falou sobre "O Papel das Lideranças", mostrando que caráter e disposição de reciclagem para motivar continuamente as pessoas são requisitos básicos do bom líder. A 2ª Convenção, além dos próprios patrocinadores do Programa de Ações Locais - BM&F e Bovespa -, teve o apoio da TV Cultura e da Infocus.

    VIVA O CENTRO e CEA Luz investem em educação ambiental

    Auditório lotado e platéia superatenta. Desde meados de março tem sido essa a rotina das quintas-feiras à noite, no auditório da VIVA O CENTRO, com a realização do Curso de Introdução à Educação Ambiental promovido pela Associação em parceria com o Centro de Educação Ambiental (CEA) Jardim da Luz, para integrantes do Programa de Ações Locais. O curso, que irá até meados de setembro, obteve adesão imediata, com suas 60 vagas preenchidas já nas primeiras semanas de inscrição, demonstrando o grande interesse da comunidade do Centro em informações para atuar de forma mais decisiva, por exemplo, na separação de lixo reciclável.

    VIVA O CENTRO na Coordenação Executiva do Ação Centro

    O Programa Ação Centro, criado pela Prefeitura de São Paulo em substituição ao ProCentro para recuperar a área central da cidade, teve nos últimos meses dois importantes impulsos. No começo de abril foi publicada portaria da prefeita Marta Suplicy nomeando os integrantes da Coordenação Executiva Provisória do programa, com a incumbência de coordenar a ação e os projetos municipais para a área e as atividades do Fórum de Desenvolvimento Social e Econômico do Centro. Na comissão, sob a presidência de Nádia Somekh, presidente da Emurb, a Prefeitura está representada por seis órgãos, a própria Emurb, a Subprefeitura da Sé e as secretárias de Cultura, Habitação, Transportes e Assistência Social; e a sociedade civil, por seis entidades, entre elas a VIVA O CENTRO. Quase dois meses depois, a prefeita assinou com o representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) Waldemar Wirsig o contrato oficializando o financiamento de US$ 100 milhões para as 130 intervenções que compõem o Ação Centro, desenvolvido em parceria com a sociedade civil e instalou o Fórum de Desenvolvimento Social e Econômico do Centro. Na foto da cerimônia, Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente executivo da VIVA O CENTRO; Alice Vitória de Oliveira Leite, da Procuradoria do Estado; Nádia Somekh, presidente da Emurb; prefeita Marta Suplicy; Waldemar Wirsig, do BID; e Terezinha de Oliveira Gonzaga, da União de Mulheres de São Paulo.

    Metrópole paulistana é tema de seminário no iFHC

    O recém-criado Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) realizou no final de junho, em sua sede no Centro da capital paulista, o seminário "São Paulo: os Desafios da Dinâmica Metropolitana", com apoio da VIVA O CENTRO e da Logos Engenharia. O tema das cidades-mundiais, discutindo em que medida São Paulo desempenha funções relevantes na economia global e de que modo essas funções se refletem em sua estrutura social e configuração urbana, ficou a cargo do sociólogo e assessor da presidência da Emplasa, Juarez Brandão Lopes. A arquiteta e urbanista da FAUUSP e consultora da VIVA O CENTRO Regina Prosperi Meyer analisou algumas dinâmicas que vêm redefinindo os usos do espaço urbano na metrópole paulistana, ilustrando com dados, mapas e fotos aéreas presentes no livro São Paulo - Metrópole, recém-lançado pela Edusp/Imesp. O engenheiro e ex-secretário estadual dos Transportes Metropolitanos Cláudio de Senna Frederico discorreu sobre os desafios do planejamento, implantação e gestão de infra-estruturas no contexto político-institucional próprios às regiões metropolitanas. No encerramento, Carlos Américo Pacheco, especialista em economia urbana e regional, encarregou-se da síntese das principais idéias colocadas.

    Um prêmio em reconhecimento à VIVA O CENTRO

    Coroando seus quase 13 anos de esforços pela requalificação da área central de São Paulo, a VIVA O CENTRO teve uma grata surpresa. O presidente da Diretoria Executiva da Associação, Marco Antonio Ramos de Almeida, foi escolhido por um júri especial como vencedor do Prêmio Pensador de Cidades "Luiz Antônio Pompéia", uma nova categoria do Prêmio Top Imobiliário, que é concedido anualmente pelo jornal O Estado de S. Paulo e Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio de São Paulo). O trabalho pela requalificação do Centro foi considerado exemplar para a nova categoria, destinada a hom enagear boas idéias em favor das cidades. A festa de entrega da 11ª edição do Top Imobiliário, que premiou 23 empresas, e da primeira edição do Pensador de Cidades realizou-se no bufê Rosa Rosarum, no dia 5 de maio. O Prêmio Pensador de Cidades ao presidente executivo da VIVA O CENTRO foi simbolizado por uma belíssima tela do pintor abstrato Luiz Aquila, renomado artista brasileiro que já participou das bienais de Veneza e de São Paulo.
    PATROCINADORES Revista URBS

    Patrocínio:

    Banco Itaú

    Serasa

     

    Bank Boston

     

    Apoio Institucional:

    Prefeitura do Município de São Paulo
    Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

    Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

    Editor: Jule Barreto
    Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
    Editora de Arte: Lu Rodrigues
    Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
    Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
    Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
    Tratamento de imagens: Delcine de Assis
    Fotolito: Unigraph
    Impressão: Takano Editora Gráfica

    Redação, Administração e Circulação:
    Rua Libero Badaró, 425 - 4o. andar
    CEP 01009-000 São Paulo
    Fone (011) 3106-8205
    Fax (11) 3398-5066
    e-mail urbs@vivaocentro.org.br

    urbs pode ser adquirida através de assinatura e venda avulsa e é distribuida gratuitamente a um mailling especial da Associação Viva o Centro.