ANO V   -   No. 33   -   janeiro / fevereiro 2004
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Henrique Meirelles

Reportagem  Financiamento - US$ 100 milhões para o Centro de São Paulo
Iluminação - Cidade e Centro: São Paulo às claras
Pelourinho - O exemplo de Salvador
Ações Locais - Sociedade civil organizada e ativa
Especial SP 450 Anos   Artigo - Geraldo Alckmin
Artigo - Marta Suplicy
Reportagem - Mapa VIVA O CENTRO – São Paulo 2004

Entrevista  Danilo Santos de Miranda

Urbanismo   Moda inspira recuparação do Bom Retiro em São Paulo

Cultura  Arquitetura - Legado moderno no Centro paulistano
Memória - Instituto Martius-Staden e imigração alemã
História e arte - Centro Universitário MariAntonia

Seções  Cartas
Destaques
Artigo José Goldemberg
Mix
Viva o Centro Notícias
Clique aqui para fechar esta janela


  Cartas  
Bonde moderno (VLT)

Gostaria de elogiar esta iniciativa de propor um Veículo Leve sobre Trilhos (Um VLT para o Centro, urbs nº 32 – out/nov 2003, pág. 44), que articule o Centro de São Paulo. Não um bonde antigo, mas um veículo moderno que facilita o percurso radial. Muito interessante é também o seu aproveitamento para transporte de cargas e encomendas em uma região de grande afluxo de pessoas que necessitam de abastecimento de produtos e serviços. Fico feliz em ver uma iniciativa que saia do lugar comum do rodoviarismo, equiparando-nos a cidades importantes do mundo que já adotaram este sistema. Londres está viabilizando a volta do bonde na área central.
Sérgio Costa
Vice-diretor de Transportes do Instituto de Engenharia
por e-mail



Gostei bastante do artigo publicado na edição nº 32 da revista urbs. Sou uma admiradora dos projetos de revitalização da área central da cidade de São Paulo, tão questionados atualmente. O projeto do VLT, traz boas perspectivas para o Centro, principalmente na questão turística.
Luciana Magalhães
por e-mail



Gostei da idéia do VLT na edição de nº 32 da revista urbs. Uma revitalização séria do Centro dependerá da facilidade de estacionamento unida aos bondes.
Adriano Alves Antunes
Night and Day Estacionamentos – projeto e gestão
por e-mail



Finalmente uma grande proposta que, sem dúvida, poderá modificar não só a mobilidade no Centro de nossa cidade, mas recuperar seu aspecto histórico e humano. É importante que isso ocorra antes que a "massa crítica" que utilizou o bonde esteja circulando em outras esferas.
Ubiraci de Souza Leal (engenheiro civil)
por e-mail



O despretencioso artigo de José Tadeu Braz, "Um VLT para o Centro" (urbs nº 32), vem instigar ainda mais as discussões sobre a revitalização do Centro de São Paulo. Tanto se fala em recuperar, restaurar e dar novos usos a edifícios históricos, mas pouco se faz para que as pessoas voltem a caminhar e passear pelo Centro. Acredito que a proposta de se instalar o VLT traga não só as pessoas aos pontos turísticos, interligando-os, mas especialmente, proporcione passeios ao Centro. E se o custo do projeto for elevado, por que não se estimular a participação da iniciativa privada?
Ana Paula Góes
por e-mail



Com referência à materia intitulada "Um VLP para o Centro", revista urbs nº 32, gostaria de dizer que a proposta é mais do que oporturna, pois contribui para trazer mais vida ao Centro, principalmente à noite, quando a área se torna pouco utilizada. A idéia de interligar locais de atividades culturais facilitaria o aproveitamento turístico desta área, que contém um grande potencial pouco explorado.
Rita Mara Nunes
por e-mail



Estou muito feliz de ver que o meu trabalho e o VLT de Grenoble (A Centralidade em Questão, reproduzido pela urbs nº 30) tiveram interesse para o Brasil.
Giller Peissel
por e-mail



Terminais de ônibus

Ao ler uma matéria na urbs nº 32 sobre a volta dos bondes ao Centro, vi que hoje vocês parecem aceitar a permanência de terminais de ônibus na região, o que me causa surpresa, pois em reportagens anteriores era justamente o que vocês condenavam. Eu mesmo mandei sugestões para acabar com esses terminais e transformar as linhas destes em linhas circulares, sem exceção. Falo também do Terminal Fura Fila na área do Parque D. Pedro, que parece que vai mesmo permanecer lá, o que me leva a entender que vocês entregaram os pontos, desistiram da luta, o que é uma pena, pois o parque jamais será o Parque que já foi um dia novamente.
José Marcos Prates Bastos

Resposta do editor: a Associação VIVA O CENTRO mantém sua posição contrária à ocupação de espaços públicos por terminais de transporte.


Setubal

Parabéns pela revista urbs! Em bom momento o Centro se vê prestigiado, e de maneira merecida. Nós, da Fundação Escultor Victor Brecheret, desejamos que tudo melhore nesta área de nossa cidade, tão abandonada. Parabéns, também, pela reportagem com o nosso prefeito de sempre, Dr. Olavo Setubal.
Sandra Brecheret Pellegrini
Presidente da Fundação Escultor Victor Brecheret
por e-mail



Intercâmbio

Desde minha visita a São Paulo, em abril do ano passado, por ocasião do evento sobre conservação do patrimônio cultural organizado pela World Monuments Fund, recebo pontualmente a publicação bimestral (revista urbs) e a quinzenal (informe VIVA O CENTRO) da Associação e tenho informação permanente sobre suas atividades. Espero que a decidida aproximação promovida pelo presidente do Brasil, em sua visita a meu país, permita também compartilhar experiências e objetivos comuns no campo da preservação do patrimônio cultural.
Roberto Samanez Argumedo
Arquiteto e professor da Universidad Nacional
San Antonio Abad, de Cuzco, Peru



Atualização

Está excelente a última urbs. Parabéns a todos. Residi em São Paulo entre 1949 e 1990, tendo trabalhado no Senac, Sesc, jornal Folha de S. Paulo e CREA, depois de ter me graduado em Ciências Sociais pela USP e em Serviço Social pela PUC, com extensão universitária em Gerontologia Social pela Universidade do Sul da Califórnia. Quando nos aposentamos, eu e minha mulher decidimos morar em Mococa, onde temos parentes, mas não rompemos o vínculo com São Paulo, para onde viajamos freqüentemente e onde residem três filhos. Ainda no Sesc, mergulhei fundo em assuntos urbanísticos, sociais, históricos, culturais e econômicos da cidade de São Paulo. E para continuar esse contato, entre os diversos veículos que me trazem informações atualizadas está a urbs. Importantíssimo, também, o papel da Associação VIVA O CENTRO na recuperação do Centro e na preservação da memória da cidade por meio da participação da própria coletividade, o que irá melhorar a qualidade de vida de toda a população.
Dirceu Lopes Martins


  Panorama  
O CENTRO HOJE

HENRIQUE MEIRELLES
Presidente do Banco Central do Brasil e
Presidente da Associação VIVA O CENTRO


O Centro de São Paulo é o espaço em que a cidade acumulou, de forma efetiva, seus 450 anos de história. Nele estão os testemunho da sua origem, os monumentos arquitetônicos de sua trajetória, o multiculturalismo dos bairros de imigrantes e as manifestações do avanço cultural e tecnológico que fazem de São Paulo, hoje, uma metrópole cosmopolita. Em franco processo de recuperação, o Centro começa a ser finalmente devolvido à experiência, ao imaginário e ao afeto de todos os paulistanos.

As cidades são o palco e o foco dos grandes debates da sociedade, que é o agente das transformações urbanas. Hoje, 83% dos brasileiros concentram-se em centros urbanos, a maioria dos quais, inclusive São Paulo, cresceu de forma desorganizada e comprometedora. É preciso reverter esse quadro, a começar de seus centros históricos, que devem se constituir em paradigmas para os demais setores urbanos.

A reorganização das funções e dos espaços das áreas centrais se inclui hoje nos projetos de desenvolvimento social das nações e muitas cidades já vêm recuperando e modernizando os seus centros num contexto de ações de combate às desigualdades habitacionais. Os princípios, conceitos, avaliações estratégicas e perspectivas que tomavam forma há 12 anos, quando a Associação VIVA O CENTRO foi fundada, estão hoje confirmados através de estudos e dos projetos que os três níveis de governo consideram prioritários. Eis aí a importância de divulgar cada vez mais essas idéias, de manter aceso o debate. Em 1995, a VIVA O CENTRO promoveu em São Paulo o Seminário Internacional Centro XXI. Dele participaram intelectuais e estudiosos de diversas universidades e a Agência Habitat da ONU. O seminário foi aberto com uma palestra do Presidente da República, teve a participação de governadores e prefeitos e foi oficializado como um dos encontros preparatórios ao Habitat II, realizado na Turquia, o último grande encontro mundial realizado pela ONU no século XX. Em 2005, quando se completam dez anos desse primeiro evento, a Associação deverá promover o 2º Seminário Internacional Centro XXI, que terá como proposta a avaliação das ações que pautaram os anos 90 e atualização das questões relativas aos centros metropolitanos diante dos novos desafios que se apresentam para as metrópoles contemporâneas.

O longo prazo demora, mas chega. Quando a VIVA O CENTRO foi criada, sonhávamos com um Centro requalificado para São Paulo, mas sabíamos que seria preciso consistência e persistência nos planos traçados pelo poder público. Sabíamos que nãos seria de um dia para o outro que as coisas mudariam e que o setor privado deveria conhecer o seu papel e compreender sua responsabilidade nesse processo. Mas, acreditamos no trabalho de longo prazo. Hoje assistimos e participamos dessa transformação. A partir de uma atitude muito positiva dos governos municipal e estadual de concentrar na área suas secretarias e empresas e, no caso do município, de trazer para o Edifício Patriarca, em pleno Vale do Anhangabaú, a própria sede da Prefeitura, com o Gabinete da Prefeita, a região passa a reunir mais serviços, além de atrair novos moradores, novos serviços, novas empresas e uma vida urbana densa e revigorada. Adensar e concentrar pessoas e funções onde a infra-estrutura já está inteiramente instalada é uma postura correta e corretora dos desequilíbrios do crescimento desordenado da metrópole. Um Centro eficiente, tanto marco simbólico da cultura paulistana como forte enquanto espaço urbano, é fundamental para o desejado desenvolvimento social e urbano da metrópole.


  Reportagem  
RECURSOS INTERNACIONAIS PARA O CENTRO

Empréstimo do BID deve acelerar as obras de recuperação do Centro de São Paulo, que contemplam importantes intervenções urbanas e projetos de inclusão social

Ana Cândida Vespucci
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


No ano em que comemora seus 450 anos, São Paulo deve começar a receber recursos internacionais provenientes de um empréstimo de US$ 100,4 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que vai viabilizar de forma definitiva o Programa Ação Centro, de recuperação da área central. A luta por esse empréstimo, que começou no governo Pitta, já tomou três anos da gestão Marta Suplicy. Um documento de mais de 400 páginas, elaborado pela Emurb sob a presidência da arquiteta Nadia Somekh, detalha o programa. A Prefeitura venceu as principais fases para a obtenção desses recursos (leia em Etapas vencidas) e deve vencer as derradeiras pelo fato de eles já constarem do acordo da renegociação da dívida do município assinado com o Governo Federal ainda no final da gestão Pitta. O que falta agora, a sua aprovação final pelo Senado, é ansiosamente esperada pela cidade.

A administração pública paulistana, que entra com uma contrapartida de U$ 68 milhões, terá 25 anos para pagar o empréstimo do BID, com carência de seis anos e juros variáveis. O Programa Ação Centro envolve 130 iniciativas, 16 secretarias municipais e cinco empresas públicas, devendo contemplar de intervenções urbanas a projetos sociais. Quanto à distribuição do total dos recursos, que irão constituir um fundo, a cada obra, banco e Prefeitura participam com 60% e 40% respectivamente. Importante: a Prefeitura não esperou a aprovação do empréstimo para dar partida ao programa e antecipou vários itens. Até aqui — três anos de gestão — a Prefeitura já gastou R$ 85 milhões (em torno de US$ 28 milhões) com obras no Centro.

Passo à frente

As obras que se vêem em diferentes pontos do Centro e já apontam para uma elevação da qualidade urbana e estética da região integram o projeto. Renovações de praças, como a do Patriarca, com seu pórtico simbólico, D. José Gaspar e Ramos de Azevedo e Rua Xavier de Toledo, com obras em andamento, consumiram até agora R$ 8,5 milhões.

O monitoramento dos recursos do BID pela própria instituição bancária, conforme os desembolsos feitos pela Prefeitura em função das necessidades do projeto, e a fiscalização pelo Fórum de Desenvolvimento Social e Econômico do Centro e pela Coordenação Executiva Ação Centro — ambos criados pelo Decreto 44089 de 10 de novembro de 2003 da prefeita Marta Suplicy e integrados por representantes da sociedade civil, entre as quais a Associação VIVA O CENTRO, e poder público — dão a segurança de que o programa, que deve se estender pelos próximos cinco anos, não seja interrompido. Na opinião de Nadia Somekh, até mesmo se Marta Suplicy não for reeleita: "Essa é uma de nossas vitórias. Se o programa for interrompido, o BID estanca os desembolsos. E ninguém vai querer deixar de receber", ela comenta. O mesmo decreto instituiu, no âmbito da Emurb, a Agência de Desenvolvimento do Centro. Seu objetivo será de apoio aos setores público e privado e à sociedade civil em projetos, programas e ações que visem ao desenvolvimento econômico e social sustentável do Centro.

A caminho da recuperação

O conjunto de intervenções previsto no Programa Ação Centro é bastante abrangente, com destaque para cinco vertentes: recuperação de áreas degradadas, melhoria da qualidade ambiental, fomento da pluralidade econômica, inclusão social e reversão do esvaziamento residencial do Centro. É um conjunto de medidas que objetivam a plena requalificação da área para devolvê-la à fruição da população e, por extensão, resgatar-lhe a dignidade como referência cívica de São Paulo. A recuperação de espaços emblemáticos, entre eles o Mercado Municipal, a Casa da Marquesa, o Edifício Martinelli, não se refere apenas ao restauro dos edifícios, que por si já é importante. Em certos casos, significa submeter espaços com infra-estrutura e conceituação obsoletas a um processo de modernização com o intuito de adequá-los às atuais exigências de uso.

O projeto reservado à Biblioteca Mário de Andrade é um bom exemplo. Segunda maior biblioteca do país, com um acervo de 350 mil livros, a instituição deve passar por um processo de recuperação de seu prédio e também ganhar, além de equipamentos de última geração para conservação de seu acervo, um perfil mais dinâmico nos moldes de entidades similares de grandes metrópoles do Hemisfério Norte, com café e áreas de lazer. Para as praças Roosevelt, Sé, República e Largo do Arouche estão previstas intervenções completas, que lhes devolvam o paisagismo e os equipamentos que décadas de abandono lhes tiraram.

Ações integradas

As medidas já mencionadas dialogam com providências destinadas a elevar a qualidade ambiental no Centro. A liberação dos recursos do BID vai permitir à Prefeitura iniciar obras de maior porte, entre elas a tão esperada solução para as enchentes no Vale do Anhangabaú. Dois piscinões, um na Praça 14 Bis, outro na Praça da Bandeira, além de intervenções complementares como a reforma de galerias, devem pôr um fim às infindáveis inundações que chegam a ponto de exigir a interdição do túnel ao primeiro anúncio de chuvas fortes. Orçadas em R$ 76 milhões, as obras devem começar no segundo semestre de 2004 e, se não sofrerem atrasos, ser entregues no ano seguinte.

Outra grande intervenção está reservada ao Parque D. Pedro II. Além de uma revigorante ampliação em 135 mil metros quadrados agregando áreas do entorno que haviam sido impermeabilizadas, e transformando-as em áreas verdes, ganhará um museu, o da Cidade, a ser instalado no Palácio das Indústrias, pois o gabinete da prefeita e outras seções da Prefeitura ali instalados estão de mudança para o Edifício Patriarca, conhecido como Banespinha, no Viaduto do Chá. Integrada ao conjunto, a Casa das Retortas será convertida em espaço de exposições. Melhor: segundo detalha o projeto, todas essas edificações serão rodeadas por espécies da flora paulista, entre elas os belos ipês amarelos e roxos, há muito usurpados do imaginário paulistano. Valores: R$ 10 milhões para o paisagismo (com obras já iniciadas) e R$ 16 milhões para as duas instituições culturais.

Ainda no item da qualidade ambiental, destaca-se o Sistema Interligado de Circulação, um projeto que objetiva resolver questões de acessibilidade do transporte público, veículos em geral e pedestres ao Centro. O projeto compõe-se de dois segmentos. O primeiro, dividido em duas fases, é mais amplo, refere-se ao transporte público e inclui a construção de corredores de ônibus e adaptação do sistema viário. Prevê melhorias na rótula que envolve o Centro e a adaptação e complementação da contra-rótula que envolve a rótula. Abrange obras nas avenidas Ipiranga, Mercúrio e Tiradentes, na Radial Leste e nas ruas João Teodoro e São Caetano. Essa etapa está orçada em R$ 50 milhões. A segunda fase compreende mais intervenções na Radial Leste e na rua João Teodoro, estendendo-se à avenida Presidente Wilson e à Marginal Sul. Valor: R$ 23 milhões. Também consta a construção de um novo terminal de ônibus na Praça da Bandeira, em substituição ao caos que ali se instalou, e que deverá absorver outros R$ 15 milhões. A outra etapa, mais simples, trata da melhoria da circulação e acessibilidade de veículos e pedestres no interior da rótula, com a ampliação de calçadas e execução de obras viárias nas ruas 25 de Março, Florêncio de Abreu e Boa Vista, no Largo de São Francisco e Vale do Anhangabaú a um custo de R$ 8 milhões.

Potencial e infra-estrutura

Quanto ao fomento da pluralidade econômica, a idéia é aproveitar o que a região oferece de melhor, a sua excelente infra-estrutura em telecomunicações, transporte e energia, e estimular a implantação, a expansão ou a modernização de empreendimentos nas áreas da Sé e da República. Para tanto, a prefeita Marta Suplicy já sancionou a lei 13.496, de Incentivos Seletivos, por meio da qual de 20% a 60% do total investido podem ser abatidos do pagamento de ISS (Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza), IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e ITBI (Imposto Sobre a Transmissão Inter Vivos de Bens Imóveis).

Também integra o programa, o combate ao esvaziamento habitacional, com várias ações que estão sendo estudadas em conjunto com a iniciativa privada, bem como ações para a inclusão social, por meio de projetos como o Oficina Boracea, destinado a pessoas em situação de rua, e a Operação Trabalho, criada para qualificar profissionalmente os ambulantes, um segmento que também contará com dois shoppings populares, cujos locais e regras de ocupação estão sendo definidos.

Nadia Somekh, presidente da Emurb, diz que as 130 ações não atendem a todas as necessidades do Centro, mas devem desencadear uma série de outras transformações: "Há, por exemplo, a questão habitacional que não estará completamente resolvida, o enterramento de toda a fiação elétrica, já que apenas uma parte está contemplada, as garagens subterrâneas que dependem de investimento privado." Para ela, contudo, da forma como o programa foi concebido e articulado — ele possui uma regulamentação operacional, prevê a criação de uma agência de desenvolvimento para a área central, tem uma coordenação executiva e conta com o envolvimento da sociedade civil — estão dadas as condições prévias para que não seja interrompido.

Programa Ação Centro — Principais Intervenções Urbanas*

Obra

Descrição

Valor (estimado)

Prazo

Corredor Cultural

Reurbanização de passeios nas praças Patriarca (já concluída), Ramos de Azevedo e D. José Gaspar, e Rua Xavier de Toledo.

R$ 8,5 mi

2º sem/2003

Praças da Sé e República

Reurbanização e paisagismo.

R$ 4,5 mi

2º sem/2004

Praça Roosevelt

Readequação da praça para transformação em espaço público aberto.

R$ 6,0 mi

2º sem/2005

Mercado Municipal

1ª fase: execução de piso técnico com infra-estrutura elétrica, hidráulica e de proteção contra incêndios; recuperação da cobertura; implantação de nova iluminação interna e externa; implantação de novo layout das áreas de carga, descarga e estacionamento; ampliação das calçadas da área envoltória e remanejamento do traçado viário.

2ª fase: no subsolo, implantação de vestiários, sanitários, fraldário, enfermaria, refeitório, sala de informática, triagem de lixo e equipamentos de apoio. Nas torres, implantação de novas áreas destinadas a restaurantes.

R$ 24 mi

1º sem/2004 (1ª fase)

2º sem/2004 (2ª fase)

Biblioteca Mário de Andrade

A intervenção inclui, além da reforma predial, aquisição de mobiliário e equipamento, bem como a recomposição do acervo. A reforma, em si, consiste na implantação de auditório, restaurante, café, loja de souvenirs e ampliação da sala de leitura, em duas fases:

1ª fase: estrutura metálica que amplia a biblioteca, aumentando a sala de leitura e criando um café e nova abertura para a Praça D. José Gaspar;

2ª fase: ampliação da biblioteca com a inauguração do subsolo.

R$ 17 mi

2º sem/2004 (1ª fase)

1º sem/2005 (2ª fase)

Palácio das Indústrias e

Casa das Retortas

Obras de readequação dos dois edifícios com vistas à implantação do Museu da Cidade (no Palácio das Indústrias) e de um centro de eventos (no mesmo local e também na Casa das Retortas).

R$ 20 mi

2º sem/2004

Galeria Formosa, Solar da Marquesa, Beco do Pinto e Casa nº 1

Reabilitação da Galeria Formosa com vistas à implantação de um posto da Guarda Civil Metropolitana e do Museu do Teatro Municipal. No Solar da Marquesa, Casa nº 1 e Beco do Pinto, obras de restauro e reabilitação com vistas à implantação do projeto Casa da Memória (centro de referência sobre a história da cidade de São Paulo).

R$ 3 mi

2º sem/2004

       

Parque D. Pedro II

Recuperação paisagística do parque, implantação de áreas de lazer, equipamentos públicos, infra-estrutura e área destinada a shows e eventos.

R$ 8 mi

1º sem/2004

Total

 

R$ 91 mi (US$ 32,5 mi)

 

* Dados fornecidos pela Assessoria de Imprensa da Emurb

ETAPAS VENCIDAS
  • Inclusão do empréstimo no acordo de renegociação da dívida do município, no final da gestão Pitta;
  • Elaboração e detalhamento do Programa Ação Centro, no qual serão aplicados os recursos do empréstimo e que exigiu correção estrutural da primeira versão apresentada no início da gestão Marta Suplicy;
  • Obtenção de parecer positivo da Secretaria Geral da União e do Ministério da Fazenda;
  • Aprovação do Programa Ação Centro pelo BID, em outubro de 2003;
  • Oficialização da aprovação pelo BID, em novembro de 2003;
  • Aprovação do empréstimo pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em dezembro de 2003.

    Pendências*
  • Aprovação do empréstimo pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado;
  • Aprovação final pelo plenário do Senado.
*Até meados de dezembro de 2003


  Reportagem  
E A LUZ SE FAZ

Luminárias mais potentes, programas de manutenção permanente e iluminação cênica de edifícios tornam as noites do Centro mais claras

Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Com criatividade, investimento e trabalho, São Paulo — e o Centro, em particular — estão mais iluminados. Em relação a alguns anos atrás, quando, a par de problemas como a manutenção deficiente do sistema e o tipo de equipamento em vigor, houve até racionamento de energia elétrica, São Paulo está bem mais iluminada. O que, em primeira instância, torna melhores as condições de circulação, habitabilidade e segurança. E a situação vai melhorar ainda mais. Até o final do próximo ano, segundo o programa de modernização e ampliação da rede de iluminação pública da cidade, além dos trabalhos em curso no Centro, serão instalados mais 40 mil novos pontos de luz em avenidas e praças. Hoje, São Paulo tem 530 mil pontos de luz. Ou seja, haverá quase 8% de pontos de luz a mais. Para o secretário municipal de Infra-Estrutura Urbana, Luiz Roberto Bortolotto, a iluminação é tudo: "A iluminação dá vida à cidade, que pode funcionar dia e noite. Uma cidade bem iluminada é mais tranqüila, mais bela e mais cômoda".

Os trabalhos promovidos pelo Departamento de Iluminação Pública da Prefeitura de São Paulo, Ilume, órgão da Secretaria Municipal de Infra-Estrutura Urbana, Siurb, no âmbito do programa de recuperação do Centro, envolvendo tanto a revisão do sistema quanto a troca de lâmpadas de vapor de mercúrio (brancas) pelas de vapor de sódio (amarelas), mais econômicas (24%) e eficientes (30%), já contemplaram locais superexpostos, como as Praças da Sé e João Mendes. Na Sé, praça mais central da cidade, local no qual se situa o Marco Zero, por exemplo, foram trocadas 162 unidades de iluminação e substituídos 417 globos ornamentais, por modelos de polietileno dotados de refletores para distribuir melhor a luz - no total, passaram a operar 460 novas lâmpadas.

A nova iluminação também contempla outros lugares, entre eles vários cartões-postais, do Centro: viadutos do Chá e Santa Ifigênia, Pátio do Colégio, Largo de São Francisco, Praça Antonio Prado, ruas Líbero Badaró, Riachuelo, José Bonifácio, Quintino Bocaiúva, Senador Feijó, Benjamin Constant, Boa Vista etc. Quem passa pelo vale do Anhangabaú e olha para o trecho inicial da Avenida São João, que dá para a Praça Antônio Prado, nota a gritante diferença. Ou melhor, a luminosa diferença. Após os trabalhos em curso, que substituem 419 unidades de iluminação do tipo São Paulo Antigo por igual número de globos ornamentais de outro tipo e 234 lâmpadas de vapor de mercúrio por lâmpadas de vapor de sódio, garante o Ilume, a região terá um nível de luminosidade aumentado em até 150%. Um trabalho que exige investimentos que somam R$ 200 mil. Segundo o subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas, a melhoria da iluminação "vai encorajar as pessoas a freqüentar uma região que, apesar de já ter voltado a ser segura à noite, ainda causa uma sensação de insegurança pela iluminação deficiente".

Recuperar o tempo

As iniciativas em curso tentam compensar um atraso de anos no campo da iluminação pública. Segundo o arquiteto Aurélio Pavão de Farias, diretor do Ilume, São Paulo desfruta hoje de sua melhor condição, em termos de iluminação pública, da última década, podendo tocar ao mesmo tempo a restauração e remodelação da iluminação do Centro histórico, destacando a arquitetura local — iluminado, o Teatro Municipal, por exemplo, lembra os grandes teatros de ópera do mundo, como o próprio L´Ópera de Paris, que inspirou o projeto de Domiziano Rossi, do Escritório Ramos de Azevedo, no começo do século XX —, a substituição de velhos equipamentos por novas tecnologias e a instalação dos 40 mil novos pontos de iluminação. "A iluminação de São Paulo", diz Farias, "é um sistema que não recebia investimentos há muitos anos. É atrasado do ponto de vista tecnológico e deficitário do ponto de vista de investimento em manutenção e ampliação." Sem contar que a experiência da Prefeitura com iluminação pública, a quem cabia somente fiscalizar o trabalho da Eletropaulo, é relativamente recente, datando de 1999, quando o Ilume passou a absorver a função.

Aos poucos, o espaço perdido foi recuperado e o Ilume já opera com bons índices de qualidade. Historicamente, a cidade trabalhava com 5% a 7% de seu parque apagado, considerando o intervalo necessário para detectar e substituir lâmpadas queimadas. Esse índice, garante Farias, caiu para 2% ou 3%. O Centro, em coerência com as últimas ações do poder municipal, continua a ser uma prioridade. O resgate da região como pólo indutor de atividades comerciais, turísticas, empresariais e habitacionais, a exemplo de várias metrópoles do mundo, passa pela iluminação pública. A luz não só favorece a circulação de pedestres e veículos como ajuda a compor a paisagem, realçando a beleza insuspeitada e a importância negligenciada de monumentos e prédios históricos, ruas e praças. Uma das propostas encaminhadas pelo Ilume ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, consiste na recuperação dos postes históricos do tipo São Paulo Antigo, que tanto identificam a cidade, embora pouco iluminem, já que não são espelhados e a luz nada foca, perdendo-se. Ninguém pensa em tirar essas luminárias, mesmo porque são tombadas pelo patrimônio histórico, mas adequá-las aos novos tempos, diz Farias:

– As luminárias do Centro são de 1940. Apresentavam resultados para as condições da época, mas hoje não atendem mais às nossas necessidades. Além disso, o conceito de iluminação atual é iluminar o que está abaixo da luminária. Essa luminária, quando surgiu, não tinha essa preocupação, iluminava tudo. O que nós fizemos? Introduzimos um refletor, rebatendo a luminosidade para baixo, e estamos fazendo um trabalho de recuperação dos postes.

Paris e Roma: modelos

Para Farias, a iluminação pública na área central vai muito além da recuperação das luminárias de época. "Os postes de padrão mais moderno serão remodelados e projetamos uma iluminação de destaque do patrimônio arquitetônico e cultural, uma iluminação especial de praças e jardins, mais contemplativa. Estamos desenvolvendo algumas intervenções para o Centro que trarão surpresas, acho que agradáveis, e contratando esses projetos, orçados em R$ 11 milhões, com os recursos do BID. Se não tudo, grande parte do trabalho deve ficar pronto ainda nesta gestão." O modelo de Farias são cidades como Paris e Roma, que valorizam seus centros históricos. "Os detalhes, o conjunto, a somatória de tudo dá uma beleza singular. Você olha o pormenor da luminária, do banco de praça, da banca de jornal: existe um cuidado, não é algo padronizado, sem desenho, sem pensar a solução", diz o arquiteto.

2003 é o ano dos investimentos na reestruturação de todo o sistema de iluminação. Em parceria com a Eletropaulo, num investimento conjunto de R$ 10 milhões, 100 quilômetros de avenidas, as principais artérias da cidade, por onde trafega a maior parte da população, envolvendo a troca de 6.000 pontos (lâmpadas, luminárias, equipamentos, reatores, estruturas etc.), foram revistos desde março. Mas o projeto prevê bem mais e alcançará 500 quilômetros de avenidas. "Nas avenidas de menor resultado, o índice de luminosidade triplicou", destaca Farias. "Há lugares em que aumentou oito vezes!" Para tanto, contribuem novas luminárias que introduzem um novo desenho no campo ótico que, associado à lâmpada de vapor de sódio, produz melhor resultado. Além de mais eficientes, pensa-se também no quesito economia. "A lâmpada de vapor de sódio, comparada com a de mercúrio, ligada na mesma potência (125W, por exemplo), ilumina 30% a mais e economiza 30% de energia", diz o diretor do Ilume. "Isso, associado à substituição das luminárias, triplica o nível de luminosidade." Sem contar que as lâmpadas de vapor de sódio chegam a durar cinco anos, contra três anos da lâmpada de vapor de mercúrio.

Sem uma manutenção adequada, não adiantam tantos esforços. Por isso, o Ilume, enquanto faz a manutenção corretiva – uma lâmpada queimada precisa ser simplesmente substituída -, implanta um programa de manutenção preventiva. "É um sistema de controle inteligente, mais seguro, eficiente e econômico", explica Farias. "Implantaremos um projeto piloto, no Centro, de gerenciamento de iluminação à distância, que chamamos de telegestão. Teremos, instalados nos postes, equipamentos com os quais, através do uso de softwares, acompanhamos a performance das luminárias, sabemos o consumo da lâmpada, se queimou etc. É algo novo, que ainda não existe na América do Sul. Faremos esse piloto, em parceria com as empresas de manutenção, e avaliaremos os resultados." Manter para que, em pouco tempo, todos os esforços – e todo o dinheiro empregado – não se percam.

Carinho especial

O Centro, por ser o Centro, merece um carinho especial do poder público, mas os esforços para tirar a cidade das trevas será ainda maior na periferia. Atualmente, a rede de iluminação pública de São Paulo é composta por 460 mil unidades de iluminação, que compreendem aproximadamente 530 mil lâmpadas, distribuídas por quase 50 mil logradouros, perfazendo 15 mil quilômetros. Sim, colocado em linha, o sistema daria quase a metade da volta à Terra. Hoje, 90 equipes operam e mantêm o sistema, atendendo a cerca de 10.000 manutenções/mês. Quem duvida que é um dos maiores sistemas em funcionamento no mundo? Segundo licitação aberta no final de junho pela Siurb, por meio do Ilume, o sistema ficará ainda maior, já que o edital de concorrência prevê a instalação de 40 mil novos pontos de luz até o final do próximo ano – só para comparar, diga-se que nos últimos dez anos foram instalados menos de 10 mil pontos de luz na cidade. Será um investimento de R$ 48 milhões, provenientes da polêmica Contribuição para o Custeio do Serviço de Iluminação Pública, Cosip, que constituirá o Fundo Municipal de Iluminação Pública, Fundip. A ampliação atende a atual demanda de iluminação pública da cidade.

Se tudo correr bem, os trabalhos começam no final do ano e beneficiam regiões com altos índices de violência e pobreza. Claro que, nem sempre, luz espanta bandido, mas iluminação é, sim, um instrumento de segurança. Segundo o secretário municipal de Segurança Urbana, Benedito Domingos Mariano, é possível afirmar, de antemão, que a iluminação dessas áreas vai ter efeito significativo na redução de alguns tipos de crime, como furto, violência contra a pessoa, estupro e venda de drogas. "A Prefeitura age para implantar ações através do trabalho de várias secretarias, a fim de inibir a criminalidade. A Siurb, por exemplo, está ampliando a iluminação na periferia e nas escolas municipais. Evidentemente que a falta de iluminação pode contribuir para a falta de segurança. Os índices de criminalidade nessas regiões serão alterados. Sua diminuição será maior se além da iluminação houver intensificação do policiamento preventivo e ostensivo." Além disso, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana encaminhou uma relação com mais de cem escolas cujo entorno apresenta altos índices de violência. Equação simples: mais luz, menos violência.

A energia elétrica empregada em iluminação pública representa 1% do gasto total de energia do país. Não há motivo, portanto, para economizar num item que consome tão pouco e gera tanto – habitabilidade, segurança, valorização urbana... E, mesmo de noite, o direito de ir e vir. (Federico Mengozzi)



SERVIÇO
Para solicitar a substituição de lâmpadas queimadas na rede de iluminação pública pode-se ligar para 0800 151212, diretamente com o Ilume, ou 156, Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) da Prefeitura de São Paulo. Este último também pode ser acessado no site www.prefeitura.sp.gov.br, item SAC.


  Reportagem  
O SUCESSO DO PELOURINHO

Depois de longo processo de degradação, o Centro Histórico de Salvador vive há dez anos uma nova fase, com edificações restauradas, comércio qualificado e, mais recentemente, a volta de moradores

Inês Figueiró
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina) De Salvador


Para quem chega pela primeira vez ao Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, na Bahia, a sensação de voltar ao passado é inevitável. Não fosse o movimento de veículos particulares e táxis no local, os mais de seis mil visitantes diários poderiam jurar que a qualquer momento mulheres de vestidos longos, acompanhadas de suas mucamas, surgiriam das muitas ruelas para um passeio entre o casario colorido. Mas nem sempre a imaginação correu tão fluente como hoje.

Até o final da década de 80, ir ao Pelourinho era uma experiência muito diferente. O que se via eram construções mal conservadas, a maioria abandonadas à própria sorte pelos proprietários e em estágio terminal de deterioração. Ocupando-as, uma população muito pobre.

Esse quadro de esvaziamento, iniciado com a crise no modelo agroexportador no final do século XIX, se acirrou na década de 40, quando as famílias tradicionais que habitavam o Centro Histórico mudaram-se para bairros novos com moradias mais confortáveis. São típicos dessa época os edíficios construídos na região da Praça do Campo Grande e no Corredor da Vitória.

A situação ficou ainda mais grave quando, na década de 70, equipamentos que traziam movimentação às ruas deixaram o Pelô, como é conhecido popularmente o lugar em Salvador. É dessa fase a saída da Faculdade de Medicina, do Instituto Médico Legal (IML), da Academia Baiana de Letras (ABL) e da sede do Incra. Importantes espaços culturais como o Cine Popular e o Santo Antônio fecharam suas portas e até o acesso ao bairro por transporte público foi negligenciado. O terminal de ônibus da Praça da Sé foi remanejado e fechados o Plano Inclinado do Pilar e o charriot do Taboão, espécies de bondinhos que faziam a comunicação com a Cidade Baixa, na época o centro financeiro de Salvador.

"Em 1980 já estávamos asfixiados pelo esvaziamento", conta Clarindo Silva, presidente da Associação dos Comerciantes do Centro Histórico de Salvador (Acopelô), há 48 anos no bairro, dos quais 32 à frente da Cantina da Lua, ponto típico do Pelourinho que abrigou encontros da intelectualidade baiana na década de 70. A fama do bar-restaurante é lembrada em músicas de sambistas famosos como Riachão e o já falecido Batatinha.

Nessa época, além dos intelectuais, apenas turistas corajosos, que desafiavam os assaltos para ver de perto monumentos arruinados, circulavam pelo local ocupado pela prostituição e por milhares de famílias de baixa renda. Silva lembra que o descaso com o Pelourinho era tão grande que o primeiro show realizado em 1983 pelo Projeto Cultural Cantina da Lua, uma iniciativa desses intelectuais simpatizantes do bairro e do próprio Silva, reuniu apenas 55 pessoas para ouvir grandes nomes do samba baiano.

Apesar do fracasso de público, o projeto continuou por algum tempo e foi a origem de uma atitude mais efetiva pró-revitalização da área. Daí a alegria do grupo com o tombamento do Pelourinho como Patrimônio Histórico da Humanidade, em 1985. Era o que faltava para o Governo do Estado enxergar o local como um verdadeiro Centro Histórico, dar-lhe o devido valor e implementar sua recuperação.

"As primeiras restaurações eram feitas em unidades isoladas", conta a arquiteta Etelvina Rebouças Fernandes, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado (IPAC), que começou a trabalhar no bairro em 1973. No entanto, a estratégia começou a ser questionada. Ao restaurar um imóvel, explica a técnica, e deixar o do lado em estado de abandono, persistiam os riscos de incêndio e desabamento, infestação por cupim e outros problemas. Nessa década, algumas casas foram adaptadas como residências multifamiliares.

Prioridade ao conjunto

O início efetivo do processo de revitalização da área só ganhou corpo em 1991, com a oficialização, pelo Governo do Estado, do Projeto de Restauração e Revitalização do Pelourinho, dividido em dez etapas. "Na década de 90 mudou a concepção da atuação do governo, que partiu da célula, ou unidade, para o quarteirão, priorizando o conjunto urbano", explica Etelvina.

O Centro Histórico foi mapeado e enumeradas as intervenções a serem realizadas em cada qurteirão. Houve restauro de prédios cuja estrutura estava preservada, reconstrução daqueles em total estado de abandono e realização de obras e reparos menores nos prédios em melhores condições. O restauro manteve a fachada e o caimento do telhado conforme o original.

As primeiras quatro etapas, realizadas entre 1992 e 1995, compreenderam a recuperação de 334 imóveis e foi custeada pelo governo estadual. Em 1997, com o início da quinta etapa, o Estado passa a buscar financiamento externo para as obras.

A quinta e a sexta etapas voltaram-se a obras maiores, entre elas a restauração de grandes prédios como a Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus, praça central do Pelourinho, e a Catedral de São Francisco. Foram restaurados 144 imóveis e realizada uma intervenção na Praça da Sé. O projeto do arquiteto Assis Reis substituiu os terminais de ônibus por chafarizes, bustos de personagens históricos e um extenso passeio. Os ônibus foram para uma praça nas vizinhanças.

Hoje, o Pelourinho encontra-se na 7ª etapa de recuperação, cujo término está previsto para 2004 ou, mais provavelmente, 2005. Essa fase traz mudanças na implementação do programa. Além de a responsabilidade do projeto ter passado do IPAC para a Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana (Conder), entrou em cena o Programa Monumenta, que viabiliza projetos de requalificação de centros históricos em várias cidades brasileiras e é constituído por uma parceria entre a Unesco), o BID e o Ministério da Cultura. O investimento do Monumenta na Bahia será de aproximadamente R$ 29 milhões, com recursos do Governo Federal, BID e CEF. Ao Estado coube uma contrapartida em torno de R$ 6 milhões. Em Salvador, o Monumenta prevê intervenções que garantam a preservação sustentável do sítio histórico, com o envolvimento da comunidade e dos parceiros. Serão recuperados 97 casarões e seis imóveis tombados, entre eles a Igreja d’Ajuda e a Casa dos Santos da Ordem Terceira de São Francisco.

Uso habitacional

A 7ª etapa apresenta também uma nova concepção de uso dos casarões. Ao contrário das anteriores, voltadas quase que exclusivamente ao uso comercial, o modelo a ser implantado mescla a ocupação comercial à residencial. "O governo percebeu ser fundamental o mix comércio e residência para, entre outras coisas, amenizar a presença de contraventores", afirma Canuto.

De acordo com o arquiteto, serão incentivados serviços necessários aos moradores do bairro, fugindo do modelo vigente no Pelô já revitalizado, onde ateliês, lojas de produtos turísticos e restaurantes disputam a atenção dos visitantes. Está prevista a construção de um estacionamento para uso dos moradores, já que garagem, obviamente, não existe no repertório arquitetônico colonial.

Os habitantes dos casarões restaurados não serão os mesmos dos tempos de abandono. Os novos apartamentos serão comercializadas pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR), da Caixa Econômica Federal, voltado ao funcionalismo público estadual com renda mensal entre dois e seis salários-mínimos. Com isso, o governo pretende repassar os imóveis a pessoas que tenham condições de responder por sua manutenção. Para garantir a legalidade da venda dos imóveis, o Governo decretará o local como área de utilidade pública.

Aos atuais ocupantes dos imóveis são oferecidas duas opções: receber uma nova casa dentro dos programas habitacionais estaduais, o que significa conjuntos residenciais em locais distantes, ou receber o auxílio-relocação. Trata-se de uma indenização variando de R$ 1.500 a R$ 5.000, dependendo do tempo de moradia e tamanho da família, entre outros quesitos.

Na 7ª etapa foram cadastrados 1.650 moradores, dos quais apenas 3% escolheram receber a casa. "A maioria deve pegar a indenização e ir para um bairro vizinho ao Centro Histórico, de forma que possa manter suas atuais atividades", explica o arquiteto. Ao analisar o processo de aproveitamento dos imóveis do Centro Histórico, Canuto admite a exclusão da população mais pobre, mas contrapõe o fato de que esta não terá condições de realizar a manutenção exigida pelo programa. No entanto, também admite que, mesmo não tendo feito a manutenção ao longo dos anos em que ocuparam as casas, essas pessoas evitaram o abandono total e mesmo o desaparecimento desse patrimônio arquitetônico.

Pesquisa divulgada pela Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana indica que 80% dos moradores de bairros centrais de Salvador gostariam de morar no Pelourinho. O levantamento também mostrou que a vida por ali antes da reforma não era nada fácil: 75,6% das famílias usavam banheiros coletivos, dos quais 57,2% situados na parte externa do imóvel e sem condições básicas de higiene; 43,5% das famílias abasteciam-se de água de torneira coletiva; 42,6% usavam ligações clandestinas de energia elétrica e 41,1% recorriam à fossa negra rudimentar para despejar o esgoto.

Existe ainda uma preocupação do IPAC com as regiões que circundam o Centro Histórico e que também são repositórios de bens arquitetônicos do período colonial, ocupados por uma população muito pobre. Esse fato resultou no Programa Rememorar, que vai restaurar antigos casarões de ruas como a Ladeira da Preguiça, que dá acesso à Cidade Baixa, onde está o Mercado Modelo.

Nesse caso a edificação terá a fachada recuperada e o interior dividido em apartamentos. A primeira etapa inclui sete casarões em três diferentes ruas e deverá resultar em 41 apartamentos de um, dois e três dormitórios. O investimento do Rememorar será de R$ 1,9 milhão e os beneficiados também serão funcionários públicos estaduais. Na fase seguinte serão recuperados 50 casarões, num total de 200 apartamentos.

Etapas do projeto
Em dez anos, o Projeto de Restauração e Revitalização do Pelourinho recuperou cerca de 500 prédios e investiu em torno de R$ 70 milhões, assim distribuídos:

1ª etapa – 1993
Foram restaurados 89 imóveis. Custo em torno de R$ 11,2 milhões. Encontrada uma abóbada de cúpula do século XVII, utilizada provavelmente como capela ou oratório, e azulejos e gradis de ferro do mesmo período.

2ª etapa – 1993
Foram restaurados 47 imóveis e a escadaria do Passo, onde foram gravadas cenas do filme O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. Custou cerca de R$ 2,8 milhões.

3ª etapa – 1994
Recuperou um total de 58 imóveis e custou R$ 3 milhões.

4ª etapa – 1995
Envolveu 140 imóveis e o Cruzeiro de São Francisco. Custo de mais de R$ 12 milhões.

5ª etapa – 1997
Os prédios dessa etapa exigiram mais tempo para ser recuperados. Alguns deles: Catedral Basílica e o Convento de São Francisco. Foram 62 casarões e um custo de R$ 10 milhões.

6ª etapa – 2000
Reformados 82 casarões e a Catedral de São Francisco. Escavações arqueológicas na Praça da Sé. Custo de R$ 12,4 milhões.

7ª etapa – 2002
Em andamento, prevê a reforma de 97 casarões e seis imóveis tombados. Até o momento apenas três foram restaurados.


  Especial SP 450 anos  
O CENTRO PRECISA VOLTAR A SER O NOSSO MELHOR CARTÃO POSTAL

Geraldo Alckmin

É ali que tudo começa. Os primeiros prédios residenciais e comerciais, as primeiras igrejas, as primeiras escolas, a primeira estação de trem. É ali também que surgem a cultura, a tradição, a história de uma cidade.

Aí vem o progresso, a cidade cresce, se expande, cria novos pólos e o velho Centro, esquecido e abandonado, se degrada.

Essa é a trajetória comum a todas as regiões centrais das grandes metrópoles. E em São Paulo não é diferente. Foram séculos de progresso e apogeu. Pelas ruas do Centro circulavam riquezas, cultura, elegância. Nelas se instalaram as primeiras casas bancárias e grandes empresas e escritórios, que alavancaram nosso progresso econômico; as lojas e magazines que ditaram modas e costumes. Os mais velhos lembram com saudades do antigo Cine Olido, com suas poltronas numeradas e orquestra tocando antes de começar o filme. Quem já não teve oportunidade de ter visto pelo menos uma fotografia de senhoras de luvas e chapéus e senhores de terno e gravata, a caminho do "chá das cinco" na Mappin Stores? Pelas ruas do Centro desfilaram o religioso e o profano, palco que eram de procissões e cordões carnavalescos, nos primeiros tempos dessas manifestações culturais que hoje se disseminam por toda a cidade.

Aos poucos, porém, esse miolo da cidade se deteriora e entra em decadência. Marcos históricos (a Ladeira da Memória é um exemplo gritante) são abandonados e entregues ao vandalismo. Construções de grande valor arquitetônico, que retratam diferentes épocas da nossa história, desaparecem, escondidas pela poluição visual. E, aos problemas econômicos e culturais, se juntam a insegurança e a crucial questão social das crianças e adultos que perambulam pelas ruas, sem destino e sem futuro.

A revitalização da área central, especialmente do Centro Histórico, é uma tarefa que se impõe a todos nós, paulistanos e paulistas. Recuperar o Centro significa resgatar o principal cartão-postal da cidade; gerar atividade nas áreas que mais empregam atualmente, como o turismo, o lazer e o comércio, e, principalmente, reocupar uma região que é bem dotada de infra-estrutura.

Essa tem sido uma preocupação nossa, no Governo do Estado. Recentemente, assinamos contrato para a compra de oito prédios nas ruas Boa Vista e XV de Novembro. Estamos levando para o Centro de São Paulo três secretarias de Estado e cinco empresas estatais. Esses importantes órgãos da administração estadual estão sendo transferidos para aquela área, como medida de economia, é certo, mas também com o objetivo de ajudar a recuperar o Centro de São Paulo. Várias dessas repartições já se mudaram e estão funcionando nas novas sedes. Agora, um segundo gabinete do governador está sendo instalado na Rua Boa Vista, voltando às origens, a poucos metros do Colégio dos Jesuítas, sede do governo de São Paulo dos tempos da colônia até 1935, quando foi transferida para os Campos Elísios.

Mas o compromisso do Governo do Estado com o processo de reabilitação do espaço urbano central da cidade foi assumido muito antes disso. Entre as várias ações para a recuperação, preservação e valorização do Centro, estão a restauração do Theatro São Pedro, o segundo mais antigo da cidade; a construção da Sala São Paulo, já incluída entre as melhores do mundo; a reforma da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra; a recuperação dos prédios do antigo Dops, transformado em museu, e do Hotel Piratininga, que hoje é o Centro de Estudos Musicais Tom Jobim. Como emblema da preocupação com a segurança da área, o gabinete do Secretário da Segurança, e o comando da PM e da Polícia Civil foram instalados no edifício Saldanha Marinho, também restaurado.

Com a participação da iniciativa privada, estamos restaurando a centenária e majestosa Estação da Luz, que abrigará o Centro de Referência da Língua Portuguesa, um novo e importante elo de integração cultural entre o Brasil, Portugal e outros países que falam a nossa língua na África e na Ásia.

Em 2004 estaremos iniciando as obras da Linha 4 do Metrô. Ela terá 12,8 quilometros e nove estações, entre a Luz e Vila Sônia. Vai transportar 900 mil passageiros por dia e interligará todas as linhas do Metrô e da CPTM.

Todas essas ações são importantes, mas não bastam. É preciso que a iniciativa privada e todos aqueles que realmente amam São Paulo se unam aos poderes públicos no trabalho de recuperar os antigos e a instalar novos equipamentos urbanos; ajudem a juntar o antigo e o novo, para que a imagem do velho centro volte a ser o nosso melhor cartão-postal.


  Especial SP 450 anos  
REVALORIZAR SÃO PAULO PARA OS PRÓXIMOS 450 ANOS

Marta Suplicy

OCentro de São Paulo será um outro mundo daqui uns dez anos, quando vingarem todas as intervenções que estamos fazendo hoje. Esses primeiros passos são fundamentais, mas não podemos nos enganar: a revalorização da região é um processo de longo prazo.

A gente pode ficar feliz de ver que a Praça do Patriarca renovada já tem novos usos e seus prédios já estão sendo restaurados. Ou nos alegrar com o fato de a região ganhar novas universidades e ter de volta a vida noturna no calçadão. Tudo isso é muito bom, porém, é necessário governar com o olhar no futuro próximo: quando essa região histórica da cidade voltar a ser querida e visitada pela maioria da população da metrópole.

Outro sinal esperado é a volta dos moradores e convivência também nos fins de semana. Esse é o nosso objetivo. Ele pode parecer distante para quem vive neste universo cada vez mais imediatista, em que tudo deveria ser rápido como um clique de mouse na Internet. No entanto, o ritmo da construção de um mundo melhor é assim. Exige a determinação de quem planta uma árvore centenária por dia para deixar a floresta para os netos. Foi assim com nossos pais e avós. Aos poucos, construíram como herança essa cidade de 450 anos.

Agora é a nossa vez de pegar o bastão e continuar o trabalho. Não temos o direito de esquecer um patrimônio como o Centro paulistano ou permitir que perca sua qualidade urbana. Devemos isso aos nossos antepassados e aos que ainda virão viver aqui. Melhorar o Centro é mudar o coração da cidade. Nós apostamos na grandeza da região.

Das 21 secretarias municipais, 15 já foram transferidas para o Centro, o que representa economia de R$ 4,8 milhões ao ano para os cofres públicos. E a sede da Prefeitura se prepara para mudar para o Banespinha. O projeto Morar no Centro beneficia 1,2 mil famílias. Buscamos reduzir a poluição visual. Trocamos o piso dos calçadões do Centro Velho e do Novo. Intensificamos o serviço de limpeza. Reforçamos a segurança e estamos mudando a iluminação pública, com lâmpadas de vapor de sódio e novas luminárias. A diferença pode ser sentida com mais força à noite, por causa da nova iluminação. A praça da Sé, por exemplo, está linda depois do anoitecer. A cidade de 525 mil lâmpadas ficou dez anos sem investimentos em iluminação.

Tenho certeza de que teremos um Centro renovado para a comemoração do aniversário de 450 anos. A bem da verdade, toda a cidade passa por um processo de revalorização. O cidadão está ganhando cada vez mais o direito de andar num espaço público de qualidade, seja no Centro, seja na periferia. Nos últimos dois anos, 40 lugares centrais nos bairros mais pobres e distantes começaram a ganhar árvores, brinquedos, bancos e pistas de skate. Resultado: esses centros de bairro hoje ficam lotados até de madrugada.

Até mesmo os bairros novos e viçosos estão recebendo uma atenção especial. Basta ver a grande reformulação pela qual está passando a Vila Olímpia. Apesar de extremamente valorizada pelo mercado imobiliário na última década, faltava a atenção do poder público para alargar as calçadas, arrumar o viário e cuidar do paisagismo. Por meio de uma parceria com a iniciativa privada do bairro, isso está sendo possível de ser feito agora.

Outro lugar que vale a pena ver como mudou é a rua João Cachoeira, no Itaim Bibi. Novos passeios, mobiliário urbano, jardins e outras novidades para tornar o centro de compras a céu aberto mais atrativo ao consumidor. Essa é apenas a primeira das ruas comerciais que devem passar por uma total reformulação, com o apoio dos comerciantes que irão usar as mesmas técnicas dos shoppings para disputar o mercado.

Outra frente importante para que possamos comemorar os 450 anos de cabeça erguida é a revalorização da Educação. Após ampliar o número de vagas em mais 200 mil nesta administração, chegou a hora de dar um salto de qualidade e levar serviços que antes estavam ao alcance apenas das classes médias. O principal instrumento deste processo são os Centros Educacionais Unificados. O CEU é um equipamento de apoio a todas as escolas vizinhas. Os alunos podem ir, de manhã, às aulas regulares numa Emei próxima e, à tarde, fazer educação física na piscina do CEU. O mesmo acontece com a biblioteca, o teatro, as quadras, as oficinas de arte e outros equipamentos. Para se ter uma idéia do que isso significa em termos de inclusão social, basta ver o que acontece nos CEUs durante o final de semana, quando a comunidade freqüenta as instalações. No CEU Jambeiro, 80% dos expectadores de Boleiros e Cidade de Deus estiveram pela primeira vez num cinema. Essa foi a primeira experiência deles em frente a uma tela grande. O projeto tem tido resistência de uma parcela mínima da opinião pública, que não conhece as condições de vida da periferia. O fato de um governo ser incompreendido não pode ser uma barreira para se executar os projetos importantes para o futuro da cidade, como os CEUs.

Vejam o exemplo do Auditório do Ibirapuera. Há 50 anos, o parque foi o maior presente oferecido à cidade no quartocentenário. Agora, nos 450 anos, nada melhor do que completar o conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer com a construção do Auditório. O projeto fará par com a Oca na entrada monumental do parque. A obra irá separar a área destinada ao lazer contemplativo, permitindo ainda o aumento da quantidade de árvores na praça da Paz, pois não haverá mais grandes shows ali. E o melhor de tudo é que a parceria com a TIM garante que não haverá dinheiro público investido. Mesmo assim, houve questionamentos na Justiça, vencidos com fortes argumentos. O Plano Diretor do Ibirapuera, do qual o Auditório faz parte, significará uma grande reformulação desta área verde querida pelos paulistanos. Em três anos teremos mais áreas ajardinadas e um parque mais bonito.

Fazia 32 anos que São Paulo não ganhava um parque público. Pois bem, no ano passado foi criado o Chácara das Flores e, em breve, teremos o Parque Vila do Rodeio, ambos na Zona Leste. Cuidamos do verde e cuidamos do asfalto, com mais de um milhão de metros quadrados de recapeamento de avenidas. A avenida dos Bandeirantes, com 30 anos, nunca havia sido totalmente recapeada. Neste ano, estendemos o tapete pela Consolação, pela Francisco Morato, Rebouças entre outras.

Entregamos obras de drenagem na bacia do Aricanduva, que reduziram os terríveis problemas de enchentes na região da Salim Farah Maluf. Buscamos acelerar obras de canalização de córregos e urbanizamos até agora 68 loteamentos, e estamos urbanizando 36 favelas.

Estamos transformando o transporte público. Enfrentamos máfias sindicais e empresariais, iniciamos o sistema Interligado, que vai desafogar o Centro e os bairros periféricos. Vamos fiscalizar a renovação da frota e a substituição das peruas por micro-ônibus. Há nove meses circulam 1.500 ônibus novos e o transporte vai melhorar mais ainda, ganhando em tecnologia e eficiência. E, é claro, não vamos parar por aí.

Se há uma marca nesta administração é a luta contra a desigualdade. Dentro desse processo, revitalizar o Centro de São Paulo virou um marco na luta contra a exclusão social, que se verifica em toda a cidade. É uma aposta no futuro da cidade.


  Especial SP 450 anos  
O CENTRO EM SUAS MÃOS

VIVA O CENTRO dá um presente a São Paulo nos seus 450 anos: o mapa do coração da cidade
Ana Maria Cciaccio
Fotos de Victor Eskinazi


Com o prático formato de folder para agilizar a consulta, o Mapa VIVA O CENTRO – São Paulo 2004, desenvolvido com o apoio dos laboratórios de Urbanismo da Metrópole (Lume) e de Informatização de Acervo (LabArq) da FAUUSP e patrocínio do BankBoston, é um guia turístico-cultural bilíngüe (português-inglês) que coloca o Centro da cidade ao alcance de todos: moradores e visitantes.

Precisão geográfica e facilidade de leitura são seus atributos principais. Nele estão, a um simples olhar, as ruas e praças do Centro, seus edifícios históricos e espaços públicos significativos, igrejas, museus, cinemas, teatros, galerias comerciais, sugestões de roteiros turísticos, indicações de acesso por veículos particulares, ônibus, metrô e trem, bem como estacionamentos.

"É um mapa do Centro à altura da metrópole que é São Paulo", define o presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida. "No bolso ou na bolsa, reconcilia o paulistano com o chamado Centrão, atraindo quem deixava de freqüentá-lo por desconhecimento e fornecendo ao turista, de negócios ou a passeio, uma forma rápida de chegar e se localizar no coração de São Paulo."

A primeira edição do Mapa VIVA O CENTRO – São Paulo 2004 tem tiragem de 300 mil exemplares. Uma parte dela será encartada para divulgação em veículos de comunicação de massa, outra irá para organismos de fomento ao turismo. Estará também disponível em aeroportos, agências de turismo, hotéis e restaurantes a um custo bastante acessível. Para o público, em bancas de jornais e livrarias, o preço será de R$ 2.

Qualidade técnica

Muito trabalho — e de alto nível técnico-conceitual — está na origem desse folder. "Quando fui chamada a fazer consultoria para a Associação VIVA O CENTRO, em 1991, elaborei o primeiro mapa produzido pela entidade", recorda a arquiteta Regina Prosperi Meyer, professora da FAUUSP. "Foi a forma mais eficiente de dizer que o Centro era muito mais do que a Praça Antonio Prado e suas adjacências. Daquele momento, lembro de debruçar-me sobre uma planta da cidade, conjuntamente com a arquiteta Rose Carmona e delimitar os distritos Sé e República e, sobretudo, incluir os bairros centrais. A festa de lançamento desse primeiro mapa foi no Teatro Municipal, com a presença da prefeita Luiza Erundina. Imediatamente começamos a discutir a pertinência da presença dos bairros do entorno do Centro: Santa Efigênia, Campos Elíseos, Bom Retiro, Luz, Pari, Brás, Liberdade, Bela Vista e Barra Funda. Com isso chegamos a um perímetro para a área central, depois utilizado pela Emurb quando substituiu a Operação Urbana Anhangabaú pela Operação Urbana Centro. O novo mapa consolidou essa visão abrangente do Centro."

A pesquisa para a elaboração do Mapa VIVA O CENTRO – São Paulo 2004 foi realizada no Lume e coordenada pela professora Marta Dora Grostein, tendo como ponto de partida o primeiro mapa de que fala Regina Meyer. A base do mapa atual foi construída pelo LabArq, coordenado pela arquiteta e professora Marlene Yurgel a partir da restituição geométrica de aerofotogrametria realizada no ano 2000. Para garantir a legibilidade do mapa, foi feita uma adaptação na largura das ruas de modo a permitir nomeá-las, bem como incluir o seu sentido de direção, facilitando assim a orientação de quem vem para a área central com veículo próprio.

Acima de tudo, esse grande investimento intelectual, ao qual se agregou também a equipe da Área de Apoio Técnico da VIVA O CENTRO, teve como motivação o futuro: "Desvendar o Centro da metrópole para que ele conquiste o coração e a mente dos mais jovens", diz Marta Grostein.

O Mapa VIVA O CENTRO – São Paulo terá periodicidade anual e passa a integrar o rol das publicações periódicas da Associação VIVA O CENTRO, junto com a Revista urbs e o informe. A Associação tem certeza de que o mapa será útil a todos e espera receber sugestões e mesmo o apontamento de falhas para correção em edições futuras.

SERVIÇO
Para informações de como obter o mapa ligue para (11) 3106-8205.

O que encontrar
Logradouros: 350
Estações de metrô: 7
Ônibus circulares do Centro: 3
Referências culturais: 111
Teatros e salas de concerto: 16
Galerias comerciais: 18
Roteiro turístico-cultural: 29 pontos
Estacionamentos: 58
Sistema de calçadões
Acessos por veículos particulares
Acessos por Metrô e trem (CPTM)


  Destaques  
ENFIM, A LINHA 4


Há quatro anos o projeto da Linha 4 Amarela do Metrô, que vai interligar o Centro (Estação da Luz) à Vila Sonia, na Zona Oeste, conectando-se às linhas Verde (Vila Madalena-Ana Rosa) e Celeste (Osasco-Santo Amaro), foi assunto de uma grande reportagem de capa da revista urbs. Nessa reportagem, a VIVA O CENTRO defendia vigorosamente a implementação da Linha 4, indispensável à configuração da rede de transporte de massa sobre trilhos em São Paulo. No começo de outubro, o governador Geraldo Alckmin assinou os contratos para o início das obras, que começam com o processo de desapropriação de 72 dos 200 imóveis previstos, e, a partir de janeiro, devem deslanchar de vez. A primeira etapa compreende a construção de 12,8 quilômetros, com onze estações, no valor de R$ 1,8 bilhão e término previsto para 2007.


PRÊMIO ITAÚ-UNICEF É ENTREGUE NO CENTRO


A cerimônia de entrega do Prêmio Itaú-Unicef, que a cada dois anos distingue iniciativas de ONGs em apoio ao ensino fundamental no Brasil, deslocou-se em 2003 para o Centro e foi realizada no Teatro Abril em 1º de dezembro. Mais de mil pessoas de diversos estados do país assistiram à esperada premiação. O prêmio foi instituído pela Fundação Itaú Social, criada pelo Banco Itaú, associado à VIVA O CENTRO, tendo como parceiros o Unicef e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).


CEF RECUPERA QUADRILÁTERA DA SÉ


O plano de recuperação do conjunto de prédios históricos da CEF entre o Pátio do Colégio e a Praça da Sé, foi apresentado pelo presidente da instituição, Jorge Mattoso, à prefeita Marta Suplicy como parte das comemorações dos 450 anos da cidade em 2004. A proposta prevê: restauro das fachadas dos edifícios das ruas Floriano Peixoto (números 54 e 64, onde serão instalados um teatro, um auditório e sala de exposições), Roberto Simonsen (85/89 e 97/101, que receberão oficinas culturais e o futuro museu da CEF) e Wenceslau Braz (61/67, para escritórios); demolição de dois prédios não tombados na Floriano Peixoto (40/44 e 47/50) para construção de um edifício de escritórios da própria CEF; construção de um prédio para moradia em terreno vago para atender 26 famílias pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR); e praça interligando o conjunto. Em 2004 a previsão é entregar, além das fachadas restauradas, o espaço das oficinas culturais.


CENTRO TERÁ MUSEU DA IMIGRAÇÃO JUDAICA


O Templo Beth-El, situado na esquina das ruas Avanhandava com Martinho Prado, no Centro, vai abrigar o primeiro Museu Judaico da cidade e do Estado de São Paulo e o primeiro de grande porte no país sobre a memória da imigração judaica. A iniciativa é da Associação dos Amigos do Museu Judaico em São Paulo, que está convidando arquitetos renomados para elaborar anteprojetos de restauro do espaço e implantação do museu, mantendo o primeiro andar como sinagoga para acolher festas religiosas tradicionais da comunidade. Depois de eleito o melhor anteprojeto e elaborado o projeto definitivo, as obras, em quatro etapas para facilitar o levantamento dos recursos necessários, podem começar ainda em 2004, sendo a previsão de entrega da primeira em 2005. O acervo reunirá objetos da cultura e da religião judaica.


INFÂNCIA NO CENTRO


"Redescobrindo o Centro" é o nome de um feliz projeto desenvolvido pelo Grupo Santander Banespa em parceria com a Fundação Abrinq para que meninos e meninas da cidade de São Paulo e municípios vizinhos conheçam o Centro da metrópole e, no futuro, se tornem cidadãos capazes de valorizá-lo e ter uma atitude responsável com o espaço público e o patrimônio histórico-cultural. Crianças de 7 a 14 anos, atendidas por 109 entidades da periferia da capital e Região Metropolitana, filiadas à Abrinq, vêm participando de visitas monitoradas a pontos turísticos como a Catedral da Sé, o Marco Zero, o Solar da Marquesa de Santos, o Pátio do Colégio e o Museu e Torre do Santander Banespa. Pela parceria, o banco fornece material didático prévio às crianças, transporte, camisetas identificadoras e lanche.


  Reportagem  
O CENTRO EM AÇÃO

Desde 1996 a região está estruturada em Ações Locais, ONGs que trabalham por melhoramentos urbanos e mais qualidade de vida em suas ruas e praças

Ana Maria Ciccario
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Dois fatos bastariam, na impossibilidade de mencionar aqui todos os demais, para atestar a consolidação e maturidade alcançadas pelas Ações Locais — ONGs organizadas por logradouros (ruas e praças) e constituídas por representantes de empresas, instituições, condomínios, lojas, escritórios e moradores do Centro para zelar e lutar por melhoramentos em suas respectivas áreas. São eles: 1) a presença cada vez maior das Ações Locais na mídia impressa e eletrônica quando o assunto das reportagens é zeladoria urbana e 2) o Programa de Ações Locais inspirando movimentos semelhantes em outras pontos da cidade. Na raiz do sucesso, a fórmula democrática: representatividade, pluralidade, credibilidade e eficácia.

O Programa de Ações Locais — ganhador do Prêmio Eco da Câmara Americana de Comércio, de reconhecimento à cidadania empresarial, em 1998 — surgiu há quase oito anos por iniciativa da Associação VIVA O CENTRO. Para compreender como foi, o presidente da Diretoria Executiva da entidade, Marco Antonio Ramos de Almeida, rememora o próprio surgimento da VIVA O CENTRO: "A Associação foi fundada em outubro de 1991 — está completando 12 anos — por empresas e entidades sediadas no Centro, tendo Henrique de Campos Meirelles, atual presidente do Banco Central, entre os seus fundadores, e até hoje seu presidente. Objetivo: organizar a sociedade civil para reverter o processo de decadência da região e lançar as bases técnicas, políticas e institucionais para a sua requalificação".

Marco Antonio prossegue contando que, por meio de detalhados estudos e diagnósticos, workshops e seminários (inclusive internacionais), articulação de parcerias com o poder público e/ou empresas privadas e debate das questões da área central de São Paulo e dos centros metropolitanos em geral em suas publicações, a Associação alcançou a sua meta primordial: "Despertar nos meios político-administrativos, empresariais, acadêmicos e na mídia a consciência da extraordinária importância econômica, cultural e social do Centro na reconfiguração da metrópole globalizada do século XXI". Mas faltava algo.

Faltava desenvolver um sentimento de comunidade e de identidade, principalmente entre as pessoas que, apesar de não morar no Centro, ali tinham seu local de trabalho, o que sempre fora uma carência da região, e que, devidamente estimulado, levaria as pessoas, tanto essas quanto as que ali morassem, a zelar pelas ruas onde estão suas moradias e locais de trabalho. Para isso a Associação dividiu o Centro em 50 microrregiões sob um critério de homogeneidade (num contexto de grande diversidade) e em cada uma passou a incentivar a organização de uma associação de caráter local para lutar por melhoramentos em suas ruas ou praças. Foi o start para o Programa de Ações Locais, que no ano seguinte de sua criação, em 1997, passou a contar com o patrocínio da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), associados à VIVA o CENTRO. Hoje já são mais de 40 Ações Locais, todas trabalhando sob o mesmo logotipo (abaixo), dando testemunho do que pode o trabalho voluntário em prol da coletividade.

Da adesão

A grande originalidade do Programa, segundo Teresinha Santana, que coordena a área de apoio às Ações Locais na VIVA O CENTRO, está em que logrou êxito ao organizar coletividades diversificadas — do morador ao trabalhador, do executivo de grandes empresas e instituições a estudantes, de profissionais liberais a religiosos e empresários — numa área altamente complexa como o Centro da capital paulista.

"Cada Ação Local é um microcosmo heterogêneo, que assegura a participação democrática da coletividade envolvida nos mesmos objetivos — a melhoria urbana e da qualidade de vida de sua microrregião (rua ou praça), por meio do Conselho da Comunidade", diz Teresinha Santana. Hoje são mais de três mil conselheiros em 43 Ações Locais. Resultado: parcerias frutíferas com o poder público municipal, com outras entidades da sociedade civil e com a iniciativa privada, numa demonstração de que democracia e eficiência não são incompatíveis.

"Mais do que a contribuição das Ações Locais para restaurar a dignidade do Centro, a experiência de participar da Ação Local Barão de Itapetininga tem sido um aprendizado continuo de cidadania para mim", diz Carlos Beutel, da Ação Local Barão de Itapetininga.

Das ações

A atuação das Ações Locais se dá em duas frentes: o levantamento das necessidades de intervenção na microrregião e o encaminhamento dessas necessidades, com propostas de solução, ao poder público ou à iniciativa privada, visando parcerias. "Tendo em vista essas frentes, trabalhamos por temas — manutenção dos espaços públicos, promoção social, segurança etc", explica Teresinha Santana. E aqui, sem a pretensão de esgotar os bons exemplos de atuação das Ações Locais, muito já foi feito.

Na área da promoção social pode-se mencionar três importantes realizações. A conquista do Refeitório Comunitário da Rua Penaforte Mendes — possibilitada pelo trabalho das Ações Locais Roosevelt, Largo do Arouche, Barão de Itapetininga e Carmo —, que disciplinou a doação de alimentação a moradores de rua e hoje capacita os beneficiários por meio de cursos de artesanato — existe uma banca na Praça da República que comercializa os produtos feitos por eles. A participação ativa das Ações Locais Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Nestor Pestana e Paissandu na implementação do Fórum de Entidades Assistenciais que atendem crianças e adolescentes na região, entre elas a Fundação Projeto Travessia, da qual a VIVA O CENTRO faz parte, para, em parceria com a Secretaria de Assistência Social (SAS) da Prefeitura, construir políticas públicas para o setor. E pelo menos duas frentes de ensino: 1) o curso de alfabetização de adultos de baixa renda que moram ou trabalham no Centro, com o apoio das Ações Locais 7 de Abril, Barão de Itapetininga e 24 de Maio; e 2) o curso de inclusão digital para office boys da região, em parceria com a Universidade Anhembi Morumbi, com o apoio da Ação Local Anhangabaú.

No quesito melhoria da qualidade ambiental, as Ações Locais desenvolvem intervenções que vão da fiscalização do número de varrições e coleta do lixo à detecção de bueiros entupidos e até mesmo a coleta seletiva visando à reciclagem de materiais. O Projeto Boa Vista Reciclada, o mais antigo nessa área, foi implantado pela Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista em 1999. Reúne 120 catadores que recolhem nos prédios da microrregião cerca de 400 toneladas/mês de produtos recicláveis, das quais 90% são de papel, cujos fardos são processados no Núcleo Seletivo do Glicério. "Nossa função é diagnosticar necessidades e amarrá-las a capacidades — fazer a costura — para chegar a soluções", diz Emmanuel Prado Lopes, secretário executivo da Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista.

Ainda nesse item, entrou em funcionamento há um ano o Recifran — cooperativa de catadores de papel para a região do Largo São Francisco e adjacências, organizado pela Província Franciscana em convênio com a SAS-Sé, apoio da Ação Local São Francisco e Associação dos Ex-Alunos da FGV, com doação do Consulado do Japão. Colaboram também com o Recifran, que coleta em média 45 toneladas/mês de papel, as Ações Locais Roosevelt, Maria Paula e Barão de Itapetininga. Importante: o Recifran, junto com outras cooperativas, participa da gestão da Central de Triagem de Coleta Seletiva Solidária da Sé, criada pela Prefeitura para que essas cooperativas possam, além de ter um lugar adequado para separar os diferentes resíduos, comercializar diretamente com as empresas recicladoras, melhorando a renda e o processo de inclusão social dos catadores.

No aspecto zeladoria urbana, há que se destacar a recuperação de vários logradouros públicos, além de calçadas, e novamente a fiscalização cotidiana e o encaminhamento aos órgãos públicos dos principais problemas, indo do mais simples, como o pedido de uma substituição de lâmpada queimada em poste público até a recuperação de guias e sarjetas, como promovido pela Pátio do Colégio/Boa Vista, que utiliza como mão-de-obra ex-presidiários, num trabalho em parceria com a Subprefeitura da Sé. Para zeladoria, inclusive, as Ações Locais contam hoje com o trabalho de Ângela Aparecida Carrocelli Kleber, realizando a interface com o poder público municipal. "Por morar há 35 anos no Centro, conhecendo-o como à palma da mão, estou em casa nessa tarefa. Visito cada local, anoto as intervenções necessárias, faço um relatório e o apresento à Subprefeitura da Sé para as providências. O sonho da gente é ver o lugar onde trabalha ou mora bonito e acolhedor."

Parcerias

O Programa de Ações Locais tem, principalmente, fomentado parcerias com a iniciativa privada. Entre os exemplos, a Ação Local Anhangabaú com o BankBoston para a manutenção de fontes e jardins no Vale do Anhangabaú; a Ação Local Ramos de Azevedo com a Companhia Brasileira de Alumínio do Grupo Votorantim no caso da recuperação da Praça Ramos de Azevedo e manutenção do jardim, e com a Klabin para o restauro do Monumento a Carlos Gomes; a Ação Local Martins Fontes com a Quaker do Brasil para a recuperação da Praça Desembargador Mário Pires; o Escritório de Advocacia Tozzini e Freire com a Ação Local São Francsico; para o restauro das estátuas do Largo São Francisco; a Ação Local Largo de São Bento com o Mosteiro de São Bento, BankBoston e Phillips do Brasil para recuperar a fachada do mosteiro e o largo; a Ação Local Paissandu com o Projeto Aprendiz, CDHU-PAC a Secretaria de Estado da Cultura e a Prefeitura de São Paulo por meio da Lei Mendonça para restaurar a fachada do Conservatório Dramático e Musical. Nesse momento, a Ação Local Largo da Memória busca parceria para a adoção do logradouro, de modo que se conclua o restauro do obelisco e se instale no local vigilância 24 horas para garantir a segurança de quem transita por ele e sua preservação.

No item segurança, o destaque vai para o policiamento comunitário, numa parceria significativa com a Polícia Militar, que é uma filosofia nova na polícia paulistana, mas secular em países como Japão e Canadá, segundo a qual o policial interage com a comunidade para garantir-lhe a segurança. Todos as Ações Locais participam.

No quesito do disciplinamento do comércio informal no Centro tiveram papel decisivo as Ações Locais Barão de Itapetininga e 24 de Maio. Juntas fizeram um levantamento dos prejuízos causados pelos camelôs em sua área e o encaminharam ao Ministério Público. De posse desse levantamento, a promotora pública Mabel Tucunduva entrou com uma ação civil pública contra a Prefeitura, exigindo providências. A ação foi julgada favoravelmente aos cidadãos, o que levou a Prefeitura a empreender a retirada dos camelôs não portadores de TPUs do Centro e a está fazendo atuar de modo incisivo, por contar com o apoio da comunidade para que o caos não retorne.

Além de tudo isso, as Ações Locais República II, Roosevelt e Maria Paula dão total apoio a programas de ginástica gratuita — Tai Chi Chuan, Radio Taissô e Lian Gong — nesses logradouros ou locais próximos a eles.

Desafios

Que desafios o Programa de Ações Locais tem daqui para a frente? "Com as eleições gerais realizadas em todas as Ações Locais no mês de setembro passado, o desafio continua sendo o mesmo do início", diz Teresinha Santana. "Vencer o ceticismo e a apatia de alguns e conseguir ampliar a representatividade da comunidade em cada Ação Local, envolvendo cada vez mais pessoas nesse processo de requalificação do Centro."

Com vistas a esse objetivo, entre outras providências o Programa testou em 2002 e reforçou em 2003 a fórmula de reuniões temáticas, ou encontros entre a comunidade das Ações Locais e o poder público, para o encaminhamento de problemas e propostas de soluções. Além disso, o Programa sempre procura entabular novas parcerias com o poder público, empresas, o Terceiro Setor e instituições, entre elas também as universitárias.

Hoje, o Programa de Ações Locais chega a inspirar projetos semelhantes, como um que acaba de ser criado pela Prefeitura de São Paulo, o chamado Viva a Sua Rua, por entender que se trata de um modelo eficiente para melhorar a qualidade de vida na metrópole. Acaba de lançar uma cartilha em que orienta a formação de grupos na cidade inteira para cuidar da sua rua. Nessa cartilha, indica a possibilidade de se elaborar projetos de arborização e jardinagem, de economia de água, de convívio social etc. Ações que o Programa de Ações Locais sempre incentivou.

Ações Locais em números
Total de Ações Locais previsto 50
Ações Locais já fundadas 43
Conselheiros da Comunidade 3.017
Diretores* 525

*Eleitos pelo Conselho da Comunidade

Estrutura democrática
  • O corpo de associados de cada Ação Local, constituído por empresas, instituições, condomínios, lojas, escritórios e moradores de sua microrregião, é representado pelo Conselho da Comunidade, responsável pela eleição de sua Diretoria e Conselho Fiscal.
  • As Ações Locais trabalham com um código de ética. Cada uma assume o compromisso de zelar e buscar melhorias para a sua área específica, e de não interferir em outras microrregiões.
  • Mensalmente, na sede da VIVA O CENTRO, o Conselho de Representantes das Ações Locais, formado por um titular e dois suplentes de cada uma das Ações Locais, reúne-se para debater o andamento do Programa de Ações Locais

Como participar
Para saber a que Ação Local uma rua ou praça pertence ou que ruas e praças integram que Ação Local basta acessar o site da VIVA O CENTRO: www.vivaocentro.org.br. Para se associar a uma Ação Local pode-se: 1) entrar em contato com seu presidente (os telefones de todos os presidentes também estão no site) ou inscrever-se diretamente no site ou na Coordenadoria de Apoio ao Programa de Ações Locais da VIVA O CENTRO, tels. 3242-3415 e 3398-8807, com Teresinha Santana.


  Entrevista  
UMA REFERÊNCIA À FRENTE DO SESC SÃO PAULO

Danilo Santos de Miranda


Completando 20 anos na direção do Sesc de São Paulo em 24 de janeiro de 2004, o sociólogo Danilo Santos de Miranda, com 60, tem do que se orgulhar. Nessas duas décadas, granjeou respeito em todo o país por ter revolucionado a instituição no Estado, inserindo-a como referência nacional às demais unidades graças ao alcance social e eficácia de vários projetos, entre eles o Mesa São Paulo, surgido no Sesc Carmo em plena região da Sé. Na gestão de Danilo Miranda o Sesc ampliou sua presença, em especial nos setores da cultura, esportes e atividades para a terceira idade, tanto na Capital como no Interior. Na cidade de São Paulo, por exemplo, foram suscitados projetos da maior importância, entre eles, o do Centro de Pesquisa Teatral — o famoso CPT comandado pelo renomado diretor de teatro Antunes Filho —, no Sesc Dr. Vila Nova, o Centro Experimental de Música (CEM), no Sesc Consolação, e o Centro Multimídia de Música, no Sesc Vila Mariana. Tiveram impulso considerável e conquistaram a adesão das coletividades onde se inserem os Sescs Pompéia, Consolação, Ipiranga, Belenzinho e Vila Mariana. O novo perfil sintonizou o Sesc São Paulo com os problemas e preocupações da sociedade como um todo e passou a contemplar novos e relevantes temas, como a ecologia, as minorias e a arte popular, entre outros. Fluminense arraigado em São Paulo, membro, entre vários outros, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), da diretoria do Fórum Cultural Mundial e dos conselhos do Museu de Arte Moderna (MAM) e do Instituto Itaú Cultural, Danilo Miranda recebeu a jornalista Ana Maria Ciccacio, de urbs, para uma entrevista da qual seguem os trechos principais e que foi iniciada com o grande projeto do Sesc para o Centro — o Sesc 24 de Maio.

Defina melhor esse perfil.

É um perfil que tem uma transversalidade no respeito e na cidadania. O programa pode variar um pouco, às vezes com ênfase maior no esporte, outras na atividade cultural ou no atendimento à criança e terceira idade. O que importa é essa transversalidade, ou seja, a valorização da cidadania, a fundamentação no caráter igualitário do atendimento, a inserção social e a atração. Esses elementos estão presentes tanto na arquitetura do Sesc quanto em sua programação e no jeito de fazer as coisas segundo uma perspectiva acolhedora, receptiva, de informática de fala amigável. E amigável por que? Porque facilita às pessoas encontrar a informação e a atividade que procuram ou que as interessam ou lhes dará prazer.

Isso explicaria a necessidade de instalações mais modernas no Centro?

Precisávamos de uma unidade de última geração na área central. As atuais são ótimas, mas não de última geração. A idéia, inclusive mais econômica, é no sentido de juntar no Sesc 24 de Maio tudo o que temos no Carmo e na Florêncio de Abreu. Há, ainda, o plano de levarmos também uma unidade que está em um prédio locado, a nossa central de turismo, na Rua Rafael de Barros, no Paraíso, para o novo Sesc do Centro. Essas três unidades serão as matrizes da programação e das atividades no 24 de Maio.

Quais os limites das instalações atuais no Centro?

No Carmo temos uma limitação física, o espaço não permite atividades esportivas. E da Florêncio de Abreu pretendemos retirar os consultórios dentários para um local onde possamos dar melhores condições de atendimento. No 24 de Maio haverá até uma piscina no topo do prédio, quer dizer, a alguns metros do Teatro Municipal, no coração da cidade, e para quem? Para os trabalhadores.

Com que dados o Sesc trabalhou em matéria de demanda para projetar o 24 de Maio?

O que nos orientou, em primeiro lugar, foi a demanda proveniente da grande concentração de trabalhadores do comércio e serviços existente no Centro. O Centro de São Paulo talvez seja o maior centro comercial da América Latina. É um grande shopping a céu aberto, onde temos inúmeros trabalhadores que são a clientela prioritária do Sesc e demandam atendimento em alimentação, odontologia, lazer, cultura e informação, enfim, em todos os programas que oferecemos. Além disso, no Centro de São Paulo há também uma enorme população circulante, graças ao transporte farto (metrô e ônibus), e que também irá se beneficiar. A tudo isso se soma a unidade da Rua Dino Bueno, ao lado do Liceu Coração de Jesus, no Bom Retiro/Campos Elíseos.

O que o Sesc planeja para o período noturno no 24 de Maio?

Como eu já disse, seremos vizinhos do Teatro Municipal, onde há programação noturna quase que diária. Esquemas de estacionamento subterrâneo e de mais segurança no entorno estão sendo prometidos pela Prefeitura. Temos também, ali, a companhia de outras instituições e órgãos municipais, como a Secretaria Municipal de Cultura, no prédio do antigo Cine Olido, e, futuramente, o Centro Cultural do Correios. Imaginamos que se fizermos uma programação típica de nossas unidades, atingiremos o objetivo de proporcionar atividades que entrem pela noite. Eu falo de teatro, de atividades desportivas, de oficinas, de área de alimentação num esquema de suporte à programação, como no Sesc Pompéia e Vila Mariana, por exemplo. Então será gente chegando e saindo o tempo todo. O trabalhador do comércio e dos serviços vai poder, além de tudo, ir ao dentista à noite, depois do trabalho. Imaginamos que toda essa movimentação irá acrescentar um grande dinamismo à região e também contribuirá com o processo de requalificação do Centro.

Quando começam e para quando está previsto o término das obras no 24 de Maio?

O projeto já está pronto. Neste momento encontra-se nas instâncias municipais necessárias para aprovação. Naturalmente, o nível de intervenção proposto no edifício que abrigou a antiga Mesbla equivale ao de uma obra nova. Mesmo não sendo tombado pelo patrimônio histórico, mas estando no entorno de bens tombados, sua fachada será restabelecida no original. Tivemos o cuidado, inclusive, de adquirir outro prédio pequeno, vizinho, na Rua D. José de Barros, com cerca oito metros de frente, para instalar uma estação de serviços completa para atender às necessidades do 24 de Maio, ou seja, elevadores, escadas, sistemas de ar condicionado, de água quente e fria, enfim, como diz Paulo Mendes da Rocha (autor do projeto), uma espécie de navio ancorado ao lado, com tudo. Dentro de mais alguns meses daremos início às obras. Há um empenho enorme das autoridades municipais para agilizar a aprovação do projeto, até porque fazemos parte da contrapartida da cidade ao empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento, destinado à requalificação do Centro, ou seja, nós somos uma parte desse processo. Além disso, todo mundo quer o 24 de Maio o mais rapidamente possível. A partir do momento que as obras tiverem início, acredito que para terminá-las sejam necessários dois anos e meio a três, com previsãode investimento de algo em torno de R$15 milhões.

Hoje se observa uma participação cada vez maior da sociedade organizada e de suas instituições, como o Sesc, no destino das cidades. Como o sr. vê o futuro nesse sentido?

Na prática já existe uma troca intensa entre sociedade e governo para a condução de algumas questões de interesse público. A questão da responsabilidade social/empresarial é algo cada vez mais difundido e presente na sociedade brasileira. O modelo neoliberal de privatização de algumas ou muitas funções do Estado tem como resultado a necessidade de o setor privado assumir posturas, preocupações e obrigações muitas vezes do setor público, ou do Estado, para a solução de problemas da comunidade. Mas tenho muito claros dois aspectos: primeiro, o Estado tem, sim, um espaço importante na sociedade por seu papel como regulador, orientador, indutor e fomentador, sobretudo na área do interesse público, até porque essa atribuição lhe é conferida pela sociedade, e dela não há como escapar. O que me preocupa é o Estado delegar à sociedade o papel de resolver questões do âmbito público, seja no campo da educação, da saúde, da cultura, do transporte, seja no campo da condução mesma da política pública urbana. Isso tem que ser feito pelo Estado. O segundo aspecto diz respeito ao crescimento da responsabilidade da sociedade civil como colaboradora no sentido de se buscar saídas. Organizar um esforço de solidariedade para ajudar a resolver o problema da fome é função da sociedade, não do Estado.

O projeto Mesa Sesc São Paulo, experiência surgida no Sesc Carmo, tão bem sucedida que acaba de se transformar em Mesa Sesc Brasil, a ponto de ser apontado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva como de capital importância para o Programa Fome Zero, seria um exemplo?

É uma contribuição do Sesc como participante da sociedade civil e que tem um caráter propositivo ao conjunto da sociedade brasileira. Mas não é a primeira vez que o Sesc faz isso. Há 40 anos, foi das primeiras instituições no país a propor à sociedade atentar para os seus idosos. O Sesc também foi pioneiro em transformar uma velha fábrica, caso do Sesc Pompéia, em centro cultural. E inovou ao dizer: "Olha, essa coisa do lazer, do tempo livre, do não trabalho também é importante, até mesmo para o trabalho, até mesmo para a pessoa funcionar melhor". Mais recentemente, com a discussão sobre a fome no Brasil, que já tem dez anos – eu estou falando do Betinho, no início dos anos 90 –, o Sesc percebeu que podia contribuir com sua experiência no campo alimentar. E foi criada a estrutura Mesa São Paulo, no Sesc Carmo, exatamente no Centro de São Paulo, região onde essas questões também agudizam a nossa percepção. Para combater o desperdício, o Sesc iniciou um processo de ir buscar alimento de qualidade onde ele estava sobrando — do campo à mesa, passando pelo armazenamento, distribuição e comercialização — distribui-lo a quem estava precisando. Com a mensagem do Fome Zero em âmbito nacional, o que o Sesc fez foi oferecer sua experiência. Assim, já estamos dando o segundo avanço: o primeiro foi transformar o Mesa São Paulo no Mesa Brasil, o que já foi feito em todos os Estados brasileiros onde a instituição tem unidades, e agora oferecemos um segundo desdobramento, que é a interiorização desse, o que foi lançado em outubro no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Lula. Em São Paulo, a interiorização já levou o projeto a cidades como Santos, São José dos Campos e Bauru. Estão para recebê-lo Piracicaba, Araraquara, São José do Rio Preto e outras.

Em uma metrópole tão imensa, competitiva e repleta de problemas, que espaço o lazer realmente ocupa na vida das pessoas?

Muito pouco. Essa é uma questão que exige séria reflexão do cidadão brasileiro que vive nesta metrópole. Tem a ver com qualidade de vida, saúde. É importante discuti-la sob vários aspectos. Um dos mais flagrantes diz respeito ao próprio contexro urbano, ou seja, o que a cidade ofe-rece para que o lazer venha a ser um valor. Nós nos acostumamos a correr atrás, a ser eficazes a buscar resultados, a garantir a sobrevivência e a temer o desemprego. Portanto, há questões graves percorrendo o nosso imaginário na cidade e nossa reação é ter o trabalho como saída. Qualificar nossa vida significa, em primeiro lugar, discutir o nosso papel na cidade. O que podemos fazer por ela até para usufrui-la melhor e melhorar a convivência entre as pessoas? Em quem devo votar para que possa de alguma forma me ajudar a tornar esta cidade melhor? É uma discussão importante e o Sesc, instituição de objetivos claramente públicos e com grande vínculo com a reflexão, promoveu o Arte Cidade e paricipa, por exemplo, do Centro de Estudos da Metrópole, que é uma organização criada recentemente com recursos da Fundação de Amparo à pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e vinculada ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), exatamente nessa perspectiva de aprofundar essa e outras questões relativas à urbe. Além disso, afinadas com a reflexão, todas as nossas ações também têm como perspectiva melhorar a qualidade de vida.

A coordenação do Fórum Cultural Mundial, que será sediado em São Paulo no ano que vem, tem a sua participação. O que é exatamente esse Fórum e qual o seu foco?

O Fórum Cultural Mundial é um evento resultante de três agendas. A primeira, internacional, reúne grandes fundações norte-americanas e européias que atuam no campo social e cultural no mundo inteiro, numa perspectiva de ajuda e colaboração. Elas perceberam a necessidade de reflexão sobre a cultura como força indutora capaz de transformar realmente as sociedades, uma vez que os investimentos apenas no desenvolvimento material e econômico têm se revelado insuficientes para reduzir a pobreza e atender às necessidades das populações. Para isso escolheram em um país ao Sul do Equador a nossa cidade, com suas vantagens e desvantagens, ou seja, com uma população imensa, mas também um transporte razoável, com um multiculturalismo fantástico, mas uma distribuição de renda altamente desigual, enfim, um lugar que oferece um pouco o retrato do mundo atual. A segunda agenda diz respeito à cidade de São Paulo propriamente dita. A Prefeitura nos colocou a seguinte questão: "Queremos, para comemorar os 450 anos da cidade, inserir São Paulo definitivamente nesse mapa da reflexão internacional, pois a metrópole que sedia uma das bienais mais respeitadas do planeta não é importante apenas no mundo dos negócios, mas também no da cultura". Um fórum dessa envergadura é o espaço para essa inserção paulistana. A terceira agenda se refere à uma necessidade de afirmação do próprio país. O ministro Gilberto Gil (da Cultura) quer construir vínculos internacionais significativos, que possam alavancar a cultura brasileira no exterior. O ministro Gil, que é um grande animador desse fórum, tem se revelado uma pessoa muito empenhada na divulgação do evento para trazer grandes nomes internacionais a São Paulo. Além do Ministério da Cultura, da Prefeitura de São Paulo, do Sesc, das secretarias Estadual e Municipal da Cultura, do Sebrae e da Casa Via Magia da Bahia várias instituições estão colaborando, entre elas o World Culture Forun (Fórum Cultural Mundial), sediado em Viena, que recebeu recursos das fundações já mencionadas para o fórum.

Quando ele vai ser realizado?

De 26 de junho a 4 de julho de 2004, no Anhembi, enquanto grande debate. Outra de suas vertentes será o Feirão, espaço de intercâmbio de idéias e propostas e, outra ainda, um amplo festival multicultural, ao qual esperamos que as salas de espetáculos da cidade se integrem, abrindo suas portas a eventos e espetáculos. A perspectiva central é dar vez a quem não tem vez, sobretudo a povos e países que não têm muito espaço no grande quadro da hegemonia cultural mundial. Estou falando de América Latina, África, Ásia e Europa do Leste, prioritariamente. A pergunta é: para onde vamos depois do quadro pintado neste início do século 21? Por trás de tudo, o grande tema inspirador é de um verso de Drummond: "E agora José?" Essa é a provocação do Fórum Cultural Mundial no ano que vem.


  Artigo  
SÃO PAULO DE VOLTA ÀS ORIGENS PARA CRESCER

José Goldemberg*


Com a transferência de três secretarias de Estado e cinco empresas estatais para o Centro de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin pretende, além de uma necessária revitalização de toda região, promover uma volta simbólica da grande metrópole às suas origens, ao pátio do primeiro colégio ou escola em cujas cercanias a nova vila espraiou-se. Nesta volta à escola, nossa cidade poderá reaprender a crescer e até rejuvenescer o sítio histórico aonde foi fundada há quatro séculos e meio, desde que em tal empreitada não despreze as conquistas milenares de nossa civilização, que nos mandam dar à malha urbanizada o mesmo tratamento que damos aos nossos lares residenciais.

Ou seja, da mesma forma como não possuímos subúrbios em nossas casas, torna-se necessário resgatar como lar tanto o Centro quanto a periferia, eliminando para tanto as causas da degradação e os chamados pontos de perigo ou obstáculos que determinaram o seu esvaziamento – a começar pelos congestionamentos infernais daquela velha rótula de avenidas que o circundam, certamente decisivos no êxodo das grandes empresas para as avenidas Paulista e Faria Lima no transcorrer dos anos 70.

Torna-se necessário, enquanto a presente recessão econômica impede a conclusão do Rodoanel, aproveitarmos a oportunidade para colocar a casa em ordem, não apenas embelezando as ruas por onde circulam 2,2 milhões de pessoas por dia como, sobretudo, implementando políticas públicas capazes de colocar em prática as recomendações da Agenda 21 e todo o bom senso que nos leva a investir em combustíveis alternativos para substituir o diesel e a gasolina; em economia de água, energia e matéria-prima; em transporte solidário e demais ferramentas factíveis de implementar a reforma urbana que a presente Sociedade da Informação está a exigir em tempo integral ou on-line...

Ou seja, a instalação de um gabinete de trabalho do governador na rua 15 de Novembro corrige o fato dos governantes terem sido os primeiros a abandonar a região no passado; evita a ociosidade atual de uma infra-estrutura completa, projetada para abrigar as grandes corporações econômicas e dar vazão aos usuários de suas quase 300 linhas de ônibus, sete estações de metrô e duas de trem, além de dar a necessária serventia à malha de fibras ópticas e linhas de alta tensão ali instalada, que compartilha o mesmo subsolo com as fundações mais primitivas dos Campos de Piratininga e seus incontáveis aldeamentos indígenas. Da convivência e amálgama da taipa de pilão e resquícios de cerâmica tupi-guarani com a rede informatizada que dá suporte à globalização em curso, certamente teremos uma sociodiversidade interativa e desafiante, com a cara multirracial e a coragem paulistanas.

Antes disso, porém, o retorno ao Pátio do Colégio deve ser encarado como uma volta à escola e ao aprendizado sobre como viver melhor nesta sociedade digital emergente, aproveitando-se de todas as oportunidades para colocar em prática as medidas que a Secretaria de Estado do Meio Ambiente preconiza para finalmente darmos àquele acampamento tão bem descrito pelo padre Lebret, no século passado, as qualidades do grande lar coletivo que o povo paulista e a Nação merecem. Tais medidas, destinadas a purificar os despejos dos canos de escapamento dos veículos automotores e a evitar dispêndios desnecessários de energia e matérias-primas, certamente tornarão o ciberespaço metropolitano em espaço competitivo de geração de riquezas e, entre estas, uma qualidade de vida compatível com a grandeza bandeirante e nosso amor ao chão natal.

* José Goldemberg: É físico e secretário de Estado do Meio Ambiente. Doutorado em Ciências Físicas pela USP, da qual foi reitor de 1986 a 1990.


  Urbanismo  
BOM RETIRO, CENTRO da moda

Cleiton Honório de Paula*

A questão urbana deve ser compreendida como questão humana, então repleta de complexidades e também de possibilidades. Os projetos urbanos com sentido amplo,dentro de nossa sociedade já bastante urbanizada, têm que ser um veículo de transformações sociais, alterando a tradicional perpetuaçãoda miséria como forma recorrente de controle político.

É importante desenvolvermos práticas que sejam políticas e técnicas e tenham máxima eficiência. Mas ainda, é urgente restabelecermos nossa relação afetiva com a cidade para a produção de ações inteligentes. Com trajetória singular, o Projeto Bom Retiro partiu de um estudo técnico privado para a comunidade e, após um longo desenvolvimento, foi colocado para as esferas de governo, conquistando apoio e viabilizando novas realidades

O Bom Retiro, um dos lugares mais tradicionais da região central de São Paulo, está preparando a maior transformação de sua longa história de 471 anos. Principal pólo de produção de moda da América Latina e lar de muitas gerações de imigrantes, o velho "Bonra" está se unindo a diversos parceiros em torno de idéias como democracia participativa, planejamento estratégico e trabalho coordenado.

O Projeto Bom Retiro é um projeto local e integrado de desenvolvimento econômico, cultural, social e ambiental-urbanístico que vem sendo elaborado desde o ano 2000. Propõe, pela potencialização das características do bairro, ações para o enfrentamento imediato de suas problemáticas e para o estabelecimento de novos parâmetros de qualidade de vida. Ao mesmo tempo, está promovendo o fortalecimento da organização comunitária local, base essencial para a pretendida longevidade das realizações.

O Projeto está fundado sobre uma análise crítica de diversos trabalhos de requalificação urbana, de ação social, reestruturação empresarial e de gestão compartilhada concebidos ao longo dos anos de 1990. O desafio foi elaborar um plano que pudesse vencer as recorrentes dificuldades específicas de São Paulo a partir de suas imensas possibilidades e que pudesse desencadear um processo contínuo de aprimoramento da organização comunitária local em todos os sentidos.

A escolha do bairro foi propositada. Das diversas regiões da cidade consideradas, o Bom Retiro possui muitos elementos urbanísticos facilitadores, baixo grau de degradação e um bom nível de mobilização comunitária. Monumentais equipamentos culturais continuam sendo instalados na região e sua impressionante estrutura produtiva industrial, perfeitamente compatível com a morfologia da região central, cresce de modo importante na pauta do comércio exterior nacional. E tudo com muito charme, glamour e lucro.

O primeiro desafio foi iniciar a construção de uma consciência coletiva local sobre a importância do planejamento como modo operacional e do projeto como seu instrumento principal. Um procedimento de trabalho foi criado para ter precisão e apuro, organização e eficiência, articulação e estratégia. Dados físicos e humanos foram levantados, cadastros atualizados, informações conferidas. As estruturas produtivas locais foram melhor compreendidas, novos procedimentos foram estudados. Grande parte das instituições e associações locais foi contactada, bem como os corpos técnicos de muitos órgãos da administração pública. Essa etapa foi essencial para dar consistência e credibilidade ao Projeto, tanto no bairro como nas esferas externas.

O segundo momento foi o de elaboração do estudo preliminar. Após uma revisão crítica junto à principais lideranças do bairro, ficou definido o programa final e dele resultou um conjunto de propostas. As propostas que demonstraram maior possibilidade de realização foram detalhadas e constituíram os sub-projetos que compõem o Projeto Bom Retiro. Os trinta sub-projetos são estruturadores, tendo por função principal criar um processo de desenvolvimento permanente e serão implantados nos próximos cinco anos.

A estruturação financeira foi elaborada a partir de diversos programas, fundos e redes existentes, estatais e privados, facilitando a incorporação de novos agentes e a criação de novas operações. A composição dos investimentos variará conforme o sub-projeto, uma vez que os temas abordados são diversos, decorrendo variadas conexões entre participação e retorno. A pulverização do arco de parceiros se mostrou fundamental para a definição de um escopo de sub-projetos mais amplo possível. Por outro lado, as operações empresariais possuem lastro vinculado ao compromisso social e ambiental.

O Projeto Bom Retiro tem incorporado que apenas atividades produtivas possibilitam o resgate social. Pretende consolidar o Bom Retiro como centro e marca referencial da indústria da moda brasileira pela constituição de um cluster com características inéditas. A reorganização, a coordenação e o planejamento integrado da estrutura produtiva do bairro é essencial para a criação de um novo campo potencial de crescimento. O incremento da atividade econômica local irá gerar riqueza e empregos e diminuir diferenças, invertendo o lucro em capital para o próprio bairro e por conseguinte para a cidade.

A cultura está privilegiada como fator essencial de referência e afirmação humana. Fortalecendo a trama cultural de uma comunidade composta por muitas tradições, será consolidado um patrimônio de valor inestimável, com grande incentivo à manifestação plural no cotidiano da vida local. Por outro lado, a atividade no mercado cultural será fomentada aproveitando a situação privilegiada do bairro, conectando as instituições existentes e criando outras, com a afirmação de um pólo turístico-cultural sem precedentes no país.

Haverá um conjunto de ações contundentes contra a desigualdade social, mal maior a ser enfrentado por qualquer atitude contemporânea. As mazelas conseqüentes de sucessivos desmandos e equívocos devem ser respondidas com ações emergenciais, mas reintegradoras plenas de cidadania, sem a demagógica cristalização da miséria. Como o corpo da indústria local é formada por pequenas empresas que requerem mão-de-obra intensiva, será possível uma distribuição equilibrada da geração de riqueza. A meta é desencadear um processo democrático permanente de ascensão social integral, alterando a estrutura atual e fortalecendo as instâncias locais de discussão e trabalho.

Será também feita a reestruturação do meio ambiente urbano, trazendo os processos educativos como vitais para o sucesso das ações. A promoção do desenvolvimento humano como forma central de recuperação ambiental se alinha com os mais avançados conceitos no mundo. Haverá completa revisão da estrutura e da infra-estrutura urbana, mas as sutilezas do bairro serão respeitadas. O plano urbanístico local está utilizando instrumental mais refinado, preciso e adequado à diversidade do local. A grande meta é a construção de um novo ponto de equilíbrio na situação natural transformada que é a cidade.

Os trabalhos serão conduzidos e implantados através de uma organização social sem fins lucrativos especialmente criada. Após a conclusão dos objetivos, essa associação, que reúne também as principais personalidades do bairro, será transformada em fundação. A futura fundação irá manter os procedimentos adotados e ser uma estrutura permanente de encontro e realização à disposição da comunidade do bairro. Muitos sub-projetos, entretanto, gerarão instituições com figuras jurídicas próprias.

Hoje há uma forte e determinante parceria com a Prefeitura, em especial na reestruturação urbanística. O acompanhamento próximo e atencioso da administração municipal possibilitou que muitas etapas fossem vencidas com rapidez. Já o apoio do Governo do Estado (responsável por pesados investimentos no patrimônio cultural do bairro nos anos de 1990) estabelece importante e especial relação para o desenvolvimento econômico mais amplo.

O Sebrae e outras agências e entidades voltadas para as atividades empresariais são também parceiros centrais para a viabilização dos trabalhos. A participação de diversas instituições civis, em particular a ABIT e a Associação Comercial, vem se mostrado fundante para uma melhor densidade política. O trabalho conjunto com núcleos da Universidade de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas dá aos sub-projetos alta qualificação acadêmica e técnica. Por fim, a presença dos melhores profissionais de diversas áreas num grupo de trabalho que reúne nomes como Rafic Farah e Paulo Borges e empresas como Pinheiro Neto Advogados garante a excelência dos resultados.

O Projeto Bom Retiro se coloca como contribuição à necessidade urgente de tornar todos nós capazes de construir seus próprios caminhos, cidadãos mais integrados na construção de um mundo mais justo e solidário. Será com essa sociedade renovada que teremos uma cidade mais eficiente, equilibrada e bela. Para combater a desigualdade social e avançar contra a degradação do meio ambiente urbano, maus maiores de nosso tempo, apenas a inteligência funcionará. Afinal, como diria Lúcio Costa "Fora da inteligência não há solução".

Um bairro resumo da cidade

A história do Bom Retiro começa em 1532, quando o Cacique Tibiriçá travou o primeiro contato com Martim Afonso de Souza na aldeia de Nhapuambuçú, no local onde hoje a Avenida Tiradentes separa a Pinacoteca da Igreja de São Cristóvão. Durante todo o período colonial, foi lugar de conventos e de chácaras de "retiro", com famosos pomares e jardins. Em 1798 foi criado o primeiro Jardim Botânico do país que, aberto ao público, passou a ser o Jardim da Luz.

Em 1867 foi inaugurada a ferrovia da São Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí. Pelo trem chegaram os italianos, os portugueses e os espanhóis fugindo da fome e da miséria de seus países esgotados. Trabalhando como operários nas fábricas que se instalavam ao longo da ferrovia, fixaram-se em vilas e casas de aluguel do bairro. Na virada para o século XX foram construídos os grandes monumentos republicanos como a nova Estação da Luz Sorocabana, a Pinacoteca do Estado e a Escola Politécnica. O Jardim da Luz foi totalmente remodelado à feição inglesa, com fontes, grutas, lagos, pontes rústicas. Por essa época aconteceram na chácara do norte-americano Charles Dulley, engenheiro da ferrovia, os primeiros jogos de "foot-ball", com as bolas trazidas por seu primo Charles Miller. O esporte se popularizou e deu origem a inúmeros times de várzea e ao próprio Corinthians, fundado pela comunidade espanhola em 1910.

No período entre guerras chegaram outros imigrantes fugindo das perseguições e das tristes condições de vida do Velho Mundo. Os judeus, os gregos, os armênios, os árabes traziam longa tradição comercial e seguiram trajetórias diferentes das demais comunidades. Todos estes imigrantes trouxeram suas culturas, fundaram inúmeros templos e igrejas, bem como diversas organizações mutualistas e associações culturais. No final da década de 1960, teve início o esvaziamento da região central da cidade e a deterioração do transporte ferroviário. O bairro passou por uma fase de decadência ao longo dos anos de 1980, só recuperada pela chegada vigorosa da comunidade coreana que transformou completamente a paisagem do bairro. Mais uma vez o Bom Retiro significou oportunidade e foi vestido de lojas novas, com criação própria, gosto apurado e grande capacidade produtiva. Por outro lado, houve uma retomada recente dos grandes investimentos públicos que trouxeram a região de volta ao centro da metrópole.

Sua tradicional ligação com a malha ferroviária do estado em breve abrigará o maior entroncamento do transporte de alta capacidade quando, sob a Estação da Luz, circularão por dia 300.000 pessoas em seis linhas de trem e duas linhas de metrô, com ligações diretas para todas as regiões da metrópole de São Paulo. Além disso, a possibilidade de instalação do terminal remoto aeroportuário na antiga Estação Júlio Prestes, com futuras extensões para o interior do estado, poderá novamente configurar o Bom Retiro como uma das principais portas de entrada da cidade.

O bairro abriga um complexo histórico-arquitetônico de grande valor, quase totalmente recuperado, que já é referência mundial pela riqueza e porte das instituições. O arco cultural formado pela Sala São Paulo, pela Universidade Livre de Música Tom Jobim, pelo Museu do Imaginário Popular, pela Pinacoteca do Estado e pelo Museu de Arte Sacra atrai hoje milhares de pessoas por ano. A Oficina Cultural Oswald de Andrade, o Museu de Saúde Pública e o Arquivo Judaico completam o conjunto que em breve contará com a Estação Luz da Nossa Língua. Recebe ainda milhares de romeiros que afluem ao túmulo do Beato Frei Galvão e à capela de Santo Expedito, ao lado de outras tradicionais igrejas católicas, armênias, gregas, evangélicas, coreanas e doze sinagogas. Reúne dezenas de restaurantes e empórios com as mais variadas expressões gastronômicas.

Como demonstração de seu vigor urbano, abriga uma impressionante atividade econômica produtiva consolidada, com características e valores essencialmente contemporâneos: a indústria da moda. O volume do faturamento em suas mais de 2.000 unidades produtivas supera os R$ 6 bilhões por ano, gerando 50 mil empregos diretos, e demonstra a força econômica do bairro. A imensa maioria das vendas é feita para atacadistas, alguns representando grandes redes varejistas, que vêm de várias regiões do país, da América Latina e de países da Àfrica. O grupo de exportação local vende para quase toda a Europa e já começa relações comerciais com a Rússia. Recebe em média, diariamente, 70 mil compradores e consumidores, que circulam por suas efervescentes e coloridas ruas.

Foram estas características especiais que possibilitaram o desenvolvimento do Projeto Bom Retiro, nascido a partir da vitalidade urbana de um bairro cujo discurso de esperança, trabalho e paz pode nos fazer lembrar a espetacular São Paulo que temos.


*Arquiteto, Idealizador do projeto e Diretor Geral da Associação Projeto Bom Retiro.


  Cultura  
UM QUADRILÁTERO MODERNO NO CENTRO

Avenida São Luiz e entorno concentram alguns dos exemplares mais
representativos da arquitetura de São Paulo

Ana Francisca Ponzio e Ana Maria Ciccacio
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Existe no Centro paulistano uma região privilegiada por sua alta concentração de respeitáveis exemplares da arquitetura moderna no Brasil, alguns com projetos assinados por mestres de projeção internacional, caso de Oscar Niemeyer, Franz Heep, Gregori Warchavchik e Jacques Pilon. Essa região, que tem por eixo a Avenida São Luiz, ligeiramente amplificada por seu entorno imediato, bem poderia se tornar conhecida como "Quadrilátero Moderno" — uma licença urbanística inspirada nos vôos libertários das chamadas licenças poéticas, uma vez que não configura um quarteirão na acepção plena do termo. Mas se levado em conta que os edifícios modernos que aí se encontram estão ao alcance de uma leve caminhada, a licença se justifica. A maioria desses prédios têm como característica alguns elementos-chave da arquitetura moderna, como a ausência de recursos meramente retóricos e ornamentais, escassez de citações de estilos históricos europeus, visual despojado e incorporação de inovações técnicas da segunda metade do século XIX e início do século XX, entre elas a estrutura de concreto e elevadores.

Um dos importantes exemplares da arquitetura moderna em São Paulo — o Edifício Esther, contemporâneo do famoso Palácio Capanema, no Rio de Janeiro, cujo nome original é Edifício do Ministério da Educação e Saúde — localiza-se na Praça da República, 76 a 80. Foi projetado pelos arquitetos Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho e inaugurado em 1938, mantendo até hoje o uso misto — residencial e comercial. Notabiliza-se por suas linhas retas e ausência de ornamentos, além de estrutura rigidamente modulada, constituindo uma síntese das principais características da arquitetura moderna da época — estrutura independente, fachada livre, janela em largura total, volume sobre pilotis e terraço-jardim —, estando por isso mesmo duplamente tombado: pelo Conpresp e pelo Condephaat.

Ainda na Praça da República, mas já na cabeceira da Avenida São Luiz, ergue-se do 177 ao 199 o Edifício Eiffel, projetado por Oscar Niemeyer, totalmente residencial na parte superior com comércio no térreo e sobreloja, que foi inaugurado bem mais tarde, em 1956. É um exemplar valioso por ser um dos primeiros prédios de São Paulo com apartamentos duplex e uma vantagem adicional de silêncio: os quartos se encontram no piso inferior, protegidos dos ruídos do apartamento de cima. Além disso, segundo o arquiteto e professor da FAUUSP Lucio Gomes Machado, "é uma aplicação de uma forma de edifício proposta por Le Corbusier — projeto de prédio com planta em esquema de "Y" —, que ele mesmo nunca conseguiu concretizar". A planta do Eiffel, com sua torre central e dois braços laterais, tem uma disposição similar a esse tipo de projeto corbusieano que não chegou a sair do papel. "Acrescente-se que, do mesmo modo que o Copan e outros edifícios incorporados pelo grupo Roxo Loureiro, o Eiffel propõe extensas áreas comuns diretamente ligadas à rua, com lojas, área de convívio, clube etc", diz o professor.

De chácara a espigões

A Avenida São Luiz, como se conhece hoje, resulta de duas grandes transformações urbanísticas, analisadas em profundidade pelo arquiteto e também professor da FAUUSP José Eduardo Lefévre no livro De Beco a Avenida, a História da Rua São Luiz, a ser publicado pela Edusp no começo de 2004. A primeira, em fins do século XIX, fragmentou a antiga Chácara do Senador Souza Queiroz em grandes lotes para seus filhos, que edificaram palacetes na ainda modesta e estreita Rua São Luiz. Por volta de 1930, ali havia "17 palacetes ou casas de tamanho razoável (isoladas das divisas), mais dois pares de casas geminadas e uma vila de casas para a classe média, a Vila Normanda", conta Lefèvre.

Por essa época, contudo, São Paulo já crescia em ritmo acelerado e logo essa área seria absorvida pelo Centro em expansão. A Rua São Luiz começou a ser alargada em 1942, como parte do projeto elaborado durante a primeira gestão de Prestes Maia para melhorar a circulação viária na cidade. De 13 metros passou a 33. Com isso, o ambiente quase bucólico se alterou radicalmente, permitindo a segunda grande transformação da ocupação do solo no local. "Assim como havia sido rapidamente ocupada nos últimos cinco anos do século XIX com os palacetes, a São Luiz foi rapidamente transformada nas décadas de 1940 e 1950. Em sua nova face, manteve o caráter de local de moradia para uma população de alto poder aquisitivo, mas já com uma característica totalmente diversa. Ruptura do padrão residencial de palacetes, verticalização e presença de atividades comerciais e culturais", explica Lefèvre.

Com a demolição dos palacetes, os grandes lotes — praticamente os maiores da área central — foram sendo ocupados por edifícios acima de 12 andares a partir de 1944, sendo os primeiros os três prédios do Conjunto São Thomaz/Santa Virgília/Santa Rita, e o último, o Hotel Eldorado Boulevard, inaugurado em 1973. Em meio de quadra, entre os exemplares da arquitetura moderna presentes ao longo da Avenida São Luiz, há um notável prédio do arquiteto Franz Heep, o Edifício Ouro Preto, residencial, projetado por Franz Heep, e ao lado dele, com o mesmo uso, o Edifício Moreira Salles, de Gregori Warchavchik.

"Do outro lado da avenida temos o Edifício Conde Sílvio Penteado (números 130 a 140), de Ricardo Capote Valente, um arquiteto não muito conhecido, mas que concebeu um prédio que segue quase à risca os preceitos da arquitetura moderna (já citados), como firmados por alguns grandes nomes internacionais, entre eles o francês Le Corbusier", pontua Lefèvre. E nas esquinas da São Luiz, três ícones da arquitetura paulistana, como se vê a seguir.

O Conjunto Metropolitano, com sua famosa Galeria Metrópole, criado por Salvador Candia e Giancarlo Gasperini, faz uma agradável e proporcionada ligação entre a Praça D. José Gaspar, a Avenida São Luiz e a Rua Basílio da Gama. Harmonicamente projetado tem como uma de suas mais fortes características a interação entre espaço público e privado, já que as entradas da galeria convertem o térreo num espaço permeável à circulação de pedestres entre os três logradouros. Nos rebeldes anos 60, a galeria, além do célebre cinema, era palco de artistas em começo de carreira. Caetano Veloso e Gilberto Gil deram lá os seus primeiros passos em São Paulo, tendo por padrinhos alguns paulistas como Paulinho Nogueira.

O Edifício Itália, na esquina da São Luiz com a Avenida Ipiranga, divide com o Edifício Altino Arantes (edifício sede do Banespa) e o Edifício Copan a primazia dos símbolos de São Paulo. Como o Conjunto Metropolitano, o Itália do arquiteto franco-alemão Franz Heep, construído sobre os terrenos do Circolo Italiano — ainda hoje um dos mais altos de São Paulo, com seus 46 pavimentos — foi projetado para seu térreo também servir de interligação entre os dois logradouros, mas por questões de segurança, na atualidade tem uma de suas entradas fechada. Franz Heep nasceu nos Sudetos como recorda Lucio Gomes Machado, região dominada durante algumas décadas pela Alemanha e hoje situada na República Checa. Mas também morou na França, onde trabalhou com Le Corbusier.

Bem próximo do Edifício Itália ergue-se o Edifício Comandante Linneu Gomes, do arquiteto Oswaldo Arthur Bratke, inaugurado em 1961, que também assina o projeto do Edifício Renata Sampaio Ferreira, outro excelente exemplar da arquitetura moderna, localizado na Rua Araújo, 216.

Na outra ponta, o Edifício Ambassador e Conjunto Zarvos (268 e 258 da Avenida São Luiz), projeto do arquiteto Júlio Neves, figura, segundo Lefèvre, entre os interessantes exemplares da arquitetura moderna em São Paulo, e pelo seu térreo interliga as avenidas São Luiz e Consolação. "Pena que tenha fechado o restaurante Padock", lamenta Lefèvre, se bem que ainda mantenha o chame de suas lojas.

Casos à parte

O Edifício Louvre, no 192 da Avenida São Luiz, tem uma história um pouco mais complicada. De características mais ecléticas, porém com vários elementos da arquitetura moderna, foi projetado e construído por João Artacho Jurado que, por não ter diploma de arquitetura e ser um autodidata, granjeou muita antipatia entre os arquitetos. Jurado também projetou os edifícios Bretagne (na Avenida Higienópolis) e Viadutos (no Viaduto Jacareí com Rua Santo Antonio).

Na opinião de seus críticos, um "sub-Gaudí" (Décio Pignatari) ou um "Gaudí de arrabalde" (Sérgio Teperman), talvez por ter deixado sua marca personalíssima em São Paulo, combinando elementos modernos com fachadas coloridas e que empregam grande diversidade de materiais. "Hoje há uma certa revisão crítica de seu trabalho", diz Lefèvre. "O motivo de sua rejeição na época era o excesso de ornamentação. Ao lado das linhas sóbrias e homogêneas do vizinho Edifício Conde Sílvio Penteado, ele provoca um interessante contraste." E está bem recuperado. Graças à atuação da Ação Local São Luiz, integrante do Programa de Ações Locais de zeladoria urbana criado pela VIVA O CENTRO, o condomínio restaurou sua fachada e está gozando de isenção por 10 anos de IPTU. Outros edifícios na mesma situação são o Princesa Isabel e o Santa Rita. "O Itália está com projeto semelhante em estudos pela Companhia do Restauro", revela Francisco de Paula, da Ação Local São Luiz.

Outro caso nem sempre mencionado entre os exemplares de arquitetura moderna é o do edifício do Hotel Hilton, projetado pelo arquiteto Mário Bardelli e inaugurado em 1971. Trata-se de um dos últimos grandes edifícios construídos na área do Distrito República, no chamado Centro Novo, antes do período de certa letargia na região, observada a partir da década de 70. Foi o primeiro hotel de cadeia internacional, de alto nível, a ser implantado em São Paulo, contanto com espaços para convenções, teatro e restaurantes. Por muito tempo foi considerado um dos símbolos de São Paulo. "Seus pavimentos inferiores, ocupando toda a projeção do terreno, configuram a base para o apoio do volume cilíndrico, o que torna sua presença marcante no cenário do Centro", diz Lucio Gomes Machado, tendo por guia uma idéia mais abrangente de arquitetura moderna (ver o box Arquitetura futurista, art-déco ou moderna?).

E há, ainda, o Edifício da Biblioteca Mário de Andrade, projetado e construído por Jacques Pilon, responsável pela introdução de novos conceitos para os edifícios de escritórios em São Paulo. "O edifício da Mário de Andrade, cujo nome homenageia seu idealizador, tem formas que tentam conciliar um certo classicismo com volumes vinculados ao modernismo, à maneira de algumas tendências da arquitetura moderna adotadas na Alemanha e na Itália na década de 30", lembra Lucio Gomes Machado. O seu importante acervo atrai, como atraiu no passado para a região — então o ponto de charme da cidade, concentrando a vida social e boêmia — importantes intelectuais em busca de dados para seus projetos de pesquisa.

Copan

Um dos mais belos exemplares da arquitetura moderna em São Paulo é, sem dúvida, o Edifício Copan, com planta em "S", na Avenida Ipiranga, 200. Cerca de 5 mil moradores de todas as classes sociais vivem em 1.160 unidades, que vão de quitinetes de 29 m2 a amplos apartamentos de até 214 m2. Um enorme sucesso do ponto de vista da convivência na diversidade social. O Copan do arquiteto Oscar Niemeyer com a colaboração de Carlos Lemos é uma cidade com população maior do que 450 municípios do país e está para entrar em reforma, com obras orçadas em mais ou menos R$ 20 milhões, segundo seu síndico, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, também presidente da Ação Local Ipiranga I.

O Copan é resultado da agregação de vários lotes vizinhos à São Luiz, comunicando-se com esta avenida através da parte baixa do Edifício Conde Sílvio Penteado. Essa ligação, um item importante da arquitetura moderna, tem hoje circulação restrita e controlada. Por seu volume, o Copan tem uma presença marcante quando visto à distância. No entanto, pode passar despercebido das ruas vizinhas, com exceção da Avenida Ipiranga. "O Copan foi projetado de tal forma que deveria ter um prédio situado entre ele e a Avenida Ipiranga, mais baixo, que inicialmente seria um hotel do mesmo grupo que o construiu, e que era do arquiteto Henrique Mindlin", lembra Lefèvre. "Mas no final esse prédio acabou não sendo construído e, em seu lugar, foi erguido o edifício que hoje é do Bradesco, um projeto interessante do arquiteto Carlos Lemos, mas a parte térrea, na ligação com o Copan, ficou um pouco fechada. Não é uma ligação tão aberta, a meu ver, como seria desejável."

Para Lucio Gomes Machado, o Copan é uma das obras de Niemeyer em que o arquiteto imprimiu uma revisão das propostas iniciais da arquitetura moderna, conforme divulgada por Le Corbusier e outros mestres europeus. "No Copan, Niemeyer introduz a curva, apropriando-se da liberdade permitida pelo concreto armado, em contraposição aos volumes prismáticos das décadas de 20 e 30."

Em pontos opostos

Nesta mostra, que não tem a pretensão de ser completa, nem de esgotar o assunto, mais dois edifícios merecem figurar no quadrilátero moderno: o Edifício do IAB, na Rua Bento Freitas, 306 a 314, e o Edifício O Estado de S. Paulo, na esquina das ruas Major Quedinho e Martins Fontes.

O prédio da Bento Freitas não é apenas a sede da seção paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), mas também um edifício que concentra escritórios de arquitetos. Paulo Mendes da Rocha, Haron Cohen e Ciro Pirondi têm escritórios ali. A Fundação Vilanova Artigas também. O edifício resultou do esforço conjunto de um grupo de arquitetos comprometidos com a implantação e a difusão dos princípios da arquitetura moderna, num momento marcado, no imediato pós-guerra e após o regime ditatorial de Getúlio Vargas, pelo clima de redemocratização do país e do "ressurgimento" paulista.

Projetado por Rino Levi e Roberto Cerqueira Cesar, Jacob Ruchti, Miguel Forte e Galiano Ciampaglia, Abelardo de Souza, Hélio Duarte e Zenon Lotufo, selecionados por concurso julgado por Oscar Niemeyer, Hélio Uchôa e Firmino Saldanha, é síntese do que havia de mais representativo no repertório da arquitetura moderna brasileira de então. Além disso, incorporou uma série de obras de arte de indubitável valor de autoria de Alexander Calder, Antonio Bandeira, Bruno Giorgi e, posteriormente, de Ubirajara Ribeiro. O edifício, que está para ser restaurado a partir de projeto coordenado pelo arquiteto Lucio Gomes Machado, alcançou com o tempo um significado simbólico como palco e fórum permanente de lutas sociais pela justiça e liberdade e pela melhoria das condições da profissão do arquiteto.

Quanto ao Edifício O Estado de S. Paulo, quase frontal à Avenida São Luiz, que foi construído para sede desse importante matutino paulista e também abrigou os estúdios da Rádio Eldorado e o famoso Hotel Jaraguá, o projeto é de Jacques Pilon. Segundo o arquiteto Miguel Juliano, que responde pela reforma do prédio para sediar o hotel Holiday Inn Select Jaraguá, prestes a entrar em regime de soft opening e com inauguração prevista para o dia 25 de janeiro de 2004 — o antigo Hotel Jaraguá foi inaugurado em 25 de janeiro de 1954, nos 400 anos da cidade —, "foi Franz Heep quem o vestiu de modernidade". Heep, trazido por Pilon ao Brasil, havia trabalhado 20 anos no escritório de Le Corbusier, além de ter sido grande amigo de Walther Gropius, o homem da Bauhaus, e outro dos grandes nomes da modernidade na arquitetura do século XX.

O paulistano, geralmente desatento em sua pressa de cruzar o Centro, pouco dá conta da riqueza existente no quadrilátero moderno. Mas ela está lá, generosa, com os térreos de alguns de seus edifícios em geral abertos, com comércio e comunicando logradouros entre si. Um convite à fruição da arquitetura como arte.

* Z8-200 é uma categoria do zoneamento que garante a preservação de edifícios de interesse histórico e arquitetônico e, a partir da Resolução 44/1992 do Conpresp, também indica que esses edifícios se encontram em processo de tombamento, segundo informações colhidas no DPH.

** Além da proteção indicada, a quase totalidade dos edifícios do quadrilátero moderno encontra-se em área envoltória de outros bens tombados.

ARQUITETURA FUTURISTA, ART-DÉCO OU MODERNISTA?
LUCIO GOMES MACHADO*

Quando Gregori Warchavichik, Rino Levi ou Flávio de Carvalho projetavam suas obras pioneiras em São Paulo, muitas

pessoas se chocavam com aquela "arquitetura futurista", um "estilo" estranho, importado da Europa e que não teria qualquer relação com a cultura local.

Ainda hoje, quando não se sabe muito bem como qualificar uma nova proposta de arquitetura, é comum chamá-la de "futurista". Pois futurista deve designar um movimento artístico surgido na Itália, após a Primeira Guerra Mundial, sob a liderança de Marinetti e que teve pouca repercussão na Arquitetura.

Ao escapar desta primeira armadilha, é freqüente encontrarmos a designação de art-déco para os edifícios que prenunciavam a renovação que se seguiria com a ampla adoção, entre nós, da arquitetura moderna. Art-déco designa precisamente um estilo de decoração vinculado ao que foi propagado pela Exposition Internationale des Arts Décoratifs e Industriels Modernes, organizada em Paris, em 1925.

Outra armadilha. Em razão da predominância de formas retilíneas e da aplicação de ornamentos geometrizados, o art-déco é muitas vezes assimilado a uma forma de expressão arquitetônica, sobretudo quando se trata de formas que têm como referência uma tendência desenvolvida na Alemanha e na Itália, nas décadas de 20 e 30, com preponderância de plantas e fachadas formadas por retângulos associados a semi-círculos.

A rigor, essas expressões designam diferentes faces da arquitetura moderna.

São várias as referências que podem caracterizar a arquitetura moderna. Por exemplo, a utilização de algumas inovações técnicas que caracterizaram a segunda metade do século XIX e início do século XX: estruturas de aço ou concreto, vedações com vidro, elevadores e outros equipamentos mecânicos, elementos fabricados em usina etc. Isto é, o edifício passava a ser um produto industrial, que deveria atender aos novos programas e às grandes massas urbanas.

Para atender a estas novas características, novas formas de projetar foram desenvolvidas, buscando analogias nas vanguardas artísticas do século XX – sobretudo no cubismo – e deixando de lado a rígida composição e o vocabulário do neoclassicismo, liberando o universo formal ou identificando a forma do que será construído com as funções que ali seriam abrigadas, mas eliminando sempre, radicalmente, o ornamento artesanal.

Cuidado com certos rótulos. Nem sempre designam corretamente o conteúdo.

* Arquiteto, professor da FAUUSP.


  Cultura  
PRESENÇA ALEMÃ

Com rico acervo, Instituto Martius-Staden, no Centro de São Paulo, atende pesquisadores e responde sobre a genealogia de famílias de origem germânica do Brasil

Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Entre a numerosa concentração de equipamentos culturais existente no Centro de São Paulo, um dos maiores arquivos brasileiros de livros e documentos retratando a presença alemã no país acha-se instalado em quatro andares do prédio de nº 59, na Rua 7 de Abril. Nesse endereço, discretamente estabelecido, o Instituto Martius-Staden de Ciências, Letras e Intercâmbio Brasileiro-Alemão disponibiliza seu precioso acervo a pesquisadores, professores, estudantes e quantos mais se debruçam sobre a temática teuto-brasileira. O Martius-Staden enquadra-se como um dos grandes centros de estudo para assuntos ligados à imigração dos povos de língua alemã, assim como à literatura, história e cultura da Alemanha.

Entidade de utilidade pública sem fins lucrativos, mantida pela Fundação Visconde de Porto Seguro, o Instituto Martius-Staden existe desde o começo do século XX, mais exatamente desde 1916. Tem como origem a comunidade de professores alemães do maior colégio germânico da época, a Deutsche Schule (Colégio Alemão), que se reuniu com o objetivo de oferecer cursos de alemão a brasileiros e de português a alemães que chegavam ao Brasil, além de organizar festas, palestras, espetáculos teatrais, concertos e projetos de trabalho.

Em 1935, esse grupo de professores fundou a Associação Hans Staden e, em 1938, o Instituto Hans Staden. Nessa época, a instituição ficou responsável pelo arquivo da história da colônia alemã em São Paulo, fundado pelo Colégio Alemão em 1925. Além desse arquivo, composto por documentos, artigos de jornais e um catálogo de mais de 100 mil fichas, foi se desenvolvendo uma biblioteca, que hoje possui mais de 30 mil livros sobre a política do país, a imigração alemã, artes, literatura, história e filosofia (leia mais em Acervo).

Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, o instituto teve de interromper suas atividades, mas voltou a funcionar em 1951, graças à colaboração financeira da Fundação Martius. Em 1997, o antigo Colégio Alemão, já transformado em Fundação Visconde de Porto Seguro — hoje com 10 mil alunos —, reassumiu a instituição, passando a chamá-la de Instituto Martius-Staden de Ciências, Letras e Intercâmbio Brasileiro-Alemão, ou seja, uma dupla homenagem: a Hans Staden, o aventureiro alemão do século XVI que esteve no Brasil, foi aprisionado por tubinambás e, de volta à Europa, escreveu um livro contando sobre a experiência no cativeiro, e Karl Friedrich Philippe von Martius (1794-1868), que junto com Johann Baptist von Spix (1781-1806) e o pintor Thomas Ender produziu um dos mais aprofundados estudos sobre a fauna e flora brasileiras feitos no século XIX.

Atividades

Segundo Dirk Brinkmann, diretor do instituto desde 2001, a possibilidade de mudança do Centro para outro bairro nunca foi cogitada pelo Martius-Staden, uma vez que, mesmo mudando de endereço, a instituição sempre esteve no Distrito República. "Já estivemos na Rua Barão de Itapetininga, permanecemos por décadas na Rua Conselheiro Crispiniano e, em 1997, reunimos todo o nosso acervo na Rua 7 de Abril. É o nosso lugar", diz o diretor.

Hoje não existem mais cursos de línguas no instituto. A biblioteca tornou-se o carro-chefe da entidade, já que abriga em seus três andares uma das maiores e mais completas coleções sobre história do Brasil e da imigração alemã. O arquivo do quarto andar também possui vastas informações, que estão abertas a consultas de estudiosos e do público em geral.

O Martius-Staden também realiza constante intercâmbio cultural com instituições alemãs e organiza exposições, palestras, concertos, lançamentos de livros relacionados às atividades germânicas no Brasil e brasileiras na Alemanha e a semana alemã de Campinas (SP). Além disso, anualmente o instituto promove a entrega do Prêmio Martius-Staden às personalidades que mais se destacaram na promoção do intercâmbio Brasil-Alemanha, e publica há 49 anos seu anuário, com conteúdo que se estende da arte e da literatura à questão da identidade dos estrangeiros no Brasil. A edição deste ano deve ser lançada em novembro.

Projetos

No momento, a direção do instituto estuda parcerias com instituições universitárias alemãs e brasileiras para a organização de palestras e seminários científicos, literários e artísticos. Entre os muitos planos, cinco já obtiveram aprovação do Ministério da Cultura para a captação de recursos: o ciclo de concertos "Cantos do Som" (lançado em 2001, em conjunto com o Centro Universitário Maria Antonia – ver reportagem à página 54), o projeto musical "Bússola dos Sons" (que propõe a colaboração artística entre músicos alemães e brasileiros), exposições de arte visuais do expressionismo alemão, o projeto "Memória da Imigração dos Povos de Língua Alemã" (que capta imagens, documentos e objetos que marcaram a imigração para a editoração de um sistema eletrônico de consulta com, aproximadamente, 375 mil verbetes) e a informatização dos catálogos de arquivo e da biblioteca do instituto.

"A Fundação Visconde de Porto Seguro surgiu na Rua Florêncio de Abreu e se desenvolveu na Praça Roosevelt, criando laços com instituições estabelecidas na área. Hoje temos como parceiros a Associação VIVA O CENTRO, o Instituto Moreira Salles, o Centro Universitário Maria Antonia, o Arquivo do Estado de São Paulo, a Imprensa Oficial, o Mosteiro de São Bento, o Pátio do Colégio e participamos da Ação Local 7 de Abril", lembra Dirk Brinkmann. "É bom saber que estamos bem abrigados e que nossa presença, assim como a de órgãos públicos e empresas, é fundamental para a requalificação do Centro", completa o diretor do Martius-Staden. (Aline Gattoni)

Acervo
Há 76 anos — mais precisamente em 18 de abril de 1925 —, um anúncio publicado no Deutsche Zeitung, jornal da comunidade alemã em São Paulo, convocava os leitores brasileiros a enviar "documentos, fotos, relatórios anuais, anúncios de comemorações e celebrações e publicações de todo tipo, contanto que tivessem relação com o surgimento ou o crescimento da colônia alemã". Surgia aí o arquivo da história dos imigrantes alemães no Brasil, posteriormente herdado pelo Instituto Martius-Staden. Hoje, esses documentos somam aproximadamente 100 mil artigos com mais de 65 mil nomes alemães. Há desde notas familiares comunicando falecimentos a reportagens sobre personalidades, crônicas e cartas. Graças a essa riqueza, o instituto responde diariamente a perguntas sobre a genealogia de famílias que vivem em todo o país. Além disso, a microfilmagem de jornais e semanários — o instituto possui o maior acervo de periódicos de língua alemã da América do Sul — foi recentemente finalizada com recursos do governo alemão. Ao todo, os usuários têm à disposição 534 filmes contendo periódicos editados desde 1880, podendo até copiar páginas se necessário. Alguns exemplares estão disponíveis para compra, em especial os anuários anteriores publicados pelo instituto e os sete pequenos volumes de "Famílias Brasileiras de Origem Germânica".

Metas
Estão nos planos do Instituto Martius-Staden a restauração e conservação de livros raros, entre eles os 31 tomos do "Flora Brasiliensis de Martius", cujo primeiro volume data de 1840, e "Brasília", de Casparis Barlaei, de 1647. A diretoria também pretende, nos próximos meses, expor, selecionar e aumentar o número de periódicos assinados, compor uma bibliografia o mais completa e atualizada possível a respeito da imigração alemã no Brasil e na América Latina e, por fim, realizar a captação de dados dos usuários, permitindo ações posteriores de atendimento. A informatização dos catálogos do arquivo e da biblioteca, porém, é o mais extenso e ambicioso dos projetos a ser brevemente implementado pela entidade. A idéia é informatizar completamente o arquivo de fichário, assim como as bibliotecas de arte e histórico-científica. As bases de dados da biblioteca e do arquivo também devem ficar disponibilizadas na Internet, o que facilitará o intercâmbio com outras bibliotecas e arquivos do Brasil e exterior.

SERVIÇO
Localização: Rua 7 de Abril, 59, 2º, 3º, 4º e 8º andares, Centro
Tel: (11) 3151-6300
Site: www.martiusstaden.org.br
E-mail: contato@martiusstaden.org.br
Atende: 2ª a 6ª, das 8h às 16h30


  Cultura  
UMA OUTRA, E MESMA, MARIA ANTONIA

Há dez anos a Universidade de São Paulo retomou seu antigo domínio, no Centro, e nele instalou o marco de novos tempos, mantendo a inquietude e envolvimento social de sempre

Aline Gattoni


Até hoje, toda vez que se menciona a Rua Maria Antonia, na fronteira da Vila Buarque — um dos bairros do Centro — com Higienópolis, vêm à memória uma espécie de ícone histórico dos paulistanos — algo como o "maio parisiente de 1968" no Brasil.

Símbolo da resistência estudantil ao regime militar, o histórico conjunto de prédios da Universidade de São Paulo (USP), na Rua Maria Antonia, foi quase destruído em 1968, quando abrigava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH). Eram tempos em que pontificavam mestres como o crítico e historiador literário Antonio Cândido, sociólogos como Florestan Fernandes, Otavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso e o economista Paul Singer, entre outros. A fachada do prédio é a mesma de 35 anos atrás, quando serviu de cenário a uma das mais violentas batalhas da história do movimento estudantil no país, travada entre alunos da FFLCH e da vizinha Universidade Mackenzie e encerrada com incêndios, um morto (na também vizinha Faculdade de Ciências Econômicas da USP), muitos feridos e a ocupação policial-militar do território.

Outros tempos, outros usos, mas o essencial ainda: inquietação e envolvimento social. No local funciona há dez anos o Centro Universitário Maria Antonia. O MariAntonia, como é carinhosamente conhecido por estudantes, professores e funcionários da USP, tornou-se na atualidade um dos mais importantes equipamentos culturais da região, celebrando seu decênio com uma reforma em suas instalações que deve modernizá-lo e abri-lo ainda mais à comunidade.

Com atuação estruturada na multidisciplinaridade e localização estratégica, esse centro tem colaborado ativamente na articulação da universidade com a sociedade e com o restante da metrópole. "O fato dele estar no centro da cidade dá à universidade uma outra relação com o entorno", explica o diretor do MariAntonia, professor Lorenzo Mammi. "Atualmente há uma tendência na USP de instalar unidades em outros locais que não a Cidade Universitária, o que insere a universidade no cotidiano urbano, um de seus principais objetos de estudo. Isso faz com que a instituição tenha uma função ativa para além dos limites acadêmicos. No MariAntonia, somos um braço dessa proposta", orgulha-se o diretor.

Hoje, o centro universitário abriga cinco espaços de exposição — divididos entre o primeiro e o segundo andar do edifício de número 294 da Rua Maria Antonia —, salas de aulas, oficinas de arte, o Teatro da USP (Tusp), salão nobre, no terceiro andar, com capacidade para 84 pessoas, e auditório com 70 lugares. As atividades oferecidas são as mais variadas possíveis: além de exposições e espetáculos teatrais, há cinema, música, literatura e projetos ligados ao setor educativo, como cursos para professores da rede pública e oficinas de arte dirigidas à população de baixa renda. As atividades voltadas a pessoas carentes integram o Projeto Arquimedes da Secretaria de Estado da Cultura, uma vez que o MariAntonia é um de seus 26 pólos de atendimento. Também podem ser acompanhados eventos na área de ciências humanas em geral, tais como seminários, palestras e cursos de difusão cultural, e comprados livros lançados pela Edusp, a editora da USP. Além disso, um dos grupos corais do Coralusp ensaia regularmente no MariAntonia.

A reforma

O conjunto de edifícios que abriga o MariAntonia era inicialmente formado por quatro prédios. Depois de 1968 foi usado para fins diversos, tendo sediado durante anos a Junta Comercial. Um de seus quatro prédios, o da Rua Dr. Vila Nova, foi demolido. Dois deles, incluindo o histórico 294, foram devolvidos à USP no começo dos anos 90, e o terceiro o será em breve. Em 1991 a universidade promoveu uma primeira reforma, sendo beneficiado um dos edifícios do conjunto, o Edifício Rui Barbosa, o 294, com suas famosas colunas.

A reforma atual foi iniciada há quase um semestre, e o alvo é o edifício art déco Joaquim Nabuco, que, à época de sua devolução à USP, em 1998, corria sério risco de desabamento. Logo após a interdição do prédio, foi elaborado um projeto para recuperá-lo. O custeio das obras, orçadas em quase R$ 4 milhões, ficou por conta do Instituto de Arte Contemporânea e da empresa de engenharia Gafisa, entre outras contribuições menores. Além disso, o MariAntonia foi agraciado com alguns incentivos por ser tombado pelo patrimônio histórico (leia Conjunto Histórico), e com a doação de R$ 250 mil em obras de arte pelo Instituto de Arte Contemporânea (IAC). Muitas obras já estão em exposição no local.

A reforma inclui a recuperação das fundações, das estruturas em aço e da simbólica escada no interior do prédio. Principalmente, voltará a ficar à mostra uma fachada da década de 20, descoberta recentemente, que estava oculta pela fachada atual, datada dos anos 40. Uma vez pronto, o prédio hospedará amplas salas para exposições temporárias, um café-foyer, um auditório com 110 lugares, uma reserva técnica bem equipada, além de um espaço para a coleção do IAC, com obras de arte concreta e neo-concreta de artistas como Sérgio Camargo, Mira Schendel, Willys de Castro e, no futuro, também Amílcar de Castro, entre outros, e um centro de documentação com projetos cartas e objetos desses mesmos artistas.

Foram reservados dois andares, de 500 m2 cada, para as salas de exposição. Outro prédio do complexo será reservado a cursos e oficinas. Mas o ponto alto do projeto é uma praça central ao ar livre, onde hoje existe um pátio de 350 m2 entre os três edifícios, para a qual convergirão o café e a área de acesso ao auditório e ao Tusp. Assim, o complexo cultural contará com três saídas após a entrega do terceiro prédio: uma para a Rua Maria Antonia, a segunda para a Joaquim Nabuco e a terceira para a Dr. Vila Nova. "A abertura da praça para a circulação do público foi uma idéia muito feliz, pois terá importância urbanística e propiciará o aumento do contato com os usuários da região", diz Lorenzo Mammi.

Pólo cultural

O MariAntonia também exerce um papel ativo na promoção de projetos comunitários, otimização da infra-estrutura existente e valorização da potencialidade do bairro como pólo de serviços culturais. Isto porque o equipamento integra o Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura, iniciativa que reúne boa parte das instituições culturais e educativas concentradas na região. A participação do MariAntonia no circuito, inclusive, foi reconhecida recentemente pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) com o prêmio de Melhor Instituição Cultural de 2002. Com apresentações culturais e diversas atividades, o projeto une esforços para tornar mais visível e eficiente a grande quantidade de serviços culturais e educativos oferecida em Vila Buarque.

A Associação de Amigos do Centro Universitário Maria Antonia, criada no final de 2000 e encabeçada pelo filósofo e professor emérito da FFLCH José Artur Gianotti e pela historiadora e também professora da FFLCH Lilia Schwarcz, auxilia na parceria do Centro Universitário com empresas privadas para a execução de projetos, incluindo a reforma, e concessão de benefícios da Lei Rouanet. Além de impulsionar as atividades do equipamento cultural, oferece a seus sócios descontos e prioridades em diversos itens da programação. Para tornar-se associado, basta preencher uma ficha de inscrição, que pode ser obtida no próprio Centro Universitário Maria Antonia ou por meio do site www.usp.br/mariantonia, sendo que qualquer pessoa pode se associar. Também há descontos em cursos e oficinas de artes para associados, professores, estudantes e aposentados, sem contar que o auditório e o salão nobre podem ser alugados para eventos.

CONJUNTO HISTÓRICO
O conjunto de edifícios existente nas ruas Maria Antonia, Dr. Vila Nova e Joaquim Nabuco surgiu em 1936 para abrigar o Colégio Rio Branco, que no final dos anos 40 mudou-se para a Avenida Higienópolis. Vendido para a USP, abrigou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de 1949 a 1968. Invadido e danificado em outubro de 1968, teve seus prédios destinados a outro uso, que não o educacional, pelo Governo do Estado. Em 1985, o principal edifício, Rui Barbosa (localizado no número 294 da Rua Maria Antonia), foi tombado pelo Condephaat por sua importância histórica, enquanto os da área envoltória passaram automaticamente a ser protegidos. A partir de 1991, os prédios do conjunto começaram a ser devolvidos à USP. O edifício principal foi reaberto em 1993 como Centro Universitário Maria Antonia, com o objetivo de criar um centro de discussão e de novas experiências no campo da cultura, da arte e dos direitos humanos."O bairro, estudantil, era a ‘Vila Madalena acadêmica’ nos anos 50 e 60, com bares, instituições vivas e vida musical agitada", recorda Lorenzo Mammi, diretor do MariAntonia. "Após passar por uma quase sistemática destruição, o bairro deve redescobrir sua identidade com a volta da USP à cidade e à região", acredita.

SERVIÇO
Localização: Rua Maria Antônia, 294, CEP 01222-010, Vila Buarque, São Paulo/SP
Tel: (11) 3255-3140 / 3255-7182
Site: www.usp.br/mariantonia
E-mail: mariantonia@edu.usp.br
Atende: 2ª a 6ª, das 9h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 9h às 18h


  Mix Artes e Espetáculos  
MARIA BONOMI RECRIA EPOPÉIA PAULISTA


A Estação da Luz vai ganhar uma obra da artista plástica Maria Bonomi, criada especialmente para as comemorações dos 450 anos da cidade. O trabalho que a artista plástica desenvolve desde 2002 é um painel artístico de concreto armado, três camadas, várias cores e imagens que remontam à história da cidade de São Paulo. Com 73 metros de comprimento, três de altura, faz parte do projeto Epopéia Paulista na Estação da Luz e já recebeu aprovação das leis de incentivo à cultura do município (Lei Mendonça) e do governo federal (Lei Rouanet). A peça ocupará uma das futuras galerias resultantes da reforma que está recuperando e modernizando a velha estação. O projeto prevê também a edição de um livro e um calendário, duas exposições sobre a produção da obra e uma série de atividades de arte-educação para crianças e adolescentes da Grande São Paulo. A própria Maria Bonomi supervisiona tudo. A artista, que nasceu na Itália em 1946, é gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista e cenógrafa. Sua produção é marcada por gravuras, além de esculturas de grandes proporções em concreto, para espaços públicos.

Para participar do projeto Epopéia Paulista na Estação da Luz, basta contatar o atelier de Maria Bonomi pelo telefone (11) 3814-0174 ou pelo e-mail maol@dialdata.com.br. Estação da Luz – Praça da Luz, n° 1. Luz – São Paulo. Metrô Luz. Tel. 3226-4213.


TUDO SOBRE MÚSICA


O Centro de Documentação Musical Maestro Eleazar de Carvalho, um dos mais completos centros de pesquisa musical do país, está instalado junto da Estação Júlio Prestes, e integra a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Organizado em uma midiateca que reúne em CDs, vídeos, gravações de rádio e TV e material impresso por CDM oferece desde biografias de grandes músicos até a história completa das principais orquestras. O espaço é harmonioso e o silêncio próprio de uma biblioteca. Inaugurado em 2000, funciona no mezanino da Sala São Paulo e mantém à disposição do estudioso 1.400 partituras, programas de concertos, bibliografia variada e vasta documentação sobre a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp. Também reúne 300 CDs e DVDs com apresentações de orquestras famosas, conta com cabines de som individual e um pequeno auditório, de dez lugares. Todo o acervo permite pesquisa de imagem, na videoteca, ou leitura, na hemeroteca. O CDM não é o primeiro, mas é o único centro de documentação especializado em repertório sinfônico. No Centro Cultural São Paulo e na Universidade de São Paulo, há espaços semelhantes. Como material de referência em papel, o CDM dispõe da coleção The New Grove, uma das principais obras de referência da música erudita e da ópera, além do acervo da Universidade de Cambridge, doado pela própria instituição. O nome do CDM é uma homenagem ao ex-regente titular da Osesp, Eleazar de Carvalho. O maestro ocupou a regência por 24 anos, tendo morrido em 1996, aos 84 anos.

Centro de Documentação Musical Maestro Eleazar de Carvalho
Pça. Júlio Prestes, s\nº/ Mezanino - Luz. Metrô Luz. Tel. 3351.8190.
E-Mail: documentacao@osesp.art.br.
Horário: 2ª a 6ª das 08h30 às 17h00. Entrada franca.


A CAIXA CONTA NOSSA HISTÓRIA


O jornalista e escritor Eduardo Bueno, o Peninha, é o coordenador do projeto SP 450 – Nossa Caixa, o Banco do Coração de São Paulo, idealizado pela Nossa Caixa para comemorar o aniversário da cidade. A iniciativa inclui a criação do Espaço Nossa Caixa, no edifício-matriz do banco na Rua 15 de Novembro, que terá uma área de mostras temporárias, um Centro de Memória e um auditório; o seminário Raízes de São Paulo, que reunirá especialistas sobre a fundação de São Paulo; a edição de um livro com o conteúdo do seminário; o evento As 24 Horas dos 450 Anos, no qual 45 fotógrafos registrarão a vida em São Paulo durante as 24 horas do dia 25 de janeiro de 2004; uma mostra fotográfica com as fotos do evento; a edição de um livro com as fotos do projeto; o projeto História nas Ruas, que instalará 45 placas históricas em locais significativos da cidade, como o Pátio do Colégio; e a edição de um livro que contará a História da Nossa Caixa.

A iniciativa da Nossa Caixa pretende reunir curiosidades e dados desconhecidos sobre a história da cidade. O Rio Anhangabaú, esclarece Bueno, "era um local sagrado que só podia ser freqüentado por xamãs ou pajés, que ali professavam ritos mágicos para garantir boas caçadas às tribos que viviam nos Campos de Piratininga". Embora o termo tenha sido traduzido pelos jesuítas como "Rio do Diabo", Anhangá não era um demônio, mas uma espécie de duende protetor da caça.

Espaço Nossa Caixa
Mezanino da Agência Matriz - Rua XV de Novembro, 111. Centro - São Paulo. Metrô Sé.
Telefone: (11) 3242-3150.


FAZENDO ARTE NA ESTAÇÃO


Artistas plásticos como Takashi Fukushima, Eduardo Iglesias, Fernanda Amalfi, Ângelo Milani, Oswaldo Forty, Hermelino Nardin, Nelson Screnci e Fernando Durão aceitaram o desafio e o resultado pode ser visto na plataforma da Estação Julio Prestes, na praça de mesmo nome. Com curadoria de Fernando Durão, os artistas desenvolveram, durante seis meses, trabalhos em telas de lona de caminhão para compor o acervo da estação ferroviária. A idéia da criação do acervo "Arte na Ferrovia", única no mundo segundo Durão, surgiu há oito anos, quando ele notou que as estações de metrô estavam repletas de obras de arte, enquanto os usuários dos trens metropolitanos não tinham o mesmo privilégio. "Pensamos em um projeto de impacto, grandioso, a começar pelo espaço da estação, que podia acomodar os painéis. Convidamos artistas famosos, que aceitaram o desafio", conta Fernando. Atualmente, o acervo possui seis telas de 4 metros de altura por 10 de comprimento, suspensas por cabos de aço e distribuídas ao longo dos 245 metros da plataforma 1. As obras podem ser vistas de qualquer lugar da estação e a impressão que se tem é que as telas estão suspensas no ar. O que impressiona o curador do acervo é a consciência de preservação dos usuários. "Nunca houve um dano a essas telas", surpreende-se. "Lembro-me de um grupo de alemães que visitava o acervo e uma integrante quis tocar uma tela. Imediatamente, um usuário pediu que não o fizesse, como se a obra fosse sua", conta. Em princípio, as telas ficariam expostas por apenas 20 dias. "Mas o próprio usuário mostrou que queria continuar com elas. Então firmamos um compromisso não oficial com o usuário e a CPTM de que o acervo pode ficar por tempo indeterminado", revela o curador. "As pinturas já integram a arquitetura da estação e o usuário se sente dono dele", conclui.

Estação Júlio Prestes
Pça. Júlio Prestes, 148, Luz – São Paulo. Metrô Luz.
Tel. (11) 3826-1364.


  Mix Mesa  
NO LLORES, ARGENTINA

João Podanovsky
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Natália! Nome sonoro, evocativo. Lembra o natal do Menino Jesus. Lembra nata, o que de melhor há em qualquer coisa. Natália negra e boa, que nem precisou pedir licença para entrar no céu, como a Irene de Manuel Bandeira. Em suas generosas tetas africanas mamaram dois famosos buenairenses: Juan Manuel de Rosas (1793-1877) e Juan Galo de Lavalle (1797-1841).

Para alegria de Natália, os irmãos de leite cresce-ram amigos. Para orgulho de Natália, ambos tornaram-se grandes líderes políticos e militares. Para angústia de Natália, acabaram inimigos mortais. E, para desgosto de Natália, Rosas degenerou em ditador sangüinário (1835 a 1852) e Lavalle, moço ainda, morreu assassinado.

Em 1829 fervia na Argentina violenta guerra civil. Rosas comandava as milícias federalistas; Lavalle, as que defendiam a autonomia das províncias. Numa tarde de 29 de junho, Lavalle, inferiorizado, vencido, disposto a propor um acordo de paz, chegou à estância de Rosas. Natália preparava a lechada para o mate-de-leite do dia; acabara de pôr leite com açúcar a esquentar. Rosas não estava. Exausto, Lavalle decidiu esperar; estirou-se numa cama, dormiu. Natália apavorada, nervosíssima, previa cena de sangue: Rosas chegaria a qualquer momento e não hesitaria em matar o adversário. Rosas chegou, os generais se abraçaram, se entenderam, assinaram um tratado de paz. E, para celebrar o acontecimento, come-ram um delicioso doce que, sem querer, Natália acabara de inventar com o leite esquecido sobre o fogo.

Esses detalhes sobre a origem do doce de leite lêem-se no "Gran Libro de la Cocina Argentina". Bonitinha a história? Mas eivada de mentiras. Primeira: O encontro dos comandantes não se deu em 29 de junho, mas na noite de 16 para 17. Segunda: não foi numa estância, mas na tenda de campanha de Rosas; este, ao voltar de madrugada, viu sua cama ocupada por Lavalle, que dormia a sono solto. Terceira: não faz sentido a presença de Natália num acampamento militar, preparando mate-de-leite para o patrão ausente. Quarta: o tratado de paz que então concertaram (sem nenhum doce comemorativo) foi assinado uma semana depois, em 24 de junho. Quinta: leite adoçado esquecido no fogo não se transforma em doce: transborda com a interminável fervura, queima, vira um incomível quebra-queixo esturricado. Quem quiser sacrificar uma panela faça o teste em casa. Sem mexer não se obtém doce.

Quem então teria feito o primeiro doce de leite? Sou mais por alguma doceira de Minas, onde, depois do louco ciclo do ouro, abundava gado leiteiro. Daí as glórias mineiras do queijo, do pão de queijo, do doce de leite, surgidos no começo do século 19. Mas, na mesma época, também na Argentina sobrava leite, e... quem sabe?

Dá até para entender certas manhosas táticas argentinas para vencer o Brasil no futebol, no basquete, no vôlei, na bola de gude: catimba enervante, dopping maradônico, quebra-pau orquestrado e outras milongas. Mas estender a divertida e histórica rivalidade nos esportes ao doce de leite, com base numa lenda? Para quê?

Alegra-te, Argentina. Orgulha-te de tua rica cultura, de teus escritores brilhantes, de teu bife de chorizo, do Aconcágua (o pico mais alto dos Andes), do teu vinho (melhor que o brasileiro), de teu tango, de tanta coisa mais. Mas esquece a balela veiculada em letras de forma pelo "Gran Libro" de tua cozinha. Golias não chora por um Davi tão humilde que lhe rouba um simples doce. No llores por mi, Argentina.


DOCE DE LEITE
Numa panela (preferivelmente de ágata ou cobre) sobre fogo brando, amornar leite integral (2 litros), juntar duas pitadas de bicarbonato de sódio (ou pó Royal), deixar ferver por um minuto, acrescentar 400 gramas de açúcar ( melhor o cristal), ir mexendo (colher de pau) até conseguir o ponto desejado.

Bicarbonato de sódio é opcional, mas reduz a acidez, evita a precipitação da caseína e torna o doce mais macio e homogêneo. Para um doce bem fino, mexer com freqüência, ou sem parar. Para cortar em tabletes, aumentar o açúcar para 500 gramas, cozinhar por mais tempo, apagar o fogo, bater bem a massa firme até esfriar um pouco, derramar o doce numa tábua molhada, cortar depois de frio. Para uma cor mais escura, caramelar algumas das colheres do total de açúcar a ser utilizado na panela onde será cozido o leite.


  Notícias
SEMINÁRIO BRASIL-ESPANHA

Recuperação de centros urbanos alavanca turismo


Com uma frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset – "Pensar é viver por antecipação" – o cônsul geral da Espanha em São Paulo, José Antonio San Gil Augustín, sintetizou com brilhantismo o que foi o Seminário Brasil-Espanha, no Hilton Hotel Centro, realizado nos dias 18 e 19 de novembro conjuntamente pela Associação VIVA O CENTRO e Instituto Cervantes de São Paulo, com patrocínio da Caixa Econômica Federal (CEF) e apoio de entidades como a Universidad Internacional de Andalucia, FAUUSP, PUC-Campinas e Escola da Cidade, Anhembi Turismo, Emurb, Embratur e Turespaña, e empresas como Hilton Hotel e Infocus. Sob o tema geral de "As Cidades Frente à Globalização e ao Desenvolvimento Sustentável", o seminário enfocou a estratégia de recuperação dos centros históricos para incrementar o turismo a partir de exemplos de cidades como Madri e Sevilha. A atenção contínua da platéia, ao longo de todas as palestras, teve por base o fato de que a Espanha, país de 42 milhões de habitantes, recebe 52 milhões de visitantes ao ano, gerando mais de US$ 30 bilhões de receita, e é uma referência quando se trata de conjugar questões como qualidade de vida urbana, preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental e turismo sustentável.

Na seção de abertura do seminário, o presidente do Banco Central e da VIVA O CENTRO, Henrique Meirelles, apontou entre os desafios do Brasil a criação de um modelo de crescimento sustentado, tendo em mente que, sendo escassos, os recursos públicos têm que ser geridos com o máximo de rendimento. São Paulo, segundo Meirelles, "é cada vez mais um centro produtor de serviços, aí incluído o turismo. No entanto, não dispõe do considerável aporte recebido por outros grandes centros urbanos que são capitais de seus respectivos países. Demanda, portanto, soluções que passem pela racionalidade, razão pela qual o trabalho desenvolvido pela VIVA O CENTRO em prol da recuperação do Centro de São Paulo tem importância vital, de ordem funcional e orgânica para a cidade, sobretudo quando apregoa o seu readensamento."

Nessa perspectiva, a contribuição espanhola foi traduzida pelo presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, ao lembrar que desde as primeiras atividades desenvolvidas pela Associação, especialistas espanhóis têm sido convidados para discutir com os brasileiros questões que envolvem a recuperação das áreas centrais das metrópoles. "E agora, novamente, porque a Espanha também está na vanguarda da conjugação de esforços por qualidade urbana com o incremento do turismo." Por sua vez, o diretor do Instituto Cervantes, Juan Manoel Casado Ramos, destacou seu otimismo com a possibilidade de uma reflexão hispano-brasileira ampla sobre São Paulo, Madri e Sevilha, ainda mais às vésperas das comemorações dos 450 anos da capital paulista.

O que se extrai do intercâmbio de dados, descrições de projetos e sugestões durante o seminário é a idéia de que um crescimento com sustentabilidade demanda modificações nos princípios, critérios e instrumentos do urbanismo e incorporação de novos valores sociais, entre eles os de coesão social, direito à informação, defesa do patrimônio histórico e cultural e proteção ao meio ambiente. Para Manuel Marchena Gómez, gerente municipal de Urbanismo de Sevilha e ex-diretor do Plano Estratégico Sevilha 2010, "destino turístico nenhum é bom para o visitante se não for bom para o seu morador".

Participantes

Henrique de Campos Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil e da Associação VIVA O CENTRO; embaixador da Espanha, José Coderch Planas; Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO; Juan Manuel Casado Ramos, diretor do Instituto Cervantes de São Paulo; Angel Marinero Peral, diretor de Urbanismo da Junta de Castilha e León; Regina Prosperi Meyer, coordenadora do Laboratório de Urbanismo da Metrópole da FAUUSP; Maria Amélia D´Azevedo Leite, coordenadora de Relações Externas da PUC-Campinas; Javier Piñanes, diretor da Turespaña, órgão equivalente à Embratur no Brasil; Eduardo Sanovicz, presidente da Embratur; Manuel Marchena Gómez, gerente municipal de Urbanismo de Sevilha e ex-diretor do Plano Estratégico Sevilha 2010; Enrique Ruiz de Lera, diretor da Oficina de Turismo da Espanha no Brasil; Sigfrido Herráez Rodríguez, conselheiro de Habilitação e Reabilitação Urbana da Prefeitura de Madri; Maria Elisa Modesto Guimarães Costa, presidente do Iphan; Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade-São Paulo; Nadia Somekh, presidente da Emurb; José Maria Martín Delgado, reitor da Universidade Internacional de Andaluzia; Francisco Corrales, conselheiro de Economia e Comércio da Espanha no Brasil; e José

Antonio San Gil Agustín, cônsul geral da Espanha em São Paulo. A coordenação do evento esteve a cargo de Rose Carmona, pela VIVA O CENTRO, e Simone Dussan, pelo Instituto Cervantes.


VIVA O CENTRO FAZ SUGESTÕES À PREFEITA MARTA SUPLICY


A criação de um centro popular de compras "para abrigar os 892 ambulantes portadores de TPUs, atualmente localizados nos distritos Sé e República, e concentrados principalmente junto a locais históricos como no entorno da Colina de Piratininga, o Pátio do Colégio", está entre as principais propostas emergenciais contidas em documento entregue pessoalmente à prefeita Marta Suplicy, no final de 2003, pelo presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, com vistas às comemorações dos 450 anos. Depois de parabenizar a prefeita por levar adiante o compromisso que assumiu ainda em campanha de recuperar e requalificar a região, diz o documento que "um grande presente para a cidade seria uma ação emergencial e profunda no Centro nas áreas de atendimento social, reforço do policiamento, iluminação, limpeza e automatização da coleta de lixo, aliada à criação desse centro popular de compras. A proposta parte do princípio de que todo espaço público no Centro, dada a sua natureza histórico-cultural, deve ser completamente qualificado, seguro e desobstruído. As propostas foram apresentadas durante encontro com arquitetos que visitaram o Centro em outubro do ano passado, num evento organizado pela AsBEA, com apoio da VIVA O CENTRO. No encontro, o presidente da AsBEA, Henrique Cambiaghi, entregou à prefeita o documento "Carta de São Paulo nos seus 450 Anos", com as posições da entidade relacionadas ao processo de requalificação do Centro. Outros participantes sugeriram, ainda, que a Prefeitura invista mais no Triângulo Histórico formado pelas ruas Boa Vista, Direita e São Bento, e no "eixo monumental", que vai do prédio do Banespinha (sede da Prefeitura a partir de 25 de janeiro) à Avenida Vieira de Carvalho.


CENTRO XXI, VEM AÍ O 2º SEMINÁRIO


Em 2005, a Associação VIVA O CENTRO promoverá o 2º Seminário Internacional Centro XXI, a ser realizado a exatos dez anos do primeiro, com a proposta de reavaliar o impacto da globalização nas metrópoles na última década. Em 1995, numa realização da VIVA O CENTRO, com apoio da FAUUSP e da Agência Habitat da ONU, o 1º Seminário se constituiu em encontro preparatório ao Habitat II, o último grande encontro global realizado pela ONU no século XX. Desse importante evento, que teve palestra de abertura do então presidente Fernando Henrique Cardoso, resultou o livro Os Centros das Metrópoles – Reflexões e Propostas para a Cidade Democrática do Século XXI (co-edição da Editora Terceiro Nome, VIVA O CENTRO e Imprensa Oficial). A proposta, agora, é retomar o debate, projetando-o para o futuro. A Associação planeja um encontro preparatório ao 2º Seminário para meados deste ano.


ASSOCIAÇÃO EM NOVA CASA


A Associação VIVA O CENTRO está em nova sede, vizinha da anterior. O novo endereço é Rua Líbero Badaró, 425, 4º andar, no Edifício Grande São Paulo, em acomodações mais amplas e adequadas às suas atividades. Telefones, fax e e-mails permanecem os mesmos.
 
 


PATROCINADORES Revista URBS

Patrocínio:

Banco Itaú

Serasa

 

Bank Boston

 

 
Apoio Institucional:

Prefeitura do Município de São Paulo
Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa, Santander Banespa, Companhia Brasileira de Alumínio e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina),
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

Redação, Administração e Circulação:
Rua Libero Badaró, 425 - 4o. andar
CEP 01009-000 São Paulo
Fone (011) 3106-8205
Fax (11) 3398-5066
e-mail urbs@vivaocentro.org.br

urbs pode ser adquirida através de assinatura e venda avulsa e é distribuida gratuitamente a um mailling especial da Associação Viva o Centro.