ANO V   -   No. 32   -   outubro / novembro 2003
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Um Patrimônio Estratégico para os Centros
Reportagem  Bienal: Uma usina de idéias
Calçadas A volta do ladrilho
Operação Urbana: Centro - O que é, como funciona
Corredores de ônibus: O exemplo de Curitiba
Anhangabaú: O que falta no Vale
Urbanismo Nacional  Um bonde moderno no Centro
Cultura  Ensino - O centenário do Colégio de São Bento
Música - Orquestra de Câmara da Osesp
Artes plásticas - Gruber leva o Centro aos Jardins
Rio - O restaurado Cine Odeon
Entrevista  Olavo Setubal
Artigo  Vamos à Cidade - Silvio Lancellotti
Destaques  Poder público no Centro
Tem sucesso a retirada dos camelôs ilegais do Centro
Um quatro-estrelas plus
Financiamento do BID: agora falta pouco
O Centro para o futuro
Prefeitura apóia o Centro Cultural dos Correios
Mix Artes e Espetáculos  Dicas dos melhores espetáculos na cidade
Mix Livros  Dicas para uma boa leitura
Mix Mesa  CUSCUZ, DO MAGREB, É TAMBÉM PAULISTA
Notícias  VIVA O CENTRO reconfirma Henrique Meirelles na presidência
Diretoria da VIVA O CENTRO para 2003/2005
VIVA O CENTRO propõe fiança social
Viabilidade imobiliária do Centro mobiliza arquitetos
Cultura é tema de curso e workshop com apoio da VIVA O CENTRO
Ações Locais realizam eleições gerais no Centro
VIVA O CENTRO promove debate sobre as cidades frente à globalização
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  Cartas  
urbs nΊ 31
Está excelente a última revista urbs! Meus parabéns, assim como dos demais membros da diretoria da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Mococa.
Por que este aposentado, com 74 anos, morando em Mococa, se interessa tanto pela cidade de São Paulo? Vou tentar resumir: tendo residido em São Paulo entre os anos de 1949 e 1990, onde trabalhei no Senac, no Sesc, na Folha de S. Paulo, no CREA, e tendo me graduado em Ciências Sociais pela USP e em Serviço Social pela PUC, com extensão universitária em Gerontologia Social pela Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, eu e minha mulher resolvemos, ao nos aposentar, vir morar no Interior. Mas não cortei meu cordão umbilical com São Paulo, aonde vou freqüentemente e onde residem três filhos meus.
A princípio, meu interesse e admiração por São Paulo eram simplesmente sentimentais (lá casei duas vezes, fiz muitas amizades). Posteriormente interessei-me por Sociologia Urbana, no curso de Ciências Sociais. Também "mergulhei fundo" nos assuntos urbanísticos, sociais, históricos, culturais e econômicos da cidade de São Paulo atuando como assistente social do Sesc na área de ação e desenvolvimento comunitário.
Para continuar em contato com esses assuntos, entre os veículos que trazem atualizadíssimas informações está a urbs.
Importantíssimo também o papel da Associação VIVA O CENTRO na revitalização da área central de São Paulo e na preservação da memória da cidade, através da participação da própria comunidade, melhorando a qualidade de vida de toda a população. Mais uma vez meus parabéns pela existência dessa entidade e pela ação por ela desenvolvida.
Dirceu Lopes Martins
Mococa-SP


Deficientes
Gostaria que a Prefeitura desse mais atenção aos motoristas deficientes físicos que usam as vagas de estacionamento a eles reservadas e que, no Centro, estão quase todas ocupadas por barracas e tabuleiros de camelôs e por veículos não autorizados a utilizá-las. Minhas idas ao Centro têm sido enorememente prejudicadas por essas ilegalidades, obrigando-me a longas caminhadas ou a buscar vaga, também difícil, em estacionamentos particulares.
Alcione Caxambu
por e-mail


Num sábado à tarde
Tarde.
Sábado.
Chuva.
O poeta passeia por São Paulo,
Sua eterna namorada.
Despreocupado, passos firmes,
O poeta anda. Uma livraria, outra.
Tantos rostos anônimos,
Famintos. Eles
Caminham apressados,
E buscam...Ninguém sabe o quê.
O poeta observa uns painéis:
Praça da Sé, 1922.
E lembra Mário de Andrade, aquele
Mesmo, o que mastigava amendoim
E que um dia escreveu:
" São Paulo! Comoção de minha vida..."
E, à toa, o poeta engole
As ruas da cidade
E tem a sensação de ver em cada homem
Moreno, careca e grandalhão,
O seu querido Mário de Andrade,
Esse que pedia, ao morrer,
Fossem suas partes espalhadas
Pela cidade.
O poeta sente,
O poeta pensa
Mas não pára
E segue
Pelos jardinas futuristas da Praça da Sé,
Pelas fontes de murmúrios represados
E, novamente, mais seres
Anônimos avançam de metrô.
O poeta entra num bar,
E, feliz de ver sua cidade
Tão viva, tão moderna,
Toma um refrigerante
E vai voltando para casa
Deslumbrado de tanta beleza.
No meio do caminho, porém,
De Mário, ou do Tietê, brotam
Umas perguntas de ninguém,
Umas respostas que indagam.
Essa São Paulo de agora,
O que é que é? Outra
Babilônia de suspensos
Jardins? Cadê aquela
Província de outrora
De estreito destino?
Cadê Mário? Cadê o
Rio? Nada. E o Tietê
Pinga um suspiro
Imerso, imensamente.
Como uma menina, esta cidade
Cresce, cresce sempre,
Ganha outras ruas, novas praças,
Uns elevados, uns calçadões
De mármore. Tá bonita,
Cheia de vaidade...
Com seu tipão canhestro de tabaréu,
O poeta passa.
Passa envergonhado,
Com medo de atrapalhar a beleza
Da cidade.
Passa numa nuvem muda
De carinho,
E tarde,
E sábado,
Chove..
Aristides Theodoro
Mauá-SP


  Panorama  
UM PATRIMÔNIO ESTRATÉGICO PARA OS CENTROS




A recuperação dos centros urbanos e metropolitanos é um processo de grande alcance social pelo potencial das áreas centrais de criar empregos e renda, incrementar a economia e propiciar qualidade de vida a amplos segmentos da população, em especial à classe média e a faixas de menor poder aquisitivo. Seria, portanto, da maior importância que os poderes públicos federal, estadual e municipal se empenhassem em projetos de requalificação dessas áreas centrais, com a participação ativa da iniciativa privada.

Muitos dos centros das cidades brasileiras abrigam ramais e armazéns ferroviários desativados e edifícios ociosos pertencentes a uma das esferas de governo, principalmente a União, e quase sempre localizados em pontos valorizados por expressivos exemplares e conjuntos de valor histórico e arquitetônico. São imóveis de grande importância estratégica para projetos de requalificação urbanística, econômica e funcional das áreas centrais, mas em geral desperdiçados porque os organismos a que pertencem ignoram essa relevância ou porque a sua situação legal e administrativa perde-se nos meandros da burocracia.

Um terreno às margens de um rio ou de trilhos pode se configurar como uma área de oportunidade para empreendimentos imobiliários residenciais, comerciais ou de serviços, da mesma forma que um grande armazém pode se converter em shopping center, pólo cultural ou campus universitário — em qualquer caso, constituindo-se num poderoso start ou reforço a um plano de revalorização do centro. Instalações portuárias prestam-se de forma magnífica a projetos diversificados de lazer, ensino, comércio, serviços e residência, a exemplo do internacionalmente famoso Puerto Madero de Buenos Aires. No entanto, essas áreas e imóveis, via de regra, permanecem sem uso ou subutilizados e, não raro, são focos de degradação ambiental e urbana.

A União, que é quase sempre o maior proprietário desses bens ociosos e que já percebeu a importância das cidades ao editar o Estatuto da Cidade e criar um ministério específico para as nossas concentrações urbanas, deveria se articular com os municípios e os Estados onde possua esses imóveis e instalações e incentivar projetos de recuperação dessas regiões como um imperativo de natureza social e econômica, evitando de toda forma que tais terrenos e instalações caiam simplesmente no mercado e na especulação imobiliária, sem que estejam incluídos num plano estratégico de recuperação da área. Seria mais uma inestimável contribuição da esfera federal à melhora das condições de vida e dos indicadores de eficiência produtiva e emprego em muitas cidades brasileiras, com reflexos altamente positivos para o País.

Marco Antonio Ramos de Almeida
Presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO


  Reportagem  
Arquitetura para todos

Em sua quinta edição, o evento abre as portas ao grande público, elegendo, além dos tradicionais painéis e maquetes, outros suportes de comunicação, como vídeos e informática, tudo temperado pela interatividade

Ana Candida Vespucci


Dentro da proposta de que a arquitetura, por ser um bem coletivo, remete de imediato ao conceito de acesso facilitado à população, a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo chega à quinta edição abrindo-se definitivamente ao grande público. E como não há nada mais coletivo do que a própria língua falada por um povo, urbs abre esta reportagem com o emblemático projeto Estação Luz da Nossa Língua, que deverá converter a histórica Estação da Luz, no Centro paulistano, em importante espaço de valorização da identidade brasileira. O projeto, proposto pela Fundação Roberto Marinho, consiste do restauro das fachadas do edifício, projetado pelos ingleses da São Paulo Railway e modificadas depois do incêndio de 1946, e adequação do prédio, conforme projeto dos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Pedro Mendes da Rocha, para abrigar o centro de excelência na língua portuguesa, conceituado pelo escritor Adauto Novaes (leia mais em Na ponta da língua).

A Bienal Internacional de Arquitetura (BIA), acima de tudo, revela uma surpreendente vitalidade. Concorrem para a expressividade da mostra pelo menos três fatores: primeiro, estão defintivamente no passado aqueles repressivos anos 70 que calaram as primeiras edições desta e de outras manifestações culturais importantes; segundo, há, sim, um público ávido por informação, caso contrário certas exposições realizadas em São Paulo e em outros centros urbanos do País não estariam registrando presença recorde; terceiro, de 1973, quando foi realizada a 1ͺ Bienal de Arquitetura, para cá a arquitetura tem se difundido e mostrado que pode se tornar cada vez menos um "artigo de elite" e mais um instrumento para se garantir qualidade de vida.

Segundo Pedro Cury, curador da atual edição junto com Ricardo Ohtake, não tivessem sido os arquitetos, exceto casos pontuais, alijados do processo de construção de cidades como São Paulo, provavelmente não estivéssemos vivenciando o fenômeno da degradação urbana em escala assustadora. Daí a premência do tema Metrópole, sobre o qual a mostra discorre entre 14 de setembro e 2 de novembro, no Pavilhão da Bienal, em oito módulos, desta vez eminentemente dirigidos ao público leigo.

"A intenção é engajar a sociedade no debate sobre os mecanismos que impulsionaram o desenvolvimento de grandes centros urbanos e as soluções dos problemas decorrentes desse descontrole", diz Cury. "O indivíduo, sozinho, não sabe identificar os problemas que o afligem e, assim, não dispõe de ferramentas para se posicionar nem para cobrar dos poderes públicos a defesa dos interesses da coletividade", explica Cury.

Promovida pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil e pela Fundação Bienal, a 5ͺ Bienal Internacional de Arquitetura chega com metade do orçamento previsto — R$ 4 milhões — e bem menos do que havia sido planejado. Mesmo assim, seu espectro é amplo e diversificado, e a perspectiva de seus organizadores é que não decepcionará o público. Contempla desde a exposição de projetos ousados e impactantes que algumas metrópoles vêem multiplicar-se nos últimos anos a soluções de requalificação de espaços urbanos degradados, passando por novidades em termos de design e tecnologia incorporadas à arquitetura. Seu fórum de debates reúne nomes nacionais, como Regina Meyer, e estrangeiros, a exemplo de Peter Cook, da Inglaterra, Benedetta Tagliabue, da Espanha, e Pierre Bonet, da Suíça.

Paralelamente, a Bienal também enfoca a formação acadêmica ao realizar um Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura, do qual participam 36 escolas — 30 do Brasil e seis do Exterior —, que apresentam trabalhos realizados por estudantes em áreas urbanas degradadas. E para cumprir sua meta de atrair o público, em vez de um padrão de linguagem de compreensão exclusivamente profissional, seus organizadores elegeram a multiplicidade de suportes de comunicação, envolvendo dos convencionais painéis e maquetes, a vídeos e informática, opções de caráter interativo, pontuadas por boas surpresas e espaços diferenciados, avisa Cury.

Intervenções emblemáticas

Do núcleo temático da mostra, participam projetos de obras emblemáticas e polêmicas. São resultado de um processo que Joel Sanders, curador da representação novaiorquina chamou de "efeito Bilbao", referindo-se ao prédio do Guggenheim, erguido naquela cidade espanhola. Comparecem sete cidades com algumas de suas mais inovadoras realizações, representando a Europa, as Américas, Ásia e África e, assim, estendendo ao público um abrangente panorama de propostas segundo seus contextos históricos, políticos e econômicos. Provenientes de Beijin, Johannesburgo, Tóquio, Berlim, Londres, Nova York e São Paulo, e expostas lado a lado, permitem comparar as soluções apresentadas para as necessidades específicas de suas comunidades.

De Nova York, por exemplo, os curadores Joel Sanders, e Raymond Gastil, elegeram projetos que vão de lojas de marca, como a do estilista brasileiro Carlos Miéle, projetada por Hani Rashid e Lise Anne Couture, a projetos de revitalização de áreas deterioradas da cidade, como a rua 42, reformulada por Robert Stern. Do segmento Representações Nacionais, tradicional na Bienal, e presente desde a primeira edição, participam onze países: Suíça, Noruega, Itália, Holanda, Portugal, França, China, Áustria, Bélgica, México e Argentina, todos exibindo suas mais ilustrativas tendências. Itália, Portugal e Holanda, por exemplo, optaram por destacar os projetos que vem sendo desenvolvidos pelas novas gerações, como forma de sinalizar um provável futuro de sua capacidade arquitetônica.

Novos tempos, mais público

O evento, que em 1993, ano de sua segunda edição, foi bastante tímido devido a dificuldades de rearticulação, passou a mirar o grande público leigo a partir da quarta versão, em 1999. "A perseguição e o exílio de arquitetos durante o período militar tirou a Bienal Internacional de Arquitetura de cena. Depois de período tão longo, foi difícil retomá-la, o que fez da segunda edição uma exposição bastante dispersa em termos de conteúdo. Foi a partir da quarta, quando seu alcance superou todas as expectativas, e tendo em vista que seu perfil mostrava-se ainda bastante acadêmico, que pensamos em mudar a dinâmica para torná-la mais acessível a todos", recorda Pedro Cury, para quem a mostra cresce em dimensão e avança em qualidade. O público que no evento anterior foi de 150 mil pessoas pode chegar este ano a 300 mil, segundo as previsões.

As Mostras Especiais concorrem para garantir a abrangência do evento. Reúnem um time de arquitetos de diferentes procedências. Um bom exemplo é a mostra Desenhos na Cidade, vinda de Portugal. Traz Álvaro Siza, um dos mais respeitados profissionais da atualidade, que assina obras em vários países e pela primeira vez aceita fazer um trabalho de curadoria. Siza articulou a exposição desfocando o olhar dos grandes centros urbanos. Com isso pretende manifestar seu repúdio ao que classifica de "equivocada tendência" que há em seu país de se reduzir os pontos de interesse ao binômio Lisboa-Porto. Espera, desse modo, revelar um território português "denso de situações urbanas e arquitetônicas significativas".

Outro nome consagrado, o arquiteto inglês Norman Foster, autor de torres que se tornaram referência da nova urbe londrina, apresenta oito projetos que no seu estilo característico conjugam arquitetura e tecnologia. Entre as propostas, está a solução apresentada para a estação de metrô de Canary Wharf, em Londres, a mais movimentada da cidade, em que se destacam os elevadores de vidro, escolhidos entre outros fatores para aumentar a segurança dos usuários e inibir a ação de vândalos. Esse mesmo segmento reúne também quinze profissionais brasileiros em atividade nas diferentes regiões do país, evitando limitar a mostra ao eixo Rio-São Paulo. Além do homenageado Niemeyer, que quase retirou sua representação por conta da polêmica criada em torno da realização de um antigo projeto seu no Parque do Ibirapuera, estão profissionais como João Diniz, de Minas Gerais, Carlos Maximiliano Fayet, do Rio Grande do Sul, Sérgio Parada, de Brasília, Paulo Case, do Rio de Janeiro, e Sidônio Porto, de São Paulo, entre outros.

O módulo Mostras Institucionais apresenta uma seleção de ações de instituições públicas e privadas, estrangeiras e nacionais. Além do Monumenta, que está sendo desenvolvido em diferentes pontos do Brasil e da urbanização de favelas do Rio de Janeiro, um bom exemplo do teor desse segmento é o projeto de restauração da Catedral da Sé, de São Paulo, que vem a público em todas as suas etapas, do diagnóstico às técnicas empregadas. Outra proposta presente, também na área de recuperação, refere-se à requalificação do complexo arquitetônico que envolve o mercado Ver-o-Peso, em Belém, uma área da capital paraense que se encontrava em completo estado de abandono. Do Exterior, vem a exposição do projeto de Sociópolis, um bairro planejado em Valência, na Espanha, concebido por dez arquitetos espanhóis e dotado da infra-estrutura completa de uma cidade.

Questões vitais para a coletividade

Outro núcleo tradicional da Bienal de Arquitetura, a Exposição Geral de Arquitetos, conta com a participação de 320 trabalhos selecionados, dos quais 151 já foram implantados e sete criados especialmente para a mostra. A grande maioria de brasileiros que dá o tom ao módulo não significa que houve intenção dos organizadores de privilegiar a produção nacional. O regulamento, assim como o do Concurso de Escolas de Arquitetura, foi divulgado em todo o mundo por meio dos institutos de classe associados à União Internacional de Arquitetos. "A Bienal é abertas a todos", diz Cury. O fato não deve prejudicar a exposição, mesmo porque a maciça presença de estrangeiros nos demais segmentos compensa fartamente. O leque de projetos também é grande. Abrange a arquitetura residencial particular, mas o que se nota é a forte presença de projetos que procuram de alguma forma respeitar interesses coletivos.

Paulo Sérgio Sant’Anna, por exemplo, expõe a proposta de uma casa que ergueu nas imediações de São Paulo, em que o ponto de partida foi a preservação do meio ambiente em que se insere, pois além de considerar a vegetação local em 90% da área, emprega somente madeira de reflorestamento. Spencer Pupo Nogueira, de São Paulo, apresenta um projeto destinado às populações de baixa renda. Professor das faculdades de Arquitetura e Urbanismo de Campinas (Unicamp) e São Carlos (USP), ele expõe o que classifica de uma reação à tendência de se menosprezar as necessidades estéticas e de comodidade dessa fatia da população. "O indivíduo tem direito a algo mais requintado", diz ele. "Não só merece, como é possível lhe oferecer projetos melhores do que aqueles tabuleiros que são os conjuntos habitacionais, cuja implantação, além do mais, exige terras arrasadas a um custo ambiental deplorável." Canais existem, garante o professor. Seu projeto é simples. Consiste basicamente de unidades cubo que vão se organizando em torno de um pátio central para atividades comunitárias e se sobrepondo de maneira a formar uma grande pirâmide encimada por uma piscina de fundo transparente, suspensa e presa por cabos de aço. Tudo dentro de um orçamento factível.

Entorno do Minhocão merece respeito

Também de São Paulo, Felipe Francisco de Souza foi selecionado por propor a requalificação da área por onde corre o Elevado Costa e Silva, uma idéia cuja inspiração extraiu da Nova Paulista, projeto dos anos 60 assinado por Nadir Mezzerani, do qual implantou-se apenas o fragmento correspondente à passagem para a Avenida Dr. Arnaldo. Com o intuito de não interromper completamente o trânsito local, medida que prejudicaria o fluxo de toda a região, o arquiteto sugere a construção de um sistema de túneis primeiro, para só então se proceder ao desmonte do elevado. A reformulação abrangeria todo o eixo, da Praça Roosevelt à Avenida Água Branca, e envolveria a criação de um parque linear para servir aos moradores do entorno.

De Belo Horizonte vêm Carlos Alberto Maciel, Alexandre Brasil, André Luiz Prado e Danilo Matoso Macedo com uma intervenção que também tem por meta a requalificação de espaços urbanos centrais. O trabalho que apresentam refere-se ao centro de Goiânia, e reformula o plano original de todo o eixo formado pela Avenida Goiás e suas extremidades — numa ponta a Praça Cívica, para a qual propõe a criação de níveis de estacionamento que liberem o uso para pedestres, e na outra, a Praça dos Trabalhadores, onde o edifício da desativada estação ferroviária se transformaria em espaço de lazer. Aproveitando a presença ali de uma estação de metrô e da estação rodoviária projetada por Paulo Mendes da Rocha, a área concentraria os transbordos dos transportes urbanos aliviando o movimento na área central da cidade e ainda contaria com um local para abrigar atividades informais. Maciel acredita que com essas medidas é possível disciplinar a região e atrair ocupações noturnas para reverter o processo de esvaziamento que ocorre nos horários não comerciais.

Também de Belo Horizonte, Juliana Rezende participa com o projeto de retrofit de três prédios residenciais no centro da capital, que estavam desocupados. Estudando intervenções similares em São Paulo, a arquiteta preservou as fachadas das construções erguidas nos anos 40 e remodelou completamente as áreas internas, transformando 24 apartamentos de quatro dormitórios em unidades diferenciadas de até três. Juliana, como Spencer Pupo Nogueira, acha importante oferecer à população de baixa renda qualidade de vida sem ônus adicionais: "Nenhum apartamento é igual ao outro. Projetei de quitinetes a dúplex, com plantas compactas, funcionais e confortáveis, a preços na faixa dos R$ 20 mil". Os edifícios ganharam uma área interna de convivência, boxes comunitários, lavanderia coletiva e bicicletário, atendendo, conforme a pesquisa que fez, às necessidades de um morador típico do centro de Belo Horizonte.

Com igual preocupação, Antonio Roberto Moita Machado propõe um projeto habitacional no entorno de Manaus; Carlos Nelson de Oliveira Cruz, a revitalização do complexo portuário de Manaus; Guilherme Augusto Werneck, a reconversão do complexo da Cia. Antarctica em São Paulo para usos comercial e cultural; Paulo de Mello Bastos, a revitalização da chamada Cracolândia no Centro paulistano; e Demetre Basile Anastassakis, a introdução de habitação popular no centro histórico de Salvador.
    5ͺ Bienal Internacional de Arquitetura
    Seg a qui: 9h30 às 23h
    Sex a dom: 9h30 às 24h
    Pavilhão da Bienal Ibirapuera, Portão 3
    Até 02 de novembro


NA PONTA DA LÍNGUA

Passado, presente e futuro confluem no projeto Estação Luz da Nossa Língua, ligando dois grandes patrimônios: a Estação da Luz, símbolo de São Paulo, mas também da imigração e da migração no país, e a língua, como instrumento de identidade nacional. A proposta da Fundação Roberto Marinho, que demandou três anos para ser formatada, animou um verdadeiro pool de empresas para patrociná-la — IBM, Correios, Rede Globo, Telesp Celular, BNDEs, Grupo Spenco e Grupo Takano —, além do próprio Governo do Estado de São Paulo. Consiste na transformação da Estação da Luz em um grande centro de cultura que seja também um centro de referência da língua portuguesa no mundo, seguindo quatro linhas de ação: exposição permanente, site, projeto educativo e atividades diversas (cinema, teatro, música, artes plásticas, ciclos de conferência etc). As fachadas do edifício já estão em processo de restauro e, assim que os trabalhos forem finalizados, receberão iluminação cenográfica. Ao mesmo tempo, no interior do prédio, começam as obras de instalação do centro propriamente dito. A previsão é de que, até o final do ano que vem — o dos 450 anos da cidade de São Paulo — tudo esteja concluído. "O projeto harmoniza a conscientização da importância da língua como elemento cultural — a língua portuguesa é a quinta mais falada no mundo, sendo que 80% somente no Brasil — com a necessidade de recuperação de um patrimônio tombado em âmbito nacional, que é o edifício da Estação da Luz", sintetiza Adauto Novaes.
    Estação da Luz da Nossa Língua, de Paulo Mendes da Rocha
    Torre em Londres, de Norman Foster
    Edifício do The New York Times, de Renzo Piano , e pólo de esportes náuticos no bairro de Queens, Nova York, do escritório Weiss Manfredi
    Requalificação do Centro de Goiâna
    Recuperação da área do Elevado Costa e Silva, de Felipe Francisco de Souza
    Retrofit de prédios residenciais, de Juliana Rezende


  Reportagem  
A VITÓRIA DO LADRILHO HIDRÁULICO

Discreto, econômico e de fácil manutenção, ele volta a pavimentar as calçadas do Centro.

Federico Mengozzi
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Há várias maneiras de pavimentar o espaço público — calçadas, praças, vias de pedestres — e o ladrilho hidráulico é uma delas. Para a Associação VIVA O CENTRO, que há muitos anos vem insistindo em que ele seja adotado pela Prefeitura como piso padrão para a cidade, é o tipo de pavimento mais adequado: discreto, durável e econômico, ele proporciona conforto ao pedestre, não interfere na paisagem urbana e é de fácil reposição. São Paulo, até há pouco, teimava em cobrir suas calçadas e calçadões com pisos caros, pouco práticos e confortáveis, de manutenção complicada e dispendiosa e resultado estético (para dizer o mínimo) espalhafatoso. Desconfortáveis, porque a manutenção não dá conta dos buracos e irregularidades que surgem sem cessar, tais pisos foram concebidos segundo uma filosofia de que eles devem ornamentar o cenário urbano. Daí os ladrilhos e mosaicos com desenhos e estampas, algo que pouco se vê ao redor do mundo, onde a filosofia é outra — a de que o melhor piso é aquele que passa despercebido.

Segundo a Norma 9.457, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, o ladrilho hidráulico é uma "placa de concreto de alta resistência ao desgaste para acabamento de paredes e pisos internos e externos, contendo uma superfície com textura lisa ou em relevo, retangular ou de outra forma geométrica definida". O ladrilho deve ser entregue devidamente embalado e nele é necessário constar a marca do fabricante. Um exemplo de ladrilho hidráulico que se usa em São Paulo é o que, decorado com o mapa estilizado do Estado de São Paulo, cobre algumas calçadas no Centro e em alguns bairros centrais. É o ladrilho São Paulo, criado nos anos 60, na administração do prefeito Faria Lima.

O ladrilho hidráulico, em sua versão mais singela, sem desenhos ou ornamentos, já foi o piso padrão das calçadas e praças de São Paulo. Fotos antigas, dos anos 30 e 40, mostram que ele foi soberano no Centro. Agora ele volta, sendo usado na obra do Corredor Cultural, em implantação na Rua Xavier de Toledo, que usa essas placas resistentes e sóbrias que quase não pedem manutenção. Bem diferente do mosaico português, padrão de revestimento dos calçadões de São Paulo. "O mosaico português", diz o arquiteto Rinaldo Bueno, gerente de obras do Corredor Cultural, "é bonito e durável, mas, se uma pedra solta-se, ocorre um efeito dominó e em questão de dias surge um buraco. Sem contar que há o problema da segurança, pois as pedras viram armas e podem ser usadas em qualquer confronto que ocorra." Além disso, explica Bueno, as placas de granito usadas nos calçadões junto com o mosaico são escorregadias nos dias de chuva e, quando há trabalhos no subsolo, de difícil recuperação, além de não agüentar o trânsito de veículos de serviços que adentram as zonas de pedestres. O ladrilho hidráulico é um dos três materiais que a legislação municipal considera adequados para revestir passeios públicos – os demais são o concreto e o mosaico português.

Bueno confirma que, a partir de agora, o ladrilho hidráulico será mais usado pela administração municipal, constituindo-se num piso padrão, com peças de cor de cimento e fundo neutro. As novas calçadas da Praça Dom José Gaspar, que está sendo reformada, serão revestidas com ladrilhos nesse padrão e, em certos trechos, também com ladrilhos coloridos. "São antiderrapantes e de fácil reposição. Quebrou um, coloca-se outro. Mas não são mais duráveis, embora tenham uma boa vida útil, por volta de 30 anos, como provam os ladrilhos retirados da Praça Ramos." Há quem afirme que pode superar os 80 anos, embora perdendo a cor original. Segundo padrões municipais, os ladrilhos podem ser aplicados em áreas externas, tais como passeios e áreas de estar, devem ser antiderrapantes, com absorção de água de até 10% e, em testes em mesa de areia giratória, resistência ao desgaste de até 3 milímetros a cada 1.000 metros de abrasão. Segundo o engenheiro Roberto Dakuzaku, da L.A. Falcão Bauer, centro de controle de qualidade que faz testes para a Prefeitura, há uma considerável "quantidade de resultados insatisfatórios obtidos nos ensaios de absorção de água e desgaste". Nesses casos, o produto é rejeitado.

Tradição

O ladrilho hidráulico é um material de origens remotas, que remete aos antigos mosaicos. Como ocorre com estes, peças diminutas de pedras ou cerâmicas usadas para revestir grandes superfícies, o ladrilho hidráulico também é composto de pequenas peças que cobrem uma área maior. No Brasil, empregava-se o lajotão de barro, que ainda pode ser visto nas igrejas coloniais, como revestimento. O ladrilho hidráulico vinha de Portugal e demais países europeus, como a França, até que, no final do século XIX, começaram a ser fabricados no país, inicialmente para paredes e, depois, para pisos – eram, então, pintados à mão. Algumas fábricas antigas existem até hoje e nelas o processo de produção continua artesanal, partindo de uma fôrma na qual são colocados os moldes dos desenhos a serem reproduzidos, preenchidos por um composto de cimento branco ou comum, areia, pó de mármore e óxido de ferro. A pressão sobre o molde é feita manualmente, com habilidade, para que as peças saiam perfeitas. Na seqüência, retira-se o molde e deixa-se a peça em repouso por 12 horas. Depois, a peça é mergulhada na água (o nome ladrilho hidráulico vem justamente do fato de ser molhado, ao contrário dos materiais cerâmicos, que são queimados) e deixada secar de 10 a 15 dias, naturalmente. Ao fim do período, o ladrilho está pronto.

Nos anos 60, à medida que se popularizou o piso cerâmico, de fabricação industrial, o ladrilho hidráulico foi ficando para trás e muitas fábricas fecharam. O produto foi perdendo status, até se tornar, injustamente, depreciado pelo mercado. Nas últimas décadas, porém, alguns fabricantes, visando principalmente o restauro de monumentos tombados, empenham-se em recuperar a qualidade do produto, pesquisando componentes e técnicas, formando mão-de-obra especializada. Versátil, de forma quadrada, de 5 cm x 5 cm a 20 cm x 20 cm, tamanho das peças empregadas no Corredor Cultural, com espessura de 20 mm, o ladrilho hidráulico aceita qualquer tipo de desenho – geralmente são florais ou geométricos. Recomenda-se que seja aplicado sobre um lastro de concreto ou contrapiso no solo compactado. Aí, é esquecer. Difícil é esquecer as vantagens do produto, como o custo. O ladrilho hidráulico custa menos da metade do mosaico português. Segundo dados da Secretaria de Infra-Estrutura Urbana, Siurb, um metro quadrado de passeio de mosaico português custa R$ 103,66. Já um metro quadrado de passeio de ladrilho hidráulico sai por R$ 49,61. Para resultados iguais. Ou muito melhores.

Em ofícios e documentos encaminhados ao poder público, em seminários e através de suas publicações, a Associação VIVA O CENTRO sempre defendeu as vantagens técnicas, estéticas e econômicas da padronização do revestimento das calçadas com o uso do ladrilho hidráulico. Uma dessas vantagens é que, com a padronização gerando maior demanda, haverá maior produção de ladrilho, com seu barateamento crescente e produção em prazos corretos — isto porque, atualmente, ao ser o ladrilho produzido sob encomenda, o prazo de cura do cimento muitas vezes não é observado. Outra vantagem é que o ladrilho hidráulico pode ser produzido em pequenas indústrias com o uso intensivo de mão de obra.



  Reportagem  
AS OPORTUNIDADES DA OPERAÇÃO URBANA CENTRO

Lei 12.349 viabiliza no Centro construção de edifícios de grande porte em terrenos pequenos

Criada pela lei municipal nΊ 12.349, de 1997, a Operação Urbana Centro é um instrumento legal destinado a promover melhoramentos urbanos através de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Ela amplia o coeficiente de aproveitamento do terreno (relação entre a área do lote e o total da área computável edificada) e, em alguns casos, a taxa de ocupação (relação entre a projeção horizontal da área edificada e a área do lote). Desde o seu advento, de fato, no Centro não há índices previamente determinados restringindo o aproveitamento do terreno, mas apenas balizando a partir de qual coeficiente se pagará contrapartida, caso o projeto seja aprovado pela Comissão Executiva da Operação Urbana, um grupo de 14 representantes de setores públicos e privados e da sociedade civil, e do qual a Associação VIVA O CENTRO participa. O que vale é a qualidade, a oportunidade e a sustentabilidade do projeto.

Com isso, ela torna possível a construção, no Centro, de edifícios de maior porte para atender a demanda por escritórios, hotelaria, serviços e residências numa área onde os terrenos são relativamente escassos e de dimensões mais reduzidas que em outras partes da cidade, exigindo um melhor aproveitamento para que o imóvel atinja determinada escala.

Pela atual lei de zoneamento, de 1972, não se podia construir no Centro além de quatro vezes a área do terreno — na prática, pequenos edifícios entre oito e doze pavimentos ou até um pouco mais, desde que o terreno tivesse uma área considerável. Um empreendimento hoteleiro com, por hipótese, 600 apartamentos — um padrão que já começa a surgir em São Paulo — exigiria um terreno de dimensões não disponíveis no Centro, ou somente possível após grandes demolições e a preço elevado. Isso mudou com a lei 12.349, de 1997.

No perímetro da Operação Urbana Centro, que compreende os distritos Sé e República e parte do bairro do Brás (ver o mapa), edifícios de escritório dispõem de um coeficiente máximo de aproveitamento do terreno igual a 4 (quatro vezes a área do terreno) sem pagamento de contrapartida, e edifícios residenciais de um coeficiente igual a 6. Estes últimos são dispensados da reserva de espaço para estacionamento de veículos e, caso este venha a ser construído, sua área não será computada no cálculo do coeficiente de aproveitamento. O índice 6 também vale para os hotéis, podendo acrescentar-se mais 2 para instalações de serviços e mais 4 para uso exclusivo como garagem. Para efeito do cálculo do coeficiente de aproveitamento não serão computados salões de festas, cinemas, salas de espetáculos, teatros, anfiteatros, museus, creches, instalações de educação e cultura e auditórios para congressos, convenções e conferências. O importante é que a Operação Urbana Centro estabelece que esses índices urbanísticos poderão ser ultrapassados mediante análise caso a caso e pagamento de contrapartida financeira. Também pode ser solicitada modificação em disposições do código de edificações, exceto às relativas à segurança dos imóveis.

Concessões gratuitas

Além da flexibilização dos índices urbanísticos, mediante o pagamento de contrapartida, a Operação Urbana Centro oferece incentivos — as chamadas concessões gratuitas de exceções à legislação de Uso e Ocupação do Solo e ao Código de Edificações — para o remembramento de três ou mais lotes, constituindo um terreno com área mínima de mil metros quadrados. Este terá um potencial construtivo adicional correspondente a 10% da área de cada lote remembrado, até o limite de 100%. Outro incentivo diz respeito aos imóveis regulares que venham a ser reformados ou demolidos para adequar-se a um novo uso. A eles serão assegurados os mesmos índices — coeficiente de aproveitamento e taxa de ocupação — da construção reformada ou demolida, caso superiores aos estabelecidos na legislação vigente. Já o proprietário que doar à Prefeitura área de terreno para a implantação de área verde poderá transferir o equivalente a essa área para outro imóvel localizado dentro ou fora do perímetro da Operação Urbana Centro. Pavimentos térreos abertos à circulação de pedestres não serão computados no cálculo do coeficiente de aproveitamento do terreno. Também terá direito à transferência de potencial construtivo o proprietário (ou patrocinador) que restaure, de acordo com projeto aprovado pela Prefeitura, um imóvel protegido pelo patrimônio histórico. No caso de transferência para fora da área da Operação Urbana Centro, esta será feita dentro dos parâmetros definidos pelo novo Plano Diretor. A Operação autoriza também mudanças de uso do edifício e a utilização de espaço aéreo e subterrâneo.

No núcleo do Centro foi delimitada uma área, denominada de Especial Interesse, ( ver o mapa), na qual, até junho de 2004, será concedido um desconto de 20% sobre o valor total da contrapartida.

Novas demandas

Equipado com uma completa infra-estrutura de comunicações e energia elétrica, ponto de convergência e irradiação da malha metroferroviária, local de concentração das principais instituições jurídicas, financeiras e de governo e dos melhores equipamentos culturais da metrópole, ponto estratégico por sua eqüidistância dos aeroportos e dos troncos rodoviários e pela proximidade do complexo de eventos do Anhembi, o Centro — à medida em que avança o processo de sua requalificação — tenderá a ser o ponto mais procurado para atividades típicas de centro metropolitano, como serviços avançados, comércio diferenciado, ensino universitário, turismo, lazer e cultura, além de núcleo residencial diversificado. É tida como certa uma forte demanda por áreas de escritório de última geração, edifícios de alta tecnologia para hotéis de turismo e negócios, espaços para lojas e imóveis para instituições de ensino. Sediando já a maior parte dos organismos governamentais, o Centro começa também a receber sedes de instituições e empresas públicas. Foi para acomodar essa demanda futura e despertar um círculo virtuoso de incremento econômico, qualidade de vida e valorização do patrimônio público e privado que se criou a Operação Urbana Centro — um excelente negócio para a cidade e para o empreendedor. (Jule Barreto)

Na área da Operação Urbana, índices podem ser ultrapassados mediante análise caso a caso e pagamento de contrapartida financeira


  Reportagem  
CORREDORES SEM DEGRADAÇÃO

Em Curitiba, planejamento garante qualidade urbana e atividade comercial ao longo das vias exclusivas de transporte coletivo

Rogério Pereira

Quando estavam implantando as estações-tubo em Curitiba, há quase 12 anos, o então prefeito Jaime Lerner e sua equipe se defrontaram com um problema. Era importante garantir agilidade no pagamento da passagem e no embarque. Para isso, era indispensável que o passageiro pagasse antes de entrar no ônibus, e que o embarque se desse exatamente no mesmo nível da plataforma. O pagamento foi facilmente resolvido, com uma catraca na entrada da estação-tubo. Já a operação de embarque também tinha que ser perfeita para manter a agilidade e evitar acidentes. Para isso, era essencial um impecável encaixe entre ônibus e tubo.

"O número de soluções complexas e caras que tentaram nos vender foi grande. Uma delas era fazer a aproximação do ônibus ao tubo de embarque eletronicamente, navegando os ônibus por meio de sensores nos últimos 300 metros", diz Lerner. "Todas as soluções que nos apresentavam eram extremamente caras. Tão caras quanto o custo da própria frota."

Até que um arquiteto da equipe de Lerner chamou o motorista chefe de operações e perguntou se ele seria capaz de encostar o ônibus na estação tubo com a porta exatamente na plataforma de embarque. O motorista encostou o veículo perfeitamente. O arquiteto perguntou se ele e os demais motoristas seriam capazes de sempre repetir aquela operação com a mesma precisão. O motorista deu a solução: um pequeno risco feito no vidro do ônibus e outro na estação-tubo. Quando os mesmos coincidiam, estava feita a operação, com total segurança para os passageiros. O "sistema" funciona desta forma desde 1991 e nunca houve um só acidente.

Lerner gosta de apontar esse caso como emblema de como o atual sistema de transporte coletivo de Curitiba começou a ser implantado, há quase trinta anos, e vem sendo melhorado gradualmente. "Optamos por idéias simples e criativas. Não tínhamos dinheiro para o metrô e apostamos que o transporte de superfície poderia suprir a necessidade da cidade, desde que fosse bem planejado", afirma Lerner, que inaugurou, em 1974, em sua primeira gestão na prefeitura de Curitiba, o sistema Expresso, com canaletas exclusivas para os ônibus.

As canaletas do Expresso foram um marco para a cidade, não apenas por causa dos ônibus vermelhões que passaram a deslizar pelas pistas exclusivas, por si só uma atração. Na verdade, elas faziam parte de um planejamento urbano para uma transformação completa nos rumos da capital paranaense.

Na metade dos anos 60, com quase seiscentos mil habitantes, Curitiba crescia de forma radial. Todo mundo queria ficar o mais perto possível do Centro. E as novas construções iam literalmente se abarrotando em torno do Centro, onde quer que houvesse um terreno disponível. O importante era estar próximo do coração da cidade.

Em 1966, o Plano Diretor de Curitiba alterou a conformação radial de crescimento, propondo um modelo linear de expansão e desenvolvimento urbano. Utilizados como um mecanismo de planejamento, o zoneamento e o uso do solo definiram parâmetros de ocupação que orientaram os investimentos — públicos e privados — e disciplinaram as atividades da iniciativa privada. A partir das diretrizes de uso do solo propostas pelo Plano Diretor, a cidade foi sendo moldada por meio de sucessivos zoneamentos.

Coube a Lerner e sua equipe, entretanto, acrescentar as idéias que são vistas hoje como um modelo de aplicação internacional. A proposta existente previa uma via de 70 metros nas chamadas avenidas estruturantes, por onde passaria o novo eixo de transporte. O problema é que seriam necessários imensos recursos financeiros para obras e desapropriações. "Levaríamos anos ou décadas para finalizar esses projetos. Resolvemos fazê-los, mas usando as vias normais", diz Lerner.

Foi então que surgiu o sistema trinário, com um eixo principal ladeado por duas vias rápidas paralelas de sentido único. No eixo principal foram instaladas canaletas de sete metros de largura, por onde trafegariam os ônibus. As laterais das canaletas foram reservadas para estacionamento, já que a via onde se implantou o Expresso também comportava o trânsito lento dos demais veículos ao lado das canaletas.

Naturalmente que o eixo de transporte público não garantia, por si só, o desenvolvimento linear ao longo das estruturantes. "Era fundamental integrar as funções. Vida e trabalho tinham que estar juntos, então a proposta de transporte estava integrada com a idéia de uso do solo", explica Lerner.

Mais que disciplinadores da ocupação urbana, o zoneamento e o uso do solo foram e são usados em Curitiba como agentes indutores e promotores do processo de desenvolvimento da cidade. Por meio de sucessivas revisões do zoneamento estabelecido pelo Plano Diretor, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) — órgão responsável pelas estratégias urbanas implantadas na cidade — foi adequando a expansão urbana às diretrizes do modelo linear de crescimento.

Coeficiente

Uma lei em especial, a número 5.234, de 1975, limitou a ocupação e adensamento das zonas residenciais periféricas e incentivou a ocupação das áreas próximas aos setores estruturais, onde o coeficiente de aproveitamento foi elevado de quatro para seis vezes a área do terreno (para efeito de comparação, o coeficiente máximo estabelecido pelo novo Plano Diretor de São Paulo é 2,5 e chega a 4 apenas em zonas especiais de operação urbana, no eixo de linhas do metrô ou ferrovia). O térreo e o primeiro pavimento foram destinados ao comércio e aos serviços. Junto às ruas utilizadas pelo transporte coletivo nas zonas residenciais foi permitida a concentração de atividades comerciais e de prestação de serviços de médio porte. Chamadas de Coletoras, estas vias concentram o tráfego residencial, comercial e o transporte coletivo.

Não foi à toa que muitos empresários escolheram, e ainda escolhem, as Coletoras para instalar suas atividades. O curitibano Marcelo Motter, 38 anos, teve restaurante em bairro e no Centro, mas resolveu mudar-se para a Avenida João Gualberto, no eixo de transporte Norte. Em 1997, ele inaugurou o restaurante Quilo Vital, que serve, em média, 250 refeições por dia, sempre no almoço. "Durante a semana, minha clientela é composta de pessoas que trabalham na região. Mas o movimento cai pouco no fim de semana, quando os moradores das proximidades é que se tornam meus fregueses", diz Motter. Ele abre o restaurante todos os dias, inclusive sábado e domingo, quando serve, em média, 200 refeições para seus vizinhos. "Fiz a melhor opção quando resolvi mudar o restaurante para a via da canaleta."

Para se ter uma idéia da movimentação comercial perto do restaurante de Motter, basta dizer que num raio de cem metros do Quilo Vital estão agências dos bancos HSBC, Itaú, Caixa Econômica Federal, Unibanco, BBV e Bradesco, todos ao longo da canaleta. "Assim como as pessoas que trabalham na região freqüentam meu restaurante, eu também resolvo todas as minhas necessidades no comércio e no serviço local. Vou ao banco ou à farmácia a pé, sem sair da minha rua", diz Motter.

Para o empresário Ardisson Akel, presidente do Conselho Deliberativo da Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropecuárias do Paraná, o modelo de crescimento induzido na capital paranaense é exemplar. "As pessoas elogiam o transporte coletivo de Curitiba, mas não têm idéia da amplitude do sistema", afirma. "Uma das razões do sucesso do modelo curitibano foi o fato de que seus idealizadores ofereceram condições para que o comércio e o serviço se instalassem ao longo do eixo de transporte."

O tão afamado modelo curitibano é hoje um conceito mundial. Chamado internacionalmente de BRT (Bus Rapid Transit), serve de inspiração para 87 cidades em 29 países. Segundo estudo feito pelo Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), de Nova York, 41 dessas cidades já utilizam o BRT e 46 estão desenvolvendo o sistema. Para os técnicos nova-iorquinos, o Bus Rapid Transit é uma das melhores soluções para demandas baixas ou médias de transporte coletivo, devido ao seu custo reduzido e à boa qualidade do serviço. O custo de implementação de um sistema BRT oscila entre 1 milhão e 10 milhões de dólares por quilômetro. Já o sistema de metrô ou trem precisa de investimento de 20 milhões a 207 milhões por quilômetro. Além disso, o tempo de construção de um sistema básico de BRT é, em média, de 18 meses, enquanto o metrô leva, pelo menos, três anos para a conclusão de uma linha.

E claro que, em cidades como Nova York e São Paulo, o metrô é insubstituível e será sempre a espinha dorsal do sistema de transporte, por sua alta capacidade e um poder incomparável de induzir transformações urbanas. No entanto, sistemas como o BRT funcionam muito bem como alimentadores do metrô em trechos de menor demanda.

Estética

O sistema curitibano não se resume à implantação de canaletas. Juntamente com o ônibus Expresso, Curitiba inovou em conceitos de mobiliário urbano e comunicação visual. A própria cor do Expresso, que logo passou a ser conhecido como Vermelhão, foi uma novidade.

"Queríamos realmente causar um impacto. Estávamos apostando numa idéia nova, uma idéia local, então era importante que ela fosse marcante, com um mobiliário moderno, funcional e bonito", conta o arquiteto Rafael Dely, presidente do Ippuc quando o Expresso foi lançado em 1974. "A implantação do sistema de transporte coletivo demandou estudos sobre o desenho dos ônibus. Foram propostas alterações de design, de chassis, de altura do ônibus; foram modificadas as portas de entrada e saída, os bancos foram adaptados para oferecer maior conforto aos usuários."

Também foram definidas cores diferenciadas para cada tipo de linha do sistema de transporte. O Expresso inaugurou o vermelho. Mais tarde, em 1979, o Interbairros, cuja circulação o próprio nome explica, utilizou o verde. O amarelo (já de uso tradicional) foi definido para os alimentadores do sistema. O Ligeirinho, lançado em 1991 para trafegar nas vias rápidas, é cinza.

Os terminais de transporte foram tratados para dar ao usuário conforto e informações sobre a localização e itinerários dos ônibus. "Esse processo se manteve nos anos 80, 90 e segue recebendo atenção até hoje", diz Dely, que continuou na equipe de Lerner quando este voltou a ser prefeito de 1979 a 1982 e de 1989 a 1992.

O ônibus biarticulado, que substituiu o expresso nas canaletas, no início da década de 90, com capacidade para transportar 270 passageiros, também recebeu tratamento de design e comunicação visual.

A estação-tubo, implantada em 1991, ganhou desenho moderno, geminado com o ônibus urbano, permitindo o embarque em nível e incorporando ao sistema a qualidade dos serviços de um metrô. São 351 plataformas de embarque e desembarque, no mesmo nível da porta de acesso dos ônibus. A tarifa é paga antecipadamente, na própria estação, dispensando-se a presença do cobrador no interior do coletivo. Os veículos percorrem os trajetos em menor tempo, dispondo de estações-tubo a cada 800 metros, em média. A cobrança antecipada da tarifa assegura economia de tempo para o usuário de até uma hora por dia. E, em relação ao sistema convencional, economiza até 18% do custo operacional. Ao todo, 195 estações-tubo são dotadas de elevadores para deficientes físicos.

O grande diferencial do transporte curitibano é dispor de tarifa integrada, permitindo deslocamentos para toda a cidade pagando apenas uma passagem. Cada pessoa pode compor seu próprio percurso, já que o sistema é integrado por meio de terminais e estações-tubo. Quem percorre trajetos longos, o que é mais comum entre a população de menor poder aquisitivo, é subsidiado por aqueles que realizam percursos menores. Calcula-se que diariamente 80% dos usuários sejam beneficiados pela integração.

Atualmente, a Rede Integrada de Transporte de Curitiba e Região Metropolitana opera com 2.160 ônibus, realizando cerca de 21 mil viagens por dia/útil. Assim, cerca de 1,9 milhão de passageiros são transportados diariamente, com um grau de satisfação de 89% dos usuários, segundo pesquisa da Urbs, empresa que gerencia o sistema.

Só de canaletas exclusivas são 72 quilômetros. Pode parecer pouco, mas, no Brasil, 11 cidades — incluindo Curitiba — totalizam 123,2 quilômetros de vias exclusivas. Ou seja, 58,4% delas estão na capital paranaense.

Lerner, que depois da fama do transporte coletivo venceu duas eleições para o Governo do Paraná (1994 e 1998), orgulha-se ainda em contar como surgiu o ônibus biarticulado. Ele conseguiu uma reunião com a diretoria da Volvo, em Gotemburgo, pois tinha que convencer os fabricantes de chassis que o ônibus era possível, e que haveria mercado para isso. Sua equipe montou um estudo que fazia uma avaliação das cidades que teriam necessidade de soluções de superfície e um estudo de viabilidade técnica de como poderia funcionar isso em Curitiba. "Qual foi nossa surpresa em ver que uma poderosa estrutura não tinha mais que uma pasta de recortes de jornais sobre transporte de massa. Foi uma vergonha para eles", recorda Lerner. "Tanta vergonha tiveram que, dois meses depois, o vice-presidente veio ao Brasil me comunicar que estariam dispostos a começar a desenvolver o chassis em Curitiba, on-line com a equipe de Gotemburgo." A aventura não parou por aí. "Desenvolvido o chassis, o teste era feito de madrugada em Curitiba para ver se funcionaria com aquele comprimento nas nossas ruas e canaletas", recorda Lerner.

ESPAÇO PÚBLICO E PRIVADO NA URBE
GILBERTO DUPAS


Na teoria política clássica, desde os gregos, o espaço público era o lugar da liberdade e do exercício de participação crítica dos cidadãos da urbe. Era o espaço aberto por excelência, contrastando com a fortaleza da Idade Média, cujo conceito arquitetônico visava defendê-la de seu meio ambiente. Já no modernismo, as grandes construções passaram a representa um símbolo de poder das corporações, com seus imensos edifícios-sede exibindo identidade específica a fim de destacar-se do entorno em que se localizavam. Hoje se vê a fusão anônima destes edifícios com seu environment; somente os logos e as marcas de comércio distinguem as empresas nos cenários metropolitanos. O privado apropriou-se dos espaços públicos e transformou-os em espaço publicitário; os cidadãos que os freqüentam o fazem enquanto consumidores de informação, comunicação e entretenimento; e não mais como cidadãos. Das grandes avenidas às pequenas ruas de nossas metrópoles, todas se transformaram em um imenso espaço de outdoors, anúncios e logomarcas, tornando a paisagem pública urbana uma espécie de lixo midiático privado. Parques e jardins públicos só conseguem ser mantidos e conservados através de parcerias com o setor privado. Com isso, placas de patrocínio atropelam famílias e crianças que andam pelos gramados ou alamedas, com as corporações por vezes induzindo, com seu poder financeiro, utilizações e tipos de eventos com os quais o público é obrigado a interagir.

As mídias estão repletas de exemplos dessa enorme exposição. As sessões de cinema e as fitas de vídeo são recheadas de trailers e de propaganda. A televisão pública só consegue se manter abrindo espaço para a propaganda e o patrocínio, de forma equivalente à televisão privada. A imprensa escrita e o jornalismo eletrônico – incluindo as empresas de notícias – tendem a se concentrar em empresas globais, subordinando-se às grandes corporações internacionais de negócios, com interesses comerciais que tornam cada vez mais complicado o exercício do jornalismo independente. Os veículos de transporte público transformaram-se em imensos outdoors em movimento, a poluir visualmente o que resta do espaço visual; e os cidadãos que pagam seu transporte transformam-se em suportes ambulantes de anúncios de produtos e serviços. Essa incomensurável degradação dos espaços públicos vai muito além da precária justificativa de que faltam recursos ao setor público. Trata-se, efetivamente, do abandono – pela sociedade contemporânea – de valores essenciais que distinguiam e defendiam o espaço público. Estamos em um novo universo sistêmico unidimensional e auto-referencial no qual se operou uma fusão do espaço público, do espaço privado (da economia) e do espaço da intimidade. São esses, aliás, os temas que exploro no meu mais recente livro Tensões Contemporâneas entre o Público e o Privado (Editora Paz e Terra).

Cidadania se adquire por cooperação, negociação, convergência de interesses e apaziguamento dos conflitos inerentes à sociedade contemporânea. Mas o pressuposto essencial para a prática da cidadania é a existência e a explicitação dos conflitos. A luta pela cidadania é um embate por significados, pelos direitos à fala e à política. É na sociedade civil que se produz a ideologia, cimento amalgamador do consenso, permanentemente contestado pelo dissenso. No entanto, sociedade civil passou a designar – nos discursos de várias das ONGs refletidos nas mídias – um lugar do não-conflito e da concertação, onde os interesses contraditórios não aparecem. Essa visão é conceitualmente falsa, bem como o é na prática social e política. Ela reduz, mais uma vez, a sociedade civil ao âmbito dos atores privados. Tome-se como exemplo a nova vertente urbanística das revitalizações dos centros históricos ou degradados. Para Francisco de Oliveira, o nome revitalização já trai seu significado, pois quer dizer que, antes, ali não havia vida. Trata-se, no fundo, apenas do deslocamento do conflito, não de sua resolução. Trocam-se os pobres, os mendigos, as prostitutas, os botecos sujos e as pensões baratas por maquiagens que acentuam os velhos bons tempos. Os excluídos continuarão excluídos em outras partes da metrópole, provavelmente em lugares mais distantes e menos visíveis. O resultado final é a valorização da terra urbana e um impacto estético. Com a justificativa de novos empregos, aumento da renda e melhor convívio urbano, mais uma vez privatiza-se o público, mas não se publiciza o privado; e não se melhora a condição dos excluídos, pois se afasta o conflito, justamente ele que pode redistribuir o lucro gerado.

Opera-se, assim, o reducionismo do espaço público moderno, que deveria ser o lugar não-privado do privado, no conceito de Jürgen Habermas. Para alterar o componente perverso dessa nova ordem, seria preciso reintroduzir a dimensão universal e pública na lógica do capitalismo global; ou seja, trazer para dentro de suas determinantes privadas o conflito, as tensões crescentes entre excluídos e incluídos, os crivos principais que dividem, hierarquizam, estruturam, discriminam e privam. Será isso possível? As nossas metrópoles – São Paulo em especial - laboratórios sociais avançados da nova ordem (ou desordem), esperam que sim. E seus cidadãos também.

O espaço público moderno deve ser o lugar não-privado do privado

Economista, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP


  Reportagem  
UM CENTRO COM EDIFÍCIOS À ALTURA DE SÃO PAULO

A recuperação da área vai criar demanda por imóveis modernos e de grande porte; Operação Urbana Centro facilita sua construção em locais como o Vale do Anhangabaú, que precisa assumir novo perfil

Jule Barreto

Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


O Centro é um dos mais ativos pólos financeiros, comerciais e de serviços da cidade e, com a sua requalificação, deverá receber mais empresas e instituições. Novas atividades exigirão imóveis comerciais com recursos tecnológicos avançados e, em alguns casos, com grandes lajes. Mas esses novos, grandes e eventualmente altos edifícios não deverão despontar no Centro como o fazem nas regiões de boom imobiliário, sem outro critério que a maximização do espaço construído. No Centro, essas novas estruturas, além de suprir a demanda por escritórios, devem ser elementos chave da composição ou complementação do desenho urbano e, na mesma escala, indutores de desenvolvimento econômico e qualidade urbana.

Um padrão que, por seu porte, funcionalidade e qualidade estética, deveria ser incentivado no Centro é o dos modernos edifícios que foram inaugurados no Vale do Anhangabaú no final dos anos 60 e início dos 70, todos na faixa dos 30 andares e com lajes amplas, acima de mil metros quadrados. Estão longe da obsolescência. Abrigam instituições e empresas de economia contemporânea, usuárias de tecnologia da informação, como call centers e centrais de telemarketing. Edifícios como o Grande São Paulo e o Mercantil Finasa são dotados de ar condicionado central, garagem e controles eletrônicos.

Mas, como os terrenos no Centro são em geral pequenos, vigora desde 1997 a Operação Urbana Centro, que entre outros incentivos autoriza coeficientes de aproveitamento do terreno mais elevados (ver reportagem nesta edição). No Vale do Anhangabaú, por exemplo, restam diversos imóveis de pequeno porte, remanescentes de urbanizações anteriores, que devem ser demolidos para dar lugar a grandes estruturas com alto índice de aproveitamento do terreno.

"Os edifícios altos e de grande porte podem ser a melhor opção para o Centro de São Paulo", afirma a arquiteta Joana Carla Soares Gonçalves, professora da FAUUSP. O motivo é a densa infra-estrutura de comunicações, energia elétrica e transportes instalada na área. Ela dá suporte a grandes hotéis, edifícios de escritório e complexos administrativos como a sede da Prefeitura e de órgãos do Estado. Nesse contexto de renovação imobiliária para a expansão econômica da área, o Vale do Anhangabaú teria um papel estratégico. Em suas imediações, nos albores do século XX, São Paulo começou a verticalizar-se. Nele encontra-se o mais harmônico conjunto de edifícios altos do Centro. Nele, ainda — à diferença dos lugares onde ocorre a expansão imobiliária em São Paulo —, além de oferecer ao Centro áreas para escritórios, novos edifícios ajudariam a compor a paisagem definitiva da região e a definir a função do Vale como o grande portal de acesso ao Centro. Além de duas linhas e duas estações de metrô, o logradouro dispõe de pistas expressas no subsolo e de um espaço pedestrianizado, o que, na opinião do arquiteto Edison Vaz Musa, favorece a construção de grandes edifícios. "Um edifício de porte poderia ser uma bela adição à paisagem e, por meio de um programa bem proposto, em muito poderia contribuir para melhorar o Vale e o próprio Centro", afirma o arquiteto, que é chairman para a América Latina do Council on Tall Buildings and Urban Habitat, uma instituição internacional.

O Vale

Em menos de um século, o vale de um córrego no núcleo histórico de São Paulo, para o qual se voltavam os fundos das chácaras, transformou-se num elegante jardim, foi transposto por dois viadutos e, mais tarde, já convertido em eixo de circulação viária, teve suas pistas rebaixadas e cobertas por uma grande esplanada. Alguns imóveis solenes, como o Teatro Municipal e os palacetes Prates, compuseram-lhe a primeira moldura, nas primeiras décadas do século XX. Já no final dos anos 40 começaram a surgir altos edifícios de escritório. Mas o Vale do Anhangabaú nunca se completou. A paisagem ainda é aberta, inconclusa. Sua função também é indefinida. Hoje é uma esplanada na superfície e um tronco viário no subsolo — mas, enquanto as pistas conduzem bem o tráfego pesado entre o norte e o sul da cidade, a esplanada é um problemático lugar de passagem que as pessoas cruzam apressadamente e onde poucos, como os skatistas do final das tardes, querem permanecer. Nem mesmo a interligação viária do Anhangabaú e da Avenida Prestes Maia com a Avenida São João, uma das exigências do concurso que, nos anos 80, escolheu como vencedor o projeto do arquiteto Jorge Wilheim e equipe, foi implantada. O Vale ainda aguarda definição como o grande cenário urbano e o mais generoso espaço público do Centro e talvez da cidade.

"O (arquiteto francês Joseph Antoine) Bouvard transformou o Vale em um parque que poderia ser comparado aos parisienses".afirma o arquiteto e historiador Benedito Lima. No entanto, para ele,"faltou visão urbanística à sequência de prefeitos populistas a que a cidade foi entregue". Para a autora do projeto paisagístico implantado no Vale nos anos 80, a arquiteta Rosa Grena Kliass, a atual configuração da área preserva a sua natural monumentalidade. "O projeto foi elaborado justamente para destacar esse aspecto. Ele deixa limpa a área do Vale. Não existe em nenhum centro urbano do mundo um espaço semelhante ao Anhangabaú, cercado por edifícios como o dos Correios e o Teatro Municipal e atravessado por dois viadutos."

Mas, a despeito dos altos edifícios que foram construídos no Vale, e que imprimiram ao lugar um padrão vertical nas últimas cinco décadas, o logradouro ainda aguarda conclusão. Há uma nítida desconexão entre os seus dois lados e muitos trechos nos quais subsistem restos do casario miúdo do início do século XX, que nem mesmo preservam traços originais. A ampla esplanada é usada apenas para a transposição entre o Centro velho e o novo. "Em certo sentido, é um espaço que morreu", afirma o arquiteto Angelo Bucci, professor da FAUUSP. "Hoje, quem o atravessa nada vê. O Vale perdeu a visibilidade. Foi um espaço significativo, a ponto de abrigar e repercutir o comício das Diretas Já, nos anos 80, mas hoje não é nada. A construção do túnel sob a esplanada fez com que o lugar perdesse a força simbólica. E a própria esplanada não tem muita animação."

Visando à "complementação" do Vale do Anhangabaú e à ativação de funções de convivência típicas de um parque, a Associação VIVA O CENTRO recomendou, em documento de 1996, a definição das bordas do Vale — com a reabertura das vias locais e o piso das calçadas adjacentes aos edifícios diferenciando-se do piso do espaço central — e a valorização das entradas e saídas, com o tratamento e uso adequado dos balcões e escadarias existentes no lado da Rua Líbero Badaró. A proposta está no trabalho São Paulo Centro – Uma Nova Abordagem, realizado por uma equipe coordenada pela arquiteta Regina Prosperi Meyer, da FAUUSP, como consultora da Associação.

Além de melhoramentos no nível da circulação e da fruição dos espaços, o que seria um novo Vale do Anhangabaú? Se a opção for não deixá-lo como está, o Vale deveria assumir a vocação de verticalidade do Centro de São Paulo. Após muitas leis destinadas a banir ou reduzir a altura dos seus prédios, a cidade é hoje mais horizontal e rarefeita do que (contrariando uma opinião generalizada) vertical e densa, ainda que ocupada por uma infinidade de edifícios de pequena ou média altura — resultando em verticalização (moderada) sem adensamento. "Ou você suburbaniza e ocupa horizontalmente, como os americanos fizeram com base na indústria automobilística, ou você faz o que propunha Le Corbusier, que a cidade fosse um jardim vertical. São Paulo fica com dois elementos que se contrapõem, o automóvel do subúrbio horizontal e o elevador da cidade vertical", afirmou à urbs de janeiro de 1998 a arquiteta Nadia Somekh, professora da Universidade Mackenzie e hoje presidente da Emurb. Situação, aliás, que as sucessivas leis reduzindo o porte e a altura dos edifícios só fizeram agravar-se, como se continuou vendo até hoje, principalmente no período de vigência da lei de zoneamento de 1972, que reduziu para um máximo de 2 o coeficiente em 90% da cidade e a um máximo de 4 no restante. "Isso explica o espraiamento excessivo da mancha urbana e a enorme valorização fundiária", completou Nadia. Hoje, com o novo Plano Diretor, os índices são ainda mais reduzidos.

São Paulo não tem um só edifício internacionalmente notável em dimensões e altura que justifique sua fama de cidade de arranha-céus, ainda que estes, reduzidos no porte e na altura, se espalhem por toda a mancha urbana. Os edifícios mais altos do Brasil estão hoje em Curitiba e no Rio de Janeiro. Os da América Latina, na Cidade do México e em Caracas. O Vale redesenhado teria a função de reassumir a verticalidade como elemento simbólico mais poderoso do Centro e da própria cidade, o seu valor de marca, e ainda deflagrar o início de um processo de renovação e modernização do estoque imobiliário da área central.

"O Vale do Anhangabaú tem vocação para a verticalidade", sustenta o arquiteto Angelo Bucci. "E a verticalização sempre tem sentido quando há uma boa infra-estrutura concentrada e sub-aproveitada, caso do Centro". Para o arquiteto Edison Musa, os edifícios altos, a rigor, não são indispensáveis à economia globalizada (há quem sustente que sejam, sim, na medida em que possam concentrar "complexos de serviços" da economia global e grandes hotéis, entre outros usos), "mas ajudam na recuperação de um sentido de progresso e desenvolvimento, tão necessário em momentos como o que vivemos, carentes de um projeto capaz de unir a população". Unindo a utilidade econômica ao significado simbólico, a construção de um ou mais grandes edifícios no Vale do Anhangabaú seria um acelerador do processo de recuperação do Centro. "É sabido que, além de suas oportunidades econômicas, os edifícios altos exercem a função de catalisadores de entusiasmo e energia", diz Musa. Isso porque o valor simbólico de um edifício alto extrapola a empresa que o ocupa e diz respeito à cidade inteira.

Um edifício de grande porte no Vale do Anhangabaú poderia atingir até três vezes a escala do Edifício CBI Esplanada, que tem 110 metros de altura. A opinião é do arquiteto José Eduardo Lefèvre, professor da FAUUSP e ex-diretor de Operações Urbanas da Emurb. Ele acha que o local apropriado para construi-lo é o conjunto de pequenas e desqualificadas construções na esquina do Vale com a Avenida São João, ao lado do Correio. São imóveis que sobreviveram às diversas etapas de reurbanização do local e que, bastante descaracterizados, estão vazios ou ocupados por um pequeno comércio no térreo e, no andar de cima, pela prostituição. No tempo em que esteve na Emurb, Lefèvre acompanhou as diversas tentativas de encontrar uma solução para essa esquina — os terrenos têm proprietários diferentes e alguns estão sub judice, por questões de herança. Uma desapropriação pela Prefeitura, alegando "necessidade pública" — tal como o então prefeito Olavo Setubal (ver entrevista nesta edição) fez com o edifício Martinelli para reformá-lo, nos anos 70 — e repassá-lo à iniciativa privada para a construção da torre "é a solução possível", afirma Lefèvre. Já o arquiteto Roberto Loeb considera que os pequenos imóveis da esquina-problema exibem "uma escala interessante" e merecem ter a sua volumetria respeitada.

Além de induzir o desenvolvimento dos serviços, do comércio e das ofertas culturais em sua área, um grande edifício poderia ajudar a desacelerar a expansão horizontal da cidade. "A tendência, hoje, são espaços urbanos mais compactos, que não façam com que as pessoas empreguem muito tempo no transporte. Defendo o uso misto de grandes estruturas. São muito mais sustentáveis", afirma Joana Gonçalves. (Com reportagem de Federico Mengozzi)

UMA TORRE NO VALE

Projetada no início dos anos 90 pelo arquiteto Fábio Penteado (com a colaboração dos arquitetos César Sampedro e Davison Becato), a pedido do consultor de imóveis Luiz Antonio Pompéia, da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), a Torre Nova São Paulo, com 67 andares, cerca de 250 metros de altura e arquitetura arrojada, seria um edifício adequado àquele ponto do Vale. De uso misto — hotel com 900 quartos, escritórios, áreas de uso coletivo e shopping center —, o projeto previa a demolição de quase todo o quarteirão, preservando-se apenas o CBI Esplanada, o palacete sede da Votorantim e o prédio do Conservatório Dramático Musical. No subsolo, grandes áreas de estacionamento, com capacidade para até 4 mil veículos e servindo também aos diversos pontos de atração da área, como o Teatro Municipal, com acessos pela Rua da Consolação, em frente à Biblioteca Mário de Andrade, e pela Avenida Rio Branco, se constituiriam em um arruamento subterrâneo. No entanto, a torre de Penteado não foi projetada para ser construída.

"Projetei-a como um teaser, uma provocação, para desencadear um processo de renovação imobiliária e demonstrar a timidez da então Operação Urbana Anhangabaú da prefeita Luiza Erundina, que determinava um estoque imobiliário total de até 150 mil metros quadrados e que se pudesse construir no máximo até 20 vezes a área do

terreno", explica Fábio Penteado. "Se aquela Operação tivesse acontecido, a região do Vale seria hoje um enorme paliteiro devido ao fato de os terrenos da área serem pequenos e fragmentados. E por que só até 20

vezes? Edifícios como o Itália e o do Hotel Hilton têm área construída que equivalem a 30 ou 40 vezes o terreno em que estão". O acanhado limite do estoque imobiliário

previsto pela Operação Urbana Anhangabaú ficou patente quando se viu que o projeto de Penteado e Pompéia, com exatos 150 mil metros quadrados, esgotava a capacidade total de toda a área da operação.

Mas o projetado edifício teria outra função: criar uma perspectiva monumental para o Centro. "Seria uma arquitetura diferenciada, feita por arquitetos brasileiros, com material e técnica brasileiros. Com certeza, contribuiria bastante para recuperar o Centro. Seria sua marca registrada. Na

época, se construído, é bastante provável que teria sido absorvido pelo mercado. Hoje, tenho minhas dúvidas. O mercado prefere produtos menores e de mau gosto", comenta Penteado. Luiz Paulo Pompéia, que assumiu a direção da Embraesp após a morte do irmão Luiz Antonio, há três anos, acredita na viabilidade do projeto ainda hoje. "Existem empreendedores interessados. O Centro tem instituições importantes e uma boa infra-estrutura. Mas é preciso vontade política." Ou seja, a Prefeitura

teria que enxergar esse ou outro grande edifício no Vale do Anhangabaú (ou em

outros pontos do Centro) como um projeto do interesse maior da cidade, capaz de ativar a economia, melhorar a qualidade

urbana e criar novas oportunidades de negócios, trabalho e renda, além de reforçar a imagem paulistana de dinamismo e poder. A desapropriação seria até mesmo um bom negócio para a Prefeitura, assegura Luiz Paulo. Contatos foram feitos pelo irmão com empresários à época da apresentação do projeto, e estes se interessaram a ponto de propor o pagamento adiantado à Prefeitura dos valores da desapropriação.

Um edifício semelhante à Torre Nova São Paulo teria elevado valor simbólico, atrairia negócios e milhares de novos usuários ao Centro e estimularia a economia de serviços em toda a área. No entanto, consultores imobiliários como Paul Weeks, da Cushman & Wakefield Semco, não acreditam que, no Centro, um imóvel de padrão AAA ("inteligente") seja absorvido pelo mercado na atual conjuntura. "Exigiria um grande investimento e seria um espaço caro. Haveria muitos andares sem procura, a não ser que houvesse algum incentivo da parte do poder público", diz Weeks. "A região é adequada a empreendimentos de serviços como call centers, instituições de ensino, grandes escritórios de advocacia etc., devido principalmente à infra-estutura que lá existe. Além disso, a instalação da máquina administrativa estadual e municipal na área pode movimentar o mercado e atrair empresas. Mas um edifício AAA custaria R$ 40 o metro quadrado. Quem hoje pagaria esse valor no Centro?"

Perguntas semelhantes não teriam sido feitas antes de se erguerem, no próprio Vale, estruturas do porte do Mercantil Finasa e do Grande São Paulo? No final dos anos 60, o Centro ainda concentrava a maior parte dos escritórios, sedes de bancos e empresas da cidade. Mas não tinha as demandas derivadas de uma economia dinâmica, de feições globais, que hoje vem se instalando na região. Nem por hotéis de grande capacidade e por empresas de serviços de tecnologia avançada. O Centro em requalificação de nossos dias vai, sem dúvida, precisar de um moderno e amplo estoque imobiliário.



  Urbanismo Nacional  
UM VLT PARA O CENTRO

José Tadeu Braz*

Esta proposta foi elaborada com base na experiência e nos estudos do autor sobre transportes urbanos, em especial o bonde moderno, após a sua participação na mesa-redonda "Microacessibilidade na Área Central de São Paulo", promovida pela Associação VIVA O CENTRO em junho deste ano, e como parte das discussões que a ela seguiram no site da entidade. Como proposta ou sugestão, e sem a presunção de sequer assemelhar-se a um projeto, o presente artigo destina-se principalmente a alimentar o debate sobre o VLT no Centro de São Paulo, apresentando o esquema de três linhas pioneiras — considerando-se que o sistema, por mim denominado Bonde+ ou B+, pode ser estendido a outras regiões do Centro e a alguns bairros centrais — e uma projeção dos custos e prazos de sua implantação.

Por que um VLT?

Um sistema de veículo leve sobre trilhos, ou VLT, não se limitará a um novo modal de transporte no Centro de São Paulo. Ele será, sobretudo, um poderoso indutor de animação urbana e articulador das múltiplas funções da área, permitindo o acesso rápido e confortável aos seus terminais de transporte público, estacionamentos, serviços, equipamentos culturais, patrimônio histórico, espaços públicos e demais atrações. Unindo com eficiência os "portais" de entrada ao Centro a esses pontos de atração, e a estes entre si, e ademais convertendo os longos e penosos trajetos a pé em deslocamentos rápidos e agradáveis, o VLT ou Bonde+ imprimirá à área central uma coerência e organicidade que hoje lhe faltam. Com as três linhas aqui propostas, funcionando na freqüência adequada, reverteremos a imagem de que o Centro acontece aos pedaços.

Os atributos do VLT vão além dos já citados. Além de articular as funções centrais e de ordenar o tráfego, estabelecendo "portais" de entrada e estacionamentos para automóveis particulares, o nosso bonde moderno, ao correr com elevada freqüência sobre trilhos, em percursos rígidos e imutáveis, permitirá uma fácil percepção dos percursos na área central e terá, como marca, uma total confiabilidade. Ademais, ele poderá ser usado como transporte de cargas e encomendas em horários de menor fluxo de passageiros e, dotado de equipamentos de vídeo, funcionará como um guardião que, ao percorrer as ruas, aumenta a sua segurança. Por suas caracteristicas não poluentes, será compatível com o meio ambiente e contribuirá decisivamente para a integração dos diversos modos de transporte, oferecendo uma possibilidade única de combinar transporte com passeio turístico.

O veículo

O veículo leve sobre trilhos (VLT) que se propõe no Centro de São Paulo em nada se parece ao antigo bonde elétrico do início do século passado. Ao contrário, é um veículo moderno, confortável, de desenho avançado, como os que são usados nos centros históricos de cidades européias como Viena, Zurique, Genebra, Praga, Grenoble e antes, entre outras, e norte-americanas como Baltimore e Los Angeles. Atualmente o VLT é utilizado em 270 cidades.

Ele deve ser equipado com dispositivo sonoro e luminoso para avisar o pedestre de sua aproximação. Terá uma velocidade média entre 12 e 16 km/h. Por suas características, o veículo será compatível com vias geralmente estreitas e intensamente ocupada por pedestres, podendo percorrer sem riscos e sobressaltos — ao contrário do microônibus e do trolebus — a rede de calçadões e outras vias de grande movimentação de pedestres.

O seu desenho moderno representará um elemento de modernidade num contexto histórico e tradicional, possibilitando um interessante contraste.

A rede e as afinidades urbanas

Propõe-se a implantação de três linhas circulares (ver o mapa) que se cruzam em diversos pontos, formando uma malha e permitindo a combinação de trajetos pelo passageiro. A extensão total de trilhos para a implantação das três linhas é de aproximadamente 14 km.

Os veículos passarão pelos mais importantes terminais de ônibus, estações de metrô, centros comerciais, estacionamentos subterrâneos e pontos de atração cultural e turística, além de atender a milhares de pessoas que atualmente se deslocam a pé, em distâncias médias de 700 metros, por não disporem de um sistema de transporte coletivo adequado aos curtos trajetos centrais. As linhas propostas interligarão os seguintes terminais e pontos de atração:

Linha A (Turística). Chamamos essa linha de turística porque ela interliga as principais atrações do Centro: a Sala São Paulo, no Complexo Cultural Júlio Prestes, o edifício do antigo Dops, a Estação da Luz, com a futura Estação Luz da Nossa Língua, o Jardim da Luz com a Pinacoteca do Estado, o Viaduto e a Igreja de Santa Ifigênia, o Largo e o Mosteiro de São Bento, o Edifício Martinelli, a Praça do Patriarca com o Masp Centro e a nova sede da Prefeitura no Banespinha, as igrejas e a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco, o Pátio do Colégio, o Centro Cultural Banco do Brasil na Rua da Quitanda, o Viaduto do Chá, o Shopping Light, o Teatro Municipal, o Largo do Paissandu com a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a Avenida São João, a Praça Júlio Mesquita e o Palácio dos Campos Elíseos. Interliga também todas as linhas de metrô e trem.

Linha B (Biblioteca). Também com forte apelo turístico, passa pelo Largo e Rua do Arouche, Praça da República, Avenida São Luís e Praça D. José Gaspar com a Biblioteca Mário de Andrade, ruas Marconi e Barão de Itapetininga, atravessando o Viaduto do Chá e passando pela Praça do Patriarca, Largo de São Francisco, Catedral, Tribunal e Fórum João Mendes, Praça da Sé, Rua XV de Novembro, Avenida São João e, cruzando o Vale do Anhangabaú, o Largo do Paissandu, retornando ao Largo do Arouche.

Linha C (Integração). O nome deve-se ao fato de que essa linha liga de forma mais direta todos os grandes terminais e corredores de ônibus (D. Pedro II, Cachoeirinha, São João, Princesa Isabel, Pedro Lessa, Bandeira) e todas as linhas de metrô. Tem também um forte conteúdo de serviço, pois interliga também o Fórum João Mendes, o Poupatempo e a Secretaria da Fazenda.

Estimativa de custo

Com movimento estimado de 60 mil passageiros/dia, ou aproximadamente 6 mil passageiros/hora, o sistema proposto, de 14 km em três linhas, teria um custo equivalente a 1,5 km de metrô, ou seja, aproximadamente 80 milhões de dólares, assim discriminados:

As pesquisas foram realizadas em 2001 pela Brazhuman na micro região central de São Paulo (Centro velho e Centro novo) com contagens volúmetricas e pesquisa OD de pedestres.



  Cultura - Ensino  
O CENTENÁRIO DO COLÉGIO DE SÃO BENTO

Para comemorar, a escola prestigia ex-alunos famosos e incentiva a vinda de novos estudantes para as tradicionais instalações do Largo de São Bento

Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)

Exibições cinematográficas, espetáculos teatrais e o lançamento de um livro marcam o centenário do Colégio de São Bento, comemorado oficialmente em 21 de março, mas extensivo ao ano todo. A escola, estabelecida no largo de mesmo nome, ao lado do Mosteiro de São Bento, oferece a seus alunos cursos da primeira série do ensino fundamental até o terceiro ano do ensino médio. Com base em um projeto educacional que prima pelas formações espiritual, cultural, científica e artística, o colégio visa a formar cidadãos críticos a partir dos valores da pedagogia beneditina.

As festividades tiveram início em junho com uma homenagem feita pela escola a alguns de seus ex-alunos. Até 1Ί de julho, sempre ao meio-dia das terças-feiras, o auditório do Colégio de São Bento recebeu o público que desejava assistir às entrevistas que o jornalista Heródoto Barbeiro realizou com Dom Cândido Padin (bispo de Bauru e monge beneditino), Haroldo de Campos (poeta e escritor), Jorge da Cunha Lima (jornalista e presidente da Rádio e TV Cultura) e com o general Francisco Roberto Albuquerque (comandante do Exército).

O novo reitor da escola, Dom Hildebrando Brito de Miranda, lembra que a comemoração do centenário deve se estender até o final do ano. "Embora ainda não completamente definidas, estamos planejando atividades no auditório do colégio, como exibições de cinema mudo acompanhadas de piano, que devem acontecer em setembro, espetáculos teatrais semanais e, em novembro ou dezembro, o lançamento de um livro sobre a história do colégio, cuja autora é a historiadora Ieda Resende." O reitor faz questão de frisar o papel da escola na requalificação do Centro paulistano. "Como é um lugar de freqüência dos alunos e dos pais, atraímos para a região central uma espécie diferenciada de público. Como já atendemos aos filhos de pessoas que trabalham no Centro, nosso objetivo a partir do centenário é trazer para cá o público que ainda não freqüenta a área."

Histórico

Inicialmente batizado de Gymnásio de São Bento, o colégio iniciou suas atividades pedagógico-educacionais em fevereiro de 1903, com 163 alunos matriculados, possuindo entre os professores fundadores o historiador Affonso D’Estragnolle Taunay, autor de obras até hoje muito consultadas, como História Geral das Bandeiras Paulistas, em onze tomos. Nesse primeiro ano de atividades, funcionavam apenas o curso primário e as três primeiras séries ginasiais. Como fundador e primeiro reitor, o então prior do Mosteiro, Dom Miguel Kruse, estabeleceu que a bênção e a inauguração solene da escola se realizassem durante a festa de São Bento, em 21 de março de 1903.

Ainda seguindo os conceitos de uma educação formadora voltada para a vivência do cristianismo e para a condução da sociedade, Dom Miguel abriu em 15 de julho de 1908 a Faculdade de Filosofia e Letras de São Bento, primeira escola superior de filosofia da América do Sul, que fechou em 1959, reabriu como parte da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), voltou a fechar e só recentemente, em abril de 2002, foi outra vez reativada pelos beneditinos. Em 1943, o Gymnásio tornou-se Colégio de São Bento e modelou-se às mudanças legais referentes aos ensinos fundamental e médio.

Além dos cursos regulares, o colégio é dos raros na cidade a oferecer aulas em período integral da educação infantil até a oitava série. Além das aulas regulares no período da manhã, das 13h às 15h os alunos fazem a lição de casa, organizam seus trabalhos e pesquisas e estudam para as avaliações, sempre orientados por professores, que consideram esse o momento mais importante do dia. A partir das 15h30, entram em cena as atividades complementares, como oficinas de artes e projetos culturais e musicais. Os estudantes podem, ainda, se inscrever nos cursos opcionais ministrados pela instituição, como teatro, futsal, caratê, natação, desenho e pintura, dança e musicalização. A escola também proporciona serviços de orientação espiritual e religiosa para pais e alunos, preparação para a primeira eucaristia e a crisma e celebração de missas mensais e comemorativas, além de apoio aos vestibulandos. (Aline Gattoni)

SERVIÇO

Colégio de São Bento – Largo de São Bento, s/ nΊ, Centro, São Paulo, SP.
Estação São Bento do Metrô. Tel.: (11) 228-3633
Nota da Redação: Esta reportagem jáestava concluída quando nos chegou a notícia de que o Colégio de São Bento encerraria suas atividades este ano. A Associação VIVA O CENTRO manifesta esperança de que o estabelecimento possa vencer suas atuais dificuldades.
Cursos vão do fundamental ao final do ensino médio
O colégio insere-se na tradicional paisagem do Centro (no alto); além das aulas, os alunos pesquisam, fazem lições de casa e estudam sob orientação de professores



  Cultura - Música  
MÚSICA DE CÂMARA NA SALA SÃO PAULO

Aproveitando a flexibilidade acústica da maior sala de concertos da cidade, a Osesp cria seu conjunto camerístico e expande o repertório

Ana Francisca Ponzio


Abril deste ano marcou mais uma conquista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Ao formar seu conjunto camerístico, que passou a trabalhar sob a regência do violinista Cláudio Cruz, a Osesp colocou em prática uma proposta que o maestro John Neschling acalentava desde 1997, quando inaugurou o processo de reestruturação da Orquestra estadual.

Nos últimos seis anos, além de ganhar a Sala São Paulo como sede, a Osesp conquistou padrão de qualidade e prestígio internacionais, gravou CDs, realizou uma turnê por 18 cidades dos Estados Unidos, que culminou nas apresentações no Lincoln Center de Nova York, onde foi ovacionada. Em meio a essa revitalização, a Orquestra de Câmara da Osesp surgiu neste ano como uma conseqüência natural. Para o público paulistano, a nova formação amplia as opções de boa música na cidade.

"Neschling mencionou a idéia de organizar uma orquestra de câmara logo que a Osesp começou a se reestruturar", lembra Cláudio Cruz. Spalla da Osesp, Cruz possui considerável experiência à frente de orquestras camerísticas. Por dez anos ele dirigiu a Orquestra de Câmara Villa-Lobos. Também há quase uma década, ele é o primeiro violino do Quarteto Amazônia, grupo que se dedica à música brasileira e que em 2002 foi premiado com o Grammy Latino. Atualmente, Cruz vive um dos melhores momentos de sua carreira, pois acaba de assumir o cargo de regente titular da Orquestra Sinfônica de Campinas.

O acúmulo de funções, no entanto, parece intensificar a disposição de Cruz para o trabalho. Até o fim de 2003, ele terá realizado quatro temporadas à frente da Orquestra de Câmara da Osesp, que promete marcar presença, cada vez mais, no calendário da Sala São Paulo. "Em seu primeiro ano de atividades a Orquestra de Câmara já teve chance de apresentar um repertório que misturou estilos diversos. Tocamos de Ginastera a Mozart", diz Cruz, creditando a John Neschling o mérito da programação e da existência da nova orquestra.

"Neschling tem visão de futuro e está realizando na Osesp o sonho dele e de todos nós", salienta Cruz, que ingressou na Orquestra estadual aos 18 anos (hoje ele tem 36). Nascido em São Paulo, Cruz iniciou-se em violino com seu pai, o luthier (construtor de instrumentos musicais) João Cruz, um baiano da Chapada Diamantina que atualmente mora nos Estados Unidos. "Foi o italiano Rafaeli Leoni que ensinou a profissão de luthier a meu pai, quando ele se mudou para São Paulo. Ao conseguir montar seu próprio ateliê, meu pai passou a construir violinos para músicos brasileiros e esse ambiente me proporcionou contato permanente com a música, desde a infância."

Oportunidade

Aos 17 anos, Cruz foi admitido na Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Um ano depois, já na Osesp, ele deu início à bem-sucedida carreira, que incluiu momentos importantes também na Europa, onde estreou em 1991, como solista da Kammerorchester Berlin, à frente da qual foi aclamado como "grande intérprete de Mozart". Na Osesp, vem testemunhando os altos e baixos da Orquestra. Fundada em 1954, nos anos 90 a Osesp enfrentou inúmeros problemas, como a falta de espaço para ensaiar, a baixa remuneração que provocou a saída de boa parte de seus músicos, além da falta de perspectivas.

Agora, suficientemente emancipada para dispor de um grupo camerístico, a Osesp proporciona a seus músicos a oportunidade de explorar um repertório cada vez mais amplo. "Trata-se de mais um espaço para o solista da Osesp se apresentar", afirma Cruz. Em sua composição, a nova orquestra de câmara por ele regida conta com cerca de 20 músicos da própria Osesp, que se revezam de acordo com o programa a ser apresentado. Por essa razão, salienta Cruz, é possível apreciar uma orquestra diferente a cada apresentação.

"A Orquestra de Câmara da Osesp nos permite unificar o naipe de cordas. Com ela, os músicos podem aprimorar o estilo nas articulações, no timbre, nas arcadas." Detalhes como esses, que passam despercebidos ao público, demandam atenção especial entre os músicos. Cruz explica que as arcadas, ou seja, a direção dos arcos sobre as cordas dos instrumentos musicais, têm que seguir um percurso muito sincronizado. "É preciso haver uma direção comum nos movimentos de todos os músicos".

No dia-a-dia da Osesp, a Orquestra de Câmara trabalha de acordo com as exigências da programação, sem interferir na rotina do grupamento sinfônico. "Cada concerto exige cerca de seis ensaios para o conjunto camerístico e os músicos precisam estar disponíveis, uma vez que atuam nas duas orquestras". Para a Osesp, que já enfrentou amargos períodos de ociosidade no passado, a agitação atual é símbolo de um vigor artístico singular, que vem sendo compartilhado com o público crescente da Sala São Paulo.



  Cultura - Artes Plásticas  
O CENTRO NOS JARDINS

Alguns dos principais ícones da identidade paulistana ilustram os vitrais criados por Gregório Gruber para a Casa Santa Luzia

Ana Maria Ciccacio


O Copan de Oscar Niemeyer, o conjunto escultórico ao Duque de Caxias de Victor Brecheret, a Catedral da Sé de Maximilian Hehl, o Mercado Municipal de Felisberto Ranzini, a Estação Júlio Prestes de Cristiano Stockler das Neves, o viaduto do Chá de Eliziário da Cunha Bahiana... O Centro, com seus prédios, esculturas e logradouros, foi aos Jardins, mais exatamente à sofisticada Alameda Lorena, pela iniciativa da Casa Santa Luzia, um dos empórios de importados mais tradicionais da cidade, com 76 anos. E está fazendo o maior sucesso.

Como nos divertidos jogos de "Onde está...?", a clientela se detém diante dos dois amplos vitrais (32 m2 e 20 m2) criados por Gregório Gruber para o interior da Casa Santa Luzia e, literalmente, viaja no espaço e... no tempo. "Tem sido emocionante, gratificante mesmo, ver as pessoas — e temos entre elas famílias de clientes já na quarta geração — explorando os vitrais e contando suas histórias de relação com o Centro paulistano", festeja a gerente da loja, Ana Maria Lopes.

Tudo começou com o desejo dos proprietários de homenagear São Paulo às vésperas dos 450 anos da cidade. Por conta de uma ampliação da casa, tocada pelo mesmo escritório do arquiteto Júlio Neves, que projetou o espaço há 20 anos, surgiu a idéia dos vitrais inspirada pelos que já existiam voltados para a rua, mas com temática alimentícia. "Havíamos visto a bela exposição de Gruber na BM&F e no Masp Centro (promovida pela Associação VIVA O CENTRO). Para nossa sorte, ele aceitou o convite que lhe fizemos. Foi um longo trabalho, de dez meses, que exigiu bastante do artista e da Geukas Vitrais, executores do projeto", conta Ana Maria.

"Um desafio total", confirma Gregório Gruber. "A alma do vitral é o projeto, que define mais as linhas do que das cores, mas eu nunca havia feito vitrais antes. Por outro lado, minha experiência com aquarela me ajudaria muito." O trabalho demandou várias fases: a da criação das aquarelas, ou do projeto propriamente dito; a da flotagem, ou transposição do desenho em escala natural para papéis de grandes dimensões; a delimitação das áreas de cada cor e a escolha das cores; a seleção da textura dos vidros (porque os vitrais de Gruber inovam também pelo uso de diferentes tipos de vidro); e, por fim, a montagem do mosaico.

O resultado é magnífico. Os vitrais concebidos por Gregório fogem à temática convencional (religiosa na maior parte), são lúdicos e, principalmente, reativam esse gênero que se achava estacionado há cerca de 80 anos — os últimos vitrais criados para edifícios paulistanos se acham no Centro, estando entre eles os do Teatro Municipal, Catedral da Sé, Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Mercado Municipal e Estação Júlio Prestes. Vitrais estes que, em certos trechos, são generosamente homenageados por Gruber em sua criação.



  Cultura - Rio  
O ODEON VOLTA À CENA

Tradicional sala de cinema do Centro carioca reverte a decadência e, sem preconceito, diversifica a programação

Aline Gattoni


Em pleno Centro histórico, cultural e financeiro do Rio de Janeiro, a Cinelândia — um conjunto de ruas antigas e estreitas em torno da Praça Floriano Peixoto, próximo ao Teatro Municipal, à Biblioteca Nacional e ao Museu Nacional de Belas Artes —, é um exemplo de flexibilidade de uso e capacidade de renovação. Há muito o lugar deixara de ser o prestigioso endereço que foi até os anos 60, quando era a meca de um público que procurava novidades cinematográficas e, nas imediações, alguns dos melhores espetáculos teatrais da cidade. Cinemas como o Império, o Glória, o Capitólio, o Pathé-Palácio e o Odeon, todos na praça ou colados a ela, conviviam com cafés como o ainda existente (e também renovado) Amarelinho e, nas proximidades, com a Sala Cecília Meireles, o Conservatório Nacional de Música e a Assembléia Legislativa, além do teatro, biblioteca e museu mencionados. Era uma festa.

O Odeon é um dos raros remanescentes dessa época. Inaugurado em 1926, ele era um figurante, junto com os vizinhos, do projeto de reurbanização do Centro iniciado duas décadas antes, com a abertura da Avenida Central. A arquitetura dos cinemas que surgiam no Centro era eclética, de padrão importado europeu, com decoração "neoclássica" nos balcões, tetos, lustres e escadarias. "Nessa época, Copacabana e Tijuca também concentravam um bom número de salas de cinema, mas a Cinelândia, por estar no Centro econômico e cultural da cidade, permaneceu atrativa até os anos 60, quando alguns de seus cerca de 14 cinemas ainda promoviam lançamentos de grandes filmes com exclusividade", explica João Luiz Vieira, professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e estudioso do assunto.

A partir dos anos 70, segundo Vieira, diversos fatores concorrem para o gradativo fechamento das salas da Cinelândia, entre eles a prostituição na vizinha Lapa, o fim de alguns hotéis de luxo da região, como o Serrador, e a desvalorização imobiliária e urbana do Centro e de alguns bairros centrais, com a migração de empresas e serviços para outros lugares. O Rio ressentia-se, ainda, de ter deixado de ser a capital do país. Esvaziaram-se os grandes edifícios ministeriais, a população empobreceu e, "com a popularização da televisão e do vídeo, o público dos cinemas praticamente desapareceu", diz o professor.

A região chegou a ser considerada por João Luiz Vieira o maior cemitério de cinemas do mundo, com 6.633 poltronas suprimidas ou subutilizadas. "Além do Odeon, temos em funcionamento hoje no Centro o Cine Palácio, dividido em duas salas desde meados dos anos 70, e, sobrevivendo com programação pornográfica, o Rex e o Orly, antigo Rivoli", contabiliza Vieira. Para o catálogo do Festival do Rio, em setembro de 1999, o pesquisador comemorou a reforma do Odeon, que, segundo ele, tinha a honra de possuir um nome, "e não apenas uma numeração fria, como é o caso das elitizadas salas dos shoppings".

Novos ares

A confluência de dois fatores positivos — vontade política dos governantes de reverter o processo de degradação do Centro e disposição da iniciativa privada de investir na região — responde não só pela recuperação do Odeon como da própria Cinelândia, a partir do final dos anos 90.

O primeiro passo para a recuperação do Odeon foi dado em 1999, às vésperas do Festival do Rio, atual Rio BR. O cinema, que estava fechado havia meses, passou por uma primeira e rápida reforma para a criação de um novo foyer de recepção ao público do festival, a instalação de um café no térreo, a troca das cerca de 600 poltronas da platéia e dos obsoletos sistemas de som e projeção. De cara nova, o Odeon foi a vedete do Festival do Rio daquele ano. Sua reabertura foi manchete dos cadernos culturais da imprensa em todo o país. Durante 15 dias, o cinema recebeu autoridades, intelectuais, jornalistas e artistas nacionais e estrangeiros. Devido aos renascimento do Odeon, a velha Cinelândia foi animada por um público variado, numeroso e empolgado.

Logo percebeu-se que era necessária uma segunda etapa de obras, mais ampla e complexa, para o restauro das características arquitetônicas e modernização das instalações do Odeon. A Petrobras Distribuidora patrocinou a mudança, e o Odeon passou a chamar-se Odeon BR. O patrocínio implicava também uma agenda de atrações variadas, além das obras orçadas em R$ 2 milhões, que envolveram cerca de 80 operários trabalhando dia e noite sob supervisão da Fábrica Arquitetura, escritório especializado em reforma de cinemas.

"A sala estava em estado deplorável, cheirando a mofo, completamente abandonada. Havia até mesmo uma antiga colunata encoberta por uma parede", lembra Solange Libman, uma das arquitetas responsáveis pelo restauro. "Um de nossos principais objetivos era recuperar o célebre lustre da abóbada central, que possui centenas de luzes-vela. Além disso, recuperamos detalhes das laterais, como frisos e sancas (molduras que dissimulam as lâmpadas - que iluminam uma sala)." Solange explica que o projeto não se limitava ao restauro do cinema. Indo além, propunha a modernização do ambiente interno — sem, no entanto, deixar de manter alguns elementos de época —, a valorização de janelas e sacada e o diálogo da sala de espetáculos com o público freqüentador de bares e restaurantes do entorno. "Quem vê o Odeon de fora tem a sensação de que ele cresceu. As pessoas sentem-se convidadas a ocupar o espaço", afirma a arquiteta.

O cinema recebeu equipamentos de som e projeção cinematográfica de última geração e modernos sistemas de projeção em vídeo, legendagem eletrônica e tradução simultânea, capazes de atender à nova vocação multimídia do espaço, que hoje também abriga desde cursos e seminários a atividades que utilizam a vanguarda tecnológica do setor audiovisual. Além dessas novidades, existem palco, camarim e sistemas de som e luz para pequenas apresentações, livraria, loja de design que recebe mostras de arte, um novo e remodelado balcão e uma ambientação que tem o cinema como tema.

Mudança de uso

A reforma física, porém, parece ter sua importância minimizada quando o assunto é a transformação do programa oferecido pelo Odeon. Onde antes havia apenas projeção de filmes, há agora um calendário anual de atividades como cursos, debates, mostras temáticas, retrospectivas, premiações, projetos de formação de platéia, pré-estréias e projetos especiais de exibição de curtas e longas-metragens. O eclético Odeon é também sede oficial do Festival Rio BR, que ocorre em setembro, também com o patrocínio da Petrobras.

Mas o que há de mais interessante são as atividades que fogem completamente aos padrões de um cinema convencional. A Maratona Odeon BR, voltada ao público jovem, por exemplo, começa às 23 horas com a exibição de um filme, prossegue com a performance de um DJ no segundo andar e, no meio da madrugada, com a apresentação de um filme escolhido pelo público, terminando com um terceiro filme e um café da manhã a partir das 6 horas. Quem pensa que o projeto é um fracasso de público, engana-se: sempre que a maratona é realizada, lota a sala, que recebe de 400 a 500 pessoas toda noite.

O projeto Cachaça Cinemaclube é igualmente um sucesso entre os universitários cariocas. Enquanto jovens talentos exibem seus curtas-metragens, os amigos de faculdade bebericam tipos variados de cachaça no foyer. Além disso, foram projetados alguns jogos de futebol da Copa do Mundo de 2002 – durante a madrugada e de manhã bem cedo, com lotação praticamente esgotada.

Em fevereiro de 2003, o cinema foi escolhido para o velório de um de seus mais entusiasmados fãs: o ator José Lewgoy, que nos últimos dias de vida era levado nos braços de amigos para assistir a algum filme ou tomar um café no Odeon. O novo restaurante-café, por sinal, faz tanto sucesso quanto a sala, abrindo às 8h para o café da manhã e só fechando às 22h, após a happy hour de quem trabalha no Centro carioca. Marli Cavalcanti, que gerencia o restaurante há nove anos, comemora: "O Odeon deu uma guinada. Tínhamos apenas uma bombonière e, com a abertura do restaurante, assistimos a uma mudança de público." Às sextas-feiras, o local ainda oferece música ao vivo. Em maio, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, usou o espaço para nomear o jornalista e cineasta Sérgio Sá Leitão representante regional do Ministério. O mais recente e importante evento no Odeon foi o Anima Mundi 2003 (11Ί Festival Internacional da Animação do Brasil), que ocorreu de 11 a 20 de julho.

O gerente do cinema, Hélio Corintho Seraphini Filho, orgulha-se de administrar um espaço que possui uma das melhores acústicas da cidade. "Já tivemos até Arthur Moreira Lima ao piano", diz ele, reforçando a imagem "mil e uma utilidades" da sala. "Já demos até aulas de dublagem para escolas. Enquanto o filme era exibido, a dublagem era feita ao vivo". Segundo ele, o público aumentou em cerca de 70% após a construção, pela Prefeitura, de um estacionamento para dois mil veículos em frente ao cinema. "Além disso, muitas pessoas passaram a freqüentar a região devido à melhora do policiamento e da iluminação, e à própria reforma do Odeon. As obras, inclusive, inspiraram outros prédios a recuperarem suas fachadas."

Projeções para o futuro

Segundo o professor João Luiz Vieira, a completa requalificação da área da Cinelândia depende da recuperação de outros cinemas. "O Cine Palácio, por exemplo, precisa de uma restauração completa e criteriosa que lhe devolva a feição de ‘palácio de cinema’ a que fez jus no passado. E poderia ser novamente experimentado o esquema de exibição de determinados filmes com exclusividade, como se faz em Londres. Com isso, poderíamos pensar até mesmo na reabertura do Cine Metro-Boavista, fechado desde meados da década passada, mas integralmente preservado." Ainda que aguarde uma continuidade, a recuperação da Cinelândia carioca por meio da reforma de seus mais importantes equipamentos culturais, como o Cine Odeon BR, serve de exemplo às demais "Cinelândias" espalhadas pelo Brasil, que assim poderiam reviver sua glória por meio da adequação à modernidade.

SERVIÇO
Cine Odeon BR – Praça Mahatma Gandhi, 2, Cinelândia. Tel.: (21) 2262-5089.
Ingressos para sessões comuns: R$ 6.



  Entrevista  
O PREFEITO DA SUÍÇA E BIAFRA OLAVO SETUBAL

Foto: Jesus Carlos (ImagenLatina)


Aos 80 anos, o engenheiro mecânico e eletricista formado pela Escola Politécnica da USP, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro das Relações Exteriores — nomeado por Tancredo Neves — Olavo Egydio Setubal ainda exerce funções de direção no Banco Itaú, presidindo o seu Conselho de Administração. Filho do romancista e historiador Paulo Setubal (autor de As Maluquices do Imperador e Confiteor, entre outros títulos), o paulistano Setubal ainda hoje é lembrado como um dos bons prefeitos que São Paulo teve ao longo do século XX. Nomeado pelo governador Paulo Egydio Martins, Setubal dedicou-se integralmente a administrar uma cidade cujas disparidades e problemas o levaram a proferir uma frase que fez história e ainda hoje freqüenta, com diversas variações, a crônica política brasileira: "Gerir São Paulo é a mesma coisa que gerir uma Suíça e uma Biafra ao mesmo tempo", referindo-se à tragédia de um pequeno país africano à época devastado pela miséria e pela guerra civil. Sua gestão foi equilibrada: procurou modificar a filosofia da administração municipal dando igual ênfase a obras e serviços, investiu em melhoramentos na periferia e na reurbanização do Centro, concluiu a linha Norte-Sul do metrô e deu início às obras da linha Leste, tentou reformular profundamente o sistema de transporte coletivo — intenção frustrada pela crise mundial decorrente do chamado choque do petróleo — e interveio nas favelas e nas áreas de proteção de mananciais, tentando melhorar as primeiras e preservar as últimas. O fato que ninguém põe em dúvida é que, na gestão Setubal, a cidade era percebida pela limpeza das ruas e praças, pelos novos parques públicos, pela melhora dos serviços e por novidades como os calçadões do Centro e até mesmo por obras ainda hoje controvertidas, como a nova Praça da Sé. Foi no Centro Administrativo do Banco Itaú, um conjunto de edifícios povoados por obras de arte ao lado de um parque público (criado pelo prefeito Setubal) integrado à estação Jabaquara do metrô, que Olavo Setubal recebeu os jornalistas Jule Barreto e Ana Maria Ciccacio, de urbs, para uma entrevista da qual seguem os trechos principais.

urbs – Ao leitor mais jovem, lembramos que o sr. foi prefeito de São Paulo entre 1975 e 1979.

Olavo Setubal – Já meio esquecido, mas, em todo caso...

Ainda recentemente, um arquiteto, professor da USP, declarou num seminário que Olavo Setubal foi talvez o último prefeito a manifestar uma preocupação integral com o Centro. À época, o sr. desapropriou o Edifício Martinelli para reformá-lo. Fala-se agora em uma nova reforma.

Li nos jornais que a Prefeitura pensa em instalar um café em cima do edifício. Já houve algumas tentativas nesse sentido. Tenho sérias dúvidas do êxito comercial de um empreendimento no topo do Martinelli. Será preciso tomar o elevador, a vista não é especialmente atraente para que possa criar um ponto de turismo.

Seria importante estimular o turismo no Centro?

Sem dúvida, mas o Centro é essencialmente um pólo de negócios, com grande atividade financeira, e está ativamente se transformando também num centro administrativo de governo, reassumindo uma das suas funções de origem. A sede da Prefeitura vai se transferir para o Edifício Matarazzo, foi uma aquisição magnífica. Acredito que a reforma do Martinelli foi um êxito de minha administração, assim como a implantação dos calçadões e a recuperação do Pátio do Colégio. A restauração da igreja, aliás, deu margem a muitas controvérsias, mas acho que foi uma decisão correta.

A remodelação da Praça da Sé também gerou controvérsias.

Quando assumi a Prefeitura já não existia o famoso edifício Santa Helena. Ele foi demolido antes. Já na minha gestão houve a implosão de um edifício de 27 andares, o Mendes Caldeira, fotografaram a mim e à minha mulher assistindo... Mas a praça tinha que ser reprojetada. Nela está a maior estação do metrô, dimensionada para um milhão e meio de usuários por dia, é o ponto central das transferências de uma linha para outra. A necessidade de reformar a Praça da Sé e a construção da estação foram fatores que contribuíram para a decisão de investir na recuperação do Centro.

As praças da Sé e Clovis Bevilacqua submeteram-se a uma cirurgia urbana...

Quando Haussmann, no século XIX, fez a célebre remodelação de Paris, que ainda hoje é símbolo e modelo para o mundo inteiro, houve um número muito grande de críticas porque ele derrubou milhares de prédios antigos, um grande número de referências de memória, mas hoje percebe-se que seria absurdo preservar todas essas relíquias e não fazer a reforma urbana. Acho que o mesmo se aplica a São Paulo. E São Paulo tem muito pouca arquitetura antiga. A cidade era pouco mais que um vilarejo em meados do século XIX. Só progrediu com o café, com a construção da ferrovia Santos a Jundiaí e da usina elétrica de Cubatão.

É por isso que o nosso patrimônio histórico é pobre?

Por isso ele é muito pobre. A mais antiga igreja ainda existente em São Paulo é a Capela de São Miguel, no bairro do mesmo nome, na saída para o Rio. Vários prefeitos, inclusive eu, trabalhamos para que ela fosse preservada. Abriu-se uma praça em frente a ela e desviou-se o trânsito pesado, que estava abalando os alicerces. Arquitetonicamente, a igreja nada tem de especial, mas é o grande símbolo da presença católica nos primórdios da cidade.

O sr. priorizou os espaços públicos, as praças e os calçadões em sua gestão. O que destacaria entre suas realizações nessa área?

Os parques. Fui, até deixar a Prefeitura, o único prefeito que comprou áreas verdes para transformá-las em parques e praças. Comprei um bom número delas e pude construir o Parque do Carmo, o do Piqueri, o da Vila dos Remédios, outro de cujo nome não me recordo, próximo a Diadema... Também destaco um magnífico conjunto de árvores na Avenida Francisco Matarazzo, cujo terreno desapropriei e hoje é uma praça. Aqui mesmo onde estamos há esta bela praça com vegetação de um antigo bosque. A área estava em processo de reurbanização pela Emurb. Na minha gestão adquiri o bosque, remanescente de uma antiga chácara, para para dotar a região de uma área verde. E escolhi este outro terreno, ao lado, para ser o Centro Empresarial do Grupo Itaú, principalmente pela facilidade de acesso por metrô e pela vizinhança com o bosque. Que, aliás, é conservado pelo Itaú.

O sr. disse há pouco que o Centro ainda é marcadamente um distrito financeiro. Mas é também um centro de serviços diversificados, de hotelaria, de empresas que usam tecnologias da informação. O que mais compõe o perfil das atividades do Centro?

A grande vocação do Centro é ser o pólo da administração pública estadual e municipal e também, como já disse, de serviços financeiros ligados às duas bolsas, a Bovespa e a BM&F. Mas não, necessariamente, de escritórios e corretoras de valores, porque as comunicações eletrônicas que hoje dominam o sistema financeiro permitiram sua dispersão por outras regiões da cidade. Mas, nos aspectos em que o convívio pessoal é obrigatório e nos serviços ligados às bolsas, o Centro é e será o nosso centro financeiro.

É possível identificar outras tendências?

O Centro se torna cada vez mais um local de escolas, de vida universitária. Muitas instituições já se instalaram ou vão se instalar na região. E por quê? Porque há diversos prédios desocupados por empresas da área financeira que, com um investimento relativamente pequeno, podem ser adquiridos e transformados em instalações universitárias, em campi verticais. Outra vantagem que o Centro oferece a esses e outros empreendimentos é a acessibilidade por transporte público a partir de qualquer ponto da cidade. O Centro é o grande entroncamento de transporte de São Paulo.

Então, para resumir, esses atributos do Centro favorecem as atividades que dependem do contato face a face, que não foram dispersadas ou tornadas virtuais pela tecnologia da informação?

Sim. Houve um tempo em que se dizia que os bancos fechariam suas agências porque as transações seriam feitas eletronicamente. Isso não se concretizou, pelo menos na escala em que se previa. E por quê? Porque o contato pessoal é essencial, insubstituível. No ensino ocorre a mesma coisa. Quando surgiram as TVs educativas, pensou-se que, a partir de uma sala de aula e de equipamentos de transmissão, um só professor daria aulas para o Estado e o país inteiros. Essa profecia fracassou totalmente. O ensino exige a presença física do aluno na sala de aula, o convívio com os colegas e os professores. O ensino televisivo, em casa, é acessório, quase marginal.

E há o comércio pela Internet.

Este, sim, vem crescendo bastante.

Esperava-se que crescesse muito mais.

Mas veja, há e sempre haverá uma massa muito importante de comércio fora dos circuitos virtuais, como se constata no Centro, onde temos um magazine do porte do Extra, antigo Mappin, e um shopping diferenciado como o Light. E, à medida que receber mais órgãos públicos, como a sede da Prefeitura, e mais escolas, o Centro demandará um maior numero de atividades comerciais e de serviços que vão lhe dar cada vez mais animação.

O Centro é também o lugar de São Paulo com maior densidade e significado cívicos.

Foi nessa perspectiva que reformei a Praça da Sé, que era muito pequena. Ampliamos a praça, segundo projeto do arquiteto Ernest Mange, a partir da constatação da importância do Centro como local de manifestações cívicas, políticas e religiosas de expressão até mesmo nacional. Hoje em dia o comício tradicional perdeu importância e as campanhas políticas se fazem na televisão, mas o Centro ainda é o ponto mais valorizado para alguns tipos de manifestação.

E o Vale do Anhangabaú? O sr. teria feito a reforma que lhe deu as características que hoje tem?

Acho que a reforma foi boa. Criou uma solução para o Vale, creio que a décima, porque ele foi reurbanizado inúmeras vezes. Mas aprovo a reforma. Eu não a fiz na minha gestão porque já havia comprometido muitos recursos na compra de áreas verdes.

Mesmo assim, sua gestão investiu muito no Centro.

Apesar de meu interesse pelo Centro, não gastei com ele tanto quanto se imagina. Fiz a Praça da Sé, mas o Metrô é que construiu a estação. Fiz a reforma do Martinelli, mas depois vendemos os conjuntos e andares. De modo que, no final das contas, o Centro consumiu relativamente poucos recursos da Prefeitura.

Quando o sr. assumiu a Prefeitura, o Metrô já havia passado para o Estado ou ainda era do Município?

Do Município. Fui eu quem o transferiu para o governo do Estado. Eu me comprometera com o governador Paulo Egydio Martins a responder pelo Metrô até o fim de nossa gestão.

Foi uma boa opção?

Foi a opção correta, pois a Prefeitura não teria recursos para continuar tocando o Metrô. E eu tenho minhas dúvidas se o Metrô deve ser de responsabilidade do Estado. Na maioria dos países ele é estatal, pertence ao governo central. Na Cidade do México é diretamente subordinado ao gabinete do presidente da República. Os metrôs implicam investimentos muito altos com retorno baixo, quando há retorno. O de São Paulo ainda mantém um equilíbrio razoável, mas não é um negócio que investidores privados possam explorar. O de Nova York é formado por um conjunto de redes construídas por particulares e depois agrupadas numa autarquia ligada à prefeitura. Acho, então, que a transferência foi correta. O governador Paulo Egydio demonstrou coragem ao assumi-la, porque na época o metrô não era tão popular como hoje. Quando ele começou a ser construído, na gestão do prefeito Faria Lima, ninguém sabia direito o que ele era. Hoje, transportando um milhão e meio, dois milhões de pessoas por dia, é um equipamento essencial. De modo que é corretíssima a decisão do governador Alckmin de continuar investindo fortemente na expansão da rede, levantando recursos onde for possível. Infelizmente o Brasil tem necessidades muito além do que o PIB nacional agüenta. Este é pequeno, a população é grande. Há um intervalo muito longo entre o desejo e a possibilidade.

Isso de algum modo remete à sua célebre declaração de que administrar São Paulo era o mesmo que governar uma Suíça e uma Biafra ao mesmo tempo. A situação mudou?

Está cada vez pior. Suíça e Biafra crescem separadamente e estão cada vez mais distantes.

Biafra está engolindo a Suíça?

Não. Acho que a Suíça está firmemente consolidada no Centro e nos bairros qualificados da área central e a sudoeste, ao passo que Biafra vai se espalhando nas periferias. O crescimento das favelas na região de Santo Amaro, nestes últimos trinta anos, foi fantástico. Tentei reduzir o problema convertendo em áreas de proteção ambiental as terras lindeiras aos grandes reservatórios. Foi um grande fracasso.

Por quê?

Ao decretar que essas terras se tornariam reservas ambientais, fiz com que os proprietários se desinteressassem delas. Em terras pelas quais os proprietários não se interessam há invasão na certa. Então, o que foi feito com a melhor das intenções resultou na pior das soluções. Tudo se transformou em zona de invasão, de expansão de favelas. Meu projeto era implantar ali loteamentos com chácaras, para incentivar a preservação, mas fui muito criticado pela oposição. Pois teria sido melhor do que a grande deterioração que ocorreu, cuja solução, hoje, confunde-se com a de um problema nacional de proporções gigantescas, o da favela e da sub-habitação no país inteiro.

O sr. é otimista em relação ao Centro?

Sim, há vários aspectos revelando a recuperação do Centro. Mas é preciso considerar que o Centro parou de melhorar com o final da minha gestão. Houve um intervalo muito grande até que se tomassem medidas efetivas e de longo prazo para que a região começasse a se recuperar. Estou convencido de que as medidas que vêm sendo aplicadas pelo poder público vão resultar, e já estão resultando, no renascimento do Centro. Há equipamentos de cultura como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Masp da Galeria Prestes Maia, a Sala São Paulo. Há uma série de benefícios que asseguram melhor qualidade de vida à região. Dizem — eu não costumo ir lá com freqüência — que até a noite já recuperou uma certa vida...

Qual o principal desafio que São Paulo hoje impõe ao administrador público?

As periferias! Existe nas cidades uma massa marginalizada fantástica, que de alguma forma precisa ser incluída.



  Artigo  
VAMOS À CIDADE!

Silvio Lancellotti*


Quando eu ainda era um meninote, bem nos comecinhos dos anos 50, literalmente me encantava escutar de minha mãe a frase formidável: "Ponha as suas calças compridas que nós vamos à Cidade". Não vivíamos no Interior, não. Morávamos pertinho do Instituto Biológico, numa travessa da Rua França Pinto, uma vilinha sem saída, arborizada com ficus e com palmeiras. Tempos em que os lixeiros se utilizavam de carroções puxados por magros cavalos.

A Cidade significava a fascinação do Centro, da Praça da Sé até a Praça da República – onde, aliás, o meu pai trabalhava. Pegávamos um bonde, um ônibus, às vezes um táxi. Descíamos no Anhangabaú, então um grande parque ajardinado, repleto de vias curvas. Daí, rumávamos à Praça Ramos, em que se instalavam o Theatro Municipal, onde um tio cantava, e o prédio das Mappin Stores, em cujo último pavimento aconteciam saraus inesquecíveis: tomava-se o chá, bebiam-se refrigerantes, comiam-se sanduíches deslumbrantes e petits-fours aos borbotões. Tudo isso ao som de um terno quarteto de cordas...

Eu idolatrava a tal Cidade, principalmente no crepúsculo, quando podia vislumbrar o acendimento do luminoso amarelado da Gomtex, marca de capa que eu fantasiava e que nunca tive. Na sexta-feira, data em que saía mais cedo da escola, costumava almoçar com meu pai. Eu estudava no Rio Branco, Rua Dr. Vila Nova, e caminhava, alegremente, sem chuva ou com chuva, até a Praça da República. Meu pai dispunha de crédito numa banca-de-jornais, na qual eu catava os meus gibis. Daí, rumávamos aleatoriamente aos arredores.

Creio que, naqueles idos, eu comecei a me apaixonar pela Arquitetura, que me daria um diploma, e pela Gastronomia, que me daria um hobby e uma profissão. Às vezes, simplesmente, desfrutávamos esfihas e caldo-de-cana numa esquina da Barão de Itapetininga. Em outras, eu mergulhava em um par de camarões empanados e numa sodinha-champanhe num bar da São Luiz.

Melhor ainda, a Cidade ostentava restaurantes preciosos. Principalmente na Rua Basílio da Gama, que possuía o Cà d’Oro, da Família Guzzoni, e o Da Giovanni, da Família Ruocco. Com o correr dos anos, passei a frequentar mais e mais endereços inolvidáveis. Dom Casmurro. La Popote. La Cocagne. Gato que Ri. La Casserole. Churrasqueto. Cabana. Guacyara. Rubaiyat. Fasano. No Fasano, na Barão de Itapetininga, autorizado pelo pai de vigia, experimentei o primeiro chope e o primeiro Campari de toda a minha existência. Sem dizer que eu delirava, hum! com os seus merengues de chantilly e de morango.

Voaram as décadas e, no final dos anos 70, nos comecinhos dos 80, com um emprego na Cidade, eu voltei a frequentar o Centro. Daí, como jornalista de Gastronomia, voltei a visitar os seus ícones. Pena. A incúria de inúmeros administradores da Paulicéia, mais a impiedade da especulação imobiliária, paulatinamente sufocaram o Centro e os seus restaurantes tradicionais. Quantos ainda sobrevivem, dos nomes que eu citei, logo acima? Sim, admito, outros nasceram no percurso, como o Terraço Itália de Evaristo Comolatti, um visionário esplendoroso. Cadê, cadê, cadê, porém, o Paddock e o Bistrô?

Afortunadamente, a Associação Viva o Centro e esta santa publicação se empenham em resgatar o que é clássico, e que deveria ser eterno. Para que, dia desses, eu também diga aos meus filhos pequenos e, no futuro, aos netos que ainda não ganhei: "Vistam-se, bem bonitinhos. Nós vamos à Cidade".

* O autor é consultor em gastronomia, jornalista e arquiteto



  Destaques  
Poder público no Centro


O segundo semestre começou com uma ótima notícia para o Centro. O governador Geraldo Alckmin assinou no final de agosto, em evento que contou com a presença e discursos do presidente do Conselho do Banco Itaú e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Egydio Setubal, e do presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, documento de compra pelo Governo do Estado de um conjunto de oito prédios do banco, no Centro Histórico. Para esses prédios virão três secretarias de Estado — Habitação, Transportes Metropolitanos e Emprego e Relações do Trabalho — e cinco empresas estaduais — Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), Companhia do Metropolitano de São Paulo, Companhia de Trens Metropolitanos (CPTM), Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) —, e também será instalado o Gabinete Especial do Governador no Centro. Com a aquisição o Estado deixará de despender com aluguéis para as três secretarias e as cinco estatais R$ 1,05 milhão ao mês, passando a arcar com um pagamento mensal de R$ 300 mil por 10 anos ao Itaú, tornando-se proprietário dos imóveis. Está nos planos do governo iniciar a mudança com a transferência da Secretaria de Transportes Metropolitanos, já em outubro, ao mesmo tempo em que se estuda uma destinação nobre para o térreo do prédio da XV de Novembro, depois de um restauro.


Tem sucesso a retirada dos camelôs ilegais do Centro


Camelôs irregulares já não obstruem os espaços públicos do Centro. Desde 1Ί de julho foi colocada em prática uma mega-operação para devolver a região central à população, começando pelo Centro histórico e financeiro e estendendo-se ao Centro novo e à área da 25 de Março, com a fiscalização permitindo apenas camelôs portadores de TPUs. Para o êxito da tarefa contribuiu o perfeito entrosamento entre a Prefeitura (Subprefeitura da Sé e Guarda Civil Metropolitana) e o Governo do Estado (polícias Militar e Civil) com apoio da sociedade organizada, através da VIVA O CENTRO e das Ações Locais. A VIVA O CENTRO produziu um mapa do Centro mostrando os locais onde a Prefeitura autoriza ou não a atividade dos camelôs — 20 mil exemplares foram distribuídos entre fiscais da Prefeitura e GCMs, policiais militares e civis, diretores de Ações Locais e encartados no boletim informe. Segundo o delegado Mário Jordão Toledo Leme, titular da 1ͺ Delegacia Seccional de Polícia de São Paulo, sem a presença maciça de camelôs o número de ocorrências policiais caiu em mais de 60% na região, com a média de furtos/dia baixando de 10 a 12 para 2.


Um quatro-estrelas plus


Por ser um dos grandes investimentos no Centro, nos últimos anos, o hotel Holiday Inn Select Jaraguá, resultado de retrofit do edifício que já abrigou os jornais O Estado de S. Paulo e Diário Popular, além do tradicional Hotel Jaraguá, é um dos importantes empreendimentos da iniciativa privada a entrar para o calendário oficial das comemorações dos 450 anos de São Paulo. Em fase final de restauro e modernização, o hotel, projetado e recuperado pelo Grupo Sol Invest, terá um Centro de Convenções com 5 mil m2 distribuídos em quatro pavimentos com 21 salas em sistema modular, além de auditório em desnível para 300 pessoas e um andar vip, de acesso privativo. Ao todo são 415 apartamentos totalmente informatizados com Internet rápida e duas linhas telefônicas cada um, além de confortos como cafeteira elétrica, ferro e tábua de passar e sistema de ar condicionado com calefação. Fitness center, confeitaria, restaurante e bar completam o cardápio. Durante as obras foram gerados mais de 800 empregos rotativos e, quando começar a funcionar a partir de novembro, o hotel terá criado mais 300 novos postos de trabalho fixo. Seu calendário de entrada em funcionamento ficou assim: em 23 de outubro, soft opening (funcionamento parcial, em caráter de experiência, com as seguintes diárias: single R$ 73 e duplo R$ 88); a partir de novembro, força total; e em 25 de janeiro, a inauguração em si. Detalhe: os famosos painéis de Di Cavalcanti e Clóvis Graciano, no saguão do hotel, serão restaurados ao vivo, como na Capela Sistina nos anos 80 e 90, para que os clientes e o público em geral possam acompanhar os trabalhos.


Financiamento do BID: agora falta pouco


É grande a expectativa quanto à assinatura do contrato, prevista para outubro, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com a Prefeitura de São Paulo para concessão de um financiamento de US$ 100 milhões, com a contrapartida de cerca de US$ 68 milhões da municipalidade e da iniciativa privada, para obras de recuperação do Centro. No final de agosto foram concluídas as bases desse contrato com um documento de cerca de 400 páginas detalhando todo o projeto. O documento seguiu para Brasília para apreciação da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. "Nossa expectativa, como também a de todo o Centro, é de que tenhamos o contrato fechado antes do final do ano", diz a presidente da Emurb e do ProCentro, Nadia Somekh.


O Centro para o futuro


Tudo as surpreende: a profusão e altura dos edifícios, as esculturas ao ar livre, os vitrais, o burburinho urbano. Maravilhadas, elas chegam de pontos distantes da capital e também de municípios da Grande São Paulo para, na maioria dos casos, visitar o Centro pela primeira vez. São crianças de 7 a 14 anos, atendidas por 109 entidades da periferia da Região Metropolitana de São Paulo filiadas à Fundação Abrinq, às quais, graças a uma parceria com o Grupo Santander Banespa, está sendo proporcionado o passeio. O projeto se chama "Redescobrindo o Centro" e está em ação desde maio. Para as visitas a pontos turísticos como a Catedral da Sé, o Marco Zero, o Solar da Marquesa de Santos, o Pátio do Colégio e o Museu e a Torre do Banespa, o banco fornece material didático prévio às crianças, transporte, camisetas identificadoras e lanche. O meio, enfim, de quando elas forem adultas contribuir para a preservação desse que é o locus da identidade paulista.


Prefeitura apóia o Centro Cultural dos Correios


Depois de visitar as obras da primeira fase de restauro e modernização do prédio da agência central dos Correios, no Vale do Anhangabaú, em companhia do ministro das Comunicações, Miro Teixeira, a prefeita Marta Suplicy afirmou que dará todo apoio à implantação do centro cultural no edifício. Além disso, manifestou interesse em que o poder público municipal venha a compartilhar da gestão do novo equipamento. Segundo a prefeita, a Secretaria Municipal da Cultura poderia disponibilizar sua experiência e, em troca, alguns dos corpos estáveis do Teatro Municipal, hoje espalhados por diversos pontos no Centro, se instalariam no histórico prédio. As obras estão a todo vapor, o que torna prossível sua conclusão no final deste ano, como previsto no cronograma da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Ao mesmo tempo, a empresa trabalha em busca de parceria com a iniciativa privada para a segunda fase, que compreenderá o futuro



  Mix - Artes e Espetáculos  
A HISTÓRIA POR UM FIO


Recuperar cinemas de rua para suas funções originais ou qualquer outra atividade cultural é básico para que o Centro se reposicione como pólo de diversão e lazer. Hoje se esboçam diferentes reações, entre protestos e projetos de preservação. O Governo do Estado mantém em estudo a proposta de revitalização de um eixo que batizou de Broadway Paulistana, em que estão o Art-Palácio, Paissandu, Marrocos, Ouro e Dom José. Em conjunto com o Ministério do Esporte e Turismo, Prefeitura, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e empresas do ramo cultural, avalia-se a possibilidade de transformar as salas em espaços para musicais. Na pauta, também a reurbanização do Largo do Paissandu, a recuperação da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e a construção de uma garagem subterrânea. A Secretaria Municipal de Cultura instituiu a Comissão de Cinema de São Paulo (Cocine) que, entre outras atribuições, deverá criar pontos alternativos de exibição de filmes para facilitar o acesso do público à produção nacional. Paralelamente, o vereador Nabil Bonduki apresentou projeto de lei que concede a cinemas de rua isenção de IPTU e ISS, ainda sem data para ser votado. Como contrapartida, os contemplados teriam de exibir mais filmes nacionais do que o exigido pela legislação e destinar parte da renda a programas sociais. Leon Cakoff, crítico e empresário do ramo, sócio do Grupo Cinearte, é um dos articuladores e defensores dos incentivos fiscais para estimular a preservação das salas. Comenta-se que está de olho no cine Marrocos, que já foi um dos mais luxuosos de São Paulo. Enquanto isso, alguns cinemas resistem, caso do Ipiranga, embora também se fale de sua divisão em várias salas, e do Marabá, maior da cidade (1.665 lugares), outro que poderá ser dividido, segundo informou a Playarte. Na mesma região, o Paissandu é mantido a duras penas pela rede Haway, mas até quando ninguém sabe. Por enquanto, os cinemas de rua do Centro praticam os menores preços da cidade, às vezes R$ 3.

Cine Paris – Av. Ipiranga, 808. Tel. 223-9805. Cine Ipiranga - Av. Ipiranga, 786. Tel. 223-2542. Cine Marabá - Av. Ipiranga, 757. Tel. 223-7001. Metrô República. Horários a conferir. Cine Paissandu - Lgo. do Paissandu, 62. Tel: 229-5641. Metrô São Bento


NO SÃO PEDRO, A MEMÓRIA DA ÓPERA


O Theatro São Pedro é o segundo mais antigo da Capital e foi reinaugurado em março de 1998, completamente restaurado. Desde então, o edifício se transformou em um referencial urbano da cultura do século XX. Além da sala principal de apresentações com 636 lugares, a partir de janeiro de 2002 passou a contar com a Sala de Concertos de Câmara Dinorá de Carvalho, com mais 160 lugares e um belo piano Steinway de 1/4 de cauda que pertenceu à artista. O que nem todos sabem é que lá funciona o Centro de Memória da Ópera do Theatro São Pedro — Coleção Temaghi, (foto) um precioso acervo de 10 mil trajes doados pela Casa Teatral Temaghi, e outra centena de adereços que integram as exposições organizadas com o intuito de mostrar a história do teatro no início do século passado.

Teatro São Pedro – Rua Barra Funda 171. Metrô Marechal Deodoro. Tel 3667-0499. Bilheteria: , de quarta a domingo, das 14h às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (_ entrada).


DERRUBANDO PRECONCEITOS


Um ano de A Bela e A Fera (foto) e um público de 250 mil pessoas. Um show para quem nunca teve tradição no gênero de musicais. É a segunda montagem da CIE Brasil, que já apresentou Os Miseráveis com igual êxito de público. Mais importante: os espetáculos põem definitivamente por terra o preconceito de que não há no Brasil artistas com a múltipla capacidade de interpretar, cantar e dançar exigida pelos musicais. Os elencos inteiramente brasileiros foram escolhidos pelos diretores da versão original americana (Walt Disney Theatrical Productions) — em A Bela e a Fera, 40 pessoas — entre atores, cantores e bailarinos, e uma orquestra com 20 músicos. Bem mais sofisticada que a antecessora, a produção foi orçada em oito milhões de reais — além de um milhão de reais mensais com gastos em manutenção — e significou uma injeção de ânimo no meio artístico-cultural. Sob a direção de Jorge Takla revolveu o mercado de trabalho, guindou talentos. O Teatro Abril, onde o espetáculo está em cartaz, também contribui com o sucesso da empreitada. Importante exemplar da história da cultura brasileira, o antigo Paramount foi totalmente reestruturado para abrigar espetáculos exigentes. Na sua reabertura, em 2001, já como Abril e após um investimento de 10 milhões de reais, em parceria com o Grupo Abril, a área de 5.500 metros quadrados estava completamente remodelada. E belíssima

Teatro Abril – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411 - Bela Vista. Metrô Sé. Tel. (11) 6846-6060. Horários das apresentações: quintas e sábados, 16h e 21h; sextas, 21h; domingos: 16h e 20h30. Duração da sessão: 2h40, realizada em 2 atos, com intervalo de 20 minutos.


JAZZ SINFÔNICA E BANDA, DE CASA NOVA


Adeus à vida itinerante. A Orquestra Jazz Sinfônica (foto) e a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo agora têm sede própria. Acabam de se instalar no Teatro Sérgio Cardoso, no tradicional bairro da Bela Vista. Têm palco para ensaiar e a oportunidade de realizar temporadas. Os grupos aproveitaram a ocasião para se reorganizar e lançar um programa de assinaturas já para este segundo semestre. A Banda Sinfônica está com seus espetáculos divididos em duas séries: Repertório e Solistas. A primeira tem agendado em 11 de novembro o concerto "Um pouco de Magia", com obras de Dukas, Moussorgsky, Grieg e Holst, regidas por Daniel Havens e Érika Hindrikson. Na Série Solistas, destaque para Variações sobre um Tema de Paganini, de Sergei Rachmaninoff, com regência de Morozowicz e solo da pianista Linda Bustani, em 28 de outubro. Em 2 de dezembro, o espetáculo "100 Anos de Ary Barroso" terá regência de Daniel Havens e Érika Hindrikson, com solos vocais de Rosa Passos. Já a Jazz Sinfônica oferece os programas Instrumental e Jazz Sinfônica Convida. O primeiro apresenta, em 19 de novembro, Tracy Silverman e Caíto Marcondes. No segundo, Toquinho é o cartaz de 22 de outubro, com o especial "90 anos de Vinícius de Morais", e Miúcha faz sua "Homenagem a Braguinha", em 5 de novembro. Assinantes têm desconto de 20% no ingresso avulso, garantia de troca do ingresso para outro espetáculo com até 72h de antecedência e dois ingressos gratuitos para qualquer espetáculo em outras salas do Sérgio Cardoso. As assinaturas podem ser feitas na bilheteria.

Teatro Sérgio Cardoso – Rua Rui Barbosa, 153 - Bela Vista. Metrô Sé. Tel. 288-0136.


ACERVO DE AMPLO ALCANCE


A coleção começou modesta. Foi nos anos 40 e 50, com Sérgio Milliet adquirindo obras de artistas brasileiros e estrangeiros e criando a Seção de Arte da Biblioteca Municipal. Principalmente obras sobre papel, de acordo com o caráter da instituição, mas várias pinturas sobre tela e esculturas também. A biblioteca tornou-se Mário de Andrade, a seção cresceu, converteu-se em Pinacoteca Municipal (foto)e, há muito, mantém um respeitável acervo de trabalhos assinados por artistas de renome. Reúne de Franz Post e Rugendas a Tarsila do Amaral, Flávio de Carvalho, Volpi, Rebollo, Goeldi, Lívio Abramo e centenas de outros. O endereço há décadas não é a Mário de Andrade, mas o Centro Cultural São Paulo, na Avenida Vergueiro, 1000. Ali a Pinacoteca recebeu melhoramentos físicos, como a climatização do espaço destinado ao acervo técnico, e suas duas mil obras estão sendo fotografadas, catalogadas e digitalizadas, com apoio da Fundação Vitae, ao mesmo tempo em que são restauradas as que correm o risco de se perder. "Com o trabalho atual, que logo mais estará disponibilizado pela Internet, poderemos franquear o acervo digitalizado — em grande parte formado por delicados desenhos e gravuras, ou seja, não recomendado à manipulação devido à fragilidade do papel — à consulta de artistas, pesquisadores, professores e estudantes de arte", comemora Stella Teixeira de Barros, diretora da Divisão de Artes Plásticas do Centro Cultural São Paulo, sob a qual está a Pinacoteca.

Pinacoteca Municipal – Não aberta a visitação



  Mix - Livros  
XI de Agosto, 100 anos de coragem


Celeiro de nomes ilustres em diferentes momentos — de Monteiro Lobato a Oswald de Andrade, passando por Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e Zé Celso Martinez Correia mais recentemente, além de políticos e juristas relevantes na história do país —, o Centro Acadêmico XI de Agosto chega ao centenário com muita festa e, principalmente, um livro. E um livro nada laudatório. Em A Heróica Pancada – Centro Acadêmico XI de Agosto: Cem Anos de Luta (co-edição do XI de Agosto com Memojus/Instituto Brasileiro de Memória Jurídica e Social, patrocinado pela BM&F, Serasa e Associação Comercial de São Paulo, R$ 60), a entidade desponta corajosa ao assumir suas contradições, ora progressista e ousada, ora conservadora e contida. Mas sempre uma tribuna livre. Em tempo: a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, berço do XI de Agosto, está festejando 176 anos, o que de certa forma também perpassa todo o livro. A obra pode ser pedida diretamente ao Centro Acadêmico (tel. 11 3111-4082).


São Paulo para além da estatística


Fundindo jornalismo e literatura na crônica do cotidiano, como em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, no qual o viajante Marco Polo descreve ao imperador Kublai Kahn as cidades de seu império que ele mesmo desconhecia, o escritor e arquiteto mineiro Marcílio Godoi mostra em São Paulo, Cidade Invisível (co-edição Bom Texto e Letras & Expressões, 180 páginas, R$ 42) que, de tanto olhar para ela, há um momento em que o excesso de realidade cega. O resultado é um mapeamento afetivo da cidade, que emerge desconcertantemente humana dos dados objetivos, das estatísticas, dos planejamentos, ou seja, a metrópole não-oficial, cujo espaço só pode mesmo ser o da literatura.


Contos e uma versão plástica


Uma seleta de renomados contistas, entre eles Carlos Heitor Cony, Lourenço Diaféria e Marçal Aquino, e ilustrações de fatura altamente contemporânea, assinadas por Marcos Garuti, artista que figura entre os colaboradores desta revista na seção Traço, fazem do livro Ficções Urbanas (Sesc São Paulo e Lazuli Editora, Coleção E, 117 páginas, R$ 15,60) um objeto do desejo bastante acessível. Garuti capta a essência de cada conto e, sobre ela, aplica a sua versão plástica, juntando a cada texto literário uma espécie de crônica visual da cidade.


Cidades em clave filosófica


Essência, permanência e atemporalidade. É do ousado exercício de combinar esses três fatores que surge o ensaio fotográfico, em P&B, O Espírito dos Lugares (Editora Terceiro Nome, R$ 80), uma viagem por cidades que já foram infinitamente fotografadas, mas das quais o fotógrafo e advogado Eduardo Muylaert quer extrair muito mais. São Paulo, Paris, Nova York, Buenos Aires e Veneza, entre outras metrópoles, constituem o foco de uma paixão que, ao declarar-se, ambiciona conhecer a substância mesma de cada uma, seu espírito, o seu ser. Sejam quais forem as imagens que se tenha na retina de qualquer um ou de todos esses lugares, as fotos de Muylaert as subvertem, revelando algo para além do que o espectador já supôs.


História de um edifício fora de série


Baronesa de Arary – Nobres, Pobres, Artistas, Oportunistas... (Scortecci Editora, 285 páginas, R$ 25), de José Venâncio de Resende, resgata a história dos 40 anos do polêmico edifício localizado no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua Peixoto Gomide, um dos endereços mais caros do país. O Baronesa de Arary, com 559 apartamentos distribuídos em 25 andares, segundo Resende "é o próprio retrato dos altos e baixos do Brasil, na medida em que se caracteriza por mais de quatro décadas de postergação de medidas urgentes – como a reforma elétrica –, presença de administrações incompetentes e, muitas vezes corruptas, subordinação do bem da maioria a interesses de grupos e rolagem de dívidas na maior parte das vezes em condições desfavoráveis". A obra é fruto de cinco anos de pesquisa e mais de 50 entrevistas.


  MIX - Mesa  
CUSCUZ, DO MAGREB, É TAMBÉM PAULISTA

João Podanovsky

Fotos de MARCELO SANTOS


Cuscuz paulista não é de fato um cuscuz. O nome inadequado ficou do costume antigo dos paulistas de cozerem seu fantástico bolo salgado num cuscuzeiro. O saboroso assunto enseja alguns esclarecimentos.

1Ί) Cuscuz não é palavra árabe. Antenor Nascentes (Dicionário Etimológico) garante que é berbere, incorporada ao vocabulário árabe.

2Ί) Cuscuz não é quitute árabe, nem francês. É do Magreb, de tradição multimilenar. Dele tomaram conhecimento os árabes quando (século 7Ί) expandiram seu império pelo norte da África, e os franceses quando (1830) fizeram da Argélia sua colônia.

3Ί) Cuscuz não é prato apenas marroquino, como pode fazer crer o entre nós divulgado couscous maroquin. É prato nacional na Tunísia, na Argélia e no Marrocos, países do Magreb, região que se estende pelo noroeste da África perlongando o Mediterrâneo. Desde a pré-história, o Magreb (incluída a Líbia e parte do Egito) era ocupado pelos berberes, tribos nômades de várias etnias, de origem camita. Aos diversos falares desses povos dá-se o nome abrangente de língua berbere, de origem camito-semítica. Arabizados a partir do século 7Ί (língua e religião), os berberes hoje são minoria na região; a maioria é árabe.

4Ί) Nos séculos 15-16, o cuscuz era comum em Portugal, tanto nas mesas reais quanto nas mais populares. E foram os portugueses que introduziram esse prato no Brasil. Segundo Câmara Cascudo (História da Alimentação no Brasil), "julgava-se comida de negros", "manutenção de famílias pobres", "à venda nos tabuleiros".

O cuscuz autêntico (magrebino) é uma espécie de farofa úmida, muito simples: sêmola de trigo duro (primitivamente qualquer farinha, sobretudo de sorgo e milhete) cozida no vapor, no final incrementada com manteiga. Come-se em bolinhas (modeladas originalmente com os dedos) como acompanhamento de um bem temperado cozido (de carneiro, ou de legumes, ou de peixe, ou outro) feito no caldo fervente, na parte inferior do cuscuzeiro. Cuscuz doce é a mesma "farofa" enriquecida com uvas passas e/ou sementes e molhada com leite.

Esse o modelo que chegou ao Nordeste brasileiro. Aqui entraram em cena as farinhas de milho e de mandioca, e o cuscuz passou a ser enformado, e molhado no leite de coco, e até dissociado do cozido acompanhante. E multiplicou-se em variantes regionais.

Há prova documental de cuscuz feito em São Paulo em 1813. Era com pedaços de bagre e outros peixes comuns nos ribeirões locais. Como a gostosura migrou das mesas pobres para as aristocráticas, surgiram receitas ricas (aí por 1870) com inclusão dos nobres camarões.

O cuscuz paulista dispensa o cuscuzeiro, embora muitos preservem ciosamente esse charme avoengo. Basta preparar um refogado, a ele juntar farinha de milho (talvez um pouco da de mandioca), passar o bolo para uma forma, deixar esfriar, desenformar e aguardar os elogios dos comedores insaciáveis.

Iguaria vistosa e cara, se elaborada com palmito, azeitonas e camarões. Raridade em restaurantes. Em São Paulo, pode-se saborear cuscuz diariamente no O Profeta (versão mais simples, valorizada pelo gostoso molho de camarão) e no O Compadre (versão sofisticada).

Rosa Maria, chef e proprietária do Compadre, não usa cuscuzeiro e não economiza na receita. Em seu rico refogado entra azeite, alho, cebola, louro, tomate, camarão, pimentão, pimenta dedo-de-moça, palmito, cheiro-verde, ervilhas, azeitonas verdes, ovos cozidos, sardinhas.

Nada a ver com o cuscuz magrebino? Tudo a ver com a sublimidade.

O COMPADRE
Tel. 6222-3131. Av. Otto Baumgart, 500, Lar Center, logo à entrada. Caipira chique. Abre diariamente às 12h, fecha às 23h (domingo às 17h). Lauto bufê com tipicidades gaúchas, paulistas, mineiras, nordestinas, R$19,90 (sábado e domingo R$24,90).

O PROFETA
Tel. 5051-2547. Alameda dos Aicás, 40 (esquina Açocê). Mineiro sofisticado. Almoço e jantar todo dia, bufê da cozinha regional brasileira (a mineira em destaque), R$27,80. Paralelamente, serviço à la carte.

O cuscuz faz parte do bufê do Compadre (acima); a chef Rosa Maria e o marido Osmar Temperani, os proprietários



  Notícias  
VIVA O CENTRO reconfirma Henrique Meirelles na presidência


Um almoço de confraternização, realizado no Salão de Eventos da Bovespa, com a presença do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi reeleito presidente da Associação VIVA O CENTRO, marcou a posse dos conselhos Deliberativo e Fiscal e da Diretoria Executiva da entidade para o biênio 2003/2005 (veja o box abaixo). "Quando fundamos a VIVA O CENTRO, no começo dos anos 90, sonhando com um Centro requalificado para São Paulo, sabíamos que seria preciso consistência e persistência nos planos. Hoje já o vemos limpo, desimpedido e em plena recuperação. A partir de um movimento do Governo do Estado e da Prefeitura de reunir na área suas secretarias e empresas, a região passa a concentrar mais serviços e opções culturais. Adensamento e concentração são atributos desejáveis em um centro metropolitano como o de São Paulo, a que se acrescentam o poder simbólico e a infra-estrutura moderna", disse Henrique Meirelles em seu discurso. Compareceram ao almoço, o vice-governador Cláudio Lembo, representando o governador Geraldo Alckmin, a presidente da Emurb e do ProCentro, Nadia Somekh, representando a prefeita Marta Suplicy, o secretário de Estado do Planejamento, Andrea Calabi, os secretários municipais Jorge Wilheim, do Planejamento, Paulo Teixeira, da Habitação, e Antonio Donato, das Subprefeituras, e o deputado Emídio de Souza, representando o presidente da Assembléia Legislativa, além de presidentes de empresas estatais. "Muito do êxito da VIVA O CENTRO deve-se à colocação acima de Henrique Meirelles quando foi fundada a Associação: "Com isso tivemos tranqüilidade e, nos primeiros dez anos, pudemos contruir as bases para uma recuperação sustentável do Centro, com a restauração de áreas públicas importantes e a instituição de legislação adequada." lembrou o presidente da Diretoria Executiva da entidade, Marco Antonio Ramos de Almeida, também reeleito para a função. O Almoço de posse foi realizado no dia 22 de agosto passado.


Diretoria da VIVA O CENTRO para 2003/2005


A assembléia que elegeu os membros da Diretoria Executiva, do Conselho Fiscal e do Conselho Deliberativo da Associação VIVA O CENTRO para o biênio 2003/2005 foi realizada em 12 de agosto. Por aclamação, foram reeleitos Henrique de Campos Meirelles (presidente do Banco Central) para a presidência do Conselho Deliberativo, José Maria Giaretta Camargo (Sindicato dos Contabilistas) para a presidência do Conselho Fiscal e Marco Antonio Ramos de Almeida (BankBoston) para a presidência da Diretoria Executiva da entidade. Completam a Diretoria eleita os vice-presidentes Alencar Costa (Associação Brasileira de Gastronomia, Hospitalidade e Turismo/Abresi), João Vaccari Neto (Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região) e Roberto Mateus Ordine (Associação Comercial de São Paulo), o diretor secretário Luíz Eduardo Ramos Lisbôa (Associação Brasileira de Bancos Internacionais/Abbi), o diretor financeiro Wilson Antonio Salmeron Gutierrez (Febraban) e o diretor de controle Elzo Aparecido Barroso (Bovespa), além dos seguintes diretores: Antonio José L. C. Monteiro (Pinheiro Neto Advogados), Bertrando Molinari Filho (BankBoston), Fernando Ferrari de Araújo (ABN Amro Real), Frederico Teixeira de Simas (Klabin), Maria Aparecida C. Katsurayama (Banco do Brasil), Rafael Olivieri Neto (Universidade Anhembi Morumbi), Vanda Pita (Grupo Santander Banespa), Vicente Antonio Pittner (BM&F), Celso Figueiredo Filho (Grupo Figueiredo), Marco Antonio de Vasconcelos, Nelson Kheirallah (Associação Comercial de São Paulo), Paulo Ney Fraga de Sales, Sideval Francisco Aroni (Emplasa) e Zoleima Brabo Munhoz (Eletropaulo). A lista completa dos integrantes do Conselho Deliberativo e Fiscal pode ser vista no site www.vivaocentro.org.br.


VIVA O CENTRO propõe fiança social


Fala-se constantemente em déficit habitacional. Contudo, existem hoje na cidade de São Paulo cerca de 420 mil unidades residenciais desocupadas, segundo o Censo 2000 do IBGE. A Associação VIVA O CENTRO, com o objetivo de somar aos programas de habitação já desenvolvidos uma nova proposta, encaminhou a diversos organismos técnicos e políticos das três esferas de governo a sugestão de que se estude, em caráter de urgência, a implantação da Fiança Social. O benefício seria prestado por entidades públicas a famílias de baixa renda que, embora capacitadas a pagar aluguel, não conseguem firmar um contrato de locação pela impossibilidade de apresentar fiador. Três vantagens despontam de imediato dessa medida: o desmonte do perverso mecanismo que, ao mesmo tempo que mantém imóveis ociosos, privando seus proprietários da renda da locação, empurra amplos segmentos da população a cortiços e favelas, nos quais os aluguéis são sabidamente até maiores que no mercado formal; o desestímulo de milhares de famílias de se juntar a grupos que invadem ou ameaçam invadir edifícios vazios em toda a cidade, em especial no Centro e nos bairros centrais; e a reativação de importante parcela do mercado de locação de imóveis na cidade, gerando mais atividade econômica e renda.


Viabilidade imobiliária do Centro mobiliza arquitetos


Para discutir oportunidades de imobiliárias nos distritos Sé e República e entorno, tendo em conta as mudanças urbanas em curso na região, a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA) está realizando, com apoio da Associação VIVA O CENTRO, o Seminário Estratégias e Investimentos, primeiro de uma série de eventos denominada "Acontecendo o Centro". O primeiro evento, realizado na Pinacoteca, no final de agosto, teve como palestrantes Nadia Somekh, presidente da Emurb, e os arquitetos Edo Rocha e Nelson Dupré, e, entre os debatedores, Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO. "Este é o momento mais oportuno para o fortalecimento das parcerias entre os agentes do nosso setor em ações diretas e eficientes na busca da ampliação do mercado de trabalho", diz Eloise Amado, vice-presidente da AsBEA. "Nós, arquitetos, somos interlocutores e mediadores dos diferentes agentes do processo imóbiliário e urbanístico da cidade." O segundo seminário, sobre Habitação de Mercado e Popular e Habitação de Interesse Social, no início de outubro.


Cultura é tema de curso e workshop com apoio da VIVA O CENTRO


Com o patrocínio da Embaixada da Espanha e promoção conjunta da Associação VIVA O CENTRO e Instituto Cervantes de São Paulo foi realizado de 19 a 21 de agosto o Curso Política e Gestão Cultural e o workshop "São Paulo 450 Anos", no dia 22, para agentes e dirigentes culturais da cidade. Os trabalhos contaram com palestras de Jordi Marti, dirigente do Instituto de Cultura da Prefeitura de Barcelona e coordenador do Plano Estratégico do Setor Cultural da mesma cidade, que desde que sediou as Olimpíadas, no começo dos anos 90, tornou-se uma referência mundial em termos de urbanismo, organização de um grande evento e envolvimento dos diferentes atores sociais em um projeto de repercussão coletiva. Compareceram assessores diretos dos secretários municipal e estadual da Cultura, além de dirigentes de equipamentos culturais e do presidente da Anhembi Turismo, Celso Marcondes, que está comandando a programação de comemorações dos 450 anos de São Paulo.


Ações Locais realizam eleições gerais no Centro


As eleições gerais nas Ações Locais, realizadas em 10 de setembro, correram como se esperava, com o amplo interesse da comunidade da região central de São Paulo e a afluência de representantes de instituições públicas e privadas, proprietários e moradores às urnas de 35 núcleos do Programa de Ações Locais, criado pela Associação VIVA O CENTRO como um dos mais destacados e reconhecidos agentes de gestão cotidiana e recuperação do Centro. "As eleições demonstraram amplamente o poder de mobilização da comunidade do Centro e sua capacidade de participação na gestão da área", avaliou Marco Antonio Ramos de Almeida, presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO. Os votantes, em seu nome ou como representantes de empresas e instituições, preencheram mais de 500 postos nas diretorias e conselhos fiscais das Ações Locais, sendo de 10 a 12 diretores e mais três conselheiros fiscais em cada uma. Como fruto das eleições gerais, o Programa de Ações Locais ampliou para mais de 2.000 o número de Conselheiros da Comunidade.


VIVA O CENTRO promove debate sobre as cidades frente à globalização


Numa realização da Associação VIVA O CENTRO e Instituto Cervantes, com apoio da Embaixada da Espanha, a cidade de São Paulo sedia em 17 e 18 de novembro, no Hotel Hilton, o Seminário Internacional Brasil-Espanha, com o tema "As Cidades Frente à Globalização e o Desenvolvimento Sustentável", tendo como ponto de partida o turismo sustentável e a recuperação dos centros urbanos, com foco em cidades espanholas de sucesso, como Madrid e Sekvilha. O seminário, que contará com a presença de renomados especialistas da Espanha e do Brasil, é destinado a profissionais de arquitetura e urbanismo, turismo e economia, setores governamentais na esfera municipal, estadual e federal, além de estudantes dessas áreas. A Associação VIVA O CENTRO já está recebendo reservas de vaga para o seminário através do site www.vivaocentro.org.br, onde também podem ser obtidas mais informações sobre sua programação e taxas de inscrição.



PATROCINADORES Revista URBS

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Pinheiro Neto Bank Boston
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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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