Arquitetura para todos
Em sua quinta edição, o evento abre as portas ao grande público, elegendo, além dos tradicionais painéis e maquetes, outros suportes de comunicação, como vídeos e informática, tudo temperado pela interatividade
Ana Candida Vespucci
Dentro da proposta de que a arquitetura, por ser um bem coletivo, remete de imediato ao conceito de acesso facilitado à população, a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo chega à quinta edição abrindo-se definitivamente ao grande público. E como não há nada mais coletivo do que a própria língua falada por um povo, urbs abre esta reportagem com o emblemático projeto Estação Luz da Nossa Língua, que deverá converter a histórica Estação da Luz, no Centro paulistano, em importante espaço de valorização da identidade brasileira. O projeto, proposto pela Fundação Roberto Marinho, consiste do restauro das fachadas do edifício, projetado pelos ingleses da São Paulo Railway e modificadas depois do incêndio de 1946, e adequação do prédio, conforme projeto dos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Pedro Mendes da Rocha, para abrigar o centro de excelência na língua portuguesa, conceituado pelo escritor Adauto Novaes (leia mais em Na ponta da língua).
A Bienal Internacional de Arquitetura (BIA), acima de tudo, revela uma surpreendente vitalidade. Concorrem para a expressividade da mostra pelo menos três fatores: primeiro, estão defintivamente no passado aqueles repressivos anos 70 que calaram as primeiras edições desta e de outras manifestações culturais importantes; segundo, há, sim, um público ávido por informação, caso contrário certas exposições realizadas em São Paulo e em outros centros urbanos do País não estariam registrando presença recorde; terceiro, de 1973, quando foi realizada a 1ͺ Bienal de Arquitetura, para cá a arquitetura tem se difundido e mostrado que pode se tornar cada vez menos um "artigo de elite" e mais um instrumento para se garantir qualidade de vida.
Segundo Pedro Cury, curador da atual edição junto com Ricardo Ohtake, não tivessem sido os arquitetos, exceto casos pontuais, alijados do processo de construção de cidades como São Paulo, provavelmente não estivéssemos vivenciando o fenômeno da degradação urbana em escala assustadora. Daí a premência do tema Metrópole, sobre o qual a mostra discorre entre 14 de setembro e 2 de novembro, no Pavilhão da Bienal, em oito módulos, desta vez eminentemente dirigidos ao público leigo.
"A intenção é engajar a sociedade no debate sobre os mecanismos que impulsionaram o desenvolvimento de grandes centros urbanos e as soluções dos problemas decorrentes desse descontrole", diz Cury. "O indivíduo, sozinho, não sabe identificar os problemas que o afligem e, assim, não dispõe de ferramentas para se posicionar nem para cobrar dos poderes públicos a defesa dos interesses da coletividade", explica Cury.
Promovida pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil e pela Fundação Bienal, a 5ͺ Bienal Internacional de Arquitetura chega com metade do orçamento previsto R$ 4 milhões e bem menos do que havia sido planejado. Mesmo assim, seu espectro é amplo e diversificado, e a perspectiva de seus organizadores é que não decepcionará o público. Contempla desde a exposição de projetos ousados e impactantes que algumas metrópoles vêem multiplicar-se nos últimos anos a soluções de requalificação de espaços urbanos degradados, passando por novidades em termos de design e tecnologia incorporadas à arquitetura. Seu fórum de debates reúne nomes nacionais, como Regina Meyer, e estrangeiros, a exemplo de Peter Cook, da Inglaterra, Benedetta Tagliabue, da Espanha, e Pierre Bonet, da Suíça.
Paralelamente, a Bienal também enfoca a formação acadêmica ao realizar um Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura, do qual participam 36 escolas 30 do Brasil e seis do Exterior , que apresentam trabalhos realizados por estudantes em áreas urbanas degradadas. E para cumprir sua meta de atrair o público, em vez de um padrão de linguagem de compreensão exclusivamente profissional, seus organizadores elegeram a multiplicidade de suportes de comunicação, envolvendo dos convencionais painéis e maquetes, a vídeos e informática, opções de caráter interativo, pontuadas por boas surpresas e espaços diferenciados, avisa Cury.
Intervenções emblemáticas
Do núcleo temático da mostra, participam projetos de obras emblemáticas e polêmicas. São resultado de um processo que Joel Sanders, curador da representação novaiorquina chamou de "efeito Bilbao", referindo-se ao prédio do Guggenheim, erguido naquela cidade espanhola. Comparecem sete cidades com algumas de suas mais inovadoras realizações, representando a Europa, as Américas, Ásia e África e, assim, estendendo ao público um abrangente panorama de propostas segundo seus contextos históricos, políticos e econômicos. Provenientes de Beijin, Johannesburgo, Tóquio, Berlim, Londres, Nova York e São Paulo, e expostas lado a lado, permitem comparar as soluções apresentadas para as necessidades específicas de suas comunidades.
De Nova York, por exemplo, os curadores Joel Sanders, e Raymond Gastil, elegeram projetos que vão de lojas de marca, como a do estilista brasileiro Carlos Miéle, projetada por Hani Rashid e Lise Anne Couture, a projetos de revitalização de áreas deterioradas da cidade, como a rua 42, reformulada por Robert Stern. Do segmento Representações Nacionais, tradicional na Bienal, e presente desde a primeira edição, participam onze países: Suíça, Noruega, Itália, Holanda, Portugal, França, China, Áustria, Bélgica, México e Argentina, todos exibindo suas mais ilustrativas tendências. Itália, Portugal e Holanda, por exemplo, optaram por destacar os projetos que vem sendo desenvolvidos pelas novas gerações, como forma de sinalizar um provável futuro de sua capacidade arquitetônica.
Novos tempos, mais público
O evento, que em 1993, ano de sua segunda edição, foi bastante tímido devido a dificuldades de rearticulação, passou a mirar o grande público leigo a partir da quarta versão, em 1999. "A perseguição e o exílio de arquitetos durante o período militar tirou a Bienal Internacional de Arquitetura de cena. Depois de período tão longo, foi difícil retomá-la, o que fez da segunda edição uma exposição bastante dispersa em termos de conteúdo. Foi a partir da quarta, quando seu alcance superou todas as expectativas, e tendo em vista que seu perfil mostrava-se ainda bastante acadêmico, que pensamos em mudar a dinâmica para torná-la mais acessível a todos", recorda Pedro Cury, para quem a mostra cresce em dimensão e avança em qualidade. O público que no evento anterior foi de 150 mil pessoas pode chegar este ano a 300 mil, segundo as previsões.
As Mostras Especiais concorrem para garantir a abrangência do evento. Reúnem um time de arquitetos de diferentes procedências. Um bom exemplo é a mostra Desenhos na Cidade, vinda de Portugal. Traz Álvaro Siza, um dos mais respeitados profissionais da atualidade, que assina obras em vários países e pela primeira vez aceita fazer um trabalho de curadoria. Siza articulou a exposição desfocando o olhar dos grandes centros urbanos. Com isso pretende manifestar seu repúdio ao que classifica de "equivocada tendência" que há em seu país de se reduzir os pontos de interesse ao binômio Lisboa-Porto. Espera, desse modo, revelar um território português "denso de situações urbanas e arquitetônicas significativas".
Outro nome consagrado, o arquiteto inglês Norman Foster, autor de torres que se tornaram referência da nova urbe londrina, apresenta oito projetos que no seu estilo característico conjugam arquitetura e tecnologia. Entre as propostas, está a solução apresentada para a estação de metrô de Canary Wharf, em Londres, a mais movimentada da cidade, em que se destacam os elevadores de vidro, escolhidos entre outros fatores para aumentar a segurança dos usuários e inibir a ação de vândalos. Esse mesmo segmento reúne também quinze profissionais brasileiros em atividade nas diferentes regiões do país, evitando limitar a mostra ao eixo Rio-São Paulo. Além do homenageado Niemeyer, que quase retirou sua representação por conta da polêmica criada em torno da realização de um antigo projeto seu no Parque do Ibirapuera, estão profissionais como João Diniz, de Minas Gerais, Carlos Maximiliano Fayet, do Rio Grande do Sul, Sérgio Parada, de Brasília, Paulo Case, do Rio de Janeiro, e Sidônio Porto, de São Paulo, entre outros.
O módulo Mostras Institucionais apresenta uma seleção de ações de instituições públicas e privadas, estrangeiras e nacionais. Além do Monumenta, que está sendo desenvolvido em diferentes pontos do Brasil e da urbanização de favelas do Rio de Janeiro, um bom exemplo do teor desse segmento é o projeto de restauração da Catedral da Sé, de São Paulo, que vem a público em todas as suas etapas, do diagnóstico às técnicas empregadas. Outra proposta presente, também na área de recuperação, refere-se à requalificação do complexo arquitetônico que envolve o mercado Ver-o-Peso, em Belém, uma área da capital paraense que se encontrava em completo estado de abandono. Do Exterior, vem a exposição do projeto de Sociópolis, um bairro planejado em Valência, na Espanha, concebido por dez arquitetos espanhóis e dotado da infra-estrutura completa de uma cidade.
Questões vitais para a coletividade
Outro núcleo tradicional da Bienal de Arquitetura, a Exposição Geral de Arquitetos, conta com a participação de 320 trabalhos selecionados, dos quais 151 já foram implantados e sete criados especialmente para a mostra. A grande maioria de brasileiros que dá o tom ao módulo não significa que houve intenção dos organizadores de privilegiar a produção nacional. O regulamento, assim como o do Concurso de Escolas de Arquitetura, foi divulgado em todo o mundo por meio dos institutos de classe associados à União Internacional de Arquitetos. "A Bienal é abertas a todos", diz Cury. O fato não deve prejudicar a exposição, mesmo porque a maciça presença de estrangeiros nos demais segmentos compensa fartamente. O leque de projetos também é grande. Abrange a arquitetura residencial particular, mas o que se nota é a forte presença de projetos que procuram de alguma forma respeitar interesses coletivos.
Paulo Sérgio SantAnna, por exemplo, expõe a proposta de uma casa que ergueu nas imediações de São Paulo, em que o ponto de partida foi a preservação do meio ambiente em que se insere, pois além de considerar a vegetação local em 90% da área, emprega somente madeira de reflorestamento. Spencer Pupo Nogueira, de São Paulo, apresenta um projeto destinado às populações de baixa renda. Professor das faculdades de Arquitetura e Urbanismo de Campinas (Unicamp) e São Carlos (USP), ele expõe o que classifica de uma reação à tendência de se menosprezar as necessidades estéticas e de comodidade dessa fatia da população. "O indivíduo tem direito a algo mais requintado", diz ele. "Não só merece, como é possível lhe oferecer projetos melhores do que aqueles tabuleiros que são os conjuntos habitacionais, cuja implantação, além do mais, exige terras arrasadas a um custo ambiental deplorável." Canais existem, garante o professor. Seu projeto é simples. Consiste basicamente de unidades cubo que vão se organizando em torno de um pátio central para atividades comunitárias e se sobrepondo de maneira a formar uma grande pirâmide encimada por uma piscina de fundo transparente, suspensa e presa por cabos de aço. Tudo dentro de um orçamento factível.
Entorno do Minhocão merece respeito
Também de São Paulo, Felipe Francisco de Souza foi selecionado por propor a requalificação da área por onde corre o Elevado Costa e Silva, uma idéia cuja inspiração extraiu da Nova Paulista, projeto dos anos 60 assinado por Nadir Mezzerani, do qual implantou-se apenas o fragmento correspondente à passagem para a Avenida Dr. Arnaldo. Com o intuito de não interromper completamente o trânsito local, medida que prejudicaria o fluxo de toda a região, o arquiteto sugere a construção de um sistema de túneis primeiro, para só então se proceder ao desmonte do elevado. A reformulação abrangeria todo o eixo, da Praça Roosevelt à Avenida Água Branca, e envolveria a criação de um parque linear para servir aos moradores do entorno.
De Belo Horizonte vêm Carlos Alberto Maciel, Alexandre Brasil, André Luiz Prado e Danilo Matoso Macedo com uma intervenção que também tem por meta a requalificação de espaços urbanos centrais. O trabalho que apresentam refere-se ao centro de Goiânia, e reformula o plano original de todo o eixo formado pela Avenida Goiás e suas extremidades numa ponta a Praça Cívica, para a qual propõe a criação de níveis de estacionamento que liberem o uso para pedestres, e na outra, a Praça dos Trabalhadores, onde o edifício da desativada estação ferroviária se transformaria em espaço de lazer. Aproveitando a presença ali de uma estação de metrô e da estação rodoviária projetada por Paulo Mendes da Rocha, a área concentraria os transbordos dos transportes urbanos aliviando o movimento na área central da cidade e ainda contaria com um local para abrigar atividades informais. Maciel acredita que com essas medidas é possível disciplinar a região e atrair ocupações noturnas para reverter o processo de esvaziamento que ocorre nos horários não comerciais.
Também de Belo Horizonte, Juliana Rezende participa com o projeto de retrofit de três prédios residenciais no centro da capital, que estavam desocupados. Estudando intervenções similares em São Paulo, a arquiteta preservou as fachadas das construções erguidas nos anos 40 e remodelou completamente as áreas internas, transformando 24 apartamentos de quatro dormitórios em unidades diferenciadas de até três. Juliana, como Spencer Pupo Nogueira, acha importante oferecer à população de baixa renda qualidade de vida sem ônus adicionais: "Nenhum apartamento é igual ao outro. Projetei de quitinetes a dúplex, com plantas compactas, funcionais e confortáveis, a preços na faixa dos R$ 20 mil". Os edifícios ganharam uma área interna de convivência, boxes comunitários, lavanderia coletiva e bicicletário, atendendo, conforme a pesquisa que fez, às necessidades de um morador típico do centro de Belo Horizonte.
Com igual preocupação, Antonio Roberto Moita Machado propõe um projeto habitacional no entorno de Manaus; Carlos Nelson de Oliveira Cruz, a revitalização do complexo portuário de Manaus; Guilherme Augusto Werneck, a reconversão do complexo da Cia. Antarctica em São Paulo para usos comercial e cultural; Paulo de Mello Bastos, a revitalização da chamada Cracolândia no Centro paulistano; e Demetre Basile Anastassakis, a introdução de habitação popular no centro histórico de Salvador.
5ͺ Bienal Internacional de Arquitetura
Seg a qui: 9h30 às 23h
Sex a dom: 9h30 às 24h
Pavilhão da Bienal Ibirapuera, Portão 3
Até 02 de novembro
NA PONTA DA LÍNGUA
Passado, presente e futuro confluem no projeto Estação Luz da Nossa Língua, ligando dois grandes patrimônios: a Estação da Luz, símbolo de São Paulo, mas também da imigração e da migração no país, e a língua, como instrumento de identidade nacional. A proposta da Fundação Roberto Marinho, que demandou três anos para ser formatada, animou um verdadeiro pool de empresas para patrociná-la IBM, Correios, Rede Globo, Telesp Celular, BNDEs, Grupo Spenco e Grupo Takano , além do próprio Governo do Estado de São Paulo. Consiste na transformação da Estação da Luz em um grande centro de cultura que seja também um centro de referência da língua portuguesa no mundo, seguindo quatro linhas de ação: exposição permanente, site, projeto educativo e atividades diversas (cinema, teatro, música, artes plásticas, ciclos de conferência etc). As fachadas do edifício já estão em processo de restauro e, assim que os trabalhos forem finalizados, receberão iluminação cenográfica. Ao mesmo tempo, no interior do prédio, começam as obras de instalação do centro propriamente dito. A previsão é de que, até o final do ano que vem o dos 450 anos da cidade de São Paulo tudo esteja concluído. "O projeto harmoniza a conscientização da importância da língua como elemento cultural a língua portuguesa é a quinta mais falada no mundo, sendo que 80% somente no Brasil com a necessidade de recuperação de um patrimônio tombado em âmbito nacional, que é o edifício da Estação da Luz", sintetiza Adauto Novaes.
Estação da Luz da Nossa Língua, de Paulo Mendes da Rocha
Torre em Londres, de Norman Foster
Edifício do The New York Times, de Renzo Piano , e pólo de esportes náuticos no bairro de Queens, Nova York, do escritório Weiss Manfredi
Requalificação do Centro de Goiâna
Recuperação da área do Elevado Costa e Silva, de Felipe Francisco de Souza
Retrofit de prédios residenciais, de Juliana Rezende
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