ANO V   -   No. 31   -   julho / agosto 2003
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Eleições no Centro
Reportagem  Trolebus, longe do consenso
Calçadas sem lixo
Ainda mais seguro
Regência com Toque Feminino
O Despertar da Vila Buarque
Mesa-Redonda  Um VLT no centro
Urbanismo Nacional  Requalificação de edifício industrial, para implantação de escritórios na Mooca
Destaque  Correio: avançam obras da primeira fase
Praça da Sé ganha novas luzes
Estátuas na D. José Gaspar pedem restauro
Mercure Downtown aberto ao público
Mais dignidade no atendimento à mulher
Entrevista  O Advogado do centro - J. M. Pinheiro Neto
Cultura  O Arquiteto da Sé
O Impulso DA ARTE
Fotografia  Luzes do centro
Mix Artes e Espetáculos  O balé da cidade está em festa
Só música made in Brasil
Educação artística é programa no ccbb
Mix Livros  Memória paulistana
Moradia popular, um painel
Arquitetura moderna
Arte fina
Dossiês têm São Paulo como preocupação
Mix Mesa  Sua majestade o Bauru
Notícias  VIVA O CENTRO propõe melhorias no corredor de ônibus da São João
Ladeira da Memória tem que afastar vandalismo
Eleições gerais no Centro em setembro
Roosevelt aceita telecentro que Arouche não quer
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  Cartas  
Nota do Editor
A reportagem O Aeroporto do Centro (urbs nş 30) teve sua inteligibilidade bastante prejudicada pela supressão involuntária de um trecho, durante a produção gráfica. Trata-se do segundo parágrafo da matéria. É o seguinte:
De janeiro a outubro de 2002, segundo a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária, Infraero, 81.457 aeronaves pousaram ou decolaram no Campo de Marte, desembarcando ou embarcando mais de 160 mil passageiros. Por mais que se queira ignorar a importância de um dos quatro aeroportos que servem a maior cidade brasileira, o Campo de Marte é imprescindível, mas, concordam especialistas em aviação, precisa ser reequacionado para ganhar em eficiência e segurança. "É óbvio que, se São Paulo tem quatro aeroportos e estes já estão saturados, é preciso ampliar a sua capacidade operacional, não construir um quinto", diz Adalberto Febeliano, diretor executivo da Associação Brasileira de Aviação Geral, ABAG. Para Febeliano, cuja associação defende os interesses da chamada aviação geral (que exclui a aviação comercial), em vez de construir mais um aeroporto convém ampliar e/ou aperfeiçoar os que existem, como o Campo de Marte, para o qual há planos de uma nova pista. Ou, mais exatamente, de "girar" a pista existente, isto é, mudar sua orientação, que aponta para uma elevação de terreno no outro lado da vizinha Avenida Brás Leme.

Minoria silenciosa
Escrevo-lhes em nome da minoria silenciosa para cumprimentá-los pelo excelente trabalho, tanto na revista quanto na Associação. A minoria silenciosa é composta por pessoas como eu, que possuem escritório no Centro mas que não participam ativamente da Associação por pura falta de tempo. Sofremos muito com todos os problemas denunciados pela VIVA O CENTRO, desde os camelôs à falta de sinalização e ocupação mais racional do Centro.
Somos muito gratos a vocês pelo seu trabalho.
Pelo fato de permanecermos silenciosos, é possível que vocês achem que não aplaudimos ou que consideramos irrelevante o seu trabalho. Na verdade, é o contrário. Que a Associação cresça e se fortaleça é o nosso desejo.
Paulo Viceconti
por e-mail


De costas!
Como um dos fundadores do Rotary Club República, tomo a liberdade de escrever-lhes sobre um assunto que entendo ser oportuno. Na página 12 da edição nş 29 de urbs, sob o título Presença Indutora, tem início excelente reportagem sobre a nova Praça do Patriarca. Entre as fotos que ilustram a matéria não há a do monumento ao próprio Patriarca. A praça mudou para melhor, mas o monumento ao Patriarca não! Ficou de costas para o Viaduto do Chá e para o Teatro Municipal, sem considerar o Vale do Anhangabaú. Ficou de costas para a sua própria praça — digna de ser admirada — e de frente para... uma parede de esquina! Sempre que passo pelo monumento fico imaginando o quanto o nosso célebre Patriarca não ficaria feliz em lá estar, mas olhando para a sua praça nova e podendo admirar a futura sede do Executivo Municipal.
(...) Quando o monumento foi instalado, ele tinha diante de si a Rua Direita e seu olhar estava voltado para o Centro principal da antiga São Paulo: a Sé. Será que não valeria a pena acabar com esse castigo, que é ficar de cara para a parede, e deixar que o nosso querido e velho Patriarca possa desfrutar de sua praça e da paisagem que se descortina em direção ao chamado Centro novo? Acredito que, até pela facilidade e rapidez da obra, a sugestão não tem qualquer tipo de contra-indicação, uma vez que o Patriarca ficará de costas para uma... insignificante parede. Se assim puder ser, todos aqueles que passam por lá poderão, finalmente, conhecer de frente — e não de costas! — o Patriarca da praça.
Amadeu L. A. A. Memolo
por e-mail


Rumo certo
Há tempos que acompanho o trabalho da VIVA O CENTRO e acho que é esse o caminho — apontar questões, buscar o apoio da população, cobrar do poder público. Como morador da região central, tenho o maior interesse em ver a região recuperar o fascínio de décadas passadas. Uma cidade como São Paulo precisa preservar sua memória, seus monumentos e ter um equilíbrio entre modernidade e passado, cuidando sempre da qualidade de vida das pessoas que moram e transitam pelo local. Parabéns pelo trabalho... é legal ver que o jornalismo pode ser usado em causas como essa.
Pedro Osmar Tavares Duarte
por e-mail


Corredor
A implantação do corredor de ônibus no eixo da Avenida São João, sob o Elevado Costa e Silva, vai agravar as já calamitosas condições de desagregação urbana daquela região da cidade. Em alguns trechos, como na esquina com a Rua Conselheiro Brotero, aliás numa curva, sobra apenas uma faixa para os demais veículos. Estes vão acabar invadindo a calçada para embarque e desembarque, mesmo que rápido.
Carlos A. Pacheco do Rego
por e-mail


  Panorama  
Eleições no Centro

Numa demonstração de vigor e capacidade de organização, a comunidade do Centro de São Paulo participará, no dia 10 de setembro, das primeiras eleições gerais do Programa de Ações Locais, criado e coordenado pela Associação VIVA O CENTRO, com o patrocínio da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). Nesta data, simultaneamente, representantes das empresas, instituições, condomínios, escritórios, lojas e moradores estabelecidos na área de atuação de cada um dos mais de 40 núcleos de Ação Local que hoje funcionam no Centro estarão elegendo as suas Diretorias e Conselhos Fiscais, com mandato de um ano. Essas eleições gerais são mais uma demonstração de um poder de mobilização de forças sociais e de opinião pública inimaginável há uma década, quando a Associação iniciou o seu trabalho.

As Ações Locais foram criadas com o importante papel de realizar, na esfera local — em cada rua, em cada praça —, algumas das principais diretrizes do programa de trabalho da Associação VIVA O CENTRO, notadamente a de zeladoria do espaço público. Cada Ação Local atua em uma área específica e é conduzida por uma Diretoria e um Conselho Fiscal eleitos democraticamente pelos representantes da comunidade local que compõem o Conselho da Comunidade de cada núcleo.

Dotadas de autonomia funcional, as Ações Locais cada vez mais constituem-se num eficiente instrumento de parceria entre o poder público e a sociedade organizada na gestão do Centro. Sua função de oferecer à administração pública sugestões e propostas de melhoramentos para cada microrregião e exercer uma contínua fiscalização da área torna-se a cada dia mais efetiva. As Ações Locais têm empreendido programas sociais e intervenções no espaço público em parceria com empresas e a administração municipal, tais como reurbanização e conservação de praças e parques e ações envolvendo a população excluída. Manutenção de lugares e equipamentos de uso coletivo, disciplinamento do comércio informal, iluminação e limpeza públicas, policiamento, promoção social, melhora das condições ambientais e defesa civil são alguns dos temas com que as Ações Locais se ocupam no dia-a-dia, sempre de acordo com as especificidades de cada área. O que garante a eficiência dos núcleos é a natureza estritamente local de seu trabalho e o caráter aberto de sua estrutura de participação, sem restrições de ordem político-partidária, religiosa ou ideológica, e a proibição da cobrança de contribuição de seus associados como condição de participação, inclusive de votar e ser votado.

As eleições gerais de setembro — acontecimento notável em se tratando de um centro metropolitano complexo e extremamente diversificado — não se constituem, a rigor, numa surpresa. São a decorrência lógica de um trabalho de organização e participação que não cessa de aperfeiçoar-se. Com efeito, o Programa de Ações Locais não tem feito outra coisa, nestes poucos anos em que vem atuando, senão provar que o Centro possui uma sociedade atuante, disposta a lutar pela reabilitação de cada um dos inúmeros espaços e funções que o compõem. As eleições de setembro reforçam essa convicção de que o exercício compartilhado da gestão pública, com a colaboração decisiva da sociedade organizada, é o caminho mais eficiente e legítimo na complexa tarefa de recuperar o Centro da metrópole.


  Mesa-Redonda  
Um VLT no centro


Em mesa-redonda com especialistas, bonde moderno é apontado como um sistema para articular as funções e afinidades da área central de São Paulo

Calçadas e calçadões nos quais pedestres se deslocam penosamente em meio a uma injustificável profusão de equipamentos urbanos e barracas de comércio informal. Apenas essa imagem, tão familiar aos paulistanos, já indicaria a precariedade — ou inexistência — de uma estrutura com nível mínimo de eficiência para a circulação e acessibilidade na área central de São Paulo. Não obstante, para se recuperar plenamente e dialogar com o organismo da metrópole, o Centro necessita, além de melhorar as condições de circulação do pedestre, de um sistema integrado de locomoção e transporte que, entre outras atribuições, articule suas funções e afinidades e ajude a reduzir o excessivo volume de pessoas que se deslocam compulsoriamente a pé entre os terminais de ônibus, as estações de metrô e ferrovia, os locais de estacionamento e os pontos de destino, quase sempre em condições de extremo desconforto.

Com essa descrição sumária, o presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, abriu os trabalhos da mesa-redonda "Microacessibilidade e Articulação de Afinidades na Área Central", reunindo 20 profissionais das áreas de transporte e urbanismo (ver no box a relação dos participantes) numa das salas da Boston School, no Centro de São Paulo, em junho. Apesar de ligados a órgãos governamentais, a instituições públicas e privadas e a empresas, os participantes não foram convidados em função desses vínculos, mas na condição de especialistas. Todos receberam, por ocasião do convite, um documento que serviu de base para o desenvolvimento dos trabalhos, durante os quais cada participante fez uma exposição de cerca de dez minutos.

O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), ou bonde moderno, surgiu das exposições como uma forte alternativa de sistema de transporte destinado a conectar os principais pontos de chegada ao Centro — estações de metrô e ferrovia, áreas de estacionamento e terminais de ônibus — aos locais de trabalho, comércio, serviços e entretenimento e outras funções, em condições de segurança, compatibilidade com o meio ambiente e poder simbólico — ou seja, de modernidade contrastando com o cenário tradicional da região.

Para a maioria dos participantes, qualquer que seja o sistema escolhido — mas, em especial, o VLT —, ele deverá ser pensado no contexto de um planejamento que, ao "criar lógica", expressa "o conceito de cidade que vai presidir o projeto", nas palavras de Regina Prosperi Meyer. Rosa Maria Puchala insistiu em que um projeto de transporte para a região deve incluir-se "num plano que possa costurar as várias escalas de intervenção para tratar da questão do pedestre e da circulação, da mobilidade e da acessibilidade na área central". José Magalhães Jr. lembrou que, num Centro que deve ser compreendido, para efeito de planejamento, no mínimo como a região entre o Tietê e o Pinheiros, apesar de historicamente se constituir na coroa central, "uma visão macro" deve se combinar a "uma ação micro" num contexto que exige várias escalas de intervenção. Quanto ao VLT, prosseguiu Regina Meyer, ele faz sentido porque "está-se em busca de um fato novo para reverter a questão do Centro e esse fato pode estar na relação entre macro e microacessibilidade. Mas temos que pensar que o Centro não pode mais ser pensado como sendo apenas os distritos Sé e República, e sim como o Centro mais os bairros centrais". Sendo assim, não haveria um perímetro definido para a rede, pois o VLT deve ser "uma questão sistêmica, metropolitana, de Centro expandido."

O bonde não deve, pois, limitar-se a uma função de transporte. Integrado a um plano, ele passaria a funcionar como indutor de qualidade e coerência urbanas — seria um instrumento de urbanismo. José Eduardo Lefèvre resumiu esse pressuposto ao afirmar que a microacessibilidade, através de uma rede de VLT, deve inserir-se num conjunto integrado de fatores cuja implantação "constitui-se na etapa preliminar mais importante para definir e pôr em prática uma política coerente e consistente de desenvolvimento da qualidade do ambiente urbano". Como os principais elementos desse conjunto integrado dentro do qual a acessibilidade venha a ser um fator importante, Lefèvre citou "uma paisagem natural ou construída que seja marcante" — à qual se agregaria o "manejo da imagem da área" —, a organização do ambiente urbano "em que seja evidente o respeito do usuário ao seu espaço", e a "presença de equipamentos e serviços — cinemas, teatros, restaurantes, bares, comércio — tidos como fundamentais para incentivar a permanência das pessoas." Marta Dora Grostein observou com precisão que um investimento desse tipo (o VLT) deveria ser uma oportunidade de empreender ações articuladas que tragam para a área central elementos novos, novas funções, dinamização da função habitacional, novos moradores, enfim, um plano que pense no futuro", e também advertindo que "se não articularmos a implantação desse sistema com ações mais complexas que enfrentem o binômio da pobreza e da degradação dos espaços da área central, creio que dificilmente alcançaremos resultados positivos."

Sem descartar o planejamento cuidadoso, Eduardo José Daros afirmou que, uma vez definido o sistema de transporte do Centro, será preciso agir sem perda de tempo. Isso valeria, inclusive, para as vias de pedestres. "Apesar de enxergarmos o problema do pedestre em vários níveis, temos que priorizar o nível imediato, que é dar um chão estável e não escorregadio para que as pessoas possam circular a pé."

O bonde moderno, VLT ou tramway é cada vez mais utilizado em cidades européias e norte-americanas. Ainda que algumas delas já tivessem uma rede tradicional, muitas já implantaram sistemas modernos para atender principalmente os seus distritos centrais de negócios. Foi esse ressurgimento do bonde como instrumento de articulação de funções centrais e indutor de melhoramentos urbanos que, lembrado na mesa-redonda logo de início, levou os participantes a admitir o VLT como uma das soluções possíveis para a questão da microacessibilidade na área central de São Paulo. Ele esteve implícito, por exemplo, nos argumentos que apontaram à constatada incapacidade de equipamentos culturais de alto nível determinarem mudanças qualitativas em seu entorno, justamente por falta de um sistema de locomoção e transporte que irrigasse o deteriorado tecido urbano envoltório. "Do ponto de vista de um planejamento abrangente, de uma harmonização entre o urbanismo e as infra-estruturas de transporte e de serviços, a visão (que se tem do Centro) é pessimista. Um exemplo singelo é o complexo cultural da Estação Júlio Prestes, objeto de um grande esforço da parte do Estado e que em qualquer outra metrópole seria valorizado por seu entorno urbano mas que, em São Paulo, é cercado por um ambiente externo lastimável", afirmou Josef Barat.

A expectativa de que um sistema de VLT possa constituir-se em indutor de qualidade urbana e em estímulo à convivência e à fruição das ofertas culturais e de serviços do Centro foi abordada por Claudio de Senna Frederico. O Centro, afirmou, "é uma construção heterogênea de convivência heterogênea" e "não foi construído para as pessoas fugirem umas das outras". Daí a sua incompatibilidade com o uso preponderante do automóvel, uma "cápsula espacial que facilita essa fuga". Nesse caso, o sistema de VLT poderia alavancar um plano que, ao reforçar a vocação de multifuncionalidade e diversidade social do Centro, nele superasse a crise de sociabilidade que se experimenta em São Paulo.

Viabilidade

De acordo com os participantes da mesa-redonda, o VLP constitui-se de fato numa alternativa para a microacessibilidade e circulação na área central de São Paulo. Mas seria economicamente viável? "Um bonde moderno e com piso baixo, como o de Toulouse, na França, custa muito caro", observou Peter Alouche, sugerindo que o sistema começasse a ser implantado usando-se o bonde antigo com alguns elementos tecnológicos contemporâneos, até que se pudesse investir em veículos mais avançados. Argumentando que os modelos hoje existentes no mercado são "terrivelmente caros", Renato Viegas propôs "pensar em um bonde próprio para nós, que faça o serviço que queremos." Contudo, um sistema de transporte e de indução de transformações urbanas como o VLT precisa ser avaliado sempre em função do benefício que provoca, à margem, portanto, dos padrões convencionais de cálculo de custos e benefícios apenas de transporte. Plínio Assmann afirmou que "a recuperação do Centro é a área de maior oportunidade de crescimento de arrecadação de IPTU e de ISS da cidade", o que significa que investimentos feitos na requalificação da área pelos governos retornarão amplamente na forma de receitas públicas. O próprio custo da obra foi bastante relativizado por Josef Barat sob o argumento de que "as extensões (das linhas) serão pequenas, trabalhamos com um raio máximo de dois quilômetros. No cômputo dos benefícios que (o sistema VLT) pode acarretar à cidade, trata-se de uma solução relativamente barata."

Mesmo assim, para contornar esse alto custo e visando à implantação rápida do sistema, alguns participantes sugeriram a conveniência de uma solução provisória, sem comprometer a solução futura. Roberto Mac Fadden e Claudio de Senna Frederico, por exemplo, propuseram o modelo de um microônibus híbrido, movido a eletricidade mas dispensando a rede aérea e circulando em faixas demarcadas no piso das vias. Mas uma solução desse tipo poderia trazer riscos e desvantagens maiores do que eventuais benefícios, lembrou José Tadeu Braz, para quem um sistema adequado exige "um ícone delineado, como o trilho, e o pneu não se presta a isso". Além disso, completou, o uso de pneus é muito perigoso em áreas de grande concentração de pedestres, como os calçadões.

Nadia Somekh afirmou que o bonde moderno no Centro é uma proposta defensável, porque "sabemos o quanto custa caro ao país, até hoje, o abandono dos trilhos e a opção pelo automóvel". No entanto, informou ela, uma proposta de VLT para o Centro, apresentada à Prefeitura, não foi adiante porque a área de transporte da municipalidade considerou que ela não se encaixava no modelo de transporte coletivo que se pretendia implantar na cidade, apesar do interesse com que foi recebida pela prefeita Marta Suplicy. No entanto, como responsável pelo Programa de Reabilitação do Centro, da Prefeitura, Nadia afirmou que gostaria de confrontar argumentos favoráveis ao sistema com os que, dentro da administração municipal, foram contrários a ele. Propôs que a VIVA O CENTRO articulasse um grupo de trabalho voluntário para, em conjunto com o Grupo de Circulação Especial da Prefeitura, coordenado por Sílvia Zioni, discutir as pesquisas realizadas e as propostas formuladas.

Pedestres

Ainda que as condições favoráveis ao tráfego de pedestres sejam uma obviedade em matéria de qualidade urbana e de vida — e não, estritamente, um capítulo da microacessibilidade —, elas foram ressaltadas por diversos participantes como elemento indispensável em um sistema integrado de circulação e acesso. No Centro, as viagens a pé respondem pela maioria dos deslocamentos internos diários, recordou Andreina Nigriello. E, dos 2 milhões de pessoas que transitam pelo Centro diariamente, cerca de 500 mil são moradores da região ou de bairros vizinhos e praticamente não usam transporte em sua movimentação diária, destacou Nancy Reis Schneider. A necessidade de um projeto específico para o tráfego de pedestres e sua integração com a rede de transporte local torna-se mais evidente quando se sabe, de acordo com Roberto Mac Fadden, que o plano de reabilitação do Centro ora empreendido pela Prefeitura, que prevê mais moradores e usuários na área, resultará no aumento das viagens a pé na região. A mesma preocupação foi manifestada por Reginaldo Assis de Paiva, para quem o "não-transporte" — a possibilidade de realizar múltiplas tarefas e acessar inúmeros lugares sem necessidade de transporte, tão característica do Centro — deve ser incentivado na área.

A conexão entre o tráfego de pedestres e os sistemas de transporte exigirá a implantação de garagens e estacionamentos, inclusive para motos e bicicletas, na opinião de Edison José Alves Antunes. "As garagens, principalmente as subterrâneas, acomodam o tráfego, removem veículos da superfície e diminuem, dessa forma, a poluição visual. Também ajudam a valorizar o entorno e a aumentar o valor venal dos imóveis, estimulam o comércio e os serviços locais e permitem maior fluidez na superfície." Será igualmente necessário conectar os sistemas estrutural e local de acesso. Segundo Silvana Maria Zioni, os planos da SPTrans para a área prevêem "sistemas estruturais de linhas, serviços com as adequadas tecnologias veiculares, com ônibus de maior capacidade, e sistemas locais que poderão utilizar microônibus e até veículos menores." (Jule Barreto)

Os participantes
A convite da Associação VIVA O CENTRO, participaram da mesa-redonda: Andreína Nigriello, arquiteta, Cia. do Metropolitano de São Paulo (Metrô); Claudio de Senna Frederico, engenheiro, Local Business; Edison José Alves Antunes, arquiteto, Instituto de Engenharia (IE-SP); Eduardo José Daros, engenheiro, Associação Brasileira de Pedestres (Abraspe); José Eduardo de Assis Lefèvre, arquiteto, FAUUSP; José Magalhães Jr., arquiteto, Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Sempla); José Tadeu Braz, engenheiro, Brazhuman Corp. Engenharia; Josef Barat, economista, Planam – Planejamento, Assessoria e Monitoramento de Projetos; Marta Dora Grostein, arquiteta, FAUUSP; Nadia Somekh, arquiteta, presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb); Nancy Reis Schneider, arquiteta, Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP); Peter Alouche, engenheiro, Cia. do Metropolitano de São Paulo (Metrô); Plínio Assmann, engenheiro, Trends Engenharia; Regina Maria Prosperi Meyer, arquiteta, FAUUSP, e editora de urbanismo de urbs; Reginaldo Assis de Paiva, engenheiro, Instituto de Engenharia (IE-SP); Renato Viegas, arquiteto, Cia. do Metropolitano de São Paulo (Metrô); Roberto Mac Fadden, arquiteto, Opus – Oficina de Projetos Urbanos Consultores Associados; Rosa Maria Puchala, arquiteta, Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-P) e Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), e Silvana Maria Zioni, arquiteta, São Paulo Transporte (SPTrans).

Como ouvintes, estiveram presentes Joaquim José de Mello Bastos e Tadashi Nakagawa, engenheiros, Trends Engenharia, Rose Carmona e Victor Eskinazi, VIVA O CENTRO.

Os currículos dos participantes, assim como a íntegra de suas intervenções, podem ser acessados no site: www.vivaocentro.org.br/mesaredonda

O Debate prossegue
Por superar, em qualidade e rigor técnico, as expectativas da Associação VIVA O CENTRO, e por demanda dos próprios participantes, a discussão sobre Microacessibilidade na Área Central vai prosseguir. O texto integral das exposições, o documento Microacessibilidade e Articulação de Afinidades na Área Central — que serviu de texto básico para a mesa-redonda — e os nomes e currículos de todos os debatedores já podem ser acessados no site www.vivaocentro.org.br/mesaredonda. Na seqüência, um seminário destinado a aprofundar as questões levantadas na mesa-redonda, em especial uma das alternativas de sistema de transporte cogitadas quase que por unanimidade durante o encontro — o bonde moderno —, deverá ser realizado pela Associação.



  Reportagem  
Trolebus, longe do consenso

Ônibus movido a energia elétrica existe há mais de meio século em São Paulo,
mas hoje poucas cidades investem nele
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)


Basta dizer "trolebus", do inglês trolleybus, e a polêmica está lançada. De um lado, aqueles que acusam tais veículos, cuja característica básica consiste na propulsão por motor elétrico, alimentado por meio de uma rede aérea, de provocar constantes transtornos ao tráfego, além de serem pouco econômicos e poluírem a paisagem com sua fiação suspensa. De outro, argumenta-se que, por não emitirem gases e serem silenciosos, representam um ganho ambiental, principalmente nas áreas urbanas de atmosfera mais poluída. São Paulo é a única capital brasileira a manter linhas de trolebus. Segundo o professor Hugo Pietrantonio, da área de transportes urbanos e engenharia de tráfego do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo,USP, há uma anedota que procura explicar as limitações desse veículo. Quando foi criado, a idéia era combinar o melhor das diversas formas de transporte urbano e obter a rapidez do metrô, a capacidade do trem, a flexibilidade do automóvel e o custo reduzido do ônibus. "No final das contas, o trolebus saiu com a pouca rapidez do trem, a pouca capacidade do ônibus, a pouca flexibilidade do metrô e o custo elevado do automóvel", diz o professor.

Mas ele adverte que a anedota não é plenamente justa. O trolebus, entre outros fatores, resulta do conceito de tecnologia limpa, para ser usado em países nos quais, como o Brasil, a eletricidade provém de hidrelétricas. "Por isso, o trolebus ainda poderia ser empregado em corredores específicos ou áreas em que as preocupações com a poluição do ar compensem os problemas mencionados. A tecnologia dita limpa é o principal ponto que justificaria a opção pelo trolebus. Tirando esse fator, é um veículo que não apresenta vantagem de nenhuma natureza." Pietrantonio elenca algumas desvantagens do trolebus, como o desempenho e a flexibilização, piores do que as dos ônibus; o custo de implantação, bem maior, e o de operação, mais caro, já que depende do custo da energia elétrica, que atualmente não é barata. Sem contar que o trolebus consome eletricidade justamente nos períodos de pico do consumo, pouco contribuindo para a questão energética. "O trolebus só ganha no item meio ambiente", conclui o professor.

Quem defende a utilização do trolebus como veículo urbano de transporte de passageiros também arrola suas razões. De acordo com esses especialistas, como o arquiteto e urbanista Ayrton Camargo e Silva, secretário executivo da Associação Nacional de Transportes Públicos, ANTP, o trolebus é uma tecnologia de transporte ideal para cidades de médio e grande porte que pretendem investir na qualidade de vida, já que ele não agrava as condições de poluição atmosférica e sonora. Entre outros fatores, lembra Camargo e Silva, os trolebus utilizam energia elétrica, que é renovável e não-poluente, em princípio abundante no Brasil; favorecem a implantação de corredores de tráfego, garantindo maior velocidade ao deslocamento e menos ruído; permitem partidas e frenagens suaves, proporcionando maior conforto aos usuário; possuem degraus mais baixos, facilitando o acesso aos passageiros; têm maior vida útil e, com manutenção adequada, duram 20 anos ou mais anos – os ônibus a diesel estão velhos aos dez anos.

No Brasil, a história do trolebus passa por altos e baixos, reagindo ao sabor das políticas de energia e transporte vigentes. Basta ocorrer uma crise de abastecimento de petróleo e lá vem alguém propor a ampliação das linhas. Se ocorre o inverso, e a energia elétrica encarece, outro passa a pregar a extinção das linhas. Em tempos de maior preocupação ambiental, a idéia do trolebus é retomada. Em épocas em que prevalece a preocupação com o fluxo do tráfego, o trolebus é ameaçado. Enfim, o trolebus nunca foi consenso.

A primeira linha operada por bondes elétricos no país, aposentando os veículos coletivos urbanos de tração animal, data de 1892. Inaugurada no Rio de Janeiro, estava na vanguarda do que se fazia internacionalmente e, em duas décadas, multiplicou-se pelo país. Das 63 cidades brasileiras dotadas de sistemas de bondes a burro, 20 já tinham, eletrificado suas linhas na primeira década do século XX.

Pioneirismo

O uso da eletricidade nos transportes públicos sobre pneus teve início a partir dos anos 20 do século passado e São Paulo, em franco processo de metropolização, foi a primeira cidade brasileira a pensar no chamado electrobus, ou bonde sem trilhos. Em 1939, a Prefeitura aprovou a implantação de duas linhas experimentais, mas a irrupção da Segunda Guerra, dificultando a importação de equipamentos, interrompeu o processo. Finda a guerra, e expirada a concessão da Light para operar a rede de bondes, criou-se a Companhia Municipal de Transportes Coletivos, CMTC, que monopolizou os transportes coletivos na Capital e retomou os estudos sobre o electrobus. A primeira linha de trolebus brasileira foi inaugurada em 22 de abril de 1949 e ligava a Praça João Mendes à Praça General Polidoro, na Aclimação. A frota, informa Camargo e Silva, consistia em 16 veículos importados, ingleses e norte-americanos, e a rede aérea se estendia por 7,2 quilômetros. Em 1958, o primeiro trolebus fabricado no país, pela Villares, integrou-se ao sistema.

Dez anos depois, a rede de trolebus paulistana compreendia 230 veículos, distribuídos em 14 linhas, e uma fiação de 139 quilômetros de extensão.

Nos anos 70, com a crise do petróleo, o governo federal estimulou a implantação de novos sistemas e, nos anos 80 e 90, já na contramão da tendência nacional, marcada pela desativação do serviço - na década de 80, apenas três novos sistemas foram implantados no Estado de São Paulo, incluindo o de Ribeirão Preto, ainda em funcionamento -, grandes investimentos foram realizados na rede paulistana. Em meados dos anos 90, a proposta do Fura-Fila, um Veículo Leve sobre Pneus (VLP)capaz de transportar até 270 usuários por unidade bi-articulada, foi um dos trunfos que elegeram o prefeito Celso Pitta, fazendo com que, momentaneamente, as atenções se voltassem para o transporte público por veículos de tração elétrica. Parecia que, por fim, uma tecnologia ameaçada de extinção, ambientalmente correta e com veículos mais confortáveis e seguros, voltaria à cena paulistana.

O engenheiro mecânico Mário Schettino, da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, EMTU, que gerencia as linhas intermunicipais de ônibus da região metropolitana de São Paulo e opera cerca de 80 trolebus, confessa seus vínculos afetivos com estes – "fazem parte da minha paisagem" – e nega que tenham se tornado obsoletos. "Os trolebus possuem tecnologia avançada, não emitem poluentes e têm baixo índice de ruído. Quando se diz que causam transtornos ao tráfego, em 40% dos casos isso acontece pela falta de manutenção da rede e em 5% por falta de energia elétrica."

Para Schettino, com a privatização as empresas de energia elétrica perderam o interesse no sistema. "Daí a dificuldade de manter os trolebus em atividade. Nossa experiência na EMTU afirma a eficiência do sistema de trolebus, que existe em cidades importantes como San Francisco, nos Estados Unidos, tem vida útil muito mais longa que o ônibus a diesel e deveria ser disseminado. Quem defende a implantação dos ônibus híbridos, movidos a diesel e bateria elétrica e que não possuem trole — nome da alavanca de captação de corrente elétrica —, se esquece de que poluem e não têm desempenho satisfatório." Enquanto o ônibus a hidrogênio não chega, gerando energia elétrica sem poluição, a melhor escolha, reafirma Schettino, ainda é o trolebus. "Mas, para seu sucesso, deveríamos estudar parcerias com as empresas distribuidoras."

Hoje, diz Gerson Luiz Bittencourt, presidente da SPTrans, empresa municipal que controla, mas não opera, os trolebus em São Paulo, o sistema comprende 473 veículos (425 em operação), em 23 linhas, num total de cerca de 370 quilômetros. Em seis meses, de junho de 2002 a janeiro deste ano, os trolebus transportaram um pouco menos de 100 mil passageiros/dia, contra 5,5 milhões de passageiros/dia do sistema de ônibus. "A parcela da população atendida pelos trolebus é quase simbólica e a tendência é que os veículos fiquem concentrados em algumas linhas mais longas. Gradativamente, mesmo nas áreas mais centrais, tudo indica que sua presença diminuirá. Não diria que o trolebus está fadado a desaparecer, mas ficará confinado a certas áreas. No Centro, por exemplo, pretendemos aos poucos reduzir o tráfego desses veículos. No Brasil, quem tem trolebus está se desfazendo dele." Segundo Bittencourt, além de a operação de um trolebus ser 2,5 vezes mais cara do que a de um ônibus a diesel, há a questão da disfuncionabilidade, com veículos quebrados e linhas interrompidas. Isso quando as hastes de captação de energia elétrica na rede suspensa não se desengatam, o que é muito comum, contribuindo para congestionar o trânsito. Ao contrário do bonde, que tem uma só haste pantográfica para captar energia, o trolebus tem duas hastes, e qualquer desnível ou solavanco pode desengatá-las.

Os trolebus, diz o presidente da SPTrans, apenas atendem a ambientalistas e saudosistas. No primeiro caso, nem isso fazem, pois poluem visualmente — a fiação dupla ajuda a acentuar o desagradável emaranhado da rede aérea de distribuição de energia — e têm alternativas mais viáveis, como os veículos híbridos, diesel e eletricidade. É o caso do Paulistão, ex-Fura-Fila, que perdeu a fiação e, garante Bittencourt, estará rodando em dezembro próximo, em corredores segregados, inicialmente no trecho Parque D. Pedro-Sacomã. "Na primeira fase serão 14 VLPs. Na seqüência, mais unidades vão ser incorporadas até que se atinjam 300 veículos." (Federico Mengozzi)


  Reportagem  
Calçadas sem lixo

Ainda em implantação, sistema de coleta mecanizada do Rio já mostra
ganhos em eficiência, higiene e redução de custos
Talita Figueiredo
Fotos de Claudia Martins
Do Rio


Aprimorar a coleta do lixo, imprimindo-lhe mais rapidez e higiene, minimizar riscos de contaminação ambiental e proteger a população e os garis de acidentes e doenças favorecidos pela precária coleta manual. São essas as características mais positivas da coleta de lixo mecanizada, sistema usado na cidade do Rio de Janeiro desde 1997. E também os argumentos para as cidades que cogitam implantá-lo.

O conceito é simples. O lixo é armazenado, no interior do edifício, em um contêiner padronizado de polietileno, dotado de rodas de borracha. Este é transportado para a calçada no máximo duas horas antes da passagem do caminhão coletor. À chegada deste, o gari empurra o contêiner até o veículo, encaixa-o num lifter (elevador hidráulico) e aciona uma alavanca. Em movimentos de rotação, o contêiner sobe e, inclinado a 75 graus, despeja o conteúdo na boca de carga (parte traseira) do compactador (caminhão). O processo vale para regiões mais cêntricas e verticalizadas, onde prevalecem os imóveis comerciais e os condomínios. Nos subúrbios, nos quais predominam os imóveis unifamiliares, o contêiner — que é sempre dotado de tampa — permanece estacionado sobre a calçada e recebe o lixo da vizinhança, acondicionado em sacos plásticos padronizados.

No Rio, o projeto piloto da coleta mecanizada foi experimentado na Zona Sul, área nobre da cidade, em 1997. Dois anos depois, todo o município estava coberto pelo sistema, cujas peças principais são o caminhão equipado com lifter e os contêineres plásticos padronizados. De acordo com Tarquínio Fernandes de Almeida, assistente técnico da Diretoria Industrial da Companhia Municipal de Limpeza Urbana, Comlurb, a cidade ficou mais limpa com a coleta mecanizada, ainda que — embora alcançando todos os pontos do município — esta responda por uma pequena parcela do lixo coletado, por falta de contêineres.

Até que se definisse a tecnologia adequada de limpeza urbana a ser implantada no município, muitas pesquisas foram feitas pela Prefeitura. Técnicos visitaram cidades dos Estados Unidos e da Europa, onde a coleta mecanizado existe há pelo menos 50 anos — a Alemanha foi a pioneira, há mais de meio século. "Ficou comprovado que a coleta mecanizada, ou conteinerização, era a saída para o Rio", diz Almeida. Atualmente a cidade utiliza 350 caminhões compactadores, todos equipados com lifters, e 60 mil contêineres distribuídos pela cidade e disponibilizados pela Comlurb. Estes últimos são feitos de polietileno de alta densidade e têm capacidade de armazenagem de 240 litros, o suficiente para acomodar o lixo produzido por dez famílias em dois dias — a produção média, no Rio, é de 4 kg/dia. Por suas dimensões moderadas — 0, 71m de comprimento, 0,575 m de largura e 1,15 m de altura —, ocupam pouco espaço em garagens e depósitos dos edifícios e, nos subúrbios, não chegam a prejudicar o tráfego de pedestres nas calçadas.

Equipar um caminhão com lifter custa em torno de R$ 12 mil. O programa prevê a renovação da frota a cada cinco anos, prazo bem menor do que no antigo sistema, em que a renovação chegava a aguardar 20 anos. "Pelas normas internacionais, os caminhões têm vida útil de cinco anos, que é quando eles começam a deixar vazar o chorume", explica Almeida. O chorume é o líquido escuro, fétido e de alto poder de contaminação produzido pela decomposição dos dejetos orgânicos.

A Comlurb tem hoje 35 caminhões de coleta próprios, que são usados na limpeza de toda a área do Centro. Os demais, representando 90% da frota, pertencem a empresas privadas contratadas por meio de licitação, feita a cada cinco anos.

Insuficiência

Estima-se que, além dos 60 mil da Comlurb, haja outros 10 mil contêineres adquiridos por condomínios, com o incentivo da companhia municipal. Segundo Almeida, a Comlurb acaba de adquirir mais 40 mil contêineres, que custaram cerca de R$ 7 milhões e serão distribuídos nos próximos dois meses. Em julho, haverá licitação para a compra de outros 25 mil. Cerca de 10% dessas compras destinam-se à reposição de contêineres danificados. O vandalismo — incluindo depredação, furtos e incêndios — é responsável pela perda anual de 5% do total de contêineres.

"Mesmo com esses custos, o ganho financeiro proporcionado pela coleta mecanizada é considerável. Não podemos simplesmente somar o preço dos caminhões e dos contêineres, porque ficaria, de fato, um pouco mais caro do que antes. Deve-se considerar que, entre outras vantagens, a coleta mecanizada permite que, aos poucos, eliminemos a proliferação de doenças e evitemos que garis se aposentem precocemente por contaminação e acidentes de trabalho."

Para distribuir os contêineres, explica Almeida, a conta se faz mais ou menos assim: se um condomínio requer dez contêineres, de acordo com a quantidade de apartamentos, a Comlurb entrega seis e exige que os condôminos adquiram o restante. Um contêiner, cuja tecnologia é importada, custa entre R$ 150 e R$ 180 e tem vida útil de quatro anos.

Mas, para que a coleta funcione efetivamente, são necessários muito mais contêineres do que os 60 mil de hoje. O razoável, segundo Almeida, seriam entre 600 mil e 700 mil. "A Comlurb admite que o município não tem nem 10% do necessário. Por isso, desenvolvemos programa de incentivo à compra de contêineres pelos condomínios. Na verdade, é para eles um gasto bastante modesto se levarmos em conta o benefício que trazem e o tempo que duram."

De fato, pode-se constatar que a imensa maioria dos prédios — seja em bairros de camadas sociais mais altas, seja em comunidades mais modestos — não possui o número necessário de contêineres para acomodar o seu lixo. Nas calçadas, ao lado deles, é comum amontoarem-se dezenas de sacos plásticos que não couberam nos recipientes. Moradores e porteiros reclamam que os contêineres deveriam ser mais numerosos e maiores. Seja como for, o sistema de coleta mecanizada, ainda que alcançando toda a área urbanizada do município, responde por uma pequena parcela do lixo recolhido, simplesmente porque faltam contêineres.

A legislação que rege a coleta de lixo no Rio determina que os contêineres sejam colocados nas calçadas no máximo duas horas antes da coleta. Nos subúrbios, os sacos plásticos devem ser depositados nos contêineres com antecedência de uma hora. No Centro e nos bairros de grande densidade comercial, a coleta é feita após as 19h e pode se estender pela madrugada.

"O condomínio ou o cidadão é multado caso não obedeça os procedimentos de armazenagem e depósito de lixo previstos na lei 3.273 do município", esclarece o assistente técnico da Comlurb. A multa varia de R$ 50 a R$ 2.000. Mas, antes, procura-se conscientizar o usuário. "O gari é o primeiro vetor de conscientização e fiscalização. É ele quem tem contato direto com porteiros e síndicos. Quando há um problema, ele o traz à nossa gerência operacional, que busca resolvê-lo", explica Almeida. Além disso, há uma equipe de fiscalização que percorre a cidade diariamente.

Racionalidade

Pelo menos em algumas áreas, o trabalho dos garis melhorou com a coleta mecanizada, de acordo com Almeida. Eles não carregam mais os sacos de lixo nem levantam os tambores metálicos — aposentados pelos contêineres — para despejar o lixo no caminhão. Diminuíram-se o esforço físico e, com ele, os problemas de coluna, até então muito comuns entre esses funcionários. Os contêineres também evitam que o gari pegue os sacos de lixo com as mãos, causa freqüente de ferimentos por objetos cortantes ou pontiagudos. Os tambores enferrujavam com facilidade e o vazamento do chorume era rotina.

Mesmo com o serviço mecanizado coletando apenas uma fração dos descartes da cidade, o número de garis que trabalha diretamente na coleta diminuiu de 40% a 50%. "Era necessário ter entre 9 mil e 10 mil desses funcionários, devido, inclusive, ao alto grau de absenteísmo em razão das doenças. Hoje, são apenas 5 mil garis trabalhando em todo o Rio", explica o assessor. "Mas engana-se quem pensa que a automação do trabalho resultou em desemprego. Os outros 5 mil homens que trabalhavam na coleta agora prestam outros serviços, como varrição de logradouros", garante.

Uma das conseqüências da coleta mecanizada foi a possibilidade de estender o serviço a regiões da cidade até então desassistidas devido à falta de garis para a coleta manual, casos do Corcovado, da Floresta da Tijuca e até de alguns hospitais.

Numa cidade cercada por morros, grande parte deles ocupada por favelas e bairros precários sem vias largas e pavimentadas, a topografia e a falta de urbanização podem dificultar ou mesmo impedir o acesso dos caminhões — obstáculos que, segundo a Comlurb, foram superados com o sistema mecanizado. A solução foi instalar, nessas localidades, depósitos metálicos que são esvaziados com a ajuda de um microtrator equipado com lifter. O pequeno veículo sobe o morro, recolhe o contêiner e o leva até o caminhão coletor.

O importante é que o sistema vá sofrendo adaptações de acordo com as características de cada região da cidade até que toda a mancha urbana seja efetivamente servida. Nesse aspecto, ainda há muito o que fazer. Almeida admite, por exemplo, que na Zona Oeste, onde há poucos edifícios de apartamentos e as casas muitas vezes mantêm uma distância considerável umas das outras, os contêineres poderiam ser maiores e a coleta feita em um período mais espaçado de tempo. O fato é que, apesar dos problemas ainda pendentes, o sistema de coleta de lixo do Rio de Janeiro nunca mais retrocederá ao que chegou a ser até 1997, um modelo consumado de ineficiência e desperdício.



  Reportagem  
Ainda mais seguro
O Centro ganha mais segurança com um policiamento diferenciado, preventivo
Marcus Figueiredo
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)


O eixo dos processos de requalificação urbana passa, necessariamente, pela questão da segurança. Isso ocorre em várias metrópoles que recuperam as suas áreas centrais. No Centro de São Paulo não é diferente. O mapa da criminalidade no Centro e nos bairros centrais segue as características de uma região por onde circulam, todos os dias, uma média de 4,5 milhões de pessoas (mais de 2 milhões apenas no Centro propriamente dito) em uma área que não chega a 3% da área urbanizada da cidade (0,5% tratando-se apenas dos distritos Sé e República, que compõem o Centro). Dados das polícias Militar e Civil revelam que as ocorrências mais freqüentes são os furtos, os roubos e o estelionato, nessa ordem.

Segundo dados da PM, a região central (que inclui o Centro, a Avenida Paulista e outros bairros centrais) concentra 25,62% dos furtos e 15,67% dos roubos registrados na capital. Ocorrem na área 5,25% dos homicídios e 3,23% dos roubos de veículos do total do município.

Tanto o governo estadual como o municipal desenvolvem esquemas especiais para reverter as estatísticas. A Polícia Militar implementou em dezembro do ano passado uma experiência que tem dado certo na Avenida Paulista: os supedâneos, cabines móveis elevadas a cerca de um metro da calçada, em que o policial consegue exercer a vigilância de todo o entorno do equipamento.

No Centro, até o momento foram instaladas cinco cabines nos principais cruzamentos da Avenida Ipiranga, mas a idéia é expandi-las para toda a área central. Segundo o coronel PM Luiz Carlos da Costa, comandante da CPA-M/1, unidade responsável pelo policiamento da região central da cidade, o principal objetivo do sistema é o policiamento preventivo. "Prefiro que o crime não aconteça a ter que prender o criminoso", explica Costa. "Por isso, é importante que o policial veja e seja visto pela população."

A idéia é que gradualmente sejam instalados cerca de 170 supedâneos em toda a região central. "Nossa idéia é cercar toda a área de jurisdição da CPA-M/1", diz Costa. Ele explica que o projeto resulta de uma parceria com a iniciativa privada, que financiou os equipamentos, com a Polícia Militar fornecendo o efetivo.

As cabines funcionam das 8h às 20h30, horário de maior concentração de pessoas na região da Avenida Ipiranga. Para que o sistema dê certo, Costa lembrou que foi desenvolvido um esquema de comunicação por rádio com o comando do policiamento e entre as próprias cabines. "A cabine não pode ficar isolada e exige, no mínimo, dois policiais no local", diz Costa.

Além disso, os milicianos que trabalham nos supedâneos estão recebendo um treinamento especial de policiamento comunitário. Muitos deles fazem cursos de idiomas oferecidos pela iniciativa privada. "Uma das metas é atender os estrangeiros que recorrem aos supedâneos", afirma o coronel.

Desde que eles foram instalados na Avenida Paulista, em setembro do ano passado, a ação de ladrões e estelionatários diminuiu em cerca de 70%, segundo a PM. Na Avenida Ipiranga não foi diferente. No primeiro mês, pelos dados oficiais, o índice de criminalidade na área das cabines caiu em mais de 80%.

Outro dado comprovado é que o tipo de crime se modifica ao longo da avenida. No cruzamento da Ipiranga com a São João, por exemplo, os maiores problemas são hoje o furto e o estelionato. No quarteirão da Rua Barão de Itapetininga lindeiro à Ipiranga são o tráfico de drogas e, próximo à Rua 7 de Abril, a ação dos trombadinhas.

Reforma

Uma das grandes vitórias, entretanto, é a desativação gradual da carceragem dos distritos, verdadeiros barris de pólvora e palco de constantes rebeliões. No Centro, as carceragens dos dois distritos policiais já estão desativadas. Em fevereiro, foram removidos 215 presos do 3ş DP (Santa Ifigênia), cuja carceragem era dimensionada para não mais que 25 detentos. Segundo Jordão, a transferência dos presos das delegacias dos outros bairros será gradativa. "A meta do governo é que, até 2004, todas as delegacias da capital não abriguem mais presos", explica. Na região central ainda há carceragens "pesadas" no 4ş Distrito (Consolação), 5ş (Aclimação) e 12ş (Pari).

Quem esteve nos distritos policiais da área central nos últimos meses já percebeu a diferença. Todas as delegacias foram ou estão sendo reformadas com o apoio da comunidade. Várias delas, como o 12ş Distrito Policial (Pari), ganharam uma sala especial para as vítimas. No Centro, o prédio do 3.ş DP está em adequadas condições e o do 1.ş DP recebe melhoramentos pontuais até que seja restaurado, pois é protegido pelo patrimônio histórico. Os efeitos já se notam. "É bom para a população e para o policial, que se sente mais motivado em seu trabalho", diz o delegado seccional do Centro, Mário Jordão Toledo Leme.

Aos supedâneos e às delegacias reformadas e sem carceragem soma-se um importante reforço ao policiamento do Centro, a Base Comunitária Móvel que a Polícia Militar instalou no Vale do Anhangabaú, inicialmente em caráter experimental. Ela faz o primeiro atendimento a vítimas de pequenos roubos e outras ocorrências mais comuns na região, encaminhando-as aos DPs da área e acionando viaturas sempre que for o caso. Segundo o comando da corporação, a Base Comunitária Móvel do Anhangabaú vai permanecer indefinidamente no local e, de acordo com a avaliação de seu desempenho, servirá de modelo para outras em vários pontos da cidade.

Segundo o delegado Jordão, o mapa da criminalidade segue em paralelo com os problemas da área. "Ainda há uma desagregação urbanística no Centro de São Paulo", diz. Ele cita, como exemplo, a enorme concentração de camelôs nas principais ruas e avenidas. "Nos lugares onde se instalam os camelôs, os índices de criminalidade, principalmente de roubos e furtos, são bem mais altos." Isso se explica pela confusão decorrente dessa concentração de comércio irregular, o que dificulta o policiamento e facilita a ação dos criminosos. Os pontos críticos de furtos são as ruas de intenso comércio repletas de camelôs, como a 25 de Março e a José Paulino, e vias adjacentes às praças da Sé e República.

Outras carências urbanas, como a iluminação insuficiente, também ajudam as estatísticas negativas. "É a velha teoria: um lugar sujo, escuro e pichado atrai o bandido e afasta gente correta", acredita Jordão.

Mas é inegável que as autoridades da segurança pública vêm fazendo um bom trabalho na região central. Por exemplo: há três anos funciona, na sede da 1.Ş Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), na Rua Bittencourt Rodrigues, 200, o Centro de Atendimento Psicossocial e Jurídico das Delegacias de Defesa da Mulher, cujas instalações foram reformadas e modernizadas este ano. Trata-se de uma experiência piloto que atende às nove DDMs da Capital e que, em futuro próximo, se multiplicará em todo o Estado (ver seção Destaques).

Centro Seguro

A Distrital Centro da Associação Comercial de São Paulo, o Conseg Centro e a Associação VIVA O CENTRO, da parte da sociedade civil, e o comando do CPA-M/1, o delegado titular da Delegacia Seccional Centro e um representante do secretário de Segurança Pública compõem a Comissão de Acompanhamento do Programa Centro Seguro, criado em 1992 por decreto estadual e reestruturado oito anos depois pelo governador Geraldo Alckmin. Durante esse tempo a Comissão consolidou uma relevante base de entendimento entre a sociedade civil e a polícia para melhorar a segurança no Centro. Mais recentemente, com as mudanças na Secretaria de Segurança Pública, a comissão deixou de se reunir. No entanto, a Associação vai insistir em sua reativação por considerá-la de grande importância no almejado entrosamento da sociedade com o governo para que o Centro tenha um sistema específico de segurança, próprio de uma centralidade metropolitana.

Criada no ano passado, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana também quer ampliar as ações de segurança preventiva no Centro. Para isso, está sendo desenvolvido um programa Centro Seguro municipal, que será colocado em prática a partir deste mês de julho. A idéia é ampliar de 300 para cerca de 700 o número de guardas civis que atuam na região.

Eles estarão divididos em oito Bases Comunitárias de Segurança espalhadas pela região central. A maioria ficará concentrada nos distritos Sé e República. Serão construídas bases fixas em locais como oa Vale do Anhangabaú, Largo do Arouche, Praça da Sé e Praça Roosevelt. Uma já existe na Praça da República. Elas serão equipadas com computadores, banheiro e sala de espera.

"Queremos dar nossa cota de participação na segurança civil e comunitária", diz o secretário municipal de Segurança Urbana, Benedito Mariano. Segundo ele, a escolha dos locais de instalação das bases, que funcionarão 24 horas, contou com a colaboração das Ações Locais, entidades vinculadas à Associação VIVA O CENTRO e que também vão auxiliar no monitoramento das ações previstas no programa.

O projeto está orçado em R$ 4 milhões, financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). "Os recursos foram antecipados pela prefeita Marta Suplicy, que pretende dar uma atenção especial à segurança", diz Mariano. Eles serão aplicados principalmente na compra de equipamentos como carros novos, bicicletas, rádios de comunicação e motos para a Guarda Civil.

Segundo Mariano, o tipo de segurança vai variar de acordo com a área da base, que contará com cerca de 20 guardas, em média, para o policiamento de todo o entorno. No Centro histórico e financeiro, por exemplo, será dada prioridade ao policiamento a pé. "Nessa região a Subprefeitura da Sé definirá os locais onde não poderá haver nenhum tipo de comércio informal", assegura o secretário.


  Reportagem  
REGÊNCIA COM TOQUE FEMININO

No Teatro Municipal e na Sala São Paulo, duas maestrinas conduzem os mais importantes coros da cidade
Ana francisca ponzio


Embora ainda seja um reduto masculino, o território da regência tem expressiva representação feminina em São Paulo. Nos dois principais grupos corais da cidade – o Coral Paulistano e o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Osesp – as maestrinas Mara Campos e Naomi Munakata preferem deixar de lado as disputas sexistas para investir em conquistas que elas consideram mais relevantes. "O importante é mostrar que o coral não é mero coadjuvante, mas um grupamento musical tão importante quanto a orquestra", diz a nipo-brasileira Naomi.

"Tomemos como exemplo a Nona Sinfonia, de Beethoven", salienta Naomi. "É a parte coral que marca essa obra, o mesmo ocorrendo nas missas do repertório clássico". Na Sala São Paulo, onde está sediado o Coro da Orquestra Sinfônica do Estado, Naomi valoriza o status de seu elenco com a mesma intensidade de Mara Campos, que conduz o Coral Paulistano em endereço próximo, no Teatro Municipal.

"Por coincidência, dois dos coros estáveis de São Paulo hoje são dirigidos por mulheres", comenta Mara. Na trajetória de quase sete décadas do Coral Paulistano, Mara é a primeira a ocupar o cargo de regente deste elenco que já atuou sob a batuta de nomes como Camargo Guarnieri, Fructuoso Vianna, Tullio Colacioppo, Samuel Kerr e Abel Rocha, que a antecedeu. Já a carreira bem mais recente do Coro da Osesp teve em Naomi a sucessora de seu primeiro regente, José Ferraz, que inaugurou o coro em abril de 1994. Idealizado por outro maestro, Aílton Escobar, o grupo de cantores que agora ocupa a Sala São Paulo surgiu na Universidade Livre de Música com o nome de Coral Sinfônico do Estado.

Antes de reger os mais importantes corais da cidade, Mara e Naomi estiveram à frente de vários coros amadores –, o que causa orgulho a ambas. "A palavra amador significa aquele que ama e é desses grupamentos feitos de pessoas cujo único objetivo é se reunir para cantar, que costumam surgir excelentes músicos e compositores", diz Mara, lembrando que a presença de maestrinas é comum entre os corais amadores.

Nascida em São Paulo há 42 anos, Mara viveu boa parte da infância em Santos, onde iniciou seus estudos musicais no Conservatório Lavignac. "Eu devia ter uns oito anos de idade e tive a sorte de conviver com o maestro Klaus Dieter Wolff. Na época ele dirigia o Madrigal Ars Viva e estimulava entre os alunos o gosto pelas novas tendências da música contemporânea".

A favor da educação musical de Mara, contou pontos a iniciativa de seu pai, que desde cedo estimulou os quatro filhos a aprender música. Em 1975, quando a família Campos se mudou para São Paulo, Mara já havia incorporado a música ao seu cotidiano. "Fui em busca dos festivais e o de Campos do Jordão representou um grande estímulo". Outra alavanca, ela conta, foi o Coralusp, onde além de cantar chegou a dividir a regência com o maestro Benito Juarez.

Maestrina de alguns dos principais coros da cidade, Mara esteve à frente, entre vários outros, do Coral da Aliança Francesa, do Som a Pino, do Madrigal Cantarte, dos corais Pirelli e do Portal. Mesmo o Coral Paulistano, bem antes de tê-la como titular permanente, foi regido por Mara nas muitas ocasiões em que ela trabalhou com o grupo como maestrina convidada.

Como Mara, Naomi também canta desde criança. Nascida na cidade japonesa de Hiroshima, ela vive no Brasil desde os dois anos de idade. Hoje, aos 47, exibe no currículo conquistas como a reestruturação do antigo Coral Sinfônico do Estado de São Paulo que, em 2000, a convite do maestro John Neschling, foi incorporado à Orquestra Sinfônica do Estado.

Em 2001, já associado à Osesp, o grupo vocal dirigido por Naomi ressurgiu com uma segunda formação, o Coro de Câmara, que no momento vem se apresentando com freqüência no Theatro São Pedro. Para os integrantes dos dois coros, o vínculo à Osesp lhes trouxe nova categorização profissional. Em vez de cantores, hoje eles são identificados como músicos, o que representa mais uma conquista, segundo Naomi. "Aqui todos lêem partituras. Por causa de seu elevado nível técnico, o Coral da Osesp enfrenta sem problemas o ritmo veloz da orquestra, que nos desafia a ensaiar programas novos a cada duas semanas".

Diante dos 54 músicos-cantores do Coral da Osesp, entre eles incluído o grupamento de câmara, Naomi se considera uma intérprete. "O instrumento do regente são as vozes." Quando começou a reorganizar o antigo Coral Sinfônico, ela teve de harmonizar sotaques e técnicas vocais de cantores vindos de diversas regiões do Brasil. Passada a prova de fogo – a interpretação da complexa Missa em Si Menor, de Bach, que marcou o programa de estréia do novo Coral – Naomi ganhou segurança quanto ao desempenho de seu grupo, que atende tanto à programação determinada por Neschling na Sala São Paulo quanto concertos independentes.

Qualidade

Hoje, com o padrão de qualidade confirmado, o Coro da Osesp proporciona ao público programas sofisticados, como o Hino para Santa Cecília, de Benjamin Britten, que foi apresentado em novembro do ano passado. "Saudando a padroeira da música, que ‘cantava a Deus em seu coração’, vamos enaltecemos as conquistas que alcançamos até agora", afirma Naomi.

Com exigência e invenção, também Mara Campos brinda o público com espetáculos como o Coro dos Contrários, que em outubro lembrou a antropofagia da Semana de 22. Na ocasião, os 44 cantores do Coral Paulistano trocaram o palco pela platéia para, junto com os espectadores, entabular um percurso musical que culminou nos subterrâneos do Teatro Municipal. O repertório prestou tributo a uma produção cultural que incluiu a obra inovadora do compositor Gilberto Mendes, a poesia concreta, a Tropicália (com a interpretação de Panis Circensis, de Caetano Veloso e Gilberto Gil), além de clássicos da modernidade como as composições de Heitor Villa-Lobos.

Com Coro dos Contrários, Mara mostrou que no Coral Paulistano continuam florescendo as idéias de Mário de Andrade, que criou o grupamento vocal em 1936, quando era diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. Na época, colocando-se na contracorrente da elite paulistana, que cultivava quase exclusivamente a música francesa e a ópera italiana, o autor de Macunaíma se dispôs a levar a música brasileira para o Teatro Municipal. Rompendo tabus, Mário conseguiu romper resistências contra o "canto brasileiro". Hoje, passados 66 anos, o Coral Paulistano simboliza um marco da história da música em São Paulo e também do movimento modernista.


  Reportagem  
O Despertar da Vila Buarque

Saem as casas noturnas, chegam as escolas, hotéis e instituições — é o novo perfil da antiga Boca do Luxo
Federico Mengozzi
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)




Vila Buarque. O nome sugere um bairro, mas é Centro. Mais acertado seria denominá-la bairro central, como Santa Ifigênia e parte da Bela Vista e da Liberdade. Já foi reduto de vida noturna e prostituição de luxo — daí o apelido, hoje em desuso, de Boca do Luxo, contrapondo-se à Boca do Lixo sediada em Santa Ifigênia. O que é a Vila nos dias atuais? Um bairro central predominantemente residencial, de pequena classe média, com comércio local, alguns cabarés e bares remanescentes, instituições importantes como a seção paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais. Mas há uma outra, e surpreendente, Vila Buarque em gestação. Novos empreendimentos, como um hotel da rede internacional Accor, ainda não tiveram maior impacto sobre a velha paisagem — ele nem foi oficialmente inaugurado —, mas já despertam um impulso de mudança na comunidade local. Como seria essa nova Vila Buarque?

"As empenas dos edifícios seriam pintadas pelos artistas gráficos de São Paulo, como Laerte, Glauco, Angeli, Elifas Andreato, Maringoni, a partir de temas do principal Buarque, o Chico. As ruas seriam bem iluminadas e muitas bloqueadas nos fins-de-semana para as crianças brincarem. A estação República do metrô teria uma banca para vender ingressos para os teatros do bairro e bônus para um cafezinho no Floresta ou no coffee shop do Hotel Eldorado. O Espaço Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas, seria um videoclube às tardes e o restaurante do Instituto dos Arquitetos do Brasil voltaria a funcionar com noitadas do Clube do Choro. As boates, centros de tráfico e malandragem, deveriam ser fechadas em nome da Lei do Silêncio. E mais: recuperar o Edifício Copan conforme o projeto de Oscar Niemeyer, restaurar os afrescos da Igreja da Consolação, que teria concertos sacros diariamente, plantar árvores e fazer um calçadão unindo o antigo restaurante Redondo ao Teatro de Arena..."

Nada garante que a Vila se transforme no bairro dos sonhos de Sérgio Gomes, mas as idéias fluem rápidas para o jornalista, professor da ECA-USP e diretor da Oboré, editora especializada em comunicação sindical, há oito anos instalado no bairro, quando lhe perguntam sobre o futuro da Vila Buarque. Gomes integra um grupo de moradores, empresários e dirigentes de instituições mobilizados para que a Vila Buarque desmereça cada vez mais a alcunha que a estigmatizou. O bairro quer ser um bom lugar para se viver em pleno Centro — é parte do distrito República. Para tanto, o grupo incorporou o espírito de requalificação urbana deflagrado há mais de uma década pela Associação VIVA O CENTRO. Na área da iniciativa privada muito já foi feito. "Mas pouco se fez pelos moradores. A ação da Prefeitura é limitada. Não há ruas de lazer, a iluminação continua péssima, muitas lojas fecharam e viraram estacionamentos", diz Sérgio Gomes.

Entre as novidades positivas ele menciona a ida para o bairro da sede da Secretaria Municipal da Saúde, a construção do Hotel Mercure Downtown, as novas instalações do Instituto Polis, a Escola da Cidade — faculdade de arquitetura e urbanismo que funciona em dois edifícios de apartamentos reciclados —, a retomada da feira de arte na vizinha Praça da República, a instituição do Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura e a ocupação de um edifício do bairro pela Ação Educativa, entre outras iniciativas. Aos poucos a imagem do antigo bairro boêmio, em processo de deterioração acelerada, vai ficando para trás. Mas, para mirar o futuro, é preciso começar a olhar para si e ver, afinal, o que é que a Vila tem de bom.

Tem muito, como deixa claro o Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura, que inclui as principais instituições locais, como a Ação Educativa, a Aliança Francesa (ver o box), a Biblioteca Monteiro Lobato, o Centro Cultural da Santa Casa, o Centro Histórico da Universidade Mackenzie, o Centro Universitário Maria Antonia, a Escola da Cidade, a Escola de Sociologia e Política, o Instituto dos Arquitetos do Brasil e o Sindicato dos Jornalistas. O objetivo é divulgar os serviços culturais e educativos do bairro e, espantando a ainda arraigada imagem de bas fond, contribuir para mudar o seu perfil, atraindo novos empreendimentos. A recente abertura parcial do hotel Mercure Downtown, na Rua Araújo, um quatro estrelas da rede internacional Accor, com 260 apartamentos, é um passo importante nesse sentido Trata-se do primeiro hotel de porte erguido no Centro em mais de 20 anos e apresentará a região a um público qualificado. O empreendimento junta-se a outras novidades do ramo hoteleiro no Centro, como a reforma do tradicional Hotel Jaraguá, agora com a marca Holiday Inn, e a construção do hotel Formule 1, também da Accor, na Avenida São João.

A Boca do Luxo teve memorialistas ilustres como o romancista Marcos Rey, que descreve alguns de seus aspectos em livros como A Arca dos Marechais, cujo protagonista é um passador de notas falsas, que gasta esse dinheiro fácil em noitadas pelas casas da Rua Major Sertório, a mais conhecida do bairro. Mas o suspeito glamour, que se manifestava em casas como a célebre La Licorne, com elegantes mulheres de vestidos longos, ficou para trás. Havia a gafieira Som de Cristal, com suas noites dançantes, hoje transformada em boate GLS, a Danger. E o inesquecível restaurante Parreirinha. "A Vila Buarque já foi pior", diz Maria Antonia Pavan de Santa Cruz, da Livraria Duas Cidades, que há décadas convive com os problemas do bairro. Segundo ela, nos anos 80 parecia que o bairro ficaria inviável. Não ficou. Mas, mesmo reconhecendo a melhora, ela acha que a reversão do processo de deterioração ainda demora e que o poder público é omisso.

Mobilização

A comunidade faz o que pode. De 1999 a 2002, semanalmente, em reuniões que ostentavam o nome sugestivo de "A Arte do Convívio", moradores e lojistas da Vila Buarque se encontravam na Duas Cidades para sugerir ações em favor do bairro. Abordavam-se problemas como arborização – a partir de então, muitas árvores, como jacarandás e resedás, foram plantadas -, pavimentação, coleta e reciclagem de lixo, iluminação pública e poluição visual, sem esquecer os moradores de rua, travestis, viciados em drogas etc. Porém, lembra Maria Antonia, já na administração Marta Suplicy, acreditando-se que o Plano Diretor desenvolvido pela Secretaria Municipal do Planejamento (Sempla) resolveria os problemas da região, as reuniões acabaram. Para ela, novos equipamentos que ajudem a requalificar o bairro são importantes, mas é vital um "trabalho com os jovens, nas escolas, junto com os professores e pais, para incutir noções de cidadania e respeito".

Nessa direção atuam a Ação Educativa e a Escola da Cidade. A primeira, uma ONG presente em todo o Brasil, trabalha com educação de jovens e adultos moradores de cortiços em regiões centrais, explicando-lhes, por exemplo, o que significa qualidade de vida. Já a faculdade, fundada há dois anos por um grupo de 81 profissionais e acadêmicos, entre arquitetos, urbanistas, sociólogos, historiadores etc., quer transformar, por meio de projetos de intervenção urbana com forte viés social, não só o bairro mas também aglomerações periféricas como Capão Redondo, Jardim Ângela e Sapopemba, diz seu diretor, o arquiteto Ciro Pirondi. Para tanto, começou por reformar os edifícios residenciais que ocupa na Rua General Jardim e o entorno imediato, restaurando um bom trecho da calçada. Pirondi tem escritório no prédio do IAB, quase em frente à escola, e mora no edifício Copan. Uma vivência rara de Vila Buarque, região que, para ele, possui um incrível potencial, com suas escolas, lojas, moradias e restaurantes, e que sem dúvida está mudando para melhor. Contando com a vizinhança imediata, a Vila tem quatro instituições de ensino superior (dentre as quais uma grande universidade, a Mackenzie), uma dezena de teatros, mais de 30 restaurantes de vários níveis e cerca de 40 entidades de classe.

"O lado bas fond do bairro diminuiu, pulverizou-se", diz Pirondi. "E uma série de iniciativas, como a Aliança Francesa, que optou por restaurar o seu prédio em vez de se mudar, estimula o conjunto. No mundo inteiro, de Barcelona a Paris, as áreas centrais se renovam. Temos é que evitar erros, como foi tirar a função escolar do edifício Caetano de Campos." Para o arquiteto, cada esquina tem seu valor na comunidade. "Não existe urbanização sem urbanidade", diz, enfatizando que a localização da Escola da Cidade, entre a degradação do espaço urbano e grandes construções históricas, é fundamental para "pensar, intervir e experimentar concretamente na conturbada paisagem paulistana". Para ele, é preciso dar tempo para a renovação. "Cinqüenta anos na vida de uma cidade é pouco." A exemplo da Escola da Cidade, o Instituto Polis, voltado para a pesquisa e o desenvolvimento de políticas públicas para a melhoria da cidade, incluindo programas de treinamento de líderes comunitários, também recuperou um prédio abandonado para, vindo do Itaim-Bibi, nele manter a sua nova sede. É o bairro reagindo.

"A Vila Buarque foi uma região muito depreciada, mas, apesar da falta de medidas mais efetivas por parte do poder público, aos poucos se transforma." A opinião é do jornalista Fred Ghedini, presidente do Sindicato dos Jornalistas, há décadas sediado na Rua Rego Freitas. Para agregar ainda mais as pessoas que atuam na área é que o sindicato, com as demais instituições, luta pela criação de uma rádio comunitária, iniciativa que depende da aprovação, pela Câmara Municipal, do projeto sobre exploração do Serviço de Radiodifusão Comunitária apresentado pelos vereadores Carlos Neder e Ricardo Montoro. A exemplo de outras rádios comunitárias, que colocam a voz da região no ar, a emissora da Vila motivaria os moradores a se envolver mais com as causas locais.

Através da Oboré, Sérgio Gomes lançou há quase dez anos a idéia do Vivavila, projeto de recuperação urbana e cultural do bairro, e ajudou a propor a rádio comunitária. Se esta já estivesse funcionando, Sérgio diria aos ouvintes que ainda não existe uma nova Vila Buarque. Reclamaria do persistente abandono da Praça Roosevelt e colocaria no ar idéias para o bairro de seus sonhos. Que, diga-se, está cada vez mais próximo da realidade.

ADEUS, BOCA DO LIXO E CRACOLÂNDIA


Cada vez mais, quando se fala no bairro de Santa Ifigênia, as pessoas se referem ao ativo centro comercial de materiais eletroeletrônicos e de informática. Com o tempo, vão se esquecer de que a região já foi conhecida como Boca do Lixo e, mais recentemente, Cracolândia. Aos poucos a região, que abriga alguns dos equipamentos culturais mais importantes da cidade, como a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo, começa a mudar. Mas não se altera a história com um passe de mágica. Conta-se que, no início do século passado, uma certa Madame Pommery mantinha mulheres européias – francesas, "polacas", russas – em seu "Palácio das Luxúrias", em plena Avenida São João. Com a Estação da Luz e, posteriormente, a inauguração da estação Sorocabana, fixando a área como ponto de entrada e saída de São Paulo, a prostituição passou a ocupar a região, até ser confinada, nos anos 40, pelo interventor estadual Adhemar de Barros, em casas das ruas Aimorés e Itabocas, esta a mais famosa delas, hoje denominada Professor Cesare Lombroso, entre a Rua José Paulino e o leito ferroviário, no Bom Retiro.

Havia controle das condições de saúde das prostitutas, que também contavam com alguma proteção do Estado. Na década de 50, o governador Lucas Nogueira Garcez acabou com a zona de meretrício e a prostituição espalhou-se pelas proximidades da Estação da Luz, que passou a ser conhecida como Boca do Lixo. A decadência do bairro dos Campos Elíseos e a inauguração da estação rodoviária, nos anos 60, reforçou o papel de bas fond da região, que logo passou a abrigar salas que exibiam filmes eróticos, além de produtoras e distribuidoras de cinema. Nos anos 80, a vida noturna do bairro começou a mudar e, à medida que chegava o crack, as prostitutas se afastavam, até que ambos, como acontece atualmente, reduziram sua área de ação. A ex-Boca do Lixo ainda não é um paraíso, mas iniciativas como os equipamentos culturais (Sala São Paulo, Pinacoteca, Museu do Imaginário no prédio do extinto Dops, Universidade Livre de Música etc.),a recuperação de alguns prédios tombados e do Jardim da Luz, o restauro e a modernização da Estação da Luz, o programa Monumenta, que requalificará uma vasta área próxima, e o próprio dinamismo do centro comercial de informática na Rua Santa Ifigênia e transversais, prometem a médio prazo mudanças expressivas no perfil local.


  Destaque  
Correio: avançam obras da primeira fase

O público ainda não tem acesso ao interior do prédio da agência central dos Correios, no Vale do Anhangabaú, em plena reforma. Mas urbs pôde examinar, com os responsáveis pelas obras, o andamento da reforma e as projeções digitais e a maquete, providenciados pelo Correio segundo projeto do escritório Una Arquitetos, vencedor de concurso nacional para o futuro Centro Cultural dos Correios. O vão central já recebeu reforços estruturais e está sendo desobstruído para deixar entrar a luz solar – conceito presente no projeto original do escritório Ramos de Azevedo – através de imensa cobertura de vidro com brises de alumínio, no alto do prédio. Escadas rolantes serão instaladas e uma série de outros confortos modernizantes devem tornar o espaço mais amplo, generosamente iluminado e, sobretudo, muito funcional.

As obras no Anhangabaú foram divididas em duas etapas. A primeira, em curso, realizada pela Construtora Triunfo com acompanhamento da arquiteta dos Correios, Maria Aparecida de Carvalho Segre, está orçada em cerca de R$ 12 milhões e tem previsão de término para o final deste ano. Abrange a execução integral do previsto no projeto para o subsolo, térreo e mezanino, onde, além do espaço para o retorno da Agência Central dos Correios de São Paulo (temporariamente deslocada para a Rua Líbero Badaró) e da Assessoria Filatélica, será adaptado um outro para abrigar o Museu Postal e uma loja com produtos da grife Correios. Completam essa fase as obras de um futuro restaurante, no mezzanino, e uma área livre para exposições.

Para a segunda fase – o Centro Cultural Sergio Motta, cuja placa de implantação foi descerrada em novembro pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso –, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos busca parcerias tanto com o governo quanto com a iniciativa privada para levantar os R$ 30 milhões necessários. O centro cultural, com cinemas, teatro e áreas para exposições de arte, biblioteca, livraria e outro restaurante, demanda a construção de um anexo, cujas obras, no entanto, podem ser executadas independentemente da devo9lução do edifício histórico à cidade. Dessa fase também consta, no terceiro andar do prédio histórico, a instalação de um centro de convenções.


Praça da Sé ganha novas luzes


A Praça da Sé, um dos logradouros mais emblemáticos do Centro, volta a brilhar na cidade. Além de ter a majestade da Catedral já recobrada pelo restauro, recebeu uma nova iluminação este ano. Foram trocados 417 globos ornamentais (do tipo São Paulo Antigo) e nas demais 162 unidades de iluminação da praça, das quais 136 também ornamentais, foram substituídas 460 lâmpadas de vapor de mercúrio por unidades de vapor de sódio, num investimento de R$ 100 mil. Com a troca, realizada pelo Departamento de Iluminação Pública (Ilume) da Secretaria de Infra-Estrutura Urbana, a Sé ficou 50% mais clara e a economia anual no consumo de energia elétrica alcançará os 30%. O Ilume vai estender essa melhoria a outras praças e também a fachadas de edifícios históricos do Centro, dentro do Programa de Reabilitação do Centro, um projeto de renovação de toda a iluminação da área, orçado em R$ 11 milhões. O projeto consta do rol a ser financiado pelo empréstimo com acerto final com o BID, mas a Prefeitura deve adiantar recursos que servirão como contrapartida.

Estátuas na D. José Gaspar pedem restauro


A Associação VIVA O CENTRO vem, há tempo, alertando as autoridades municipais para o estado de abandono em que se encontram algumas das estátuas de escritores no entorno da Biblioteca Mário de Andrade, na Praça D. José Gaspar. E recentemente tocou a mesma tecla a União Brasileira de Escritores (UBE). Em ofício recente ao secretário municipal da Cultura, Celso Frateschi, e ao subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas, a entidade manifesta sua preocupação com o destino das esculturas e pede providências. "O entorno da Biblioteca Mário de Andrade tem grande valor simbólico, pois faz parte da memória cultural de São Paulo", diz o documento. Até o fechamento desta urbs, a situação dos monumentos não havia se alterado e a UBE não recebera resposta ao ofício.


Mercure Downtown aberto ao público


Primeiro hotel de grande porte a ser construído no Centro nos últimos 20 anos, o Mercure Hotel São Paulo Downtown já deu início às operações em regime de soft opening (funcionamento parcial, em caráter de experiência). No mês de julho, as diárias são promocionais – apenas R$ 89 por apartamento duplo ou single – e o hóspede que permanecer por dois dias ganha uma diária extra. Pertencente à rede mundial Accor, o estabelecimento – caracterizado pela avançada tecnologia que emprega – possui 260 apartamentos com ar condicionado central, TV a cabo, três linhas telefônicas, acesso à internet, frigobar, bancada de trabalho, cofre individual e janela anti-ruído. O edifício de 13 andares, projetado pelo arquiteto Roberto Candusso (responsável também pelos interiores) e construído pela Setin, conta com área de eventos com cinco salas de reuniões para 20 a 160 pessoas, restaurante, bar, fitness center, piscina e business center. A parede frontar de uma antiga estação de bondes, tombada pelo patrimônio histórico, foi restaurada e incorporada à fachada.

O hotel localiza-se na Rua Araújo, 141, próximo à Praça da República e a pouco mais de cem metros da Estação República do Metrô.

Mais dignidade no atendimento à mulher


A população feminina conta desde o final de maio com instalações renovadas na primeira unidade, em São Paulo, do Centro de Atendimento Psicossocial e Jurídico, criado há três anos para dar suporte às nove Delegacias da Defesa da Mulher existentes na capital. A unidade fica a menos de 300 metros da Praça da Sé, na sede da 1Ş Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) – única na cidade a funcionar em regime de plantão 24h –, à Rua Bittencourt Rodrigues, 200. A reforma das instalações – antes precaríssimas frente à importância do trabalho ali desenvolvido – resulta do empenho da titular da 1Ş DDM, delegada Maria Teresa Gonçalves Rosa, e de toda a sua equipe, com a parceria da Faculdade Paulistana de Ciências e Letras, de onde a aluna de psicologia Magali Zanetti e o marido se ofereceram como voluntários para a montagem de uma acolhedora brinquedoteca para receber crianças e adolescentes e de salas para o atendimento psicológico e jurídico a mulheres vítimas de violência doméstica. "Com a reforma, o Centro de Atendimento ganhou dignidade", diz a delegada Maria Teresa. "O plano é torná-lo piloto de outros centros a serem implantados nas demais DDMs da capital, como planejam a coordenadora das Delegacias da Mulher, Márcia Buccilli Salgado, e o delegado Mário Jordão Toledo Leme, titular da 1Ş Delegacia Seccional de Polícia de São Paulo, à qual também estamos subordinados."


  Entrevista  
O Advogado do centro
J. M. Pinheiro Neto


É , sem qualquer dúvida, o maior e um dos mais completos e eficientes escritórios de advocacia do Brasil e da América Latina. Fundado há 60 anos no Centro de São Paulo, onde solidamente permanece, o escritório Pinheiro Neto Advogados é, ao lado dos tribunais e da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma das "âncoras" do Centro como coração jurídico da metrópole. Inovador em muitos aspectos do exercício da advocacia — o respeito ao cliente associado à independência e ao absoluto respeito à Lei e à ética, a profissionalização do advogado por meio de um primoroso plano de carreira, a remuneração pelo trabalho exercido e não pelo resultado obtido, o pioneirismo na advocacia internacional em São Paulo e na informatização etc. — e especializado em todas as áreas do Direito num grau de excelência por todos reconhecido, o escritório notabiliza-se também por seu engajamento no esforço pela recuperação do Centro de São Paulo, tendo ajudado a fundar, em 1991, com um grupo de executivos e profissionais, a Associação VIVA O CENTRO, à qual continua prestando completa assessoria jurídica sem ônus para a entidade. Hoje trabalham no Pinheiro Neto 320 advogados (dos quais 57 sócios, 263 associados e 180 estagiários, num total de 1.102 pessoas ocupando nove pavimentos de um edifício da Rua Boa Vista, no Centro jurídico e financeiro de São Paulo. Aos 85 anos, o advogado José Martins Pinheiro Neto, fundador e titular do escritório, Cavaleiro do Império Britânico (KBE) e ex-locutor da BBC no início da Segunda Guerra Mundial, já não vai diariamente ao Centro mas continua trabalhando em sua casa com uma equipe executiva. Foi nela que recebeu Jule Barreto e Ana Maria Ciccacio, de urbs, para uma entrevista.

urbs – O escritório Pinheiro Neto Advogados fez 60 anos em 2002. Mas a tradição jurídica da família vem de muito antes. Quais são os antecedentes do Escritório?

Pinheiro Neto – São 60 anos sob minha direção. O escritório, na verdade, existe há muito mais tempo. Meu avô, que foi advogado e professor, instalou seu escritório no Edifício Palmares, na esquina das ruas Boa Vista e Três de Dezembro e ali permaneceu muitos anos. Meu pai, quando deixou o escritório de meu avô, instalou o seu no Largo da Misericórdia. Nele comecei minha carreira de advogado.

Nessa ocasião o sr. já era formado ou ainda estudava?

Era estagiário, ainda estudava.

Na faculdade de Direito do Largo de São Francisco...

Exato. Eu me formei em 1938. Assumi o escritório em 1942, depois que meu pai se aposentou e se mudou para o Rio.

Antes disso, logo após se formar, o sr. esteve uma temporada em Londres. O que fez lá?

Fui contratado pela BBC para apresentar a programação que a emissora transmitia especialmente para o Brasil. Era um programa de uma hora — metade dedicada à música, a outra ao noticiário e ao diálogo com os ouvintes por telefone e correspondência. Essa última metade era de minha responsabilidade.

A Segunda Guerra já havia começado?

A guerra começou no dia 3 de setembro de 1939 e fui contratado antes dessa data. Quando veio a guerra, eu ainda estava no Brasil. Pareceu-me ameaçada a minha ida. Mas a BBC manteve o contrato e eu parti pouco tempo depois. Chegando a Londres, recebi uma sala com uma secretária e duas mesas, mais o encargo de fazer a parte jornalística do programa transmitido para o Brasil. Assim passei praticamente todo o ano de 1940. Voltei ao Brasil no ano seguinte e imediatamente retomei a minha atividade de advogado. Mas minha ligação com a BBC, aqui no Brasil, prolongou-se até o fim da guerra.

A BBC continuou transmitindo os seus comentários?

Não. Após deixar Londres, em 1941, não falei mais na BBC. O que fiz foi escrever para todos que manifestavam interesse em conhecer as notícias e as posições dos Aliados e que para isso se dirigiam ao consulado inglês. Algo que a BBC fazia pelas ondas do rádio, e que eu aprofundava através de correspondência.

Vê-se que a Inglaterra tem um forte papel em sua biografia.

Todo o meu trabalho na Inglaterra e posteriormente aqui, durante a guerra, foi em prol dos Aliados. Curiosamente isso, de certa forma, fez com que muita gente ficasse sabendo que eu falava inglês. Alguns de meus companheiros de trabalho também falavam inglês. Comecei a atender empresas estrangeiras que chegavam para investir em São Paulo. Era importante para esses empresários tratar com advogados que falassem fluentemente o inglês.

Que lembrança o sr. tem do Centro de São Paulo nessa época? Era um lugar agradável, embora já fosse, ou quase, um centro de metrópole?

Naquela época a cidade ainda era pequena e queria se tornar grande. Já a pensávamos como "a cidade que mais cresce no mundo". Tal espírito fazia parte das nossas vidas. O Centro era, sim, bastante agradável, em especial a região onde estava o meu escritório. Tudo era naturalmente muito pequeno, a escala do comércio e das ofertas de cultura e entretenimento era infinitamente menor do que é hoje, mas o Centro era um micro-universo compatível com o que se esperava de uma cidade que ensaiava se tornar metrópole. E São Paulo era de fato, àquela época, amena e agradável. Oferecia muita coisa, principalmente trabalho. Em sua simplicidade, os serviços públicos funcionavam bem. Eu me lembro do transporte coletivo eficiente, cômodo, prestado pelos bondes. Os motorneiros conheciam os passageiros. Todos usavam o bonde, sem maior distinção de classe. Hoje a cidade é profundamente diferente dessa realidade quase bucólica.

Pior ou melhor do que a velha São Paulo?

Não há como comparar. É muitíssimo diferente. A cidade dos anos 20 ou 30 seguia o ritmo que todos lhe davam, e tal ritmo se pautava pelas circunstâncias históricas e culturais da época. Assim como hoje se pauta pelas pressões e exigências de uma realidade muito mais complexa. Mas, sobretudo, o ritmo explosivo tão característico da São Paulo de hoje é o que imprimimos a nós mesmos e à cidade. Esta não é melhor nem pior do que as pessoas que a constroem e a fazem funcionar, e que nela vivem.

O sr. foi adolescente, estudante e formou-se em Direito numa década de muita efervescência em São Paulo.

Minha memória vai um pouco além dos anos 30, lembro-me do bombardeio que parte da cidade sofreu em 1924, na revolução do general Isidoro Dias Lopes. Eu tinha sete anos. Na vizinhança de minha casa, na Rua Vergueiro, havia um quartel que era alvo do canhoneio. Nós, crianças, fomos levados para a casa de meu avô no Guarujá, e lá ficamos até o fim do conflito.

O sr. se recorda dos acontecimentos que culminaram com a Revolução Constitucionalista de 1932?

Lembro-me de muita coisa, ainda que fragmentariamente. O clima era realmente de mobilização para a guerra, de "vamos vencer". A vontade de enfrentar Getúlio Vargas era muito grande.

Foi um movimento de elite ou teve participação popular?

O contrário do que às vezes se fala ou escreve, não foi um fenômeno de elites. Foi um movimento de massas, teve uma grande participação popular. Aliás, muitos amigos e parentes meus participaram, inclusive na linha de fogo. Eu, com apenas 15 anos, não pude me alistar. Mas dei minha contribuição como estafeta.

O que fazia um estafeta ainda menino em plena guerra civil?

Trabalhava longe do front, na cidade, circulando entre lugares como os comandos militares, o Palácio do Governo, as residências das lideranças e outros pontos de importância. Fiquei baseado no edifício Palmares, onde meu avô tinha o escritório. Meu pai exercia a função de censor, examinava a correspondência que circulava entre a cidade e o teatro de operações, porque havia uma censura rigorosa enquanto a guerra durou. Como acontece em todas as guerras.

Como foi recebido o anúncio da derrota de São Paulo?

Não sei se essa palavra — derrota — corresponde à realidade. Em três meses tivemos uma intensificação cada vez maior dos combates, nunca se deixou de lutar. Não houve derrota militar nem destruição e aprisionamento das forças paulistas, mas a cessação algo brusca das atividades bélicas. Dois anos depois o governo central deu-nos uma Constituição, de acordo com o pleito de São Paulo. Não foi, portanto, uma derrota.

O escritório Pinheiro Neto inscreve-se na história recente de São Paulo, entre outros motivos por sua luta pela recuperação do Centro, sendo um dos fundadores da Associação VIVA O CENTRO. Por que o sr. permanece no Centro? Outros escritórios se mudaram para mais próximo de seus clientes...

Eu gosto do Centro. Ele oferece tudo de que eu e o Escritório necessitamos. Não imagino o Escritório senão no coração jurídico, financeiro, cultural e simbólico da metrópole. Mudar para onde? E para quê?

Muitos advogados mudam-se para os bairros para acompanhar seus clientes, mas a clientela de Pinheiro Neto vai até o Centro. Qual o segredo?

O segredo são os bons serviços. Faço questão de prestar o melhor serviço possível. A qualidade do que fazemos é que importa. A rigor, para um escritório como o Pinheiro Neto e para muitas outras atividades, não existem razões objetivas e consistentes que justifiquem a mudança do Centro para qualquer uma das centralidades que hoje vicejam no município. Existem, decerto, motivos mais específicos e até subjetivos, mas esse não é o nosso caso.

O que está faltando para que o Centro efetivamente se recupere?

O Centro ficaria ainda mais interessante se, ao lado dos equipamentos culturais e dos serviços que aqui já se instalaram, viessem mais restaurantes e cafés, mais comércio diferenciado, mais pontos de atração...

Isso é algo que pode ser incentivado por uma legislação de fomento à atividade econômica, a cargo de uma já anunciada agência municipal de desenvolvimento do Centro...

Mas é necessário que a administração pública seja mais decidida, rápida e eficiente. A imensa maioria dos problemas do Centro já não é estrutural, mas de gestão. Poderiam já ter sido resolvidos com uma atuação mais firme e regular dos administradores. Falo da limpeza urbana, da conservação das praças e monumentos, do disciplinamento do uso dos espaços públicos. Perde-se muito tempo nas decisões, criam-se expectativas que muitas vezes acabam por se frustrar. É uma questão de coragem de decidir e de rapidez e eficiência na execução. O Centro é uma região com cenários, infra-estrutura e vigor incomparáveis. Seria imbatível também em qualidade de vida e como sede de atividades de todo tipo se as ruas fossem limpas e seguras, os jardins bem cuidados e a arquitetura e os monumentos valorizados. Não é exigir muito.


  Urbanismo Nacional  
Requalificação de edifício industrial, para implantação de escritórios na Mooca

Rogério uró Ramos*


A proposta deste trabalho é a elaboração de um projeto para requalificação de um antigo edifício industrial, com grande significado histórico para a região da Mooca em São Paulo - SP, viabilizando sua ocupação por escritórios. Desenvolvido como Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo junto à Universidade do Grande ABC, o projeto pretende contribuir para a reconstrução da cidade existente, através de soluções coerentes com nossas necessidades.

Considerando que São Paulo é um dos maiores aglomerados urbanos do mundo e sem dúvida o maior do país, devemos procurar formas de resolver o problema do espaço nas grandes cidades, criando alternativas para a apropriação de espaços atualmente ociosos. O projeto procura suprir uma necessidade crescente das grandes cidades, que são obrigadas a se adaptarem ao modo de vida de seus habitantes e às empresas que sustentam seu desenvolvimento. A carência de espaços flexíveis e "mutáveis", muitas vezes resulta na apropriação inadequada de edifícios que sofrem intervenções infelizes, gerando um conflito entre sua utilização e a natureza de sua função. Este é um problema constante na região escolhida para a intervenção, nas proximidades da Rua da Mooca, onde construções antigas são adaptadas aos mais diversos usos, descaracterizando os edifícios.

O desafio consiste em projetar espaços totalmente adaptáveis às diversas empresas, utilizando o conceito de planta livre e transformando o conjunto em um elemento gerador de transformações e investimentos em uma região de muito potencial. Sendo assim o conjunto deverá tornar-se uma referência para o bairro através da escala do empreendimento e seu destaque na paisagem. Devemos considerar que mesmo abandonado, o antigo edifício industrial impressiona pela sua imponência e monumentalidade. Sua importância é evidente tanto pela época e tecnologia utilizada em sua construção, como pela sua função dentro do contexto urbano.

A área escolhida para o projeto deverá sofrer intervenções e estabelecer uma forte relação com o bairro, proporcionando a integração com a vizinhança e aceitação da população local. Esta relação deverá ser intensificada através de uma praça aberta ao público e do pavimento térreo, onde estarão concentrados os espaços destinados á alimentação, cultura, comércio e serviços.

O trabalho propõe uma relação de troca com o Bairro, famoso pela tradição e pela história da imigração italiana. Desta forma, a proposta consiste na apropriação de um espaço nobre e muito bem localizado em troca da restauração de um edifício com uma importância histórica significativa para a região e para a cidade de São Paulo. Através de uma linguagem contemporânea é possível estabelecer uma relação entre o "velho" e o "novo" através de um projeto coerente com as necessidades do local e respeitando o caráter histórico do edifício. O edifício deverá contar com infra-estrutura e tecnologia necessárias para atender às exigências dos mais diversos tipos de escritórios e garantir sua sobrevivência através da flexibilidade dos espaços, tendo sempre como preocupação a economia de energia. Anexos ao edifício deverão funcionar um auditório e um restaurante.

O local

O Bairro da Mooca é considerado um bairro privilegiado pela sua localização e seu potencial econômico, além de ser um dos bairros com maior importância histórica para São Paulo. O edifício escolhido para a intervenção está situado na esquina da Rua Javari com a Rua Taquari, no bairro da Mooca. A escolha do local para a construção do complexo leva em consideração, principalmente, sua localização extremamente favorável ao empreendimento, pois fica relativamente próximo do centro de São Paulo (aproximadamente 1500 metros).

Se observarmos a proximidade com as linhas de trem, metrô e as principais vias de grande trafego, podemos perceber que se trata de um local com uma ótima acessibilidade, ou seja, com facilidade de acesso aos mais diversos pontos da região metropolitana. Os dois principais eixos da cidade, a Avenida do Estado e a Radial Leste estão a cerca de 1000 metros do local. A Mooca possui características muito particulares, ao mesmo tempo em que é considerado um lugar "residencial por excelência", é muito intensa a presença do comércio e da indústria no bairro.

Histórico

O edifício escolhido foi parte integrante de um grande complexo industrial fundado no final do século XIX, o antigo Cotonifício Crespi e teve grande importância para o desenvolvimento do Bairro, que por sua vez teve um papel fundamental na história da cidade.

Com a chegada da estrada de ferro inglesa, a São Paulo Railway em 1867, a Mooca foi cenário do nascimento de grandes grupos industriais, como o da Família Crespi, que funcionavam como um imã e geradores de desenvolvimento tornando possível o aparecimento de pequenos negócios (cantinas sapatarias, padarias, gráficas, etc), e espelhando o desenvolvimento urbano de São Paulo.

Inaugurado em 1897, com um capital totalmente italiano, o Cotonifício Crespi tinha como proprietário o Conde Rodolfo Crespi, de origem italiana, bem como toda a família Crespi e boa parte dos operários do Cotonifício. Localizado na Rua Javari, 89, o complexo ocupava uma área de 50.000 m2. O Cotonifício destaca-se do restante das fábricas próximas à linha do trem, em toda a extensão do Eixo Tamanduateí, pois se encontra afastado do eixo, próximo ao Hipódromo e à antiga hospedaria dos imigrantes, aonde chegavam pessoas de toda a parte do mundo, tentando construir suas vidas. Na época 80% da população da cidade era constituída por imigrantes.

Segundo relatos de antigos moradores, os Crespi eram considerados "Neuróticos de Guerra", pois construíam túneis subterrâneos interligando diferentes pontos do Complexo. É importante destacar que a mesma fábrica que chegou a fornecer uniformes para as tropas de Mussolini, também foi, por muitos anos, palco de grandes acontecimentos significativos para São Paulo. O local onde se encontram a Rua Taquari, Rua da Mooca e Rua Oratório, era conhecido como Praça Vermelha.

Os funcionários do cotonifício trabalhavam sob péssimas condições. A jornada de trabalho chegava a mais de 12 horas e o calor dentro da fábrica era insuportável. Em 1917 estoura a primeira greve nacional e o primeiro local onde os trabalhadores cruzaram os braços foi justamente no pátio do Cotonifício Rodolfo Crespi.

No decorrer dos anos o Cotonifício sofreu algumas ampliações, a mais significativa aconteceu no início do século XX. O Cotonifício ganhou um edifício anexo de quatro andares e duas imponentes torres, construído em estrutura metálica e tijolos cerâmicos.

Durante a Revolução Tenentista de 1924 a Mooca foi um dos bairros mais afetados. O cotonifício Crespi encontrava-se em uma posição estratégica, do alto de suas torres pode-se avistar o centro da cidade. Em 1924 os revoltos tomaram o cotonifício, que se transformou em uma verdadeira trincheira de guerra e foi alvo de muitos ataques das tropas do governo. Durante este período a população do bairro passou por um período difícil de medo e incerteza. Após a revolução o cotonifício retomou suas atividades e foi desativado em 1963.

O projeto

Fica evidente a necessidade de tal intervenção quando observamos o aglomerado formado por construções infelizes e reformas mal sucedidas. A prova disto é o abandono ao qual se sujeita grande parte do antigo complexo, que um dia foi a grande "máquina" geradora de progresso para o bairro.

Além do imponente edifício, fazem parte do projeto as áreas pertencentes hoje à duas edificações sem valor arquitetônico, que serão derrubadas, com o propósito de "soltar" o edifício, que deverá passar por uma requalificação. O edifício a ser trabalhado desperta interesse pela sua escala e aparência rústica. Uma grande caixa, construída em estrutura metálica, com fechamento em paredes de tijolos cerâmicos e caixilhos que variam de tamanho, acompanhando a modulação da estrutura, que por sua vez também não é constante. Duas Torres completam o edifício e marcam os dois eixos de circulação vertical.

A requalificação do Cotonifício Crespi consiste em adaptar o edifício às necessidades atuais das empresas (escritórios), ou seja, o edifício deverá se transformar em um espaço provido de toda a infra-estrutura necessária para os equipamentos e pessoas que deverão ocupá-lo. Este possui quatro pavimentos com cerca de 3.400m2 cada, totalizando uma área de 13.600m2. Desta forma, pretende-se viabilizar a ocupação por escritórios do primeiro, segundo e terceiro pavimentos. Estes pavimentos deverão se transformar em espaços flexíveis podendo ser subdivididos para escritórios de diferentes tamanhos e adaptáveis a diversos tipos de lay out. Esta flexibilidade é indispensável quando tratamos de escritórios, pois os espaços são obrigados a se adaptarem rapidamente, diante da velocidade que acontecem as mudanças na rotina das empresas e profissionais liberais.

A malha estrutural do edifício existente é muito favorável à este tipo de ocupação (modular), portanto, este foi o ponto de partida para a execução do projeto. A estrutura metálica deverá ser valorizada, colocada em evidência e servir de referência para concepção dos espaços.

A crise energética pela qual passa o país e o mundo nos obriga a dedicar maior atenção aos aspectos de eficiência energética. O controle de insolação e a iluminação natural também são fundamentos básicos do projeto, considerando que em edifícios para escritórios um bom desempenho energético é fundamental. Isto não significa que recursos como a iluminação artificial e a utilização de ar condicionado foram abandonadas.

Uma das premissas do projeto era não interferir na fachada do edifício com elementos de proteção. Sendo assim, a própria fachada original foi utilizada como uma proteção contra a incidência direta do sol e foi projetada uma "segunda pele" de vidro para isolamento dos escritórios, foi então criada uma "caixa" de vidro reflexivo, envolvida e protegida pela alvenaria original do edifício, que tem sua imagem refletida pelas paredes da "caixa", dando uma ilusão de profundidade e continuidade das ruínas da antiga fábrica, intensificando a relação entre o "velho" e o "novo".

O pavimento térreo do edifício deverá ser de livre acesso do público e oferecer opções de comércio e serviços que atendam, tanto as pessoas que ocuparão os andares de escritórios, como a população local. O mesmo conceito de flexibilidade está presente no pavimento térreo, ou seja, as lojas podem assumir diversos tamanhos e lay out’s contribuindo para a diversidade na ocupação do edifício. Além dos espaços para comércio e serviços, um auditório para aproximadamente duzentas pessoas, anexo ao edifício, também deverá ser parte integrante do conjunto, podendo ser utilizado pelas empresas locadas no edifício ou por qualquer outra instituição que se interessar em utilizar o espaço para eventos culturais, convenções ou apresentações. Portanto o auditório deve se relacionar intensamente com o edifício de escritórios, mas ao mesmo tempo ter acesso independente do conjunto de escritórios e funcionar como um gerador de fluxo no pavimento térreo.

O conjunto deverá contar também com um restaurante integrado a uma lanchonete e um café que seguem o mesmo princípio das lojas, ou seja, além de atender aos escritórios deverão atender o público através de acessos independentes. Deve-se estabelecer uma integração entre as lojas, os escritórios, o restaurante, o café e o auditório, porém tomando todo o cuidado para não estabelecer uma relação de dependência entre eles.

Uma praça seca deverá funcionar como o elemento organizador do espaço, intensificando a relação com a rua e convidando as pessoas a freqüentarem este espaço, pois esta será uma extensão do passeio público.

Mesmo tendo que adaptar o edifício às novas tecnologias não podemos esquecer que um fator indispensável é sua importância histórica, tanto para a população do bairro, como para a cidade. Desta forma é essencial que seja preservada a imponente imagem do antigo cotonifício, caracterizando novamente o lugar como um local de trabalho, resgatando seu significado e reforçando a identidade da Mooca.


  Cultura  
O Arquiteto da Sé

Quase desconhecido apesar da importância da sua obra, Maximilian Hehl era um homem extrovertido e aberto à efervescência cultural de São Paulo
Ana Francisca Ponzio


No pequeno caderno de notas, as páginas preenchidas por desenhos a lápis revelam traços delicados que dão forma a meticulosos estudos de fachadas, torres, ornamentos ou mesmo conjuntos completos de edifícios de estilo predominantemente gótico. Protegidas por capa de couro, essas folhas hoje amarelecidas carregam sugestões sobre seu antigo dono.

Introspectivo. Discreto. Sensível às minúcias arquitetônicas apreendidas da tradição européia e depois adaptadas à metrópole que despontava na capital paulista, no início do século XX. Teria sido assim Maximilian Hehl, o arquiteto que projetou a Catedral da Sé e que, ao contrário de contemporâneos como Ramos de Azevedo, permanece desconhecido pela imensa maioria dos paulistanos?

Traçar um perfil de Max Hehl não é tarefa fácil. Seus netos e bisnetos valem-se da memória ou de coleções incompletas de documentos e fotos para dar testemunho sobre um profissional muito organizado e metódico, que no entanto cultivava uma convivência generosa com alunos e colegas de profissão. "Sua biblioteca e arquivo de projetos estavam sempre à disposição de estudantes e profissionais de arquitetura e engenharia", diz Maria Flora Hehl Simões Vicente de Azevedo, 77 anos, neta de Maximilian.

Nascido na cidade alemã de Kassel em 17 de setembro de 1861, Maximilian Emil Hehl seguiu a profissão do pai, Johannes Hehl. Depois de se formar na Escola Politécnica de Hannover, Hehl (pronuncia-se Rêu) trabalhou com seu pai e com o arquiteto Hartel, um dos mais renomados profissionais da área, na Alemanha da segunda metade do século XIX.

Em 1888 ele já acumulava uma expressiva experiência como arquiteto quando seu irmão Rudolph o convidou para trabalhar na empresa de engenharia responsável pela construção de uma ferrovia ligando a Bahia a Minas Gerais. Foi por intermédio desse irmão engenheiro que Max Hehl mudou-se para o Brasil. De início, como chefe da equipe que construiu o trecho baiano de Mucuri, ele se estabeleceu no Nordeste. Depois de dois anos, mudou-se para São Paulo, onde passou a se dedicar, em tempo integral, à engenharia e à arquitetura. Seus dois primeiros empregos na capital paulista foram no Banco União, do qual assumiu a sessão técnica, e na chefia do escritório de Francisco de Paula Ramos de Azevedo.

Naquela passagem de século, profissionais de engenharia e arquitetura como Max Hehl e Ramos de Azevedo conquistavam projeção no mesmo ritmo meteórico com que a cidade avançava para a condição de metrópole, com ambições de se transformar em uma capital do mundo. A Ramos de Azevedo (1851-1928) coube construir a imagem institucional que São Paulo pretendia ter. Mais prestigiado construtor das primeiras duas décadas do século XX, seu escritório assinou obras como o Teatro Municipal, a Santa Casa de Misericórdia, o Palácio das Indústrias, a agência central dos Correios e Telégrafos, o Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca do Estado).

Max Hehl também colocou sua assinatura em obras notáveis. Além da Catedral da Sé, projetou a nova Igreja Matriz da Consolação, o Hospital Santa Catarina, o Colégio Santo Agostinho, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Contudo, apesar de sua importância, Hehl acabou ofuscado pela popularidade de Ramos de Azevedo, que foi a estrela da época no âmbito igualmente notório da arquitetura.

Polêmica

Com relação a Hehl pesou também a polêmica causada pela mistura de estilos que ele imprimiu à Catedral da Sé. O fato de caracterizá-la como uma construção gótica e ao mesmo tempo nela inserir uma cúpula renascentista provocou críticas que reverberam até hoje. "Esse tipo de combinação não existe em nenhuma catedral do mundo", diz o arquiteto Paulo Bastos, autor do recente projeto de restauro do templo, que, depois de 29 meses de reforma, reabriu suas portas em setembro do ano passado.

Segundo Bastos, o formato bojudo e maciço dessa cúpula promove um jogo de contrários. Enquanto a nave central suscita uma conotação carnal com a terra, para a qual se dirigem suas formas, as torres apontam para o céu, afirmando a condição etérea e diáfana do gótico. Teria essa mistura de estilos, que revelava a tendência eclética de Hehl, mesmo que involuntariamente, antecipado o caráter antropofágico da cultura paulista? Também colocada por Paulo Bastos, essa é uma das perguntas sem respostas exatas deixadas pela biografia de Hehl, que, ao contrário de alguns de seus colegas, foi um arquiteto pouco estudado pelas gerações seguintes. "Pelos desenhos que deixou, pode-se afirmar que Hehl tinha profundo conhecimento não só do estilo gótico, mas também da construção em pedra. Com precisão e complexidade, ele desenhava as pedras com todas as suas juntas e ornatos", observa Bastos.

O requinte que imprimiu às construções públicas Hehl estendeu à própria casa. A Vila Adelaide, nome da mulher do arquiteto, ficou conhecida como uma das mais belas mansões da época. "Era uma casa enorme, com um jardim extenso, que possuía uma torrezinha onde as filhas de meu avô subiam para sonhar", diz Maria Flora, lembrando que tudo o que ela sabe sobre Hehl lhe foi contado por sua mãe. "Meu avô morreu de tuberculose em 27 de agosto de 1916 e eu nasci dez anos depois."

Por meio da memória materna, Maria Flora captou a dimensão humana de Max Hehl. Ao contrário do que o pequeno caderno de desenhos do arquiteto faz supor, ele era extrovertido e alegre. "Meu avô foi um alemão animado, apreciador de uma boa cerveja. Sei que tinha voz grave e que, em casa, era severo com relação aos filhos. Todos falavam alemão e foram educados com professores particulares". Apesar dessa austeridade, as festas eram freqüentes no lar dos Hehl.

Na Vila Adelaide, que ganhou o apelido de Castelinho, as festividades costumavam ocorrer no teatro com palco e platéia de 80 lugares que a casa possuía. Situada na Avenida Higienópolis, entre as ruas Sabará e Itacolomi, a Vila Adelaide se descaracterizou com o tempo. Depois de abrigar o Colégio Eduardo Prado, acabou demolida. Em seu lugar surgiu em 1944 o Edifício Prudência, projetado pelo arquiteto Rino Levi e com paisagismo de Burle Marx, que lá permanece até hoje graças ao tombamento promovido pelo patrimônio histórico.

Ainda segundo Maria Flora, Hehl nunca se incomodou com o fato de ser menos famoso que Ramos de Azevedo. "Ele foi um homem finamente educado, vindo de uma elite alemã e que no Brasil viveu como um cidadão rico, graças ao volume de trabalho que aqui conquistou".

Professor da Escola Politécnica, Maximilian Hehl fundiu sua trajetória às tradições de São Paulo, cuja imagem ele ajudou a inventar, conforme testemunham seus minuciosos desenhos. E hoje, se a mistura de estilos que ele introduziu na Catedral da Sé ainda causa controvérsias, esta se ergue no Centro paulistano como uma perfeita tradução arquitetônica das contradições e sínteses culturais que se tornaram a marca de São Paulo.


  Cultura  
O Impulso DA ARTE

Secretaria Municipal da Cultura muda-se para o Largo do Paissandu e promete animar a região
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)


Não mais que 30 anos separam o coriscante cenário noturno da antiga Cinelândia, com seus cinemas e restaurantes, do que hoje é o Largo do Paissandu. Mas o lugar breve deixará de ser um dos pontos mais desolados e inóspitos do Centro. Além de alguns melhoramentos pontuais que ocorreram nos últimos anos, o Paissandu já abriga a nova sede da Secretaria Municipal de Cultura e de outros órgãos da Prefeitura, distribuídos nos 23 andares do Edifício Domingos Fernandes Alonso, que esteve desocupado por mais de dez anos e, até 1996, abrigou no térreo o legendário cinema Olido, um dos mais confortáveis da cidade.

Com um total de 24 mil metros quadrados, o edifício — recém-reformado a um custo de cerca de R$ 5 milhões — foi alugado, em agosto do ano passado, por um período renovável de cinco anos. Com a instalação no Centro da Secretaria da Cultura, que estava na Rua Frei Caneca, próxima à Avenida Paulista, a Prefeitura, além de unir num só edifício numerosos departamentos que estavam dispersos, passa a economizar em aluguel — gastava R$ 3,097 milhões anuais para abrigar o setor administrativo e alguns dos órgãos da Secretaria e agora, melhor instalada no Domingos Fernandes Alonso, R$ 2,520 milhões.

O imóvel já é compartilhado com a Secretaria de Abastecimento (Semab) e com a Ouvidoria Geral do Município, estando em estudos a transferência, para ele, das secretarias do Trabalho e do Verde e do Meio Ambiente, além do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), do qual apenas o arquivo permanecerá na Casa Ramos de Azevedo, no Bom Retiro. "O projeto original de reforma era amplo em excesso", diz o secretário municipal de Cultura, Celso Frateschi, que assumiu a pasta com o processo de mudança já em andamento. "Como eu gosto muito da arquitetura do prédio e considero-o adequado para a função administrativa, não vi necessidade de tantas mudanças. Optamos por obras realmente necessárias, como a reforma das instalações elétricas, hidráulicas, de cabeamento para informática e telefonia, além de uma grande limpeza e mudanças no lay out."

Segundo o secretário, a reforma foi menos abrangente devido, ainda, à decisão de não transferir para a nova sede os corpos estáveis e as escolas pertencentes à Secretaria da Cultura, como se previa. "Caso fossem para lá, as adaptações no prédio seriam bem mais profundas", explica Frateschi. "Além disso, as escolas de Bailado e de Música, além das orquestras, do Balé da Cidade e dos corais municipais, estão bastante satisfeitas com as atuais sedes." A solução encontrada para a Escola Municipal de Música, cuja sede na Rua Vergueiro encontra-se em estado precário, poderá ser, conforme Frateschi, a locação de um outro imóvel, mas de preferência próximo ao primeiro, evitando transtornos de locomoção para quem nela leciona ou estuda.

Ator profissional, inteirado das necessidades e demandas do meio artístico, Celso Frateschi também está revendo o plano inicial de transferir para o prédio do antigo Olido as áreas administrativas das escolas, dos corpos estáveis e do próprio Teatro Municipal. É preciso avaliar se será razoável separar as áreas administrativas de cada um desses órgãos de suas bases de atuação. Já com a mudança da sede da Secretaria, a expectativa de Frateschi é agilizar ao máximo suas decisões e prestar melhor atendimento ao público.

Este, por sinal, vai adorar o andar térreo da nova sede. Nele se instalará a Galeria Cultural Olido, a ser inaugurada no segundo semestre. Na galeria, uma grande sala de espetáculos, com capacidade para 800 pessoas, preservará as características arquitetônicas do Cine Olido. O espaço vai oferecer cinema, dança, música e teatro. Nos muitos pavimentos do edifício, atividades como aulas de dança de salão e street dance, entre outras, receberão salas adequadas. A Anhembi Turismo e Eventos tem um espaço reservado no térreo para exibição e venda de produtos culturais, objetos artísticos, camisetas, fotografias e ingressos. Uma agência do Banco do Brasil atenderá aos funcionários municipais. Um café, um restaurante e um bazar de objetos de arte completarão as atrações da galeria.

Os pavimentos imediatamente acima serão reservados a trabalhos artísticos dos jovens que freqüentam as galerias das imediações, em especial as Grandes Galerias, contando com um estúdio de gravação de CDs e um amplo espaço para oficinas culturais abrangendo de fotografia a música popular. Um outro andar será dedicado a artes plásticas contemporâneas.

Reflexo no entorno

A presença da Secretaria Municipal da Cultura e de outras secretarias e órgãos públicos no Largo do Paissandu terá um impacto positivo na área. Além da galeria com cinema, café e outras atrações, o logradouro deverá ganhar — devido à maior freqüência do público — novos bares, restaurantes e pontos de comércio. Espera-se que, num efeito de contágio, edifícios vizinhos recuperem as suas fachadas e que o espaço público seja melhor cuidado. Com tudo isso, mais visitantes serão atraídos à região, contribuindo para animá-la, principalmente à noite. Somente os funcionários municipais transferidos para o novo endereço já garantem um novo ânimo para o degradado Largo do Paissandu. Até agora são 550 da Secretaria da Cultura, 42 da Ouvidoria e 230 da Semab, além dos que ainda virão. Esse contingente exercerá uma demanda por alimentação, entretenimento e outros serviços qualificados no entorno.

É o que também esperam alguns comerciantes da área, como João de Jesus Santos, gerente do restaurante O Ponto Chic, no Largo do Paissandu. "Minha expectativa é de um aumento de 100% no movimento nos próximos meses", afirma. "Além da reforma do prédio do Olido, gostaria que o largo fosse mais iluminado e policiado, para que viessem mais visitantes." A Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) informou a urbs que pretende implantar melhoramentos no logradouro (ver o box).

Para completar um círculo virtuoso, muitos funcionários das secretarias que funcionam no Centro esperam poder residir em algumas das 9.711 unidades habitacionais hoje vazias do distrito República. Um grupo de servidores elabora um documento solicitando à Prefeitura sua inclusão no Programa Morar Perto, implementado pela Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) em convênio com a Caixa Econômica Federal (CEF). (Ana Francisca Ponzio)

Melhorias à vista
Além das obras anunciadas nas imediações do antigo Olido, no quadrilátero dos calçadões, formado pelas ruas Conselheiro Crispiniano e Sete de Abril e as avenidas Ipiranga e São João, e do prometido Corredor Cultural, entre as praças Dom José Gaspar e do Patriarca, a Emurb planeja, em conjunto com a Subprefeitura da Sé e com as secretarias municipais de Cultura e de Finanças e Desenvolvimento Econômico, a reurbanização e reordenação paisagística do Largo do Paissandu. "Estão previstos ainda um espaço de eventos diretamente ligado às Grandes Galerias e o revigoramento das ofertas de comércio, serviços e entretenimento, incluindo-se negociações com proprietários de salas de cinema para melhorar a programação e a integração física entre as Grandes Galerias e o Edifício Domingos Fernandes Alonso", explica o arquiteto Sérgio Marin.

"Com a instalação de uma unidade do Sesc na Rua 24 de Maio e a ida da Prefeitura para a Praça do Patriarca, a recuperação da área é apenas uma questão de tempo, sem intervenções abruptas, mas paulatinas", explica o secretário municipal de Cultura, Celso Frateschi. O estudo para a recuperação do Paissandu ainda deverá ser complementado no tocante ao transporte coletivo. "Cerca de 30% das linhas de ônibus que hoje trafegam pelo local serão substituídas por vans e micro-ônibus. Além disso, o estudo irá contemplar a implantação de garagens subterrâneas", diz a presidente da Emurb, arquiteta Nadia Somekh.

O presidente da Ação Local Paissandu, Reinaldo Garcia de Oliveira, aguarda a materialização dessas promessas. "A vinda das Secretarias para cá já é um motivador para a região, pois o prédio ficou fechado por muito tempo", afirma. Ele espera que a área se torne mais segura, iluminada e limpa e que receba um banheiro público.

Por sua vez, o projeto Broadway Paulistana, anunciado pela Secretaria de Estado da Cultura, está suspenso por tempo indeterminado. Segundo a secretária Cláudia Costin, a pasta dará prioridade aos planos já orçados e em andamento. "A idéia é discutir a implantação desse e de outros projetos com representantes da sociedade civil que atuam na área cultural", informa a secretária.

Anos dourados
À época considerado o cinema mais moderno do Brasil, o Olido foi inaugurado em 1957 com o filme Tarde Demais para Esquecer, do irlandês Leo McCarey, com Cary Grant e Deborah Kerr. Foi o primeiro em São Paulo a funcionar numa galeria, a oferecer poltronas numeradas e a usar um sistema de reservas para evitar filas. Possuía elegante lobby revestido de mármore e cercado por espelhos de cristal, além de piano e orquestra.

No início da década de 80, a empresa que o controlava, a Sul Paulista, dividiu a única sala de 800 lugares em três, com capacidade para 419, 241 e 239 espectadores. O público do Olido (e dos cinemas do Centro) reduziu-se drasticamente nos últimos vinte anos, até o fechamento definitivo do cinema, em 1996. secretária.



  Fotografia  
Luzes do centro


Friedrich Czymoch, 23 anos, não é fotógrafo profissional. É técnico em artes gráficas. Como amador, participou de uma exposição em uma sala da Rua Conselheiro Crispiniano, há alguns meses. É um obcecado pelo anoitecer e pela noite, de preferência chuvosos, no Centro de São Paulo. Em suas próprias palavras, fascina-o o brilho das muitas luzes nas ruas e avenidas centrais, principalmente quando molhadas. Mas, à diferença de outros fotógrafos, Friedrich não procura a denúncia social (tarefa bastante fácil em se tratando do Centro, síntese de um país desigual) ou o deslumbramento dos cartões postais (igualmente fácil — o Centro é mesmo espetacular). Ao contrário, a cidade captada por suas lentes não é deprimente ou soturna, nem feérica em demasia. É a urbe cintilante que não quer esconder a feiúra nas sombras e desvãos de seus volumes, entre um brilho e outro. É São Paulo na medida, por um talento superlativo.


  Mix - ARTES E ESPETÁCULOS  
O balé da cidade está em festa


O Balé da Cidade está fazendo trinta e cinco anos. É uma longa vida para uma companhia pública de dança brasileira. "Por isso, vamos festejar com temporadas populares nos teatros, nas empresas, nas escolas e na rua", diz a diretora Mônica Mion. A festa vai longe. Uma programação variada estende-se até outro marco comemorativo, janeiro de 2004, quando São Paulo completa 450 anos, e alcança outros Estados. O programa principal do menu de celebrações a companhia chama de "DiverCidade em Movimento", numa referência à pluralidade cultural de São Paulo. Dele constam Desatino do Norte e Desatino do Sul, coreografia de Jorge Garcia, e Zona Mina-da, de Mauro Bigonzetti, ambos já apresentados na capital paulista e em Belo Horizonte, mas que seguem temporadas em alternativa aos demais programas.

Corpo estável do Theatro Municipal de São Paulo, onde faz suas estréias e avant-premières, além de apresentar coreografias consagradas de autores brasileiros e estrangeiros, a companhia também comemora o aniversário com o lançamento de um livro sobre sua carreira e outros eventos como workshops, exposições de fotos e figurinos.

Em junho, o Balé da Cidade recebe o israelense Ohad Naharin, diretor artístico do Batsheva Dance Company, grupo israelense de dança consagrado mundialmente. Ele desembarca com sua equipe: a assistente de coreografia Adi Salant, o figurinista Rakefet Leve, o iluminador Avi Yona Bueno e o professor russo Alexandre Alexandrov que vai realizar os workshops. O projeto é remontar com exclusividade as coreografias Queens (só com mulheres), Black Milk (só com homens), Perpetum e Axioma 7 (foto) – um de seus maiores sucessos.

O Axioma 7 foi incorporado ao repertório do Balé da Cidade de São Paulo em 1996. A música de J. S. Bach serve de suporte para uma série de imagens coreográficas em que coerência e estrutura se tornam gradualmente menos evidentes. Com explosões de movimentos, a coreografia remete ao título Axioma 7, que vem do vocabulário matemático. Axioma é um princípio auto-evidente, não demonstrável, mas admitido por todos, que forma um sistema. É um conjunto de deduções e demonstrações. No trabalho coreográfico, Ohad Naharin busca a beleza matemática na construção dos movimentos. A partir de outubro o Balé da Cidade apresenta o trabalho em São Luiz do Maranhão, Fortaleza, Recife e Salvador. Em agosto, dentro das comemorações do centenário de Cândido Portinari, o Balé exibe o elogiado Baile na Roça (criado por Jorge Garcia e outros bailarinos da companhia).

Para que o programa "DiverCidade em Movimento" aconteça em sua totalidade, proporcionando combustível para a dança e a formação contínua de público, profissionais e criadores, o Balé da Cidade está captando recursos da iniciativa privada, via leis de incentivo fiscal à cultura.

Theatro Municipal – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Tel. 228-8968. Metrô Anhangabaú/Saída Xavier de Toledo. Preços a conferir. Horário variado. Sem estacionamento.


Só música made in Brasil


A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo continua empenhada em difundir as obras de grandes mestres brasileiros. Em abril, produziu mais dois CDs voltados exclusivamente ao repertório nacional. O material, gravado na própria Sala São Paulo, sede da Osesp, foi lançado pelo selo sueco Bis!, especializado em música erudita e responsável pela distribuição dos discos da orquestra no mercado internacional. A obra Encantamento e as Sinfonias Nş 5, 6 e 7, de Mozart Camargo Guarnieri, ocupam o primeiro CD. A execução dessas obras, que compõem apenas uma pequena parte da imensa produção musical do compositor paulista, contou com regência do maestro John Neschling. Coube ao maestro Roberto Minczuk conduzir a Osesp em um "playlist" para o outro disco, que reúne SerestaChoroFrevo, de Lindembergue Cardoso; Samba, de Alexandre Levy; Dança dos Mosquitos, Arapuá-Tupana – Dança de todos Animais e Dança Frenética, de Heitor Villa-Lobos; Batuque – Dança de Negros, de Alberto Nepomuceno; Congada, de Francisco Mignone; Batuque, de Oscar Lorenzo Fernandes; Três Danças para Orquestra, de Camargo Guarnieri; Frevata, de Edmundo Villani Cortes; e Frevo, de Claudio Santoro. Até o momento, o selo Bis! já colocou no mercado gravações da Osesp para composições de Camargo Guarnieri e Francisco Braga. Em fase de produção estão ainda álbuns com obras de Cláudio Santoro, Villa-Lobos e outras do próprio Guarnieri. A orquestra já havia lançado dois álbuns, que distribuiu a seus assinantes, com interpretações de páginas assinadas por Mahler e Beethoven. Para gravar os CDs, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, principal do gênero no país, fez uma breve pausa em sua temporada 2003. Desde então, a programação segue normal na Sala São Paulo.

Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz. Quintas-feiras, às 21h e sábados, às 16h30. Ingressos R$10 a R$30. Amplo estacionamento interno (R$5).


Educação artística é programa no ccbb


O Programa Educativo do Centro Cultural Banco do Brasil é um sucesso de público. A proposta de reunir os visitantes das exposições em atividades lúdicas atraiu entre abril de 2001 e dezembro de 2002 mais de 70 mil pessoas. E o objetivo é dobrar esse número em 2003. São três frentes de atuação de uma equipe de arte-educadores especialmente treinada para as funções: Ação Educativa, Encontro com Educadores e a Série Novos Olhares. A Ação Educativa é uma espécie de monitoria das exposições, cujo diferencial, segundo a proposta triangular de Ana Mae Barbosa, é fazer do arte-educador um mediador capaz de estimular a reflexão sobre as obras. Em oficinas educativas cujas atividades relacionam-se à exposição em cartaz, crianças, jovens e adultos desenvolvem recursos para uma apreciação artística bem embasada.Um exemplo é a exposição "Claraluz", de Regina Silveira, que aconteceu no primeiro semestre de 2003. Durante a visita ao CCBB, o público era levado a discutir as obras enquanto interagia com vários elementos capazes de fazer uma conexão com as propostas plásticas da artista.

Outra vertente do programa, o Encontro com Educadores, é voltada a professores e profissionais ligados à educação. Em atividades que estimulam o conhecimento, a reflexão e a vivência das artes plásticas, o educador aprende como transmitir para os estudantes conhecimento sobre o assunto. O calendário dos encontros segue a programação do CCBB: no dia 5 de julho, a abordagem gira em torno das exposições de Andy Warhol e Keith Haring; nos dias 9, 16, 23 e 30 de agosto, será sobre a exposição "Ordenação e Vertigem"; e nos dias 6, 13, e 20 de setembro, tratará das exposições de Eduardo Frota e Juliano Moraes.

Quanto à Série Novos Olhares, o diferencial é a diversidade de enfoques. Vários palestrantes, de diferentes áreas da comunicação, mediam discussões culturais e ampliam as possibilidades de apreciação das obras. Nos encontros sobre literatura, a curadoria é de Carlos Emílio Faraco; nos de Cinema, o cineasta Mauro Baptista focaliza a história do cinema e pretende formar um olhar crítico em relação à produção cinematográfica. Já nas palestras sobre Música, as musicistas Clarice Mello e Liana Justus apresentam à platéia histórias peculiares sobre temas como comportamento, instrumentos e espetáculos musicais, entre outros. Teatro é o tema que Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr expõem para grupos de escolas, com a apresentação da peça Despertando para Sonhar (foto) que busca discutir questões e estimular o jovem a ampliar suas perspectivas de futuro.

Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Álvares Penteado, 112. Tel. 3113-3651 ou 3113-365. Metrô Sé ou São Bento. Terça a domingo das 12h às 20h. Ingressos de R$3 a R$15. Estacionamento e transporte por van, de terça a domingo, a partir das 11h50, com saída do estacionamento conveniado da Rua da Consolação, 228 (Ed. Zarvos) e ponto final no Hotel Othon (R. Líbero Badaró, 190), com retornos periódicos. O preço do estacionamento é de R$7 por até 3 horas de permanência e o transporte de van é gratuito com patrocínio do Seguro Ouro Auto.



  Mix Livros  
Memória paulistana


Considerado um clássico das memória paulistana, Belenzinho, 1910 (Retrato de Uma Epoca), de Jacob Penteado (Narrativa Um e Carrenho Editorial, 296 páginas, R$ 39), é em boa hora reeditado. Jornalista, tradutor e funcionário de carreira dos Correios e da Escola de Comércio Álvares Penteado, o autor (1900-1973) relembra não só o bairro do título, mas também o Bom Retiro e o Brás nas primeiras décadas do século XX, com rápidas passagens em Sorocaba e até Buenos Aires. Não se trata de saudosistas registros pessoais, mas de autêntica e vigorosa memorialística.

Moradia popular, um painel


Cinco artigos e uma alentada apresentação da professora Maria Ruth Amaral de Sampaio, diretora da FAUUSP, fornecem um painel de como o modernismo tratou a questão da moradia popular, no livro A Promoção Privada de Habitação Econômica e a Aquitetura Moderna 1930-1964, organização da própria Maria Ruth (RiMa, 316 páginas, R$ 69,30 pela Internet: www.rimaeditora.com.br). O primeiro artigo aborda o significado, na época, da expressão "habitação econômica" e debate as ações pública e privada para o setor. O segundo enfoca a produção privada de moradia de 1930 a 64, seguido do artigo que discorre sobre a casa econômica no Recife e do que analisa os prédios habitacionais da Avenida Nove de Julho, em São Paulo, sendo o quinto uma seleção de habitações econômicas exemplares. Fecham o livro as biografias dos arquitetos presentes nessa seleção.

Arquitetura moderna


Obra de importância para uma visão crítica da arquitetura moderna no Brasil, Depoimento de uma Geração, organizada pelo arquiteto e professor Alberto Xavier (Cosac & Naify, 408 páginas, R$ 49) tem reedição ampliada doze anos depois de seu lançamento. São 80 ensaios de intelectuais (como Anísio Teixeira, Mário Pedrosa, Nelson Werneck Sodré e Mário de Andrade) e arquitetos (Lucio Costa, Rino Levi, Vilanova Artigas e Oscar Niemeyer, entre muitos outros) sobre o grande debate nacional sobre a identidade cultural brasileira, a modernização do país, a arquitetura e os grandes problemas urbanos, tendo inevitavelmente como referência as idéias de Le Corbusier. O "olhar estrangeiro" de Max Bill, Walter Gropius, Giulio Carlo Argan e Bruno Zevi merece um capítulo.

Arte fina


Mais um livro com as fotos de Cristiano Mascaro e, mais uma vez, arte fina. Como observa de maneira ultra sensível o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão no prefácio de São Paulo/Cristiano Mascaro (Editora Senac, 200 páginas, R$ 90), é possível ler um conto em cada flash desta viagem que o experiente fotógrafo paulista empreende pelo Estado de São Paulo, capital e interior. Personagens, arquiteturas e paisagens suscitam histórias instigando a imaginação do espectador, ele próprio essencial nesta História. É embarcar e se encontrar.

Dossiês têm São Paulo como preocupação


A cidade de São Paulo está no centro de duas publicações recentes que vale a pena conferir, ainda mais se as preocupações se voltam para o futuro. São elas as revistas Estudos Avançados 47 (Instituto de Estudos Avançados da USP, 310 páginas, R$ 18) e Serviço Social & Sociedade 72 (Cortez Editora, 192 páginas, R$ 21). A primeira contém um dossiê sobre São Paulo, idealizado pelo professor Alfredo Bosi, que a edita, sob os aspectos do trabalho, da violência e dos recursos hídricos na visão de vários estudiosos, entre eles Nancy Cardia, Ricardo Toledo Silva e Hélio Bicudo. A segunda enfeixa uma coletânea de artigos, assinados por, entre outros, Raquel Rolnik e Dirce Koga, que aborda conceitos como territórios, cidade global, exclusão territorial e gestão ambiental na perspectiva da política e da participação social.


  Mix Mesa  
Sua majestade o Bauru

João Podanovsky
Fotos de Marcelo Santos


Onde um bom bauru? "Ora, direis", em qualquer lanchonete ou botequim desses Brasis. "E eu vos direi, no entanto", que bauru de verdade só existe em seis endereços paulistas: quatro na capital (rede Ponto Chic), dois na "cidade sem limites" de Bauru, no bar e lanches Skinão e, uma vez por ano (dia 1° de agosto, aniversário do município), na Praça Rui Barbosa, onde acontece a Festa do Bauru.

Pingos nos is. Há baurus e o bauru. Em qualquer lanchonete ou botequim chamam de bauru ao banal, embora gostoso, misto-quente com tomate. Já o pampeiro bauru gaúcho é, na realidade, um churrasquinho com queijo. Os cariocas por seu turno, imitados por nordestinos e nortistas, rotularam como bauru o substancioso misto-quente enriquecido com ovo, alface e tomate — um óbvio americano, que o nome tupi não logra disfarçar.

Fazem-se outros baurus por aí, à moda da casa. Todos os elogios às (re)criações felizes, veementes protestos contra o indevido abuso do nome. O próprio Ponto Chic paulistano ousa perpetrar um herético "bauru no pão sírio". Dêem a essa deliciosa variação de beirute um nome qualquer, "baurute" por exemplo, mas defendam com unhas e sobretudo dentes a receita clássica do legítimo bauru no pão francês.

A Câmara Municipal de Bauru decretou e o prefeito promulgou a Lei 4314 de 24-06-98, autorizando o Executivo a providenciar o registro do nome "Bauru", cujos ingredientes especifica: pão francês sem miolo, queijo mussarela derretido na água, fatias de rosbife, rodelas de tomate e de pepino curtido em vinagre; condimentos: orégano e sal.

Essa a fórmula transmitida em 1973 ao Zé do Skinão (José Francisco, 1925-2002) pelo próprio criador do sanduíche famoso, o bauruense Casimiro Pinto Neto (1914-1983), de quem o Zé era amigo. Casimiro, radicado desde moço em São Paulo — onde se bacharelou em Direito, foi radialista (inclusive Repórter Esso), foi diretor da Rádio Panamericana (atual Jovem Pan), foi dono de cartório —, nunca impugnou a fórmula praticada pelo Ponto Chic paulistano, sofisticada num único detalhe: em vez de mussarela, três queijos (prato, estepe e um suíço) com um pouquinho de manteiga.

O bauru tem 67 anos. Foi inventado em São Paulo, em 1936, por Casimiro, então com 22 anos, acadêmico das Arcadas, enquanto jogava sinuca no salão reservado do antigo Ponto Chic do Paiçandu (fundado em 1922, fechado em 1977). O apelido do inventor passou a nome da invenção. A receita original não incluía picles. Casimiro tinha úlcera; mas aprovou a inclusão do pepino iniciada na década de 1950. (Mais detalhes no livro Ponto Chic — Um bar na história de São Paulo, que o jornalista Ângelo Iacocca tem pronto para publicação, fruto de longa, ampla e séria pesqusa.)

Após a morte de José Francisco (três dias de luto oficial), outra lei bauruense (28-08-2002) criou, dentro do Museu Histórico Municipal, o "Espaço Zé do Skinão", destinado a preservar tudo que se refira ao bauru, a Casimiro e ao Zé.

Agora quereis dar uma indulgente risada? Vede o que o dicionário Houaiss registra sobre bauru: Casemiro (em vez de Casimiro), início da década de 1930 (de fato 1936), ovo frito e alface na receita. "Ora, direis..."

Ponto Chic
Em São Paulo, nas Perdizes, Largo Padre Péricles, 139, tel. 3826-0500. Restaurante-lanchonete criado em 1978, nome autorizado pela viúva de Odílio Cecchini, dono do antigo Ponto Chic, que durou de 1922 a 1977. Dos Alves (Antônio, pai, José Carlos, filho). Filial no Largo Paiçandu, 27, tel. 222-6528, desde 1981, reativando o endereço histórico onde foi inventado o bauru. Mais duas filiais, uma no Paraíso, outra em Moema. Bauru: R$7,60. Bauru no pão sírio: R$11,00. Bauru no prato: com fritas: R$13,50; com aliche: R$13,20. (Preços anotados em abril.)

Skinão

Em Bauru, Av. Rodrigues Alves, 10-05, tel. 224-1110. Bar e lanches criado em 1971 por José Francisco, saudoso Zé do Skinão, bem mantido pelo filho Marquinho (Marco Antônio Francisco, 40 anos). Zé, amigo de Casimiro, começou a fazer bauru em 1973, quando soube que o Ponto Chic estava para acabar: não queria que acabasse junto a tradição do sanduíche famoso, batizado com o nome de sua cidade. Todo dia, das 17h à meia-noite pelo menos. Bauru: R$4,00 (preço de abril).


  Notícias  
VIVA O CENTRO propõe melhorias no corredor de ônibus da São João


Preocupada com o impacto urbanístico do futuro corredor de ônibus Pirituba-São João na região central da cidade, sobretudo no trecho em que passará sob o Elevado Costa e Silva, a Associação VIVA O CENTRO encaminhou uma série de sugestões ao presidente da SPTrans, Gerson Luiz Bittencourt, para que a obra não se converta em um novo fator de deterioração dessa área. No documento, a VIVA O CENTRO propõe que: 1) pelo menos na região central, as faixas reservadas aos ônibus não sejam bloqueadas por grandes tachas metálicas (denominadas taxões), mas apenas assinaladas no piso de forma a possibilitar o uso esporádico ou emergencial dessas faixas por outros veículos, evitando-se o estreitamento de pista e o efeito "calha" em toda a via; e 2) para minimizar a poluição visual, a sinalização seja, o máximo possível, afixada no solo. Propôs ainda, título de medidas compensatórias pelos transtornos que o corredor causará na área, as seguintes melhorias sob o elevado, em toda a sua extensão: substituição do forro do teto e do pavimento do canteiro central, tratamento das colunas, intensificação da iluminação e reforma e manutenção das calçadas, implantação de sistema permanente de manutenção, limpeza e segurança (neste último item, mediante convênio com a Guarda Civil Metropolitana, envolvendo a instalação de um conjunto de cabines e de um circuito fechado de TV).

Ladeira da Memória tem que afastar vandalismo


Segurança — é disso que a Ladeira da Memória precisa, agora. Somente com vigilância permanente o restauro do histórico logradouro público, do qual faz parte o monumento mais antigo de São Paulo, o Obelisco da Memória, de 1814, continuará livre de pichações e outros atos de vandalismo.

A recuperação do monumento, executada pela Concrejato, é uma conquista da Ação Local Ladeira da Memória, presidida por Sidnéa de Souza Silva e cujos integrantes não sossegaram enquanto não obtiveram da presidente da Emurb, Nadia Somekh, do subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas, e da equipe técnica do DPH a sua restauração. "Eles não mediram esforços para, diante de nossa solicitação, proporcionar o que todo cidadão pode conferir indo visitar a Ladeira da Memória", diz Sidnéa.

O painel de azulejos, retratando o famoso ponto de partida de tropeiros para o interior do Estado, de autoria de José Wasth Rodrigues, recobrou a beleza; o chafariz voltou a funcionar e foi refeita a jardinagem. Para a limpeza do obelisco, coberto por pichações, a Subprefeitura da Sé providenciou apoio de especialista em Salvador, uma vez que, por sua antigüidade, requer tratamento especial. "No momento, necessitamos urgentemente que o trabalho executado seja resguardado e que a figueira seja tratada, pois é uma das últimas árvores centenárias da cidade", reivindica Sidnéa. "Mas tenho esperanças de que algum empresário saberá aproveitar o privilégio de adotar o monumento mais antigo de São Paulo, às vésperas dos 450 anos da cidade, patrocinando sua manutenção e guarda 24horas."
A Associação, ainda mais próxima das bases


A Diretoria da Associação VIVA O CENTRO decidiu criar mais um canal de comunicação com seus associados. Periodicamente, vai realizar reuniões de Diretoria abertas aos associados e em dependências de instituições filiadas. A primeira dessas reuniões foi realizada em fins de maio na Sala das Plenárias da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). O expressivo índice de comparecimento comprovou o acerto da decisão. Como assunto principal da primeira reunião nesses novos moldes, o presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, apresentou o Plano de Ação 2003/2004 da Associação, que foi amplamente debatido pelos representantes dos associados presentes.

Eleições gerais no Centro em setembro


No dia 10 de setembro, representantes das empresas, condomínios, instituições, lojas, escritórios e moradores do Centro estarão elegendo, pela primeira vez de forma simultânea, as Diretorias e Conselhos Fiscais dos mais de 40 núcleos de Ação Local que hoje funcionam na região. Poderão votar e ser votados os representantes indicados até 22 de agosto. O registro das candidaturas à Diretoria e ao Conselho Fiscal de cada Ação Local deverá ser efetuado entre 15 de agosto e 2 de setembro, na Área de Apoio ao Programa de Ações Locais da Associação VIVA O CENTRO, com Teresinha Santana. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones 3242-3415, 3398-8807 e 3398-5797 ou no site www.vivaocentro.org.br.

O Programa de Ações Locais é coordenado pela Associação VIVA O CENTRO e conta com o patrocínio das bolsas de Mercadorias & Futuros (BM&F) e de Valores de São Paulo (Bovespa). Cada Ação Local atua em uma microrregião do Centro, exercendo uma função de zeladoria urbana da área. Entre suas tarefas incluem-se oferecer propostas e sugestões à administração pública, estimular parcerias entre empresas e poder público e exercer contínua fiscalização dos serviços e equipamentos de uso coletivo em sua área. Dotadas de autonomia funcional e regidas por um Estatuto padrão, as Ações Locais têm se revelado um eficiente instrumento de participação da sociedade na gestão do Centro. Entre os muitos benefícios que o Programa tem conquistado para a região, contam-se a reurbanização — em parceria com empresas locais — e manutenção de logradouros (como o Vale do Anhangabaú, com suas fontes e jardins recuperados, a bem-conservada Praça Ramos de Azevedo e a Praça Desembargador Mario Pires, esta totalmente reformada), programas de coleta e reciclagem de lixo para pessoas carentes, cursos de alfabetização para funcionários de edifícios, colaboração em ações sociais (como a desenvolvida pela Fundação Projeto Travessia) e constante participação em projetos desenvolvidos pela Prefeitura e pelo Estado no Centro.

Roosevelt aceita telecentro que Arouche não quer


O telecentro projetado pela Prefeitura em parceria com a Telefonica para o Largo do Arouche, depois de sofrer forte rejeição da comunidade, ainda tem chance de ser instalado no Centro, provavelmente na Praça Roosevelt. No final de maio, enquanto as Ações Locais Santa Cecília, Largo do Arouche, Vieira de Carvalho e República I manifestavam-se contrariamente, a presidente da Ação Local Roosevelt, em reunião do Conselho de Representantes das Ações Locais, manifestava interesse de ver esse serviço instalado na praça, como mais um fator positivo no processo de sua recuperação. A Subprefeitura da Sé prometeu estudar a oferta, considerando a disposição da população da Roosevelt para acolher esse projeto de inclusão digital.


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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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