O Despertar da Vila Buarque
Saem as casas noturnas, chegam as escolas, hotéis e instituições é o novo perfil da antiga Boca do Luxo
Federico Mengozzi
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)
Vila Buarque. O nome sugere um bairro, mas é Centro. Mais acertado seria denominá-la bairro central, como Santa Ifigênia e parte da Bela Vista e da Liberdade. Já foi reduto de vida noturna e prostituição de luxo daí o apelido, hoje em desuso, de Boca do Luxo, contrapondo-se à Boca do Lixo sediada em Santa Ifigênia. O que é a Vila nos dias atuais? Um bairro central predominantemente residencial, de pequena classe média, com comércio local, alguns cabarés e bares remanescentes, instituições importantes como a seção paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais. Mas há uma outra, e surpreendente, Vila Buarque em gestação. Novos empreendimentos, como um hotel da rede internacional Accor, ainda não tiveram maior impacto sobre a velha paisagem ele nem foi oficialmente inaugurado , mas já despertam um impulso de mudança na comunidade local. Como seria essa nova Vila Buarque?
"As empenas dos edifícios seriam pintadas pelos artistas gráficos de São Paulo, como Laerte, Glauco, Angeli, Elifas Andreato, Maringoni, a partir de temas do principal Buarque, o Chico. As ruas seriam bem iluminadas e muitas bloqueadas nos fins-de-semana para as crianças brincarem. A estação República do metrô teria uma banca para vender ingressos para os teatros do bairro e bônus para um cafezinho no Floresta ou no coffee shop do Hotel Eldorado. O Espaço Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas, seria um videoclube às tardes e o restaurante do Instituto dos Arquitetos do Brasil voltaria a funcionar com noitadas do Clube do Choro. As boates, centros de tráfico e malandragem, deveriam ser fechadas em nome da Lei do Silêncio. E mais: recuperar o Edifício Copan conforme o projeto de Oscar Niemeyer, restaurar os afrescos da Igreja da Consolação, que teria concertos sacros diariamente, plantar árvores e fazer um calçadão unindo o antigo restaurante Redondo ao Teatro de Arena..."
Nada garante que a Vila se transforme no bairro dos sonhos de Sérgio Gomes, mas as idéias fluem rápidas para o jornalista, professor da ECA-USP e diretor da Oboré, editora especializada em comunicação sindical, há oito anos instalado no bairro, quando lhe perguntam sobre o futuro da Vila Buarque. Gomes integra um grupo de moradores, empresários e dirigentes de instituições mobilizados para que a Vila Buarque desmereça cada vez mais a alcunha que a estigmatizou. O bairro quer ser um bom lugar para se viver em pleno Centro é parte do distrito República. Para tanto, o grupo incorporou o espírito de requalificação urbana deflagrado há mais de uma década pela Associação VIVA O CENTRO. Na área da iniciativa privada muito já foi feito. "Mas pouco se fez pelos moradores. A ação da Prefeitura é limitada. Não há ruas de lazer, a iluminação continua péssima, muitas lojas fecharam e viraram estacionamentos", diz Sérgio Gomes.
Entre as novidades positivas ele menciona a ida para o bairro da sede da Secretaria Municipal da Saúde, a construção do Hotel Mercure Downtown, as novas instalações do Instituto Polis, a Escola da Cidade faculdade de arquitetura e urbanismo que funciona em dois edifícios de apartamentos reciclados , a retomada da feira de arte na vizinha Praça da República, a instituição do Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura e a ocupação de um edifício do bairro pela Ação Educativa, entre outras iniciativas. Aos poucos a imagem do antigo bairro boêmio, em processo de deterioração acelerada, vai ficando para trás. Mas, para mirar o futuro, é preciso começar a olhar para si e ver, afinal, o que é que a Vila tem de bom.
Tem muito, como deixa claro o Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura, que inclui as principais instituições locais, como a Ação Educativa, a Aliança Francesa (ver o box), a Biblioteca Monteiro Lobato, o Centro Cultural da Santa Casa, o Centro Histórico da Universidade Mackenzie, o Centro Universitário Maria Antonia, a Escola da Cidade, a Escola de Sociologia e Política, o Instituto dos Arquitetos do Brasil e o Sindicato dos Jornalistas. O objetivo é divulgar os serviços culturais e educativos do bairro e, espantando a ainda arraigada imagem de bas fond, contribuir para mudar o seu perfil, atraindo novos empreendimentos. A recente abertura parcial do hotel Mercure Downtown, na Rua Araújo, um quatro estrelas da rede internacional Accor, com 260 apartamentos, é um passo importante nesse sentido Trata-se do primeiro hotel de porte erguido no Centro em mais de 20 anos e apresentará a região a um público qualificado. O empreendimento junta-se a outras novidades do ramo hoteleiro no Centro, como a reforma do tradicional Hotel Jaraguá, agora com a marca Holiday Inn, e a construção do hotel Formule 1, também da Accor, na Avenida São João.
A Boca do Luxo teve memorialistas ilustres como o romancista Marcos Rey, que descreve alguns de seus aspectos em livros como A Arca dos Marechais, cujo protagonista é um passador de notas falsas, que gasta esse dinheiro fácil em noitadas pelas casas da Rua Major Sertório, a mais conhecida do bairro. Mas o suspeito glamour, que se manifestava em casas como a célebre La Licorne, com elegantes mulheres de vestidos longos, ficou para trás. Havia a gafieira Som de Cristal, com suas noites dançantes, hoje transformada em boate GLS, a Danger. E o inesquecível restaurante Parreirinha. "A Vila Buarque já foi pior", diz Maria Antonia Pavan de Santa Cruz, da Livraria Duas Cidades, que há décadas convive com os problemas do bairro. Segundo ela, nos anos 80 parecia que o bairro ficaria inviável. Não ficou. Mas, mesmo reconhecendo a melhora, ela acha que a reversão do processo de deterioração ainda demora e que o poder público é omisso.
Mobilização
A comunidade faz o que pode. De 1999 a 2002, semanalmente, em reuniões que ostentavam o nome sugestivo de "A Arte do Convívio", moradores e lojistas da Vila Buarque se encontravam na Duas Cidades para sugerir ações em favor do bairro. Abordavam-se problemas como arborização a partir de então, muitas árvores, como jacarandás e resedás, foram plantadas -, pavimentação, coleta e reciclagem de lixo, iluminação pública e poluição visual, sem esquecer os moradores de rua, travestis, viciados em drogas etc. Porém, lembra Maria Antonia, já na administração Marta Suplicy, acreditando-se que o Plano Diretor desenvolvido pela Secretaria Municipal do Planejamento (Sempla) resolveria os problemas da região, as reuniões acabaram. Para ela, novos equipamentos que ajudem a requalificar o bairro são importantes, mas é vital um "trabalho com os jovens, nas escolas, junto com os professores e pais, para incutir noções de cidadania e respeito".
Nessa direção atuam a Ação Educativa e a Escola da Cidade. A primeira, uma ONG presente em todo o Brasil, trabalha com educação de jovens e adultos moradores de cortiços em regiões centrais, explicando-lhes, por exemplo, o que significa qualidade de vida. Já a faculdade, fundada há dois anos por um grupo de 81 profissionais e acadêmicos, entre arquitetos, urbanistas, sociólogos, historiadores etc., quer transformar, por meio de projetos de intervenção urbana com forte viés social, não só o bairro mas também aglomerações periféricas como Capão Redondo, Jardim Ângela e Sapopemba, diz seu diretor, o arquiteto Ciro Pirondi. Para tanto, começou por reformar os edifícios residenciais que ocupa na Rua General Jardim e o entorno imediato, restaurando um bom trecho da calçada. Pirondi tem escritório no prédio do IAB, quase em frente à escola, e mora no edifício Copan. Uma vivência rara de Vila Buarque, região que, para ele, possui um incrível potencial, com suas escolas, lojas, moradias e restaurantes, e que sem dúvida está mudando para melhor. Contando com a vizinhança imediata, a Vila tem quatro instituições de ensino superior (dentre as quais uma grande universidade, a Mackenzie), uma dezena de teatros, mais de 30 restaurantes de vários níveis e cerca de 40 entidades de classe.
"O lado bas fond do bairro diminuiu, pulverizou-se", diz Pirondi. "E uma série de iniciativas, como a Aliança Francesa, que optou por restaurar o seu prédio em vez de se mudar, estimula o conjunto. No mundo inteiro, de Barcelona a Paris, as áreas centrais se renovam. Temos é que evitar erros, como foi tirar a função escolar do edifício Caetano de Campos." Para o arquiteto, cada esquina tem seu valor na comunidade. "Não existe urbanização sem urbanidade", diz, enfatizando que a localização da Escola da Cidade, entre a degradação do espaço urbano e grandes construções históricas, é fundamental para "pensar, intervir e experimentar concretamente na conturbada paisagem paulistana". Para ele, é preciso dar tempo para a renovação. "Cinqüenta anos na vida de uma cidade é pouco." A exemplo da Escola da Cidade, o Instituto Polis, voltado para a pesquisa e o desenvolvimento de políticas públicas para a melhoria da cidade, incluindo programas de treinamento de líderes comunitários, também recuperou um prédio abandonado para, vindo do Itaim-Bibi, nele manter a sua nova sede. É o bairro reagindo.
"A Vila Buarque foi uma região muito depreciada, mas, apesar da falta de medidas mais efetivas por parte do poder público, aos poucos se transforma." A opinião é do jornalista Fred Ghedini, presidente do Sindicato dos Jornalistas, há décadas sediado na Rua Rego Freitas. Para agregar ainda mais as pessoas que atuam na área é que o sindicato, com as demais instituições, luta pela criação de uma rádio comunitária, iniciativa que depende da aprovação, pela Câmara Municipal, do projeto sobre exploração do Serviço de Radiodifusão Comunitária apresentado pelos vereadores Carlos Neder e Ricardo Montoro. A exemplo de outras rádios comunitárias, que colocam a voz da região no ar, a emissora da Vila motivaria os moradores a se envolver mais com as causas locais.
Através da Oboré, Sérgio Gomes lançou há quase dez anos a idéia do Vivavila, projeto de recuperação urbana e cultural do bairro, e ajudou a propor a rádio comunitária. Se esta já estivesse funcionando, Sérgio diria aos ouvintes que ainda não existe uma nova Vila Buarque. Reclamaria do persistente abandono da Praça Roosevelt e colocaria no ar idéias para o bairro de seus sonhos. Que, diga-se, está cada vez mais próximo da realidade.
|
ADEUS, BOCA DO LIXO E CRACOLÂNDIA
|
Cada vez mais, quando se fala no bairro de Santa Ifigênia, as pessoas se referem ao ativo centro comercial de materiais eletroeletrônicos e de informática. Com o tempo, vão se esquecer de que a região já foi conhecida como Boca do Lixo e, mais recentemente, Cracolândia. Aos poucos a região, que abriga alguns dos equipamentos culturais mais importantes da cidade, como a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo, começa a mudar. Mas não se altera a história com um passe de mágica. Conta-se que, no início do século passado, uma certa Madame Pommery mantinha mulheres européias francesas, "polacas", russas em seu "Palácio das Luxúrias", em plena Avenida São João. Com a Estação da Luz e, posteriormente, a inauguração da estação Sorocabana, fixando a área como ponto de entrada e saída de São Paulo, a prostituição passou a ocupar a região, até ser confinada, nos anos 40, pelo interventor estadual Adhemar de Barros, em casas das ruas Aimorés e Itabocas, esta a mais famosa delas, hoje denominada Professor Cesare Lombroso, entre a Rua José Paulino e o leito ferroviário, no Bom Retiro.
Havia controle das condições de saúde das prostitutas, que também contavam com alguma proteção do Estado. Na década de 50, o governador Lucas Nogueira Garcez acabou com a zona de meretrício e a prostituição espalhou-se pelas proximidades da Estação da Luz, que passou a ser conhecida como Boca do Lixo. A decadência do bairro dos Campos Elíseos e a inauguração da estação rodoviária, nos anos 60, reforçou o papel de bas fond da região, que logo passou a abrigar salas que exibiam filmes eróticos, além de produtoras e distribuidoras de cinema. Nos anos 80, a vida noturna do bairro começou a mudar e, à medida que chegava o crack, as prostitutas se afastavam, até que ambos, como acontece atualmente, reduziram sua área de ação. A ex-Boca do Lixo ainda não é um paraíso, mas iniciativas como os equipamentos culturais (Sala São Paulo, Pinacoteca, Museu do Imaginário no prédio do extinto Dops, Universidade Livre de Música etc.),a recuperação de alguns prédios tombados e do Jardim da Luz, o restauro e a modernização da Estação da Luz, o programa Monumenta, que requalificará uma vasta área próxima, e o próprio dinamismo do centro comercial de informática na Rua Santa Ifigênia e transversais, prometem a médio prazo mudanças expressivas no perfil local.
|
|
|
 |