Turismo a sério
Plano de marketing quer dobrar o número de visitantes e multiplicar receitas turísticas até 2010
São Paulo é um bom lugar para fazer negócios e, na qualidade de capital sul-americana dos eventos — são cerca de 7 mil por ano entre congressos, convenções, feiras e seminários —, um bom lugar para ver e ser visto. Mas também é uma cidade para o lazer. A maior metrópole do país e do Hemisfério Sul já oferece, com seus museus e teatros, restaurantes e vida noturna, lojas e shoppings, o que os brasileiros ainda vão buscar em Nova York. Como a Big Apple, São Paulo não tem uma imagem associada a belezas naturais, mas a elementos urbanos. Por isso, o Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo, encomendado pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPC&VB) à empresa espanhola Marketing Systems, criou um logo e um slogan que "vendem" a imagem de uma metrópole ciclópica e efervescente, e, evocando uma frase dos tempos de crescimento febril, mostram que a cidade não pode mesmo parar. No logo, as iniciais SP, em cinza e vermelho, sugerem dinamismo. No slogan "São Paulo. Tudo acontecendo agora", a sugestão de que não há um minuto a perder.
Avenida Paulista, monumento às Bandeiras, Museu de Arte de São Paulo, prédio do Banespa, Teatro Municipal... São inúmeros pontos de identidade, mas nenhum deles simboliza a cidade de forma inequívoca. Por isso, explica Glen Martins, diretor de criação da McCann Erickson, agência de publicidade que desenvolveu o logo e o slogan, cedendo-os à cidade, escolheu-se uma abstração que aponta para a multiplicidade paulistana. "A marca precisava mostrar a vibração e o dinamismo da cidade." A função das duas peças se assemelha à da marca que, nos anos 70, contribuiu para alavancar o turismo nova-iorquino, I love New York, com o coração no lugar do love. Tanto o logo quanto o slogan enfatizam a imagem de uma cidade que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. "A idéia", diz Roberto Gheler, presidente do SPC&VB, entidade mantida pela iniciativa privada para promover a cidade como destino turístico e sede de eventos, " é caracterizar São Paulo como a grande cidade do Brasil, rejuvenescida, com um estilo único."
Segundo Gheler, ao incorporar essas qualidades, afirmando-se pela oferta cultural e pelas opções de lazer, São Paulo amplia seu espectro de interesse turístico, sem rejeitar, mas somando, o filão vitorioso do turismo de negócios e eventos, principal razão da vinda de mais de 50% dos visitantes estrangeiros. O Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo atende à necessidade de traçar uma estratégia para alavancar a atividade turística numa cidade de enorme potencial e é uma resposta a problemas imediatos, como a baixa ocupação dos hotéis. Enquanto São Paulo tem 60 mil apartamentos em hotéis e flats, com muitas unidades a ser inauguradas, e recebe cerca de 6,5 milhões de turistas por ano, Nova York possui uma capacidade pouco superior, 70 mil apartamentos, mas recebe 37 milhões de visitantes. A curto prazo, um dos objetivos do plano, que este ano divulgará a cidade no Brasil e países vizinhos para, no próximo, divulgá-la nos Estados Unidos e Europa, é fazer com que o visitante, que permanece em média 2,24 dias, fique um dia a mais. O que se quer, numa primeira etapa, confirma Gheler, é que o turista que vem a negócios reserve dois dias para atividades comerciais e um dia para as atrações da cidade.
Desequilíbrio
Há um desequilíbrio entre a oferta hoteleira e a demanda turística, agravada pela crise econômica dos últimos anos. No início da década de 90, a taxa média de ocupação dos hotéis era de 70%, contra os críticos 45% de hoje — nos dias úteis, a taxa é de 59,1%, caindo para 29,7% nos fins de semana. Se tudo correr como o previsto, já em 2004 São Paulo receberá 8,5 milhões de turistas, do Brasil e do Exterior. Pesquisas revelam que 1 milhão de turistas geram uma receita de R$ 1,3 bilhão para a cidade e criam cerca de 55 mil empregos diretos. Em 2010, quando o plano estiver consolidado e os resultados mais que visíveis, espera-se que a cidade receba 16 milhões de turistas, mais do que o dobro de hoje, com reflexos em todas as áreas. Só de empregos, uma das maiores carências brasileiras, serão criados por volta de meio milhão.
O turismo é a maior indústria do mundo, não polui e, além de empregos em vários níveis, gera renda. A França, a Espanha e os Estados Unidos, os três primeiros colocados no ranking de destinos turísticos, investem continuamente no setor. É por isso que o plano encomendado pelo SPC&VB, com o apoio da Empresa Brasileira de Turismo, Embratur, e a Visa do Brasil, prevê oito anos de trabalho, divididos em cinco programas, 42 projetos e 64 ações. Como a cidade, o plano não pode parar, lembra Gheler, que evoca a experiência nova-iorquina. "Na década de 70, Nova York estava com uma péssima imagem. A taxa de permanência era de uma noite. Foram necessários dez anos para mudar. E, após 30 anos do lançamento da marca I love New York, a cidade mantém seus esforços."
O plano paulistano foi elaborado em nove meses, a um custo de R$ 300 mil. Para as ações deste ano, como os 300 outdoors destinados a elevar a auto-estima do cidadão, prevêem-se aportes, captados junto ao trade turístico, setor financeiro e outros segmentos, de R$ 6 milhões e, para as do próximo ano, de R$ 13,5 milhões.
Cultura e entretenimento (124 museus e 62 teatros), gastronomia (2 mil restaurantes) e compras (30 shoppings e diversas ruas comerciais especializadas, como a José Paulino, a Santa Ifigênia e a 25 de Março). Sem renegar o fato de São Paulo ser o mais importante pólo comercial e financeiro da América do Sul, ou seja, sem negligenciar o turismo de negócios, são esses os principais itens que contribuirão para que se enxergue São Paulo com outros olhos. Com os olhos com que se vê, vale insistir, Nova York. A opinião é do catalão Josep Chias, presidente da Marketing Systems, a empresa de consultoria espanhola que desenvolveu os planos de turismo das cidades de Barcelona, na Espanha ("Turisme de Barcelona"), e Rio de Janeiro ("Plano Maravilha"). Como Nova York, São Paulo também se insere no eixo denominado genericamente de "sensações e estímulos", contrapondo-se a cidades que oferecem "natureza e cultura" ou "qualidade e preço". "A imagem que deve ser vendida da cidade", diz Chias, "é muito próxima daquela que as pessoas têm com relação a Nova York."
"É preciso mudar a imagem da metrópole e dizer que, ao lado do turismo de negócios, ou depois dos negócios, São Paulo é um bom lugar para passear", enfatiza Aristides de la Plata Cury, consultor do SPC&VB. Mais do que isso, é preciso explicar ao mundo que São Paulo, a principal metrópole brasileira, que com Nova York integra o clube das cinco maiores cidades do mundo, é agitada, dinâmica e vibrante. Agora que entra em sua terceira etapa (a primeira consistiu, ouvindo-se profissionais do trade e mais de 700 turistas brasileiros e estrangeiros, em descobrir as reais potencialidades turísticas da cidade, e a segunda em desenvolver o logotipo que deverá ser associado, sob a supervisão do SPC&VB, a todo tipo de evento, promoção ou propaganda), o Plano de Marketing do Turismo quer, juntando-se a iniciativas em curso, como o Plano Municipal de Turismo, estruturar produtos para cada público-alvo e afirmar uma identidade turística própria, que contribua para inserir São Paulo nos roteiros internacionais.
Para cada público, destaca Gheler, haverá um objetivo definido: que o turista do interior passe um fim-de-semana por mês na cidade, que o turista de outras partes do país a visite uma vez por ano e que os estrangeiros a incluam em seu roteiro pelo Brasil. Para cada objetivo, produtos novos que enfatizem o novo viés de São Paulo como uma cidade de sensações e estímulos. "O turismo gera emprego e renda ao menor custo. Hoje o setor, que engloba 52 subsetores variados, responde por 4% da economia do Estado de São Paulo, percentual que tem tudo para crescer", explica o ex-secretário de Estado de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, Ruy Altenfelder Silva. "Estado e Prefeitura atuam de forma harmônica, acompanhando a política estadual de turismo, que contempla também 645 municípios do Estado, articulados regionalmente. Não poderia ser diferente. A Capital é o maior portão de entrada e saída de visitantes do Estado. E nela, claro, cabe destacar o Centro, que tem vocação para o turismo, como berço da cidade e por sua vida cultural."
Para Altenfelder, o Estado é um fomentador da atividade, que se vale de investimentos privados e públicos. "Em estradas, saneamento etc., o Estado investe duas vezes o que investe o setor privado", diz. Mas ele vinha atuando de forma meio romântica. Cabe ao governo, porém, potencializar a vocação do Estado — o site www.turismopaulista.sp.gov.br, instituído com o Cepam-Fundação Prefeito Faria Lima, contribui para cumprir essa função —, atuando na formação de mão-de-obra especializada, inclusive de nível superior, e zelando pela infra-estrutura. E deixar que a vocação para o turismo flua e que venham, para benefício de todos, os visitantes. (Federico Mengozzi)
|
|
 |