ANO V   -   No. 30   -   abril / maio 2003
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Centro, presente de 450 anos para São Paulo
Destaques  Jóia da Tabatingüera
Artes gráficas ganham museu
Rizkallah Jorge reciclado para moradia
UBE em sede própria
Câmara votará destino do TBC
Urbanismo e moda no Masp
Reportagem  Turismo Plano quer dobrar número de visitantes
Aviação Campo de Marte será reequipado
Cidadania Da rua ao shopping popular
Transporte Rede de metrô e trem ganha forma
Urbanismo Nacional  Vantagens do retrofit
Urbanismo Internacional  A atualidade do VLT
Entrevista  Alfredo Garay
Cultura  Banespa A torre de São Paulo
Temporada 2003 O que ver e ouvir este ano
Fotografia Metrô de São Paulo
Mix Artes e Espetáculos  Cultura em vez de pregão
Caixa de sonhos
A Roosevelt dos bons tempos
Exemplo de recuperação
Mix Livros  Ferramenta de ação social
Botti e Rubin em livro
Viagem pela arquitetura carioca
Modelo equivocado
Agruras do planejamento
Mix Mesa  Da Casa-grande ou da Senzala?
Notícias  AÇÕES LOCAIS, ainda mais eficientes em 2003
Associação sugere medidas para o comércio informal
Edifícios Eiffel e São Luiz recuperam fachadas
Delegacias do Centro livres da carceragem
Centro terá unidade de apoio a coleta solidária
São Paulo na disputa olímpica
Ação Local 9 de Julho projeta centro comunitário
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  Palavra do Editor  
Uma rede de transporte rápido sobre trilhos, com metrô e ferrovia articulando os principais pontos da região metropolitana, é aspiração natural em qualquer cidade do mundo que ainda não a tenha. Em São Paulo é quase utopia. A tal ponto sonhada e perseguida que, quando o então prefeito Faria Lima deu início às obras da linha Norte-Sul do metrô, há mais de 30 anos, houve peregrinação para conhecer o pioneiro canteiro de obras ao longo da Avenida Jabaquara. Era um programa cívico. Mas, nas décadas seguintes, a expansão das poucas linhas perdeu o ímpeto e estas, por muito tempo, confinaram-se em escassos 49 quilômetros (agora 58), enquanto um metrô da mesma geração em metrópole do mesmo porte, o da Cidade do México, chegava aos 178 km em dez linhas. Ora, São Paulo conta com 270 km de linhas de trens suburbanos que, com a expansão da cidade, tornaram-se urbanos e, modernizados, vêm se incorporando plenamente ao sistema metroviário. Com o Plano Integrado de Transportes Urbanos, Pitu, o governo do Estado trabalha para que, até 2020, São Paulo vença o atraso. É muito chão pela frente, mas a desejada rede de trilhos já estará prefigurada bem antes desse prazo, à medida que as etapas forem cumpridas. A reportagem de capa permite ao leitor atualizar-se sobre os avanços que, apesar da conjuntura difícil e da complexidade técnica da empreitada, o Pitu vem conquistando. Bem a propósito, na seção Urbanismo Internacional o leitor conhecerá aspectos da experiência francesa com o VLT, versão aperfeiçoada do tradicional bonde.

Outras reportagens falam dos planos para o turismo na cidade; do Campo de Marte como um futuro aeroporto de aeronaves executivas vizinho ao Centro e no interior do complexo de eventos e hotelaria do Anhembi; da Feira de Quem Faz, que transforma pequenos artesãos em microempresários e, com adaptações, pode constituir-se em mais um modelo alternativo para os camelôs se converterem em comerciantes formais. A pauta cultural inclui reportagem sobre o edifício Altino Arantes, a emblemática torre sede do Banespa, com seu mirante, museu e galeria de arte, e um panorama dos principais eventos culturais de 2003 na área central. O leitor gostará do ensaio fotográfico de Davilym Dourado sobre os trilhos e estações do metrô e do Traço de Paulo Penna, uma novidade por tratar-se de gravura em página até agora ocupada soberanamente pelo desenho. Mais? A entrevista com Alfredo Garay traz a lúcida e vibrante visão do Centro que o urbanista argentino, como consultor do BID, amadureceu em longas permanências na cidade. O artigo sobre retrofit, que o arquiteto Augusto Ferreira assina com dois colegas, aborda um assunto de extraordinária atualidade. E não se esqueça, leitor, das seções. Boa leitura e até a próxima vez.

O editor



  Cartas  
Patriarca
Sou estudante de edificações na escola Senai e, como sempre estou andando pelo Centro de São Paulo, me deparei com o projeto da Praça do Patriarca. Logo me apaixonei e me interessei em saber mais sobre o projeto. Foi tão apaixonante que, não podendo conter só comigo essas informações, resolvi fazer uma exposição na escola sobre este projeto, que com certeza é um marco em nossa cidade. (...) Parabéns pela qualidade da revista. Os textos, fotos e a abrangência que nos dá sobre arquitetura e urbanismo são fantásticos. Com certeza urbs enriquece muito nosso repertório acadêmico e profissional.
Cristiano Luís
por e-mail

urbs nº 29
Muito boa a entrevista com Gregório Gruber. Visitar sua exposição no Masp Centro e na BM&F foi uma aula de São Paulo. Que as "cores emocionais" do artista reinem sobre o cinza-pálido dos burocratas.
Luciane Zamora
por e-mail

O pórtico que Paulo Mendes da Rocha projetou para a Praça do Patriarca, não fossem seus méritos estéticos, já estaria justificado por trazer de volta a discussão sobre os espaços públicos da cidade. Os jornais trazem as mais desencontradas opiniões de leitores sobre o artefato e o novo visual do logradouro. Algumas são apocalípticas, outras ressentidas, muitas sensatas. O fato é que a forma é bela e a praça finalmente respira. A reportagem ("Presença Indutora") mostra que ela vem tendo influência positiva sobre as imediações. Pois bem, que não se teime em enxergar a praça como se tivesse sido até há pouco uma bucólica pracinha, com coreto e footing ao som da banda, vítima de uma intrusão modernosa. Lembre-se o horror que o lugar foi nas últimas duas ou três décadas: uma garagem de ônibus ao ar livre, com fumaça, barulho e camelôs. Quanto à igreja, tombada, quem disse que tem sua visão prejudicada pelo pórtico? A antiga cobertura, muito feia, compacta e sem "janelas", é que barrava o olhar.
Carlos Guilherme Simões
por e-mail

Erro
Escrevo para observar que na urbs nº 28 (outubro/novembro de 2002), à página 37, a foto relacionada ao texto sobre o curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia de São Bento trata, na verdade, de um espaço da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. O vitral ao fundo da escadaria fotografada é, salvo melhor juízo, do acervo arquitetônico da velha Academia.
Hermann de Oliveira
Florianópolis-SC
Resposta do editor: O atento e atencioso leitor tem plena razão. As fotos desta e da nota ao pé da página anterior, sobre a Faculdade de Direito e o Centro Acadêmico XI de Agosto, estão trocadas.

Correio
Do mais alto ponto do edifício espio
Embaixo o som do vozerio intenso
No imenso e majestoso prédio ao lado
Operários trôpegos na escalada muda
Seguem a sina do seu triste fado
Trepidações, estrépitos, eu me arrepio
Picaretas atrevidas a desnudar o esteio
Vigas mestras tombadas num barulho surdo
E a poeira fina a toldar o sol alheio.
E eu só, sufocada, aflita, desamparada
Espio e assisto, ao lado, a reforma
do Correio.
Correio, meu velho amigo, vizinho
de tantos anos
Testemunha calada dos meus amores,
temores, desenganos
Tantas confissões, saudade, lembranças
Abrigaste desde cedo, apertado,
no teu largo seio
Provas acabadas, paixões, amores desfeitos
Cartas, saudações, despedidas
Mãe que chora, irmão que abraça
Sonho que espera, amor infinito
Saudade que aperta, coração doído
Quantas memórias, meu velho
companheiro
Correio, meu leal amigo.
Dado que a reforma vai mudar tua cara
Pergunto eu, e agora?
As cartas serão as mesmas?
Os recados, telegramas, a vã cobrança
Destinatário, remetente, tudo no sobrescrito
Chegarão a tempo e à hora?
Nas mãos do mensageiro hábil
Terão o condão de acalmar a
afoita ansiedade
De quem espera e da saudade
Que fundo cala e o coração invade?
Correio, não me deixes nunca esperando
Aflita pela carta que não veio
Quero ficar ao teu lado respirando
O mesmo ar, a mesma poluição cerrada
Desta Paulicéia amada e desvairada
Por muitos e muitos anos
Na Praça do Correio.
Agair Therezinha Paduan
São Paulo-SP



  Panorama  
Centro, presente de 450 anos para São Paulo


Ao comemorar o seu quarto centenário de fundação, em 1954, a cidade ganhou o Parque do Ibirapuera. Como presente de 450 anos, ela deveria ter de volta o seu Centro.

Associado às transformações estruturais que a cidade experimenta, o abandono do Centro está na origem da crise de identidade que acomete os paulistanos há mais de duas décadas e minimiza os símbolos, o lugar da história e o sentido da evolução urbana de São Paulo. O Centro é o espaço em que a cidade tem efetivamente 450 anos. É nele que se encontram os testemunhos das origens, os momentos arquitetônicos, o multiculturalismo dos bairros de imigrantes e as manifestações do avanço cultural e tecnológico que faz de São Paulo uma cidade global.

Nada mais lógico que os 450 anos da cidade sejam comemorados devolvendo-se o Centro à experiência, ao imaginário e ao afeto dos paulistanos. Em entrevista que consta desta edição, o urbanista argentino Alfredo Garay afirma que o Centro molda o imaginário das pessoas em relação à cidade, de tal maneira que, se o Centro está deteriorado, imagina-se que a cidade inteira também está. O que pode ser entendido num sentido inverso — se o Centro está cuidado, a cidade também será percebida como tal. Qualquer intuito de mobilização popular e de arregimentação de corações e mentes para melhorar São Paulo não poderá fugir dessa constatação.

É necessário preparar o Centro para os 450 anos. O que significa, antes de mais nada, devolver o espaço público ao uso e fruição das pessoas, pois é nele que ocorre a conciliação do paulistano com a cidade. Em termos práticos, preparar o Centro resume-se a um conjunto de providências que, anunciadas repetidas vezes, teimam em não se concretizar e que, agora, deveriam estar obrigatoriamente implantadas para que a região volte a ser a grande referência cívica e simbólica de São Paulo. Desprivatizar os espaços públicos ocupados pelo comércio informal, recuperar monumentos e fachadas, implantar um sistema eficiente de limpeza e coleta de lixo, melhorar a iluminação pública, reforçar a segurança e a vigilância contra o vandalismo e operacionalizar um sistema de manutenção e conservação de logradouros, equipamentos públicos e mobiliário urbano — em suma, dotar o Centro de uma gestão eficaz — são algumas dessas providências. Mas também é preciso realizar obras que, a despeito de seu custo relativamente baixo, serão percebidas pela população como um inequívoco sinal de que o Centro e, conseqüentemente, a cidade se recuperam. É inimaginável festejar os 450 anos da metrópole sem um Centro à altura da grandeza de São Paulo e de seu povo.

* Uma sugestão dentro do tema dos 450 anos de São Paulo, visando à recuperação do Parque do Ibirapuera: por que não transferir de lá para o Centro a Empresa de Processamento de Dados do Município, a Prodam, livrando o parque da intensa movimentação de veículos que ela demanda e liberando o prédio que ela ocupa para o Museu de Arte Moderna, o MAM?

MARCO ANTONIO RAMOS DE ALMEIDA
Presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO


  Destaques  
Jóia da Tabatingüera

A pouco mais de 300 metros da Catedral da Sé, que após restaurada vem recebendo milhares de visitantes, a secular Capela Menino Jesus e Santa Luzia, à Rua Tabatinguera, 104, também merece uma visita para se apreciar a beleza recuperada pelo cuidadoso restauro já realizado pelo Escritório de Arquitetura Helena Saia, graças a doações da Eletropaulo (associada à VIVA O CENTRO), do próprio vigário Avelino Bernardo Panni e de vários fiéis. Construída em estilo neogótico, a capela, de autoria do arquiteto Domingos Del Piano e do pintor florentino Orestes Sarcelli, foi inaugurada em dezembro de 1901, achando-se tombada pelo Condephaat desde 1994. Esteve interditada durante anos pelo Contru, devido a uma praga de cupins e infiltrações de água. Mas hoje tem o restauro quase finalizado. "Nos faltam cerca de R$ 80 mil para concluir a parte artística, para o que aceitamos patrocínio e/ou doações", diz o vigário Avelino (tel. 11 3104-8032). Aberta à visitação de segunda a sábado, das 7 ao meio-dia e das 13h às 18h; e aos domingos, das 7 ao meio-dia.

Artes gráficas ganham museu

Com mais de dez mil originais de cartuns, charges, caricaturas e histórias em quadrinhos, foi inaugurado no final do ano passado pelo governador Geraldo Alckmin o Museu das Artes Gráficas do Brasil, com exposições de dez artistas renomados, entre eles os cartunistas Ziraldo, Laerte, Jal e Angeli. O museu fica à Rua Voluntários da Pátria, 596, Santana, no prédio do Arquivo do Estado, e foi idealizado pelo cartunista Gualberto Costa, também criador do Prêmio HQMix, que o preside. Além de mostras especiais programadas para o espaço neste ano, o público pode acessar a biblioteca, com 12 mil publicações, o HQMix 2003 e uma livraria especializada. Detalhe: é o único lugar do país com tecnologia de restauro e conservação de papel.

Rizkallah Jorge reciclado para moradia

A prefeita Marta Suplicy e o secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sehab), Paulo Teixeira, inauguraram o reformado Edifício Rizkallah Jorge, no Anhangabaú, resultado de parceria assinada em 2001 pela Prefeitura e a Caixa Econômica Federal (CEF), que implementou o Programa de Arrendamento Residencial (PAR), destinado a garantir moradia à população de baixa renda. O Riskallah, edifício de estilo clássico, tombado pelo Condephaat, foi recuperado segundo projeto da arquiteta Helena Saia e com obras a cargo da Cury Empreendimentos. É o terceiro empreendimento inaugurado a partir do convênio Prefeitura-CEF e atenderá a 167 famílias do Movimento de Moradia do Centro (MMC). Os outros dois são o Fernão Sales, à Rua Fernão Sales, 24, com 54 unidades habitacionais, e o antigo prédio do Banespa, à Avenida Celso Garcia, 787, com 84.

UBE em sede própria

Está em franco processo de restauro o casarão do começo do século XX, na Rua Marquês de Paranaguá, 124, onde se instalará a sede oficial da União Brasileira de Escritores (UBE). O imóvel, de propriedade do governo federal e tombado pelo Condephaat, foi destinado à entidade por um de seus afiliados ilustres, o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Para recuperá-lo, segundo um de seus diretores, o engenheiro e escritor Lourival de Abreu Sodré, a UBE segue projeto do arquiteto Benno Perelmutter e já tem prontos o reforço estrutural da construção, todo o telhado e parte das instalações hidráulica e elétrica, além da paisagística. Falta concluir o acabamento e fazer o chamado "restauro fino", que dependem de patrocínio. A idéia, conta o escritor Caio Porfírio Carneiro, secretário executivo da entidade, é dotá-la de um auditório, biblioteca e espaço para happy hour e lançamentos literários, para que possa resgatar os famosos encontros nacionais de escritores, entre outros eventos. "Mais do que uma simples sede administrativa, a nova sede da UBE será um pólo cultural, um ponto de encontro de escritores e de promoção de atividades ligadas à literatura – portanto, trará benefícios à cidade", diz seu presidente, o poeta Cláudio Willer.

Câmara votará destino do TBC

Criado em 1948 pelo industrial Franco Zampari e marco do moderno teatro brasileiro, o famoso TBC da Rua Major Diogo pode se tornar o mais novo equipamento cultural do município, caso a Câmara vote favoravelmente projeto de lei do vereador Carlos Giannazi, em trâmite desde 23 de dezembro. O vereador propõe a desapropriação do espaço para fins de utilidade pública pela Prefeitura, que poderia mantê-lo como casa de espetáculos ou convertê-lo em escola de formação teatral. De propriedade privada e tombado pelo Condephaat, o TBC esteve alugado pelo empresário Marcos Tidemann, que investiu R$ 4 milhões em seu restauro e o reinaugurou em setembro de 1999, mas teve de devolvê-lo em face do desequilíbrio entre despesas e receita.

Urbanismo e moda no Masp

Dois acontecimentos de importância marcaram o início deste ano no Masp Centro, na Galeria Prestes Maia: a mostra "2003 – De Volta ao Centro", organizada pela Emurb com o apoio da Associação VIVA O CENTRO, documentando algumas das principais intervenções arquitetônicas e urbanísticas realizadas e a realizarem-se no Centro, e a parceria firmada pelo museu com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção para a instalação do Instituto da Moda na galeria. A exposição reflete o empenho da Prefeitura, dos governos estadual e federal e de instituições privadas, nos últimos anos, em prol do processo de requalificação do Centro. Já o instituto será o primeiro do país no gênero — misto de centro de atividades, museu e show-room — a dedicar-se à promoção da cultura da moda, abrangendo criação, gestão, marketing e tecnologia. "O instituto", garante Manoel Francisco Pires da Costa, diretor do Masp Centro, "não significa que a galeria deixará de abrigar obras de arte. O espaço para exposições de peças do acervo do Masp continuará funcionando."


  Reportagem  
Turismo a sério
Plano de marketing quer dobrar o número de visitantes e multiplicar receitas turísticas até 2010


São Paulo é um bom lugar para fazer negócios e, na qualidade de capital sul-americana dos eventos — são cerca de 7 mil por ano entre congressos, convenções, feiras e seminários —, um bom lugar para ver e ser visto. Mas também é uma cidade para o lazer. A maior metrópole do país e do Hemisfério Sul já oferece, com seus museus e teatros, restaurantes e vida noturna, lojas e shoppings, o que os brasileiros ainda vão buscar em Nova York. Como a Big Apple, São Paulo não tem uma imagem associada a belezas naturais, mas a elementos urbanos. Por isso, o Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo, encomendado pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPC&VB) à empresa espanhola Marketing Systems, criou um logo e um slogan que "vendem" a imagem de uma metrópole ciclópica e efervescente, e, evocando uma frase dos tempos de crescimento febril, mostram que a cidade não pode mesmo parar. No logo, as iniciais SP, em cinza e vermelho, sugerem dinamismo. No slogan "São Paulo. Tudo acontecendo agora", a sugestão de que não há um minuto a perder.

Avenida Paulista, monumento às Bandeiras, Museu de Arte de São Paulo, prédio do Banespa, Teatro Municipal... São inúmeros pontos de identidade, mas nenhum deles simboliza a cidade de forma inequívoca. Por isso, explica Glen Martins, diretor de criação da McCann Erickson, agência de publicidade que desenvolveu o logo e o slogan, cedendo-os à cidade, escolheu-se uma abstração que aponta para a multiplicidade paulistana. "A marca precisava mostrar a vibração e o dinamismo da cidade." A função das duas peças se assemelha à da marca que, nos anos 70, contribuiu para alavancar o turismo nova-iorquino, I love New York, com o coração no lugar do love. Tanto o logo quanto o slogan enfatizam a imagem de uma cidade que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. "A idéia", diz Roberto Gheler, presidente do SPC&VB, entidade mantida pela iniciativa privada para promover a cidade como destino turístico e sede de eventos, " é caracterizar São Paulo como a grande cidade do Brasil, rejuvenescida, com um estilo único."

Segundo Gheler, ao incorporar essas qualidades, afirmando-se pela oferta cultural e pelas opções de lazer, São Paulo amplia seu espectro de interesse turístico, sem rejeitar, mas somando, o filão vitorioso do turismo de negócios e eventos, principal razão da vinda de mais de 50% dos visitantes estrangeiros. O Plano de Marketing do Turismo da Cidade de São Paulo atende à necessidade de traçar uma estratégia para alavancar a atividade turística numa cidade de enorme potencial e é uma resposta a problemas imediatos, como a baixa ocupação dos hotéis. Enquanto São Paulo tem 60 mil apartamentos em hotéis e flats, com muitas unidades a ser inauguradas, e recebe cerca de 6,5 milhões de turistas por ano, Nova York possui uma capacidade pouco superior, 70 mil apartamentos, mas recebe 37 milhões de visitantes. A curto prazo, um dos objetivos do plano, que este ano divulgará a cidade no Brasil e países vizinhos para, no próximo, divulgá-la nos Estados Unidos e Europa, é fazer com que o visitante, que permanece em média 2,24 dias, fique um dia a mais. O que se quer, numa primeira etapa, confirma Gheler, é que o turista que vem a negócios reserve dois dias para atividades comerciais e um dia para as atrações da cidade.

Desequilíbrio

Há um desequilíbrio entre a oferta hoteleira e a demanda turística, agravada pela crise econômica dos últimos anos. No início da década de 90, a taxa média de ocupação dos hotéis era de 70%, contra os críticos 45% de hoje — nos dias úteis, a taxa é de 59,1%, caindo para 29,7% nos fins de semana. Se tudo correr como o previsto, já em 2004 São Paulo receberá 8,5 milhões de turistas, do Brasil e do Exterior. Pesquisas revelam que 1 milhão de turistas geram uma receita de R$ 1,3 bilhão para a cidade e criam cerca de 55 mil empregos diretos. Em 2010, quando o plano estiver consolidado e os resultados mais que visíveis, espera-se que a cidade receba 16 milhões de turistas, mais do que o dobro de hoje, com reflexos em todas as áreas. Só de empregos, uma das maiores carências brasileiras, serão criados por volta de meio milhão.

O turismo é a maior indústria do mundo, não polui e, além de empregos em vários níveis, gera renda. A França, a Espanha e os Estados Unidos, os três primeiros colocados no ranking de destinos turísticos, investem continuamente no setor. É por isso que o plano encomendado pelo SPC&VB, com o apoio da Empresa Brasileira de Turismo, Embratur, e a Visa do Brasil, prevê oito anos de trabalho, divididos em cinco programas, 42 projetos e 64 ações. Como a cidade, o plano não pode parar, lembra Gheler, que evoca a experiência nova-iorquina. "Na década de 70, Nova York estava com uma péssima imagem. A taxa de permanência era de uma noite. Foram necessários dez anos para mudar. E, após 30 anos do lançamento da marca I love New York, a cidade mantém seus esforços."

O plano paulistano foi elaborado em nove meses, a um custo de R$ 300 mil. Para as ações deste ano, como os 300 outdoors destinados a elevar a auto-estima do cidadão, prevêem-se aportes, captados junto ao trade turístico, setor financeiro e outros segmentos, de R$ 6 milhões e, para as do próximo ano, de R$ 13,5 milhões.

Cultura e entretenimento (124 museus e 62 teatros), gastronomia (2 mil restaurantes) e compras (30 shoppings e diversas ruas comerciais especializadas, como a José Paulino, a Santa Ifigênia e a 25 de Março). Sem renegar o fato de São Paulo ser o mais importante pólo comercial e financeiro da América do Sul, ou seja, sem negligenciar o turismo de negócios, são esses os principais itens que contribuirão para que se enxergue São Paulo com outros olhos. Com os olhos com que se vê, vale insistir, Nova York. A opinião é do catalão Josep Chias, presidente da Marketing Systems, a empresa de consultoria espanhola que desenvolveu os planos de turismo das cidades de Barcelona, na Espanha ("Turisme de Barcelona"), e Rio de Janeiro ("Plano Maravilha"). Como Nova York, São Paulo também se insere no eixo denominado genericamente de "sensações e estímulos", contrapondo-se a cidades que oferecem "natureza e cultura" ou "qualidade e preço". "A imagem que deve ser vendida da cidade", diz Chias, "é muito próxima daquela que as pessoas têm com relação a Nova York."

"É preciso mudar a imagem da metrópole e dizer que, ao lado do turismo de negócios, ou depois dos negócios, São Paulo é um bom lugar para passear", enfatiza Aristides de la Plata Cury, consultor do SPC&VB. Mais do que isso, é preciso explicar ao mundo que São Paulo, a principal metrópole brasileira, que com Nova York integra o clube das cinco maiores cidades do mundo, é agitada, dinâmica e vibrante. Agora que entra em sua terceira etapa (a primeira consistiu, ouvindo-se profissionais do trade e mais de 700 turistas brasileiros e estrangeiros, em descobrir as reais potencialidades turísticas da cidade, e a segunda em desenvolver o logotipo que deverá ser associado, sob a supervisão do SPC&VB, a todo tipo de evento, promoção ou propaganda), o Plano de Marketing do Turismo quer, juntando-se a iniciativas em curso, como o Plano Municipal de Turismo, estruturar produtos para cada público-alvo e afirmar uma identidade turística própria, que contribua para inserir São Paulo nos roteiros internacionais.

Para cada público, destaca Gheler, haverá um objetivo definido: que o turista do interior passe um fim-de-semana por mês na cidade, que o turista de outras partes do país a visite uma vez por ano e que os estrangeiros a incluam em seu roteiro pelo Brasil. Para cada objetivo, produtos novos que enfatizem o novo viés de São Paulo como uma cidade de sensações e estímulos. "O turismo gera emprego e renda ao menor custo. Hoje o setor, que engloba 52 subsetores variados, responde por 4% da economia do Estado de São Paulo, percentual que tem tudo para crescer", explica o ex-secretário de Estado de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, Ruy Altenfelder Silva. "Estado e Prefeitura atuam de forma harmônica, acompanhando a política estadual de turismo, que contempla também 645 municípios do Estado, articulados regionalmente. Não poderia ser diferente. A Capital é o maior portão de entrada e saída de visitantes do Estado. E nela, claro, cabe destacar o Centro, que tem vocação para o turismo, como berço da cidade e por sua vida cultural."

Para Altenfelder, o Estado é um fomentador da atividade, que se vale de investimentos privados e públicos. "Em estradas, saneamento etc., o Estado investe duas vezes o que investe o setor privado", diz. Mas ele vinha atuando de forma meio romântica. Cabe ao governo, porém, potencializar a vocação do Estado — o site www.turismopaulista.sp.gov.br, instituído com o Cepam-Fundação Prefeito Faria Lima, contribui para cumprir essa função —, atuando na formação de mão-de-obra especializada, inclusive de nível superior, e zelando pela infra-estrutura. E deixar que a vocação para o turismo flua e que venham, para benefício de todos, os visitantes. (Federico Mengozzi)


  Reportagem  
O Aeroporto do centro
Campo de Marte se aproxima dos 70 anos com obras à vista e em meio a indagações sobre o futuro


Federico Mengozzi

Quem se detém alguns minutos na Avenida Santos Dumont, em Santana, zona norte de São Paulo, percebe o intenso movimento de pequenas aeronaves e helicópteros. Mas nem sempre é capaz de avaliar o que o Campo de Marte significa para a cidade. Ao pensar em aeroportos, é normal que o paulistano cite Guarulhos, Congonhas e Viracopos. Raramente se lembra do campo de pouso e decolagem mais próximo do Centro e que, justamente por estar a pouco mais de um quilômetro em linha reta da Praça da Sé, está sendo cogitado para se transformar num aeroporto de jatos executivos e heliporto de grande capacidade, atendendo prioritariamente a região central e o complexo de hotelaria e eventos do Anhembi. Mesmo sem receber linhas comerciais regulares, e voltado exclusivamente à aviação executiva e militar, o aeroporto é o quarto do país — após Congonhas, Guarulhos e Brasília — em movimento operacional e abriga a maior frota nacional de helicópteros, registrando cerca de 6.200 pousos e decolagens por mês dessas aeronaves, ou 68% do movimento geral de 9.200 operações/mês. Atualmente, o Campo de Marte opera com um sistema de balizamento noturno que permite prolongar seu uso até as 22 horas.

A pista de Marte tem 1.600 metros de comprimento, contra 1.900 metros da pista de Congonhas e, por razões técnicas, não pode ser usada em toda a sua extensão, inviabilizando o pouso e a decolagem de alguns modelos de jatos executivos. "Para funcionar como um aeroporto eficaz para a aviação geral, é necessária uma pista um pouco maior", argumenta Febeliano. "No avião, ao contrário do automóvel, o peso do combustível é determinante. Uma pista mais curta impõe limite ao peso de algumas aeronaves, que ficam num impasse: mais passageiros e carga ou mais combustível? Com menos combustível, elas não conseguem voar tão longe. Hoje, alguns jatos fogem dessas restrições operando em Congonhas." Mesmo com uma pista maior, esclarece o diretor da ABAG, há outro fator que limita o uso do aeroporto. "O Campo de Marte será sempre limitado, pois não pode operar com instrumentos, devido a interferência destes com os de Congonhas e Guarulhos. Mas é preciso aperfeiçoar o aeroporto. Graças à proximidade com a área central, a modernização do Campo de Marte estimularia a vinda para o Centro de empresas que utilizam intensivamente táxi aéreo."

A Infraero, que administra o aeroporto, está trabalhando no Planejamento de Revitalização do Plano de Desenvolvimento Aeroportuário, que, segundo o departamento de Comunicação Social da empresa, prevê adequação e melhorias no sistema de pista, taxiway e pátios de aeronaves, além de implantação do novo terminal de passageiros, expansão de hangares e restruturação das redes de água, eletricidade e telefonia do (esta é a denominação oficial) Aeroporto Campo de Marte. Até 2005, a empresa injetará R$ 11 milhões em Marte, aumentando, entre outros itens, o número de hangares, atualmente 21, em 50% — a média diária de aeronaves hangaradas é de 300. A Infraero não prevê a operação de vôos comerciais regulares no Campo de Marte, nem a transferência para ele de parte do movimento de Congonhas, para desafogar o mais congestionado aeroporto do país. "O Campo de Marte", diz um comunicado da Infraero, "é dedicado à aviação geral, formada por aeronaves e helicópteros de pequeno porte, táxi aéreo, escola de aviação, aviação das polícias Militar e Civil e da Força Aérea Brasileira."

Pioneiro

A origem do Campo de Marte remonta a 1920, quando foram construídos um hangar e uma pista para pousos e decolagens no vasto terreno do vale do Rio Tietê onde funcionou a escola de aviação da Força Pública do Estado, hoje Polícia Militar. Era o primeiro equipamento aeroportuário de São Paulo, mas só começou a funcionar nos moldes atuais em 1935, sem jamais abandonar seu papel na formação de pessoal qualificado — fundado em 1931, o Aeroclube de São Paulo é a maior escola de aviação civil da América Latina. Sua importância para o desenvolvimento da aviação civil e militar brasileira é inegável. Além das atividades aeroportuárias e da escola de aviação, o Campo de Marte abriga o Serviço Aerotático da Polícia Civil e o Grupamento de Rádio Patrulha Aérea da Polícia Militar, sem contar órgãos da Força Aérea Brasileira, como o IV Comando Aéreo Regional, o Parque de Material Aeronáutico de São Paulo, o Hospital da Aeronáutica etc. É um aeroporto compartilhado, com parte da área física sob administração do Comando da Aeronáutica e outra sob o controle da Infraero, ambos ligados ao Ministério da Defesa.

Para o engenheiro e jornalista especializado em aviação Ernesto Klotzel, só há uma palavra para definir s importância do Campo de Marte para São Paulo: "Vital". Klotzel — que foi chefe dos engenheiros de vôo da extinta empresa aérea Real Aerovias — é mais uma das vozes que nem cogitam admitir outra destinação ao aeroporto e que se opõem à idéia, vez ou outra aventada, de transformá-lo em área verde. Recorde-se que todo o complexo, que mantém uma reserva de mata natural, assenta-se em terrenos da Prefeitura. "O Campo de Marte é fundamental, pois serve a um grande número de aeronaves da aviação geral e a uma das maiores concentrações de helicópteros que existem, a ponto de estar saturado." São Paulo sedia a segunda maior frota de helicópteros do mundo, sendo superada apenas por Nova York, e a maior concentração de aeronaves executivas do país. "Desativar? Nem pensar", insiste Klotzel, para quem o Campo de Marte, pelos complexos que abriga, é muito mais do que um aeroporto. "E ampliar? Me parece difícil, já que está no limite da capacidade de expansão física e se situa numa zona densamente habitada. Mas, como qualquer aeroporto do mundo, pode e deve ser aprimorado, dotado de equipamentos modernos."

Já o sociólogo Maurício Pacheco, recém-empossado subprefeito de Santana, vê na densidade habitacional um argumento para a desativação tanto de Marte quanto de Congonhas. "Em nenhum lugar do mundo se vêem aeroportos tão centrais, apresentando um risco potencial para a população. O tráfego do Campo de Marte e o de Congonhas poderiam ser absorvidos por Guarulhos. Estamos começando negociações com Brasília para que a área do Campo de Marte possa ter um melhor uso social." Pacheco lembra que Marte possui um bosque extenso, que atinge a região da Casa Verde, carente de parques. Se alguém lembra que a região abrigará em breve o Parque da Juventude, no lugar do Complexo Penitenciário do Carandiru, ele não se abala: "Quanto mais área verde, melhor." O fato é que as metrópoles do mundo que dispõem de aeroportos centrais — Rio de Janeiro, com o Santos Dumont, e Buenos Aires, com o Aeroparque, são os exemplos mais próximos — fazem tudo para aperfeiçoá-los e mantê-los em atividade, desvencilhando-se da velha concepção de que os aeroportos devem situar-se o mais longo possível dos centros urbanos. Aviões mais seguros e silenciosos e tecnologias mais avançadas de controle de tráfego aéreo reduzem praticamente a zero a possibilidade estatística de acidentes que atinjam zonas densamente povoadas e minimizam o impacto ambiental. Um dado a considerar é o fácil acesso ao Campo de Marte por transporte público: há duas estações de metrô a menos de 500 metros.

Nos últimos anos, o Campo de Marte registrou um aumento de 25% no número de pousos e decolagens. Um argumento que vale tanto para quem defende a modernização do aeroporto quanto para quem quer, simplesmente, sua desativação. Mas é impossível ignorar o grande e dinâmico pólo de feiras, exposições e hotelaria que se desenvolve em torno do velho aeródromo, a poucas centenas de metros do Centro e no eixo da malha rodoviária estadual e do acesso ao aeroporto internacional. Modernizado e equipado, embora servindo apenas aeronaves executivas e helicópteros e possivelmente com restrições de horário, o Aeroporto Campo de Marte tem um papel estratégico na afirmação econômica de São Paulo. Não é sensato desperdiçá-lo.


  Reportagem  
Adeus à rua
Camelôs e pequenos artesãos trocam o comércio informal no espaço público pela segurança e dignidade dos shoppings populares

Monica Favero

Uma iniciativa da Arquidiocese de São Paulo, administrada pela Cáritas Arquidiocesana (organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB) no Centro de São Paulo, destinada a gerar ocupação e renda, vai além de seu objetivo precípuo e pode tornar-se referência para administrações municipais decididas a retirar os camelôs das ruas e integrá-los aos circuitos produtivos da economia.

Na "Feira de Quem Faz", instalada em edifício alugado na Rua José Bonifácio, nº 107, próximo à Praça da Sé, com área de 1.500 m2 em três pavimentos, a entidade oferece a interessados selecionados uma oportunidade para desenvolver o próprio negócio, como lojista formalmente estabelecido, num espaço fechado e bem localizado, no estilo de um shopping center popular. Como a maioria dessas pessoas estava desempregada ou subempregada antes do contato com a Cáritas, muitos ostentam o perfil sociocultural do camelô. "Antes de nos procurar, esse pessoal não tinha renda fixa. Muitos faziam bico, trabalhavam como camelôs, se viravam pelas ruas", conta Francisco Lopes Granizzo, diretor da filial Centro da Cáritas e um dos idealizadores do projeto.

Hoje, estes ex ou virtuais camelôs são ensinados pela organização da feira a produzir mercadorias artesanais com qualidade, comprar e vender dentro do orçamento previsto, gerenciar o negócio e fazer a divulgação do produto. Três universidades paulistanas foram procuradas para reforçar a assessoria industrial e comercial. Com isso, criou-se uma incubadora de pequenos negócios. Graças a essa parceria, os interessados devem estar aptos, em até dois anos, a montar o próprio negócio e deixar a vaga na Feira para outro interessado. Pelo estande de seis metros quadrados e pela consultoria, que ocorre uma vez por semana, os 50 pequenos lojistas pagam R$ 380 mensais. "Desde que a feira foi inaugurada, há dois meses, nenhum dos 50 expositores desistiu. E já existe lista de espera para ocupar os 30 lugares que ainda restam no prédio", diz Granizzo. Entre novembro e dezembro, mais de 30 mil pessoas passaram pelo local — cerca de 500 pessoas por dia, aproximadamente a mesma clientela de uma barraca na rua, segundo estimativa dos organizadores. "Com a ajuda do serviço de panfletagem, encarte em jornais e divulgação, esse público tende a aumentar", avalia o coordenador da Feira, Arnaldo Teixeira.

Na opinião de Granizzo, o atual sistema de gestão da Feira de Quem Faz é um exemplo a ser seguido pela Prefeitura de São Paulo ou por outras administrações públicas. Embora não tenha sido desenvolvido propriamente para alojar camelôs, a presença de comerciantes com esse perfil no projeto mostra que seus idealizadores estão no caminho certo. "Com algumas adaptações, o modelo poderia perfeitamente ser usado para abrigar comerciantes que estão nas ruas. Com o tempo, esses trabalhadores abandonariam a economia informal e se tornariam lojistas, e já com alguma experiência. Mas, neste caso, a assessoria técnica precisaria mudar de industrial/comercial para comercial, uma vez que os camelôs não produzem, somente revendem mercadorias".

Outra iniciativa exemplar visando a formalizar o mercado informal é mantida pela Prefeitura de Diadema, onde 1.900 camelôs foram retirados das ruas centrais, cadastrados e inscritos no projeto Shopping Popular. Nos três andares do primeiro edifício só couberam 240 expositores, mas a administração municipal quer multiplicar a experiência ainda este ano (ver o box).

Emergência

Os dois exemplos bem-sucedidos mostram que é perfeitamente possível implementar uma política pública para transferir o comércio de camelôs das ruas para espaços fechados, com infra-estrutura adequada e personalidade jurídica para o comerciante. Segundo dados da Pesquisa Emprego e Desemprego (PED), da Fundação Seade e do Dieese, há entre 50 mil e 60 mil camelôs no município de São Paulo, dos quais 8,6 mil estão ativos no Centro (distritos Sé e República).

Especialmente na escala em que se verifica na área central de São Paulo, o comércio informal de rua acarreta a degradação dos espaços públicos e o aumento dos problemas relacionados à segurança, uma vez que a ocupação desordenada dos logradouros dificulta o policiamento. Sem falar na perda de receitas públicas, pois o camelô e seus fornecedores não recolhem impostos, e nos prejuízos infligidos ao comércio formal, que amiúde se vê obrigado a demitir funcionários ou é empurrado para os shoppings, contribuindo dessa forma para a perda de qualidade e segurança do espaço público. Em alguma medida associado ao desemprego, o comércio dos camelôs não representa a reconquista do emprego — suas relações de trabalho têm a marca da extrema precarização dos laços empregatícios e dos salários aviltados — e gera mais desemprego.

A questão parece simples, mas embaraça a administração. "Temos uma cultura de comércio ambulante de mais de cem anos e não sabemos como acabar com o problema do dia para a noite. Nosso objetivo, hoje, é oferecer uma série de alternativas para o camelô e intensificar a fiscalização nos principais pontos, pelo menos minimizando o problema da ocupação do espaço público", diz o subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas. Ele explica que estas alternativas — por enquanto no plano das sugestões — incluem formação de cooperativas, uso de bolsões para abrigar os camelôs e até aproveitamento de imóveis antigos no Centro para instalação de shoppings populares. Os recursos para implementar tais medidas poderiam vir do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). "Mas nenhuma dessas alternativas foi definida. Por enquanto, são propostas que precisam ser melhor avaliadas", explica o subprefeito.

Quanto ao uso de shoppings e espaços confinados para abrigar os comerciantes informais, a exemplo dos projetos da Arquidiocese de São Paulo e da Prefeitura de Diadema, o secretário municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade, Márcio Pochmann, também deixa o assunto em aberto. "A Prefeitura estuda, sim, a criação de shoppings populares, localizados na região central e, futuramente, estendidos às regiões mais problemáticas da cidade. Mas não há nada definitivo sobre isso", diz. Ao contrário da Prefeitura paulistana, a Arquidiocese está fazendo a sua parte.

O exemplo de Diadema
No passado, a Praça Lauro Michels, no centro de Diadema, foi o principal reduto do comércio informal da cidade, com centenas de camelôs ocupando toda a sua área. A Prefeitura, então, fez um cadastramento, criou um projeto de "incubadora de comerciantes", construiu uma estrutura de três andares e transferiu parte dos vendedores informais para lá. Desde outubro, quando foi inaugurado o Shopping Popular, 240 ex-camelôs ocupam pequenos estandes pagando uma taxa condominial entre R$ 100 e R$ 150 mensais, que cobre o aluguel do estande e as despesas gerais.

"Era necessário devolver com urgência a praça ao público e acomodar os camelôs num só edifício, bem localizado e apropriado ao comércio. Com a implantação do Shopping Popular e a intensificação da fiscalização, hoje a Praça Lauro Michels está preservada", diz o vice-prefeito e secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Diadema, Joel Fonseca. "Como o projeto foi muito bem sucedido, estamos estudando outros pontos críticos para a construção de mais shoppings. Nossa meta é retirar todos os camelôs das ruas."

No Shopping Popular, mercadorias pirateadas ou contrabandeadas estão rigorosamente proibidas. Devido à garantia de qualidade e procedência dos produtos, o público só tem aumentado. No mês de dezembro a freqüência estimada foi de 250 mil pessoas, segundo a secretaria. Tal número equivale a nove mil pessoas/dia nos momentos de pico e 8,3 mil/dia no restante do mês. Entre 20 e 24 de dezembro, auge do período de compras de Natal, cerca de 30 mil consumidores passaram pelo local a cada dia.

Assim como na Feira de Quem Faz, da Cáritas, os interessados freqüentam cursos para se tornar lojistas. A Associação Comercial e Industrial de Diadema (Acid) e o Sebrae-Diadema são parceiros nesses cursos.


  Reportagem  
OS TRILHOS AVANÇAM
Apesar da turbulenta conjuntura, o Pitu — plano de transporte metroferroviário da Grande São Paulo — abre novas frentes em 2003


Marcus Figueiredo
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)

Caso o governo do Estado consiga manter suas metas, o ano de 2003 deve se constituir num divisor de águas no setor de transporte metropolitano sobre trilhos. Além da conclusão do projeto Integração Centro, essencial para o desenvolvimento da região central, devem ser iniciadas as obras da linha 4 do metrô (Vila Sônia-Luz) e o prolongamento da linha 2 (Ana Rosa-Vila Madalena). Também está prevista a continuidade do programa de modernização da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), cujo objetivo é integrá-la cada vez mais ao metrô, o que inclui a conversão de alguns trechos em linhas de padrão metroviário.

Debruçado sobre o mapa do Programa Integrado de Transportes Urbanos (Pitu 2020), o secretário de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, explicou a urbs como estão sendo direcionados as obras e os investimentos. Para que São Paulo tenha a malha ferroviária que garanta funcionalidade a todo o sistema, estão previstos R$ 30 bilhões em investimentos até 2020, data prevista para que todo o Pitu esteja concluído. Isso significa uma rede totalmente integrada com pelo menos 444,8 quilômetros de transporte sobre trilhos por toda a região metropolitana, com um serviço de qualidade idêntica ou até melhor que o atual padrão do metrô. Hoje, são 333,6 quilômetros de linhas ferroviárias, divididos entre 275 da CPTM e 58 de metrô.

Apenas o Integração Centro, que deve ser concluído no segundo semestre do próximo ano, vai consumir o total de US$ 95 milhões. Se a rede de transporte fosse comparada ao corpo humano, o Integração Centro seria o coração do sistema e as outras linhas, de trem e metrô, artérias que oxigenam as mais distantes regiões. Trata-se de sete quilômetros de linha da CPTM ligando as estações do Brás e Barra Funda, passando pela Estação da Luz e totalmente integrados ao trem e ao metrô. Pelo projeto, o passageiro paga apenas uma passagem para utilizar todo o sistema.

A previsão era que a obra fosse entregue até dezembro passado, mas a queda de um muro tombado pelo patrimônio histórico na Rua Mauá atrasou o cronograma em seis meses. Mesmo assim, no início do ano o governo pretende entregar a Estação Brás, uma das principais que compõem o sistema, ampliada e adaptada para a integração.

O Integração Centro é estratégico para todo o sistema ferroviário da Grande São Paulo, pois vai interligar três linhas do metrô (1, 3 e 4) e seis da CPTM (Leste e Noroeste). Dessa maneira, o passageiro que atualmente sai da zona leste de trem não vai precisar desembarcar na Estação Brás e pegar o metrô em direção ao Centro ou à Barra Funda. Ele poderá ir direto para a zona oeste e daí seguir em direção a Jundiaí, por exemplo. Ou descer na Luz e prosseguir pela linha 1 (Tucuruvi-Jabaquara) ou acessar a futura linha 4 do metrô.

O projeto dará novo fôlego à região da Luz, em especial à Estação da Luz, que já está sendo adaptada para a integração. Passagens subterrâneas vão levar o passageiro do trem para o metrô e possibilitarão acesso direto à Pinacoteca do Estado e ao Jardim da Luz. Com a construção da linha 4, no futuro a Estação da Luz vai tornar-se o principal entroncamento metroferroviário da cidade.

"A área da Luz vai experimentar um intenso desenvolvimento", diz o secretário Jurandir Fernandes, citando pólos comerciais (o bairro do Bom Retiro) e culturais (Sala ão Paulo e Pinacoteca). Quando o projeto estiver concluído, o número de passageiros circulando diariamente pela Estação da Luz deverá saltar dos 150 mil para 400 mil, desafogando o movimento das estações Brás e Sé do metrô.

Prioridades

Para que o Pitu cumpra de fato o seu papel de integrar todo o transporte ferroviário da Grande São Paulo, dois projetos são considerados essenciais: a construção da linha 4 Amarela do metrô e a extensão da linha 2 Verde, também conhecida como Ramal Paulista. A linha 4 é um dos projetos mais antigos da Companhia do Metropolitano (Metrô). A previsão era que ela começasse a ser implantada no final dos anos 90, mas com as turbulências na economia mundial a partir de 1999 fecharam-se as fontes de financiamento e o projeto foi engavetado. As negociações foram retomadas mais tarde e os recursos necessários já estão assegurados com o Banco Mundial.

No total, serão 12,8 quilômetros de extensão e 11 estações, ligando o bairro da Luz à Vila Sônia, na zona oeste. A obra, cujo custo total é de US$ 1,2 bilhão, será dividida em duas fases. A primeira prevê a construção de cinco estações e deve ser concluída até 2006. Nove consórcios já foram pré-qualificados na licitação e a meta é dar início às obras no início deste ano. "Há algumas pendências jurídicas que serão resolvidas em breve", diz Fernandes.

A implantação da linha 4 vai significar um grande passo na formação de um sistema ou rede metroferroviária, já que o trajeto prevê interligações com as linhas 2 e 3 (Barra Funda-Corinthians/Itaquera) do metrô e vai desaguar na Integração Centro, conectando-se à linha 1. Além disso, ela também vai integrar-se à linha C da CPTM (Osasco-Jurubatuba), futura linha 7 Celeste do metrô.

"A linha 4 é vital para o Centro", diz o especialista em engenharia urbana Luiz Célio Bottura, lembrando que a linha estará ligada ao Integração Centro. "Ela é tão importante que sua construção deveria ser anterior à da linha Paulista, pois permitirá muito mais conexões com outras linhas do que esta."

Para o prolongamento da linha 2 o governo estadual conta com R$ 1 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e deve começar as obras também no início de 2003. Os contratos já estão acertados e, em quatro anos, serão construídos cinco quilômetros de linha e quatro estações entre Ana Rosa e o bairro do Sacomã, na zona sul. A idéia é, no Sacomã, interligar o metrô ao Paulistão (antigo Fura-Fila), que está sendo construído pela Prefeitura.

A extensão da linha 2 também é considerada prioritária porque, no futuro, ela vai estar ligada à linha 5 Lilás no bairro Chácara Klabin, na zona sul. "Essa interligação será importante para não sobrecarregar a linha 1, que também vai ser conectada à 5", explica o secretário. O segundo trecho da linha 5 (o primeiro, Capão Redondo-Largo 13, já opera desde setembro passado), orçado em US$ 1,2 bilhão, ainda está sendo negociado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e sairá do papel apenas a partir de 2004. Deverá ligar o Largo 13 à Chácara Klabin.

Paralelamente à expansão do metrô, a secretaria moderniza as linhas da CPTM. "É preciso acabar com essa noção de CPTM e metrô operando em separado", diz Fernandes, lembrando que o Pitu prevê a integração das duas empresas. "É comum as pessoas lamentarem que temos pouco metrô, mas isso é uma meia-verdade. O sistema metroferroviário tem hoje mais de 330 quilômetros de trilhos."

Os principais investimentos da CPTM foram realizados na linha C, que corre ao longo da Marginal Pinheiros, e na linha E, também conhecida como Expresso Leste. Na C, as estações são semelhantes às do metrô e os trens circulam com intervalo de seis minutos. "Em cinco anos, queremos diminuir o intervalo para três minutos", prevê o secretário. O Expresso Leste liga Guaianazes ao Brás com apenas seis paradas. "Aos poucos essas duas linhas vão passar para o Metrô, conforme cresça o volume de passageiros", diz Fernandes.

Para chegar à situação atual, foram investidos R$ 8 bilhões no Pitu entre 1995 e 2002, comprendendo a extensão das linhas do metrô, a compra de novos trens para a CPTM e a reforma de diversas estações, como a do Brás. Isso equivale a 25% de todo o investimento previsto para o Pitu.

"São Paulo começa a ter uma rede", afirma o secretário, salientando que o sistema metrô-ferrovia atinge hoje 22 dos 39 municípios que compõem a Grande São Paulo. Em termos de equipamentos, foram adquiridos nesse período 88 trens novos para a CPTM e 11 para o metrô.

Problemas

Mas a situação, mesmo levando-se em conta o que já foi realizado, está longe da ideal e enfrenta problemas graves. Um deles é a superlotação dos trens e estações nos horários de pico, principalmente na CPTM, na qual o intervalo entre as composições é maior. "Isso está acontecendo porque a população começa a voltar ao trem", diz Fernandes. Os maiores problemas ocorrem na nas estações Brás (metrô-CPTM) e Sé (metrô), principalmente nos horários de pico. Com a inauguração da Integração Centro, parte do problema vai desaparecer, crêem os técnicos.

Outro problema é o vandalismo. A estimativa da secretaria é que cerca de R$ 3,5 milhões sejam gastos anualmente por conta dos danos provocados por vandalismo nas estações e composições e do roubo de fios ao longo das linhas da CPTM. Para tentar reverter a situação, a companhia investe em programas educativos, como o "Usuário do Amanhã", para conscientização das crianças sobre a importância de preservar o transporte coletivo.

O engenheiro Bottura acredita que, após anos de lentidão, o governo começa a recuperar o tempo perdido no setor de transportes. "Espero que o Pitu se consolide, pois não adianta um projeto desse porte que não esteja institucionalizado de maneira irreversível", afirma. Ele refere-se às alterações que projetos de longa duração sempre acabam sofrendo nas mudanças de governo. "É difícil quando há um projeto consolidado e entra um plantonista de governo que muda tudo."

Função indutora

Segundo Bottura, ainda há muito o que fazer, principalmente no que diz respeito à interação do sistema de transporte com o desenvolvimento da cidade. Ele lembra que o transporte eficiente não pode estar dissociado das consequências que a expansão da rede acarreta para a metrópole. "O desenvolvimento da malha tem que funcionar como um indutor para a reorganização do solo", diz o engenheiro. Para ele, o planejamento da rede ainda não contempla o desenvolvimento das regiões da cidade aonde chegam os seus trilhos. No caso do Centro, por exemplo, a melhoria no sistema poderia servir como âncora para a requalificação da área.

O que muitas vezes acontece, segundo Bottura, é exatamente o contrário. A construção de estações comn freqüência acaba degradando todo o espaço no entorno. "Quando há uma concentração muito grande de gente, como uma estação de metrô, o que em geral acontece é a atração de um comércio de baixo nível, camelôs e outros fatores de degradação urbana", explica o engenheiro. "No entorno das estações, em vez de haver uma reciclagem urbana há uma decadência." Ele cita como bons exemplos de interação do espaço urbano as estações de metrô em que foram construídos shopping centers, como as estações Tatuapé, na linha 3, e Santa Cruz, na Linha 1. "O metrô tem de ser usado, sempre, como um sistema remodelador da região."

A expansão do Pitu deve ser tema de discussão no Congresso Nacional na próxima legislatura. O deputado federal e ex-vereador Devanir Ribeiro (PT-SP) afirmou que uma das reivindicações da bancada paulista do PT na Câmara dos Deputados será a alteração do dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) da União que proíbe a transferência de recursos federais para expansão do metrô paulistano. "A União ajuda a financiar metrôs de outras capitais, menos São Paulo", disse Ribeiro, que fez do transporte o tema de sua atuação na Câmara Municipal. "A alegação é que o Estado de São Paulo pode financiar sozinho a expansão da rede metroferroviária, o que é um absurdo". Seja como for, com ou sem a boa-vontade de outras instâncias de governo, o transporte sobre trilhos estende os seus tentáculos sobre a metrópole. Já não está tão longe o dia em que São Paulo terá uma rede qualificada de transporte público rápido, confiável e estruturador do tecido urbano.

Nas linhas, novas operações urbanas
O novo Plano Diretor prevê a criação de operações urbanas no entorno das futuras estações e ao longo das linhas de metrô e de grandes corredores de transporte. A lógica é que qualquer região com maior capacidade de mobilidade comporta um adensamento maior. Do texto já consta a Operação Urbana Vila Sônia, no final da futura linha 4 do metrô. O potencial construtivo na área beneficiada, como nas demais operações urbanas, passará de 2,5 vezes para 4 vezes a área do terreno.

Segundo o diretor de projetos urbanos da Secretaria Municipal do Planejamento (Sempla), José Magalhães Júnior, cada operação terá características específicas. No caso do eixo da linha 4, a área beneficiada vai variar de acordo com o bairro. A faixa, calculada em cerca de 300 metros em cada lado do eixo, não inclui regiões como o Jardim América, devido ao zoneamento do bairro (Z-1). O projeto tem de ser compatível com a região, explica Magalhães. "O metrô comporta um adensamento maior, mas a maneira como isso será feito vai depender de cada operação urbana."

As propostas das novas operações urbanas serão discutidas nos planos regionais e na nova Lei de Uso e Ocupação do Solo, que devem ser aprovados este ano. O vereador Nabil Bonduki lembra que os recursos gerados pelas contrapartidas financeiras nas novas operações urbanas poderão ser aplicados na expansão e consolidação do metrô. "É a maneira de a Prefeitura tornar-se parceira do sistema sem precisar mexer no orçamento do Município", explica.

Essas operações urbanas no eixo de metrô e ferrovia poderão receber potencial construtivo transferido de imóveis tombados na área central, através da Operação Urbana Centro. Essa possibilidade estava suspensa há dois anos, desde que o Tribunal de Justiça entendeu que o artigo da lei 12.549, que permitia a transferência para fora do perímetro da Operação, era inconstitucional. Sustentada pelo novo Estatuto da Cidade, pelo Plano Diretor e pelos Planos Diretores Regionais, essa possibilidade passa agora a ser viável.


  Urbanismo Nacional  
Retrofit, alternativa para valorizar o imóvel

AUGUSTO FERREIRA, CAROLINA FERRARI E PIERINA PIEMONTE DE BERMEJO*

Com o processo de verticalização da cidade já atingindo algumas décadas, vários edifícios comerciais estão se tornando inadequados para abrigar as empresas com suas cada vez maiores necessidades de flexibilidade para atender as constantes modificações tecnológicas. Isto tem provocado uma migração das empresas dos tradicionais bairros que abrigavam as atividades terciárias, Centro e Av. Paulista, para as novas regiões que abrigam os edifícios recentemente construídos, no eixo composto pelas avenidas Luis Carlos Berrini e Marginal do rio Pinheiros. Estas regiões abrigam edifícios que contemplam as inovações tecnológicas que as empresas estão necessitando, apesar da restrita oferta de transporte coletivo e das limitações de acessibilidade, o que tem acarretado grandes congestionamentos na área. Esta situação tem provocado um esvaziamento das regiões centrais da cidade, com conseqüente desvalorização dos imóveis, apesar da enorme oferta de transporte (ônibus e metrô) e infra-estrutura (energia praticamente sem falhas e telefone). Esta mudança tem o inconveniente inclusive de provocar um "turn over" na empresa, pois a nova localização muitas vezes passa a ficar longe da residência dos seus funcionários.

Em particular estes antigos edifícios do Centro da cidade têm uma boa estrutura, mas não atendem às novas necessidades das empresas modernas. Em geral apresentam problemas hidráulicos e elétricos, dificuldade de manutenção dos caixilhos pela idade e pela dificuldade de achar peças de reposição adequadas, elevadores lentos e com altos custos de manutenção, dificuldade para atender às novas necessidades de redes de computadores e telefonia, e possuem instalações de ar condicionado improvisadas e ineficientes, já que, quando foram construídos, não foram concebidos para incorporar estas tecnologias que, na época, ainda não eram itens comuns. Estes são alguns dos problemas que afetam a maioria dos edifícios antigos. Esta situação, além de desvalorizar os imóveis e afugentar os seus ocupantes e possíveis interessados, em geral apresenta um condomínio elevado em relação ao que é oferecido, apesar dos aluguéis e impostos relativamente baixos.

Uma alternativa para que as tradicionais áreas da cidade não percam seus atrativos e nem passem a subutilizar seus recursos e para que os proprietários não tenham seus imóveis desvalorizados seria a utilização do processo de retrofit.

Retrofit

O que é retrofit? Retrofit é um termo em inglês para designar a reforma do edifício através da incorporação de novas tecnologias exigidas pelo mercado, novos materiais e conceitos aos velhos edifícios, aumentando sua vida útil. O montante de novas tecnologias a serem incorporadas depende de uma análise de custo-benefício e do uso que o imóvel passará a ter. Esta atitude bastante comum na Europa é também viável na área central, principalmente se levarmos em conta que os imóveis ainda apresentam valores de comercialização e de aluguéis bastante baixos, apesar dos investimentos do poder público, e que a reforma tem um custo menor que uma nova construção, passando o imóvel a oferecer os mesmos atrativos de um novo edifício. Além disso, imóveis localizados no centro da cidade desfrutam de localização privilegiada pela oferta de serviços disponíveis, sejam públicos ou privados, e pelas facilidades de transporte público. Um dos pontos mais importantes que devemos ressaltar, é que o tempo de retorno do investimento é bem menor comparando-se com a construção de um novo edifício.

Alguns itens devem ser incorporados aos edifícios para que passem a atender às expectativas e necessidades das empresas atuais. Só após uma boa avaliação do estado do imóvel, dos objetivos do proprietário e uma avaliação do custo-benefício, se poderá indicar quais destes itens deverão ser incorporados ao edifício.

Economia

Dentro do processo de retrofit podemos separar os itens a serem incorporados ao edifício em economizadores de energia ou economizadores dos custos de manutenção, mas ambos têm como característica principal provocar uma substancial redução no custo condominial.

Dentre eles, podemos destacar:

•A troca de caixilhos, com a utilização de vidros eficientes termicamente, associada à troca das máquinas de ar condicionado e a uma revisão do sistema de distribuição, pode trazer uma economia de até 30 % no consumo de energia elétrica.

•A substituição de antigas luminárias por luminárias e lâmpadas eficientes energeticamente, associada à utilização de sensores de presença, que desligam as luminárias quando não há presença humana no recinto, e/ou sensor de luminosidade externa, capaz de dimerizar as luminárias dependendo da contribuição da luminosidade externa, pode proporcionar uma economia de até 70 % no consumo de energia relacionada à iluminação.

•A substituição de louças e metais sanitários por linhas com baixo consumo de água pode proporcionar uma economia de até 30 % no seu consumo.

Com relação à diminuição dos custos de manutenção existem várias soluções que podem contribuir para esta redução ao longo da vida útil do edifício. Estas soluções incluem a utilização de materiais, tanto internamente como no revestimento das fachadas, que necessitem baixa manutenção e que tenham longa vida útil. A utilização de materiais modulares, como forros modulares e pisos elevados removíveis, que facilitem tanto as mudanças de lay-out como a manutenção do entre forro e das tomadas de piso, entre tantas outras soluções.

A escolha das alternativas depende de uma análise do edifício levando em conta seu estado de manutenção, as expectativas dos proprietários e de uma adequada análise de retorno do investimento. É importante lembrar que os números de economia citados acima não são teóricos, mas sim advindos de projetos realmente realizados.

Além dos aspectos citados acima de valorização do imóvel, valorização dos aluguéis e diminuição do custo condominial, o investimento em retrofit, visando à redução no consumo de água e energia elétrica, atitudes ecologicamente corretas, poderá trazer um retorno em marketing para o proprietário do edifício que não deve ser ignorado. Estão existindo pressões cada vez maiores dos ecologistas e da sociedade como um todo para que as atividades humanas otimizem o consumo de recursos naturais evitando desperdícios. Nos próximos anos os custos para obtenção de energia elétrica e água ficarão cada vez mais altos, fazendo com que a economia no consumo destes itens se torne cada vez mais importante.

Incentivos

Além da valorização do imóvel e da possibilidade de obter melhores valores de aluguel, existem vários programas de incentivo para que os proprietários promovam a reforma de seus edifícios diminuindo o prazo de retorno do investimento, além de intervenções de natureza pública e privada que conjuntamente e de uma forma sinérgica, contribuem com o processo de revitalização do Centro:

•Na área central da cidade existe um incentivo para quem reformar as fachadas e fizer a manutenção em imóveis tombados (cerca de 400 imóveis) ou preservados (localizados num raio de 300 metros de um bem tombado) através da isenção do pagamento do IPTU por 10 anos.

•Na mesma área central delimitada pela Operação Urbana Centro, para os imóveis tombados ou classificados como Z8-200, os imóveis restaurados poderão vender o potencial de construção não utilizado para outros imóveis localizados na área central.

•A Caixa Econômica Federal tem um programa de financiamento destinado a condomínios, para que estes promovam melhorias em seus edifícios.

•Existe um financiamento para que seja feita a modernização de luminárias ou sua substituição por novas, visando a economia de energia, através de um convênio entre a ABILUX e o Unibanco.

•Por parte do setor público, há uma série de intervenções, executadas, em fase de execução ou a serem executadas, com vistas à revalorização do Centro. Entre elas, o restauro da Estação Júlio Prestes, a implantação da Sala São Paulo, a reciclagem do antigo prédio do DOPS, o Projeto Monumenta de recuperação da área da Luz, a reforma da Praça do Patriarca, da Rua Xavier de Toledo e da Pça. Dom José Gaspar, incluindo a reforma da Biblioteca Mário de Andrade, constituindo um corredor cultural. Alem destas intervenções, temos a política de transferência de órgãos públicos para a área central (secretarias e o próprio gabinete da Prefeita).

•Financiamento de US$ 100 milhões do BID para a Prefeitura Municipal para serem investidos em projetos de recuperação da área central da cidade.

•Também intervenções privadas e institucionais contribuem com a revitalização do Centro, tais como o Centro Cultural do Banco do Brasil, o SESC da Rua 24 de Maio, ou ainda a recuperação do Hotel Jaraguá.

Há, portanto, um ambiente propício à revalorização do Centro histórico da cidade e programas que ajudam a diminuir o impacto financeiro para o proprietário do edifício implantar um plano de reforma, como também ajudam a diminuir o tempo de retorno do investimento feito.

Conclusão

Gostaria de reiterar que, só após uma análise das condições do edifício, das expectativas do usuário e de uma análise econômica visando avaliar o retorno do investimento é que a equipe de profissionais responsável pelo projeto de retrofit, composta de arquitetos e engenheiros, poderá escolher, entre as diversas alternativas de intervenção, aquela mais apropriada para ser implantada. Mas é inegável que a atitude de promover um retrofit em edifícios antigos, proporcionará um grande retorno econômico para os proprietários dos edifícios através da valorização do imóvel, aumento dos aluguéis e diminuição dos custos de manutenção. Não pode ser desprezada a melhora de sua imagem institucional através da preocupação ambiental com a redução no consumo de água e energia elétrica e da contribuição na recuperação da área central da cidade.

Outro fator importante para se evitar a deterioração de antigos edifícios, e que não pode ser esquecido, é que o retrofit de um edifício colabora para a valorização do entorno, o que por sua vez promove a valorização do próprio edifício, quebrando o atual ciclo de desvalorização que se tem observado nos últimos anos, principalmente na área central da cidade, mas que ocorre em escala menor em outras áreas do município. Acreditamos que este ciclo de desvalorização pode ser revertido se a iniciativa privada começar a investir na modernização de antigos prédios localizados no centro da cidade, aproveitando-se das vantagens e dos investimentos que estão sendo oferecidas pelo poder público, e da demanda reprimida por parte do mercado, em função dos aluguéis ainda baixos, de cerca de 20% do valor dos aluguéis de outras regiões da cidade, e que não contam com os serviços disponíveis na área central, principalmente transportes e infraestrutura de telefonia e energia elétrica. Acredito ser de suma importância destacar o papel da iniciativa privada, que sempre foi importante na ampliação das áreas urbanizadas na cidade, neste processo de revitalização do Centro, através de atos isolados ou conjuntamente com o poder público, como tem ocorrido em outras partes do mundo.
  • Arquitetos, sócios diretores da empresa BF2 Arquitetura e Consultoria


  Urbanismo Internacional  
O urbanismo do vlt

Thierry Paquot

Depois de Saint-Étienne, onde o VLT (veículo leve sobre trilhos) é centenário, depois de Nantes, Grenoble, Rouen, Strasbourg, Saint-Denis/Bobigny, chegou a vez de Montpellier e Orléans iniciarem uma linha de transporte comunitário que seduz tanto os administradores como a população em geral. Nantes, Grenoble e Strasbourg prolongam ou completam suas redes com novas linhas, Nice e Valenciennes traçam as suas, enquanto outras cidades de menor população, como Dunkerque, sonham com isso. Na França, o VLT vai muito bem e passa de 80 a 130 quilômetros de vias se contarmos apenas as inaugurações recentes.

Por que o VLT ? Pelo seu canteiro de obras relativamente "limpo", pela qualidade do serviço, pelo conforto e segurança dos usuários, pela imagem da cidade , ainda , e sobretudo pelo impacto urbano de seu traçado. De fato, uma linha de VLT não visa somente a descongestionar um centro saturado de automóveis, mas também a interligar bairros da cidade, redinamizar setores em declínio, reurbanizar zonas algo isoladas, isto é, dar uma unidade territorial às aglomerações combatendo a distância que, freqüentemente, expressa a segregação espacial. O traçado do VLT permite estabelecer relações entre bairros incomunicáveis entre si e oferece ao usuário uma visão completa de sua cidade, de seus equipamentos coletivos, de suas atividades econômicas, esportivas e culturais. Assim, o VLT é muito mais do que um meio de transporte, trata-se de um meio estimulador e multiplicador de urbanidade. Sua rentabilidade, não apenas econômica, leva em conta, além da relação passageiro/quilometragem/dia, o acréscimo de solidariedade e de prazer que o VLT proporciona a todos.

O visconde G. d’Avenel relata a criação da primeira linha de veículos sobre trilhos, em Paris, em 1853. "A idéia", escreve, "nos veio de Nova York, trazida por um francês, Monsieur Loubat, que a havia aplicado antes com sucesso nos Estados Unidos. Assim, o novo modo de tração foi batizado ‘estrada de ferro americana’. A palavra tramway — via de trilho chato —, emprestada das minas de carvão inglesas e inusitada na América, só iria ser adotada mais tarde em nosso continente." O tramway* se generaliza em várias cidades do mundo, como Nova York e Londres, usando a tração a vapor antes de converter-se à eletricidade. O tramway elétrico teve início na França em 1890, na cidade de Clermont-Ferrand, que o inaugurou antes de ser imitada por mais de cinqüenta outras cidades. Algumas linhas são curtas, como a de Fourmies, equipada com um tramway a vapor de 1884 a 1903; outras linhas não puderam dar o salto tecnológico e passar do vapor à eletricidade. Outras cidades desistem do tramway por motivos diversos, entre eles a convocação de seus funcionários em decorrência da Primeira Guerra Mundial, em algumas , clientela insuficiente e concorrência do ônibus em outras. Paris, apesar de um movimento de 700 milhões de viajantes em 1927, fechou suas linhas em 1938; os bombardeios da Segunda Guerra Mundial destruiram várias redes que não seriam restabelecidas. O VLT, após um interesse excepcional, abandonou as cidades francesas. É verdade que os construtores nacionais se desinteressaram por esse setor industrial e que o parque automotivo conheceu uma expansão irreversível. O VLT, no início dos "gloriosos anos 30", possuía uma imagem negativa: ele era barulhento, feio, desconfortável, antiquado, e ninguém se preocupava em modernizá·-lo e dar-lhe uma cara nova. Depois, veio o tempo do "desafio americano" e do ideal da cidade adaptada ao automóvel, com seus vastos centros comerciais suburbanos na periferia e suas estradas urbanas penetrando até seu coração! O "tudo-pelo-automóvel" tornou-se então a ideologia incontestada de todos os responsáveis pela tomada de decisão e não apenas dos engenheiros politécnicos a quem a atribuimos precocemente. No entanto, os partidários do VLT não se renderam e, de um escritório de planejamento à direção de urbanismo de uma cidade do interior, continuaram sua cruzada. Michel Bigey, assumindo com orgulho fazer parte dessa cruzada, conta, em um artigo publicado pela revista Urbanisme, as peripécias do retorno do tramway. Explica o tortuoso e por vezes desencorajador percurso do militante do VLT, destacando as condições necessárias para sua adoção. É preciso que homens e mulheres convencidos e empreendedores demonstrem permanentemente as vantagens do VLT e insistam nos benefícios que ele traria a uma cidade desfigurada pelos automóveis e fragmentada pela ausência de uma rede de transporte coletivo digna do nome. Mas tais homens, por mais talentosos que sejam, não são suficientes, lembrando que Jean Frébault, diretor da Agência de Urbanismo de Toulouse, por não conseguir convencer o "histórico" prefeito Pierre Baudis e seu filho, que o sucedeu em 1983, viu então a vitória do metrô. É também preciso uma equipe municipal decidida a escolher o VLT e o que ele significa, tanto para o urbanismo da cidade quanto para sua imagem. É preciso ainda a existência de tecnologias competitivas e uma opinião pública favorável, assim como técnicos em transporte — ou, como se diz hoje, "gerentes de rede" — competentes. Enfim, é importante aproveitar o "espírito do tempo". Se este não estiver preocupado com a questão dos transportes coletivos e se, além do mais, ele se opõe ao VLT, não há nenhuma razão para que esta rede ressurja na paisagem urbana. Podemos ver que a receita parece simples, mas é necessário um conjunto de ingredientes difíceis de reunir e articular adequadamente, além de uma manipulação apropriada. "O VLT não é uma panacéia para os transportes públicos", diz com sabedoria Michel Bigey, "mas um instrumento que, para ser eficaz, deve ser utilizado respeitando certas regras. Duas delas são essenciais: ele deve circular sobre uma plataforma segregada dos outros tipos de circulação, e as linhas não devem ultrapassar a parte central da cidade, zonas de forte densidade de habitação ou trabalho que justificam este ‘eixo pesado’." Conseqüentemente, é importante desconfiar do modismo atual que os administradores, assim como a própria opinião pública, às vezes incorporam. É verdade que o design do VLT em Strasbourg ou Montpellier o valoriza. Mas não é porque nestas cidades o VLT melhora a vida dos cidadãos e a qualidade de seus deslocamentos, ligando bairros estigmatizados ao centro da cidade, que em outros lugares possa suceder o mesmo. A conta é alta e a responsabilidade daqueles que decidem consiste exatamente em efetuar a boa escolha. Algumas cidades são muito pouco povoadas ou extensas demais para que se possa oferecer uma rede de VLT que responda à sua legítima necessidade e devem, principalmente, forçar uma revolução nos ônibus — imaginando espaços protegidos, ônibus confortáveis e pouco poluentes —, impelir os automobilistas a respeitar os ciclistas e criar estacionamentos autorizados. O VLT não possui apenas virtudes; reconhecer e levantar os inconvenientes que ele gera na vida dos moradores das áreas lindeiras permitirá evitá-los no futuro. Enfim, o VLT não poderia substituir o paciente trabalho dos urbanistas, nem autorizar a dispensa do aprofundamento das práticas democráticas na escala de uma cidade. (Reproduzido de Urbanisme nº 315, Paris, novembro/dezembro de 2000)
  • Tramway: bonde original, que depois se chamou genericamente VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos).


  Urbanismo Internacional  
A centralidade em questão

Gilles Peissel

Em Grenoble, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) pode ser considerado como um instrumento de valorização e organização do espaço. Desta forma, além de um simples meio de deslocamento, ele revela a natureza das relações entre o centro e a periferia, assim como o aumento progressivo da aposta na centralidade pelo conjunto de cidades que compõem a região urbana

Uma primeira linha em serviço em 1987, uma segunda em 1990, a terceira programada para 2005, com a extensão das linhas precedentes: o VLT de Grenoble vai bem e estende pouco a pouco sua rede ao conjunto da aglomeração urbana. Se os debates que acompanharam seu nascimento foram fervorosos, este instrumento hoje tem a unanimidade, tanto junto aos políticos quanto à população1. Cada um quer seu VLT, e não só por uma questão de transporte.

Um catalisador urbano

No entanto, lembra Jean-Claude Pradeilles, analista das políticas urbanas2, "a vontade de estruturar a cidade com o VLT no início só dizia respeito ao centro de Grenoble. O objetivo maior era desdobrar a sua influência, explorando do melhor modo seu potencial comercial e de lazer e favorecendo sua abertura para a periferia". Local de convergência das duas primeiras linhas de VLT, continuando assim a política já iniciada com os ônibus, esse centro pouco a pouco instituiu-se como único coração de uma aglomeração de importância crescente. Nessa problemática de concorrência entre centro e periferia, ainda atual, o VLT teve o eminente papel de catalisador urbano e de drenagem, essencalmente em sentido único. A exceção digna de nota é a cidade de Échirolles, que tentou abolir o trem a vapor e fazer frutificar, por sua conta, os efeitos do VLT.

Essa cidade periférica se beneficia desde 1996 do prolongamento em seu território da linha A, que foi integrada a um longo processo de reestruturação urbana iniciado nos anos 70, visando a afirmar sua identidade. "Nós lutamos para que o VLT chegasse até nós, a fim de usá-lo para servir ao nosso projeto", explica André Géry, responsável do serviço de urbanismo da região. "Após um enorme trabalho para integrá-lo ao tecido urbano específico de periferia, fizemos dele o eixo majoritário de nossa cidade". Essa oportunidade permitiu interligar as duas partes da comunidade separadas por um anel rodoviário, reconquistar uma via e, sobretudo, reforçar a criação ex nihilo de um centro que toma forma progressivamente: 650 habitações já foram construídas, assim como áreas comerciais e aproximadamente 30.000m2 de equipamentos, como o primeiro cinema multiplex da aglomeração. O conjunto alinha-se de um lado e do outro do tramway, criando um eixo central longilíneo sem — por enquanto — ter uma verdadeira profundidade.

O impacto do VLT

Se esse prolongamento se justificava antes de mais nada pela população servida (ele atravessa Villeneuve d’Échirolles), não é o caso da extensão, da linha B — decidida conjuntamente — após a estação da SNCF: apenas um quilômetro para ligar o Europole, um centro empresarial de brilho fraco e provinciano lançado pela municipalidade de Carignon. Não só por se tratar de um ponto de fluxo de deslocamento preexistente, mas por uma questão de imagem e de uma abertura interessante para um futuro serviço de transporte das comunidades do norte-oeste da aglomeração. "A nova municipalidade de 1995 hesitou em realizar esse prolongamento. Mas o VLT contribuiu muito para a valorização desse bairro, e se justifica totalmente pela implantação do Palácio da Justiça e da Cidade Escolar Internacional", explica Claude Baret, diretor das operações no Sindicato misto dos transportes coletivos da aglomeração de Grenoble (SMTC). Curiosamente, esse trecho, em funcionamento desde 1999, pára antes do "polígono científico" que concentra numerosos organismos de pesquisa, privando-se assim de uma ligação direta com o campus universitário de Saint-Martin d’Hères, na outra ponta da linha. Para uma cidade que aposta muito em seu potencial científico, esse eixo teria, portanto, um significado muito forte. Vários observadores ressaltam a ausência de sensibilidade urbana do público interessado. "Antes da chegada da linha B, o campus era um tipo de terra-de-ninguém", diz Hubert Gaillardot, urbanista na Agência de Urbanismo da Aglomeração de Grenoble (AURG). "O VLT mudou a situação graças à implantação de comércio e serviços em seu ponto final que se tornou um lugar significativo e muito freqüentado por estudantes. Ele permitiu igualmente desencadear na cidade o processo de formação de novos grupos oriundos da Universidade". Vários departamentos assim se decentralizaram para fora do campus, sempre em proximidade a alguma linha do VLT: perto do hospital de La Tronche, em Échirolles ou ao sul de Grenoble.

A influência desse "peso-pesado" não se limita apenas a uma faixa de seis metros de largura no solo. O estudo de impacto realizado pela AURG para a primeira linha ressaltava a necessidade de não raciocinar unicamente em termos de deslocamento, mas também de qualidade urbana. "Com o VLT pudemos reencontrar um espaço partilhado, sem obstáculos entre os diferentes meios de transporte como na Alameda Berriat. Isso dá à cidade uma imagem mais suave, menos segregada", explica Hubert Gaillardot. Essa reconfiguração completa dos espaços cortados implica uma intervenção global, do plano de circulação ao tratamento do solo, onde a infra-estrutura de transporte representa em média a metade do custo de uma operação. Sendo princípio do SMTC assumir a requalificação do viário de fachada a fachada (a municipalidade pagando o custo excedente eventual até um certo nível), é um aspecto que a coletividade não deve negligenciar se quiser, além de ser revalorizada, valorizar também uma de suas avenidas.

Da cidade à região urbana

Requalificação urbana e deslocamentos estão, aliás, na origem do projeto da terceira linha. Esta deverá atravessar a aglomeração de leste a oeste, pelos Grandes Bulevares de Grenoble, reconquistar esse eixo do tráfego saturado da auto-estrada (60.000 veículos por dia), visto como uma verdadeira ruptura da malha urbana. Evitando o núcleo central, essa linha foge da lógica radioconcêntrica da suas irmãs mais velhas, revelando uma ampliação das apostas. E, mais ainda, que o núcleo central se coloca como muito pequeno face a uma forte presença automotiva e a uma grande demanda de animação.

A ramificação secundária que Saint-Martin d’Hères reivindicava para sustentar seu projeto de eixo de centralidade confirma a evolução morfológica dessa aglomeração. "Ela foi aceita, pois é o início de uma futura linha circular", especifica Marc Baietto, presidente do SMTC. Pouco a pouco, o VLT tende a ser considerado como um instrumento de antecipação para espaços futuros. Mas considerando o PDU (adotado em maio 2000) limitado à aglomeração, Jean-Claude Pradeilles estima que esta "se esforça em defender sua capacidade de influência quando não tem mais verdadeiramente nem o potencial econômico nem a população para exibir tal pretensão de hegemonia. A questão que se coloca é a do status que se vai dar às periferias". Pois o que está em jogo desloca-se de novo, dessa vez na escala da regional3, acarretando os mesmos reflexos. Reconhecendo "um temor latente de ver a aglomeração perder seu atrativo", Marc Baietto afirma que "o movimento para pensar a região urbana em termos de complementaridade e não de concorrência foi iniciado". O que coloca o VLT frente a seu destino: sair de seu ninho pela rede SNCF segundo o princípio do VLT-trem (tram-train), ou ficar onde está e deixar os traçados rodoviários cercarem a cidade4. E nesse caso, não há unanimidade... (Reproduzido de Urbanisme nº 315, Paris, novembro/dezembro de 2000)
  1. A primeira linha veio depois de um referendo onde 53% dos grenoblois declararam-se favoráveis ao VLT. Quando foi feita uma pesquisa de casa em casa organizada em 1992 na escala da aglomeração, esse número passou a 91%.

  2. Pesquisador no laboratório CERAT-CIVIL. Instituto de estudos políticos em Grenoble.

  3. Grenoble tem 150000 habitantes: a glomeração 374000 (23 comunidades, perímetro de aplicação do PDU) e a região urbana, 623000 (167 comarcas, área coberta pelo plano diretor).
  4. A reconquista das Grandes Avenidas – e mais amplamente o descongestionamento da zona central – precisa do cuidado dos fluxos de trânsito por um ou outro dos lados do dispositivo. O PDU fala dos dois: as reformas "programadas" do anel norte e o VLT - trem que ainda falta "determinas".


  Entrevista  
Por que recuperar o centro

Alfredo Garay
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)


O arquiteto e urbanista argentino Alfredo Maximo Garay, 51 anos, é um profissional prestigiado em seu país. Mas não só lá. Professor universitário, autor de numerosos projetos de renovação urbana e experiente em gestão pública, ganhou projeção internacional ao coordenar, como secretário municipal de Planejamento de Buenos Aires, a intervenção que transformou as desativadas instalações portuárias do centro da capital argentina no Puerto Madero, um imenso e deslumbrante conjunto de restaurantes, lojas, escritórios, residências e equipamentos culturais e de lazer às margens do Rio da Prata. A revitalização dos turísticos bairros portenhos de San Telmo e La Boca e da legendária Avenida de Mayo também enriquece o currículo do ex-secretário Garay. Mas é como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, que ele vem estreitando seus laços com São Paulo. Designado para acompanhar a elaboração do plano de recuperação do Centro pela Prefeitura paulistana, objeto de um financiamento, Garay observa a área central da cidade — para ele uma usina de problemas e soluções — e emite seus pontos de vista, ajudando na elaboração final do plano. Em caminhadas pelas ruas centrais e em incursões de ônibus ou trem às bordas da mancha urbana, o argentino se depara com uma metrópole surpreendente e vital, propícia a criativas intervenções em seu tecido urbano — a começar pelo Centro, para o qual recomenda uma operação de redesenho da volumetria e dos espaços públicos. Alfredo Garay foi ouvido por Jule Barreto e Ana Maria Ciccacio, de urbs, em uma de suas recentes visitas a São Paulo. A seguir, os principais momentos da entrevista.

urbs – O sr. vem declarando que é preciso saber que tipo de Centro desejamos. Quais as opções?

Alfredo Garay – Respondo com algumas questões. Poderá o Centro continuar mantendo a centralidade do antigo Centro? Poderá a cidade possuir dois ou três centros especializados? Tem o Centro a vocação de converter-se num bairro caracterizado, de recuperar as condições de um bairro desse tipo? Esta última possibilidade apresenta muitos problemas, porque o formato do edifício que se construiu nas décadas de 40 e 50, a torre de escritórios, é de difícil conversão para o uso residencial, sobretudo quando é uma torre de 30 andares. E é preciso considerar que o Centro preserva muitas funções do Centro de outrora, como a de abrigar os tribunais, o mercado financeiro, as bolsas, o comércio atacadista, as ruas de lojas especializadas que não existem em outros lugares da cidade. O Centro continua sendo um lugar de atividades turísticas importantes e preserva uma zona com vocação para cinemas e espetáculos que poderia ser reabilitada sem demasiado esforço.

Como recuperar ou reforçar essas funções? Com pequenas operações ou com uma grande intervenção?

À medida em que vou observando o Centro convenço-me de que é preciso uma seqüência de operações menores que qualifiquem as suas diferentes peças, que desmonte o organismo dessas peças para que se possa trabalhar sobre o funcionamento interior de cada uma delas, fortalecendo sua vocação.

As funções que o Centro preserva, e que são características de centralidades metropolitanas como a nossa, incluem atividades econômicas e de negócios que exigem novos e maiores edifícios. Mas tem-se a impressão de que ainda não se resolveu se o Centro é predominantemente um pólo de atividade econômica, um repositório do patrimônio histórico ou ambos em harmonia. Não há interesse visível em favorecer os novos edifícios.

Vou lhes dizer algo que costuma gerar muita polêmica: há uma contradição entre o centro histórico e a centralidade. Muitas vezes, para manter a centralidade, procede-se à demolição do centro histórico. Isso porque os centros costumam ter problemas com a estrutura parcelária, que é muito fragmentada e dificulta a construção de modernos produtos imobiliários. Quase sempre os novos edifícios exigem grandes lotes, para possibilitar estruturas maiores. Em Buenos Aires demoliu-se sistematicamente parte da cidade para construir mais centralidade, perdendo-se um patrimônio importantíssimo.

O Barrio Norte?

Sim, mas também parte do centro antigo. E não apenas as construções do período colonial, que desapareceram no começo do século XX, mas até mesmo edifícios dos anos 20 e 30.

Parece que essa concepção mudou. Já não se demole como antes.

A partir dos anos 80 essa mentalidade se transformou. Passou-se a falar sobre a necessidade de valorizar o patrimônio histórico e arquitetônico. Colocou-se o dilema de proteger o patrimônio ao custo do esvaziamento da centralidade e a solução consistente na busca de um espaço contíguo onde construir a centralidade. No caso de Buenos Aires, essa vontade de manter a centralidade sem demolir o patrimônio levou à conquista de terrenos portuários para uma expansão natural do centro, caso de Puerto Madero.

Deve-se preservar todas as edificações antigas?

Essa questão levanta um tema conceitual muito importante: para preservar o patrimônio é preciso identificar o que tem valor, o que de fato conforma ambientes representativos de determinadas épocas da cidade. Mas para valorizar aquilo que tem valor será preciso, muitas vezes, demolir o que não tem. No caso de São Paulo, à semelhança de alguns diamantes brutos, deveria ocorrer um trabalho de demolição para abrir espaços públicos e voltar a equilibrar-se a relação entre construir e não construir. Há que redesenhar a volumetria do Centro. Eu diria que, em alguns casos, edifícios que não têm valor arquitetônico ou patrimonial — e no Centro de São Paulo há muitos — se demolidos permitiriam dar outra qualidade aos espaços públicos. É uma operação de destruição de capital mas, em termos conceituais, às vezes é preciso destruir o capital para imprimir-lhe valor.

Que edificações poderiam ser demolidas e o que se edificaria no lugar delas?

A primeira coisa a fazer, penso, é catalogar os edifícios, definir que imóvel, que conjunto, que ambiente tem sentido preservar. A segunda é definir os níveis de preservação. Certos edifícios são intocáveis. Outros devem ser objeto do que chamamos de proteção cautelar, ou seja, a preservação da fachada. O objetivo é proteger o ambiente do espaço público, permitindo-se que os edifícios sejam remodelados internamente desde que mantenham sua imagem externa. O que hoje se vê é que, num quarteirão, os edifícios que não estão tombados deterioram a imagem dos que estão, por serem excessivamente altos ou terem uma linguagem discordante. Acho que, nesses casos, pode-se e deve-se demolir. E então definir o que se pode construir em seu lugar: que altura, que tipo de vãos, que materiais de construção, como deve ser o térreo, o que se pode modificar atrás da fachada. Em suma, reconstruir o caráter do espaço onde estão os edifícios que se deseja preservar e fazer com que o novo não compita com ele.

Pode dar um exemplo concreto em São Paulo?

Um caso que me parece típico é o Largo de São Bento. Se alguém olha a estação de metrô, no subsolo, vê um espaço qualificado. Já a superfície da rua é um espaço absolutamente deteriorado. Nela está o Mosteiro de São Bento, com elementos arquitetônicos importantes, mas ao lado há um ginásio que prejudica a fachada do mosteiro. Para recuperar essa praça seria preciso reconstruir as fachadas de alguns imóveis e edificar no terreno vago do metrô um edifício digno, de gabarito compatível com o Centro, que devolva a geometria adequada ao logradouro. Nesse sentido, eu diria que tal operação remete ao Renascimento, quando se desenharam, em algumas cidades densas, certas praças que deveriam ter uma geometria especial.

É preciso redesenhar o Centro?

O tema do Centro não se restringe a variáveis econômicas e sociais, é um capítulo morfológico importante. Ou seja, o redesenho do espaço urbano me parece um tema central ao possibilitar a qualificação do Centro. Precisamos retomar a geometria do Largo de São Bento, do Largo de São Francisco, cuja porção mais importante é hoje ocupada por um estacionamento. E a geometria das praças da Sé e Clóvis Bevilacqua, que foi alterada na construção do metrô, deixando de ser duas praças separadas por um volume e dando lugar a um parque que diluiu todo esse espaço. Há operações que são quase que de desenho — e não como uma frivolidade de arquitetos, mas como uma oportunidade de devolver a hierarquia a um espaço, desencadeando um processo de valorização e auto-estima, de imagem urbana. Acredito que, especialmente no Centro, devamos avançar nessa linha de qualificação de espaços, e isso tem uma dimensão projetual, de geometria, de morfologia urbana. Respondendo à pergunta sobre o que demolir, dou o exemplo de um prédio de garagem, com uns 15 andares, perto do terminal de ônibus do Parque D. Pedro II. Quando se contempla a skyline desde o parque, a primeira imagem que aparece é a desse edifício, e a pergunta inevitável é: quem o autorizou? Vai se averiguar e descobre-se que ninguém o autorizou...

Voltando a Puerto Madero: há quem diga que se trata de uma operação de gentrification, que expulsou os pobres e criou espaços elitizados.

A área do antigo porto nunca abrigou população. Foi declarada área de segurança durante o regime militar e estava absolutamente vazia. Não havia ninguém para ser expulso.

Há uma quantidade de restaurantes caros, de comércio de luxo.

Um dos problemas que hoje se colocam é que uma grande quantidade de pessoas que trabalha em Puerto Madero não tem necessariamente que freqüentar os restaurantes exclusivos que lá existem. Por isso começa a haver uma tendência de surgimento de outro tipo de comércio dirigido a essa gente. Nesse fenômeno se incluem até mesmo os carrinhos que vendem sanduíches ao longo da (avenida) Costanera Sur. Tudo isso, com o tempo, vai acionar os processos que geram centro de cidade. O importante é que o projeto de Puerto Madero não reprime essa tendência.

O sr. imagina um Puerto Madero "seco" em São Paulo, numa região semelhante a uma zona portuária, como a seqüência de galpões e armazéns desativados ao longo da orla ferroviária?

Puerto Madero foi uma situação excepcional numa cidade específica. O caso de São Paulo é muito diferente. Se fizermos um bom intercâmbio de experiências, o que poderá ser aproveitado de Puerto Madero é principalmente o modelo de gestão. Buenos Aires, como Barcelona e outras cidades com intervenções do gênero, sempre teve uma frente de água. Mas o fator decisivo é que todas contavam com terrenos de oportunidade. E quais são as saídas de oportunidade no Centro de São Paulo? Que tamanho teriam esses terrenos? Eu, a princípio, sempre tendia a buscar grandes áreas de oportunidade. E estou me dando conta de que, no Centro de São Paulo, elas são muitas, mas de pequena escala.

São Paulo assistiu nas últimas décadas à irrupção de novas centralidades com fortes investimentos imobiliários e à exagerada expansão da mancha urbana, enquanto o Centro era abandonado. Trata-se de um processo que, aparentemente, está se esgotando. Trabalhamos com a expectativa de que haja um movimento de recentralização, de reocupação qualificada de áreas mais cêntricas que foram desprezadas, embora dotadas de boa infra-estrutura.

Como, aliás, deve ser uma estrutura urbana correta, racional e adequada. Creio que isso supõe uma descentralização que não tem de anular o Centro, e uma afirmação do Centro em que este não anula a possibilidade de descentralização. É necessário estabelecer uma hierarquia de centros baseada na distribuição espacial de níveis de complexidade. Os subcentros ou centros periféricos são construções que não ocorrem espontaneamente. O mercado vai deslocando os centros, mas não permite uma distribuição racional da economia sobre o espaço. Então os subcentros, em geral, surgem onde estão os setores de maior poder aquisitivo. Mas é difícil ocorrerem subcentros com bons níveis de habitação onde já existe uma massa de população com menor poder aquisitivo. Creio que nisso a rede de transportes cumpre um papel fundamental, porque são os pontos de articulação dessa rede que definem os lugares onde tendem a localizar-se os subcentros. A rede de transporte de São Paulo evoluiu lentamente em comparação com o veloz crescimento da cidade. E esta não cresceu sobre uma matriz de transporte, como ocorreu nas cidades onde essa matriz as precedeu. Parece-me que agora há projetos importantes de ampliação da rede de metrô, que será eficaz na medida em que permitir muitas combinações de trajeto. Quando as linhas são radiais e extensas, elas funcionam muito mal. Os trens chegam saturados já na metade do trajeto.

É o caso da nossa linha leste.

As linhas precisam se cruzar, permitindo estratégias de percurso dentro de uma rede de segmentos curtos. Cada ponto de articulação de linhas é um subcentro em potencial.

Algumas linhas ferroviárias estão sendo modernizadas para funcionar nos padrões do metrô. O sr. conhece os trens metropolitanos da CPTM?

Sempre me chamou a atenção o fato de as pessoas usarem pouco o trem em São Paulo. Ele parece desfrutar de má fama. Dizem que o serviço é ruim, mas, objetivamente, não é. Os vagões são bons. O trem poderia funcionar como o metrô.

Os espaços públicos do Centro e dos bairros centrais estão hoje maciçamente ocupados pelo comércio informal, por milhares de barracas, tendas e tabuleiros de camelôs. Como resolver o problema?

É uma questão de organização do espaço urbano, isto é, em que lugares e de que modo esse comércio informal pode se organizar, ou como se articularia com o comércio estabelecido. Muitas vezes há conflito com os lojistas que ocupam os mesmos espaços e vendem os mesmos produtos. São distintas atividades e interesses e, para fazê-los coexistir, deve-se cuidar de que não haja contradições antagônicas dentro de tais espaços. Mas também é preciso levar em conta aspectos bem mais perigosos, porque esse tipo de comércio popular costuma estar infiltrado por máfias. Existem muitos exemplos de cidades onde a boa vontade de uma política municipal de proteção aos ambulantes chocou-se com as regras impostas por essas máfias sobre a ocupação dos espaços e a venda de mercadorias ilícitas, como as drogas. São fatos que incorporam elementos de medo e de delinqüência à busca lícita de ocupação e sobrevivência. Por outro lado, é preciso garantir que as pessoas possam sentar-se a uma mesa na calçada, para uma cerveja, sem ser assediadas continuamente por vendedores ambulantes. Há que impor regras e critérios — e assegurar que sejam cumpridos — sobre os equipamentos, o horário em que podem funcionar, se podem ou não avançar sobre o espaço público. É ingênuo pensar numa política para esse tipo de comércio que não tenha uma dose de coerção.

Qual o argumento mais forte para que São Paulo recupere o Centro?

O imaginário coletivo se constrói no Centro. Se a cidade se valoriza, ela valoriza o Centro. Se ela não se valoriza, o Centro se deteriora. E, se o Centro está deteriorado, todos pensam que a cidade também está. Nessa questão do imaginário me chama a atenção a negligência a respeito da skyline de São Paulo. Vi um livro maravilhoso [Lembranças de São Paulo, de João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo] que conta a história da cidade mostrando os seus cartões postais ao longo do tempo. Quando se imagina qual é hoje o melhor cartão postal da cidade, a imagem que se apresenta é diluída: seria com certeza uma foto aérea ou tirada de um satélite, ou os milhares de torres que compõem um cenário de potência e ao mesmo tempo inspiram um certo medo.

O que lhe veio à mente quando se deparou com essa imagem?

Quando, do topo do Edifício Itália, enxergamos uma infinidade de edifícios de 30 andares sobre um espaço urbano onde, à noite, desponta uma população que sobrevive do lixo, percebemos que a Humanidade ainda tem muito trabalho pela frente.


  Cultura  
O mirante de São Paulo

Mais legendário arranha-céu paulistano, edifício sede do Banespa tem museu de arte e a melhor visão panorâmica da cidade

Ana Francisca Ponzio


O Edifício Altino Arantes lembra, remotamente, o Empire State Building de Nova York. Conhecido como o prédio do Banespa, essa construção situada no Centro histórico e financeiro de São Paulo, a pouca distância da Praça da Sé, está renovando investimentos para fazer jus à aura quase mitológica que o distingue na skyline da metrópole, e que o "sósia" nova-iorquino ostenta em escala mundial.

Em maio de 2001, quando passou a abrigar o Instituto Cultural Banespa, o Altino Arantes efetivou sua proposta de se agregar mais intensamente à vida cultural de São Paulo. Com um museu repleto de preciosidades, uma biblioteca cuja coleção de obras jurídicas é única na cidade, e um mirante capaz de extasiar os visitantes, o prédio — projetado por Plínio Botelho do Amaral e inaugurado em 27 de junho de 1947 — também está resgatando o seu apelo turístico. "Estamos promovendo um desenvolvimento gradativo do Instituto Cultural, porque ele está inserido no edifício, que também é local de trabalho de 3.500 funcionários do banco", diz Maria Beatriz Brandão Aguirre, superintendente de Relações Institucionais do grupo Santander-Banespa. Ela esclarece que a estrutura interna do prédio está sendo modificada aos poucos, para garantir o acesso seguro do público. Com isso, é certo que o imóvel e o Instituto ganharão maior repercussão quanto ao significado e ao conteúdo cultural que possuem.

Embora ainda não tenha a popularidade de um Teatro Municipal ou de uma Catedral da Sé, o Altino Arantes já recebe cerca de 5 mil visitantes por mês, entre estudantes e turistas, informa a superintendente. "O acesso ao Instituto Cultural é gratuito e as visitas à torre e ao museu podem ser monitoradas por guias."

Ao processo de requalificação do Centro de São Paulo, o Instituto Cultural Banespa e o seu edifício-sede contribuem com novos atrativos e avanços. Com 35 andares, o Altino Arantes já foi o prédio mais alto de São Paulo e, ao longo de mais de meio século de existência, tornou-se parte do patrimônio e da memória da cidade. Sua construção também está associada à evolução financeira da capital paulista. No final da década de 30, a expansão do Banco do Estado de São Paulo trouxe a demanda por um edifício-sede maior e melhor aparelhado.

Nessa época, a diretoria do Banco chegou a se instalar no prédio do antigo Mappin (hoje Extra), em frente ao Teatro Municipal. Porém, o crescimento da instituição acabou resultando na construção do Altino Arantes na Rua João Brícola, situada no núcleo bancário da cidade, no ponto onde a Rua XV de Novembro se encontra com a Praça Antonio Prado. Para erguer a estrutura, o Banespa demoliu um edifício que pertenceu à Santa Casa de Misericórdia.

Quando despontou na cidade, o prédio do Banespa impressionou pela altura: exatos 161,22 metros, que lhe garantiram a primazia entre os arranha-céus brasileiros durante três décadas. Com 14 elevadores, 900 degraus e 1.119 janelas, o edifício ganhou fama inclusive fora do Brasil. Em 1948, a revista francesa Science et Vie o destacou como a mais alta estrutura de concreto armado do mundo. Na época, o prédio se distinguiu dos equivalentes norte-americanos que, embora mais altos, como o Empire State e o Chrysler Building, eram de estrutura metálica.

Esbanjando charme, o edifício do Banespa assumiu o nome de Altino Arantes nos anos 60, em homenagem a um ex-presidente (como era denominado o governador, nas primeiras décadas da República) do Estado. De lá para cá, a sua fachada permaneceu inalterada, ganhando apenas novos retoques na iluminação, que virou moldura de uma imagem-símbolo da noite paulistana. Internamente, entretanto, o prédio sofreu modificações. Mas, graças à intervenção do Museu Banespa em 1990, e em seguida ao apoio do Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo (DPH), o interior do imóvel conseguiu preservar a sua singularidade. Com o tombamento do hall, das galerias, do quinto e do sexto andares, da torre e da caixa-forte (cujas portas circulares pesam 16 toneladas cada), ficou garantida a beleza espetacular do interior do edifício, cuja arquitetura inclui grades artísticas, arandelas e lustres sofisticados, acabamentos em mármore Cantagalo vermelho e granitos de diferentes tons.

Atração

Hoje, com o funcionamento do Instituto Cultural Banespa, o Edifício Altino Arantes é muito mais do que uma atração arquitetônica. O Museu Banespa, fundado em 1965 e antes destinado à atividade interna da empresa, agora está aberto ao público. Seu acervo artístico, que de início esteve disperso por várias dependências do Banco, reúne 1.003 quadros de artistas brasileiros e estrangeiros. Manabu Mabe, que inaugurou a coleção quando a pintura "Sonho de Princesa" foi adquirida pelo banco, se destaca ao lado de nomes como Di Cavalcanti, Portinari, Danilo Di Prete, Tomie Ohtake, Arcangelo Ianelli, Ismael Nery, Aldemir Martins e Marcelo Grasmann. Ainda no museu, situado no segundo andar do prédio, a história do Estado de São Paulo pode ser melhor compreendida por meio de um acervo histórico-documental, cujas coleções incluem textos, ícones, cédulas e moedas, mobiliário e mecanografia bancária.

Tão importante quanto o Museu, a Biblioteca do Instituto Cultural Banespa reúne mais de 36 mil livros distribuídos em dois setores. Um deles concentra obras de informática. No outro – o setor Central – encontram-se obras sobre direito, economia e finanças, administração de empresas, arquitetura, artes, além do acervo de diários oficiais, que possui exemplares de suas edições desde 1891. "Essa coleção virou referência para universitários e juristas, que só encontram em Brasília uma abrangência equivalente de diários oficiais", diz Maria Beatriz.

Para os turistas, no entanto, a grande atração do Altino Arantes é a torre, que proporciona uma visão de 360 graus sobre a cidade. Por enquanto, ainda funciona apenas de segunda a sexta-feira, das 10 às 17h. Com o tempo, à medida que o banco ganhar melhor estrutura para acolher o público, é provável que a torre se torne um ponto de passagem tão obrigatório quanto a do Empire State. Aberto das 9h à meia-noite durante os 365 dias do ano, o mirante nova-iorquino chega a vender ingressos (de US$ 5 a US$ 10) pela Internet, para interessados do mundo inteiro. Embora ainda muito distante de tal patamar, o grande mirante paulistano possui, sim, potencial de sedução de sobra para se tornar um dos locais irresistíveis da maior metrópole brasileira.


  Cultura  
Arte seleta

Com atrações internacionais prejudicadas pela crise, a qualidade naseleção de óperas, concertos, espetáculos de dança e exposições promete fazer o coração da cidade continuar palpitando forte

Ana Francisva Ponzio


Boa música não vai faltar no dia-a-dia cultural dos paulistanos em 2003. No Teatro Municipal, na Sala São Paulo e na Sociedade de Cultura Artística, há diversidade de ofertas para gostos arrojados e conservadores. Para os que desejam se programar com antecedência, agora é possível contar com pacotes de assinaturas também no Municipal, que está oferecendo bônus de cinco concertos para aqueles que querem desfrutar da série de 19 espetáculos agendados para este ano.

Para abrir em alto estilo a temporada deste ano, o Municipal convidou um dos músicos brasileiros mais reverenciados nos palcos internacionais – o pianista Nelson Freire. Sua apresentação em março, junto com a Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), regida por Ira Levin, também ressaltou a importância das segundas-feiras no calendário do Municipal. Segundo a direção do teatro, a escolha desse dia da semana para realizar seus concertos expande as alternativas culturais no Centro da cidade, que deixa de concentrar nos fins de semanas os seus melhores espetáculos.

Sempre às segundas, a Orquestra Sinfônica Municipal estará apresentando tanto músicas mais populares do repertório erudito, como A Sagração da Primavera, de Stravinsky, quanto obras inéditas em salas de concertos paulistanas, como Aubade, de Francis Poulenc, e a Missa Solene Glagolítica, de Leos Janácek. Na seleção de 2003, Ira Levin, o maestro norte-americano que deixou a Ópera de Dusseldorf em 2002 para assumir a direção da OSM, ainda coloca ênfase nas peças de Hector Berlioz e Sergei Prokofiev, cujos aniversários de nascimento e morte estão sendo comemorados neste ano.

Entre os solistas convidados pela OSM, destacam-se o russo naturalizado israelense Boris Belkin e o brasileiro Claudio Cruz, ambos violinistas. Nos concertos que Levin identifica como "sinfônico-corais", o Coral Infantil da Escola Municipal de Música e o Coral Lírico Municipal devem harmonizar timbres para interpretar a Sinfonia nº 3 de Mahler, programada para 12 de setembro.

Já a programação de seis óperas do Municipal se divide entre as escolhas de Levin e do maestro Jamil Maluf, que dirige a Orquestra Experimental de Repertório. Levin e a OSM estarão conduzindo as óperas Falstaff, de Verdi, Lohengrin, de Wagner, e Salomé, de Richard Strauss. Com estréia em 21 de maio, Falstaff integra a trilogia shakespeariana de Verdi, junto com Macbeth, apresentado pela OSM em 2002, e com Othelo, que Levin pretende encenar em 2004. "Com isso, forma-se um círculo coerente de programação artística", diz o maestro.

A temporada de Lohengrin, a partir de 15 de agosto, preenche uma lacuna musical, na opinião de Levin. "Embora seja uma das obras mais significativas do repertório operístico, foi executada pela primeira e última vez em São Paulo na década de 20". Agora, o maestro assegura que o Municipal já possui condições de arcar com as exigências de Lohengrin, como orquestra de excelente nível técnico, coro de aproximadamente 100 vozes, além de grande quantidade de solistas secundários.

Em contrapartida, a montagem de Salomé, em outubro, privilegia o despojamento. Ao optar por essa ópera que dispensa cenários e figurinos sofisticados, Levin coloca em evidência a interação entre vozes e orquestra, além das nuanças e da rebuscada musicalidade do repertório alemão do século 20. Entre os cantores convidados, já estão confirmados a mezzo-soprano Celine Imbert e o tenor Wolfgang Schmidt.

Completando a programação de óperas do Municipal, a Orquestra Experimental de Repertório (OER) traz sua dose habitual de criatividade. Já em março, o regente da OER, Jamil Maluf, apresenta O Chapéu de Palha de Florença, do compositor italiano Nino Rota. Montada pela primeira vez em 1993, para reinaugurar o fosso da orquestra do Teatro Paulo Eiró, essa produção inspirada em uma comédia de Eugène Labiche (1815-1888) chega agora ao palco do Municipal com elenco totalmente brasileiro, no qual se destacam cantores como Regina Elena Mesquita.

Além de Os Contos de Hoffmann, programada para novembro, outra ópera a cargo da OER é Édipo Rei, que o múltiplo artista francês Jean Cocteau escreveu a partir do drama homônimo de Sófocles, tendo como parceiro musical o compositor Igor Stravinsky. O espetáculo deve estrear em junho, com a participação da Companhia 2 do Balé da Cidade de São Paulo.

Em outro endereço musical nobre, o Teatro de Cultura Artística, é uma programação enxuta que marca 2003. A única grande orquestra incluída na pauta deste ano é a Verdi de Milão, sob regência de Riccardo Chailly (em junho). Contudo, as nove demais atrações mantêm o alto padrão da temporada, que conta com a Orquestra de Câmara de Moscou, o Quarteto Alban Berg, Antonio Meneses e Menahem Pressler, entre outros.

Música no ar

À sua aguardada temporada anual, a Sala São Paulo agora associa a reputação internacional de sua orquestra residente, a Sinfônica do Estado (Osesp), que no ano passado foi consagrada durante a temporada no Lincoln Center de Nova York. Com a cotação em alta e o repertório sinfônico em expansão, a Osesp começa 2003 com fôlego renovado e uma novidade. A partir de abril, a recém-formada Orquestra de Câmara da Osesp inaugura sua trajetória sob a batuta do violinista Cláudio Cruz e com uma programação que inclui solistas convidados ilustres, como o violoncelista Antonio Meneses.

Para o público da Sala São Paulo, o maestro John Neschling, diretor artístico da Osesp, também programou uma homenagem a Tom Jobim e Leo Gandelman. Em maio, por exemplo, o Quinteto de Gandelman realiza um recital que reúne clássicos do jazz (como In a Sentimental Mood, de Duke Ellington e My Favorite Things, de John Coltrane) e da música popular brasileira (como As Rosas não Falam, de Cartola). Segundo Neschling, programas como esse abrem novos caminhos na programação da Sala São Paulo, que ainda contará com o requinte do Coro da Osesp em interpretações de obras como Dido e Eneas, de Purcell.

Entre os pontos altos da temporada da Sala São Paulo, há ainda o concerto que a Osesp realizará em agosto, sob a regência de Kurt Masur, o consagrado maestro alemão que no ano passado trocou a direção da Filarmônica de Nova York pela da Orquestra Nacional da França. Conduzidos por Masur, os músicos da Osesp interpretarão Beethoven, Schumann e Brahms.

Portanto, em 2003 a música estará no ar do Centro paulistano, que ainda contará com o festival de órgão promovido todo fim de ano pela Associação VIVA O CENTRO, com o patrocínio do BankBoston, no Mosteiro de São Bento, além das boas opções do Centro Cultural Banco do Brasil, entre elas montagens teatrais com Fernanda Torres e Raul Cortez e o programa "Terças Musicais", com destaques como os "Concertos de Cabaré", com direção cênica da coreógrafa Regina Miranda, e o evento dirigido por Guga Stroeter que enfocará as músicas cubana e brasileira do século 21.

Diversidade nas artes visuais

Com relação às artes visuais, o calendário cultural do Centro paulistano também estará bem servido. Carro-chefe nessa programação específica, a Pinacoteca do Estado inaugurou 2003 com a magnífica exposição Albert Eckhout – Volta ao Brasil 1644-2002. Em abril, a Pinacoteca novamente entra em destaque, com a retrospectiva de Hélio Oiticica e a exposição que homenageia o centenário de Cândido Portinari.

Tudo indica que a Pinacoteca se manterá como sede das grandes retrospectivas de 2003. Além de mostrar o percurso artístico de Iberê Camargo em junho, exporá em outubro a trajetória de Carlos Fajardo. Para encerrar o ano, a Pinacoteca traz da Espanha a obra de Miguel Barceló, o pintor que a partir dos anos 80 tornou-se uma das maiores personalidades das artes plásticas da Europa.

Grandes eventos marcarão inclusive o Masp da Galeria Prestes Maia, que neste ano realizará o 54º Salão Paulista de Belas Artes, de 9 de maio a 9 de junho. Outro endereço que concentrará mostras importantes é o Centro Cultural Banco do Brasil, que em abril comemora o segundo aniversário de sua sede em São Paulo, com a exposição Claraluz, de Regina Silveira.

Entre as mostras voltadas para a arte brasileira, o Centro Cultural Banco do Brasil ainda destaca "Ordenação e Vertigem", que enfocará entre agosto e setembro a obra de Arthur Bispo do Rosário. Já a programação internacional de artes plásticas do Centro terá como ponto alto a exposição que reunirá a partir de maio as obras de Andy Warhol e Keith Haring, dois papas norte-americanos da pop art.

Em meio à prolífica oferta musical e de artes plásticas, os amantes do cinema também terão atrações permanentes no Centro Cultural Banco do Brasil, que promoverá mostras que enfocarão desde o cinema sueco ao japonês, além de eventos como o festival internacional de documentários É Tudo Verdade.

Na programação de dança, os teatros do centro ainda aguardam confirmações internacionais, como a companhia de Merce Cunningham, que pode se apresentar no Teatro Municipal. Porém, mesmo com menor oferta de atrações estrangeiras, a dança terá compensações com a comemoração dos 35 anos do Balé da Cidade de São Paulo (BCSP). Para celebrar sua maturidade, o BCSP estreará, em julho, um programa que reúne quatro obras de Ohad Naharin. Para quem ainda não conhece, o israelense Naharin é o diretor artístico da prestigiada Batsheva Dance Company e um dos coreógrafos mais disputados pelas melhores companhias do mundo. Para o repertório do BCSP, as obras de Naharin representam uma conquista que chega a ser histórica.

ACESSO FÁCIL
Para maiores informações sobre a programação cultural no Centro de São Paulo, consulte:
•Teatro Municipal, telefones (11) 3334-1165, 3334-1320 e 3338-1944 (falar com Dira sobre vendas de assinaturas, das 10h às 17h);
•Sociedade de Cultura Artística: cultart@diadata.com.br;
•Sala São Paulo, OSESP: www. osesp.art.br ou o serviço de assinaturas, tel. (11) 3351-8200;
•Pinacoteca do Estado: pinasp@uol.com.br;
•Centro Cultural Banco do Brasil: www.cultura-e.com.br ou os telefones (11) 3113-3651 e 3113-3652
•Masp Centro: (11) 3101-7666.
Legendas
1 -Nelson Freire exibiu-se com a Sinfônica Municipal
2 -Ira Levin, várias estréias à frente da OSM
3 -Quarteto Alban Berg, em julho no Cultura Artística
4 -Jamil Maluf dirige a Sinfônica Experimental
5 -Riccardo Chailly regerá a Orquestra Verdi, de Milão
6 -Orquestra Verdi acompanhará Nelson Freire, no Cultura Artística
7 -Vladimir Lavrik tocará com camerata moscovita
8 -Fernanda Torres estará no CCBB
9 -Antonio Meneses será acompanhado por Pressler
10 -Pianista Menahem Pressler, atração em agosto
11 -Balé da Cidade, 35 anos e novas coreografias
12 -Kurt Masur regerá a Osesp na Sala São Paulo
13 -Orquestra do Festival de Budapeste, em setembro
14 -Ensemble TM+, da França, no Cultura Artística
15 -Raul Cortez será cartaz no CCBB
16 -Sylvia Vadimova cantará com o Ensemble TM+
17 -John Nescling, surpresas à frente da Osesp
18 -Trio holandês L´Archibudelli, em setembro
19 -Europa Galante, regência de Fabio Biondi
20 -Camerata Strumentale "Citta Di Prato"
Pinacoteca (acima) seguirá como sede de grandes retrospectivas em 2003.
No mapa (abaixo), o circuito formado pelos principais equipamentos culturais do Centro


  Cultura - Fotografia  
Nervos de Aço

Paulistano de 27 anos, o ex-estudante de administração Davilym Dourado cursou fotografia em Miami (EUA) e no Senac. Após breve passagem pelo fotojornalismo, hoje dedica-se a ensinar o ofício às crianças carentes do projeto Escola Aberta. Seu tema predileto é o metabolismo de São Paulo. Mas a incursão no organismo da metrópole não significa renúncia ao lirismo, que Davilym extrai de fontes tão improváveis como os trilhos ferroviários e a fiação elétrica exposta. Prova-o esta seleção de imagens do metrô paulistano, que revela uma cidade quase estranha e, não obstante, íntima em suas nervuras e filamentos de aço. Uma inusitada combinação de aspereza e poesia na qual a solidão, captada em rostos e vultos fugazes, tem um papel tão decisivo quanto o deslocamento e a vertigem na composição de uma alma paulistana.

Conheça mais Parte do trabalho de Davilym Dourado pode ser conhecida nos sites www.latinarte.com e www.fotosite.com.br/visor



  Mix Artes e Espetáculos  
Cultura em vez de pregão

Quem visita o Espaço Cultural BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros), na Praça Antonio Prado, não imagina que aquele saguão de arte (foto) já abrigou o burburinho do pregão, com mais de 700 operadores. Atualmente, os 330 metros quadrados expõem algumas das mais importantes exposições do circuito das artes plásticas paulistanas. Essa não é a única contribuição da BM&F à história do Centro de São Paulo. Em 1986, a BM&F (fusão entre a Bolsa de Mercadorias de São Paulo e a Bolsa Mercantil e Futuros) já deixava sua marca na cidade, dando início à recuperação da Praça Antonio Prado. O resultado da iniciativa é marcante para quem circula pela região: o piso regular da calçada, belas floreiras e quiosques de madeira com serviços de engraxate, banca de jornal e cabines telefônicas tornaram-se uma referência de qualidade urbana.

Até o final da década de 1990, no entanto, o edifício-sede da BM&F não refletia a importância da instituição. Entre 1999 e 2002, uma grande reforma foi realizada para adequá-lo, um projeto que incluiu o edifício anexo, o restauro da sua fachada (tombada pelo patrimônio histórico), a implantação de iluminação decorativa e a transformação do espaço interno. Nessa reforma, o pregão foi transferido para o terceiro subsolo do edifício anexo, liberando o antigo saguão ao projeto da arquiteta Camila Matarazzo, que previu a modernização do espaço e sua integração à paisagem da Praça Antonio Prado.

O Espaço Cultural BM&F procura mostrar o interesse que o mercado financeiro nutre pela arte, tanto que sua exposição inaugural foi justamente a do acervo de obras-de-arte das corretoras que compõem a instituição. Para o ano de 2003, há uma série de exposições agendadas, como a de fotos do vale do Rio Amazonas, a de obras feitas pelos corretores da BM&F e uma grande exposição de parte do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, com o qual a BM&F mantém parceria. Vale conferir.

Espaço Cultural BM&F – Praça Antonio Prado, 48. Tel. 3119-2404. Metrô São Bento. Segunda a sexta, das 10h às 17h. Entrada Franca. Acesso para deficientes físicos. Sem estacionamento. Site: www.bmf.com.br. E-mail: bmfcultural@bmf.com.br. Visitas monitoradas devem ser agendadas pelo telefone acima.

Caixa de sonhos

A graça das linhas art déco, presente em cada detalhe da arquitetura do Edifício Sé, é o abrigo ideal para as exposições do Conjunto Cultural da Caixa (foto). O edifício-sede da Caixa Econômica Federal em São Paulo, inaugurado em 1939 por Getúlio Vargas, dotado de colunas geométricas, mármores maciços e um grande vitral, já vale o passeio. Para completar, o Conjunto Cultural inova sempre e surpreende a cada temporada cultural, com novas linguagens, atividades e exposições itinerantes.

O que muita gente não sabe, porém, é que o museu mantém exposições permanentes de relíquias da história financeira do Brasil. O acervo, composto por objetos, fotos, documentos e registros utilizados na Caixa desde o Segundo Reinado, está organizado em mostras como Máquinas de Escritório, que conta a história do design do mobiliário desde 1920, e Agência de Época, que reconstitui uma agência da década de 1930. Outras exposições, como Loterias, Penhor e Poupança e Evolução do Dinheiro, apresentam ao público aspectos da economia popular brasileira, desde os escambos (trocas de produtos) aos dias atuais. Dentro do conjunto há ainda a Sala da Presidência e a Sala do Conselho, retrato da época em que o Edifício Sé foi construído.

Conjunto Cultural da Caixa – Praça da Sé 111, 3º e 4º andares. Tel. 3107-0498. Metrô Sé. Entrada franca. Horário variado. Sem estacionamento.

A Roosevelt dos bons tempos

Uma praça rodeada por pequenos teatros — focos de resistência à mesmice da cultura de massa. Bares e restaurantes freqüentados por artistas. Calçadas apinhadas de gente, dia e noite. Quem imagina uma praça como essa, em São Paulo, corre o risco de apelar ao saudosismo, pensando no Centro da cidade das décadas de 1960, 1970. Naquele tempo, a Praça Roosevelt era o centro geográfico dos movimentos teatrais que se opunham ao regime militar. Nos teatros da região, novas linguagens e faces ocultas da realidade brasileira ganhavam um tom vanguardista. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a agitação diminuiu, e a freqüência à região alterou-se. Nos últimos dois anos, contudo, a Roosevelt vem retomando sua antiga vocação. Além da recuperação de seus espaços, boa parte de seus pontos comerciais voltou a abrigar teatros, bares e cafés que aos poucos voltam a atrair a atenção da paulicéia. Pode-se dizer que a praça está irreconhecível. O local é novamente um epicentro cultural revigorado pelas obras e pelo entorno: o Teatro de Arena fica a menos de um quarteirão; do Cultura Artística contam-se 100 passos; o Oficina, fica a apenas três quarteirões; o TBC e os teatros da Rua Rui Barbosa e da Avenida Brigadeiro Luís Antonio também estão na região. E agora, na própria Roosevelt, também estão o Estúdio Teatro X, o Teatro Recriarte Bijou e o Teatro Studio 184 oferecendo sempre programações inovadoras. Vale a pena se antenar. O espaço mais inusitado da praça é o Espaço dos Satyros, um pequeno bar e restaurante que, além do cardápio simples e convidativo, apresenta montagens teatrais inusitadas (como "Antígona", na foto), sem contar oficinas e workshops de interpretação e direção. Outro ponto da praça que realiza cursos de teatro é o Teatro Studio 184.

Espaço dos Satyros – Praça Roosevelt, 214. Tel. 3258-6345. Teatro Studio 184, no nº 184 da praça. Tel. 3258-0741. Recriarte Bijou, nº 172. Tel. 3257-2264. Metrô República. Horário e programação a conferir.

Exemplo de recuperação

Quando o grupo de teatro Companhia Pessoal do Faroeste da Cooperativa Paulista de Teatro encontrou um local para se instalar, certamente não imaginava que seus planos fossem tão longe. Primeiro, a trupe encontrou um casarão de 1925 e conseguiu que sua fachada fosse restaurada e seu espaço adaptado, transformando-se no Centro Cultural Capobianco, o CCC. Depois, ao vencer o Programa Municipal de Fomento para a Cidade de São Paulo, Lei 13.279, de 8 de janeiro de 2002, o grupo conseguiu obter R$146 mil. Com o dinheiro, seus mais de trinta integrantes começaram a montar o espetáculo Re-bentos, com texto e direção geral de Paulo Faria e direção de Edgard Castro. A peça discute a arte e a poesia ocultas no dia-a-dia dos paulistanos que habitam os cortiços da região central. A primeira temporada da peça foi em 2002. Agora, em 2003, o espetáculo continua em cartaz, de 10 de janeiro a 30 de março.

Além dessa montagem, o grupo conseguiu fazer com que a sede do CCC, um casarão em estilo eclético na Rua Álvaro de Carvalho, outrora residência de Julio Capobianco, se firmasse como uma referência cultural na região da Ladeira da Memória. Atualmente, o espaço conta com uma sala com capacidade para 100 pessoas, que em 2003 será reaberto com um novo foyer para exposições e um teatro totalmente adaptado. O movimento deflagrado pelo teatro tem sido um elemento de recuperação da área. Atraiu novos bares e casas noturnas para o entorno do antigo obelisco de 1814 ao oferecer oficinas periódicas de iluminação, interpretação, direção, cenografia e percussão. Todas as atividades são gratuitas, inclusive o espetáculo Re-bentos (foto). O Pessoal do Faroeste integra a Ação Local Ladeira da Memória e parte de seus projetos foi iniciada nas reuniões do grupo. Esse é um exemplo de iniciativa da sociedade civil que, além da autogestão financeira, estimula o envolvimento da população com a cultura e com o espaço da cidade.

CCC – Centro Cultural Capobianco – Rua Álvaro de Carvalho, 97. Tel. 3151-2266. Metrô Anhangabaú. Re-bentos, até 30 de março. Sexta e sábado, às 21h; domingo às 18h30. Entrada franca. Estacionamento conveniado (R$ 4 por três horas). Mais informações sobre as oficinas e atividades desenvolvidas pelo grupo no e-mail pessoaldofaroeste@ig.com.br.


  Mix Livros  
Ferramenta de ação social


O Atlas da Exclusão Social no Brasil (Cortez Editora, 224 páginas, R$ 29) chega, como ambicionam seus autores, entre eles o economista, professor e secretário municipal do Trabalho, Desenvolvimento e Solidariedade do Município de São Paulo, Marcio Pochman, com o objetivo de se tornar uma ferramenta de análise e discussão sobre o problema da exclusão social no Brasil, fornecendo elementos e subsídios para a ação governamental. O atlas, com tabelas e 41 mapas produzidos por ampla equipe de pesquisadores da Unicamp, USP e PUC, foi construído sobre três grandes temas: padrão de vida digno, obtido a partir do cruzamento dos dados de três diferentes indicadores; conhecimento, por meio dos indicadores anos de estudo do chefe de família e alfabetização da população acima de cinco anos; e risco juvenil, baseado na relação número de jovens de 0 a 19 anos na população e taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Fecha o trabalho um ranking da exclusão social e da qualidade de vida nos 5.507 municípios brasileiros, com Jordão, no Acre, liderando a lista dos 100 municípios com maior grau de exclusão e São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, ocupando o primeiro posto entre os que proporcionam melhor qualidade de vida a seus habitantes.

Botti e Rubin em livro


Alberto Botti e Marc Rubin são arquitetos bastante conhecidos inclusive fora de seu meio profissional: poucos paulistanos desconhecem as torres monumentais do Centro Empresarial Nações Unidas, na Marginal Pinheiros, o Shopping Pátio Higienópolis ou o Edifício Parque Paulista, na Avenida Paulista, notável também por preservar, em primeiro plano, a Casa das Rosas, mansão remanescente do ciclo do café. Faltava reunir os projetos do escritório num volume, o que agora é feito. Botti Rubin Arquitetos – Selected and Current Works (Images Publishing, 255 páginas, R$ 275), em edição bilíngüe (inglês e português), foi editado na Austrália com vistas a uma distribuição internacional. Para melhor conhecer dois expoentes da arquitetura paulistana contemporânea. Pode ser encontrado na Livraria Cultura (tel. 11 3170-4033) e na Pró-Editores (tel. 11 3864-7477).

Viagem pela arquitetura carioca


Um panorama da arquitetura carioca, passando por antigos fortes e mosteiros, edifícios pioneiros do modernismo e seus sucessores contemporâneos, desfila finamente editado nos quatro volumes da Coleção Guias da Arquitetura no Rio de Janeiro (Editora Casa da Palavra, R$ 25 cada volume), organizada por Jorge Czaijowski para o Centro de Arquitetura e Urbanismo da Secretaria Municipal de Urbanismo do Rio de Janeiro. O Rio, como observa o ex-prefeito e arquiteto Luiz Paulo Fernandez Conde, "não é uma cidade preponderantemente colonial, neoclássica, eclética, art déco ou moderna, mas possui os conjuntos mais representativos de todos esses períodos" — diversidade que a coleção estampa de maneira exemplar.

Modelo equivocado


Os quatro ensaios de Cidades Capitais do Século XX, livro organizado por Heliana Angotti Salgueiro (Edusp, 181 páginas, R$ 30), enfocam a cidade capital desde o projeto urbanístico do Barão Haussmann para a Paris do Segundo Império às transferências possíveis de seus paradigmas para outras situações urbanas, na Europa e na América, e, no caso do Brasil, em Belo Horizonte. Antoine Picon, Bernard Lepetit, Donatella Calabi e Heliana A. Salgueiro apontam para os limites da comparação a relação complexa entre o espaço e o tempo das formas urbanas. O cosmopolitismo da haussmannização seria um equívoco, uma vez que o modelo não resiste fora de Paris, mesmo que cidades capitais tenham tentado se apropriar dele.

Agruras do planejamento


Organizado pelos arquitetos e professores Nadia Somekh e Cândido Malta Campos, com textos de ambos e dos arquitetos Luiz Ackel, Silvana Zioni e Denise Antonucci, todos da Universidade Mackenzie, A Cidade que Não Pode Parar – Planos Urbanísticos de São Paulo no Século XX (Mackpesquisa, 192 páginas, R$ 70) apresenta uma história das tentativas de fazer planejamento urbano em São Paulo, do final do século XIX até o projeto de Plano Diretor de 1991. Profusamente documentado e ilustrado.


  Mix Mesa  
Da Casa-grande ou da Senzala?

João Podanovsky
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Quando a lenda supera o homem, imprima-se a lenda." Assim John Ford fecha lapidarmente a história de O Homem que Matou o Facínora. Tradução livre, porém fiel ao espírito da mensagem: Se a verdade não tem graça, propague-se a mentira.

Quem inventou o cozido? Preparação culinária tão antiga quanto a primeira trempe e a primeira panela de barro ou pedra. O que cada povo fez, ao longo dos séculos, foi preparar o cozido à sua moda, dele muito se orgulhando como típico prato nacional.

Famosos são o bollito misto italiano, o bigos polonês, o puchero e a olla podrida dos espanhóis, a fabada andaluza, o cozido português, o cassoulet francês, o shabu-shabu japonês, o irlandês irish stew. Todas essas glórias não passam de adaptações regionais do plurimilenar cozido do homem das cavernas. Prato perpetuamente reinventado, de acordo com as disponibilidades locais em carnes e hortaliças.

A feijoada nasceu no Nordeste brasileiro, nas cozinhas das casas-grandes. Nada mais é que a adaptação brasileira do cozido português, que, por sua vez, é adaptação do... etcétera e patati-patatá.

Taí a verdade. A ela se curvaram estudiosos confiabilíssimos como o folclorista Luís da Câmara Cascudo (História da Alimentação no Brasil) e o memorialista Pedro Nava.

Chatinha a história? Vamos então à lenda.

A feijoada nasceu na senzala. Comida de escravos. Cozido de feijão preto engordado com as partes do porco que os senhores da casa-grande jogavam fora: pés, rabo, orelhas, língua, miúdos. Quando tais nojeiras não eram enterradas, iam parar nos negros caldeirões das míseras senzalas.

O branco, a princípio engulhado com a só visão da repugnante gororoba, deixou-se aos poucos aliciar pelo cheirinho bom que ela exalava, acabou arriscando uma garfada. Capitulou afinal à iguaria negra, acolheu-a em sua cozinha, enriqueceu-a com paios e lingüicinhas, sofisticou-a. Hoje é carro-chefe em praticamente todos os restaurantes de São Paulo (veja algumas recomendações no box).

Incrível que até Gilberto Freyre tenha propalado tão esdrúxula balela. Não garantiu o mesmo sociólogo, de absolutos respeitos, ser a cabidela portuguesa cópia do châteauroux francês? Está perdoado: até Homero teve lá seus cochilos.

Quando o inverno chegar, jornais e revistas voltarão a estampar eruditas colunas sobre feijoada. Repórteres e articulistas (haverá alguma exceção?) nem se darão ao trabalho da pesquisa: requentarão a carochinha divulgada no ano passado, ruminá-la-ão com nova saliva e outra vez embromarão seus leitores com uma fantasiosa lorota sobre escravos e senzala. O povo, ingênuo, adora mentiras. Principalmente se contadas em letras de forma por gente diplomada.

Fazer o quê? Se é insossa a história, sirva-se ao público uma estória bem condimentada.

 
Terraço Itália
3257-6566. Andar 42 do Edifício Itália (Ipiranga x São Luís), metrô República. Para turistas dois deslumbramentos: a vista esplêndida da cidade, lá das nuvens, e o exotismo do mais afamado prato brasileiro. Almoço diário de bufê, dominado pela feijoada aos sábados, R$37 por pessoa. Desde de março também às quartas.

Hilton
3156-4301. Av. Ipiranga junto à Consolação, metrô República. Inventor, em 1977, da feijoada de bufê na The London Tavern (que reabre em abril). Por enquanto, a gloriosa feijoada (self-service, R$29 por pessoa) enriquece o infinito bufê no almoço das quartas e sábados, no restaurante Pátio, 2° andar. Internacional ou entre-é-nacional?

Star City
3331-2044. Rua Frederico Abranches, 453, pertinho do metrô Santa Cecília. Pequenino, luz suavíssima, simplicidade caprichada e valorizada por amável atendimento. Todo dia (menos às segundas), feijoada clássica também à noite, de cumbuca (R$ 23,90 por pessoa), repetições e escolha de ingredientes à vontade. Palmas.

Bolinha
3061-2010. Av. Cidade Jardim, 53. A mais badalada feijoada de cumbuca da cidade, fabulosa, exportada para o mundo inteiro, por avião, em embalagens especiais. Diariamente (menos segunda-feira), a qualquer hora, R$35,80 por pessoa (sábado e domingo R$44,80). À noite, mulher acompanhante não paga.

Massimo
3284-0311. Alameda Santos, 1826, junto à Ministro Rocha Azevedo. O melhor restaurante do Brasil abre todo dia, mas só serve feijoada aos sábados, em lautíssimo bufê. Dinheiro compra felicidade: R$68,00 por pessoa.

Legendas
Tradicional ou de bufê, o prato é motivode muitas lendas

Adaptação do cozido português

Bolinha: badalada feijoada de cumbuca



  Notícias  
AÇÕES LOCAIS, ainda mais eficientes em 2003

Resultado de um programa criado pela Associação VIVA O CENTRO para organizar a sociedade da área central em núcleos de participação local, visando à melhoria de cada rua ou trecho do Centro nos aspectos urbanísticos, sociais e funcionais, as Ações Locais — que hoje já somam 44 núcleos — preparam-se para uma atuação sem precedentes em 2003. Elas devem avançar ainda mais nas tarefas em que se destacaram em 2002, como nas parcerias com a iniciativa privada e ONGs para coleta seletiva e reciclagem de lixo, reforma de pisos e calçadas e restauro de fachadas de edifícios históricos e de valor arquitetônico, entre outras. A recuperação de logradouros degradados, como a Praça Roosevelt, deverá ser intensificada e implementado um serviço de visitas monitoradas ao Centro para turistas e visitantes. Providências de pequeno vulto, mas de grande significado para os usuários da região, como a realocação de pontos de ônibus, também receberão mais impulso. No aspecto organizacional, as Ações Locais ganharão mais eficiência e representatividade com o pleno funcionamento dos Conselhos da Comunidade, que reúnem representantes das empresas, instituições e condomínios da área de atuação de cada Ação Local. Um amplo calendário de cursos e palestras para formação e aperfeiçoamento dos dirigentes e técnicos dessas entidades está sendo cumprido. Por fim, um novo logotipo (ver ilustração) do Programa Ação Local foi adotado e passa a figurar nos veículos de comunicação e no material de apoio das Ações Locais. Saiba mais sobre o Programa Ação Local no site www.vivaocentro.org.br

Associação sugere medidas para o comércio informal

Cumprimento rigoroso da lei que determina distâncias mínimas entre equipamentos de camelôs e bens tombados, estações de metrô, terminais de ônibus e outros pontos, dotar a Guarda Civil do mesmo poder de autuação dos agentes fiscais e estabelecer um rígido disciplinamento do comércio informal nos espaços remanescentes, respeitando-se a prioridade do cidadão enquanto usuário das calçadas e consumidor. Estas são as principais sugestões apresentadas pela Associação VIVA O CENTRO à comissão inter-secretarial coordenada pelo secretário Marcio Pochmann, do Trabalho, Desenvolvimento e Solidariedade do Município de São Paulo, constituída por determinação da prefeita Marta Suplicy para reunir sugestões dos mais expressivos segmentos organizados da sociedade e formular um relatório que oriente uma nova estratégia para resolver o problema dos camelôs no Centro. Além das sugestões, a proposta da VIVA O CENTRO aponta as conseqüências mais dramáticas da invasão da área central pelos camelôs: privatização e degradação dos espaços públicos, perdas de receitas públicas, geração de deseconomias, precarização da mão de obra empregada, reforço dos instrumentos de exclusão socioespacial na região,agravamento dos problemas de segurança pública na área e desrespeito permanente aos direitos do consumidor.

Edifícios Eiffel e São Luiz recuperam fachadas

Estimulados pela Ação Local República I, os condôminos de dois importantes edifícios residenciais da Praça da República decidiram restaurá-los. Com isso, vão se beneficiar da Lei de Fachadas (12.350/97), que concede isenção de IPTU por dez anos a proprietários que recuperem fachadas de prédios protegidos pelo patrimônio histórico. As obras no Eiffel (foto), projetado por Niemeyer, no 177/179 da praça, já terminaram e ficaram em R$ 90 mil, rateados entre 54 condôminos. No São Luiz, projeto de Jacques Pilon, no 77, as obras estão em andamento e os 22 condôminos ratearam R$ 81 mil. "Com o Eiffel recuperado já temos uma belezura de prédio na praça", festeja a presidente da Ação Local República I, Elsa Margutti. O arquiteto Adriano Augusto Bosetti orientou os dois restauros.

Delegacias do Centro livres da carceragem

Desde o final de fevereiro, quando o Governo do Estado acabou com a carceragem do 3o Distrito Policial, na Rua Aurora, transferindo os presos para os Centros de Detenção Provisória, os distritos policiais do Centro — o 1º, Sé, e o 3º, Santa Ifigênia — não mais abrigam detentos aguardando julgamento ou transferência para presídios. Além disso, o prédio do 3o DP, que também abriga a Seccional Centro, foi reformado para melhor atender a população. Uma solenidade, com a presença do governador Geraldo Alckmin e outras autoridades, marcou a reinauguração do edifício. Segundo o presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, a desativação da carceragem nos distritos centrais é uma antiga reivindicação da Associação. "As delegacias chegavam a abrigar 200 presos, o que expunha a região ao risco causado por rebeliões". Na foto, o governador Alckmin, o delegado titular do 3º DP, José Matallo Neto, o vice-governador Cláudio Lembo e o delegado titular da Seccional Centro, Mário Jordão

Centro terá unidade de apoio a coleta solidária

As Subprefeituras da Sé e da Lapa serão as próximas a receber uma Central de Triagem de Coleta Seletiva Solidária – a primeira foi a da Mooca. Na Sé, a central atenderá inicialmente a três entidades de catadores: Recifran (atuante no Largo São Francisco e adjacências), que foi organizada pela Província Franciscana em convênio com a SAS-Sé, apoio da Ação Local São Francisco e Associação dos Ex-Alunos da FGV e doação do Consulado do Japão; Coorpel (que atua no Vale do Anhangabaú e entorno) e Coopamari (região da Paulista e Pinheiros). Com a central, a ser gerida pelas próprias cooperativas de catadores — hoje a Recifran, com 32 integrantes, chega a recolher só em papel a média mensal de 45 toneladas — o material coletado, até agora vendido a intermediários, poderá ser comercializado diretamente com empresas recicladoras, o que deverá melhorar a renda e o processo de inclusão social dos catadores. O Programa Coleta Seletiva Solidária foi desenvolvido e está sendo tocado pela Secretaria Municipal de Serviços e Obras.

São Paulo na disputa olímpica

A Associação VIVA O CENTRO participa do Comitê de Postulação da Candidatura de São Paulo a sede dos Jogos Olímpicos de 2012, criado em fevereiro. Numa primeira etapa, a tarefa do organismo foi a elaboração de um dossiê com argumentos que sustentam a candidatura de São Paulo, entregue ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em 15 de abril, quando expirou o prazo de inscrição em âmbito nacional. No dia 7 de julho o COB estará escolhendo, entre São Paulo e Rio, a cidade brasileira aspirante a sede do evento. É a primeira vez que São Paulo se propõe sediar a maior competição atlética do planeta. O Rio disputa a indicação pela segunda vez. Em seguida, a disputa se deslocará para o plano internacional.

A prefeita Marta Suplicy preside o Comitê, que tem como vice-presidentes o secretário de Estado da Juventude, Esportes e Lazer, Lars Grael, o empresário Abílio Diniz, o representante das federações esportivas Miguel Cagnoni e o representante dos atletas, Nelson Prudente. A secretaria geral ficou com a secretária municipal de Esportes, Nádia Campeão. Além de grande visibilidade internacional e oportunidade para profundas intervenções urbanísticas, a realização dos Jogos Olímpicos proporcionaria a São Paulo a geração de milhares de empregos, atração de investimentos, incremento do turismo, recuperação da auto-estima dos moradores, incentivo ao esporte, expansão da infra-estrutura urbana e estímulo à prática de esportes.

Ação Local 9 de Julho projeta centro comunitário

A Ação Local 9 de Julho, integrante do Programa Ação Local coordenado pela VIVA O CENTRO, aguarda apenas a cessão em regime de comodato, pela Emurb, do terreno existente na confluência da Rua Manoel Dutra com Avenida 9 de Julho para implantar o projeto de um centro comunitário com uma biblioteca para atender à população infanto-juvenil e adulta da região, elaborado pelo arquiteto Antonio Carlos da Silva. Acervo literário, mobiliário e computadores já foram doados pelo Instituto Brasil Leitor, que tem a escritora Ruth Rocha como presidente de honra e planos de tornar essa experiência modelar para futuras bibliotecas que venha a ajudar a instalar no país. "A idéia é criar um espaço de convivência, troca de informações e aprendizagem colaborativa, com alternativas culturais e de lazer, cursos e oficinas para melhorar a qualidade de vida no local", diz a presidente da Ação Local 9 de Julho, Carmen Angela de Aquino. O futuro Centro Comunitário Recanto do Pedrinho se insere no Projeto 9 de Julho - Recuperação e Revalorização Ambiental, proposto pela Associação VIVA O CENTRO como indutor de melhorias nessa importante avenida do Centro.


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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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