O Centro que a cidade quer
É preciso reforçá-lo como gerador de identidade coletiva, trabalho, moradia, cultura, lazer e atividades da economia contemporânea, em intensa relação sinérgica
Jule Barreto
O processo de recuperação do Centro está em pleno curso. Contudo, o leitor talvez perceba que a esse Centro recuperado que os planos e ações anunciam, e que em tantos aspectos já ganha forma, falta um caráter ou, melhor dizendo, uma personalidade funcional definida. Mais: um sentido ou significado de caráter estratégico qual será o seu papel na metrópole? que, à falta de palavra mais justa, pode ser chamado de "vocação". Território cívico e simbólico? Certamente, mas, à exceção desta, as demais funções que se pretende recuperar ou induzir poderiam estar dispersas em outras centralidades (Berrini, Faria Lima, Paulista). Sim, o lugar de uma economia de serviços avançados, de escolas superiores, de instituições culturais de primeira linha, de moradia, de convivência, de fruição e experiência do urbano. Mas o que definirá esse conjunto de atributos como sendo exclusivo de um centro metropolitano não é apenas o seu diversificado repertório, e sim a maneira como, ocorrendo simultaneamente num território relativamente pequeno e compacto com grande poder de gerar identidade coletiva, tais funções perfazem um complexo de atividades com um vigor e poder de atração impossíveis em outro lugar da cidade. O destino do Centro está no reforço dessas características, com a região assumindo plenamente o caráter de centralidade principal, e não na sua configuração como um bairro específico e com forte (senão predominante) ocupação residencial, ainda que exibindo algumas qualidades de centro.
A síntese de tudo o que há de fundamental, significativo e atraente na cidade nunca deixou de ser a grande marca da região, mesmo nos períodos mais críticos, porque os centros são engendrados historicamente para funcionar como a concentração equilibrada e prática dos recursos, funções e facilidades que levam as pessoas a se aglomerar em cidades, e como a materialização arquitetônica de sua história. O que falta é articular, num projeto de Centro, aquilo que existe há muito e agora procura-se reforçar ou requalificar. Tal projeto corresponderia ao cumprimento, em linguagem técnica, de uma vontade coletiva. Como disse a urbs o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, "o Centro será recuperado se os cidadãos quiserem que seja, se houver uma convocação para que retornem ao Centro e para que ele retome sua condição de cuore da cidade." A vontade existe e a Associação VIVA O CENTRO é uma das expressões dela.
O problema é que o Centro, nos projetos e ações do poder público, ora parece ser tratado como centralidade principal, ora como bairro específico, com ênfase na ocupação residencial, principalmente por estratos sociais de menor renda. Falta, assim, uma política global de desenvolvimento dos atributos de centralidade, que inclua a habitação, decerto, mas com um peso apenas relativo e subordinada ao objetivo de dotar a metrópole de um centro complexo, poderoso e vital. Para o urbanista argentino Alfredo Garay, um dos responsáveis pela grande intervenção de Puerto Madero, no centro de Buenos Aires, "o Centro de São Paulo, como é hoje, está mais próximo de um modelo de centralidade principal, inclusive pela presença das Bolsas e dos tribunais, do que de um bairro específico com predomínio da função habitacional e de serviços locais". (Ver o box)
O que as pessoas gostariam de encontrar nesse Centro requalificado, para que a ele retornem, nele invistam, freqüentem-no e o habitem? Supõe-se que, antes de mais nada, o que o Centro é e sempre foi: origem e lastro histórico e de memória da cidade, sem o qual a experiência urbana não iria além de registros dispersos sobre entornos imediatos e vagas abstrações. É ele que imprime inteligibilidade e coerência ao viver na cidade. Mas há outras qualidades que, muito provavelmente, o cidadão e os agentes econômicos gostariam de ver preservadas, resgatadas ou estimuladas. São "âncoras" que não deixariam a percepção do Centro dissipar-se. Algumas delas, as mais conhecidas e preservadas, foram objeto de reportagens em urbs entre 1998 e 2000: as instituições da Justiça, o morar no Centro, o Centro como sede governamental, a economia do Centro, o Centro dos estudantes, o Centro multicultural e da fé religiosa.
Com o objetivo de estimular a discussão, urbs ouviu algumas pessoas representativas em sua área de atuação e interessadas na questão do Centro. Apenas umas poucas são profissionais especializados em urbanismo. O resultado desse arco de opiniões não é conclusivo, mas sinaliza algumas "linhas de desejo" que ajudam a visualizar quais serão, ou deveriam ser, a forma e o conteúdo do Centro nos próximos anos.
Este preâmbulo encerra-se com a observação de que o Centro, como todos os centros das metrópoles, é em palavras de Paulo Mendes da Rocha imperecível e insubstituível. Não há registro, diz, de um centro que tenha sido destruído, a não ser por catástrofe natural.
Dia e noite
"Um Centro bom é aquele que consegue se manter vivo a maior parte do tempo, de manhã, à tarde e à noite, nos finais de semana. E que alcança o equilíbrio entre as suas atividades e serviços", afirma o administrador de empresas Tadeu Masano, professor da Fundação Getúlio Vargas e diretor do escritório de consultoria Geografia de Mercado. Ele recorda que o Centro sempre mesclou funções econômicas, financeiras, residenciais, culturais e de lazer e que, para recuperá-las ou reforçá-las, um dos recursos mais eficientes seria a ocupação da área por organismos dos diversos níveis de governo. "O poder público é uma grande mola para impulsionar a recuperação do Centro, atraindo em pouco tempo outros tipos de atividades e serviços, um comércio mais diversificado e sofisticado, uma extensa gama de atividades de entretenimento e lazer. Daí a importância da transferência da sede da Prefeitura para o setor mais nuclear da área central." Para Masano que é doutor em planejamento urbano pela FAUUSP , deve-se reforçar o papel do Centro como pólo educacional. "Os estudantes são sinônimo de vida e poderiam estar mais presentes na região, inclusive nela morando. Com eles se desenvolveria todo um segmento de atividades e a possibilidade de um melhor aproveitamento noturno da área."
A diversidade é a essência do Centro e nunca foi perdida. "Historicamente, com exceção das indústrias, a região sempre comportou todo tipo de atividade", afirma o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, para quem o único paradigma adequado ao Centro, como pólo cultural, comercial e de serviços, é Manhattan. "Problemas antigos, como deficiências na iluminação, na limpeza e na segurança, podem ser revertidos. Mas é necessário que o poder público dê o start."
Um start já se deu. A Sala São Paulo, o refuncionalizado edifício do extinto Dops e a nova Pinacoteca são impulsos vindos da esfera estadual. A sede da Prefeitura logo estará na Praça do Patriarca. A maior parte das secretarias estaduais e municipais, que se dispersavam pelos bairros, instala-se na região. Falta retomar o projeto de transferir para o Centro a sede do governo estadual. Da iniciativa privada não faltam exemplos, como o Teatro Abril. Estatais como o Banco do Brasil e os Correios implantaram os seus centros culturais ou se dispõem a fazê-lo. Quanto à vida estudantil, recorde-se que o Centro nasceu de uma escola, é sede de um dos mais tradicionais cursos jurídicos do País, tem uma grande universidade nas imediações o Mackenzie , uma unidade da Anhembi Morumbi no Brás e outra instalando-se na Rua Líbero Badaró, instituições de tradição como o Colégio de São Bento e a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado.
Mas o artista plástico Newton Mesquita, que incorporou em sua obra muitas imagens do Centro, está insatisfeito com a extensão e profundidade das mudanças que já aconteceram. Arquiteto por formação, ele diz que equipamentos fundamentais como a Sala São Paulo e o Museu do Imaginário, no prédio do antigo Dops, ressentem-se de maior poder de impacto na qualidade do entorno, por serem intervenções pontuais e isoladas. "São necessárias ações em trechos maiores, as quais efetivamente impeçam o processo de degradação urbana, gerem mudança e tenham poder de irradiação." Até mesmo o sistema de calçadões, tido como uma vitória do pedestre, teria que ser reavaliado. "Eles foram desvirtuados e precisam ser revistos. Entre camelôs e automóveis, fico com os automóveis." Opinião semelhante tem o artista plástico Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca do Estado e morador da Praça da República. Para ele, os melhoramentos verificados nos últimos anos, como a reforma do museu que dirigiu, "não chegaram a formar um circuito", perdendo-se em parte por falta de um "replanejamento global" da área. Segundo Araújo, que é entusiasta da ocupação do Centro por instituições de ensino, faltam mais ambição da parte dos planejadores e projetos de maior peso, que devem vir acompanhados de "uma sensibilidade de leitura e uma delicadeza no trato com a cidade". Junto com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, Emanoel Araújo responde por um dos mais notáveis empreendimentos culturais que ocorreram no Centro nas últimas décadas, a reformulação da Pinacoteca e a sua projeção nacional e internacional.
São Paulo é uma das metrópoles que chegaram a ter um distrito no caso, uma avenida e ruas transversais de cinemas, bares e restaurantes, profusamente iluminado pelas cores do néon. E das pouquíssimas a perdê-lo. Enquanto Nova York intervinha para revigorar a sua Times Square (uma "tempestade elétrica", como a descreveu o filósofo francês Jean-Paul Sartre) e a vizinha Buenos Aires zelava por sua coriscante Avenida Corrientes, aqui se permitia que as luzes deixassem a Avenida São João, no rastro dos cinemas, restaurantes, alguns hotéis e a multidão que, especialmente nos fins de semana, cruzava a noite em suas calçadas. A secretaria estadual da Cultura tem um projeto para reavivar a região o Broadway Paulistana em parceria com a Prefeitura, prevendo a conversão de antigos cinemas em salas de espetáculos e a requalificação do ambiente urbano. Mas São Paulo, se perdeu a sua Broadway, milagrosamente preservou seus bairros "étnicos", que ainda hoje a diferenciam das demais cidades do Brasil e dão-lhe forte marca cosmopolita. Apesar das transformações socioculturais que esvaziaram sua antiga finalidade, lugares como o bairro judaico (hoje também coreano) do Bom Retiro, a oriental Liberdade, o reduto predominantemente sírio-libanês da região da Rua 25 de Março e alguns setores com influência italiana no Bixiga podem e devem seguir o destino desse tipo de comunidade em metrópoles como Nova York reciclar-se não mais para acolher imigrantes recém-chegados, mas para o comércio, a diversão e o turismo. Os dois temas despertam interessantes controvérsias. "Essa idéia de segmentação é empoeirada e sem sentido. Vem da época em que Times Square e Corrientes se viabilizaram, nos anos 30. Qual é a rua de cinemas e teatros em Paris? Qual a de Londres? E a do Rio de Janeiro?", pergunta o sociólogo Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores. "Quanto aos bairros étnicos, suponho que São Paulo universalizou-se e estes tendem a sumir na dinâmica da cidade e na integração democrática da convivência multirracial." É possível, mas pode-se contra-argumentar que, em São Paulo, tais bairros nunca foram guetos e seu aproveitamento comercial e turístico é um dado de multiculturalismo, e que Corrientes e Times Square se preservam por uma lógica semelhante.
As luzes da São João, aliás, se inscrevem não só na memória mas na esfera da utopia, como se imorredouras nunca pudessem ter sido suprimidas. Morador da região nos "fervilhantes anos 60", quando a noite do Centro "era uma festa e terminava na esquina das avenidas São João e Ipiranga", o jornalista e crítico de teatro Sebastião Milaré, do Centro Cultural São Paulo, diz que, ao lado de providências indispensáveis como a revisão dos calçadões e a solução do problema dos camelôs, é preciso devolver a luz ao Centro. "Por que a São João não poderia voltar a ser uma avenida animada por anúncios em néon?"
Bairros étnicos, zonas de diversão noturna e ruas de comércio especializado têm, em São Paulo, um conteúdo histórico que imprime legitimidade ou pertinência à proposta de sua manutenção e/ou revitalização, com vistas ao comércio, ao lazer e ao turismo. O resultado não será o falso, o fake da cidade cenográfica de telenovela, porque esses bairros existem há um século ou mais, preservando ainda que num contexto novo exemplares arquitetônicos, traços culturais e tradições oriundas da ocupação que lhes deu origem.
Economia
Os centros das metrópoles são, tradicionalmente, lugares privilegiados para o comércio, os negócios e a atividade econômica em geral. À figura clássica da downtown, associada a bancos e agentes financeiros, a hotéis, a comércio diferenciado e a serviços ao produtor, sucede-se hoje a do Central Business District da economia contemporânea, ligado às redes mundiais de comércio, informação, finanças e produção simbólica, sem prejuízo (muito pelo contrário) da sua também histórica condição de repositório da memória e de fonte da imagem metropolitana. Velhos centros vão sendo rapidamente dinamizados, dotados de novos edifícios, de redes de fibras óticas e telefonia, de serviços públicos avançados e hoje funcionam como lugar de realização e difusão de serviços e produtos da chamada economia global, constituindo-se em ambientes extremamente favoráveis à inovação. O Centro de São Paulo, que nunca perdeu instituições fundamentais como as Bolsas de valores e de mercados futuros, e que volta a receber entidades de grande poder gravitacional, como a Associação dos Advogados, em torno das quais se juntam dezenas de atividades de apoio e escritórios de associados e colaboradores, apresenta essa estrutura densa e compacta além de moderna infra-estrutura de telecomunicações (mais de 130 km de cabos óticos na área da Subprefeitura da Sé) e transporte público que favorece a eficiência e as sinergias produtivas. Levando-se em conta fatores como a contigüidade entre os agentes econômicos, o acesso instantâneo à comunicação em escala mundial, a ampla oferta de serviços de apoio e a localização eqüidistante de outras centralidades, dos troncos rodoviários e do aeroporto internacional, o Centro é a única região apta a abrigar complexos de serviços e fornecedores de insumos para a elaboração de produtos avançados em áreas como finanças, design, marketing, comércio internacional, Direito, mídia, software, publicidade e edição, entre muitas outras. Sabe-se que, em plena era das aproximações virtuais, a única esfera da economia moderna a remar no contrafluxo, dependendo da proximidade física, é aquela dos serviços e produtos que exigem a participação simultânea e rápida dos muitos insumos que os compõem.
No entanto, se nos últimos anos acolheu numerosas empresas de call center e telemarketing, se hoje abriga de web hostings a pólos de telemática, o Centro não mais terá de volta alguns atributos e funções que o abandonaram em décadas recentes. Não é mais lugar preferencial para localização de sedes de bancos e empresas, nem da hotelaria de primeira classe ou de restaurantes, butiques e ambientes sofisticados onde se manifesta o "estilo de vida" da nova classe de executivos internacionais. "Bancos e instituições financeiras não são apenas centros de processamento de dados, mas envolvem componentes simbólicos e mercadológicos que passam pelo prestígio da localização e a contemporaneidade do edifício", observa o consultor Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro. "Imaginar que, por exemplo, as sedes dos bancos poderiam voltar para o Centro, na medida em que o relacionamento com o seu público é cada vez mais cibernético, é o mesmo que cogitar das águas passadas voltando a mover os moinhos."
O mesmo não ocorre com empresas e instituições nas quais o prestígio associa-se à inserção na vida da cidade e ao caráter público de sua imagem corporativa. A Bolsa de Mercadorias & Futuros, BM&F, é uma dessas instituições privadas que querem ser, e são, percebidas como patrimônio de São Paulo. Seu presidente, Manoel Felix Cintra Neto, assim resumiu para urbs um momento decisivo da entidade: "Em 1996, com o crescimento do mercado de derivativos, precisamos ampliar nossas instalações físicas. Colocou-se naquele momento uma decisão estratégica: mudar a sede para outra região da cidade, provavelmente na área da Avenida Luís Carlos Berrini, onde mantínhamos com a Bolsa de Valores um terreno de propriedade comum, ou permanecer no Centro. A escolha foi pela última alternativa. Pesaram dois pontos: de um lado, a espetacular rede de infra-estrutura da região, tanto em transporte quanto em telecomunicações e fornecimento de energia elétrica; de outro, a tradição de já estar no Centro desde o primeiro pregão, em 1986, e a afeição pelo lugar." Com sua expansão (é atualmente uma das maiores bolsas de commodities do mundo), a BM&F adquiriu o edifício vizinho, de 1940, protegido pelo patrimônio histórico, do qual manteve e restaurou a fachada, reconstruindo o miolo com padrão tecnológico de ponta. Com a inauguração das novas instalações, em 2000, a instituição quadruplicou a sua área construída, o que possibilitou o crescimento dos negócios e a melhoria da qualidade do entorno imediato. E, de quebra, a população ganhou uma biblioteca com mais de 3 mil volumes, um Centro de Memória, ambos especializados em mercados de derivativos, e um Espaço Cultural que já realizou cinco importantes exposições atualmente apresenta "Centro", com obras do pintor Gregório Gruber (ver entrevista com o artista nesta edição).
Foi esta região impregnada de história e dotada de moderna infra-estrutura, com amplo acesso por transporte público de qualidade e uma infinidade de restaurantes, lojas e prestadores de serviços que atraiu a TMS Call Center de Alphaville para a Rua Líbero Badaró, conta seu diretor Diogo Morales. "As telecomunicações, importantíssimas para a nossa atividade, são o que há de mais moderno, e em energia elétrica foram feitos investimentos que ainda não chegaram aos outros bairros. Não se vêem fios no Centro. É tudo subterrâneo." Esse pólo de produção da moderna economia, prossegue Morales, é fortalecido pela chegada de escolas superiores como a Universidade Anhembi Morumbi, que instala seu novo campus num edifício ao lado do da TMS, e por seu potencial como lugar de moradia, inclusive para estudantes e jovens como os mais de mil que a empresa emprega, muitos dos quais gostariam de morar na região.
Empresas usuárias de tecnologia da informação, como a TMS e a vizinha .comDominio, uma web hosting, e instituições globais como a BM&F e a Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa, são intensivas em mão-de-obra e, no caso das bolsas, ainda agregam um enorme contingente de corretores, consultores, especialistas em diversas áreas e prestadores de serviços. Os clientes, associados e colaboradores podem estar em qualquer parte do mundo, mas não os que produzem os serviços e bens comercialiados. Estes extraem vantagens competitivas da proximidade física. Do restaurante à consultoria especializada, um diversificado aparato logístico tem que estar à mão, em termos de prontidão e proximidade. O comércio, a cultura e o entretenimento (da happy hour à sessão no cinema de arte ou à audição de um concerto), mais o ambiente carregado de simbolismo e história, acabam por configurar um lifestyle de centro metropolitano.
Espaço-síntese
Há alguns anos, a Associação VIVA O CENTRO vinha recomendando a criação de uma agência de desenvolvimento para o Centro, com a missão de atrair investimentos privados e coordenar um projeto de desenvolvimento econômico, emprego e renda na região. A Agência de Desenvolvimento do Centro foi anunciada em 2002 pela prefeita Marta Suplicy e deverá estar funcionando já no início de 2003. Como entidade pública mista, terá flexibilidade suficiente para articular parcerias com a iniciativa privada visando, como estratégia de desenvolvimento, à expansão da economia com inclusão social. Mesmo ainda não criada oficialmente, ela já atua por meio de diversos grupos de trabalho, dos quais a Associação VIVA O CENTRO vem participando. Dos temas em estudo, destaque para uma política de estímulo ao setor produtivo por meio da redução da alíquota do Imposto Sobre Serviços, ISS, para empresas de tecnologia avançada, hotéis, estabelecimentos de ensino e outras atividades que se instalem no Centro.
Retorna-se agora ao ponto inicial dessa discussão, a personalidade (forma e conteúdo) que o Centro requalificado deveria assumir. Em grandes linhas, é a de espaço de conexão da sociedade e das forças produtivas com as redes e fluxos mundiais de informação, riqueza e poder e, a um só tempo, de integração social e apropriação da cidade pelo cidadão comum. O Centro é o local onde o caráter público dos espaços coletivos e o seu uso e freqüência por uma mescla social se preservam e, como afirmou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, não podem ser destruídos. Mas também é território de inserção global porque a eficiência das telecomunicações, o poder de uma economia diversificada, a cultura exuberante e o caráter emblemático de seus logradouros e instituições representam o que de mais interessante a cidade pode oferecer nos circuitos internacionais. A observação do urbanista Garay, citado na abertura desta matéria, de que o Centro é a centralidade principal de São Paulo mais do que um bairro específico, faz pleno sentido. Nessa perspectiva, um plano habitacional para o Centro deve ser instrumento de reforço da centralidade, não um capítulo da política habitacional do Município.
Esta é a discussão que falta. E que despertaria outras sobre o futuro econômico e social da metrópole, o indispensável plano estratégico, a inserção de São Paulo nas redes das cidades mundiais, o combate à pobreza e à exclusão social.
O Centro estará em sua forma e função mais perfeitas quando, através de seus atributos de centralidade principal, as pessoas nele se reconhecerem como moradores da cidade. Nesta, então, voltará a pulsar um núcleo central, um self. "Uma cidade sem centro é uma cidade descentrada", diz o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, de Veja, desculpando-se pela tautologia. "É como alguém que perdeu a referência de si mesmo, a identidade. Alienou-se do próprio ego. Um pouco dos males de São Paulo, dos males morais, pelo menos como a quebra na auto-estima dos moradores , decorre do fato de não se reconhecer mais no seu Centro e muitos não a reconhecerem mais no Centro."
Que isso está mudando não há dúvida. (Com reportagem de Federico Mengozzi)
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Novos espaços e volumes
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Poderá o Centro manter (e aperfeiçoar) as suas tradicionais funções de centralidade? Inovar, criando outras? Ou a tendência é o Centro consolidar-se como um bairro específico, ainda que com traços de centralidade? O urbanista argentino Alfredo Garay, que tem vindo freqüentemente a São Paulo como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, e para estudar a cidade, tem poucas dúvidas: o Centro deve continuar sendo a principal centralidade em numerosas funções de expressão metropolitana. Abriga os principais tribunais, muitos órgãos de governo, as bolsas e boa parte do sistema financeiro. O terciário é desenvolvido, destacando-se as ruas de comércio especializado que não existem em outras partes da cidade. No Centro existe uma área que já concentrou numerosos cinemas e que, na opinião de Garay, é preciso resgatar. "O Centro deve retomar o seu papel, não como a única centralidade, mas como centro financeiro, cultural, universitário, comercial, de atividades noturnas e outras."
Mas a recuperação do Centro, diz o urbanista, exige que se façam demolições elas expressam uma freqüente contradição entre centro histórico e centralidade. "Como no caso dos diamantes brutos, será preciso um trabalho de demolição para abrir espaços públicos e reequilibrar a relação entre o construir e o não construir. No Centro há muitos prédios que não têm valor histórico-arquitetônico nem patrimonial. Além disso, é preciso, entre outras coisas, redesenhar a volumetria da região."
De qualquer forma, a reafirmação do Centro como centralidade metropolitana é uma tarefa que transcende o planejamento urbano. "Deve-se saber qual é a vontade política a respeito desse tipo de centro", diz Garay. Significa que tal centro vai decorrer da vontade que as pessoas têm de vê-lo na plenitude de suas funções típicas e com os espaços democráticos que historicamente oferece. Alfredo Garay é o entrevistado da próxima edição de urbs.
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