ANO V   -   No. 29   -   dezembro 2002 / janeiro 2003
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  O Centro que surge entre dois natais
Notícias  VIVA O CENTRO participa do E agora, governador?
Votação histórica leva Meirelles ao Congresso
APBA homenageia a Associação
Programa Ação Local mostra serviço no Centro
VIVA O CENTRO vai lançar mapa turístico-cultural do Centro
Associação realiza IX Festival São Bento de Órgão
Reportagem  A esperança é verde
Presença indutora - A Praça do Patriarca mudou. E agora vai mudando também as redondezas — para melhor
Em busca da Eficiência - Subprefeitura da Sé dispõe de mais recursos que a antiga AR, mas criação de Conselho ainda é uma incognita
O Centro que a cidade quer - É preciso reforçá-lo como gerador de identidade coletiva, trabalho, moradia, cultura, lazer e atividades da economia contemporânea, em intensa relação sinérgica
Em foco  A dez minutos do Centro - Parque do Carandiru abrigará pólo de lazer e formação profissional, reforçando a influência da área central no sentido norte
Entrevista  Com tinta e paixão, com Gregório Gruber.
Destaques  Presidente instala Centro Cultural dos Correios
No Centro, um shopping voltado à aventura
Mudança da Prefeitura está na Câmara
Cultura muda-se para o Paissandu
CEF vai reunir sua sede paulista na Sé
Accor, Setin e Inpar constroem hotéis no Centro
Urbanismo Nacional  Parque D. pedro II catalisador de desenvolvimento para São Paulo
Intervenção Corrosiva - "É verdade que, sendo a realidade irracional, racionalizando-a podemos mudá-la. Mas, é também verdade que mudamos segundo um esquema reformista e não um esquema revolucionário"
Cultura  As novas luzes da Luz
Portas reabertas - Restaurada e com 14 torreões que só existiam no projeto, a Catedral reabre para a população e busca recursos para obras finais
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  Caro Leitor  
A capa desta edição, reproduzindo uma das belíssimas telas que o pintor Gregório Gruber expõe, com outras 70, no Masp Centro e no Espaço Cultural BM&F, é pura São Paulo e chama para a entrevista com o artista, na qual este fala de sua estreita ligação com o Centro e a maneira como enxerga a cidade em suas "cores emocionais", ou seja, as genuínas. Sim, São Paulo são tantas quantos são seus observadores. Querem melhor definição de metrópole? A pintura da capa possui tal densidade simbólica que remete o leitor às reportagens gerais e às culturais, mais os artigos sobre urbanismo, e às seções, para não falar do Traço da arquiteta e artista plástica Teresa Saraiva, apaixonada pelo Centro como Gregório.

O potencial do Centro para multiplicar sua capacidade de atrair pessoas, inovação e investimentos em atividades produtivas, culturais, de ensino e lazer, além de oferecer moradias para diversos estratos sociais, inclusive a classe-média, é objeto de uma dessas reportagens. As demais abordam o novo projeto da Prefeitura para o Parque D. Pedro II, a Subprefeitura da Sé e as imediações da nova Praça do Patriarca, em que a reportagem percebeu os primeiros sinais de que a intervenção, além de presentear a cidade com a bela forma do pórtico, plasmada pela imaginação de Paulo Mendes da Rocha, já exerce uma salutar influência no entorno imediato. É o que, em maior escala, espera-se para a região de Santa Efigênia e Luz quando a Estação da Luz, restaurada e refuncionalizada, abrigando um centro de referência da língua portuguesa no corpo principal e um complexo metroferroviário no nível inferior, juntar-se aos demais equipamentos culturais da região, formando um pólo de atividades, efervescência cultural e animação urbana sem paralelo em São Paulo. O leitor gostará de conhecer nossas maestrinas e saber, caso já não saiba, como ficou a restaurada e complementada (de acordo com o projeto original) catedral da Sé. Os artigos sobre urbanismo abordam temas cruciais para a metrópole e são de interesse para o profissional e o estudante, mas não só. O leitor de urbs, ainda que leigo no ofício de Paulo Mendes e Niemeyer, é versado na complexa profissão de amar São Paulo e lutar por ela, apreciando as propostas que visem a melhorar a cidade.

É a ele, e também aos profissionais e aos artistas como Teresa e Gregório, que esta edição — como as anteriores e as que estão por vir — se dirige.

O editor


  Panorama  
O Centro que surge entre dois natais


Natal e Ano Novo, tempo de felicitações e reflexão. É o que faremos, começando com um breve balanço das conquistas do Centro ao fim destes doze natais e anos-novos de seu processo de recuperação, iniciado com o surgimento da Associação VIVA O CENTRO em 1991. Uma relação sumária do que se conquistou entre o Natal de 1991 e o de 2002.

A renovada e magnífica Pinacoteca do Estado; o restauro do Teatro São Pedro; o revigorado Museu de Arte Sacra; a reurbanização do Largo de São Bento e o restauro e iluminação da fachada do Mosteiro; a recuperação do Pátio do Colégio; a iluminação cênica de importantes edifícios (Votorantim, Teatro Municipal, Correios, BM&F, Shopping Light, Bovespa, Edifício Itália, Banespa etc.); a reforma e iluminação dos viadutos do Chá e de Santa Ifigênia; a recuperação e manutenção dos jardins e fontes do Vale do Anhangabaú, da Praça Ramos de Azevedo e, nesta, do monumento a Carlos Gomes; a nova Praça do Patriarca com seu pórtico; o Masp Centro; o Complexo Cultural Estação Júlio Prestes com a Sala São Paulo; o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro e o Memorial do Cárcere no restaurado edifício do antigo Dops; a interconexão metroferroviária Integração Centro na Luz; o Centro Cultural Banco do Brasil; o Teatro Abril; o novo edifício da BM&F; o moderníssimo centro de controle operacional da Eletropaulo; a instalação do campus Vale do Anhangabaú da Universidade Anhembi Morumbi; os grandes hotéis em obras (Mercure), em fase de lançamento (Formule 1) ou em reforma (Jaraguá); o Shopping Light; a reformada e concluída Catedral da Sé; a sede da Associação dos Advogados de São Paulo; a vinda da sede da Prefeitura e das secretarias estaduais e municipais para o Centro; a Operação Urbana Centro, que cria base legal para melhor uso e ocupação do solo; os programas ProCentro da Prefeitura, Centro Seguro do governo do Estado e de Ações Locais da própria Associação VIVA O CENTRO.

Em pleno andamento estão o Centro Cultural dos Correios, o Sesc Centro na Rua 24 de Maio, o restauro da Estação da Luz e o Memorial da Língua Portuguesa a ser nela instalado, o projeto da nova sede da Comgas no Parque D. Pedro II e a implantação do Corredor Cultural. (Desde já nos desculpamos por deixar de citar mais de uma dezena de outras obras, restaurações e programas implantados ou em desenvolvimento no Centro, de não menor importância).

Já foram anunciados a recuperação do Parque D. Pedro II e o centro de estudos e documentação a ser instalado no Vale do Anhangabaú por Fernando Henrique Cardoso e uma equipe de acadêmicos, empresários e políticos. A Agência de Desenvolvimento do Centro deverá funcionar já em 2003 e o projeto Monumenta, na região da Luz, está assegurado. O governo do Estado articula com a Prefeitura a implantação do projeto Broadway Paulistana. E o BID e a Prefeitura ultimam o acordo que vai garantir recursos da ordem de US$ 160 milhões para importantes melhoramentos no Centro. No horizonte dos próximos anos, a linha 4 do metrô, em fase final de licitação, e a ligação ferroviária com o aeroporto de Guarulhos.

Recordam-se do clima de indiferença, abandono e resignação fatalista reinante no Centro de 1991?

Existe dúvida de que, entre aquele Natal e o de 2002, o Centro mudou profundamente?

A Associação deseja um festivo final de ano e um proveitoso 2003 aos que fazem do Centro o objeto maior de seus esforços e de sua fé no futuro de São Paulo e a todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para essas conquistas e na busca de novas.


  Notícias  
VIVA O CENTRO participa do E agora, governador?


O presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, foi uma das personalidades convidadas pela TV Globo para participar do programa especial E Agora, Governador?, exibido no início de novembro. Todos os participantes encaminharam à emissora documentos com propostas de suas entidades e instituições para ações estaduais na cidade de São Paulo. As propostas foram consolidadas em um documento único, entregue ao governador no Palácio dos Bandeirantes, na semana seguinte, pelos produtores e participantes do programa. A VIVA O CENTRO solicita ao governador um conjunto de iniciativas necessárias à recuperação da área central de São Paulo: o retorno do gabinete do governador ao Centro e a continuação do processo de transferência das secretarias e órgãos do Estado para a região; a implementação do Programa Centro Seguro, de policiamento específico para a área central, e, em parceria com a Prefeitura, do projeto Broadway Paulistana, que prevê um distrito de entretenimento no eixo da Avenida São João e transversais; o prosseguimento do plano de ocupação de edificações históricas por equipamentos culturais de alto nível; prioridade absoluta à construção da linha 4 do metrô (Luz-Vila Sônia) e à modernização das linhas da CPTM; prosseguimento dos trabalhos de requalificação do pólo Luz-Santa Ifigênia; recuperação de cortiços e construção e reforma de moradias para segmentos de baixa e média renda na área central; apoio à futura Agência de Desenvolvimento do Centro, proposta da Associação VIVA O CENTRO encampada pela Prefeitura, e a construção da linha ferroviária ligando o Centro ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Votação histórica leva Meirelles ao Congresso


O presidente da Associação VIVA O CENTRO, Henrique de Campos Meirelles, elegeu-se deputado federal por Goiás, sua terra natal, com a maior votação para essa função parlamentar já registrada naquele Estado — 183 mil votos. Tendo deixado a presidência mundial do BankBoston para dedicar-se à vida pública, Meirelles candidatou-se pelo PSDB, a convite do presidente Fernando Henrique Cardoso, e pretende defender políticas públicas voltadas à realidade urbana do País, com base em parcerias entre os setores público e privado e a sociedade organizada. Requalificação dos centros das grandes cidades, incentivo às economias urbanas e implementação de políticas sociais nas metrópoles brasileiras fazem parte do seu programa de ação.

APBA homenageia a Associação


A Associação Paulista de Belas Artes (APBA) resolveu homenagear a VIVA O CENTRO concedendo ao presidente da Diretoria Executiva da Associação, Marco Antonio Ramos de Almeida, o título de Sócio Benemérito, por relevantes serviços prestados à instituição e às artes plásticas. O diploma foi acompanhado por medalha comemorativa dos 60 anos da APBA, completados este ano.

Programa Ação Local mostra serviço no Centro


O Programa Ação Local, coordenado pela Associação VIVA O CENTRO, está mais ativo do que nunca. Recentemente, duas Ações Locais — Praça da Sé e Líbero II — reorganizaram-se e elegeram suas novas diretorias, que prometem intensificar as gestões junto ao poder público por melhorias na zeladoria urbana. Ao mesmo tempo, um número cada vez maior de empresas, condomínios e entidades indicam seus representantes para participarem dos Conselhos da Comunidade, órgão máximo de cada Ação Local. A tudo isso somou-se, ainda neste semestre, a realização do Ciclo de Palestras para Participantes do Programa Ação Local, que em duas fases — agosto/setembro e outubro/novembro — adquiriu praticamente o caráter de fórum permanente de debate, sugestões e interatividade ao trazer para a sede da VIVA O CENTRO representantes do poder público para falar à coletividade, aproximando assim a população do Centro à Prefeitura e órgãos do Governo do Estado.

VIVA O CENTRO vai lançar mapa turístico-cultural do Centro


A Associação VIVA O CENTRO, com o apoio técnico do Lume/LabArq da FAUUSP, lançará no início de 2003 um abrangente mapa turístico-cultural (detalhe acima) em formato de bolso, cobrindo em detalhe os distritos Sé e República. Nele, paulistanos e visitantes da cidade vão encontrar os principais edifícios do Centro, tombados ou não pelo patrimônio histórico, um mapa de circulação sobre trilhos da Região Metropolitana, outro com os principais acessos viários ao Centro (rodovias e avenidas do centro expandido), sugestões de roteiros turísticos passando por locais de valor histórico ou arquitetônico, como o Pátio do Colégio e a Catedral da Sé, uma relação das galerias comerciais, dos teatros e salas de concerto, localização dos estacionamentos etc

Associação realiza IX Festival São Bento de Órgão


A Associação VIVA O CENTRO realiza este ano o IX Festival Internacional São Bento de Órgão. Como nas últimas edições, o festival contou com o patrocínio da Fundação BankBoston, apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, gravação da Rádio Cultura FM, coordenação da arquiteta Rose Carmona, responsável pelos projetos especiais da Associação, e direção artística do pianista Amaral Vieira. O IX Festival, que termina em 17 de dezembro, manteve a orientação temática das edições anteriores, dedicando-se desta vez à música de compositores e intérpretes canadenses. E o público respondeu com entusiasmo, registrando-se uma média de 900 pessoas por concerto no Mosteiro de São Bento



  Reportagem  
A esperança é verde

Projeto de recuperação do Parque D. Pedro II é limitado e preserva os viadutos e terminais, mas abre espaço para que, no futuro, o Centro econquiste a sua grande área de lazer

Monica Favero


O novo projeto paisagístico para a recuperação do Parque D. Pedro II, já aprovado pela Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, entra em licitação no próximo mês e prevê um amplo espaço ajardinado entre o Tamanduateí (que cruza o parque ao meio) e o Brás, mas vai manter as pistas da Avenida do Estado, os viadutos que cruzam a área, o terminal de ônibus e ainda o terminal e pistas de acesso do Veículo Leve sobre Pneus, o VLP, batizado na gestão municipal passada de Fura-Fila e renomeado pela prefeita Marta Suplicy como Paulistão. Não fossem tais interferências, uma área muito maior do que os 234 mil metros quadrados delimitados pelo projeto seria ocupada por vegetação e equipamentos próprios de um parque público.

O futuro parque, segundo a vice-presidente da Emurb, Nádia Somekh, é uma primeira aproximação do que seria o ideal. "O projeto não é definitivo, uma vez que outros mais completos podem ser desenvolvidos daqui a 10 ou 20 anos. Mas hoje, infelizmente, não existem um plano de circulação nem recursos suficientes para garantir a retirada dos viadutos e terminais", diz. "Na verdade, eles não deveriam ter sido construídos. Mas, já que foram, temos que pensar em conciliar esses obstáculos com a necessidade de preservar o parque, já que existe demanda para os viadutos e a cidade precisa circular."

Os viadutos foram construídos na década de 70, mesma época em que a Avenida do Estado passou a cruzar o parque, às margens do rio. Duas décadas depois, o grande estacionamento que já ocupava uma fração do parque, próximo à Rua 25 de Março, foi convertido em terminal de ônibus. Eram soluções rápidas e baratas, que atendiam de imediato as necessidades da circulação. Durante a gestão da prefeita Luisa Erundina (entre 1988 e 1991) foi desenvolvido um projeto de revitalização do parque que previa a remoção das pistas da Avenida do Estado e a demolição de três dos quatro viadutos, além da redução do espaço ocupado pelo terminal de ônibus. O projeto não chegou a sair do papel. O prefeito que sucedeu Luisa Erundina recusou-se a demolir as estruturas sob o mesmo argumento que hoje se invoca — necessidades incontornáveis da circulação. A diferença é que, àquela época, não se pensou em adaptar o projeto à permanência dos viadutos.

Impacto

Hoje, descartada a remoção dos terminais e viadutos, os responsáveis pelo novo projeto não tiveram outra saída senão minimizar o seu efeito no ambiente. "Não há dúvida de que os viadutos e terminais têm impacto negativo. Mas sempre é possível olhar a outra face da medalha, enxergar o lado positivo", afirma o arquiteto paisagista Sidney Schwindt Linhares, que assina o projeto com Fernando Chacel. No caso, o aspecto positivo é a possibilidade de aproveitar metrô (a estação Pedro II localiza-se no interior do parque), ônibus e sistema viário para facilitar o acesso e a locomoção dos usuários. "Uma vez que esses elementos não serão retirados, a idéia é fazer com que trabalhem a nosso favor. E, para reduzir o impacto, vamos incorporá-los de forma que se esqueça que eles continuam recortando a paisagem", explica Linhares.

Para que isso aconteça, algumas medidas serão tomadas. No caso dos viadutos, uma delas é facilitar o seu uso pelo pedestre, aumentando, por exemplo, as calçadas nas laterais das pistas. "Hoje há duas estreitas calçadas ao longo de cada viaduto. Queremos juntar essas calçadas de um mesmo lado, aumentando o espaço do pedestre, e mantendo o mesmo número de pistas. Essas calçadas darão acesso direto ao parque, para que o usuário também possa chegar a pé", explica o arquiteto. Outra medida é densificar a vegetação arbórea de forma que ela se misture aos viadutos. Isso significa que os baixos destes serão ocupadas pela jardinagem, em substituição à degradação que hoje se instalou em tais espaços. Antes disso, a questão dos moradores de rua terá de ser equacionada pela Prefeitura. "Depois que os baixos dos viadutos estiverem ocupados pela vegetação, os moradores de rua não terão mais como voltar para lá. Eles poderão ser acolhidos pelo Projeto Boracéa, da Secretaria de Ação Social, que atua na região central e presta assistência a esses excluídos", afirma Nádia, da Emurb.

Quanto ao terminal de ônibus, a desconcentração foi a solução encontrada para incorporá-lo melhor ao espaço, dispersando suas linhas. Um número considerável delas vai ser transferido para o futuro Terminal Glicério, vizinho ao parque. Assim, o volume da frota hoje concentrada no Terminal Parque D. Pedro deverá diminuir, aliviando seu impacto no parque sem prejuízo para os usuários.

Na opinião do arquiteto paisagista Raul Isidoro Pereira, essa descentralização do terminal já constitui um avanço. "A remoção dos viadutos e terminais é um processo muito complicado. Se não é viável retirar de uma só vez as intervenções que se acumularam no local, o mais indicado é que sejam eliminadas ou remanejadas aos poucos, de forma que a cidade assimile gradualmente a sua falta", afirma. Ele acredita ser possível, ao longo do tempo, transformar novamente em parque um espaço hoje sem fisionomia definida e dominado por funções viárias. "Um dos próximos passos seria despoluir o Tamanduateí e suprimir as pistas da Avenida do Estado, de forma que o paulistano pudesse manter uma relação direta com o rio, caminhando com tranqüilidade nas suas margens."

A posição da VIVA O CENTRO
Em inúmeros ofícios dirigidos ao poder público, em intervenções na Comissão ProCentro, em debates (como o realizado com técnicos e autoridades municipais em março de 2001 e reproduzido em urbs nΊ 21) e nas páginas de suas publicações, a Associação VIVA O CENTRO vem, há anos, manifestando o seu ponto de vista de que, sem a remoção integral dos terminais (ônibus e VLP), de alguns dos viadutos e das pistas que o cruzam, a plena recuperação do Parque D. Pedro II estará prejudicada. Por mais habilidosas que sejam as soluções projetuais, tais obstáculos são estranhos à natureza e às funções de um parque. Se permanecerem onde estão, o novo parque idealizado pela Prefeitura pode até significar um avanço — mas o Centro não terá totalmente de volta uma enorme área que já foi dedicada ao lazer da população antes de ser engolida pela circulação de veículos. O que faria uma grande falta, uma vez que o futuro adensamento residencial da área ocupada pela Zona Cerealista, quando for viabilizada sua transferência para as imediações do Rodoanel, exercerá forte demanda por parques e áreas de lazer.

As pistas ao longo da Avenida do Estado deveriam ser deslocadas para o contorno do parque e, na impossibilidade de os terminais serem subterrâneos, também eles deveriam instalar-se fora da área. A linha do VLP poderia contornar o parque, pela Avenida Mercúrio, e prolongar-se até um local mais adequado. De qualquer forma, o uso de cartões magnéticos e de outros recursos tecnológicos modernos que permitam o acesso e transferência dos passageiros sem a necessidade de terminais confinados, mas de simples pontos de embarque/desembarque e transferência, parece ser a solução mais prática.


  Reportagem  
Presença indutora

A Praça do Patriarca mudou. E agora vai mudando também as redondezas — para melhor

Ana Cândida Vespucci e Ana Maria Ciccacio

Com posição estratégica entre o Centro histórico, o Vale do Anhangabaú e a ligação com o chamado Centro Novo pelo Viaduto do Chá, a Praça do Patriarca, que havia perdido grande parte de sua qualidade urbana nas últimas décadas, transformada em terminal de ônibus, reconfigurou-se. Totalmente pedestrianizada, hoje a praça permite à população circular com liberdade, graças à remoção do terminal e restauro do piso em mosaico português, dois dos itens previstos no projeto elaborado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha a pedido da Associação VIVA O CENTRO, há dez anos, e que inclui o pórtico-cobertura em estrutura metálica sobre o acesso à Galeria Prestes Maia. Galeria enfim recuperada em sua função de origem ao abrigar o Masp Centro, e que tem em cartaz uma grande mostra do artista plástico Gregório Gruber, cujo tema é o próprio Centro.

Requalificada, a Praça do Patriarca vem se mantendo limpa graças aos esforços do Limpurb, enquanto a Guarda Civil Metropolitana e fiscais da Prefeitura têm garantido que não seja invadida por camelôs — um compromisso, aliás, assegurado pela prefeita Marta Suplicy durante a cerimônia de reinauguração, em 10 de setembro. "Hoje, é um dos espaços públicos mais limpos do Centro, junto com o Largo de São Bento e o Anhangabaú, tornando o acesso ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP), pela Rua da Quitanda, muito agradável", observa William Bucheb, dono de um escritório de consultoria empresarial na Rua Líbero Badaró e presidente da Ação Local Líbero I, integrante do Programa Ação Local, movimento de zeladoria urbana integrado por usuários e moradores do Centro e coordenado pela VIVA O CENTRO.

Novidades no entorno

"Com a reforma da Patriarca, o Centro Cultural Banco do Brasil, a chegada do Masp Centro e as obras do Corredor Cultural (do Teatro Municipal até a Praça D. José Gaspar), a Rua da Quitanda já foi beneficiada. Agora nos sentimos pertencentes a um eixo cultural, tanto que no 6Ί andar do 139 vamos instalar uma oficina de artes plásticas comandada por minha filha Juliana Brecht, nome herdado de meu pai e não do dramaturgo alemão Bertolt Brecht", avisa com humor o comerciante Geraldo Fernandes. Ele é proprietário da Metrópole Lotérica e de uma agência credenciada do Jóquei Clube no 145 da mesma rua, e participa da Ação Local Álvares Penteado.

A inauguração em abril da nova sede da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp), no prédio Gastão Vidigal, na Rua Álvares Penteado, figura entre os estímulos que podem atrair novos escritórios de advocacia para o Centro. Um exemplo? O escritório Gaia, Silva, Rolim & Associados-Advocacia e Consultoria Jurídica, que acaba de se instalar no 126 da Rua da Quitanda, depois de um investimento em aquisição mantido em sigilo e de outro beirando a casa do R$ 1 milhão em reforma e restauro do prédio, cuja fachada é tombada pelo Conpresp, órgão municipal de preservação do patrimônio histórico. "Ficamos 13 anos na região da Paulista, mas precisávamos de mais espaço para crescer, o que era impossível no edifício onde estávamos", começa explicando o advogado Enio Zaha, um dos associados do escritório. "Assim que vimos este prédio, sua beleza nos encantou. Vislumbramos a possibilidade de montar um escritório confortável e, sobretudo, diferenciado, algo que jamais conseguiríamos na Paulista ou na Berrini. Claro, também estamos apostando todas as fichas na requalificação do Centro."

Restaurantes e cafés igualmente se mobilizam para melhorar os serviços e há até quem arrisque suas economias no futuro do lugar. É o caso do comerciante Fernando Lopes, que acabou de comprar o café Bere & Mangiare, que do 133 passou para o 145 da Rua da Quitanda. "Estou chegando, já peguei a praça arrumada, mas tenho esperanças de bons negócios com a vinda da Prefeitura para o Banespinha. Antes os prédios desta rua caíam aos pedaços, agora a gente pode admirar sua beleza." Geraldo Fernandes, por exemplo, fala em restaurar o edifício de 1903 que possui no número 133 da Rua da Quitanda, lembrando que o processo de requalificação do lugar atingiu inclusive os administradores da massa falida da antiga agência do Bamerindus, no 101, que providenciaram a remoção dos pesados tapumes que encobriam a fachada e substituíram os vidros quebrados. Na própria Patriarca há novidades estimulantes.

Mudanças à vista

No restaurante do Othon Palace Hotel, em plena Patriarca renovada, o maître comemora a reabertura da entrada principal para a praça: as refeições simplesmente triplicaram. O gerente geral do Othon, Gilberto Cordeiro, diz que no almoço 70% dos comensais são profissionais liberais e executivos que trabalham no Centro. "Tenho clientela inclusive nos fins de semana, porque alguns casais ficam para o almoço depois ou antes de irem até o Centro Cultural Banco do Brasil ou à Catedral da Sé, que ficou maravilhosa. Um colega hoteleiro me disse que já estava se dando ao luxo de fazer Cooper no Centro antes de pegar no batente no Crowne Plaza da Frei Caneca."

Na onda da requalificação do Centro, o Othon, como vários outros hotéis, entre eles o Normandie, oferece pacotes turísticos a todos os Estados brasileiros para visitação cultural: CCBB, Catedral, Teatro Municipal, Sala São Paulo, Masp Centro, Mosteiro de São Bento (que tem na programação o 9Ί Festival Internacional São Bento de Órgão) etc. Mas não é só. "O Othon vai passar por reforma interna e restauro da fachada. Já temos aprovação do Conpresp e do Condephaat, aguardando apenas o alvará da Prefeitura para retomar o projeto inscrito e aprovado pela Operação Urbana Centro", adianta Cordeiro. "Com a aprovação do Plano Diretor, que manteve a Operação Urbana, agora vai."

Informações animadoras chegam, igualmente, sobre outros edifícios da Patriarca e entorno. Na praça, o prédio nΊ 84/96 encontra-se totalmente irregular junto à Prefeitura, porém o proprietário (que não autoriza a divulgação de seu nome) já teria assinado contrato com a Companhia de Restauro para restaurá-lo e regularizá-lo segundo as normas do Contru, conforme sua intermediária nas negociações, a Valentina Caran Imóveis. A loja e o subsolo estão em negociação com o Banco do Brasil e os andares superiores com um importante centro universitário. O prédio vizinho, de nΊ 78, já pertence à Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Tratando-se de uma instituição de prestígio como a Faap, é de se esperar que o edifício abrigue um projeto de importância para a área.

Outras novidades: o prédio da Rua Líbero Badaró, 119, de vocação comercial, foi vendido a um investidor particular (que também não autoriza divulgar seu nome), que o está reformando e regularizando para disponibilizá-lo à locação em 2003; o de nΊ 282/284, locado à Sul América Cia Nacional de Seguros, foi adquirido por outro investidor particular, que igualmente prefere o anonimato.

O edifício de esquina das ruas São Bento e Quitanda, que por décadas abrigou a Casa Fretin, tem seu proprietário interessado em regularizá-lo, reformá-lo e restaurar a fachada (tombada pelo Conpresp). O que ele estuda, segundo informações da Valentina Caran Imóveis, é a possibilidade de locar o térreo a um café-bar, tendo restaurantes temáticos nos andares superiores, desde que a nova função seja autorizada pelos órgãos competentes. Outras possibilidades: loja de varejo/atacado no térreo e escritórios nos andares, ou, ainda, com show room no térreo e representação comercial da mesma empresa acima.

Obras de arte

O que não dá para ficar é indiferente à Praça do Patriarca depois que Paulo Mendes da Rocha ousou para ela um pórtico-cobertura de natureza eminentemente contemporânea. "Como toda intervenção nova na cidade, sempre há quem aplauda e quem deteste. Importante é que ninguém mais fica indiferente à nossa praça", diz William Bucheb. Opinião, aliás, compartilhada por Nelson Brissac Peixoto, curador da Arte/Cidade, uma das mostras mais instigantes da cidade na última década.

"Centros históricos são, e devem ser, objetos de intervenção, na medida em que, quando a cidade cresce, há uma profunda alteração na função que eles tiveram um dia", diz Brissac. "Eles não apenas se tornam nós de comunicação e transporte, como têm de se adequar às alterações das próprias cidades. Bons projetos, caso desse do Paulo Mendes da Rocha, levam em conta essa reestruturação das áreas centrais em função da metropolização da cidade. O que antes passava despercebido — a praça com alguns de seus prédios deteriorados, mas tudo escondido pelos ônibus e pela fumaça — se revela quando o observador se desloca pelo espaço aberto. O pórtico-cobertura provoca uma situação de ocultamento e de desvelamento, induzindo a um passeio diferente pelo lugar."

Não há "o" ângulo melhor para apreciar o pórtico. Há vários. Mas, vindo da ponta oposta do Viaduto do Chá em direção à Patriarca, sua presença é mais marcante. "É extraordinário o desequilíbrio da cobertura apontando para baixo. Ela induz à compreensão de que ali tem uma passagem subterrânea (Galeria Prestes Maia/Masp Centro). Sugere a compreensão de que há outro movimento que não apenas o horizontal. Ela induz à percepção dos fluxos que estão articulados naquela região. É uma obra que mais provoca a reflexão sobre a metrópole, pela inquietação contida em si mesma, do que nos aquieta com relação a uma recuperação do Centro como ele era antes."

Segundo Nelson Brissac, o pórtico de Paulo Mendes não existe isoladamente, mas na relação com o entorno. "Se essa estrutura fosse colocada em um espaço aberto, não teria a mesma força e contundência que tem na Patriarca. Ela existe nesse campo ampliado que ela mesma constitui ao se relacionar com tudo que está à sua volta."

"Nostálgicos da cidade do século XIX ficaram insultados com o que parece ser uma intromissão na escala da praça. Ou, ainda, com a heresia de aparentemente ter se obstruído a visão da Igreja de Santo Antônio", observou o arquiteto Guilherme Wisnik, no jornal Folha de S. Paulo. "Ora, sabemos que a particularidade de São Paulo, tanto na beleza quanto na feiúra, está na sua capacidade de se transformar", rebateu o próprio Wisnik. Na praça, o espaço criado, antes inexistente, além de permitir o livre fluxo urbano tem atraído performances artísticas propiciadas pelo Sesc Carmo e pelo Centro Cultural Banco do Brasil e também por alguns artistas free lancers, como repentistas e estátuas vivas. É a transformação do que antes se degradava e parecia não ter futuro. No entanto, somente permanecerá assim, livre aos fluxos, se for encontrada uma solução que redirecione os camelôs para locais fechados e organizados. Ruas como a São Bento, Quitanda, Direita, XV de Novembro e Líbero Badaró — enfim, o Centro todo — precisam estar livres para a circulação, o convívio das pessoas e para que a população possa acessar os equipamentos culturais com tranqüilidade.

Uma questão de tempo
A torre Eiffel, um dos monumentos mais distintivos da França e cuja miniaturização como embalagem de perfume chegou a ser disputada por mulheres de todo o mundo, inclusive do Brasil, entre as décadas de 1950 e 60, não teve a aceitação imediata que se supõe ao ser erguida no final do século XIX para a Exposition Universelle de Paris, comemorativa do centenário da Revolução Francesa. Perplexos com a novidade, o compositor Charles Gounod e escritores respeitados como Alexandre Dumas e Guy de Maupassant, entre outros intelectuais e artistas da época, endossaram uma declaração segundo a qual a torre seria "uma desonra para Paris". Chegaram a compará-la a um "trágico farol", a uma "gigantesca e suja lareira de fábrica" e a um "candelabro invertido". No entanto, a torre de 301 metros, projetada pela empresa do engenheiro Gustave Eiffel, um expert em ferro forjado, que era para ser desmontada ao final da exposição, não somente permaneceu no lugar, porque assim o decidiram os franceses – e entre eles até mesmo Dumas, Maupassant e Gounod –, como mais de um século depois resulta indissociável de Paris, dominando a paisagem com uma elegância que até seus detratores de primeiro momento reconheceram. Bem mais rápida foi a aceitação da pirâmide de vidro projetada pelo arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei para acesso do público às várias salas do Louvre.


  Reportagem  
Em busca da Eficiência

Subprefeitura da Sé dispõe de mais recursos que a antiga AR, mas criação de Conselho ainda é uma incognita

Marcus Figueiredo

Previstas na Lei Orgânica do Município de São Paulo (LOM) desde sua promulgação em 1990, a implantação das subprefeituras foi uma das principais bandeiras de campanha da prefeita Marta Suplicy. Seu objetivo é criar mecanismos de descentralização da administração municipal, dada a complexidade de administrar uma metrópole com áreas e problemas tão distintos entre uma região e outra.

A prefeita cumpriu sua parte e conseguiu aprovar o projeto que cria as 31 subprefeituras. Porém, a criação dos Conselhos de Representantes, que devem complementar a implantação das subprefeituras, está parada na Câmara Municipal, já que os vereadores não chegam a um consenso sobre a criação dos conselhos, importante mecanismo para aumentar a participação da sociedade civil nas decisões administrativas.

Outro problema, nesse caso, é que ainda não há uma proposta definida sobre a forma mais democrática de escolha dos conselheiros e como esse processo garantiria a representação mais homogênea possível de todos os agentes civis envolvidos em cada região da cidade. No caso da Sé, o órgão tem um diferencial a mais, já que é responsável pela administração de uma região com 400 mil habitantes, mas que recebe diariamente cerca de dois milhões de pessoas, equivalente a duas vezes a população de Campinas.

Hoje, se alguém perguntar para dez pessoas que circulam ou trabalham pelo Centro se notou algum avanço na região após a criação da Subprefeitura Sé, é provável que a grande maioria responda que não sentiu diferença alguma. Não é para menos. Três meses após a transformação da extinta Administração Regional da Sé em subprefeitura, os grandes problemas continuam visíveis, como a alta concentração de camelôs nas ruas principais, segurança precária e desgaste dos equipamentos públicos. O subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas, admite que, na aparência, pouca coisa mudou desde a extinção da Regional da Sé. Segundo ele, isso é um processo normal, já que o período para implementação total das subprefeituras é de até 18 meses, a contar da aprovação do projeto na Câmara. "É um trabalho que está apenas começando", disse. Segundo ele, a primeira etapa das subprefeituras é adaptar as estruturas das antigas administrações regionais para receber as demandas das várias secretarias. A proposta é que cada subprefeitura passe a cuidar de atribuições que antes eram exclusivas das secretarias. Atualmente, se uma escola apresentar problemas em seu prédio, por exemplo, a reforma é de responsabilidade da Secretaria Municipal da Educação. A partir do próximo ano, esse trabalho será executado pela subprefeitura da região, que também vai receber atribuições de outras secretarias, como Saúde e Serviços e Obras.

Não é à toa que todos os órgãos receberam reforço de caixa em relação às antigas administrações regionais e terão orçamento independente a partir de 2003. No caso da Sé, a verba prevista no orçamento do próximo ano é de R$ 32 milhões, cerca de 60% a mais que a de 2002, que foi de R$ 20 milhões. "O orçamento de 2002 ainda foi montado baseado na estrutura das regionais", lembrou Torrecillas.

O processo de adaptação dos órgãos para as novas funções deve ser concluído até janeiro de 2003. A partir daí, a prefeita começará a assinar os decretos de descentralização dos serviços previstos no projeto de implementação das subprefeituras.

De acordo com o subprefeito, algumas medidas também já podem ser sentidas. Uma delas refere-se ao atendimento à demanda por serviços. Até abril, a então Administração Regional da Sé tinha um débito de cerca de 10 mil pedidos não atendidos. Hoje, o déficit de atendimento é de três mil pedidos. "Conseguimos reduzir a pressão sobre pedidos não atendidos", disse o subprefeito.

Por outro lado, problemas crônicos ainda não foram resolvidos. Levantamento da subprefeitura aponta que as maiores queixas de quem trabalha ou vive na região central são problemas relativos à segurança e limpeza pública. Em relação à segurança, a expectativa é um apoio maior da nova Secretaria Municipal de Segurança Urbana, criada recentemente e à qual ficará subordinada a Guarda Civil Metropolitana.

Outra ajuda que o administrador espera da secretaria refere-se à organização do comércio ambulante, que o governo municipal ainda não conseguiu solucionar de forma plena. Até o fim do ano, a Prefeitura promete deixar trabalhar na área da Subprefeitura Sé apenas os camelôs cadastrados, o que corresponde a cerca de 1,5 mil barracas. Isso significa que cerca de 8 mil camelôs terão de ser removidos, segundo cálculos da subprefeitura.

A estratégia, segundo ele, é realizar uma fiscalização diferente do tradicional "rapa", que nos últimos anos transformou o Centro em uma verdadeira praça de guerra entre camelôs e a Prefeitura. "Estamos trabalhando para uma ação em que a rua é ocupada antes do camelô montar sua barraca", adiantou.

Sobre a limpeza, Torrecillas pretende traçar um novo plano junto com o Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb). Mesmo assim, ele lembra que, no início do governo, havia 500 pessoas trabalhando na limpeza da área central. Hoje, são 700 funcionários. "Hoje em dia, trabalhos como a lavagem de vias públicas é realizado com maior freqüência."

Quando a pergunta é se a Subprefeitura Sé deve receber um tratamento diferenciado das demais por causa da complexidade dos problemas e das características, o governo é reticente. "Depende muito de que se consideraria um tratamento diferenciado", diz o secretário de Implementação das Subprefeituras, Jilmar Tatto. "Quando ainda era administração regional, a Sé já recebia um tratamento diferenciado, o que deverá continuar a ocorrer, mas sem impedir que todas as subprefeituras possam ter o mesmo ritmo de implementação e estruturação."

A presidente do Programa de Revalorização do Centro (ProCentro) e vice-presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Nádia Somekh, também afirma que ainda é cedo para avaliar os efeitos da criação das subprefeituras. "Não dá para fazer tudo como se fosse uma varinha de condão", diz. Segundo ela, o diferencial do Centro no que se refere ao trabalho da subprefeitura será sentido de maneira mais intensa a partir do momento em que todo o processo de transição estiver concluído e os trabalhos forem articulados com as ações previstas pela Agência de Desenvolvimento do Centro, um novo órgão que vai substituir o ProCentro. Entre as funções previstas para a agência está a captação de recursos no exterior para programas de requalificação do Centro.

Conselhos

Apesar de previstos na Lei Orgânica do Município (LOM), ainda não se sabe quando serão criados os Conselhos de Representantes, principal instrumento para democratizar as decisões tomadas no dia-a-dia da administração. A missão dos conselhos, que pela LOM serão eleitos e instalados em cada uma das 31 subprefeituras, será aumentar a participação da sociedade civil na solução dos problemas e na elaboração de propostas em cada região da cidade, além da ampliação da fiscalização dos atos dos subprefeitos.

Entretanto, a implantação dos conselhos está parada na Câmara Municipal e não há previsão de quando será votado um projeto nesse sentido. O que era para ser uma peça para garantir a democracia na gestão pública, acabou transformando-se em objeto de disputa entre os vereadores. É que alguns parlamentares resistem em aprovar a implantação dos conselhos, pois temem perder a influência política que exercem em suas regiões.

Na opinião de alguns vereadores, o conselho poderá substituir o papel exercido atualmente por eles, que é a ponte entre as demandas da população e o poder público. Basta lembrar que, durante décadas, a interferência de parlamentares nas administrações regionais foi decisiva na eleição de muitos deles.

Apesar da resistência, há mais de dez projetos de lei referentes aos conselhos. Resta agora saber se um deles será transformado em lei e quando isso ocorrerá. A proposta inicial era que os conselhos fossem aprovados junto com as subprefeituras, em julho. Diante da resistência de integrantes da própria base governista, o governo recuou para não correr o risco de não conseguir votar o próprio projeto de descentralização da administração.

"Os conselhos devem ser aprovados com máxima urgência, pois são o principal instrumento para a participação popular e controle social das atividades e serviços públicos", diz o secretário Tatto. Opinião semelhante tem o próprio presidente da Casa, José Eduardo Cardozo. "Um projeto nesse sentido tem de ser aprovado até o fim do ano, pois a cidade não pode ficar sem os conselhos", afirma Cardozo. "Se os conselhos não forem criados, a subprefeitura não passará de uma regional vitaminada", diz o líder do PSDB, vereador Ricardo Montoro.

Quando o assunto for para o plenário, a principal discussão será a formação e atuação dos conselhos. Os projetos em discussão sugerem várias maneiras de escolha dos conselheiros, como eleição direta nos distritos ou indicação por entidades representativas. As discussões também devem abordar a melhor forma de garantir uma participação homogênea dos agentes envolvidos na região. No caso da Sé, por exemplo, a discussão é complexa, pois envolve desde movimentos populares de moradia até grandes instituições, além do fato dessa região ter uma população flutuante muito superior à residente.

"É uma área que deve ser estudada de forma profunda", diz o vereador Carlos Neder. Ele lembrou que o conceito de participação popular não se resume a movimentos que defendem os direitos das camadas mais baixas, mas de toda a sociedade civil.



  Reportagem  
O Centro que a cidade quer

É preciso reforçá-lo como gerador de identidade coletiva, trabalho, moradia, cultura, lazer e atividades da economia contemporânea, em intensa relação sinérgica

Jule Barreto

O processo de recuperação do Centro está em pleno curso. Contudo, o leitor talvez perceba que a esse Centro recuperado que os planos e ações anunciam, e que em tantos aspectos já ganha forma, falta um caráter ou, melhor dizendo, uma personalidade funcional definida. Mais: um sentido ou significado de caráter estratégico — qual será o seu papel na metrópole? — que, à falta de palavra mais justa, pode ser chamado de "vocação". Território cívico e simbólico? Certamente, mas, à exceção desta, as demais funções que se pretende recuperar ou induzir poderiam estar dispersas em outras centralidades (Berrini, Faria Lima, Paulista). Sim, o lugar de uma economia de serviços avançados, de escolas superiores, de instituições culturais de primeira linha, de moradia, de convivência, de fruição e experiência do urbano. Mas o que definirá esse conjunto de atributos como sendo exclusivo de um centro metropolitano não é apenas o seu diversificado repertório, e sim a maneira como, ocorrendo simultaneamente num território relativamente pequeno e compacto com grande poder de gerar identidade coletiva, tais funções perfazem um complexo de atividades com um vigor e poder de atração impossíveis em outro lugar da cidade. O destino do Centro está no reforço dessas características, com a região assumindo plenamente o caráter de centralidade principal, e não na sua configuração como um bairro específico e com forte (senão predominante) ocupação residencial, ainda que exibindo algumas qualidades de centro.

A síntese de tudo o que há de fundamental, significativo e atraente na cidade nunca deixou de ser a grande marca da região, mesmo nos períodos mais críticos, porque os centros são engendrados historicamente para funcionar como a concentração equilibrada e prática dos recursos, funções e facilidades que levam as pessoas a se aglomerar em cidades, e como a materialização arquitetônica de sua história. O que falta é articular, num projeto de Centro, aquilo que existe há muito e agora procura-se reforçar ou requalificar. Tal projeto corresponderia ao cumprimento, em linguagem técnica, de uma vontade coletiva. Como disse a urbs o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, "o Centro será recuperado se os cidadãos quiserem que seja, se houver uma convocação para que retornem ao Centro e para que ele retome sua condição de cuore da cidade." A vontade existe e a Associação VIVA O CENTRO é uma das expressões dela.

O problema é que o Centro, nos projetos e ações do poder público, ora parece ser tratado como centralidade principal, ora como bairro específico, com ênfase na ocupação residencial, principalmente por estratos sociais de menor renda. Falta, assim, uma política global de desenvolvimento dos atributos de centralidade, que inclua a habitação, decerto, mas com um peso apenas relativo e subordinada ao objetivo de dotar a metrópole de um centro complexo, poderoso e vital. Para o urbanista argentino Alfredo Garay, um dos responsáveis pela grande intervenção de Puerto Madero, no centro de Buenos Aires, "o Centro de São Paulo, como é hoje, está mais próximo de um modelo de centralidade principal, inclusive pela presença das Bolsas e dos tribunais, do que de um bairro específico com predomínio da função habitacional e de serviços locais". (Ver o box)

O que as pessoas gostariam de encontrar nesse Centro requalificado, para que a ele retornem, nele invistam, freqüentem-no e o habitem? Supõe-se que, antes de mais nada, o que o Centro é e sempre foi: origem e lastro histórico e de memória da cidade, sem o qual a experiência urbana não iria além de registros dispersos sobre entornos imediatos e vagas abstrações. É ele que imprime inteligibilidade e coerência ao viver na cidade. Mas há outras qualidades que, muito provavelmente, o cidadão e os agentes econômicos gostariam de ver preservadas, resgatadas ou estimuladas. São "âncoras" que não deixariam a percepção do Centro dissipar-se. Algumas delas, as mais conhecidas e preservadas, foram objeto de reportagens em urbs entre 1998 e 2000: as instituições da Justiça, o morar no Centro, o Centro como sede governamental, a economia do Centro, o Centro dos estudantes, o Centro multicultural e da fé religiosa.

Com o objetivo de estimular a discussão, urbs ouviu algumas pessoas representativas em sua área de atuação e interessadas na questão do Centro. Apenas umas poucas são profissionais especializados em urbanismo. O resultado desse arco de opiniões não é conclusivo, mas sinaliza algumas "linhas de desejo" que ajudam a visualizar quais serão, ou deveriam ser, a forma e o conteúdo do Centro nos próximos anos.

Este preâmbulo encerra-se com a observação de que o Centro, como todos os centros das metrópoles, é — em palavras de Paulo Mendes da Rocha — imperecível e insubstituível. Não há registro, diz, de um centro que tenha sido destruído, a não ser por catástrofe natural.

Dia e noite

"Um Centro bom é aquele que consegue se manter vivo a maior parte do tempo, de manhã, à tarde e à noite, nos finais de semana. E que alcança o equilíbrio entre as suas atividades e serviços", afirma o administrador de empresas Tadeu Masano, professor da Fundação Getúlio Vargas e diretor do escritório de consultoria Geografia de Mercado. Ele recorda que o Centro sempre mesclou funções econômicas, financeiras, residenciais, culturais e de lazer e que, para recuperá-las ou reforçá-las, um dos recursos mais eficientes seria a ocupação da área por organismos dos diversos níveis de governo. "O poder público é uma grande mola para impulsionar a recuperação do Centro, atraindo em pouco tempo outros tipos de atividades e serviços, um comércio mais diversificado e sofisticado, uma extensa gama de atividades de entretenimento e lazer. Daí a importância da transferência da sede da Prefeitura para o setor mais nuclear da área central." Para Masano — que é doutor em planejamento urbano pela FAUUSP —, deve-se reforçar o papel do Centro como pólo educacional. "Os estudantes são sinônimo de vida e poderiam estar mais presentes na região, inclusive nela morando. Com eles se desenvolveria todo um segmento de atividades e a possibilidade de um melhor aproveitamento noturno da área."

A diversidade é a essência do Centro e nunca foi perdida. "Historicamente, com exceção das indústrias, a região sempre comportou todo tipo de atividade", afirma o economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, para quem o único paradigma adequado ao Centro, como pólo cultural, comercial e de serviços, é Manhattan. "Problemas antigos, como deficiências na iluminação, na limpeza e na segurança, podem ser revertidos. Mas é necessário que o poder público dê o start."

Um start já se deu. A Sala São Paulo, o refuncionalizado edifício do extinto Dops e a nova Pinacoteca são impulsos vindos da esfera estadual. A sede da Prefeitura logo estará na Praça do Patriarca. A maior parte das secretarias estaduais e municipais, que se dispersavam pelos bairros, instala-se na região. Falta retomar o projeto de transferir para o Centro a sede do governo estadual. Da iniciativa privada não faltam exemplos, como o Teatro Abril. Estatais como o Banco do Brasil e os Correios implantaram os seus centros culturais ou se dispõem a fazê-lo. Quanto à vida estudantil, recorde-se que o Centro nasceu de uma escola, é sede de um dos mais tradicionais cursos jurídicos do País, tem uma grande universidade nas imediações — o Mackenzie —, uma unidade da Anhembi Morumbi no Brás e outra instalando-se na Rua Líbero Badaró, instituições de tradição como o Colégio de São Bento e a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado.

Mas o artista plástico Newton Mesquita, que incorporou em sua obra muitas imagens do Centro, está insatisfeito com a extensão e profundidade das mudanças que já aconteceram. Arquiteto por formação, ele diz que equipamentos fundamentais como a Sala São Paulo e o Museu do Imaginário, no prédio do antigo Dops, ressentem-se de maior poder de impacto na qualidade do entorno, por serem intervenções pontuais e isoladas. "São necessárias ações em trechos maiores, as quais efetivamente impeçam o processo de degradação urbana, gerem mudança e tenham poder de irradiação." Até mesmo o sistema de calçadões, tido como uma vitória do pedestre, teria que ser reavaliado. "Eles foram desvirtuados e precisam ser revistos. Entre camelôs e automóveis, fico com os automóveis." Opinião semelhante tem o artista plástico Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca do Estado e morador da Praça da República. Para ele, os melhoramentos verificados nos últimos anos, como a reforma do museu que dirigiu, "não chegaram a formar um circuito", perdendo-se em parte por falta de um "replanejamento global" da área. Segundo Araújo, que é entusiasta da ocupação do Centro por instituições de ensino, faltam mais ambição da parte dos planejadores e projetos de maior peso, que devem vir acompanhados de "uma sensibilidade de leitura e uma delicadeza no trato com a cidade". Junto com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, Emanoel Araújo responde por um dos mais notáveis empreendimentos culturais que ocorreram no Centro nas últimas décadas, a reformulação da Pinacoteca e a sua projeção nacional e internacional.

São Paulo é uma das metrópoles que chegaram a ter um distrito — no caso, uma avenida e ruas transversais — de cinemas, bares e restaurantes, profusamente iluminado pelas cores do néon. E das pouquíssimas a perdê-lo. Enquanto Nova York intervinha para revigorar a sua Times Square (uma "tempestade elétrica", como a descreveu o filósofo francês Jean-Paul Sartre) e a vizinha Buenos Aires zelava por sua coriscante Avenida Corrientes, aqui se permitia que as luzes deixassem a Avenida São João, no rastro dos cinemas, restaurantes, alguns hotéis e a multidão que, especialmente nos fins de semana, cruzava a noite em suas calçadas. A secretaria estadual da Cultura tem um projeto para reavivar a região — o Broadway Paulistana — em parceria com a Prefeitura, prevendo a conversão de antigos cinemas em salas de espetáculos e a requalificação do ambiente urbano. Mas São Paulo, se perdeu a sua Broadway, milagrosamente preservou seus bairros "étnicos", que ainda hoje a diferenciam das demais cidades do Brasil e dão-lhe forte marca cosmopolita. Apesar das transformações socioculturais que esvaziaram sua antiga finalidade, lugares como o bairro judaico (hoje também coreano) do Bom Retiro, a oriental Liberdade, o reduto predominantemente sírio-libanês da região da Rua 25 de Março e alguns setores com influência italiana no Bixiga podem e devem seguir o destino desse tipo de comunidade em metrópoles como Nova York — reciclar-se não mais para acolher imigrantes recém-chegados, mas para o comércio, a diversão e o turismo. Os dois temas despertam interessantes controvérsias. "Essa idéia de segmentação é empoeirada e sem sentido. Vem da época em que Times Square e Corrientes se viabilizaram, nos anos 30. Qual é a rua de cinemas e teatros em Paris? Qual a de Londres? E a do Rio de Janeiro?", pergunta o sociólogo Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores. "Quanto aos bairros étnicos, suponho que São Paulo universalizou-se e estes tendem a sumir na dinâmica da cidade e na integração democrática da convivência multirracial." É possível, mas pode-se contra-argumentar que, em São Paulo, tais bairros nunca foram guetos e seu aproveitamento comercial e turístico é um dado de multiculturalismo, e que Corrientes e Times Square se preservam por uma lógica semelhante.

As luzes da São João, aliás, se inscrevem não só na memória mas na esfera da utopia, como se — imorredouras — nunca pudessem ter sido suprimidas. Morador da região nos "fervilhantes anos 60", quando a noite do Centro "era uma festa e terminava na esquina das avenidas São João e Ipiranga", o jornalista e crítico de teatro Sebastião Milaré, do Centro Cultural São Paulo, diz que, ao lado de providências indispensáveis como a revisão dos calçadões e a solução do problema dos camelôs, é preciso devolver a luz ao Centro. "Por que a São João não poderia voltar a ser uma avenida animada por anúncios em néon?"

Bairros étnicos, zonas de diversão noturna e ruas de comércio especializado têm, em São Paulo, um conteúdo histórico que imprime legitimidade — ou pertinência — à proposta de sua manutenção e/ou revitalização, com vistas ao comércio, ao lazer e ao turismo. O resultado não será o falso, o fake da cidade cenográfica de telenovela, porque esses bairros existem há um século ou mais, preservando — ainda que num contexto novo — exemplares arquitetônicos, traços culturais e tradições oriundas da ocupação que lhes deu origem.

Economia

Os centros das metrópoles são, tradicionalmente, lugares privilegiados para o comércio, os negócios e a atividade econômica em geral. À figura clássica da downtown, associada a bancos e agentes financeiros, a hotéis, a comércio diferenciado e a serviços ao produtor, sucede-se hoje a do Central Business District da economia contemporânea, ligado às redes mundiais de comércio, informação, finanças e produção simbólica, sem prejuízo (muito pelo contrário) da sua também histórica condição de repositório da memória e de fonte da imagem metropolitana. Velhos centros vão sendo rapidamente dinamizados, dotados de novos edifícios, de redes de fibras óticas e telefonia, de serviços públicos avançados e hoje funcionam como lugar de realização e difusão de serviços e produtos da chamada economia global, constituindo-se em ambientes extremamente favoráveis à inovação. O Centro de São Paulo, que nunca perdeu instituições fundamentais como as Bolsas de valores e de mercados futuros, e que volta a receber entidades de grande poder gravitacional, como a Associação dos Advogados, em torno das quais se juntam dezenas de atividades de apoio e escritórios de associados e colaboradores, apresenta essa estrutura densa e compacta — além de moderna infra-estrutura de telecomunicações (mais de 130 km de cabos óticos na área da Subprefeitura da Sé) e transporte público — que favorece a eficiência e as sinergias produtivas. Levando-se em conta fatores como a contigüidade entre os agentes econômicos, o acesso instantâneo à comunicação em escala mundial, a ampla oferta de serviços de apoio e a localização eqüidistante de outras centralidades, dos troncos rodoviários e do aeroporto internacional, o Centro é a única região apta a abrigar complexos de serviços e fornecedores de insumos para a elaboração de produtos avançados em áreas como finanças, design, marketing, comércio internacional, Direito, mídia, software, publicidade e edição, entre muitas outras. Sabe-se que, em plena era das aproximações virtuais, a única esfera da economia moderna a remar no contrafluxo, dependendo da proximidade física, é aquela dos serviços e produtos que exigem a participação simultânea e rápida dos muitos insumos que os compõem.

No entanto, se nos últimos anos acolheu numerosas empresas de call center e telemarketing, se hoje abriga de web hostings a pólos de telemática, o Centro não mais terá de volta alguns atributos e funções que o abandonaram em décadas recentes. Não é mais lugar preferencial para localização de sedes de bancos e empresas, nem da hotelaria de primeira classe ou de restaurantes, butiques e ambientes sofisticados onde se manifesta o "estilo de vida" da nova classe de executivos internacionais. "Bancos e instituições financeiras não são apenas centros de processamento de dados, mas envolvem componentes simbólicos e mercadológicos que passam pelo prestígio da localização e a contemporaneidade do edifício", observa o consultor Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro. "Imaginar que, por exemplo, as sedes dos bancos poderiam voltar para o Centro, na medida em que o relacionamento com o seu público é cada vez mais cibernético, é o mesmo que cogitar das águas passadas voltando a mover os moinhos."

O mesmo não ocorre com empresas e instituições nas quais o prestígio associa-se à inserção na vida da cidade e ao caráter público de sua imagem corporativa. A Bolsa de Mercadorias & Futuros, BM&F, é uma dessas instituições privadas que querem ser, e são, percebidas como patrimônio de São Paulo. Seu presidente, Manoel Felix Cintra Neto, assim resumiu para urbs um momento decisivo da entidade: "Em 1996, com o crescimento do mercado de derivativos, precisamos ampliar nossas instalações físicas. Colocou-se naquele momento uma decisão estratégica: mudar a sede para outra região da cidade, provavelmente na área da Avenida Luís Carlos Berrini, onde mantínhamos com a Bolsa de Valores um terreno de propriedade comum, ou permanecer no Centro. A escolha foi pela última alternativa. Pesaram dois pontos: de um lado, a espetacular rede de infra-estrutura da região, tanto em transporte quanto em telecomunicações e fornecimento de energia elétrica; de outro, a tradição de já estar no Centro desde o primeiro pregão, em 1986, e a afeição pelo lugar." Com sua expansão (é atualmente uma das maiores bolsas de commodities do mundo), a BM&F adquiriu o edifício vizinho, de 1940, protegido pelo patrimônio histórico, do qual manteve e restaurou a fachada, reconstruindo o miolo com padrão tecnológico de ponta. Com a inauguração das novas instalações, em 2000, a instituição quadruplicou a sua área construída, o que possibilitou o crescimento dos negócios e a melhoria da qualidade do entorno imediato. E, de quebra, a população ganhou uma biblioteca com mais de 3 mil volumes, um Centro de Memória, ambos especializados em mercados de derivativos, e um Espaço Cultural que já realizou cinco importantes exposições — atualmente apresenta "Centro", com obras do pintor Gregório Gruber (ver entrevista com o artista nesta edição).

Foi esta região impregnada de história e dotada de moderna infra-estrutura, com amplo acesso por transporte público de qualidade e uma infinidade de restaurantes, lojas e prestadores de serviços que atraiu a TMS Call Center de Alphaville para a Rua Líbero Badaró, conta seu diretor Diogo Morales. "As telecomunicações, importantíssimas para a nossa atividade, são o que há de mais moderno, e em energia elétrica foram feitos investimentos que ainda não chegaram aos outros bairros. Não se vêem fios no Centro. É tudo subterrâneo." Esse pólo de produção da moderna economia, prossegue Morales, é fortalecido pela chegada de escolas superiores como a Universidade Anhembi Morumbi, que instala seu novo campus num edifício ao lado do da TMS, e por seu potencial como lugar de moradia, inclusive para estudantes e jovens como os mais de mil que a empresa emprega, muitos dos quais gostariam de morar na região.

Empresas usuárias de tecnologia da informação, como a TMS e a vizinha .comDominio, uma web hosting, e instituições globais como a BM&F e a Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa, são intensivas em mão-de-obra e, no caso das bolsas, ainda agregam um enorme contingente de corretores, consultores, especialistas em diversas áreas e prestadores de serviços. Os clientes, associados e colaboradores podem estar em qualquer parte do mundo, mas não os que produzem os serviços e bens comercialiados. Estes extraem vantagens competitivas da proximidade física. Do restaurante à consultoria especializada, um diversificado aparato logístico tem que estar à mão, em termos de prontidão e proximidade. O comércio, a cultura e o entretenimento (da happy hour à sessão no cinema de arte ou à audição de um concerto), mais o ambiente carregado de simbolismo e história, acabam por configurar um lifestyle de centro metropolitano.

Espaço-síntese

Há alguns anos, a Associação VIVA O CENTRO vinha recomendando a criação de uma agência de desenvolvimento para o Centro, com a missão de atrair investimentos privados e coordenar um projeto de desenvolvimento econômico, emprego e renda na região. A Agência de Desenvolvimento do Centro foi anunciada em 2002 pela prefeita Marta Suplicy e deverá estar funcionando já no início de 2003. Como entidade pública mista, terá flexibilidade suficiente para articular parcerias com a iniciativa privada visando, como estratégia de desenvolvimento, à expansão da economia com inclusão social. Mesmo ainda não criada oficialmente, ela já atua por meio de diversos grupos de trabalho, dos quais a Associação VIVA O CENTRO vem participando. Dos temas em estudo, destaque para uma política de estímulo ao setor produtivo por meio da redução da alíquota do Imposto Sobre Serviços, ISS, para empresas de tecnologia avançada, hotéis, estabelecimentos de ensino e outras atividades que se instalem no Centro.

Retorna-se agora ao ponto inicial dessa discussão, a personalidade (forma e conteúdo) que o Centro requalificado deveria assumir. Em grandes linhas, é a de espaço de conexão da sociedade e das forças produtivas com as redes e fluxos mundiais de informação, riqueza e poder e, a um só tempo, de integração social e apropriação da cidade pelo cidadão comum. O Centro é o local onde o caráter público dos espaços coletivos e o seu uso e freqüência por uma mescla social se preservam e, como afirmou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, não podem ser destruídos. Mas também é território de inserção global porque a eficiência das telecomunicações, o poder de uma economia diversificada, a cultura exuberante e o caráter emblemático de seus logradouros e instituições representam o que de mais interessante a cidade pode oferecer nos circuitos internacionais. A observação do urbanista Garay, citado na abertura desta matéria, de que o Centro é a centralidade principal de São Paulo mais do que um bairro específico, faz pleno sentido. Nessa perspectiva, um plano habitacional para o Centro deve ser instrumento de reforço da centralidade, não um capítulo da política habitacional do Município.

Esta é a discussão que falta. E que despertaria outras sobre o futuro econômico e social da metrópole, o indispensável plano estratégico, a inserção de São Paulo nas redes das cidades mundiais, o combate à pobreza e à exclusão social.

O Centro estará em sua forma e função mais perfeitas quando, através de seus atributos de centralidade principal, as pessoas nele se reconhecerem como moradores da cidade. Nesta, então, voltará a pulsar um núcleo central, um self. "Uma cidade sem centro é uma cidade descentrada", diz o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, de Veja, desculpando-se pela tautologia. "É como alguém que perdeu a referência de si mesmo, a identidade. Alienou-se do próprio ego. Um pouco dos males de São Paulo, dos males morais, pelo menos — como a quebra na auto-estima dos moradores —, decorre do fato de não se reconhecer mais no seu Centro e muitos não a reconhecerem mais no Centro."

Que isso está mudando não há dúvida. (Com reportagem de Federico Mengozzi)

Novos espaços e volumes
Poderá o Centro manter (e aperfeiçoar) as suas tradicionais funções de centralidade? Inovar, criando outras? Ou a tendência é o Centro consolidar-se como um bairro específico, ainda que com traços de centralidade? O urbanista argentino Alfredo Garay, que tem vindo freqüentemente a São Paulo como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, e para estudar a cidade, tem poucas dúvidas: o Centro deve continuar sendo a principal centralidade em numerosas funções de expressão metropolitana. Abriga os principais tribunais, muitos órgãos de governo, as bolsas e boa parte do sistema financeiro. O terciário é desenvolvido, destacando-se as ruas de comércio especializado que não existem em outras partes da cidade. No Centro existe uma área que já concentrou numerosos cinemas e que, na opinião de Garay, é preciso resgatar. "O Centro deve retomar o seu papel, não como a única centralidade, mas como centro financeiro, cultural, universitário, comercial, de atividades noturnas e outras."

Mas a recuperação do Centro, diz o urbanista, exige que se façam demolições — elas expressam uma freqüente contradição entre centro histórico e centralidade. "Como no caso dos diamantes brutos, será preciso um trabalho de demolição para abrir espaços públicos e reequilibrar a relação entre o construir e o não construir. No Centro há muitos prédios que não têm valor histórico-arquitetônico nem patrimonial. Além disso, é preciso, entre outras coisas, redesenhar a volumetria da região."

De qualquer forma, a reafirmação do Centro como centralidade metropolitana é uma tarefa que transcende o planejamento urbano. "Deve-se saber qual é a vontade política a respeito desse tipo de centro", diz Garay. Significa que tal centro vai decorrer da vontade que as pessoas têm de vê-lo na plenitude de suas funções típicas e com os espaços democráticos que historicamente oferece. Alfredo Garay é o entrevistado da próxima edição de urbs.


  Em foco  
A dez minutos do Centro

Parque do Carandiru abrigará pólo de lazer e formação profissional, reforçando a influência da área central no sentido norte

Federico Mengozzi

"Cultura, lazer, recreação, esporte, educação profissional, inclusão tecnológica e digital, associativismo, incentivo ao Terceiro Setor, meio ambiente e preparação para as futuras e novas alternativas de empregabilidade." A implantação do Parque da Juventude, no mesmo espaço ocupado pelo Complexo Penitenciário do Carandiru, pretende sepultar de vez a sombra daquele que foi o maior presídio da América Latina. Mais do que sepultar, e esquecer, o novo parque, situado numa área carente de verde, próxima ao Centro, pretende resgatar parte da dívida que a sociedade tem com os jovens, agindo para que não enveredem pelo crime e se tornem a população-alvo dos presídios. Segundo a Secretaria estadual da Juventude, Esportes e Lazer, a multiplicidade de atividades que consta do projeto destina-se a que os jovens desenvolvam toda a sua potencialidade criativa e enfrentem o futuro. O projeto conta com a participação de vários setores da sociedade civil e da iniciativa privada.

Mas a importância do projeto não se limita ao desenvolvimento social. Situado a dois quilômetros e a dez minutos de metrô da Praça da Sé, ele terá notável relevância urbanística, com o efeito de consolidar o prolongamento da área central na direção norte, ao longo das avenidas Tiradentes e Santos Dumont e da linha Norte-Sul do metrô. De acordo com o estudo São Paulo Centro – Uma Nova Abordagem, elaborado pela Associação VIVA O CENTRO em 1996, o reforço de determinados atributos de centalidade metropolitana ao longo desse eixo — onde já se concentram o complexo de hotelaria e eventos do Anhembi, o Campo de Marte, o Terminal Rodoviário do Tietê, o acesso ao aeroporto de Guarulhos e à rede rodoviária estadual através da Marginal Tietê e várias estações do metrô — funcionaria como um contrapeso à excessiva expansão da cidade na direção sul. O novo Carandiru, como parque público e pólo de inserção social e de formação técnica (em informática, gestão, comércio, saúde etc.), passaria a integrar esse complexo.

O governo do Estado deve investir aproximadamente R$ 22 milhões no projeto do parque, sem contar os R$ 200 milhões empregados para a desativação da Casa de Detenção, que exigiu a construção de 11 unidades prisionais, com 8.256 vagas, em todo o Estado — até agora, pois mais 12 presídios serão erguidos. No dia 28 de março, quando o governador Geraldo Alckmin presenciou a demolição de um muro do complexo do Carandiru, as obras do parque começaram a sair do papel. Para valer, o start do novo parque se deu quando cerca de 200 desempregados, inscritos no Programa Frente de Trabalho da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho, começaram a demolir os antigos pavilhões da Casa de Detenção. O programa seleciona pessoas desempregadas há no mínimo um ano. Os contratos de trabalho duram nove meses e cada trabalhador recebe R$ 190,00 por mês e cesta básica.

A construção do parque envolve três fases distintas: Parque Esportivo, Parque Central e Parque Institucional. As obras da primeira etapa, o Parque Esportivo, com cerca de 40 mil metros quadrados, anteriormente pertencentes à Penitenciária Feminina, já estão em licitação e, uma vez iniciadas, estarão prontas em mais ou menos três meses, incluindo oito quadras poliesportivas, dois campos de futebol society, pistas de Cooper e skate, equipamentos para ginástica e recantos de estar, com banquinhos, em meio às árvores. No percurso, que acompanha a vegetação pela entrada da Avenida Zachi Narchi, com aproximadamente 380 metros de comprimento, lanchonete, vestiário e demais equipamentos. A área poderá ser usada à noite e as atividades serão monitoradas. Segundo o projeto, a população poderá dar opiniões para a melhor utilização do espaço para educação e esporte.

Contemplação

As obras do Parque Central, com cerca de 130 mil metros quadrados, no coração do complexo, compõem a segunda etapa. O projeto já foi executado e está em processo de licitação. Segundo o arquiteto Roberto Aflalo Filho, da Aflalo & Gasperini Arquitetos, escritório responsável pelo projeto, é uma área de contemplação, já que inclui muito verde, como o Ibirapuera, com trechos da Mata Atlântica, mas também com árvores alienígenas, como eucaliptos. Todo o verde será preservado e recuperado, e a área abrigará gramados, passeios, ciclovias, pergolados remanescentes e um anfiteatro para atividades ao ar livre. Inclui ainda o canal do rio Carajás, que terá as águas tratadas para a piscicultura ornamental, e parte da muralha, que permitirá a prática do rappel – do passadiço pode-se observar o parque inteiro. O Parque Central manterá ainda edifícios tombados, entre eles um de uso administrativo, projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo. Um dos aspectos mais sugestivos da área são os pilares e as vigas tomados pela vegetação, como se fossem ruínas.

O Parque Institucional, com cerca de 90 mil metros quadrados, será executado na terceira etapa. A área compreende quatro dos edifícios nos quais funcionava a Casa de Detenção, abrindo-se para as avenidas Cruzeiro do Sul e General Ataliba Leonel: os pavilhões 2, 4, 5 e 7 – os demais, em más condições técnicas, serão implodidos (incluindo o pavilhão 9, cenário do chamado "massacre do Carandiru"). Nos pavilhões, cada qual com 6 mil metros quadrados, inteiramente refeitos, serão desenvolvidas atividades culturais e educacionais dirigidas aos jovens. Um dos pavilhões, por exemplo, abrigará o Centro de Cultura, que terá escolas de artes cênicas, dança e música, com cursos regulares e abertos. Os programas estão sendo desenvolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura. Em outro, funcionará o Centro de Tecnologia da Informação e Inclusão Digital, o maior e mais sofisticado centro de tecnologia da informação e inclusão digital da América Latina, resultado de uma parceria entre o Estado e a iniciativa privada.

Nos dois pavilhões restantes, o Centro de Formação Profissional e o Centro de Excelência em Terceiro Setor. O Centro de Formação Profissional terá cursos em nível básico, técnico e tecnológico gratuitos, desenvolvidos pela Fundação Paula Souza e Faculdade de Tecnologia, Fatec, nas áreas de saúde, meio ambiente, gestão, comércio e informática, setores que oferecem boas perspectivas de trabalho. Prevêem-se 4.500 vagas. E o Centro de Excelência em Terceiro Setor existirá para fomentar o desenvolvimento e a disseminação de movimentos de associativismo, cidadania e voluntariado. Nos cinco núcleos, um centro de informação juvenil, um condomínio de associações, um de pesquisa, um de formação e uma incubadora de entidades sociais. Todos os centros interagirão entre si. Por exemplo, os alunos do Centro de Formação Profissional poderão criar empreendimentos com os freqüentadores do Centro de Excelência do 3Ί Setor. Também estão previstos anfiteatros para 2.000 espectadores, estacionamento arborizado para 300 veículos etc.



  Entrevista  
Com tinta e paixão


Se é verdade que toda grande cidade tem os pintores que a elegem como modelo e paixão, entre os de São Paulo está Gregório Gruber. Em suas telas a cidade é protagonista, não mero cenário ou fundo. Nem os carros e as multidões, tão inseparáveis da cena urbana, costumam povoar as paisagens em que a chuva, o nevoeiro e a noite destacam (ou diluem) as formas desertas da metrópole e ajudam a matizar a "cor emocional" que o artista nela projeta. Filho do gravador e pintor Mário Gruber, o santista Gregório, 50 anos, começou a pintar muito cedo e aos 23 fazia sua primeira individual — nada menos que no Masp, a convite de Pietro Maria Bardi. Depois vieram outras individuais, muitas participações em coletivas, na Bienal de São Paulo de 1979 (já participara da Bienal de 1973), em vários salões e na Bienal de Paris (1981), além de dois filmes sobre o seu trabalho, de Olívio Tavares de Araújo (O Gesto Criador, 1977) e de Nelson Pereira dos Santos (Uma Tarde com Gregório, 1987). No momento, Gregório expõe paisagens do Centro paulistano no Masp Centro da Galeria Prestes Maia e no Espaço Cultural BM&F, numa promoção conjunta dessas instituições e da Associação VIVA O CENTRO, com curadoria da coordenadora de Projetos Especiais da Associação, Rose Carmona. Ajudando a embalar as obras e às voltas com os detalhes da exposição, Gregório encontrou tempo para uma conversa com Ana Maria Ciccacio e Jule Barreto, de urbs, em seu ateliê no Pacaembu.

urbs - Na exposição, são cerca de 70 obras que retratam diversos momentos e aspectos de São Paulo ao longo de duas décadas ou mais. Trata-se de uma retrospectiva de Gregório Gruber?

Gregório Gruber - Não, é uma visão de 30 anos do Centro. Na verdade, não dá para saber ao certo se é ou não uma retrospectiva... Se for, ela se concentra na minha visão do Centro. A ponta do meu iceberg é o Centro.

Por que o Centro? Aliás, por que São Paulo?

Eu tinha uns cinco ou seis anos, freqüentava a escola primária do Clube de Regatas Tietê, a perua escolar rodava a cidade inteira... Morei em muitos lugares, Santana, Sumaré, porque meus pais não se fixavam num bairro. A perua escolar, então, rodava muito. Eu me lembro, garoto, passando pelo Largo do Arouche, por volta de 1958. Por que São Paulo? Vem dessa rotatividade de uma criança observando diariamente a cidade e mais tarde, na adolescência, assistindo à destruição desses lugares — o Minhocão destruindo a Avenida São João, a nova Praça Roosevelt destruindo a antiga e tantas outras depredações.

Você procura resgatar a cidade da sua infância?

Sim, no sentido de que nela, como diz a Rita Lee, tudo era mais chique, tinha mais charme. Hoje as coisas são feitas sem qualificação. Meu pai era o maior fã da Avenida São João, nós usufruíamos muito a cidade. Hoje as pessoas saem dos apartamentos, vão ao shopping e depois voltam ao apartamento, ninguém mais circula.

O violonista Paulinho Nogueira fala com saudade de uma sorveteria na Praça Marechal Deodoro. Era o maior charme tomar sorvete na praça. Até a chegada do Minhocão havia nela umas oito sorveterias. Cenários como esse devem freqüentar sua memória forte da infância, não?

Mesmo porque a criança tende a uma visão meio teatralizada da paisagem, ela lhe dá conteúdos muito emocionais e até mesmo oníricos. Nunca é só o lugar, em estado puro, mas o lugar onde bate uma certa luz a uma certa hora.

As grandes dimensões das suas telas têm a ver com o fato de as crianças enxergarem tudo muito grande?

Pode ser. Na verdade, o tamanho grande das telas corresponde à necessidade de o meu corpo estar presente no cenário. Na tela pequena você fica sentado, na grande você participa até fisicamente. Eu faço telas grandes para atender a essa necessidade de andar, de fazer Cooper nas paisagens que pinto. É a minha ginástica. Além disso, São Paulo é uma das cidades do mundo que mais primam pelos grandes espaços, como Moscou, Paris, Nova York. O Anhangabaú, por exemplo. É difícil o visitante não se impressionar com ele.

Por que, em boa parte de suas telas, São Paulo aparece molhada de chuva, envolvida pelo nevoeiro e quase sem gente ou carro?

É para evitar interferências e usufruir melhor o cenário. Com carro e multidões não se consegue absorver a cidade. Já à meia-noite, embora hoje seja perigoso (risos), você não sente a paisagem com mais contundência? É quando se tem mais consciência da amplidão. Tem-se uma sensação de cenário.

E a neblina, a chuva, às vezes um vulto de pessoa se esgueirando sozinho?

Acho que é uma reação ao fato de a cidade estar ficando mais quente. A São Paulo da minha infância e adolescência era mais fria, mais úmida, com garoa e nevoeiro, que praticamente deixaram de existir. A (crítica de arte) Aracy Amaral, num bate-papo comigo, perguntou: a que horas o Gregório vê essas coisas que a gente não vê?

A que horas?

À hora em que você está passando e descobre: puxa, nunca fez essa luz antes! Tenho um quadro que deixa todo mundo meio grilado e que a Aracy viu e comentou: mas essas cores não existem. Existem. Quando o sol se põe, uma luz vermelha bate nos prédios e o céu fica azul escuro...

Um só momento.

É, um só, em que batem umas luzes. Resulta que as cores às vezes são um pouco exageradas, algo inventadas, são cores emocionais ou mentais.

Em alguns de seus quadros a chuva é torrencial, como se fosse o rio caudaloso e limpo que falta à cidade.

Os rios são tão pobrezinhos em São Paulo!

Depois de ver seus quadros, as pessoas querem conhecer os cenários que você pintou, enxergar melhor a cidade.

Todo mundo tende a achar São Paulo horrorosa, poluída, com todas as qualidades negativas. Não é verdade. Para mim, tudo tem a sua beleza, o seu horário, o seu lugar.

Até o Minhocão, que você retrata...

Até o Largo do Paissandu, que já foi charmoso e que hoje está feio, maltratado, com cores horríveis.

Muita gente classifica o seu trabalho como hiper-realista. É?

Não. Tive uma fase hiper-realista nos anos 70. E claro que o hiper-realismo me marcou, mas eu me defino como um pintor, um artista visual. Sou relativamente jovem para ser rotulado, ainda que o artista tenha a necessidade do invólucro para se encaixar no dicionário de arte, para sair na revista de arte.

E conseguir a primeira exposição...

Nesse aspecto, me encaixaram mesmo. Eu tinha que ser encaixado: não era um artista conceitual, era um jovem meio acadêmico, meio ou totalmente desencaixado, porque sempre fui outsider. Não sou hiper-realista, trabalho com técnicas tradicionais. Como eu me definiria, então? Um artista plástico que, em diversos momentos de sua trajetória, se apaixona por certos pintores. Na adolescência foi Dührer, eu fazia tudo à Dührer, até auto-retratos com a cabeleira comprida, depois me apaixonei por Cézanne, mais tarde por Van Gogh. Aprendi muito com Picasso, que também se apaixonava e era expressionista, pontilhista e criou o cubismo... Como encaixar esses artistas? Outro que me marcou muito foi o Hopper, no final da adolescência. A Bienal de 1967 dedicou a ele uma sala. Foi um grande impacto, absorvi a, por assim dizer, paisagem psicológica que agregava à paisagem urbana. Mas não tenho a sua visão um tanto melancólica.

Voltando a São Paulo, fale da escolha dos lugares que você transpõe para a tela. Por que esses lugares?

Acho que todo mundo tem os seus lugares prediletos. Eu vou naquele local tomar café, sempre passo ali, é agradável... Não é assim? O Anhangabaú, por exemplo, é um clássico. Sempre invento alguma coisa para cruzar o Viaduto do Chá. O Mercado Municipal é outro desses lugares.

Você pintou o Vale do Anhangabaú antes da reforma dos anos 80, em obras e depois de reinaugurado.

Também pintei muito a Avenida 9 de Julho, tenho uma ligação afetiva com o Viaduto Major Quedinho.

Que perspectiva você enxerga para esta cidade que pinta tão amorosamente?

Sou muito otimista. Você já vê alguns efeitos de um esforço de recuperação, como no caso do Centro. E esse desafio de mudar é que é interessante. Vejam, o Centro, que teve o seu apogeu, que todos usufruíam, está jogado às traças em nome do quê? O que ganhamos com isso? Que sentido tem em se confinar nos carros e na claustrofobia dos shoppings? Que racionalidade, que benefício existe em abandonar os belos cinemas do Centro? A arquitetura art déco? Os parques, os cenários? Essa história já não tem nenhum sentido, é insustentável. Por isso mesmo sou muito otimista.

CONHEÇA A OBRA


A exposição "Centro", de Gregório Gruber, prossegue até 31 de janeiro de 2003 em dois locais:

Espaço Cultural BM&F.
Praça Antonio Prado, 48. Metrô São Bento ou Anhangabaú. Segunda a sexta, das 10h às 17h. Grátis

Masp Centro.
Galeria Prestes Maia (Praça do Patriarca). Metrô Anhangabaú. Segunda a sábado, das 10h às 17h, R$ 4 e R$ 2, grátis às quartas


  Destaques  
Presidente instala Centro Cultural dos Correios


Em cerimônia realizada no dia 24 de novembro, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Geraldo Alckmin descerraram a placa alusiva à instalação do Centro Cultural Sérgio Motta no edifício da Agência Central dos Correios, no Vale do Anhangabaú. Participaram do evento o ministro das Comunicações, Juarez Quadros do Nascimento, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, o presidente da ECT, Humberto Eustáquio César Mota, a sra. Vilma Motta, viúva do homenageado, autoridades estaduais e municipais e representantes da sociedade organizada. A VIVA O CENTRO esteve representada pelo presidente de sua Diretoria Executiva, Marco Antonio Ramos de Almeida. Restaurado e reciclado, o histórico edifício deverá ser reaberto ao público já no primeiro semestre de 2003. A primeira fase das obras, orçada em R$ 10 milhões, se realiza em ritmo acelerado, conforme projeto do escritório Una Arquitetos, o qual, além das funções originais do imóvel, prevê a instalação de um centro cultural. Compõem a primeira fase obras no térreo e mezanino, a recuperação da fachada, limpeza e demolições necessárias no primeiro, segundo e terceiro andares, uma moderna agência postal informatizada no térreo e, no mezanino, uma agência filatélica e espaço para exposições. Para a concretização da segunda fase — o centro cultural com cinema, teatro, galerias de arte, restaurante, café e auditório —, orçada em R$ 30 milhões, a ECT quer estabelecer parcerias com o governo e a iniciativa privada. A prefeita Marta Suplicy adiantou a possibilidade de incluir o Centro Cultural no financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o Programa de Reabilitação do Centro.

No Centro, um shopping voltado à aventura


O prédio que por 25 anos sediou o Mappin-São João, na avenida de mesmo nome, passou a abrigar o Shopping Moto & Aventura. Com 7,4 mil metros quadrados distribuídos em quatro andares, o empreendimento consumiu R$ 4 milhões do Grupo Visão Habitacional, tem 90 lojas de motos e acessórios e coloca à disposição do público uma infra-estrutura completa de atendimento, com praça de alimentação, estacionamento, oficinas e áreas para serviços rápidos. Segundo o empresário José Renato Bonventi, da Visão Habitacional, pesaram na escolha do lugar três importantes fatores: a performance do setor, as características do ponto comercial e a própria vocação da área, famosa por concentrar o comércio de motos e equipamentos esportivos na capital.

Mudança da Prefeitura está na Câmara


A mudança da sede da Prefeitura do Palácio das Indústrias para o Edifício Patriarca, na Praça do Patriarca, deve se realizar em 2003. Antes, a Câmara Municipal deverá votar o Projeto de Lei 116/02, do Executivo, com medidas de saneamento e reestruturação da São Paulo Transporte (SPTrans), autorização da cessão, ao Município de São Paulo, do crédito do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) contra a SPTans e, ainda, seu aumento de capital. Explica-se: a Prefeitura e o Banespa entraram em acordo a respeito de uma antiga dívida da SPTrans com a instituição financeira, que, embora renegociada no último ano do mandato da prefeita Luiza Erundina, em 1991, não foi paga nas gestões Maluf e Pitta, chegando em 2002 a perto de R$ 900 milhões, sem que o Banespa tivesse expectativa de quitação. Pelo acordo assinado pela prefeita Marta Suplicy, o passivo total foi reduzido a R$ 156 milhões, a serem pagos em quatro parcelas anuais. Também ficou acertado que o banco fará investimentos institucionais de R$ 36 milhões na cidade nos próximos quatro anos. Esse acordo é que prevê a cessão do edifício para sediar a Prefeitura e inclui, ainda, a autorização ao Banespa de concorrer pela administração das conta-correntes dos servidores municipais. Na Câmara, o projeto já passou pelas comissões de Justiça, Finanças e Política Urbana, devendo na seqüência entrar na pauta de votação.

Cultura muda-se para o Paissandu


O Largo do Paissandu estará recebendo uma injeção de ânimo em 2003. Segundo fontes da Secretaria Municipal da Cultura, está confirmada a vinda da administração da pasta, mais a Orquestra Sinfônica Municipal, a Orquestra Experimental de Repertório, o Balé da Cidade, as escolas de Música e Bailado e a administração do Teatro Municipal para o Edifício Domingos Fernandes Alonso, de 23 andares, que abrigava no térreo o Cine Olido, na esquina da Avenida São João com a Rua Dom José de Barros. Um centro de produção e formação em cultura, música e dança vai funcionar no local, com a conseqüente circulação de crianças, adolescentes e jovens estudantes de arte, mas também de professores, músicos e bailarinos, funcionários e dirigentes da Secretaria da Cultura e também de uma outra secretaria, a ser definida, pois as dimensões do prédio o comportam. O local onde hoje funciona um bingo se transformará em biblioteca, discoteca e videoteca, com um cybercafé. O cinema Olido se tornará uma sala de concertos, com adaptações para artes cênicas e cinema. O Diário Oficial do Município já publicou autorização para a negociação da locação com a imobiliária Savoy (o chamado empenho de recursos) para um contrato de cinco anos, renováveis, na qual a empresa se dispõe a reformar o edifício, que já está em obras.

CEF vai reunir sua sede paulista na Sé


O conjunto arquitetônico da Caixa Econômica Federal (CEF), com vários edifícios históricos tombados localizados entre a Praça da Sé e o Pátio do Colégio, integram um projeto de reciclagem que deverá contribuir com o processo de requalificação do Centro. Estão nos planos da CEF, apresentados em palestra especial a dirigentes da VIVA O CENTRO, a transformação do conjunto em pólo de moradia, cultura e lazer, com o retorno das áreas operacionais da instituição para o Centro e a implantação de uma praça, dois edifícios para habitação social, dois andares de garagens subterrâneas, um conjunto cultural com auditório e espaço de exposições. O projeto utiliza a lei da Operação Urbana Centro e prevê demolição de prédios não tombados, restauro de fachadas e reciclagem, além de novas construções. A CEF já obteve aprovação preliminar do Condephaat e do Conpresp, devendo protocolar o projeto na Prefeitura ainda em dezembro. Assim, as atividades da CEF em São Paulo, antes dispersas por vários pontos da cidade, principalmente na Avenida Paulista, também serão unificadas na Sé.

Accor, Setin e Inpar constroem hotéis no Centro


O Hotel Mercure Downtown, fachada histórica a ser incorporada ao conjunto), da Rede Accor, na Rua Araújo, deve entrar em pré-operação (soft openning) já em março de 2003, segundo Guilherme Cavalieri França, diretor comercial da Setin Empreendimentos Imobiliários, que o incorporou e construiu. O investimento da ordem de R$ 25 milhões disponibiliza na região central da cidade 250 apartamentos em um hotel da categoria middle scale, com previsão de inauguração oficial de 90 a 120 dias após o início do soft openning. A mesma Accor também lançou em novembro, junto com a Inpar Incorporações e Participações, um novo hotel da categoria Formule 1 na Avenida São João, 1140, esquina com a Rua Barão de Campinas. Já foram iniciadas as demolições do antigo Cine Regina e de algumas lojas no terreno que receberá o hotel com 260 apartamentos, num investimento de R$ 13 milhões. As obras devem ter início ainda em dezembro, com previsão de conclusão de 18 a 24 meses a contar do lançamento.



  Urbanismo Nacional  
Parque D. pedro II catalisador de desenvolvimento para São Paulo

karin Regina de Castro Marins


Este projeto insere-se na presente temática de reconstrução do Centro de São Paulo e da Metrópole como um todo, e tem por objetivo trazer propostas de gestão e intervenção para recuperação e manutenção da qualidade ambiental urbana. Tem como foco de atuação a região do Parque Dom Pedro II, cujo destino está hoje novamente em pauta de discussão, e para o qual pretende-se apresentar, nesse artigo, algumas contribuições.

Desenvolvido como Trabalho Final de Graduação junto à FAUUSP em 2000 e representante da Universidade de São Paulo na premiação/exposição internacional de trabalhos de conclusão de curso em arquitetura e urbanismo – Archiprix International 2001 –, o projeto é baseado na atual necessidade de melhoria do quadro ambiental da região metropolitana, e na carência de instituições destinadas à sua promoção. Sendo assim, o trabalho inclui a proposta de criação e implantação de um novo organismo em São Paulo, intitulado Centro de Referência em Sustentabilidade Ambiental Urbana, inserido em um projeto de requalificação urbanística e recuperação ambiental do Parque D. Pedro II.

Nessa perspectiva, o trabalho é composto por três níveis, profundamente integrados:

• Proposta de um instrumento de gestão e intervenção ambiental, concentrado na concepção funcional do Centro de Referência;

• Projeto urbanístico de recuperação do Parque D. Pedro II, concebido para concretizar, na escala urbana, as diretrizes propostas pelo Centro de Referência, e catalisar, imediatamente, toda a reestruturação da região (parte do Centro e bairro do Brás);

• Projeto da sede do Centro de Referência, elaborado para ser um protótipo das soluções arquitetônicas e tecnológicas que serão difundidas pela instituição e que, em conjunto com o projeto urbanístico, funcionariam como referência propriamente dita para futuros projetos. A proposta arquitetônica, no momento, não fará parte do escopo deste artigo e poderá ser detalhada em outra oportunidade.

DIAGNÓSTICO DA ÁREA DE INTERVENÇÃO

Após análise em escala metropolitana, tendo em vista identificar locais mais propícios para implantação do Centro de Referência, o Parque D. Pedro II foi escolhido como área de intervenção por se tratar de uma região central e de grande acessibilidade metropolitana por transportes coletivos e de importante articulação viária, exposta a condicionantes históricos, visuais, sociais e ambientais representativos. Mas, sobretudo, por constituir um local extremamente degradado, aguardando oportunidade para, através de um projeto de recuperação urbanística, ambiental e social, ser elevado a um novo patamar de qualidade, compatível com as atuais necessidades e demandas, locais e metropolitanas, por espaços de lazer, cultura, convívio, e de difusão tecnológica.

A referida área traz em seu histórico a função de parque urbano, projetado e construído entre 1911 e 1922, com o objetivo de sanear a Várzea do Carmo, como era conhecida a região do Parque D. Pedro II até então, e assim contribuir, já naquela época, para a melhoria da qualidade ambiental da região central. O local antes alagadiço e destino de resíduos e de esgoto foi transformado em parque, que passou a exercer a ligação direta entre o Centro Antigo e o Brás, transformando-se em importante espaço de lazer para a população deste último bairro.

As intervenções urbanísticas posteriores à criação do Parque não promoveram, entretanto, a compatibilidade das escalas metropolitana e local, e os interesses gerais, traduzidos na implementação de eixos viários associados ao transporte individual, foram privilegiados em detrimento da qualidade de vida local. Em vista disso, atualmente, a região do Parque D. Pedro II constitui uma das áreas mais degradadas da região central de São Paulo, cujos reflexos atingem todo o entorno, inclusive o Centro Antigo e, contrariamente às suas funções originais, é considerado um obstáculo a ser vencido na travessia do rio Tamanduateí.

Além do levantamento histórico, outros subsídios foram pesquisados, incluindo visitas a campo e consultas a órgãos como CETESB, Companhia do Metropolitano, Secretaria Municipal do Meio-Ambiente, Empresa Municipal de Urbanização, entre outros, que propiciaram conhecer, fundamentalmente, a conformação da paisagem, o fluxo de recursos, a infra-estrutura, o uso e ocupação do solo e a dinâmica urbana.

PROPOSTA DE INTERVENÇÃO URBANA

Revisão da infra-estrutura atual

Dos estudos e levantamentos realizados, concluiu-se que haveria necessidade de novas estruturas urbanas para o Parque D. Pedro II, que atendessem às atuais necessidades de transporte, circulação na área e que permitissem a recuperação do Parque sem ameaçar a sua qualidade e integridade.

A revisão do sistema de transportes coletivos partiu da definição da rede metroviária como principal meio de acesso à região do Parque D. Pedro II, considerando a existência de uma estação no interior do mesmo. Dessa forma, e assumindo a implantação do Plano Integrado de Transportes Urbanos (PITU), que prevê a ampliação da rede de transporte sobre trilhos, todas as áreas da metrópole próximas a essa rede teriam acesso fácil à região. Assim, as linhas de ônibus, provenientes quase que na sua totalidade da Zona Leste, e que fazem percursos sobrepostos e, em grande parte, paralelos às redes de metrô e trem, foram reorganizadas não mais em rotas radiais ao parque, mas circulares, articuladas à rede sobre trilhos.

A proposta de uma solução alternativa de sistema viário em escala metropolitana, focou, preliminarmente, a revisão dos fluxos de veículos sobre os viadutos. Assim sendo, e considerando a extinção do terminal do Parque D.Pedro II, diminuiria também a circulação de veículos sobre os viadutos Diário Popular, 25 de Março e Mercúrio, que então foram extintos em projeto e o fluxo remanescente, reorganizado no sistema viário circundante ao Parque. Já o complexo viário Leste-Oeste presente no Parque D. Pedro é de fundamental importância para a circulação metropolitana. Porém, como seu tráfego é intenso e basicamente de passagem, o sistema viário foi reprojetado de forma a interferir o menos possível no tecido urbano local. Foi então proposto um conjunto de túneis sob o rio Tamanduateí, que ligaria a Radial Leste à Avenida Alcântara Machado, substituindo os viadutos hoje existentes. Seguindo a mesma lógica, foram igualmente projetados túneis sob o Parque, abrigando as pistas expressas da Avenida do Estado, o que permitiu unir as margens do rio, e conectar o Centro ao Brás.

Foi desenvolvida ainda uma proposta de uso e ocupação do solo, tendo em vista reverter o quadro de degradação que atualmente caracteriza não apenas o Parque D. Pedro II, mas toda a interface do entorno imediato e o bairro do Brás. O plano é baseado, fundamentalmente, na proposta de reocupação do Brás como área predominantemente residencial, considerando a disponibilidade de infra-estrutura, a recuperação do Parque e a necessidade de reciclagem/substituição de grande parte dos edifícios do bairro, que estão desocupados ou em mau estado de conservação. Além disso, a proposta inclui a instalação de comércio e serviços de apoio em edifícios do entorno imediato do Parque, como infra-estrutura para alimentação e estacionamentos subterrâneos para veículos. Também foi prevista a ocupação de alguns edifícios para uso institucional, que abrigariam órgãos públicos, centros de educação, cultura e de desenvolvimento tecnológico.

Proposta de restruturação do Parque D. Pedro II

O projeto de recuperação do Parque D. Pedro propriamente dito teve por principais objetivos a conexão entre o Centro da cidade e o bairro do Brás, a articulação dos edifícios existentes no Parque, a otimização dos recursos naturais disponíveis e a instalação do Centro de Referência em Sustentabilidade Ambiental Urbana.

Partiu-se, inicialmente, da estruturação do Parque em três eixos principais, que concentram referências históricas, visuais, ambientais e sociais:

• O eixo do rio Tamanduateí que, além de marcar visualmente o fluxo das águas do rio, de pessoas e de veículos, corresponde a uma área de aceleração dos ventos dominantes em São Paulo (sul-sudeste). Foi denominado Eixo de Energia, devido ao potencial eólico existente ao longo de sua extensão;

• O eixo da Avenida Rangel Pestana, antiga Estrada do Brás, que une, histórica e visualmente a Praça da Sé, o Parque D. Pedro II e o Brás. Atualmente este eixo entrecorta visualmente a Catedral da Sé e o Largo da Concórdia;

• O eixo Rua do Gasômetro-Espigão da Rua General Carneiro, também de importância histórica para a configuração do Centro antigo e do bairro do Brás, estabelece relações visuais importantes para quem se dirige do largo da Concórdia em direção à área central, abrindo-se para o grande panorama de edifícios altos, onde se destaca a sede do Banespa.

Os eixos da Rangel Pestana e do Gasômetro desempenham ainda papel fundamental no fluxo das águas pluviais, pois é principalmente através deles que as mesmas fluem da colina do Centro para a várzea, através das calhas viárias da Avenida Rangel Pestana e da Rua General Carneiro. Esse fluxo é um condicionante muito importante na reestruturação do Parque, pois nele essas águas precisam ser administradas e, sendo assim, esses eixos foram intitulados Eixos de Águas.

A articulação dos eixos de águas com o eixo de energia foi traduzida no projeto de duas praças elevadas em relação ao nível do parque, das quais partem rampas para pedestres conectando os dois lados do parque e os edifícios presentes no interior do mesmo. Além de funcionar como elemento de estruturação do parque, de conexão de tecidos urbanos e edificações, de travessia do rio, de lazer e de contemplação, cada praça abrigaria sob si um laboratório do Centro de Referência, no caso, um de Vegetação e outro de Reutilização/Reciclagem de Materiais.

No tocante à otimização dos recursos naturais, adotou-se como premissa de projeto a preservação das paredes-diafragma de canalização do rio, que foram aproveitadas para conter um dos lados do túnel projetado para a via expressa da Avenida do Estado. Para gerenciar a água das chuvas provenientes dos eixos das águas e da drenagem do Parque, armazenando-a e disponibilizando-a para irrigação e manutenção do próprio Parque, foram projetadas lagoas de águas pluviais, separadas do rio pelas paredes diafragma que, além das funções citadas, aumentam o espelho d’água, contribuindo para o micro-clima da região e para a própria composição paisagística local.

Considerando ainda o eixo do rio, foram projetadas estruturas urbanas baseadas em soluções de baixo impacto ambiental, integradas aos trechos de descida e subida dos túneis da Avenida do Estado, responsáveis pela transição visual, física e luminosa entre os meios interno e externo e pelo conforto ambiental do interior dos túneis. Essas estruturas são compostas por dois grupos de componentes funcionais: um formado por painéis fotovoltaicos e lâminas de vidro, responsáveis pela captação de energia solar e iluminação difusa do interior do túnel; outro, composto por uma caixa de exaustão do ar do túnel coberta por vegetação tipo forração, destinados a promover a troca de ar desse trecho do túnel, bem como sua despoluição e resfriamento. A energia captada seria destinada, preferencialmente, à iluminação dos trechos subterrâneos dos túneis, bem como à iluminação noturna da Avenida do Estado.

Foi proposta ainda a instalação de seis turbinas eólicas no Parque D. Pedro com 600kW de potência nominal, responsáveis pela geração de 455MWh de potência em média por mês. Esse conjunto eólico se expandiria, ainda, ao longo do eixo do Tamanduateí, em direção ao rio Tietê e ao ABC, disponibilizando um parque eólico para a Metrópole de São Paulo.

Em se tratando da cidade subterrânea, o projeto inclui galerias técnicas sob as ruas circundantes ao Parque, e sob o Parque D. Pedro II, no trecho compreendido entre as duas praças propostas. Essas galerias técnicas seriam construídas aproveitando, de um lado, uma das paredes do túnel proposto e reuniriam instalações de energia elétrica, telecomunicações, redes de água potável, água pluvial e esgoto, bem como captadores pneumáticos de resíduos sólidos. Futuramente, esse sistema de galerias seria estendido ainda por todo o eixo do Tamanduateí, comportando, inclusive, os coletores-troncos de esgoto previstos na segunda etapa do Projeto Tietê.

A proposta de criação de um Centro de Referência em Sustentabilidade Ambiental Urbana para a Metrópole de São Paulo insere-se na tendência global de revisão da estrutura física e gestão nas chamadas megacidades, dentre as quais São Paulo destaca-se na quarta posição. Nesse processo, evidencia-se a necessidade de desenvolver e implementar soluções que aumentem a eficiência dos recursos disponíveis, abram possibilidades para utilização de tecnologias baseadas no emprego das energias renováveis e revertam o quadro de degradação ambiental característico desses centros urbanos, restaurando-os como importantes irradiadores de qualidade de vida.

Para viabilizar essas medidas são necessárias, entretanto, intervenções nas próprias estruturas urbanas, sobretudo nas áreas degradadas, com o objetivo de requalificá-las para as novas funções e isso implica na revisão das diretrizes adotadas nos projetos de arquitetura, urbanismo e nos instrumentos de gestão de modo geral, pois, através das decisões neles tomadas, incluindo as soluções tecnológicas empregadas, é que será determinada a forma de apropriação dos recursos naturais e energéticos e sua interação com o ambiente construído.

Diante da complexidade desse quadro na Metrópole de São Paulo, e da deficiência na articulação das esferas pública e privada e na participação social, propõe-se neste trabalho a criação de uma instituição responsável pelo desenvolvimento tecnológico, pesquisa e assessoria em projetos de arquitetura, urbanismo e planejamento urbano. Esse organismo, intitulado Centro de Referência em Sustentabilidade Ambiental Urbana, teria por principais funções promover o emprego de soluções de baixo impacto ambiental e social na região metropolitana, bem como desenvolver trabalhos de educação junto à população, garantindo a gestão adequada das soluções propostas.

Quando se propõe implantar o Centro de Referência em Sustentabilidade Ambiental Urbana, além de conceber instalações com formas arrojadas e consistentes com a filosofia de preservação do meio ambiente, era conveniente sua instalação em uma área degradada, o Parque D. Pedro II, com o objetivo de catalisar imediatamente toda a reestruturação urbanística, ambiental e social da uma região. Cria-se, portanto, um modelo real e abrangente para credibilidade e multiplicação de tecnologia associada a comportamento, embasado em resultados mensuráveis e visíveis. É a tese de poder orientar soluções comprovando que se sabe como fazer à luz de um caso real.

Procurou-se, através do projeto de arquitetura e urbanismo, aglutinar experiências, tecnologia disponível e em fase de pesquisa, realizando análises e trazendo propostas que venham contribuir concretamente para projetos de recuperação local e da metrópole como todo, e que respondam às necessidades de uma população tão carente de qualidade ambiental e, portanto, de vida


* Artigo e Trabalho Final de Graduação elaborados por Karin Regina de Castro Marins, arquiteta e urbanista FAU-USP 2000; pós-graduanda em Gestão Ambiental pela USP.

Orientação: Prof. Joana Carla Soares Gonçalves e Prof. Denise Helena Silva Duarte, da FAU-USP

Banca Examinadora: Rosa Grena Kliass e Reginaldo Luis Nunes Ronconi


  Urbanismo Nacional  
Intervenção Corrosiva

"É verdade que, sendo a realidade irracional, racionalizando-a podemos mudá-la. Mas, é também verdade que mudamos segundo um esquema reformista e não um esquema revolucionário"

Regina Maria Prosperi Meyer


A implantação das grandes infraestruturas viárias, sobretudo as vias expressas elevadas, as conhecidas expressways dos anos 50, introduzidas em áreas consolidadas das cidades, têm sido objeto de análises cujo ponto de partida não é propriamente a sua contribuição para o funcionamento da cidade, mas o seu impacto sobre o tecido urbano no qual se enxertam e se alastram. Projetadas para garantir a permanente ampliação da mobilidade e da acessibilidade urbana, estas vias se tornaram um dos melhoramentos urbanos mais polêmicos e mais reveladores da avaliação das ações que o urbanismo e o desenho urbano contemporâneo produziram em situações intraurbanas na segunda metade do século XX. Sobretudo quando se trata de analisar o papel que as várias escalas de projeto urbano possuem em cidades onde o uso do automóvel particular e o transporte público baseado no ônibus são tão decisivos quanto em São Paulo.

O exame do desempenho urbano destas vias, tendo em vista suas metas iniciais, ao contrário do que se imagina, é mais objetivo quando se observa a desarticulação que provocam no sistema urbano local, isto é, a entropia urbana que geram nos lugares que atravessam, do que as conexões que cria nas grandes escalas. Sendo por definição vias comprometidas com a conexão de pontos distantes da cidade, seu desenho reduz ao mínimo os acessos, isto é, as entradas e saídas, produzindo ao longo de seu trajeto um isolamento em relação ao sistema viário local que busca sobrepor e, de certa forma, até mesmo anular.

A impositiva "eliminação dos limites físicos", essência do próprio fenômeno metropolitano, conduziu o aparato técnico e construtivo associado à mobilidade urbana, sobretudo as vias expressas (expressways), a que passaram a ser avaliadas apenas através do cálculo quantitativo do benefício que a nova obra deveria trazer para o sistema viário saturado. A ausência de uma análise mais cuidadosa do seu impacto sobre o tecido urbano existente traduz o conceito de cidade que conduziu durante décadas estes projetos viários. Hoje, talvez como reflexo desta postura, uma das proposições mais importantes do urbanismo contemporâneo está diretamente associada a esta questão. As avaliações feitas nas últimas décadas pelos urbanistas do encaminhamento teórico e do desempenho prático do desenho urbano funcionalista têm como base, dentre outras, a premissa de que o bom projeto de intervenção urbana é aquele que atende sua finalidade criando a menor quantidade possível de espaços residuais. Não se trata, obviamente, de uma visão contextualista ingênua, mas de avaliar a efetiva capacidade de criar soluções urbanísticas e projetos de desenho urbano menos corrosivos para a cidade existente.

Os problemas de circulação e tráfego da cidade de São Paulo nos anos 60 e 70, e de certa forma, da solução viária introduzida com a construção da Radial Leste e um de seus desdobramentos mais importantes - o Elevado Costa e Silva, o familiar Minhocão - ficam mais claros se retomamos alguns aspectos históricos da evolução urbana de São Paulo. Na análise do funcionamento da cidade, produzida pelos engenheiros Francisco Prestes Maia e João Florence de Ulhôa Cintra, durante a gestão do prefeito Pires do Rio (1926/1930), foram formulados os fundamentos e os modelos que deveriam conduzir a estruturação e a expansão da cidade. Em diversos artigos publicados na Revista de Engenharia e, posteriormente, consolidados no "Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo", é exposta a tese de estruturar a cidade através da conjugação de ligações radiais e perimetrais, responsáveis pela relação do Centro com os bairros paulistanos. A entrada em cena das diametrais, que explicam o Elevado Costa Silva, pertence a um momento posterior.

Desde a década de 20 é reconhecida a deficiente ligação entre os quadrantes leste e oeste da cidade. A Nova São João, embora seja uma das radiais presentes no esquema teórico de Ulhôa Cintra, deveria responder a parte desta deficiência ao relacionar o Centro aos bairros a oeste. A ligação mais completa e extensa, isto é, do parque D. Pedro II, espaço que demarca a chegada e saída do quadrante leste com o Centro, com o quadrante oeste, se realizaria através de um túnel que nasceria junto da encosta sul do parque D. Pedro II e atravessaria o Centro, na altura da Ladeira General Carneiro – seria o Túnel São João. O alcance da proposta era grande e sua realização compatível com os padrões técnicos do período. Entretanto, embora não exista registro de nenhum problema de ordem técnica, a ligação não foi realizada. A Avenida São João permaneceu na sua função "simplificada" de avenida radial, elemento indispensável para a realização do esquema teórico centrípeto proposto por Prestes Maia para a cidade de São Paulo. Ela adquiriu sua forma atual na década de 20, durante a gestão do prefeito Pires do Rio, quando foi projetado seu alargamento desde o trecho que nasce na Rua São Bento até a rua Timbiras. Sem a função mais abrangente que seria cumprida com a construção do Túnel São João, restou a proposição de criar uma saída do Centro para os bairros situados a oeste da cidade com a função urbana idêntica à da Avenida Nova Anhangabaú (hoje Avenida Nove de Julho), que deveria articular o Centro aos bairros situados no quadrante sul e sudeste.

A construção do Elevado Costa e Silva respondeu quase quatro décadas mais tarde às questões de funcionamento urbano que desde a década de 20 os engenheiros Ulhôa Cintra e Prestes Maia haviam assinalado nos seus estudos e planos. Funcionando de forma conjugada com a Radial Leste, o Elevado criou, no início dos anos 70, a segunda grande ligação diametral de São Paulo, pois até aquele momento tínhamos apenas a grande ligação norte/sul.

Além desta articulação diametral ampla, havia a própria relação dos bairros situados a oeste - Santa Cecília, Vila Buarque, Água Branca, Barra Funda, Sumaré, Pompéia, Pacaembu e Lapa - com o Centro. Este conjunto de bairros, alguns se confundindo com o próprio Centro, como é o caso de Vila Buarque e Bom Retiro, e outros com um perfil mais industrial como é o caso da Lapa, intrinsecamente associados ao desenvolvimento urbano ditado pelas estações ferroviárias, foi sempre visto pelos urbanistas como grandes áreas propícias para o crescimento urbano a partir do Centro. A proliferação e crescimento dos bairros suburbanos e das "vilas" – Matilde, Guilhermina, Esperança, dentre outras –, assim como o desmembramento e crescimento dos municípios que formariam mais tarde a metrópole, onde Osasco se sobressairia pelo grande crescimento industrial, deixavam claro que a expansão da mancha urbana era efetivamente ilimitada e veloz. Assim, enquanto se implantavam as obras viárias desenhadas no início dos anos 30 pelo "Plano de Avenidas", iniciava-se com grande impacto, nos anos 60, um novo ciclo de transformações. O projeto da Segunda Perimetral, fundamental para o esquema proposto por Prestes Maia, descartado pelo prefeito Adhemar de Barros em 1957 e depois parcialmente recuperado pelo próprio Prestes Maia quando ocupa pela segunda vez o cargo de prefeito (1961/1965), tornara-se fundamental para criar as ligações complementares da "Avenida de Irradiação".

Em 1962 foi aprovado o projeto de abertura da via expressa denominada Radial Leste, ligando a avenida Alcântara Machado à rua Amaral Gurgel. É sobre este trecho que o futuro Elevado Costa e Silva funcionaria a partir de 71. O prefeito Faria Lima, que assumiu o cargo em 1965, concentrou seus esforços na aceleração das obras da Radial Leste, obra de grande importância para as ligações metropolitanas. Mas, foi na gestão do prefeito biônico Paulo Maluf (1969/ 1971) que são iniciadas as obras da Via Elevada Presidente Costa e Silva, criando um dos mais importantes marcos do rodoviarismo urbano em São Paulo.

Hoje, passadas três décadas e transcorrido um expressivo percurso urbano, o principal traço do Elevado é a relação que se estabeleceu entre o seu desempenho viário e a decadência de áreas urbanas adjacentes. Não vou aqui analisar o processo de crescimento metropolitano paulistano. Nos interessa apenas sublinhar, como já foi dito acima, que existe relação dinâmica e direta entre o crescimento dessa mancha e a destruição dos espaços centrais, sobretudo a partir da década de 70. Como um bumerangue lançado de dentro para fora, isto é, do Centro para os bairros, a estruturação viária rebateu-se de volta sobre o Centro, exigindo novas posturas e novas escalas de intervenção.

Numa longa lista de modelos inspiradores deste sistema, isto é, a via expressa elevada, vindos quase todos de cidades americanas, o mais conhecido é, sem dúvida, a Central Artery construída em Boston nos anos 50. Distinguindo-se do nosso Elevado Costa Silva pela sua extensão e por parte de sua implantação, a Central Artery foi concebida nos anos 50 como um elemento articulador de áreas distantes e o centro de Boston possibilitando a circulação diária de 60 mil veículos. Inaugurada em 1958 a nova via atravessou a área central e foi o principal fomentador de uma polêmica política de revitalização de bairros centrais deteriorados.

De promessa de desenvolvimento para a cidade e seus arredores, o desenho e a implantação da via elevada de Boston se tornou em poucos anos um claro problema e um obstáculo para um melhor e maior aproveitamento de áreas economicamente vitais, como foi o caso da frente marítima (waterfront) e posteriormente do próprio Centro (downtown). Além destes fatos eminentemente econômicos, registrou-se um contínuo e desgastante conflito entre os implementadores das obras e os órgãos de preservação. Segundo os levantamentos feitos pelos órgãos de preservação a implantação da Central Artery conjugada ao Plano de Renovação provocou a demolição de cerca de 1.282 edifícios classificados como de interesse histórico. Uma campanha de grande eficiência travada entre os responsáveis pelas obras da nova via resultou em interessantes e efetivas experiências de participação comunitária em assuntos de planejamento urbano. Em pouco menos de dez anos cerca de 200 edifícios considerados de interesse histórico foram preservados e, sobretudo, foram reabilitados para novos usos pelo próprio programa de Renovação Urbana.

De acordo com dados divulgados por revistas especializadas esta iniciativa de restauração gerou cerca de 326.700 metros quadrados de espaços destinados a escritórios e habitação nos trechos cortados pela via e criou 9.433 empregos diretos na construção civil. Durante o curto período entre 1978 e 1987 através de campanhas públicas os defensores desta postura, para ganhar mais presença nas decisões tidas apenas como econômicas tentaram mostrar que a preservação não era apenas uma preocupação de ordem estética, mas também um elemento crítico para a economia das cidades.2

Apesar destes avanços, a partir dos anos 70, os princípios que nortearam o projeto dos anos 50 começaram a sofrer críticas severas dos urbanistas, planejadores e comunidade local. As críticas implicavam uma decisão de imensa envergadura: a remoção dos trechos elevados e a organização das áreas que se criavam na superfície. Nos anos 80 com uma carga diária três vezes maior do que o previsto, a proposta é substituir o sistema aéreo de seis pistas por um novo e subterrâneo de 10 pistas. Dada a extensão do projeto que corta inúmeros distritos, o governo da cidade criou um órgão de planejamento distrital que passou a conduzir as avaliações da obra, solicitar projetos e idéias de urbanistas de todo o mundo, acompanhar as demandas e as possibilidades de uso adequado dos espaços aéreos às demandas dos moradores dos distritos que a via subterrânea criaria em seu trajeto.

Este episódio vindo de uma realidade econômica muito distante da nossa, ilustra muitos aspectos comuns de uma longa luta dos urbanistas em torno de questões de projeto urbano relacionadas aos problemas introduzidos pela massificação do uso do automóvel como meio de transporte nas cidades, tratadas de forma unilateral. No caso da Central Artery de Boston houve um aprendizado, que não dispensou uma eficiente e organizada luta da sociedade ao longo de toda metade do século XX, onde as demandas principais foram por maior eficiência no transporte público e ampliação da oferta de moradia. É importante lembrar que o total de moradias demolidas no início do processo, nos anos 50, não foi reconstruído, nos arredores do novo sistema, até os anos 70 e 80.

Para não sucumbir a nenhuma ingenuidade acerca da revisão da obra idealizada nos anos 50, é preciso reiterar que o desenho da Central Artery foi avaliado economicamente ineficiente ao criar uma barreira entre o Centro e áreas de grande potencial imobiliário como é o caso, já mencionado acima, da frente marítima, o waterfront. É necessário ter presente que as questões urbanas dos anos 50 tornaram-se também muito mais complexas e que a nova concepção e que a Central Artery, hoje denominada popularmente Big Dig, já incorporou desafios ainda mais amplos. Um exemplo é a estruturação de um sistema de espaços públicos e uma conexão eficiente com o aeroporto internacional. Trata-se de uma obra estimada em 12 bilhões de dólares, que é o maior investimento do poder público federal numa única cidade em todo o país.

Estes dois exemplos, como já foi dito, enfatizando as indispensáveis e necessárias diferenças que existem entre as duas cidades, indicam alguns caminhos. O pragmatismo que impregnou o urbanismo no momento em que as cidades e metrópoles demonstraram o esgotamento de seu sistema viário propiciou projetos equivocados. A revisão destes equívocos é uma enorme e urgente tarefa deste momento. Lamentar o "mau passo", a obra realizada de maneira pouco elaborada do ponto de vista do urbanismo é inevitável, mas criar novas alternativas é um sinal de vitalidade do pensamento urbanístico.

O apetite de profissionais e estudantes pelas questões urbanísticas introduzidas pela construção do Minhocão, que pode ser medido pelo grande número de projetos e idéias já apresentados em revistas e periódicos é, sem dúvida, um alento. Fica comprovado que os grandes desafios acabam por promover grandes oportunidades de propostas. No entanto, para que estas idéias ganhem a dimensão de um urbanismo verdadeiramente reparador, isto é, um urbanismo capaz de rever seus próprios fracassos, é preciso que estas idéias, muitas vezes grandes e inspiradas, mas ainda pouco substanciais, ganhem a dimensão verdadeiramente técnica que esta revisão teórica e prática exige.

Para iniciar uma reflexão cuidadosa sobre o futuro do Elevado Costa e Silva ou de qualquer outro equipamento viário é preciso reconhecer a necessidade de estabelecer com mais cuidado o plano da mobilidade em São Paulo. Para não introduzir uma variável que de saída nos coloca em situação frágil, deixo de lado qualquer plano que seja tão "global" e holístico que acabe se tornando utópico. Que seja pelo menos sistêmico dentro das possibilidades atuais, isto é, dentro do quadro construído, lembrando, que mobilidade é um princípio e não uma resultante dos processos de desenvolvimento urbano. Com isso quero enfatizar que o sistema viário e o transporte público de massa, de alta capacidade, sobretudo, como é o caso do metrô, são elementos de estruturação e desenvolvimento urbano. As novas formas de distribuição das atividades no território metropolitano obrigam a mobilidade e a acessibilidade a reverem seus princípios, isso é, não se trata apenas de alcançar pontos distantes, mas, sobretudo de cruzar lugares específicos e necessários para o desempenho das funções urbanas do conjunto da população. A rede viária corta e une estes lugares com os quais o projeto deve possuir os mesmos compromissos que possui com os longínquos pontos que articula.

Assim, as propostas que surgem da demolição do Elevado devem ser seriamente consideradas e não poderão repetir um dos equívocos mais graves de sua construção no início dos anos 70: basear-se numa análise setorial e, acima de tudo, excessivamente fragmentada da questão da mobilidade e da acessibilidade em São Paulo. Os programas de obras organizados pelos poderes públicos baseados em procedimentos exclusivamente setoriais, sempre condicionados por uma maior eficiência no deslocamento, impuseram ao território urbano uma lógica que privilegiou a expansão urbana em detrimento dos setores consolidados.

Diante da relação que se estabelece entre o problema – uma circulação urbana deficiente - e a solução introduzida – um sistema viário desobstruído e emancipado dos problemas da trama viária existente - vale lembrar uma excelente observação de Lewis Mumford, que sugere a seguinte leitura: quando no campo do planejamento e do projeto urbano o mal que se propõe enfrentar e o remédio indicado pelos urbanistas não se distinguem mais um do outro, podemos estar certos que nos encontramos diante de um processo urbano virulento e ruinoso.

1. Argan,G.C. "História da arte como história da cidade". Editora Martins Fontes São Paulo 1992

2. Kobayashi, Masami "Historic Preservation" in Boston by Design Process Architecture número 97 agosto de 1991.


  Cultura  
As novas luzes da Luz

Junto com a Sala São Paulo, a Pinacoteca e outros equipamentos, o futuro centro de referência da língua portuguesa vai compor um dos mais animados pólos culturais de São Paulo

Ana Francisca Ponzio


Com mais de um século de existência, a Estação da Luz prepara-se para renascer e tornar-se um dos pontos mais efervescentes da cidade de São Paulo. Segundo Marcos Mendonça, secretário estadual da Cultura, dentro de aproximadamente dois anos estarão concluídas as obras que devem transformar a estação de estilo vitoriano, construída na época da expansão cafeeira, no maior ponto de confluência de metrôs e trens de São Paulo e também num empreendimento cultural inédito no Brasil.

Depois de restaurada, a Estação da Luz não será apenas o cartão-postal vinculado à imagem romântica de sua torre ou à gare que, no passado, abrigou as locomotivas a vapor. Na identidade que assumirá no século XXI, a nova estação conservará a sua aparência tradicional na superfície, mas ganhará em suas entranhas a pulsação high tech das metrópoles contemporâneas. Na parte subterrânea da estação, onde um exército de operários vem escavando e construindo estruturas de concreto armado, futuramente vão circular cerca de 35 mil pessoas por hora, conforme previsões da CPTM, Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.

"Será o maior ponto de encontro de trens e metrô de São Paulo", diz Marcos Mendonça. Em contrapartida, a parte externa da estação será uma espécie de oásis para o cidadão agitado. Alguns níveis acima dos trilhos, o nervosismo da cidade poderá ser neutralizado nos ambientes que vão acolher o centro cultural dedicado à língua portuguesa, único no gênero no Brasil, além de uma área social e de lazer que promete seduzir moradores e visitantes da cidade.

Culturalmente, a nova Estação da Luz vai reforçar a recuperação do Centro paulistano, numa região que já conta com a Sala São Paulo, a Pinacoteca do Estado, a Universidade Livre de Música e o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, instalado no prédio reformado do extinto Dops. "O idioma é o grande fator de identificação e união de nosso povo. Por isso, o Brasil precisa contar com um centro de defesa e propagação da língua portuguesa", diz Mendonça, referindo-se à Estação Luz da Nossa Língua, como deve se chamar a nova instituição cultural. Para o poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer, que preside a União Brasileira de Escritores, "a iniciativa é importantíssima" e pode representar, para o Brasil, o papel que o Instituto Goethe desempenha na difusão da língua alemã.

Além de ser um espaço referencial para o idioma português, o novo centro cultural vai esbanjar glamour, se depender de Paulo Mendes da Rocha, o arquiteto que está desenvolvendo o projeto de restauro do edifício. "O último andar será um lugar de devaneio e descanso, onde um café se abrirá para um terraço, que poderá alojar um belíssimo restaurante, com vistas muito interessantes para a cidade e para o Jardim da Luz", comenta Mendes da Rocha. "O acesso a esse restaurante se dará por meio de um grande elevador, com capacidade para cerca de 80 pessoas, que se locomoverá dentro da torre do relógio, a qual será esvaziada e reforçada internamente. Com isso, será possível locomover-se direto da rua para a cobertura da estação. O objetivo é promover uma transformação interna e manter a fachada intacta, cuja imagem já está consagrada na memória paulistana", acrescenta o arquiteto, garantindo que a reforma não afetará em nada a integridade e o desenho externo do prédio.

Para transformar internamente a Estação da Luz, Mendes da Rocha está estudando, por exemplo, as melhores condições para o fluxo de pessoas dentro do edifício. "Como fazer com que esse local destinado a um comportamento comedido, onde funcionou uma empresa rigorosa, com recintos destinados à burocracia administrativa da ferrovia, possa ser visitado por muita gente, com interesse e alegria?", indaga o arquiteto. "O tamanho do trem e da gare, a verticalidade do edifício, criam problemas específicos", salienta, revelando que para solucioná-los pretende instalar dois grandes elevadores, um em cada extremidade da estação. Ligando esses pólos, uma passagem superior em forma de túnel poderá alojar uma galeria, onde imagens virtuais poderão mostrar a evolução do idioma português. "É uma idéia que remete às escrituras antigas, encontradas em cavernas".

Explorar as possibilidades de tal espaço é tarefa que Mendes da Rocha deixa para especialistas, intelectuais e artistas. "É interessante associar a idéia de língua viva, como instrumento das ações do homem, às conotações que existem nos lugares de embarque ou de tráfego constante", diz o arquiteto, lembrando que a parte inferior do prédio, com seu grande saguão de pé direito triplo, será mantido sem interrupções. "O térreo ficará praticamente intocável, assim como o chão de toda a estação, que vai permanecer íntegro".

Mendes da Rocha observa que nos corações das grandes cidades as estações ferroviárias se instalaram como grandes palácios. "Em todas as capitais do mundo, a estação ferroviária sempre foi muito importante. O trem, representado no passado pela locomotiva a vapor, a caldeira ambulante que os peles-vermelhas americanos chamavam de cavalos de fogo, se compatibilizou com a gentileza do espaço urbano por meio das estações, que representam um patrimônio incomensurável". Para Mendes da Rocha, o "palácio" restaurado da Luz manterá sua harmonia com a Pinacoteca do Estado, que foi recuperada a partir de um projeto de sua autoria.

"Na passagem subterrânea projetada pelo metrô, que une a Pinacoteca à Estação da Luz, existe área suficiente para ser escavada e permitir a construção de um grande auditório. Sob o ponto de vista térmico e acústico, é um local muito favorável para o funcionamento de um teatro", diz o arquiteto, esclarecendo que esta proposta não faz parte de seu atual projeto. "Estou tentando ‘envenenar’ a opinião pública para ver se o governo toma essa iniciativa. Já pensou deparar-se com um teatro durante a travessia em direção à Pinacoteca ou ao centro cultural que vai funcionar na Estação da Luz?".

Assim como Mendes da Rocha, outros profissionais envolvidos na restauração da Estação da Luz também trabalham estimulados pelas novas perspectivas que o lugar traz para o público. "Os freqüentadores ganharão uma nova percepção da língua portuguesa no centro de estudos que vamos instalar. Assim como um planetário, que nos permite perceber o que não víamos no céu, esse centro estimulará uma novo entendimento do nosso idioma", diz Ricardo Piquet, gerente de desenvolvimento institucional da Fundação Roberto Marinho, que é a principal parceira da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo na realização do projeto.

Programas de TV

Por meio de experiências interativas, na Estação Luz da Nossa Língua será possível, por exemplo, conhecer as inúmeras derivações do idioma português, como tangerina, laranja-cravo e mixirica, ou ainda saber que em Portugal alguém quer saborear um bife quando diz que vai comer um prego. No "túnel" interno, projetado por Paulo Mendes da Rocha, a arqueologia da língua será apresentada de forma criativa, por meio de exposições permanentes. "O centro também funcionará como uma área de capacitação para professores e alunos. Toda a rede pública de ensino terá acesso gratuito aos nossos equipamentos, inclusive Internet", diz Piquet. Além de um portal especializado, o centro contará a história do idioma por meio de filmes, vídeos e eventos. O acervo de minisséries e telenovelas da TV Globo, que inclui muitos programas baseados na literatura brasileira, como O Auto da Compadecida, também será doado ao centro, que o colocará à disposição do público como fonte de estudo.

"Trata-se do maior projeto nessa área, dentro da Fundação Roberto Marinho, que está coordenando o projeto e captando recursos", diz Piquet, que já conquistou a parceria de empresas e instituições como IBM, Correios, Telesp Celular, BNDES, Construtora Spenco e Instituto Takano, que contribuirá com material gráfico.

Para colaboradores como Claudio Willer, a Estação Luz da Nossa Língua já pode realizar atividades antes de instalar-se no prédio reformado. "Há muito o que fazer e a Secretaria Estadual da Cultura já concordou com a minha proposta de organizar, desde já, programas sobre a língua portuguesa e a lusofonia". Willer acredita que uma das funções do centro é aproximar os povos de língua portuguesa que, unidos, se fortalecem culturalmente. "O centro que funcionará na Estação da Luz vai preencher o espaço que deveria ter sido ocupado por uma iniciativa federal, o Instituto da Língua Portuguesa criado pelo então presidente Sarney em 1989 e que não foi para a frente". Quanto ao acervo de telenovelas doado pela TV Globo, Willer acha que é válido como memória cultural. "A circulação das telenovelas brasileiras em países de língua portuguesa acabou assumindo função estratégica na consolidação de uma linguagem comum. Tem servido de instrumento para aproximar Portugal do Brasil. E, já na década de 80, os governos de Angola e Moçambique tinham interesse em veicular telenovelas do Brasil porque elas estimulavam o uso da língua portuguesa em regiões que possuem inúmeras línguas tribais."

À parte a importância cultural que vai assumir, o novo "palácio" da Luz reafirmará em São Paulo a magnitude de estações centrais de transportes sobre trilhos, presentes em cidades como Londres, Paris e Nova York. Para celebrar essa conquista, a artista plástica Maria Bonomi está preparando um mural de 70 metros de comprimento e três metros de altura, construído em concreto colorido, que será colocado nos subterrâneos da gare. Intitulado "Epopéia Paulista", o painel discorre sobre os ciclos do café, da indústria e dos serviços, que marcaram a evolução da economia de São Paulo.

Como ponto de encontro das principais vias de acesso à cidade, a Estação da Luz fará com que a vizinha Estação Júlio Prestes assuma novo papel. Em vez de servir ao transporte urbano, como ainda ocorre, deve se transformar em atrativo turístico. Segundo a assessoria de imprensa da CPTM, a Júlio Prestes continuará operando, mas seus trens terão finalidade turística, permitindo aos usuários conhecer, por exemplo, as estações ou cidades históricas de São Paulo.


  Cultura  
Portas reabertas

Restaurada e com 14 torreões que só existiam no projeto, a Catedral reabre para a população e busca recursos para obras finais

Ana Framcisca Ponzio


Quase três anos depois do início das obras, a um custo de R$ 16,7 milhões, a Catedral de São Paulo reabriu suas majestosas portas para mostrar à população os resultados de um criterioso trabalho de restauro – o primeiro desde que foi inaugurada, ainda incompleta, em 1954 — e de complementação do projeto original. Mas os trabalhos continuam. A segunda etapa das obras, que inclui um projeto museológico, não tem data para terminar — falta captar R$ 2,8 milhões para a sua conclusão. Quem for visitar o maior templo católico da cidade verá não só uma igreja mais clara, conjugando luz natural e artificial, entre 40% e 50% mais iluminada, segundo o engenheiro Ronaldo Ritti, da Concrejato, empresa que realizou as obras. Verá também os 14 torrões que o projeto original previa, e que só agora foram construídos. De pronto, a Catedral transformou-se no hit desta primavera, como o demonstra o vaivém de pessoas na sua escadaria principal, na praça da Sé. Ver como ficou a igreja virou uma palavra de ordem para quem gosta de São Paulo.

Décadas a fio de poluição e tráfego pesado nas vizinhanças, mais a vibração do metrô no subsolo, contribuíram para que a edificação se deteriorasse, primeiro de forma imperceptível e, nos últimos anos, a olhos vistos. As obras foram iniciadas em maio de 2000. Na época, decidiu-se que, com o apoio das leis de incentivo e da iniciativa privada, seria mais do que um trabalho de restauro e reforma, e sim de construção, já que a igreja, inaugurada durante as comemorações do IV Centenário de São Paulo, não estava terminada – as duas torres foram concluídas mais tarde. As obras previam desde providências elementares para a conservação do edifício, como a manutenção das redes elétrica e hidráulica, até intervenções emergenciais contra rachaduras e infiltrações que afetavam a estrutura. Recorde-se que a catedral foi interditada pelo Departamento de Controle do Uso de Imóveis, Contru, em 1999, quando um tijolo desprendeu-se e caiu em plena nave. Os trabalhos envolveram todo o templo e compreenderam novos sistemas de luz e som, reparos nos vitrais e recuperação da calçada da praça, entre outros itens, além de ações mais cosméticas, como a lavagem da superfície de granito.

Durante os trabalhos foram encontradas, sob a arquibancada do coro, as plantas originais do arquiteto alemão Maximiliano Hehl. Ocorreram outras descobertas, como carteiras de trabalho dos operários, antigas garrafas de vinho e peças de louça, material que oportunamente será incluído num projeto museológico inspirado nas catedrais européias, que costumam ter um museu que testemunha as etapas da construção. As plantas ofereceram subsídios para que o restauro seguisse padrões internacionais, que recomendam ter por base o projeto original. Até que o acaso ajudasse, as plantas foram procuradas, em vão, em arquivos e junto a famílias de profissionais que atuaram na construção. Elas permitiram que os 14 torreões do projeto original fossem finalmente erguidos. Não foi uma tarefa fácil, já que a estrutura poderia não suportar o peso. Segundo Ritti, após pesquisas para definir um material mais leve, chegou-se ao aço e ao GRC (glass reinforced concrete), uma argamassa com fibra de vidro, 50% menos pesada que o cimento. As peças foram moldadas e encaixadas nos lugares determinados.

Eternidade

A catedral começou a ser erguida em 1912, na parte superior da praça, bem acima do local onde se situava a primeira igreja matriz, demolida no ano anterior. São Paulo já contava com mais de 400 mil habitantes. Em 20 anos, ela teria a população triplicada. Um templo das gigantescas proporções da Sé passaria a fazer ainda mais sentido na metrópole que se prefigurava. E seria uma obra a durar muito tempo. Construir catedrais é uma dimensão da eternidade. A catedral de Milão, com suas agulhas góticas, foi iniciada no século XIV e concluída meio milênio depois. E quem vai a Barcelona inclui no roteiro uma visita ao canteiro de obras do Templo da Sagrada Família, que o arquiteto catalão Antoni Gaudi i Cornet assumiu em 1884 e ainda hoje está inconcluso. Sem contar que, de tão morosos, alguns projetos assumem a condição de non finito. As torres da catedral de Nôtre-Dame, em Paris, incluiriam agulhas que nunca foram feitas e, pode-se dizer, jamais o serão.

Quem visitar a Catedral de São Paulo encontrará, sob a entrada principal, um vitral guardado há quase meio século e agora colocado no lugar. Verá também novas portas de jacarandá, pesando 2,6 toneladas; vitrais limpos da poluição e restaurados; mosaicos retratando São Paulo e Santa Ana feito novos; a Cripta – pouco conhecida, para muitos é uma descoberta – com os túmulos do cacique Tibiriçá e do regente padre Diogo Antônio Feijó. Do piso às torres, incluindo imagens e móveis, tudo foi restaurado. Com alguma sorte, o visitante ouvirá o órgão de 12 mil tubos ou (bem mais fácil) o carrilhão de 61 sinos, ambos entre os maiores do mundo. De qualquer maneira, pisará os degraus de uma escadaria e o pavimento de um interior que há muito são história pura. Na escadaria, em meados dos anos 80, defendeu-se, diante de centenas de milhares de pessoas, as eleições diretas para presidente e no interior, em 31 de outubro de 1975, o arcebispo dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel celebraram um culto em memória do jornalista Wladimir Herzog, morto nos porões da ditadura militar.

Projeto museológico? Nada mais apropriado para o que é uma igreja. E, claro, para o que é um museu, diz o cardeal dom Cláudio Hummes, arcebispo metropolitano. "A catedral já não é mais unicamente um templo católico. É um monumento artístico erguido onde a cidade começou."


  Mix - Artes e Espetáculos  
Presentes de Natal


A última apresentação do ano da Osesp será o Loebgesang, Op. 52, de Mendelssohn, nos dias 19 (quinta-feira, às 21h) e 21 de dezembro (sábado, às 16h30), com o tenor Fernando Portari, filho e aluno de Pedro Portari. Sob a regência de Roberto Minczuk, o oratório terá acompanhamento do Coro da Osesp, preparado pela maestrina Naomi Munakata. A orquestra encerra a temporada em alto estilo. Vem de sua primeira turnê ao exterior, mais exatamente aos EUA, onde em Nova York a platéia do Avery Fisher Hall-Lincoln Center pediu bis e fez o maestro John Neschling voltar ao palco por cinco vezes sob intensos aplausos. No jornal The New York Times, o crítico Allan Kozinn desmanchou-se em elogios: "O maestro John Neschling assumiu a orquestra em 97 para torná-la internacionalmente competitiva... Na 2ͺ Sinfonia de Brahms, única obra do programa que permitia uma comparação internacional, a qualidade sonora e o nível de energia demonstrados foram extremamente altos".

Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz, distante 500 metros. Quintas-feiras, às 21h, e sábados, às 16h30. Ingressos R$ 10 a R$ 30. Estacionamento interno (R$ 5).

Especial para crianças


Grande sucesso da temporada lírica 2002 do Teatro Municipal, a montagem da ópera João e Maria, de Engelbert Humperdinck, reestréia em 13 de dezembro, às 20h30, seguida de mais quatro récitas: dia 15, às 17h; 17, às 20h30; e 18 e 21, às 18h. Inspirada no clássico dos irmãos Grimm, a ópera narra sobre dois irmãos raptados por uma bruxa. Quando optou por essa obra, o maestro Jamil Maluf, diretor artístico da Orquestra Experimental de Repertório, decidiu direcioná-la ao público infanto-juvenil. Como na estréia em junho deste ano, João e Maria volta a ser encenada em português, com tradução de Dante Pignatari e do próprio maestro. Além disso, incorpora recursos do teatro-negro, executados pelo grupo Cia. Imago de Animação. Estes recursos possibilitam que a bruxa saia voando e que a floresta ganhe vida própria. A direção cênica é de Flávio de Souza, conhecido por seus trabalhos voltados para crianças. Os cenários e figurinos são de Fernando Anhê e as coreografias, de Ana Soares. No elenco, além de alguns dos mais talentosos cantores líricos brasileiros, há a participação do Coro Infanto-Juvenil da Escola Municipal de Música, sob regência de Mara Campos, e bailarinos da Escola Municipal de Bailado.

Teatro Municipal – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Tel. 228-8968. Metrô Anhangabaú/Saída Xavier de Toledo. Ingressos de R$ 10 a R$ 40. Sem estacionamento.

Modernismo em pauta


Uma das coleções particulares mais valiosas do país em matéria de arte brasileira – a Coleção Fadel, reunida pelo casal Hecilda e Sérgio Fadel – ocupa os cinco andares do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP) até 12 de janeiro. No CCBB do Rio de Janeiro, a mesma mostra, intitulada "Arte Brasileira na Coleção Fadel – da inquietação do moderno à autonomia da linguagem", bateu recorde de público em seu gênero, sendo visitada por 246 mil pessoas. O curador Paulo Herkenhoff explica que, ao selecionar as peças para a mostra, entre as cerca de 1.600 da coleção, visou aos processos de criação da arte moderna no Brasil, com a preocupação de resgatar artistas modernos habitualmente marginalizados da nossa historiografia, como é o caso das experimentações de Belmiro de Almeida. Em São Paulo, a exposição foi segmentada em nove módulos que vão do processo de busca e consolidação da modernidade no Brasil, desde as primeiras inquietações surgidas ainda no século XIX, até o período pós-moderno, definido como o momento de ruptura, nos anos 60, com Mário Pedrosa. Há desde obras de Guignard e Di Cavalcanti a Tarsila do Amaral, passando por Ismael Nery, Osvaldo Goeldi, Cícero Dias, Djanira e Hélio Oiticica, entre muitos outros.

Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Álvares Penteado, 112. Tel. 3113-3651 ou 3113-3652. Metrô Sé ou São Bento. Terça a domingo das 12h às 20h. Ingressos de R$ 3 a R$15,00. Estacionamento e transporte por van, de terça a domingo, a partir das 11h50, com saída do estacionamento conveniado da Rua da Consolação, 228 (Ed. Zarvos) e ponto final no Hotel Othon (R. Líbero Badaró, 190), com retornos periódicos. O preço do estacionamento é de R$ 7 por até 3 horas de permanência e o transporte de van é gratuito com patrocínio do Seguro Ouro Auto.

Maternidade em Círculos, de Belmiro de Almeida (1858-1935)

Dos tempos de D. João


O grupo Américantiga Coro e Orquestra de Câmara, de Curitiba, está prometendo um CD especial para a temporada de 2003. Sucesso de público em meados de outubro, por ocasião do lançamento da coleção "Música no Brasil – Séculos XVIII e XIX", na Basílica do Mosteiro de São Bento, no Centro de São Paulo, o grupo se prepara para lançar uma seleção de peças extraídas na coleção. A ser gravado nos estúdios da Rádio Cultura FM, o CD deverá condensar uma boa mostra do conteúdo da obra de seis volumes que, editada pela Funarte, reúne partituras inéditas de música sacra e profana. São peças de compositores como o brasileiro Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), o português Marcos Portugal (1762-1830) e também de músicos estrangeiros que atuaram no Brasil, principalmente na corte de D. João VI no Rio de Janeiro, caso do austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858). A publicação pontual, na medida em que são cada vez mais raras no país as edições de partituras musicais. "Para nós, é sobretudo importante porque poderemos divulgar nossa arte no exterior", diz o regente do Américantiga, Ricardo Bernardes, que assina a direção musical da coleção, fruto de extensiva pesquisa empreendida por ele em todo o Brasil e também na Europa.

Para adquirir a coleção basta contatar a Funarte pelo site www.lojafunarte.com.br ou pelo tel. (21) 2279-8035, ou, ainda, a Américantiga Produções, tel. (11) 6975-4242.



  Mix - Livros  
Três arquitetos


Arquitetura Nova, nome pelo qual se conhece a experiência em habitação popular liderada por três jovens arquitetos — Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre e Flávio Império, este o grande cenógrafo falecido em 1985 — nos anos 60, é o título da obra em que o arquiteto Pedro Fiori Arantes estuda um período de forte radicalização política em seu meio acadêmico e profissional. Surgido do (ou inspirado no) pensamento de Vilanova Artigas, o ideário dos três tomou rumo próprio e, à época do golpe de 1964, confluía numa concepção dialética de desenho e canteiro, ou, como ressalta a apresentação do professor Jorge Oseki, na idéia do canteiro não mais como mediação com vistas a um mundo feliz, mas como a própria felicidade imediata, o embrião de uma sociedade de pensadores e produtores de espaços. O regime militar levou os arquitetos a trocar a militância político-profissional pela ação armada (Sérgio e Rodrigo) e pela radicalização da experiência sensorial e mística (Flávio.) Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre (Editora 34, 256 páginas, R$ 27) avança até os mutirões dos dias atuais e contribui para um questionamento das ambigüidades ideológicas e dilemas da arquitetura e do trabalho do arquiteto no Brasil.

Rumos de São Paulo


Desenvolvida e enriquecida posteriormente, a tese de doutorado do arquiteto Candido Malta Campos resultou num dos mais importantes lançamentos do ano, e não só em sua área específica: Os Rumos da Cidade – Urbanismo e Modernização em São Paulo (Editora Senac São Paulo, 660 páginas, R$ 80). Trata-se de um amplo painel histórico da gestão, do (quando houve) planejamento, da sociedade e da cultura urbana da cidade entre a nascente República e os anos 40. Indispensável.

Fotógrafos brasileiros


O Brasil é um dos pioneiros mundiais da fotografia. O daguerreótipo já eternizava imagens do Rio um ano após sua divulgação na França, em 1839, por Louis Daguerre. O imperador D. Pedro II foi um dos primeiros diletantes da câmera. No entanto, à parte alguns nomes ilustres, pouco ou nada se sabe de centenas de profissionais que, desde meados do século XIX, registraram o cotidiano e as efemérides das famílias, das ruas e dos lugarejos brasileiros e eventos como secas, inundações, conflitos e movimentos demográficos. O recém-lançado Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro (Instituto Moreira Salles, 408 páginas, R$ 78), do professor da FEA-USP e pesquisador Boris Kossoy, revela o universo desses anônimos e famosos em cerca de 900 verbetes e numerosas reproduções. Kossoy, aliás, provou cabalmente que a fotografia em papel sensibilizado por sais de prata e cloreto de ouro foi inventada em Campinas, pelo francês Hercule Florence, sete anos antes do experimento de Daguerre em chapas metálicas.

A cidade em imagens


São Paulo é imponente, humana e acessível, mesmo íntima, na lente do fotógrafo e pesquisador Eduardo Castanho, que acaba de lançar São Paulo: Cores e Sentimentos (Escrituras Editora, 96 páginas, R$ 28,90), uma coletânea de 80 deslumbrantes fotografias da cidade e de alguns pontos do Estado. A obra faz parte da coleção Cores e Sentimentos, dedicada a quem deseja conhecer o Brasil pela imagem.

Brasil fenício


Uma viagem a milênios atrás, para recuperar a origem do nome Brasil, que de 1351 a 1508 teve múltiplas variações, entre elas Brazi, Bracir, Brasiae, Brasil, Bersiii, Braxil e Bresilge. A aventura leva à Fenícia de 1500 A.C. e à Grécia de Sólon, avô de Platão, pelas mãos do geógrafo João A. Prudêncio da Costa, no livro Purpúreo: as Histórias do Nome do Brasil (Edição do autor, 62 páginas, gratuito por Internet, pedidos por e-mail: joaocosta@ambiterra.com.br ou no site www.cervantesvirtual.com/FichaObra.html/Ref=8938. O nome Brasil, segundo Costa, não teria se originado do pau-vermelho de cor de fogo (pau-brasil), mas do vermelho púrpura (Braxyilli) das tinturarias de Tyro, uma das antigas capitais da Fenícia. Gregos, egípcios e romanos se encarregaram de disseminar a cor púrpura como símbolo de status e de sensualidade, e que acabou denominando a terra colonizada pelos portugueses no século XVI.



  Mix - Mesa  
Uma grande descoberta

Na discreta Galeria Normanda,à sombra do Copan, o Bar do Museu agrada há mais de 50 anos

João Podanovsky


Obrigado, Jesus!

Antes que o leitor devoto torça o nariz, vá logo a explicação. O crédito por este achado extraordinário cabe a Jesus Carlos, da Imagenlatina, cujas fotos (tantas dignas de troféus) enriquecem as páginas desta revista. Dele a dica: "Tem um restaurante na Avenida São Luís, ótimo, nunca ninguém falou dele" e tal e coisa, vaga idéia da localização. Lugar novo? "Não, antigo." Será possível? Não custa investigar. Pergunta aqui, consulta lá, ninguém sabe. Afinal, a agradável surpresa: recatadamente anichado numa sobreloja da Galeria Normanda, o Bar do Museu. Tem só (só?!) 54 anos.

Nome oficial, Bar da AAMAM (Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna). Nasceu anexo ao museu, este criado na Rua Sete de Abril, em 1948, por Ciccilo Matarazzo. Em 1968 o MAM migrou para o Ibirapuera. O bar foi junto. Não emplacou: fora de mão. A Associação vagou então por alguns anos de bar em bar, até comprar sede própria na São Luís. Neste endereço, desde 1° de junho de 1978.

Na porta a placa: "Privativo dos Sócios".

Pode entrar. Pode até emocionar-se: nessas mesas já pousaram cotovelos ilustres — Vinicius, Rubem Braga, Sílvio Caldas, Ligia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz, Drummond —; nelas praticamente nasceram a Vera Cruz, o TBC, a Cinemateca. Até hoje é a igrejinha secreta de intelectuais e empresários, que mergulham em longas elucubrações artístico-político-econômicas, em sólidas e líqüidas sessões etíl-gastronômicas.

Espaço gostosamente irregular, 28 lugares na sala de refeições, outros 30 espalhados pelo bar em L e pelo deck (varanda suspensa sobre a galeria). Bom gosto na decoração (quadros, gravuras, objetos), no mobiliário, na iluminação discreta. Conforto de assentos macios.

Amabilidade e informalidade no atendimento dos três garçons antigos (o baiano João, o pernambucano Cláudio, Elias potiguar), apoiados pela própria presidente da entidade, Clarice Berto, loura simpatia, atenta onipresença.

Satisfação pelo aperitivo grátis à entrada (cachaças mineiras), pelo caldinho revigorante, pelo guardanapo de pano, pelo pão italiano (Basilicata!), pela bela coleção de pimentas da Clarice, pelo capricho feminino em cada detalhe, pela limpeza explícita.

Prazer proporcionado pela comida preciosamente caseira saída das mãos de duas fadas: a piauiense Deuzinha, a pernambucana Lurdinha. Os pratos do dia mudam toda semana. Não há cardápio escrito para os à la carte. Sugestões tentadoras: pastéis com arroz-feijão, verdura refogada e panachê; carne-seca desfiada acebolada com quibebe e couve à mineira; cumbuca de polvo à espanhola com frutos do mar, coradas e cebola à milanesa. Longa lista gulosa, porções para dois. Além dos doces em calda ou de tacho, frutas frescas e os banais sorvetes.

Findo o almoço, bar aberto até meia-noite, esticada happy-hour. Esconderijo sossegado em pleno Centro formigante para papos tranqüilos tarde ou noite afora. Segunda-feira, das 19h em diante, cantor e cantora (ex-Paddock) se revezam, abraçados ao amigo violão.

Recado final gorjeado pela Clarice: espaço à disposição, grátis, mesmo para não sócios, para lançamentos, exposições, encontros etc. "Nosso objetivo não é o lucro: é a cultura."

Bar do Museu
3259-0157 ou 4935. Av. São Luís, 130-140, galeria ou passagem Vila Normanda, última portaria à esquerda, elevador, botão SL, sobreloja. Acesso também pela ruazinha particular que sai da Av. Ipiranga entre o Copan (Bradesco) e o Edifício Itália. Metrô República. De segunda a sábado, das 12h à meia-noite. Almoço: 12h-15h30. Preços meigos. Só bufê (quente-frio, verduras sem agrotóxicos, massas às quintas): $7. Bufê mais prato do dia : $14. Pratos variados à la carte: $10 a $21 (camarão, bacalhau, polvo). Caipirinha: $2. Cerveja grande: $2,50. Teacher’s: $3. Scotch: $7. Cartão Visa.


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Pinheiro Neto Bank Boston
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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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