ANO V   -   No. 28   -   outubro / novembro 2002
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Patriarca, exemplo de proposta inovadora
Reportagem  Promessa: começam já as obras do masp centro
Patriarca reinaugurada
No Caminho Certo: Ações para dinamizar o turismo em São Paulo ainda carecem de coordenação, mas significam um avanço
Carros no Subsolo: Vitais para o Centro,garagens subterrâneas podem sair das pranchetas – com um atraso de décadas
Rebatizado, o fura-fila agora sai
A difícil equação de tombar e preservar
Urbanismo Nacional  Articular o território metropolitano a partir de sua fragmentação:A orla ferroviária
Urbanismo Internacional  Monumentos, políticas e economias da América do Sul
Entrevista  O Choque da Modernização, com o Reitor da Universidade de São Paulo, o professor e administrador Jacques Markovitch.
Mosaico  Leilão deflagra projeto de restauro na Maria Antônia
Jesuítas criam centro de formação e debate no Pátio do Colégio
Nova direção na Faculdade de Direito e centenário do XI de Agosto
Filosofia de São Bento antenada com o presente
Exxon Mobil instala escritório no Centro
São Paulo vai sediar evento mundial contra a pobreza
Cultura  Sapatilha Aafinada: Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo prepara-se para comemorar 35 anos em 2003
Finíssima Arte: Centro Cultural Banco do Brasil exibe em São Paulo as gravuras do genial Rembrandt
Em Têmpera, Mosaico e Vidro
Mix Artes e Espetáculos  Iluminados
Pilar da história
Fecho de ouro
Missão de vida
Fama internacional
Falando de amor
Mix Livros  Curvas assassinas
Radiografia da exclusão
Verde que te quero verde
Nomes que recontam a história
Corcéis legendários
Mix Mesa  Efigênia: Sob as vigas metálicas do viaduto e ao pé do Mosteiro de São Bento, cozinha e ambiente fazem sucesso
Mix - Achados no Centro  Tipo exportação
Peças de coleção
Cutelaria & Cia
Pecado capital
Notas  Aos poucos, a Roosevelt recupera-se
BID discute o Centro com Prefeitura e VIVA O CENTRO
VIVA O CENTRO E SAS em parceria pelos moradores de rua
VIVA O CENTRO e Ação Local na homenagem aos bombeiros
Ranking do "Cidadão de Carteirinha"
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  Caro Leitor  
Esta urbs aborda alguns assuntos que só esporadicamente freqüentam as páginas da imprensa. Lembra-se das garagens subterrâneas, cuja escassez, aqui, torna São Paulo talvez uma das poucas metrópoles a não seguir a tendência mundial de transferir para o subsolo o estacionamento de veículos em suas áreas centrais?Das obras definitivas do Masp Centro? Da interminável novela do Fura-Fila? Esta edição quer atualizar o debate, ou pelo menos recordar que a cidade está muito atrasada em serviços e equipamentos que são corriqueiros não só em suas congêneres do chamado Primeiro Mundo, mas até em algumas vizinhas, como Buenos Aires. É o caso das garagens e do Fura-Fila, este não por ausência, mas presença. Explique-se: em vez do controvertido e algo primitivo ônibus bi-articulado que recebeu esse nome de fantasia, com baixa capacidade e destinado a circular no já saturado espaço viário de superfície, deveríamos estar construindo metrô. A reportagem de capa trata da recente decisão da Prefeitura de iniciar o processo de tombamento de mais de uma centena e meia de edifícios, monumentos e praças do Centro. A região, que já tem cerca de 700 imóveis legalmente protegidos, ainda não encontrou a fórmula adequada para preservá-los. Como fará com mais esses que agora se acrescentam? O problema ganha cores mais fortes à leitura do artigo do arquiteto venezuelano Graziano Gasparini sobre a destruição do patrimônio histórico na América Latina, por incúria e/ou falta de recursos. Em contraponto, o entrevistado da edição, o ex-secretário de Planejamento do Estado e ex-reitor da USP Jacques Markovitch, é otimista quanto ao futuro da tecnologia, da economia, da cultura e do turismo em São Paulo. Pode-se ou não concordar com ele mas, seja como for, trata-se de um futuro exeqüível à custa de muito esforço. A inauguração da reurbanizada Praça do Patriarca também é destaque nesta edição.

A seção Cultura traz o Corpo de Baile do Municipal, Rembrandt e uma proposta de "excursão" pelos vitrais e murais do Centro — um passeio fantástico com a ajuda do metrô. Por fim, no Traço, surpreenda-se com o desenhista português Pedro de Castro, aliás Kastro. Ele vive há seis meses no Brasil, diz-se empolgado com o Centro e vai, entre reticulados de obsessivo figurativismo e intervenções oníricas, descobrindo-o à sua maneira. Boa viagem, Kastro. Boa leitura, leitor.

O editor


  Panorama  
Patriarca, exemplo de proposta inovadora

MARCO ANTONIO RAMOS DE ALMEIDA
Presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO


A nova Praça do Patriarca, recém-inaugurada, marca uma importante etapa na reinstalação de atividades culturais na Galeria Prestes Maia. Inaugurada a porta simbólica e requalificado o espaço público, agora é a hora de conquistar a própria Galeria. A Associação VIVA O CENTRO, ao propor esta obra, em 1992, além da requalificação exemplar de um importante espaço público central, procurava valorizar outro símbolo que queria trazer de volta para o Centro — o Masp —, o mais importante museu de arte da cidade que, por proposta da Associação, deveria estar presente na área através de uma sucursal Centro, a ser instalada na histórica Galeria Prestes Maia. A justificativa para tal intervenção exemplar foi dada, na época, pela arquiteta Regina Meyer, consultora da Associação: "A Patriarca é o exemplo de espaço público propício à reflexão e a propostas inovadoras que conduzam à renovação urbana do Centro de São Paulo."

A realização desta obra custou dez anos de muito esforço à VIVA O CENTRO e à coletividade organizada da área central. Mas agora, em vez do barulho e fumaça dos ônibus e da velha cobertura da Galeria Prestes Maia, que ajudava a atravancar um espaço por si mesmo exíguo, o que nos salta à vista é a forma magnífica do pórtico-cobertura pousado, em sua leveza, num generoso espaço pedestrianizado, em cujas laterais sobressaem como nunca históricas fachadas e a Igreja de Santo Antonio, antes desvalorizada pela confusão visual.

Em palavras do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos maiores expoentes da arquitetura brasileira, convidado em 1992 pela Associação para desenvolver o projeto, "tanto para o abrigo das escadarias (da Galeria Prestes Maia) como para o conjunto propõe-se uma cobertura suspensa, que não toca o chão, mostrando para o pedestre a pequena praça inteira e uma arquitrave que a sustenta pendurada, constituindo um portal para aquela parte da cidade, na qual se vai entrar. E, no sentido contrário, uma moldura de aviso para passar aos espaços abertos, para as visuais sobre o outro lado da cidade." É exatamente o que a VIVA O CENTRO sempre pretendeu desde o início: que a reformulada Praça do Patriarca pudesse renovar a cada dia o sentido da novidade, da descoberta, do encantamento nos milhares de paulistanos que transitam diariamente por esta parte do Centro.

Apontando a um patamar mais elevado de qualidade urbana e estética, a nova Patriarca tem efetivamente essa função exemplar, de modelo de uma concepção de reorganização dos espaços públicos da área central que some o toque de arte de nossos criadores, como Paulo Mendes da Rocha, ao sentido do futuro, marca do vanguardismo de São Paulo. Sem que se percam sua história, vocação e fisionomia tradicional. Agora, é importante que o Masp Centro, hoje precariamente instalado na galeria, receba todo apoio do poder público e da comunidade empresarial para transformar-se num espaço de qualidade e padrão internacional e assim desempenhar seu papel de agente cultural e requalificador.


  Reportagem  
Promessa: começam já as obras do Masp Centro

A unidade central do museu, na Galeria Prestes Maia, vai ganhar qualidade técnica e atrair um público maior

Marcus Figueiredo
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Inaugurada em setembro, a reurbanizada Praça do Patriarca – com o pórtico monumental concebido pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha por solicitação da Associação VIVA O CENTRO, em 1992 – é um lugar público rodeado de edifícios importantes, como a futura sede da Prefeitura. No subsolo, a filial de um dos museus mais importantes do País. Esse cenário, muitas vezes encarado com um sonho pelas pessoas envolvidas no processo de recuperação do Centro, está próximo de tornar-se realidade. A Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) entregou a Praça do Patriarca totalmente reformada. Em breve vão começar as obras de reforma da filial Centro do Museu de Arte de São Paulo (Masp), instalada na Galeria Prestes Maia. A prefeita Marta Suplicy praticamente acertou a mudança do Palácio das Indústrias para o edifício do Banespa, antiga sede das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na cabeceira do Viaduto do Chá, até o início do próximo ano.

A reforma do Masp Centro está sendo pleiteada desde que o então prefeito Paulo Maluf, por sugestão da VIVA O CENTRO, cedeu o espaço ao Masp, em 1996, em regime de comodato. Por causa de problemas, como a complicada transferência de um posto da Cohab instalado numa parte da galeria, o local só foi ocupado pelo Masp em novembro de 2000. Desde então tem servido de palco para exposições e eventos de destaque, como as festas de encerramento do São Paulo Fashion Week de 2001e 2002 e a exposição Viva o Kitsch, em agosto do ano passado. Em janeiro último foi realizada uma edição do Salão Paulista de Belas Artes, que por muitos anos teve no local a sua sede.

Os quase cinco mil metros quadrados de área da Prestes Maia devem ser totalmente adaptados, sem perder as características originais da galeria, inaugurada por volta de 1940. O projeto de reforma já foi aprovado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) e as obras devem começar em breve, segundo a direção do Masp.

"A idéia é começar imediatamente", afirmou a urbs o diretor do Masp Centro, Manoel Francisco Pires da Costa. Ele explica que a reforma de todo o complexo Patriarca será feita em duas fases. A primeira é a reurbanização da praça, que foi conduzida pela Emurb segundo projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. A segunda é a reforma da Galeria Prestes Maia.

Apesar de funcionar como museu desde 2000, o espaço carece de uma série de adaptações para receber exposições e o próprio público nos moldes da sede do museu, na Avenida Paulista. Para isso, está prevista a instalação de um elevador para deficientes físicos e um de carga, que servirá principalmente para o transporte de obras de arte com segurança.

O projeto também prevê a instalação de um auditório para cerca de 150 pessoas e uma biblioteca com 25 mil volumes. No térreo, os freqüentadores vão ter à disposição um café e uma loja com artigos relacionados ao acervo do Masp. Os banheiros serão reformados e modernizados, com adaptação para deficientes físicos. Costa lembra que toda a parte estrutural da galeria, como os sistemas hidráulico e elétrico, será revista e reformada. Além disso, será modernizado o sistema de ar condicionado, para oferecer na galeria o mesmo conforto que existe na sede da Paulista. No subsolo, os vestiários e a área de marcenaria também receberão melhoramentos.

Os custos da obra ainda não foram estimados, segundo Costa. "É um empreendimento muito complexo para termos um valor definido no momento", diz. O objetivo da direção do Masp Centro é conciliar a reforma com o uso normal do espaço. "Vai ser uma reforma por partes, pois nossa preocupação é não prejudicar a programação que já temos para o ano", salienta. Um dos eventos agendados é a exposição do artista plástico Aldemir Martins (ver o box). Quando tudo estiver pronto, a expectativa é que o Masp Centro seja uma peça importante para o processo de requalificação da região.

Atração

O presidente do Masp, arquiteto Julio Neves, diz que o Masp Centro vai se agregar a uma série de ações indutoras de requalificação urbana no entorno da galeria, como a nova sede da Prefeitura, o Centro Cultural Banco do Brasil, a instalação do campus Vale do Anhangabaú da Universidade Anhembi-Morumbi e a reciclagem e uso cultural do prédio dos Correios.

A proposta da filial do Masp é atender ao público que já circula pela região com eventos que possam atrair pessoas para o Centro à noite. "Estamos pensando em exposições e cursos para chamar o público de maneira mais constante", explica Costa. "O Masp Centro vai atrair pessoas para a sede na Paulista e vice-versa", completa. Existe ainda a possibilidade de a TV Cultura montar um posto avançado na Galeria Prestes Maia.

Outro que está otimista com as novidades é o presidente da Emurb, Maurício Faria. "O projeto da Praça do Patriarca compreende uma série de iniciativas que vão se conjugar em benefício do público", diz. Segundo ele, o objetivo é oferecer ao público uma área onde haja a interação plena entre o cidadão e o espaço urbano. O terminal de ônibus foi desativado definitivamente e as linhas transformaram-se em circulares, não mais penetrando na praça, ou tiveram o ponto final transferido para a Rua Xavier de Toledo.

Outro ponto destacado por Faria á a segurança. Ele lembrou que a sede da Secretaria da Segurança Pública foi transferida recentemente do bairro de Higienópolis para a Rua Lídero Badaró. Além disso, segundo ele, a transferência da Prefeitura para o prédio do Banespa vai exigir reforço na segurança da Praça do Patriarca. "Todo local que abriga o gabinete de prefeitos necessita de um esquema especial de segurança", justifica.Para o administrador da Galeria Prestes Maia, Celso Vieira, a importância que o Masp Centro deve adquirir após as mudanças será como uma volta às origens do Masp. Quando o museu foi inaugurado por Assis Chateaubriand, em 1947, ocupava parte do edifício sede dos Diários Associados, de propriedade do jornalista, na Rua Sete de Abril.

Inaugurais de peso

Quem já comemora com o retorno das atividades do Masp Centro, na Galeria Prestes Maia, são os artistas Gregório Gruber e Aldemir Martins, que têm mostras especiais programadas no espaço.

Gruber, com apoio da VIVA O CENTRO, expõem seus trabalhos já na reabertura da galeria, em outubro, e logo após a inauguração da Praça do Patriarca. São painéis de grandes dimensões com temática voltada para o Centro, abrangendo técnicas e fases distintas de sua produção. "O convite para essa mostra me honrou e estimulou muito, ainda mais por estarmos resgatando a função de um espaço que nasceu como galeria de arte", diz o artista. Aldemir Martins, por sua vez, marcará presença com uma retrospectiva de seus 80 anos de vida e 60 de carreira. Foi exatamente na Galeria Prestes Maia que o desenhista, pintor, gravador e ilustrador participou da primeira coletiva de sua vida, pouco depois de chegar a São Paulo, procedente do Nordeste. A mostra chamava-se 19 Pintores e foi organizada em 1946 pela União Cultural Brasil-Estados Unidos. A grande retrospectiva da carreira do artista deve entrar em cartaz no primeiro semestre do ano que vem.


  Reportagem  
Patriarca reinaugurada

Após dez anos de luta, praça ganha novo visual e ampla area de pedestres

Aline Gattoni
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina

DA Praça do Patriarca foi devolvida em grande estilo aos usuários, moradores e visitantes do Centro. Até há pouco atravancado por uma feia marquise sobre o acesso à Galeria Prestes Maia e por diversos pontos de ônibus, o logradouro foi reinaugurado em 10 de setembro, após nove meses de obras coordenadas pela Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) e realizadas com recursos da Operação Urbana Centro. O principal elemento da renovada praça é o pórtico-cobertura metálico projetado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

Participaram da cerimônia a prefeita Marta Suplicy, secretários municipais, o presidente da Emurb, Maurício Faria, o presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, e Paulo Mendes da Rocha, além de parlamentares, dirigentes e conselheiros da Associação e integrantes de Ações Locais. Em seus discursos, a prefeita e o presidente da Emurb ressaltaram o papel decisivo da VIVA O CENTRO, que idealizou a intervenção na praça e solicitou um projeto a Paulo Mendes, em 1992, oferecendo-o em seguida à Prefeitura. "Esperamos que a nova Patriarca possa renovar a cada dia o sentido da novidade, da descoberta e do encantamento nos paulistanos", afirmou Ramos de Almeida em sua fala (foto à esquerda).

A praça teve o seu piso original em mosaico português totalmente restaurado e, livre dos ônibus, transformou-se num amplo espaço pedestrianizado. Além disso, o restaurante do Othon Palace Hotel reabriu sua entrada principal, voltada para a praça. No entanto, a grande novidade é o pórtico, leve e alva estrutura metálica que sinaliza de forma monumental a conexão entre o Centro histórico e o chamado Centro Novo e substitui a marquise sobre o acesso à galeria, na qual, também por proposta da VIVA O CENTRO, hoje já funciona a sucursal Centro do Masp, um dos mais importantes museus da cidade. A maquete obstruía a visão panorâmica da praça e ocultava a delicada Igreja de Santo Antônio, tombada pelo patrimônio histórico.

Ao discursar, a prefeita Marta Suplicy insistiu na necessidade de remoção total, pelo comerciantes e proprietários, de painéis comerciais, placas e outras interferências que ainda permanecem na praça. Para agilizar essa providência, dirigentes da Ação Local Líbero I, cuja área de abrangência inclui a Patriarca, realizaram reuniões com proprietários de imóveis situados no logradouro e já obtiveram a retirada da maioria dos painéis e placas e a recuperação de fachadas.


  Reportagem  
No Caminho Certo

Ações para dinamizar o turismo em São Paulo ainda carecem de coordenação, mas significam um avanço

Ana Cândida Vespucci
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina

Diferentes esferas do poder público, a iniciativa privada e organizações não governamentais estão empenhadas em dinamizar o potencial turístico do Estado, da Capital e, conseqüentemente, do Centro. Não faltam a São Paulo atrativos nem infra-estrutura. O Interior dispõe de uma infinidade de opções de lazer entre estâncias climáticas e hidrominerais, áreas de proteção ambiental e uma série de empreendimentos de esporte e aventuras, servidos por diversificada rede hoteleira. No extenso litoral, as praias nada devem ao restante da costa e, além das belezas naturais que oferecem de norte a sul, muitas são dotadas de excelente infra-estrutura, com capacidade de crescer e atender uma crescente demanda. A Capital há muito se firmou como o mais importante pólo econômico do Continente. Como qualquer aglomerado de dimensões e poder similares, concentra, além de negócios, um amplo espectro de ofertas culturais, variada gastronomia e um comércio que em muitos aspectos se equipara aos melhores do mundo. Explorar tais possibilidades tem sido uma preocupação dos diferentes segmentos envolvidos com o turismo. A Empresa Brasileira de Turismo, Embratur, está patrocinando iniciativas que fazem parte de seu Programa Nacional de Municipalização do Turismo; na esfera estadual, a incorporação da pasta de Turismo pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico objetiva encarar a atividade como fator de desenvolvimento. No âmbito municipal, a Prefeitura acaba de lançar o Plano Municipal de Turismo, ou Platum 2003, com o objetivo principal de levar ofertas culturais e de lazer aos turistas de negócios, para que prolonguem sua estada na cidade. Além disso, a Anhembi Turismo e Eventos, empresa municipal, promove e estreita parcerias com entidades atuantes como o São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPC&VB), que está à frente de um projeto inédito de incentivo turístico para a Capital. É consenso que o que vem faltando é uma sinergia entre os agentes e mais informação quanto às atrações que São Paulo oferece, e que está na hora de São Paulo, bem como todo o País, aproveitar esse mercado cujo movimento alcança bilhões de dólares em todo o mundo. No âmbito federal, o Programa Avança Brasil pretende consolidar diretrizes da Política Nacional de Turismo até o final do ano e estabelece novas metas: criar condições para que mais brasileiros tenham acesso ao turismo interno e para que o ingresso anual de divisas com turistas estrangeiros passe dos US$ 3,99 bilhões registrados em 1999 para US$ 5 bilhões ou mais.

Dentro desse panorama, em São Paulo, onde a tradição turística prende-se ao setor de negócios, emergem esforços no sentido de voltar as atenções aos turistas que buscam opções de entretenimento e lazer. Ciente da importância das receitas com turismo, a administração municipal está empenhada em divulgar o potencial da cidade em todo o mundo, implantando uma política de ações conjuntas com entidades do setor, visando a atrair a participação de todos os segmentos que atuam na área. Além de reforçar seu papel na área de negócios, ao assinar um protocolo de intenções com o São Paulo Convention & Visitors Bureau por meio do qual passa a representar a cidade em feiras nacionais e internacionais, a Anhembi criou comitês destinados a identificar e promover no país e no Exterior as qualificações de São Paulo. Junto com o Comitê Paulistano de Promoção e Captação de Eventos, formaram-se o Comitê de Fim de Semana, o Comitê de Grandes Eventos e o Banco de Dados. Desde sua instituição, o Comitê de Captação de Eventos, por exemplo, já trouxe mais sete novas realizações para a cidade, o que significou a presença de 12 mil pessoas e cerca de 50 mil pernoites. A idéia não é focalizar somente São Paulo, mas envolver as 39 cidades da Região Metropolitana, empregando instrumentos comuns de divulgação, como um site e uma folheteria em dois idiomas e, dessa forma, conjugar as diferentes ofertas e atrair um número ainda maior de pessoas. Na cidade, entram em operação novos roteiros turísticos, com saídas da Praça de República, visitas às atrações do Centro e demais regiões, além de passagens por shopping centers com direito a duas horas e meia de compras. Segundo o sociólogo Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores, todos os esforços para captar maior fluxo turístico podem beneficiar particularmente o Centro, já que a região concentra os marcos da história da cidade e equipamentos culturais sem paralelo no país, como a Sala São Paulo — um recinto sinfônico instalado em plena Estação Júlio Prestes —, o Centro Cultural Banco do Brasil e, mais recentemente, o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro e o Memorial do Cárcere, ambos no restaurado prédio do extinto Dops.

Identidade

Outro projeto destina-se especificamente à Capital e tem o propósito de fortalecer o turismo de lazer, segmento que vinha sendo negligenciado em favor do turismo de negócios. Trata-se de um plano operacional e estratégico de marketing, encomendado pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau à empresa Marketing System, de Barcelona, responsável por campanhas semelhantes, como a que promoveu Barcelona por ocasião das Olimpíadas e a que divulga as atrações do Rio de Janeiro. O diagnóstico das potencialidades e dos pontos de atração da cidade a serem divulgados junto ao consumidor final e aos profissionais do trade turístico deve ficar pronto em dois meses. Como São Paulo carecia de know how para ampliar sua imagem de centro de negócios para também de entretenimento e cultura, o plano, patrocinado pela Embratur com o apoio da Visa do Brasil, deverá nortear ações e firmar uma identidade turística. O programa pretende atrair um novo público, sem desprezar o turista de negócios, cuja permanência pode aumentar diante do variado leque de atrações que a cidade oferece.

Na esfera estadual, a política também se volta basicamente para o turista de lazer, com um projeto pautado pela integração de diferentes destinos e as possibilidades de intercâmbios entre eles A incorporação da pasta de Turismo à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico foi a primeira providência. O secretário Ruy Altenfelder explica por que: "Como gerador de empregos, o setor é o grande alavancador do desenvolvimento, já que não permite a substituição do homem pela máquina, além de absorver de mão-de-obra menos qualificada ao lado de profissionais altamente especializados". A paralela implementação de uma Agência de Fomento e Desenvolvimento do Turismo complementa as novas disposições ao criar um fórum em que a iniciativa privada estabelece suas necessidades e deixa ao governo o papel que lhe cabe de fiscalizar e regular as atividades do setor privado. Com um fundo provido por recursos federais, estaduais e do trade turístico, seu desenho inspirou-se em similares bem-sucedidos, implantados em países de larga tradição no setor, como a Espanha, o segundo destino mais procurado do mundo depois da França, e os Estados Unidos, que ocupam a terceira colocação. Enquanto o anteprojeto de criação da agência tramita na Assembléia Legislativa, a atual Subsecretaria de Turismo já vem trabalhando em ações de caráter informativo, como a propaganda lançada em dezembro divulgando as atrações e a qualidade da infra-estrutura do litoral e cujo resultado foram os 100% nos índices de ocupação nos hotéis na temporada. A proposta também passa pelos turistas de negócios, oferecendo-lhes alternativas de lazer, como balneários, estâncias, ecoturismo e turismo de aventura, para prolongar sua estada. Pelos dados da Embratur, a capital paulista era, em 1999, a terceira cidade mais visitada do Brasil por estrangeiros, com 13,7% sobre o total nacional, perdendo apenas para o Rio de Janeiro, a primeira colocada, com 32,7%, e Florianópolis, a segunda, com 17,7%. E, segundo os levantamentos do São Paulo Convention & Visitors Bureau, 60% dos turistas que São Paulo recebe, estrangeiros ou não, devem-se ao turismo de negócios, um filão de mais de 5 milhões de pessoas (os números da Embratur falam em 73,5%). "São Paulo é um centro econômico de primeira grandeza e o público que atrai precisa dispor de opções para estender sua permanência no Estado", diz o secretário Altenfelder. Na sua opinião, só ações integradas podem promover um intercâmbio entre as localidades, dinamizando os fluxos turísticos dentro de São Paulo. Segundo informa, já estão em curso a atualização de todo o folhetário, bem como a modernização e implantação de centros de informação na Capital e fora dela, como a unidade-modelo que está funcionando no quilômetro 260 da rodovia Washington Luís para atender municípios de forte apelo turístico, como Brotas, um pólo de esportes radicais.

Apesar de sua participação majoritária, o turismo de negócios, na concepção das entidades de classe que congregam as prestadoras de serviço, ainda pode crescer, aproveitando um potencial ocioso. Seus representantes decidiram-se, em reunião recente, pela realização de eventos fora dos dias úteis, confiando numa mudança de comportamento dos interessados. A idéia de Darcio Betocco, presidente do Sindicato das Empresas de Promoção, Organização e Montagem de Feiras, Congressos e Eventos, é iniciar alguns eventos aos sábados e encerrar outros aos domingos e conquistar visitantes que nem sempre têm condições de interromper suas atividades regulares nos dias úteis. Os reflexos, diz, seriam imediatos sobre todos os segmentos, contribuindo, por exemplo, para neutralizar a forte queda de ocupação experimentada pela rede hoteleira nos fins de semana e distribuindo melhor a demanda pelo transporte aéreo, congestionado às segundas e terças por causa das chegadas e, às sextas, das saídas.

Fins de semana

Fábio Ionesco, proprietário do Normandie Design Hotel, situado na Avenida Ipiranga, aplaude a idéia. A média de ocupação de seu estabelecimento, em torno dos 50% durante a semana, aos sábados e domingos cai a 25%. Para ele, a medida incrementaria não só o movimento dos hotéis como também de bares, restaurantes, casas de espetáculo, teatros, cinemas e comércio. Como permanecem no Centro predominantemente os turistas que vêm à cidade a trabalho, a região poderia ser beneficiada pelas medidas que ampliam o período de ocupação. Na sua concepção, entre outros atrativos, a região central abriga algumas das melhores casas de espetáculo da cidade, museus importantes, teatros, história , exemplares arquitetônicos e belas praças. Ele acha que se a administração municipal fizer sua parte de gestora do espaço público, disciplinando os camelôs, recuperando calçadas e calçadões e recolhendo o lixo, entre outras providências, o turista virá e a iniciativa privada tratará dos demais investimentos que a demanda turística exige.

Na avaliação positiva que faz das novas políticas de incentivo ao turismo e suas conseqüências para a área central da cidade, Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro lembra que além de reunir atrações notáveis na área do lazer, como uma vida cultural pulsante, o Centro abriga várias zonas comerciais especializadas e de uma vitalidade sem paralelo no país, como as ruas Santa Efigênia, José Paulino e 25 de Março, que atraem inclusive consumidores de países vizinhos. Assim, do ponto de vista econômico, entre os primeiros reflexos dos programas de estímulo ao turismo está a imediata ocupação dos meios de hospedagem que nos últimos cinco ou dez anos cresceram além da demanda por conta de expectativas mais tarde frustradas por uma série de crises. Na área social, fomentar o turismo gera dividendos igualmente importantes, diz o sociólogo. "Trata-se de uma atividade não poluente capaz de gerar muitos empregos e renda em diferentes níveis de mão-de-obra."

Em números
De acordo com números oficiais, São Paulo recebe mais de 9 milhões de visitantes por ano, que movimentam R$ 5,5 bilhões — um gasto médio de US$ 288 por dia (turista de negócios) e US$ 124,6 (turista comum), contra a média nacional de US$ 84. Do total de visitantes, 73,5% vêm a negócios e apenas 13,5% para lazer, segundo dados da Embratur. O Plano Municipal de Turismo, Platum, espera que os turistas, especialmente os de negócios, prolonguem por pelo menos dois dias sua estada na cidade, o que significaria um faturamento extra de R$ 3,7 bilhões para o setor. Os turistas estrangeiros, na maioria empresários e executivos que viajam por conta de suas empresas, permanecem no máximo uma semana em São Paulo e os brasileiros, de um a três dias. São Paulo realiza anualmente cerca de 74 mil eventos — feiras, congressos, convenções etc.—, que correspondem a 76% do total nacional e reúnem mais de 15 milhões de participantes, segundo o SPC&VB. Tais eventos mobilizam 432 mil postos de trabalho em 56 tipos de serviços.


  Reportagem  
Carros no Subsolo

Vitais para o Centro,garagens subterrâneas podem sair das pranchetas – com um atraso de décadas

FEDERICO MENGOZZI
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina

São Paulo tardou a olhar para o alto – o edifício Martinelli, marco arquitetônico da cidade, foi erguido em 1929, quando Chicago, antes mesmo de Nova York, havia décadas arranhava os céus. E demorou ainda mais a olhar para baixo – a primeira linha do metrô paulistano começou a operar em 1974, quando o metrô de Londres já comemorara o centenário. Da mesma forma, a cidade está demorando para avaliar a questão das garagens subterrâneas, principalmente nas áreas centrais, com suas ruas fechadas ao trânsito e poucos espaços para estacionamento ao ar livre. Resultado: é difícil chegar de automóvel ao Centro, o que contribui para a deterioração da região. Ir e vir não é apenas um direito constitucional, mas a essência da vitalidade urbana. Há muito, metrópoles como Paris possuem garagens sob a superfície – mais de 60 -, mas São Paulo, com todo o seu progresso, parece fadada ao atraso sistemático e esbarra em questiúnculas que impedem a instalação de equipamentos do gênero, capazes de resolver o problema do acesso e estacionamento – e sem interferir na paisagem.

Agora, com a retomada de três projetos, a serem executados no Largo do Paissandu e nas praças Ramos de Azevedo e da República, a questão é reaberta. Para o arquiteto Jorge Wilheim, secretário municipal de Planejamento Urbano, tais garagens sob o solo são fundamentais para a recuperação do Centro, pois beneficiam tanto as pessoas que nele moram ou trabalham como ajudam a atrair um público novo e qualificado. "Elas vão dinamizar o Centro", aposta Wilheim. A garagem subterrânea da Praça Ramos de Azevedo, por exemplo, a ser construída sob a Rua Xavier de Toledo, atenderá o público que vai ao Teatro Municipal. "Hoje, freqüentar o teatro é quase um ato de coragem", diz Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), encarregada dos estudos preliminares. "Além de serem achacadas pelos flanelinhas e intimidados pela insegurança reinante à noite na região, as pessoas acabam saindo antes do final do espetáculo."

Os estacionamentos subterrâneos são importantes também para estimular as atividades culturais. Por enquanto, dos três projetos, só a garagem da Praça da República está prestes a sair do papel. Aprovado, mas não executado, já que a concessionária abandonou o empreendimento pela pressão de entidades civis e alterações na proposta original, o projeto foi assumido recentemente pelo grupo Persa (Participações e Empreendimentos República S.A.). A garagem ocupará uma área de 18.054 metros quadrados, sob a Avenida Vieira de Carvalho e ruas Joaquim Gustavo e Pedro Américo, dividida em três pavimentos. A construção compreende duas etapas: na primeira, abrem-se vagas para 326 veículos; na segunda, para 248. No total serão 574 vagas. Para Ricardo Rios, diretor técnico da Persa, o empreendimento, orçado em R$ 23 milhões, atenderá aos interesses público e privado.

A garagem República, enfatiza a Persa, não onera os cofres do Estado, não agride o meio ambiente e, com impacto visual mínimo, mantém as características do logradouro. E, entre tantos benefícios, disponibiliza novas e preciosas vagas para o estacionamento de veículos num Centro tão carente de freqüentadores no horário noturno. Daí o interesse de investidores privados em construí-las. "Se uma garagem subterrânea não é viável economicamente num local como a Praça da República, não é viável em lugar nenhum do mundo", garante Rios. Pelos termos da licitação, a construção fica a cargo da iniciativa privada, em troca da concessão, por 30 anos, do direito de exploração comercial. Ao final do período, a garagem é incorporada ao patrimônio público. Para Rios, é necessário resolver entraves burocráticos – "não temos uma data para o início das obras, pois estamos dependendo de autorizações" -, mas o projeto tem tudo para sair do papel e, quando inaugurado, as vagas na região, hoje 5.200 em 74 estacionamentos (dados do Sindicato das Empresas de Estacionamentos e Garagens no Estado de São Paulo), crescerão 10%.

Nos gabinetes

Ao contrário do projeto da Praça da República, as garagens do Largo do Paissandu, sob a Avenida São João, e Praça Ramos de Azevedo correm risco de continuar no papel. Os editais de licitação não saíram dos gabinetes. Segundo a Sempla, as três garagens acrescentariam cerca de 3 mil novas vagas à região central. Essa história que se arrasta desde os anos 70, quando as garagens começaram a ser discutidas. A lei 8.004, de 3 de janeiro de 1974, promulgada pelo prefeito Miguel Colasuonno, dispunha sobre a "concessão de uso de áreas municipais para construção e exploração de garagens subterrâneas", contemplando o subsolo da Praça da República, Rua da Consolação, Largo do Paissandu e Avenida Casper Líbero. A concessão era de no máximo 20 anos. Mais de uma década depois, o prefeito Jânio Quadros retomou a idéia e, na lei 10.256, de 11 de fevereiro de 1987, estipulou nove pontos para a construção de garagens, "obrigatoriamente subterrâneas".

Das nove garagens sugeridas, em áreas com demanda de vagas, foram licitadas e construídas, nas gestões Paulo Maluf e Celso Pitta, a Clínicas, sob a Avenida Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, e a Trianon, sob a Praça Alexandre de Gusmão. Administradas pela rede Estapar, que opera estacionamentos na cidade, pelo período de 30 anos, a garagem Clínicas foi inaugurada em fevereiro de 1999 (primeira fase) e comporta 1.200 veículos, enquanto a Trianon, após vencer desafios técnicos – 1 metro separa o terceiro nível da garagem do topo do túnel Nove de Julho –, começou a operar em maio do mesmo ano, oferecendo 510 vagas. Maluf abriu concorrência para oito garagens, num total de mais de 4 mil vagas, mas só quatro encontraram grupos interessados e, posteriormente, não foram construídas duas, aquelas sob as praças da República e Coronel Pires de Andrade, interrompida por decisão judicial – a zona é de uso estritamente residencial.

Polêmica

A história das garagens subterrâneas paulistanas é marcada pela polêmica. A construção das garagens Clínicas e Trianon sofreu oposição de várias entidades civis, principalmente grupos ambientalistas. Em 1987, para protestar contra a garagem sob a Praça Alexandre de Gusmão, 2 mil pessoas abraçaram o Parque Siqueira Campos. O vereador Nabil Bonduki, quando presidente do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo, acreditava que as garagens ameaçavam as áreas verdes da cidade. Hoje, tais argumentos perderam a força, já que os projetos não visam mais ao subsolo de praças, mas de ruas. Garagens como Clínicas e Trianon não provocaram danos ambientais. Pelo contrário: os moradores vizinhos à Praça Alexandre de Gusmão dizem que a área, antes tomada por ratos e pela sujeira, melhorou. Hoje está limpa, iluminada, segura. Aliás, uma das condições para construir garagens e outros equipamentos no espaço público é que as concessionárias zelem por ele, responsabilizando-se por sua limpeza e manutenção.

Atrás do tempo perdido
As principais metrópoles do mundo possuem garagens subterrâneas há décadas. Elas são velhas conhecidas mesmo de cidades que, por seu padrão sócioeconômico e urbano, se assemelham a São Paulo, como Buenos Aires e Cidade do México. No entanto, elas tardam a chegar ao Centro de São Paulo porque, entre outros motivos, prevaleceu durante anos o argumento — comprovadamente falso — de que, ao facilitar o acesso ao Centro do usuário "cativo do automóvel", tais garagens estariam em conflito com as conveniências do usuário do transporte público. Em vez de garagens subterrâneas, dizia-se, o poder público deveria construir mais metrô e corredores de ônibus.

O resultado de tanta inércia foi que, já no final da década de 80, iniciava-se um processo (sustado na década seguinte pela reação da sociedade organizada da área, tendo à frente a Associação VIVA O CENTRO) de migração de atividades para setores da cidade com melhores condições de acesso e estacionamento dos automóveis particulares de seus diretores, clientes e fornecedores. Em conseqüência, uma grande massa de funcionários que chegavam ao local de trabalho por metrô, ferrovia ou ônibus — valendo-se do melhor sistema de transporte público da metrópole — passou a enfrentar longos e cansativos deslocamentos às vezes usando diversas conduções. Além disso, pela baixa oferta de transporte público de boa qualidade fora do Centro, grande número desses funcionários passa a usar transporte individual, contribuindo para congestionar e poluir ainda mais a cidade. A idéia de que as garagens subterrâneas no Centro apenas privilegiariam o automóvel em detrimento da grande maioria que utiliza o transporte público revelou-se, assim, insustentável. A falta delas, isto sim, é que complicava, e ainda complica, a vida dos trabalhadores. Resta um precioso tempo perdido a ser recuperado.




  Reportagem  
Rebatizado, o fura-fila agora sai

Com o nome de Paulistão, carro-chefe de campanha eleitoral de 1996 ganha financiamento e terá primeiro trecho concluído em 17 meses

Marcus Figueiredo
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Bandeira eleitoral do ex-prefeito Celso Pitta, o Veículo Leve sobre Pneus (VLP), conhecido como Fura-Fila, teve um destino melancólico. Vendido como uma inovação no sistema de transporte paulistano, até agora o único resultado prático do Fura-Fila foi piorar o já caótico trânsito na Avenida do Estado, por causa das obras para sua construção, que se arrastaram durante quatro anos e nunca foram concluídas. Agora, a prefeita Marta Suplicy vai cumprir uma promessa de campanha eleitoral e retomar o VLP, que mudou de nome para Paulistão. Para isso, a São Paulo Transportes (SPTrans) remodelou todo o sistema, estendeu a linha até o Sacomã, na zona sul, e aposentou os dois veículos especiais encomendados pela administração anterior e que foram utilizados em viagens experimentais. A promessa é que, em 17 meses, seja inaugurado o primeiro trecho, com uma extensão de 8,5 quilômetros, ligando o Parque Dom Pedro II ao Sacomã. Do total, 4,5 quilômetros serão por vias elevadas, para evitar cruzamentos e aumentar a velocidade média dos veículos.

"Nossa preocupação era transformar o VLP em um sistema de transporte eficiente e não apenas em uma peça de marketing", diz o diretor de gestão da SPTrans, Sérgio Antunes de Oliveira. Desde o início da atual gestão, os técnicos debruçaram-se sobre o projeto para transformá-lo em uma alternativa viável para o transporte de passageiros. Enquanto isso, a Prefeitura esperava um financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para continuar a obra, paralisada desde outubro de 2000. O resultado foi o Paulistão, cujas obras foram iniciadas simbolicamente pela prefeita no dia 18 de junho. Adotou-se um nome considerado forte para substituir Fura-Fila na mente das pessoas.

O sinal verde para o ex-Fura-Fila foi dado com o financiamento do BNDES, no início de junho. Pelo novo projeto, o VLP será dividido em duas fases. A primeira vai ligar o Centro ao Sacomã. Numa segunda etapa, em data ainda não definida, o Paulistão vai ser levado até São Mateus, na zona leste, passando pela Vila Prudente. Se tudo der certo, no futuro ele deve ir ainda mais longe e chegar à Cidade Tiradentes, no extremo leste.

"Para ser considerado viável, o projeto teve de ser remodelado, pois levava o nada ao lugar nenhum", explica Oliveira. Quando assumiu a Prefeitura, Marta Suplicy herdou um trecho experimental de pouco mais de dois quilômetros, entre o Parque Dom Pedro e a Praça Alberto Lion, no Ipiranga.

Além da ampliação da linha, o funcionamento também foi repensado. Em vez de trólebus, serão utilizados veículos híbridos. Trata-se de ônibus elétricos, mas com energia gerada por motores a diesel instalados no próprio veículo. O preço da passagem será o mesmo dos ônibus comuns. A exploração do sistema obedecerá ao regime de concessão, como ocorre com as empresas de ônibus que servem a cidade. "Ele terá todas as vantagens do trólebus", promete Oliveira. No primeiro trecho, circularão 14 veículos desse tipo, que deverão transportar cerca de 5,5 mil passageiros/hora/sentido nos horários de pico. Quando toda a linha estiver pronta, a expectativa é de atender até 15 mil passageiros/hora/sentido, nos horários de maior movimento.

A estrutura da via também foi remodelada. A proposta original era que o VLP seguisse por canaletas em todo o trajeto e os pontos de parada fossem instalados em plataformas elevadas, como ocorre em cidades da Alemanha, de onde Pitta trouxe a inspiração do Fura-Fila. A idéia das canaletas foi abandonada porque elas não permitiriam a ultrapassagem dos ônibus em caso de defeito ou morosidade. As plataformas já construídas serão eliminadas. Os postes colocados para instalação da rede aérea dos trólebus também serão retirados.

No total, o VLP deverá consumir R$ 382 milhões na linha entre o Centro e São Mateus. Pelos cálculos da Prefeitura, Pitta gastou, em valores de junho de 1997, R$ 92 milhões para realizar as estruturas e cerca de dois quilômetros de linha. Marta vai investir mais R$ 126 milhões para concluir a primeira etapa até o Sacomã, valores que serão cobertos pelo empréstimo do BNDES.

O diretor da SPTrans afirma que, apesar do custo, o novo desenho das vias vai permitir economia de dinheiro. É que, dos cinco quilômetros originais de viadutos previstos, cerca de 500 metros que seriam construídos entre a Rua do Grito, no Ipiranga, e o terminal do Sacomã foram eliminados, com os ônibus correndo no nível do solo.

Uma das expectativas é que o Paulistão, considerado um sistema de média capacidade, crie uma alternativa de transporte para a zona leste, ajudando a desafogar o metrô e os trens metropolitanos. "Quando ele chegar a São Mateus, vai auxiliar um sistema de transporte que já está próximo da saturação", explica o diretor da SPTrans.

Integração

Outra preocupação dos técnicos é a integração da linha a outros sistemas. No terminal do Sacomã, ela vai interligar-se às linhas intermunicipais de ônibus para a região do ABC. No Parque Dom Pedro, uma passarela de 150 metros vai unir o terminal do Paulistão à Estação Pedro II do metrô. "Vamos dar todas as condições para uma integração total com o metrô", explica Oliveira. Esta, num primeiro momento, será apenas física, pois ainda não está definida com o governo do Estado uma tarifa única, como as que já existem entre ônibus, trens e metrô.

A retomada da construção do VLP também está sendo considerada, pela Prefeitura, um passo importante para a requalificação do Centro. É falso. Seria verdade se o terminal do Paulistão não estivesse se instalado em pleno Parque D. Pedro, ocupando uma área considerável que deveria, num projeto de reabilitação, transformar-se em frondoso parque. Desde o início da gestão Pitta a Associação VIVA O CENTRO defende o Parque D. Pedro dessa mutilação, sugerindo – em numerosos ofícios ao prefeito e às autoridades responsáveis pelo projeto, e ainda em suas publicações, que o terminal fosse implantado em terreno lindeiro ao parque ou, caso isso não fosse possível, em subterrâneo, sem interferir na superfície do logradouro. Em mesa-redonda promovida pela Associação em março de 2001 (e cuja íntegra foi publicada no nΊ 21, abril/maio de 2001, desta revista), a VIVA O CENTRO voltou a insistir nessa necessidade aos técnicos, administradores municipais e especialistas em transporte que participaram do evento. Porém, urbs apurou que a Prefeitura não tem planos para a realocação do terminal do Fura-Fila, nem do terminal que, já ocupando grande área do Parque Dom Pedro, abriga linhas de ônibus que servem a zona leste da capital.

Novela

As obras do Fura-Fila começaram em 1998 e tornaram-se uma novela que se estendeu por toda a administração Pitta. Caso cumprisse a promessa de campanha, o então prefeito teria construído mais de 100 quilômetros de linhas em toda a cidade. A Prefeitura alegou falta de dinheiro para não concluir o projeto. Por diversas vezes foram marcadas datas de inauguração do primeiro trecho, que nunca foram cumpridas. Uma pista de testes para o protótipo do veículo chegou a ser montada no Autódromo de Interlagos, com dois ônibus trazidos do sul do País. Foi uma das maneiras encontradas por Pitta para demonstrar que o projeto estava sendo levado adiante.

Para não decepcionar a população e também justificar o investimento, o ex-prefeito chegou a colocar um ônibus circulando, em caráter experimental, entre o Parque Dom Pedro e a Praça Alberto Lion, durante alguns meses. A operação comercial do VLP, cuja eficiência sempre foi contestada por numerosos especialistas, nunca chegou a concretizar-se. Agora, ainda que numa versão menos espetacular, parece que vai funcionar.



  Reportagem  
A difícil equação de tombar e preservar

Conpresp inicia processo de tombamento de mais de uma centena e meia de edifícios, praças, monumentos e viadutos no Centro

FEDERICO MENGOZZI

Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)

OConselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) abriu processo para tombar edificações, praças, um parque, obras de arte em logradouros públicos e viadutos localizados no Centro, num total de 188 itens. Como alguns destes se subdividem, a lista dos bens a conservar fica ainda maior.

O fato, em si, é bastante positivo: contando com cerca de 700 imóveis protegidos, o Centro, agora com quase mil, reafirma sua condição de principal repositório da memória arquitetônica da cidade. Mais que isso, patrimônio histórico significa ganhos para a população e para o país como um todo. Integrado à economia urbana, ele gera receitas públicas, postos de trabalho e renda ao reforçar a identidade da metrópole e atrair turistas e estudiosos.

Na maior parte do mundo, tombar edifícios ou conjuntos arquitetônicos implica preservá-los. Os proprietários costumam ser os maiores beneficiários e têm o máximo interesse em atender às exigências do tombamento, zelando pelos bens protegidos. Mesmo tratando-se de um negócio vantajoso para o titular do imóvel, os governos quase sempre ainda concedem incentivos à preservação. Em São Paulo, mecanismos compensatórios como a Operação Urbana Centro (pouco utilizada devido à falta de demanda) e a Lei de Fachadas procuram estimular os proprietários a investir no restauro e conservação do imóvel listado como de interesse histórico, arquitetônico ou ambiental.

A rigor, os 188 itens ainda não estão tombados. O que se fez foi dar início ao processo de tombamento, no qual, independente de futura aprovação ou não, cada item passa desde logo a enquadrar-se na legislação sobre o assunto. Eventuais intervenções devem respeitar três níveis de proteção. O Nível de Proteção 1 (P-1) corresponde a "bens de excepcional interesse histórico, arquitetônico ou paisagístico, determinando sua preservação integral". Nesse grau, só duas edificações estão presentes na lista do Conpresp: a catedral da Sé e o imóvel à Rua Frederico Alvarenga, 121, além das praças e parques, obras de arte e viadutos. O Nível 2 (P-2) contempla "bens de grande interesse histórico, arquitetônico ou paisagístico, determinando a preservação de suas características externas e de alguns elementos internos, discriminados na ficha cadastral de cada imóvel, que integra o processo de tombamento". Pouco mais de dez edificações estão nessa categoria. Por fim, o nível 3 (P-3), "bens de interesse histórico, arquitetônico ou paisagístico, determinando a preservação de suas características externas". A maioria das edificações protegidas a partir de agora se encontra nessa categoria.

Abrangência

Da lista do DPH constam numerosos prédios das ruas 25 de Março, Cantareira, Barão de Duprat, do Carmo, Boa Vista, 15 de Novembro, Direita, Quintino Bocaiúva, José Bonifácio, Benjamin Constant e outras. No capítulo das praças e parques, acham-se as praças da Sé, Clóvis Bevilaqua, João Mendes e o Parque D. Pedro II. Entre as obras de arte, as esculturas da Praça da Sé (Amílcar de Castro, Bruno Giorgi, Francisco Stockinger, Franz Weissmann, Sérgio Camargo etc.) e os monumentos "Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo", de Amadeo Zani, no Pátio do Colégio, e o Monumento ao Trabalho, de Ettore Ximenes, na Praça Fernando Costa, além do Marco Zero, de Jean Gabriel Villin e Américo R. Neto, também na Sé. E quatro viadutos: Boa Vista, 25 de Março, Brigadeiro Luís Antônio e Dona Paulina (ver o mapa).

Quanto à qualidade desses bens protegidos, nem todos foram objeto da unanimidade de historiadores e especialistas. "Ao lado de iniciativas louváveis, como o tombamento dos prédios dos anos 20, que se inserem no processo de verticalização que o concreto armado possibilitou à cidade, e da própria Praça da Sé, há itens questionáveis", diz o arquiteto Carlos Lemos, professor de História da Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Um desses itens de escassa importância, segundo Lemos, é o Monumento a Anchieta, de Heitor Usai, na Praça da Sé. No entanto, para o arquiteto, a listagem é criteriosa, considerando-se que os membros do Conpresp, entre eles o próprio Lemos, são profissionais de reconhecido saber. Não há por que questionar o conselho. "Como o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o Conpresp cumpre sua função", diz o arquiteto.

O importante, como a Associação VIVA O CENTRO vem insistindo na mídia e Carlos Lemos reconhece, é criar condições para efetivamente preservar o que é tombado, impedindo que, por falta de instrumentos legais e de recursos, o patrimônio se deteriore. Em alguns casos, o tombamento tem efeito inverso. Ao impor padrões para reformas ou restauro, ele pode inibir o proprietário. "Se não houvesse o tombamento, provavelmente o proprietário, bem ou mal, conservaria o patrimônio. Mas, na medida em que ele se torna depositário de um bem público e deve mantê-lo dentro de rígidos e, eventualmente, dispendiosos critérios, deveria receber um auxílio para preservá-lo", argumenta Lemos. "Tombar e preservar é uma equação difícil, que passa pela consciência e pela educação de um povo. Sem vislumbrar o retorno de um investimento, o proprietário se desinteressa e o resultado pode ser o oposto do pretendido."

Instrumentos

É preciso reconsiderar a imagem que se faz do proprietário de uma edificação tombada. Por princípio, acha-se que os prédios da região central pertencem a grandes proprietários ou a sólidas empresas. Nem sempre é assim. Há proprietários de posses médias ou até empobrecidos, que contam com o aluguel como única fonte de renda. Se para todos há a necessidade de instrumentos para custear a preservação do patrimônio, para muitos há a necessidade real de um apoio mais efetivo do poder público. Por enquanto, observa o arquiteto Rubens Reis, da Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, a Prefeitura oferece um único instrumento de incentivo à conservação do bem, a lei no 12.350/97, conhecida como Lei de Fachadas. Por ela, o proprietário (ou patrocinador) desenvolve um projeto de recuperação da fachada de um prédio tombado e o submete à Comissão ProCentro, que gerencia as ações da Prefeitura na área central. Aprovado, o projeto é executado com recursos do interessado, que obtém a isenção por até dez anos do pagamento do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), desde que mantenha a fachada de acordo com o projeto.

"Para alguns vale a pena. O edifício Louvre, por exemplo, beneficiou-se dessa lei", afirma Reis. "Se não existirem instrumentos de incentivo à preservação, a lista do Conpresp está fadada ao fracasso." Há outro instrumento, a Lei nΊ 12.349/97, da Operação Urbana Centro, que prevê a transferência do potencial construtivo do imóvel protegido, mas o benefício, no caso de transferência para fora do Centro, foi suspenso pela Justiça, para a qual a lei interfere no zoneamento das áreas que deveriam receber o benefício — a possibilidade de edificação além dos limites do zoneamento local. Antes disso, a lei provou que pode ser eficiente. O restauro e retrofit do Hotel Atlântico, na Avenida São João, construção em estilo eclético dos anos 20, foi uma das primeiras e bem-sucedidas experiências de preservação com base nessa lei.

Por entender que a lei nΊ 12.349 transfere para o Executivo a competência para estabelecer normas de zoneamento e de uso e ocupação do solo, que é do Legislativo, o Ministério Público entrou com ação para suspender o instrumento, alegando inconstitucionalidade. Mas há esperança de que volte a funcionar, ainda que sob controles mais severos. A arquiteta Nadia Somekh, vice-presidente da Emurb e presidente da ProCentro, lembra que o novo Plano Diretor incorpora o espírito da lei e resolve a questão jurídica ao determinar que o potencial construtivo seja transferido para áreas de maior potencial de adensamento — próximas às linhas do metrô, por exemplo —, que permitem maior verticalização. O Plano Diretor, em seu artigo 267, é claro: "A transferência de potencial construtivo de imóveis, gerada pela Operação Urbana Centro, aprovada pela Lei nΊ 12.349, de 6 de junho de 1997, somente poderá ser efetivada para imóveis localizados até 200 metros (duzentos metros) dos eixos da Rede Estrutural de transporte coletivo de alta capacidade ou nas áreas de Operação Urbana ou de Projeto de Intervenção Urbana Estratégica previstas nesta lei".

Para Nadia, deve existir, além dos instrumentos municipais de incentivo, uma atitude proativa em relação ao problema. "É preciso conservar e recuperar o patrimônio da cidade. Infelizmente, o DPH (Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal da Cultura) não tem estrutura e não consegue fiscalizar os itens tombados ou a serem tombados." Sem fiscalização, sem os olhos do poder público, pouco adianta tombar. Por isso, ela insiste na importância da Agência de Desenvolvimento do Centro, uma entidade pública de direito privado cuja criação coordena, para que os projetos tenham continuidade independentemente de quem ocupa a Prefeitura. A agência, entre outras atribuições, deverá atuar junto com os proprietários de bens tombados para encontrar soluções. "Seu objetivo, em relação aos bens ambientais, arquitetônicos e culturais de São Paulo, não é ingerir nos negócios de ninguém, mas, preservando o patrimônio do proprietário, preservar também o patrimônio público."

A função do Conpresp, concorda também Reis, é – havendo mérito – tombar, ainda que se questione o efeito de um processo de tombamento tão abrangente quanto o previsto pela resolução assinada por Leila Regina Diêgoli, presidente do Conselho. Há quem pergunte se tombamento tão vasto não bloqueia ou congela a região central para grandes intervenções urbanas ou se simplesmente não fecha – vale lembrar que o entorno de uma edificação tombada está sujeita a restrições - o Centro para novas construções. Depois, há questões básicas de segurança. Quem zelará pela integridade de tantos bens tombados, se nem há quem os fiscalize? Na qualidade de morador do Centro há pelo menos 45 anos, o arquiteto Haron Cohen entende que a lei paralisa, sim, a região, embora ela exista para isso mesmo. "O tombamento impede, em tese, que novas construções sejam erguidas de forma indiscriminada, ameaçando o patrimônio público."

Cohen, da mesma forma que Lemos, acredita que o proprietário de um bem tombado deve contar com mais do que belas palavras do poder público. "Nos Estados Unidos, o governo tomba e dá verbas para arcar com os custos de restauro e preservação. Ou seja, o custo do tombamento é assumido por toda a sociedade e não apenas pelo proprietário. Aqui, tomba-se e exigem-se coisas impossíveis, irreais." É necessário, também, pensar duas vezes sobre o que se quer de fato preservar. Por mais categorizados que sejam os técnicos que sugerem os bens a ser tombados, eles nem sempre acertam. Cohen mora num prédio da Avenida São Luís, o Moreira Salles, projetado por Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, nos anos 50. "É um prédio magnífico, com um saguão excepcional, um dos primeiros a incluir, ainda na década de 50, garagem para automóveis. Ele é tombado. O problema é que o prédio do lado, o Santa Rita, todo afrancesado e arquitetonicamente insignificante, também o é. Qual o critério?"

Obrigações recíprocas
É verdade que, sem a educação e a sensibilidade do proprietário, como diz Carlos Lemos, tudo fica mais difícil. Mas as leis e os incentivos existem justamente para compensar essa deficiência. Na verdade, no caso de São Paulo, o maior inimigo da preservação não é a escassa consciência cultural e nem mesmo a eventual insuficiência dos incentivos, mas a falta de uma indispensável contrapartida da Prefeitura: zelar escrupulosamente pelo entorno do bem tombado. O uso rentável do imóvel restaurado só será possível se o ambiente for convidativo para o consumidor, o turista, o cliente. Caso contrário, o edifício, mesmo que esplendidamente reconstituído, ficará isolado e não tardará a novamente degradar-se.

Ocupado maciçamente por milhares de camelôs, com equipamentos públicos depredados ou insuficientes, jardins malcuidados, calçadas em mau estado, limpeza precária, iluminação deficiente e um policiamento inadequado ou pouco presente, o Centro de São Paulo necessita de uma gestão rigorosa e permanente de seus espaços, equipamentos e serviços públicos para que nele o patrimônio tombado possa auto-sustentar-se, o que é a finalidade do tombamento. Hotéis charmosos, lojas diferenciadas, escritórios de luxo e outras atividades típicas de áreas centrais metropolitanas, além de gerarem emprego e renda através da viabilização de atividades comerciais, de entretenimento, lazer e turismo, têm um perfil que os induz a ocupar imóveis restaurados, mas jamais se instalarão em meio à balbúrdia, ao desleixo e à insegurança. Tais atividades asseguram receita suficiente para sustentar a preservação destes bens e ainda remunerar o proprietário. Dotar o Centro dessa qualidade mínima não é nenhuma grande tarefa, pois, afinal, trata-se de apenas 4,4 km2, ou cerca de 0,5% da área urbana do município.

Para completar, os critérios de preservação devem ser claros e o proprietário deve ser tratado como aliado necessário, pois, afinal, em última instância, é ele quem efetivamente irá preservar e dar uso ao bem tombado. Não pode ser tratado como inimigo dos órgãos de preservação. E, para que atinjam um padrão de agilidade e eficiência, os órgãos de preservação precisam de recursos humanos, materiais e financeiros. Só assim poderão cumprir sua missão essencial à cidade.


  Urbanismo Nacional  
Articular o território metropolitano a partir de sua fragmentação:A orla ferroviária

"Como a arquitetura pode agir na ‘terrain vague’ sem se tornar um instrumento de poder e reação abstrata?"

Ignaci de Solà-Morales

A Orla Ferroviária paulistana é território em franca transformação metropolitana e serve como objeto para potencial intervenção linear na metrópole. O ensaio projetual – um "projeto-tese" - recai sobre a área da antiga linha férrea Santos-Jundiaí, no seu trecho central, do Moinho Central (Barra Funda) à Estação Mooca.

A Orla Ferroviária corresponde ao território onde a ferrovia se instalou e mais as áreas contíguas à linha férrea. Está presente no desenho da cidade de forma inexorável. O desenvolvimento da ferrovia, desde a virada do século passado e o seu auge, enquanto instrumento viabilizador da economia industrial paulistana no meio do século, determinou definitivamente a estruturação metropolitana.

As mudanças recentes geradas pela passagem da cidade industrial para a metrópole pós-industrial, de serviços, produziram um retrato cruel naquele território. Com o esvaziamento da ocupação industrial, a ferrovia perde muito de sua função. A falta de incentivo claro à malha ferroviária paulistana, enquanto sistema de transporte público eficiente e integrado ao sistema do metrô, corroborou decisivamente para esse esvaziamento de importância. Sua decadência nas últimas décadas representa também a desqualificação espacial de suas bordas.

Tem-se então um território fragmentado e descaracterizado. As estruturas que definiram a sua ocupação e consolidação hoje representam a sua obsolescência: os terrenos vagos.

É este o território do ensaio projetual. Aplicar novas possibilidades de reorganização territorial. Definir novas estratégias de ocupação. Qual o potencial dos vazios urbanos presentes na Orla Ferroviária de São Paulo? Como trabalhar novas funções e programas contemporâneos a partir das infra-estruturas latentes da urbe? É possível construir um território público metropolitano - a desejável "cidade para todos" - a partir desse território fragmentado?

Desarticulação do território: fluidez, rede de fluxos e terrenos vagos

A metrópole contemporânea apresenta imensas áreas desarticuladas e dispersas pelo território. A espacialização da chamada rede de fluxos elimina a escala precisa. Pode ser local, global ou urbano-regional. A rede de fluxos espalha-se por um território dinâmico, de desenho líquido, mutante. O território metropolitano passa a ser fluído.

Como contraponto inexorável aparecem os espaços residuais. Estes surgem, normalmente, do processo de mudança do modo de produção capitalista e de seus reflexos no território metropolitano. São conseqüência direta das mutações urbanas. O terreno vago é, portanto, resultante do processo de desindustrialização metropolitana do final do século XX. As grandes transformações que os territórios metropolitanos vêm sofrendo ao passar de cidade industrial para pós-industrial, de serviços, abandonando imensas áreas de atividades secundárias, explicam, em grande parte, o surgimento dos terrenos vagos. Terrenos baldios e galpões desocupados junto aos antigos eixos industriais. Antigas áreas produtivas, hoje inoperantes. Massas arquitetônicas do passado industrial, atualmente vazias, em processo de deterioração física (os moinhos presentes na Orla Ferroviária). Mas também surgem das mal planejadas intervenções rodoviaristas, como as áreas residuais presentes no tecido urbano tradicional cortado por gigantescos sistemas de vias expressas. Cicatrizes urbanas. Terras de ninguém.

O território metropolitano conforma-se por uma rede desses espaços residuais e uma rede de fluxos que se complementam. Apesar do avanço vertiginoso do processo de globalização e de suas conexões nodais, no âmbito do espaço territorial, a metrópole ainda detém os chamados "espaços banais", conforme descrito por Milton Santos . Presencia-se um processo de crise, de mutações constantes, onde, por hora, verifica-se o surgimento da metrópole fragmentada, constituída por fraturas urbanas.

A potencialidade do vazio urbano: São Paulo precisa do silêncio arquitetônico

Mas, concomitantemente, está presente no vazio urbano a expectativa do novo.

As áreas residuais são também a presença viva de um potencial imenso. Da reconstrução, renovação, revitalização, mudança. A construção do novo território. Da nova vida coletiva. Da nova metrópole que está à espreita. A crise traz a angústia da ausência clara do uso atual, mas também a esperança de algo novo, indeterminado e promissor: "...delinear o invisível nas bases do visível", conforme Daniel Libeskind .

A arquitetura e a cidade contemporâneas devem ter a plasticidade que as permitam acomodação às articulações da rede de fluxos, aos terrenos vagos, à nova dinâmica presente no território desarticulado. Plasticidade formal e flexibilidade programática são imperiosos no urbanismo contemporâneo.

Um urbanismo dinâmico: volátil, mutante. Estratégico ao invés de formal; flexível, ao invés de rígido. Um urbanismo de estratégias que gere projetos urbanos com mecanismos de auto-regulamentação, de interação e ajuste durante o processo. Morfologias abertas e interativas.

O urbanismo contemporâneo deve absorver todos esses parâmetros e, a partir da realidade existente, desenvolver possibilidades de intervenção. Ou seja, a cidade existente, com os seus diversos fragmentos, como elemento potencial para a construção de um território articulador.

No caso de São Paulo, além das características descritas, acrescente-se o processo de "urbanificação" da metrópole: um urbanismo de caráter meramente técnico, implementado sem o desenvolvimento concomitante de sua outra dimensão, a urbanidade. Uma metrópole retalhada, sem espaços adequadamente planejados pelo território para a convivência coletiva. Aqui,os terrenos vagos são facilmente explicáveis pela renegação do mercado imobiliário e do poder público. São espaços que têm sido ignorados pelos urbanistas, tido quase nenhuma atenção por parte da municipalidade. Representam os espaços que sobram entre as ilhas de desenvolvimento imobiliário da cidade. Os clusters valorizados comercialmente e culturalmente são o contraponto dos terrenos vagos.

Ou seja: os vazios urbanos devem surgir como a oportunidade rara da construção de novos territórios. Novas proposições que lhes dotem de significado, no contraponto da cidade massivamente construída, cinza. A chance de um território central público em meio à massa construída. Sua necessária complementaridade. De significado (plural) e função (social).

A Orla Ferroviária como nova territorialidade metropolitana

O exercício projetual sobre trecho específico da Orla Ferroviária constitui um projeto-tese que procura concentrar e exprimir o embasamento conceitual discutido. Informar o projeto com as idéias. A defesa das idéias pelo projeto.

Está baseado nas hipóteses que colocamos:

• A cidade contemporânea terá de ser pensada a partir das suas estruturas existentes.

• O desafio da arquitetura contemporânea é trabalhar sobre a

cidade existente, sem negá-la, a partir de seus condicionantes, i.e., a reparação da cidade existente.

• As infra-estruturas urbanas devem definir a construção de novos territórios metropolitanos.

• As áreas residuais metropolitanas devem suportar os novos projetos urbanos e articular as novas territorialidades.

• Os projetos urbanos contemporâneos devem basear-se em um urbanismo dinâmico: flexível, estratégico.

A tese central é: as descontinuidades urbanas – as fraturas urbanas – oferecem uma nova possibilidade de projeto urbano, i.e., a construção de uma nova territorialidade metropolitana.

Lança-se, então, uma estratégia projetual de intervenção para um trecho da Orla Ferroviária paulistana: um eixo linear de 12,6 km de extensão - 115 ha - que vai do Moinho Central, na Barra Funda, à Estação Mooca.

Propõe-se um urbanismo dinâmico baseado em matrizes urbanas superpostas.

A estratégia organiza-se em quatro matrizes urbanas complementares, que se sobrepõem e abrem a possibilidade de desenhos múltiplos dentro de suas várias combinações. Uma nova dinâmica urbana, mais flexível às demandas e aos programas múltiplos da metrópole contemporânea. A idéia das superposições atende à flexibilidade temporal, pois não impõe um desenho único. É variável no tempo e no espaço. É dinâmica e comporta variações múltiplas na sua composição para a construção de um território complexo.

Uma estratégia que poderia comportar, no seu desenvolvimento, diversas formas participativas por parte da comunidade envolvida. Sendo flexível, poderia agregar – efetivamente – o processo participativo de modo coerente.

Afinal, trata-se do estabelecimento de uma estratégia de urbanismo que prepare as condições para a construção do território. Que o prepare para receber, coerentemente, os diversos programas urbanos e arquitetônicos, sem, entretanto, definir formas arquitetônicas finais.

As matrizes urbanas priorizam a idéia da construção de um território metropolitano novo, que atue no terreno vago sem preenchê-lo, necessariamente, com peças arquitetônicas. Procura estabelecer possibilidades de atuação no território conforme as suas demandas mutantes, com programas flexíveis. Estabelece-se uma dinâmica composta de 4 matrizes urbanas que se sobrepõem ao longo do tempo:

[m1] Infra-estruturas

Configura-se pela reutilização das infra-estruturas e das estruturas urbanas históricas presentes no território como condições de campo existentes, insumos projetuais: modernização do sistema ferroviário e a sua transformação em metrô de superfície; modernização das estações existentes e criação de novas estações; reativação do patrimônio existente (edifícios históricos, galpões e moinhos permanecem como testemunhos da memória desse território e devem receber usos e programas atuais); recapacitação da área industrial em processo de reconversão por uma nova indústria de base tecnológica e unidades produtivas do tipo dos "clusters industriais"; recuperação do rio Tamanduateí e a sua utilização como meio de transporte de curta distância para cargas e lixo.

[m2] Fluxos

Combinação de projetos para o sistema de transportes: viário, de pedestres e coletivo, que resultem na otimização dos fluxos no eixo metropolitano; incentivo à intermodalidade entre os modos de transportes (rodo-metrô-ferroviário); maior acessibilidade para o território (transposição transversal da ferrovia); continuidade do tecido urbano, permitindo a existência de uma rede de fluxos contínua do novo território com as suas bordas existentes e pré-configuradas; criação de uma "linha inteligente" enterrada (fibras óticas e canais de fluxos informacionais) junto à linha férrea, que possibilite o desenvolvimento dos novos programas, principalmente da nova indústria metropolitana.

[m3] O eixo verde

Ao longo de todo o território, junto à ferrovia, surge um eixo verde, um parque linear metropolitano, cuja imagem final constitua um gradiente verde que varie de densidade do corpo florestal central, para a sua diluição nos territórios urbanizados. Articulado ao parque linear, um conjunto de parques urbanos são propostos em pontos que se apropriam dos vazios mais significativos e articulam-se com os equipamentos já existentes na área lindeira. Sempre que possível, deverá ocorrer a maciça presença da água. Linhas, faixas e grandes espelhos d’água para a captação das águas pluviais, contenção do fluxo de águas fluviais e alternativa aos atuais "piscinões" subterrâneos.

[m4] Bordas urbanas

Procura possibilitar a consolidação do grande eixo público metropolitano - a Orla Ferroviária como integradora de atividades prioritariamente públicas - aos territórios lindeiros, as bordas urbanas. Implementação de habitação coletiva de interesse social, a "cidade para todos", nas franjas urbanas e junto ao parque linear. As tipologias habitacionais devem ser variadas e flexíveis. De modo geral, propõe-se o desenvolvimento de lâminas habitacionais de densidade média e grande altura, justificando a sua implantação junto ao parque linear: 1.298.500 m2 de área construída; 23.084 unidades; 67.810 moradores; densidade demográfica: 589 hab./ha.

Conclusão

O Brasil, como toda a América, é território novo. Permite fazer-se e experimentar-se com vigor. Trata-se de configurar o seu território através da construção de uma arquitetura nova. Um urbanismo que construa o novo território.

Talvez a última possibilidade de construção de um território metropolitano. Público. De urbanismo coletivo. Da cidade para todos. Do grande parque linear sobre a orla. Das habitações coletivas construindo as novas bordas urbanas, enquanto se constrói o silêncio arquitetônico no eixo central. De se propor habitar na área central, junto às infra-estruturas existentes na cidade. De se privilegiar definitivamente o transporte público em detrimento do privado, automobilístico. Portanto, da incorporação ao plano de integração dos transportes públicos, da modernização da malha ferroviária e a sua possível transformação em metrô de superfície. Do poder público voltar a tomar as rédeas do processo de desenvolvimento metropolitano, de gerenciar a cidade com o permanente diálogo entre partes divergentes, porém com a firme determinação da defesa do interesse público.

"O projeto como um lugar, um mirante, de onde se pode ver a realidade, antes de tudo como uma projeção futura. A visão de uma desejada cidade para todos."
Paulo Mendes da Rocha



  Urbanismo Internacional  
Monumentos, políticas e economias da América do Sul

Graziano Ggasparini*

Depois de haver percorrido a América do Sul durante 54 anos para ver, conhecer e estudar sua arquitetura e os momentos de suas várias fases culturais dói-me observar que a grande maioria dos sul-americanos não se importa nem um pouco com o destino do seu patrimônio monumental. Não estou dizendo tolices, emito apenas uma observação que, lamentavelmente, se confirma cada vez mais porque não mudam apenas as atitudes, mas mudam também os valores. O interesse diminui porque aumentam os problemas. Que problemas? Os problemas que enfrentam milhares de pessoas para tentar viver decentemente e, em muitos casos, para sobreviver. A América do Sul tem sido sempre um continente de situações críticas e problemas, de divergências e enfrentamentos, de enganos e frustrações , de promessas não cumpridas, de políticos incapazes, ladrões ou palhaços, do desemprego e também da fome. A América do Sul é Terceiro Mundo, com países eternamente em via de desenvolvimento, repúblicas de bananas e economias de enfarte.

A atitude diante do patrimônio monumental vai mudando e só interessa a um pequeno número de "Quixotes" cada vez mais reduzido. Nas Faculdades de Arquitetura as linhas de prioridade são outras. A História da Arquitetura reduz, cada vez mais, os seus programas de ensino. Para que serve? É uma matéria que, atualmente, interessa mais às agências de viagem, o que explica por que os órgãos tutelares do patrimônio procuram o apoio das Secretarias de Turismo. O que está acontecendo na América do Sul nestas últimas décadas? É triste admitir, mas o fato novo que está se impondo é que os valores deixaram de ser o que eram e vão sendo substituídos pelas necessidades.

Um exemplo eloqüente desta situação caótica nos é oferecido por um artigo recente do conhecido escritor Mário Vargas Llosa que, analisando a situação fiscal da Argentina, se pergunta:"Como é possível que a Argentina, que teve há algumas décadas um dos níveis de vida mais altos do mundo e que parecia destinada, em mais algumas gerações, a competir com a Suíça e a Suécia em desenvolvimento e modernidade, venha retrocedendo a tal ponto que se emparelhe em empobrecimento, desordem e inoperância em matéria de política e economia, com certos países africanos?.." É uma triste constatação do que está ocorrendo na Argentina, porém, independentemente dos níveis de gravidade,não se trata de uma situação exclusiva apenas dessa república. Não há país ao sul do Rio Grande, que não arraste seu rosário de calamidades econômicas e políticas. Os países que hoje estão melhores que a Argentina tiveram também seu turno de anarquia, desintegração e penúria. Este continente de revolucionários e ditadores, de soldos miseráveis e dívidas internacionais cujos interesses consomem boa parte da renda nacional, luta cada vez mais para atingir um nível de vida normal em suas tantas repúblicas. Se no extremo sul a crise argentina é o detalhe funesto, no extremo norte, na outrora próspera e rica Venezuela, a gente se pergunta o que é mais grave, a situação política ou a econômica.

O que tem a ver tudo isto com os monumentos sul-americanos? Muito! Quando a situação econômica de vários países se aproxima dos 80% de miséria, qualquer gasto destinado à conservação do patrimônio monumental soa como um insulto. Pode parecer justificável, entretanto não se justifica. E também não se menciona que a politicalha, a demagogia, a improvisação, a ineficácia, a incapacidade e a trapaça levam a maior fatia do bolo. Não nos esqueçamos que em muitas partes da América do Sul a corrupção já não é um delito. É, sim, um modo de vida.

Na formação das novas gerações temos nos descuidado cada vez mais de ensinar o que representam e significam os monumentos e o vínculo que eles têm com a identidade nacional. Como valores da memória coletiva da nossa cultura e da nossa história os monumentos são também valores frágeis; quando os problemas da vida diária se tornam prioritários está claro que os monumentos perdem os adeptos e simpatizantes . Como dissemos antes: as necessidades suplantam os valores.

Temos monumentos pré-colombianos, coloniais e modernos que são patrimônio da humanidade. Seu cuidado não pode depender de programas de "esmola". Sermos orgulhosos deles também deve ser uma atitude. Um modo de vida.

A desvalorização dos valores

O terceiro ponto refere-se à decomposição dos valores vinculados ao nosso patrimônio cultural, considerado sempre como o testemunho tangível de nossa identidade, história e cultura. Uma decomposição que não é apenas conseqüência das situações políticas ou econômicas, mas também de modificações que afetam o modo de vida, a maneira de julgar, apreciar e aceitar o que antes havíamos rechaçado. Enfim, mudanças radicais em nossas atitudes, mudanças dos valores estéticos e mudanças que pressagiam um futuro diferente.

Estamos perdendo este prazer e esta sensação que somente a autenticidade era capaz de nos transmitir; a autenticidade de uma obra, de sua concepção, de suas formas, de seus materiais e do seu tempo dentro do tempo, ou seja, de tudo o que nos fazia perceber e sentir a presença atemporal de quem a criou, de quem tocou as mesmas pedras que hoje podemos tocar. São as pedras de Teotihuacán, de Ouro Preto, de Quito, de Santo Domingo, do Morro da Habana e de Sacsahuamán. Nomes que são arquiteturas vivas do nosso continente, monumentos que são história e identidade da América do Sul e nosso patrimônio cultural.Vamos perdendo a emoção que eles nos transmitiam, a emoção de respeitá-los e admirá-los em silêncio. Vamos mudando os padrões da nossa cultura para nos darmos conta, tardiamente, que a palavra mística perdeu seu valor.

O valor e o sabor da obra autêntica tem, cada vez mais, menos amigos e mais adeptos às aparências, ao que parece ser e é apenas ficção. Refiro-me à proliferação de uma arquitetura que só chega ao nível da caricatura e da esterilidade criadora. Uma proliferação de mau gosto que com a propaganda enganosa de novos subúrbios e das agências corretoras de imóveis vai invadindo tudo ao nosso redor, tanto no Norte como na América do Sul. Uma invasão de casas em pseudo estilo "mediterrâneo", pseudo estilo "provençal", pseudo estilo "antilhano-caribenho", ou em um pós-moderno que mais parece um pós-mortem vai se estendendo como um vírus de computador e enchendo nossos olhos de edifícios que são disparates, concebidos por profissionais que, se não perderam a dignidade, perderam pelo menos o juízo. Que longe estamos das casas de Richard Neutra no deserto californiano, das de Luis Barragán no México, das de Frank Lloyd Wright nos Estados Unidos ou das de Rogério Salmona na Colômbia.

Outro perigo "desejado" é o turismo. Antes , os monumentos eram restaurados por seus valores históricos e arquitetônicos; hoje se restauram para os turistas. Para que venha mais gente, para que deixem mais dinheiro. Os cem milhões de turistas que a cada ano consomem os monumentos da Itália e Espanha são a inveja de muitos países e a desgraça de muitos italianos e espanhóis. O turismo precisa dos monumentos porque representam um atrativo tão importante como as praias e o sol do Caribe, as gôndolas de Veneza, o Moulin Rouge de Paris, o carnaval do Rio, o tango de Buenos Aires e o cassinos dos hotéis de Las Vegas. A estes últimos quero dedicar umas linhas à parte, porque representam o exemplo mais insultante da fraude à autenticidade. Nem sequer podem intitular-se cópias ou réplicas. São somente monumentos ao triunfo da estupidez, da ilusão falsificada e da mistificação cultural, aceita pela maioria daqueles que se conformam e desfrutam do engano. É uma nova atitude; estar satisfeito com tudo o que carece de valor.

Fora de escala e de entendimento

O hotel The Venetian é uma obra monstruosa, de 4 mil quartos, concebida pelos "papparazzi" da arquitetura . Uma caricatura de Veneza, fora de escala e fora de qualquer entendimento, com sua ponte de Rialto sobre um canal de asfalto transitado por táxis e limosines. Até a água onde estão as gôndolas parece falsa porque se assemelha mais a uma piscina de Hollywood do que à Laguna. Muito perto, está o Hotel Paris que repete o mesmo esquema; não lhe falta a Torre Eiffel nem o Arco do Triunfo, que mais parece o arco da derrota arquitetônica. E, também, é obrigatório citar o hotel New York, New York, uma confusa mistura dos edifícios mais representativos de Manhattan, amparados pela inevitável estátua da Liberdade!

O que acabo de expor nestas breves observações demonstra que estamos enfrentando um momento de mudanças. O mais grave não são as cópias, as réplicas, as vulgaridades, o ridículo. O que preocupa é que uma massa de gente sempre mais numerosa aceite, sem questionar nem analisar, todo um mundo de engano visual, de falso estético, de valorizar as aparências e aceitar a mentira como uma realidade quotidiana. Ao mudar as atitudes, as apreciações e os valores, mudam também os modos de vida, as manifestações culturais, as exigências, os juízos, a educação e os princípios que nos ensinaram a distinguir o que era bom do que era mau. Não é a primeira vez que isto acontece na história, muito pelo contrário; a visão de mundo de um homem do passado nunca pode ser a mesma de qualquer momento posterior. Isto é muito bem captado pela arquitetura, através das mudanças às quais chamamos de estilos. Toda mudança cultural produz situações novas positivas e negativas. Surgem novas formas, novas idéias, novos critérios, novos gostos e novas atitudes.

É difícil determinar e prever, no caso de sermos testemunhas de uma mudança, qual será a orientação, a qualidade ou o lado negativo dessa mudança. Não pretendo ser pessimista, mas não se pode deixar de constatar que, em geral, o nível cultural está baixando, os valores estão se perdendo e vão sendo substituídos por uma das pragas que mais ofendem a nossa identidade cultural: a mediocridade. (Tradução de Adalgiza C. Polari)

* Graziano Gasparini é arquiteto, professor titular de História da Arquitetura e Urbanismo da Universidade Central da Venezuela.



  Entrevista  
O Choque da Modernização


Reitor da Universidade de São Paulo até o ano passado e desde fevereiro secretário de Economia e Planejamento do Estado, o professor e administrador Jacques Markovitch tem vasta experiência em assuntos relacionados à tecnologia e à educação como fatores de desenvolvimento econômico e social. Ex-presidente de empresas estatais (Cesp, CPFL, Eletropaulo e Comgas) durante a gestão do governador Franco Montoro (1986-1989), esse egípcio naturalizado brasileiro está convencido de que o Estado de São Paulo não chega a ser afetado seriamente pela chamada guerra fiscal – ele preserva sua posição de liderança na indústria brasileira – e vai continuar atraindo empresas de alta tecnologia e indústrias não poluentes, além de formar quadros profissionais de excelência para o Brasil inteiro. Para Markovitch, o turismo – com destaque para a cidade de São Paulo, com um gigantesco potencial representado por sua arquitetura, cosmopolitismo e ampla oferta cultural, e principalmente o Centro, "único espaço verdadeiramente público da metrópole" –, os serviços, a construção civil e outros ramos intensivos em mão de obra deverão absorver os contingentes dispensados pela indústria convencional, que se moderniza e enxuga seus quadros, enquanto o sistema educacional paulista, que necessita de melhor qualidade, tratará de formar profissionais para a economia de paradigma informacional. É um desafio formidável para o governo do Estado, as prefeituras e a sociedade paulistas, admite o secretário. "Afinal, o Brasil saltou de 90 milhões para 170 milhões de habitantes em 30 anos – uma Alemanha inteira", disse ele a Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora assistente de urbs, em seu gabinete no bairro do Itaim Bibi.

urbs - O tema do esvaziamento econômico do Estado de São Paulo esteve de volta neste ano eleitoral. Pintaram-se catástrofes. Mas há estatísticas recentes mostrando que a participação paulista na produção industrial brasileira mantém-se mais ou menos estável, na faixa dos 45%. Há esvaziamento?

Jacques Markovitch - Há uma profunda mutação. O que vem se instalando em São Paulo é uma economia de serviços e indústrias "limpas", estas devido em parte a exigências ambientais. São empresas que demandam recursos humanos qualificados, o que o nosso sistema de inovação e as nossas universidades têm conseguido gerar. Tais empresas estão expandindo suas atividades ou surgindo a partir de investimentos novos. Dados da Fundação Seade mostram que entre 2000 e 2001 foram anunciados investimentos anuais em torno de 23 bilhões de reais no Estado. Estamos vivendo uma revolução nas telecomunicações, nas tecnologias da informação, um momento em que a infra-estrutura social está se expandindo velozmente. São Paulo se tornou, para o Brasil, um pólo de formação de quadros.

O senhor cita a indústria de tecnologia e a não poluente. Estamos produzindo o quê?

Basicamente o que sempre produzimos e muito mais. Celulose, química, energia, telecomunicações, informática, aviões, veículos. Mas de modo diferente. Se você vai a São Carlos verá a indústria automotiva se instalando com tecnologia avançada, beneficiando-se, inclusive, do pólo eletrônico da vizinha região de Campinas. Ribeirão Preto é um núcleo de produção e serviços na área biomédica, mas lá você constata também uma forte presença agroindustrial. Há uma atividade agrícola que permite, por exemplo, através da produção de açúcar e da geração de energia usando-se o bagaço da cana, o funcionamento de uma cadeia produtiva completa e muito competitiva. Empresas do setor alimentício estão se instalando no Estado porque um de seus componentes mais importantes, o açúcar, é mais barato. Matéria prima boa e barata, mais tecnologia disponível e uma rede de transportes facilitam também a exportação. Está havendo, sim, uma profunda mudança no perfil econômico de São Paulo. Não há desindustrialização.

A chamada guerra fiscal não tem causado prejuízos à indústria paulista?

Não vamos subestimá-la. Ela de fato atraiu indústrias daqui para outros estados. Mas algumas dessas empresas se deslocaram para se aproximar das fontes de matéria prima. Sabemos de empresas que se instalaram próximas dos locais de extração de fibra de coco, usada na indústria automotiva. Mas São Paulo tem preservado a sua competitividade.
Ou seja, preserva os tais 45%...

A produção industrial paulista sempre estará nessa faixa. O que quero dizer é que mais importante que o volume da produção é a contribuição qualitativa do Estado, com o seu sistema de inovação, e aqui eu me refiro à Fapesp, às universidades, aos institutos de pesquisa. Se vocês tomam o pólo universitário do Butantã, que tem ainda o IPT, o Ipem e outros institutos, encontrarão um dos maiores núcleos de formação de recursos humanos da América Latina. Cerca de um terço dos alunos de pós-graduação nas três universidades estaduais paulistas vem de outros estados, e a maioria deles retorna aos lugares de origem.

E o desemprego? Esse novo paradigma econômico emprega menos.

O desemprego na Região Metropolitana de São Paulo chegava, em maio, a 20% da população economicamente ativa, mas quem se debruçar sobre esse número perceberá que, naquele mês, e trata-se de uma tendência, houve uma expansão dos postos de trabalho em cerca de 31 mil vagas. O problema é que entraram no mercado de trabalho 90 mil novos candidatos a um emprego, registrando-se um déficit de 60 mil. Mas a leitura do índice de desemprego deve ser feita levando-se em conta a especificidade do caso brasileiro. Lembram-se da música da Copa do Mundo de 1970? Falava de 90 milhões de brasileiros em ação. Hoje somos 170 milhões! Ao longo da metade da minha vida fui testemunha do surgimento de um novo país: incorporamos uma Alemanha inteira em 30 anos. Temos que fazer uma leitura muito precisa do que significa expandir a oferta de emprego para absorver os contingentes de jovens que estão chegando e os de pessoas de mais idade, na faixa dos 50 ou 60 anos, que estão dispostas a trabalhar mais 20 ou 30 anos. Se nós formos ler apenas a estatística fria, constataremos de forma superficial que o desemprego aumenta, sem perceber a particularidade demográfica do Brasil. Temos que considerar tanto as gerações mais jovens quanto o que eu chamo de "juventude acumulada" — pessoas que foram acumulando experiência ao longo da vida e que, com saúde, querem continuar trabalhando. Precisamos cada vez mais criar oportunidades em educação, saúde, transporte, informação e comunicação para os jovens que estão entrando e para os veteranos que querem continuar mais tempo no mercado de trabalho.

Mas é possível, digamos assim, humanizar uma economia informacional que tem na dispensa da mão de obra um fator de produtividade?

Quando a máquina a vapor deflagrou a primeira Revolução Industrial, há 200 anos, ela também desempregou. E gerou muitas oportunidades em áreas novas. Hoje ocorre o mesmo: se olharmos para a área da educação, veremos que nunca se precisou tanto de professores e de educadores como agora. Os call centers e empresas de telemarketing e teleatendimento, que se multiplicam na Capital e em todo o Estado, absorvem grandes contingentes de jovens. É verdade que a indústria tradicional, como a automotiva, passa a utilizar tecnologias que reduzem a demanda de mão de obra, mas outros setores, como o turismo, os serviços e a construção civil, revelam um enorme potencial de emprego.

Haverá menos sobressaltos quando a população se estabilizar, isto é, quando o crescimento demográfico for igual a zero?

Em 2025 a população paulista deverá se estabilizar em 45 milhões, com um perfil demográfico bem diferente do atual. Hoje temos dois milhões de pessoas com mais de 65 anos. Deveremos chegar a oito milhões, a grande maioria com saúde.

A Secretaria da Economia e Planejamento tem um projeto denominado O Futuro de São Paulo. Em que consiste?

O que a Secretaria faz, nesse estudo, é olhar para os próximos vinte anos. Uma reflexão sobre o futuro, apoiada em dados da Fundação Seade e no conhecimento acumulado pela Fundação Prefeito Faria Lima, o Cepam. Verificamos o que foi realizado nestes últimos dez anos e esboçamos as metas para os próximos 20. Avançamos em muitos campos. A Secretaria é responsável pelo orçamento e pelo plano plurianual que deverá ser elaborado no próximo ano, para o período de 2004 a 2007. Para isso necessitamos de referências seguras, objetivo dessa reflexão.

Pode-se acreditar que dela surjam estratégias efetivas para que São Paulo vença, até 2025 ou de preferência antes, os problemas de saúde, emprego, segurança, saneamento etc. que ainda persistem?

Se me permitem, é sempre cômodo atribuir essa responsabilidade apenas ao Estado...

Não, ela é de todos nós.

Somos todos responsáveis pela construção desse futuro. Gostaria de mencionar as quatro prioridades com que o Governo do Estado trabalha nessa perspectiva. A primeira é a gestão eficiente dos recursos públicos. O poder público sempre vai arrecadar recursos aquém das necessidades. Em São Paulo já temos bons exemplos dessa gestão, como o Poupatempo, o Governo Eletrônico, as compras realizadas por redes informatizadas às quais todos podem ter acesso. É possível avançar muito mais. Ainda com respeito à primeira prioridade, há o princípio básico de só gastar o que se arrecada. A segunda prioridade refere-se à competitividade do Estado, o que significa oferecer uma infra-estrutura de transporte, energia, telecomunicações, educação e saúde favorável à atração de investimentos. A terceira prioridade é a redução das desigualdades sociais e a geração de empregos, o que exige um ensino de melhor qualidade. Hoje, 70% do orçamento do Estado é destinado à área social, nos campos da educação, saúde, habitação, saneamento e transporte, este como agente de integração e mitigação da exclusão social. A última prioridade, mas não a menos importante, é o desenvolvimento de ações estratégicas tais como — para ficarmos num tema que nos é caro e também à VIVA O CENTRO — as que o Estado desenvolve nas regiões da Luz e da Estação Júlio Prestes, indutoras de requalificação urbana.

Para que esses objetivos sejam atingidos não será indispensável a integração do Estado com os municípios e a sociedade civil?

Os consórcios de municípios poderão lidar mais eficientemente com questões abrangentes como o saneamento, a segurança, o lixo e o meio ambiente.

E a violência? Não estará associada, de algum modo, à desagregação das cidades, à perda da identificação do indivíduo com o habitat urbano?

Sim, em parte ela decorre desse desenraizamento ou perda. Daí a importância das edificações históricas, das praças, da arte pública. Quando se preservam as referências da cidade fica mais fácil saber quem sou, de onde venho, para onde posso ir. Se não há referências e o ambiente é pasteurizado, a pessoa se torna anônima. Ela perde o vínculo com o espaço no qual se insere e, a partir daí, também a identidade. Temos em São Paulo vastas regiões que não construíram uma identidade, são verdadeiros dormitórios nas quais as pessoas se acomodam, indo ao Centro ou à área central apenas para trabalhar ou para tomar nova condução a caminho de outros lugares.

O Centro deve ser um lugar de geração de identidade, de referência histórica e sentimental, de memória. Mas tem um potencial econômico muito grande, cronicamente desperdiçado. É o núcleo verdadeiramente complexo, funcional e socialmente diversificado de uma metrópole global. Em apenas 4,4 km2 pode se desenvolver um complexo de serviços avançados, comércio diferenciado, cultura e turismo numa relação de sinergia intensa.

Eu acrescentaria, a esse complexo de atividades, a dimensão educacional. Há uma universidade se instalando num prédio desocupado por um grande banco na Rua Líbero Badaró. Há a nossa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Citaria também o pólo do Judiciário, o pólo religioso, as sedes do Ministério Público, as bolsas... Com todo o fluxo de pessoas que esses pólos atraem, há condições para expandir atividades de comércio e serviços realmente competitivas. Restam questões que precisam ser resolvidas, como estacionamento e acesso, para que as pessoas realmente freqüentem o Centro, permaneçam nele por mais tempo. É preciso viabilizar uma estética, uma harmonia, um espaço de convívio no qual as pessoas, além de buscar serviços, resolvam dele fazer um espaço de convivência e consumo.

A qualidade do espaço público precisa melhorar bastante.

Mesmo porque o Centro é, talvez, o único lugar da cidade que ainda é um espaço público. O resto foi privatizado. Os espaços de comércio localizados, como os shopping centers, não podem ser tratados como espaços públicos. O único espaço verdadeiramente público que restou é o Centro. A questão é recuperar e valorizar essa área aproveitando o enorme fluxo de pessoas que recebe diariamente, reter essas pessoas por mais tempo. E eliminar aquela marca que ostenta, de ser um grande espaço público e, ao mesmo tempo, de exclusão social. A iniciativa privada precisa se dar conta das oportunidades de investimento na área. Os restaurantes, lanchonetes e confeitarias dos shoppings são modernos e atraentes, fazem com que as pessoas queiram se sentar, tomar um café, comer um doce, relaxar... Por que não a mesma coisa no Centro?

O turismo é uma atividade com imenso potencial de geração de renda, emprego e qualidade urbana, mas é pouco explorado no Estado e na cidade de São Paulo. Por quê?

Imaginem o que se poderia realizar na cidade em termos de turismo histórico e cultural, turismo ecológico, turismo representado pelas tradições que vieram para São Paulo — a festa de San Gennaro, as atrações orientais do bairro da Liberdade, a diversidade de culturas, a forte presença nordestina, o próprio Centro como uma convergência dessas manifestações — e ainda de um turismo confessional religioso, de um turismo científico ancorado por nossos centros universitários e museus de ciência, de um turismo tecnológico, de um turismo arquitetônico, pois São Paulo é vanguarda e mostruário de tudo o que se fez e se faz em arquitetura.

São Paulo é uma cidade global, mas não existe uma estratégia clara de reforço de suas características e atributos como tal. O que precisa ser feito?

Para que esse futuro se viabilize é necessária uma articulação das esferas federal, estadual e municipal, convergindo em suas idéias e interesses e sentando-se na mesma mesa com o setor privado e as ONGs. Isso já vem sendo feito em parte. É preciso atingir uma escala maior. Felizmente o governo do Estado, a Prefeitura e setores do governo federal têm essa preocupação de dotar a cidade de serviços e equipamentos públicos, ofertas culturais, qualidade de vida e estruturas de formação profissional que lhe assegurem poder de atração, eficiência e competitividade global.



  Mosaico  
Leilão deflagra projeto de restauro na Maria Antônia


Com um grande leilão de arte, possível graças a doações feitas por artistas do naipe de Carmela Gross, Arthur Piza, Thomaz Ianelli e Luiz Paulo Baravelli, o Instituto de Arte Contemporânea, idealizado e dirigido por Raquel Arnaud e o Centro Universitário Maria Antônia deram início a uma série de eventos que têm por objetivo levantar fundos para a reforma do histórico prédio da Faculdade de Filosofia,Ciências e Letras da USP, localizado à Rua Maria Antônia, 294, vizinha ao Centro da cidade. As obras no conjunto de edifícios, com projeto de restauro do escritório Una Arquitetos, estão orçadas em cerca de R$ 3,5 milhões, segundo o professor Lorenzo Mammi, diretor do Centro Maria Antônia, e já têm aprovação do Condephaat e do Conpresp, respectivamente os órgãos estadual e municipal responsáveis por seu tombamento como patrimônio histórico.

Jesuítas criam centro de formação e debate no Pátio do Colégio


A menos de dois meses de sua inauguração, o Centro Loyola de Fé e Cultura, instalado no complexo jesuítico existente no Pátio do Colégio, no coração da capital paulista, já está organizando para outubro um grande seminário sobre violência urbana. São Paulo é a quinta cidade do país, depois do Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Juiz de Fora, a receber uma das unidades desse projeto da Companhia de Jesus, que visa à formação espiritual e cultural de leigos por meio de cursos, seminários e espetáculos musicais. A idéia, segundo o padre José Fernandes, diretor do Pátio do Colégio, é promover o debate de questões candentes da atualidade, como a clonagem, sob a ótica cristã.

Mais informações pelo tel. 3105-6899 ou pelo e-mail: pateodocollegio@pateodocollegio.com.br.

Nova direção na Faculdade de Direito e centenário do XI de Agosto


A direção da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ocupada até o começo de agosto pela profͺ. drͺ Ivete Senise, tem novo titular, o prof. dr. Eduardo César Silveira Vita Marchi. Agosto também foi o mês em que os estudantes da escola deram início às comemorações do centenário do Centro Acadêmico XI de Agosto, um dos grêmios estudantis mais antigos e famosos do país, seja pela participação ativa nos destinos políticos do Brasil seja pela forte presença na história da literatura brasileira. As festas dos 100 anos do XI de Agosto devem durar um ano e a dra. Ivete Senise, por seu excelente trabalho à frente da AÇÃO LOCAL São Francisco, continuará presidindo a entidade comunitária.

Filosofia de São Bento antenada com o presente


Restaurado no começo deste ano, o mais antigo curso de filosofia do Brasil – o da Faculdade de Filosofia de São Bento, que funcionou no mosteiro de mesmo nome de 1908 a 59 – tem registrado interesse crescente dos jovens, segundo D. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Jr., diretor geral da faculdade. "E não é para menos. Há uma necessidade de se resgatar o estudo da filosofia em todo o mundo", explica o monge beneditino. "O mundo está sedento de reflexão crítica sobre a nova realidade, que coloca questões éticas extemamente relevantes a partir dos avanços da ciência, em especial com a engenharia genética e a robótica. Mas não só. Também precisamos formar interlocutores com a cidade no âmbito dos valores e da cidadania. Nossa localização central, num local que sempre foi referência cultural e religiosa para a cidade – o Mosteiro de São Bento –, dá pertinência especial a esse projeto."

Mais informações pelo tel. 228-3633 ou no site www.mosteiro.org.br/filosofia.

Exxon Mobil instala escritório no Centro


Várias razões de ordem prática, entre elas a facilidade de locomoção, a proximidade de agências bancárias de praticamente todos os bancos existentes no país e a ampla diversidade comercial, levaram à escolha do Centro por uma das maiores multinacionais de petróleo do mundo para instalar o escritório administrativo de sua filial paulista. Desde julho, a Exxon Mobil ocupa o oitavo andar do Edifício Mercantil Finasa, na Rua Líbero Badaró. O escritório, com 90 funcionários e segundo mais importante da empresa no Brasil (o primeiro é o da matriz, no Rio), uniu três outros antes espalhados pela cidade – um na Chácara Santo Antonio (Mobil), outro na Mooca (Exxon Química) e o terceiro no Itaim Bibi (Esso). Para o gerente de Marketing de Projetos Especiais da Exxon Mobil, Flávio Gama, o ganho foi substancial para todos. "A Exxon vislumbrou uma oportunidade ao acreditar no processo de requalificação do Centro, que está em curso. E todo mundo aprovou. No Centro temos as duas linhas de metrô, estamos próximos dos aeroportos, dos cartórios e do Fórum, o comércio é farto, o número de restaurantes incomparável e a segurança é maior também."

São Paulo vai sediar evento mundial contra a pobreza


A cidade de São Paulo vai coordenar, por escolha da União Européia e pelos próximos três anos, as 81 cidades que já aderiram e as que virão a aderir à Rede 10 do Programa URB-AL, voltada a debater, elencar e difundir projetos de luta contra a pobreza urbana. É a primeira vez que uma cidade brasileira assume um compromisso desse porte. Para organizar os trabalhos, compreendendo seminários anuais, intercâmbio de informações e um site com um banco de dados sobre esses projetos em quatro línguas (inglês, francês, espanhol e português), São Paulo receberá 500 mil euros da União Européia. O valor equivale ao orçamento anual da Secretaria das Relações Internacionais do município, que apresentou a candidatura da cidade. Na disputa, São Paulo concorreu com a Cidade do México. Precisava do apoio de 30 cidades latino-americanas e 20 européias, obteve o crédito de 81, entre as quais as brasileiras Rio de Janeiro, Recife, Belém, Belo Horizonte e Porto Alegre; na América Latina, Buenos Aires, Montevidéu, Assunção, La Paz, Lima, Caracas e Quito; e na Europa, Bonn, Bruxelas, Madri, Barcelona, Paris, Lyon, Roma (que abdicou de sua própria candidatura em favor da capital paulista), Veneza, Gênova, Turim, Atenas e Lisboa, entre outras. "Significa o reconhecimento internacional às políticas sociais da Prefeitura de São Paulo, tidas como o maior programa de combate à pobreza existente hoje na América Latina", diz o secretário de Relações Internacionais, o economista e professor da Unicamp Jorge Eduardo Levy Mattoso. "Coordenar a Rede 10 do URB-AL será extraordinário para São Paulo, podendo reverter na vinda de novos financiamentos e também na liberação de recursos a fundo perdido para projetos sociais." URB-AL é o maior programa de cooperação descentralizada atualmente em curso no mundo, do qual participam municípios da União Européia e da América Latina, sendo uma de suas frentes o combate à pobreza urbana.


  Cultura  
Sapatilha Aafinada

Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo prepara-se para comemorar 35 anos em 2003

ANA FRANCISCA PONZIO


No turbulento ano de 1968, quando as passeatas tomavam conta das ruas e a cultura mundial vivia momentos efervescentes sob o embalo musical de "rebeldes" que iam dos Beatles aos brasileiros Mutantes, surgiu em São Paulo o Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo.

Embora tenha nascido numa época de contestações, protagonizada por uma juventude disposta a mudar o mundo, o elenco que hoje é conhecido como Balé da Cidade de São Paulo deu seus primeiros passos (e piruetas) com timidez e moderação. Em 7 de fevereiro de 1968, quando o então prefeito José Vicente de Faria Lima assinou o decreto que criou a companhia, a proposta era oferecer campo de trabalho para os alunos da Escola Municipal de Bailados e ao mesmo tempo formar um grupo capaz de acompanhar as óperas do teatro da Praça Ramos de Azevedo, inaugurado 57 anos antes.

Sob essa perspectiva, o Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo cumpriu papel estritamente acadêmico em seus primeiros anos de vida. Em meio à rotina de coadjuvante em espetáculos líricos, às vezes o grupo também era requisitado para animar comícios em caminhões, ao lado de políticos como Adhemar de Barros.

Daquele dia-a-dia pitoresco para os tempos atuais, o antigo Corpo de Baile emancipou-se e rejuvenesceu. Entre altos e baixos, tornou-se uma das referências culturais da cidade e, hoje, às vésperas dos 35 anos, exibe um currículo respeitável, construído por artistas de alta competência. Seu repertório, pontuado por criações de coreógrafos brasileiros e estrangeiros, às vezes atravessa períodos menos expressivos. Em geral, as fases de "maré baixa" são provocadas pela falta de projetos consistentes e de longo prazo, somados a orçamentos baixos e irregulares. No entanto, o sucesso prevalece na história do Balé da Cidade de São Paulo (BCSP), o qual sempre deixou claro que o Brasil possui excelentes bailarinos e coreógrafos abertos para a inovação. O alto padrão de seu elenco fica explícito nas apresentações que a companhia vem realizando e que devem se tornar cada vez mais freqüentes neste semestre.

Segundo sua atual diretora artística – Mônica Mion, que assumiu o cargo no início de 2001 depois de dançar durante 25 anos no BCSP – a idéia é manter o grupo em cena, em espetáculos com preços populares, seja no Teatro Municipal ou em outros palcos do Centro e de bairros vizinhos, como o do Teatro Sérgio Cardoso e o do Centro Cultural São Paulo.

Na segunda quinzena de setembro, o BCSP apresentou no Teatro Municipal sua mais recente produção – Res Ipsa, encomendada ao israelense Rami Levi, e Plenilúnio, concebida cinco anos atrás pelos brasileiros Susana Yamauchi e João Maurício. Esteticamente, ambas evidenciam a distância que o grupo mantém de seus primeiros anos e a identidade contemporânea que construiu ao longo de três décadas.

Histórico

Em 1969, quando estreou o seu primeiro espetáculo autônomo, desvinculado das temporadas líricas, o então Corpo de Baile do Teatro Municipal era dirigido pelo paulista Johnny Franklin. Com formação acadêmica, adquirida junto a mestres como Maria Olenewa, a russa que mudou-se no início do século 20 para o Brasil para aqui instituir uma escola de balé, Franklin começou a fazer do Corpo de Baile um grupo de repertório clássico.

Inspirada nas companhias tradicionais da Europa, o elenco de balé do Municipal passou a interpretar obras como O Lago dos Cisnes, Les Sylphides, Copélia. Entretanto, na hierarquia do teatro da Praça Ramos, onde tinha de se contentar com apresentações em horários matutinos, o grupo ainda lutava pela afirmação.

Com a persistência que ainda o caracteriza, o grupo foi ganhando respeito. Em 1970, quando apresentou um símbolo do balé romântico – Giselle –, aproximou-se do doce sabor do sucesso. Prestigiando o elenco, a bailarina Marcia Haydée, que já era uma estrela internacional, protagonizou o espetáculo ao lado de seu partner igualmente célebre, o norte-americano Richard Cragun. Na mesma montagem, no papel da rainha das Willis, estava Marika Gidalli, que no ano seguinte fundaria o Ballet Stagium ao lado de Décio Otero.

Com a saída de Franklin em 1973, logo após à produção de um espetáculo em homenagem a Cacilda Becker (In Memorian), o Corpo de Baile estava pronto para dar uma grande virada em sua trajetória. Após um breve período sob direção das bailarinas e professoras Lia Marques e Marília Franco, o grupo passou a ser dirigido por Antonio Carlos Cardoso, um gaúcho que havia trabalhado na Bélgica no Balé Van Vlaanderen e que retornou ao Brasil para promover uma grande mudança no Corpo de Baile. Foi da bailarina Marilena Ansaldi, que já era uma personalidade da dança no Brasil, a sugestão de trazer Cardoso para São Paulo. O que se viu em seguida confirmou que o novo diretor podia realmente mudar os rumos da companhia paulistana de balé.

Renovação

Na década de 70, a dança paulista vivia um reflorescimento. Tendo o crítico de teatro Sábato Magaldi como Secretário da Cultura, a cidade se abria para novas tendências, inauguradas pelo Ballet Stagium, pelo Teatro da Dança que passou a funcionar na Sala Galpão do Teatro Ruth Escobar e por vários talentos (entre outros Ismael Ivo), que despontavam em palcos alternativos do bairro do Bixiga.

Dentro desse contexto estimulante, o Corpo de Baile se reformulou. Abandonando ranços acadêmicos, assumiu uma identidade moderna. A convite de Cardoso, coreógrafos como Oscar Araiz, Victor Navarro e Luiz Arrieta fizeram com que os bailarinos abandonassem as irrealidades etéreas do balé clássico para expressar a atualidade. Na nova fase, cada nova produção da companhia mobilizava as platéias da cidade, que compareciam em peso ao Teatro Municipal para ver o elenco dançando obras como Danças Sacras e Profanas, de Navarro, e Mulheres, de Araiz. Ou ainda observar como a dança se apropriava de temas atuais como a condição feminina, abordada em Medéia, que Marilena Ansaldi coreografou com música de Pink Floyd.

Muitos bailarinos daquela época – como Ivonice Satie, que nos anos 90 dirigiu a companhia, Lea Havas, Carlos Demitre e Iracity Cardoso – depois migraram para a Europa, em busca de melhores oportunidades. Ao sabor das instabilidades que marcam a vida econômica do Brasil, o grupo de balé do Teatro Municipal paulista também alternou sua rotina entre ótimos e péssimos momentos, depois que Cardoso se desligou da companhia, no final da década de 70.

Entre os momentos prósperos, destaca-se a breve gestão de Klauss Vianna, que introduziu novo vigor ao grupo enquanto o dirigiu, entre abril de 1982 e julho de 1983. Foi nesta época que a companhia ganhou a denominação de Balé da Cidade de São Paulo. "Embora curta, a fase de convivência com Klauss foi muito rica e intensa. Ao formar um grupo experimental paralelo, ele congregou várias tendências, desenvolvidas pelas personalidades distintas que ele trouxe para o Balé, como Denilto Gomes, Mara Borba, Sonia Mota e J.C.Violla", lembra Monica Mion.

Do paraíso, no entanto, o BCSP por vezes desceu ao inferno. Em 1988, o grupo enfrentou oito meses de paralisação. Sem respaldo político, naquele ano o elenco de balé também foi proibido, pelo então prefeito Jânio Quadros, de se apresentar fora de São Paulo. Outra crise ocorreu em 1994, quando o elenco resolveu não realizar um espetáculo, em protesto contra o constante atraso no pagamento dos salários. Furioso com a ousadia dos bailarinos, o prefeito Paulo Maluf demitiu o grupo, para logo voltar atrás e readmitir todos.

As interrupções sofridas pelas mudanças de governo se atenuaram nos anos 90. De lá para cá, o BCSP teve diretores como Ivonice Satie e José Possi Neto. Em 1996, após apresentar-se na França, na Bienal da Dança de Lyon, o grupo introduziu-se na cena internacional, passando a se apresentar fora do Brasil.

Hoje, cosmopolita e moderno, o BCSP se prepara para comemorar seus 35 anos em 2003. Até lá, é provável que já tenho se mudado do bairro do Bixiga, onde funciona sua sala de ensaios, para o prédio do cine Olido, na região central, onde o atual Secretário Municipal da Cultura, Marco Aurélio Garcia, pretende instalar os corpos estáveis do Teatro Municipal.

A maior meta para 2003, entretanto, é apresentar-se em alto estilo. Entre os espetáculos que o BCSP pretende estrear no próximo ano inclui-se Perpetuum, um sucesso internacional que seu autor, o coreógrafo israelense Ohad Naharin, só cede para companhias de padrão internacional. Para o elenco paulistano de balé, esse aval mais do que merecido também representa a chance de revigorar o repertório e, quem sabe, iniciar mais uma fase de fertilidade artística.


  Cultura  
Finíssima Arte

Centro Cultural Banco do Brasil exibe em São Paulo as gravuras do genial Rembrandt

Ana Francisca Ponzio



Para quem vem da rua, será necessário certo esforço para adaptar o olhar à penumbra e aos quadros em branco-e-preto, de pequenas dimensões, que compõem a exposição "Rembrandt e a Arte da Gravura", que o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresenta entre 7 de setembro e 3 de novembro. No entanto, o esforço de visão vale a pena. Um dos eventos culturais mais importantes de 2002, a exposição com ingressos gratuitos traz para o Centro paulistano uma coleção de obras-primas, que reúne 83 das quase 300 gravuras que o mestre holandês produziu.

Incluindo a maior parte dos temas explorados por Rembrandt (1606-1669), a mostra deixa pela primeira vez o Museu Casa de Rembrandt de Amsterdã, onde o artista viveu durante 20 anos. Para mostrar a influência do mestre sobre os artistas de sua época e das gerações que lhe sucederam, os curadores Ed de Heer e Pieter Tjabbes também organizaram uma exposição complementar com 40 peças, entre as quais se destaca uma gravura de Picasso, que foi um assumido admirador de Rembrandt.

Em sua trajetória, Rembrandt produziu gravuras tão magistrais quanto as suas pinturas. As primeiras águas-fortes de sua autoria datam de 1627, quando ele começou a trabalhar em sua cidade natal, Leyden, de onde se transferiu para Amsterdã, quatro anos depois. Como o alemão Albrecht Dürer (1471-1528), precursor da arte da gravura, Rembrandt fazia uso da ponta-seca. Só que nas mãos do mestre holandês esse instrumento de entalhe produzia maravilhas insuperáveis.

Conforme observa H. W. Janson em seu livro História da Arte, Rembrandt conquistou importância ímpar na arte da gravura por saber explorar a ampla gama de tonalidades proporcionada pela técnica da água-forte. Esta é obtida a partir de uma placa de cobre recoberta com resina, sobre a qual o desenho é riscado com um estilete. São os banhos de ácido subseqüentes que determinam as profundidades dos sulcos. Entre os processos gráficos existentes, a água-forte é o que permite obter a maior variedade de tons claros e escuros.

Ao se apossar dessa técnica, Rembrant obteve resultados incomparáveis. Além de jogos de sombras de extrema sutileza, ele conseguiu produzir texturas aveludadas e qualidades tonais que nenhum outro artista, depois dele, alcançou.

Na exposição em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, ainda é possível apreciar os temas preferidos do artista. Aos bíblicos, em particular, ele conferiu o espírito laico que Caravaggio já havia antecipado. Em vez de meramente ilustrar a doutrina cristã, como se costumava fazer, ele estabeleceu relações mais diretas entre Deus e os homens, por meio de imagens carregadas de dramaticidade.

Os auto-retratos também marcam a obra de Rembrandt e alguns dos mais célebres que ele produziu em gravura estão presentes na exposição em São Paulo. Um deles é o "Auto-Retrato Apoiado num Muro de Pedra", que mostra o artista na idade madura. Entre as cerca de 80 imagens de si mesmo que produziu, Rembrandt procurou captar a passagem do tempo, por meio de um rigoroso exercídio de estilo e investigação. Impiedoso consigo mesmo, ele registrou todos os dramas de sua vida nas feições envelhecidas de seu último auto-retrato, produzido pouco antes de sua morte.

Na velhice pobre e solitária, Rembrandt já amargava o esquecimento que pairou sobre sua obra durante mais de uma centena de anos, até ele voltar a ser reconhecido e enfim alcançar o panteão dos maiores artistas plásticos de todos os tempos. Biograficamente, Rembrandt enfrentou atribulações semelhantes às de Michelangelo, daí as interpretações romanceadas que as vidas de ambos renderam.

Precocidade

Filho de um moleiro, Rembrandt Harmens van Rijn demonstrou seu talento precocemente e aos 21 anos já desfrutava de considerável prestígio. Antes de chegar aos 30 já estava famoso e rico. Porém, a morte de três de seus quatro filhos e em seguida a da esposa, deu início a uma derrocada que se intensificou quando ele pintou "A Ronda Noturna". Encomendada por um capitão chamado Frans Bonninck Cocs, essa obra-prima foi rechaçada pelo militar, que queria meramente um retrato pessoal e não uma cena coletiva de troca de guarda com tamanha densidade. Para a clientela burguesa da época, disposta a recobrir suas paredes com imagens singelas, os quadros de Rembrandt eram penetrantes e ousados demais.

A rejeição geral se refletiu nas encomendas, que se tornaram cada vez mais escassas. Afundado em dívidas, Rembrandt chegou ao ponto de ter que leiloar móveis e quadros para poder sobreviver. Um deles seria o "Auto-Retrato de Barba Nascente", que hoje pertence ao Masp – Museu de Arte de São Paulo.

Mais de três séculos depois de sua morte, o gênio visionário de Rembrandt continua instigando artistas e teóricos, que já o consideraram um precursor da modernidade. Tal dimensão pode ser percebida na exposição de gravuras do Centro Cultural Banco do Brasil, a qual revela uma variedade temática que não possui equivalente na pintura do mestre.

Em meio aos auto-retratos e às representações bíblicas, encontram-se nus, paisagens, alegorias e cenas mitológicas. Sob uma iluminação quase dez vezes menor do que as utilizadas habitualmente em exposições, a mostra estabelece com o público o intimismo – uma qualidade que Rembrandt perseguiu em todas as suas obras.

Um Rembrandt na Pinacoteca
A Pinacoteca do Estado de São Paulo tem o privilégio de possuir o único exemplar em coleção pública brasileira de obra assinada por Rembrandt com reconhecimento da Comissão Rembrandt, sediada na Holanda e formada por autoridades artísticas encarregadas de avalizar a autenticidade da autoria. "Figura" — um retrato de Clément de Jonghe —, que tem 1651 como data aproximada de fatura, é uma água-forte incluída no acervo da Pinacoteca por doação de Ana de Azevedo Marques em 27 de dezembro de 1949. Segundo críticos especializados, trata-se de outro dos trabalhos do artista holandês a revelar grande sensibilidade frente à condição humana. Na América do Sul, segundo essas mesmas fontes, o outro Rembrandt em coleção pública com o "selo de qualidade" da Comissão está no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e é uma pintura.


  Cultura  
Em Têmpera, Mosaico e Vidro

Ana Maria Ciccacio
Fotos de Jesus Carlos (imagenlatina)



O Centro de São Paulo não é apenas o lugar de maior concentração de equipamentos culturais. É também a região onde está o maior número de murais da cidade

Além de não custar nada, é uma "viagem" por cores, formas e inusitados conteúdos "abrir" uma janela na

correria diária para dar um pouco de atenção a essa arte que, generosa, entrega-se completamente à fruição. No Centro da capital paulista há murais assinados pelos mais consagrados artistas do país, como Di Cavalcanti e

Portinari, e com uma vantagem: esses murais ou estão em espaços públicos, de livre acesso portanto, ou em recintos privados de uso coletivo, caso de estações de metrô, de algumas galerias comerciais, igrejas e até mesmo do

saguão da Bovespa.

Toda vez que se fala em mural é quase inevitável pensar nos três grandes muralistas mexicanos do século XX — Diego Rivera (1886-1957), José Clemente Orozco (1883-1949) e David Alfaro Siqueiros (1896-1974) — dada a sua força na história da arte mundial. Com a arquiteta Maria Cristina André Campos, autora da dissertação de mestrado "Memória Urbana/ Mural Moderno em São Paulo",

defendida na FAUUSP no ano passado, não foi diferente. "Também comecei me reportando a eles", recorda ela. "Mas nossa realidade é outra. Enquanto os muralistas mexicanos têm sua arte voltada à exortação da revolução popular que libertou o México do colonialismo, a maioria dos artistas brasileiros, quase à mesma época, enveredou pela criação de painéis intimamente ligados à arquitetura moderna, sob

influência de Le Corbusier, que esteve no Rio de Janeiro em 1929 e 1936 difundindo suas teses. Não dá para imaginar aquela parede curva do edifício do Teatro Cultura Artística, projetado pelo arquiteto Rino Levy e construído entre 1947 e 1950, sem o imenso painel produzido por Di Cavalcanti para reverenciar as formas de expressão artística

da humanidade."

Aqui, sem a intenção de fazer um inventário ou de propor um roteiro turístico, mas apenas de instigar o olhar a se permitir a aventura da beleza, urbs selecionou alguns desses murais. Quem tiver a intenção de ampliar a "viagem" encontrará mais informações no box

"Referências". Importante: algumas dessas jóias precisam de restauro urgente. Quem se habilita a patrocinar?

Construções translúcidas

Deslumbrantes ao sol, os vitrais sempre compõem um espetáculo à parte. No Centro de São Paulo, alguns como os da Basílica de Nossa Senhora da Assunção, no Mosteiro de São Bento, convidam languidamente a uma pausa para a meditação. É só deixar-se enlevar. Ali, num belíssimo conjunto idealizado por volta de 1912 por Dom Adelbert Gresnicht, monge beneditino e artista de origem belga, e manufaturados em Munique, na Alemanha, pontificam vitrais representando Nossa Senhora da Assunção, no altar mor; A Morte de São Bento, na lateral direita do transcepto; e, sobre o portal de entrada, Os Quatro Evangelistas.

Outras preciosidades translúcidas do Centro são creditadas à família Sorgenicht, descendente de alemães e formada por grandes vitralistas, entre eles o conceituado Conrado. Nos anos 1920, os Sorgenicht produziram algumas maravilhas em mosaico de vidro, que se acham espalhadas por importantes edifícios da região, entre eles o Teatro Municipal, a Catedral da Sé e a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Vale conferir as cenas agrícolas que figuram no vitral de 1928, elaborado para o Mercado Municipal, e as cenas ferroviárias no Concourse da Estação Júlio Prestes, em vitrais criados no ano seguinte.

Referências

Operários da Modernidade, de Maria Cecília França Lourenço. Hucitec/Edusp. São Paulo, 1995.

Memória Urbana/Mural Moderno em São Paulo, dissertação de mestrado de Maria Cristina André Campos. FAUUSP, 2001.

Monumentos Urbanos de São Paulo, de Maria Lúcia Perrone Passos, Caderno de História de São Paulo nΊ 2, do Museu Paulista, São Paulo-SP.

Monumentos Urbanos/Obras de Arte na Cidade de São Paulo, texto de Tadeu Chiarelli, Prêmio Editorial/Banco Sudameris Brasil, São Paulo-SP, 1998.

Arte no Metrô/São Paulo-Brasil. Apresentação Celso Giosa. Alter Market. São Paulo-SP, 1994.

www.metro.sp.gov.br


  Mix Artes e Espetáculos  
Iluminados


A aclamada Filarmônica de Dresden (acima), fundada em 1870, quando da inauguração da primeira sala de concertos na cidade, é mais uma das grandes atrações que a Sociedade de Cultura Artística programou para comemorar, este ano, seu 90Ί aniversário. Compositores como Brahms, Tchaikovsky, Dvorak e Richard Strauss regereram obras suas à frente dela. Em São Paulo, as apresentações do tradicionalíssimo conjunto, enriquecidas pela presença do coro quinhentista da Igreja da Santa Cruz de Dresden, sob regência de Roderich Kreile, serão em 22 e 23 de outubro, especialmente na Sala São Paulo (Complexo Cultural Júlio Prestes) e não no Teatro Cultura Artística.

Sociedade de Cultura Artística - Para ingressos: Rua Nestor Pestana, 196, das 12h às 19h. Televendas: 3258-3344, das 12h às 18h. Site: www.culturaartistica.com.br. Preço a conferir. Sem estacionamento.

Pilar da história


Desde sua fundação, em 1961, o Teatro Oficina tem privilegiado um repertório direcionado às questões da cultura brasileira. Sob a direção do incansável José Celso Martinez Corrêa, a história do Oficina se confunde com a história do próprio teatro paulistano, tradicionalmente preocupado com as transformações sociais. E 2002 representa um ano especial para o grupo. Rigoroso com seus propósitos, o Oficina está lutando para conseguir apresentar Os Sertões, de Euclides da Cunha, obra fundamental que está completando 100 anos. Em busca de patrocínio, a montagem pretende ser uma escultura teatral viva da obra literária. Além de programar ensaios abertos em todo o Estado de São Paulo, aulas de capoeira na comunidade da Bela Vista, o grupo trará novos protagonistas para a montagem, que pretende exibir antes de dezembro. Segundo Zé Celso, "Canudos, nos dias de hoje, rompe bloqueios, supera seu massacre, abrindo oasys na urbes, sem ideal ascético, mas terreno, de saídas dos becos sem saída: os Sertões na Ágora. Um trabalho de retorno à origem e afirmação da história-passada-presente-futura da Terra, do Mais que Humano, da Luta do Brasil, do Oficina para seu eterno retorno em rocha viva". É o Teatro Oficina, mais uma vez, discutindo a realidade em que vive e buscando formas de reproduzi-la.

Teatro Oficina Uzyna Uzona - Rua Jaceguai, 520. Bela Vista. Tel. 3106-2818. Site: www.teatroficina.com.br. E-mail : teatroficina@uol.com.br

Fecho de ouro


Mozart, com As Bodas de Fígaro, encerra a Temporada de Ópera 2002 do Teatro Municipal de São Paulo, em outubro, com a Sinfônica Municipal e o Coral Lírico sob direção musical e regência de Ira Levin, com direção cênica de Alberto Felix Alberto, cenários de Ricardo Cinalli e figurinos de Delia Cancela. A montagem é a mesma que estreou em junho deste ano no Teatro Colón, de Buenos Aires. No elenco, Gordon Hawkins (barítono) no papel do conde de Almaviva, Rosella Ragatzu (soprano) como a condessa Rosina, Rosana Lamosa (soprano) interpretando Susanna e Paulo Szot (barítono), na pele de Fígaro. As Bodas de Fígaro (1785-86), ópera bufa em quatro atos, tem libreto de Lorenzo da Ponte e se baseia na obra de Beaumarchais. É uma das três grandes comédias musicais italianas de Mozart, junto com Dom Giovanni (1787) e Cosí Fan Tutte (1789-90). Nas três, de modo inconfundível, o classicismo musical se revela exemplarmente como teatro e a essência temática é voltada à harmonia entre os homens e à fidelidade. Além disso, por trás de uma linguagem aparentemente frívola há toda uma profundidade filosófica, que vai de encontro ao Iluminismo e aos ideais da Revolução Francesa. Os espetáculos estão agendados para 20 de outubro, às 17h; 22, 24, 26 e 28, às 20h30.

Teatro Municipal - Praça Ramos de Azevedo, s/n. Tel. 228-8968. Metrô Anhangabaú/Saída Xavier de Toledo. Preço a conferir. Horário variado. Sem estacionamento.

Missão de vida


Já está à venda pelo selo sueco Bis!, cuja missão é divulgar a música erudita mundo afora, o CD da Osesp, segundo de uma série de doze títulos da orquestra que devem circular no mercado mundial. Foi gravado entre os dias 24 e 29 de junho, sob a batuta do regente associado Roberto Minczuk, que regeu as Bachianas NΊ 2, 3 e 4, do compositor carioca Heitor Villa Lobos. No mês de maio foi a vez do maestro John Neschling dar o tom ao primeiro registro, com composições do paulista Camargo Guarnieri. Para gabaritar ainda mais a gravação, a Osesp contou com a participação do violinista Cláudio Cruz como spalla e do pianista carioca Jean-Louis Steuerman como solista convidado para a Bachiana N° 3. Depois, a orquestra seguiu para a temporada de inverno que faz todo o ano em Campos do Jordão e, na volta, retomou sua programação de espetáculos na cidade a todo vapor. Mas em outubro o destaque vai para o Coro da Osesp, primeiro cantando músicas de compositores franceses do século XX, nos dias 10 e 12, sob a regência da maestrina convidada Laurence Equilbey, formada pela Sorbonne e dedicada à música francesa a cappella; e depois, nos dias 24 e 26, executando a belíssima Messe Basse, de Gabriel Fauré, sob a regência de sua titular, a maestrina Naomi Munakata. Encerra o espetáculo o Coro Infantil da Osesp, regido por Teruo Yoshida, com o Réquiem, de Liszt. Ideal, para não perder estes e outros dos melhores concertos da cidade, é sempre ter à mão a programação completa da orquestra, à disposição na própria Sala São Paulo.

Sala São Paulo - Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz, distante 500 metros. Horário variado. Preço a conferir. Estacionamento interno (R$5,00).

Fama internacional


Formado em 1994, por quatro instrumentistas brasileiros, o Quarteto Amazônia tem como objetivo divulgar obras de compositores brasileiros e do repertório tradicional. Por seus propósitos, impecavelmente defendidos, conquistou o cenário musical brasileiro e logo ganhou fama internacional. Sua primeira turnê européia, em maio de 2000, com concertos na França, Alemanha e Áustria rendeu imediata repercussão e convites para apresentações em Roma, Viena, Praga, Budapeste e Zagreb. Na mesma ocasião já estava realizando gravações ao vivo pela Rádio Bartók, de Budapeste, e sendo alvo de um programa inteiramente dedicado a ele, produzido pela RAI de Roma, cujo tema eram compositores brasileiros. Em seguida, recebia uma série de convites para concertos, incluindo apresentação no renomado Carin thischer Sommer Festival, em Ossiach (Áustria).

Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz, distante 500 metros. Maiores informações sobre o Quarteto Amazônia, Cassiane Nascimento, tel. 3259-2165

Falando de amor


Paralelamente à exposição de Rembrandt em cartaz nos próximos meses, o Centro Cultural Banco do Brasil estará apresentando uma série de espetáculos cujo tema central é o amor. Sobre o Amor e a Amizade, texto inédito de Caio Fernando Abreu, adaptado pela atriz Grace Gianoukas, focaliza os problemas e sonhos de cada um em montagem que faz um retrato das transformações pelas quais passam o homem e a vida na cidade. Com cenário de Guto Lacaz, um ascensorista assiste a um desfile de tipos urbanos e protagoniza transformações de três décadas que culminam no século XXI. A temporada se estende até 20 de outubro. Cartas de Amor, entre 05 e 11 de novembro, é outro espetáculo, este marcado pelo lirismo nas músicas, iluminação e cenários escolhidos para ambientar a leitura de cartas de amor trocadas por casais famosos. O espetáculo ficará a cargo do grupo francês Flos Campi, da Catedral de Notre Dame de Paris, que dará o tom ao amor de Mozart e Constanza, Napoleão e Josefina, Pedro I e Marquesa de Santos, Rodin e Camille Claudel, Rimbaud e Verlaine, Cocteau e Jean Marais e Diego Rivera e Frida Kahlo.

Centro Cultural Banco do Brasil Rua Álvares Penteado, 112. Tel. 3113-3651/3652. Metrô São Bento ou Sé. Terça a domingo das 12h às 18h30. Ingressos R$3,00 a R$15,00. Estacionamento e transporte por van, de terça a domingo a partir das 11h50, com saída do estacionamento Estapar da rua da Consolação, 228 e ponto final no Hotel Othon (Rua Líbero Badaró, 190) com retornos periódicos.


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Curvas assassinas


Há muitos anos o engenheiro Ardevan Machado, professor aposentado da Escola Politécnica da USP, vem se dedicando à tarefa de corrigir as mal projetadas curvas de estradas e avenidas que alimentam a espantosa lista de mortos e feridos que o trânsito brasileiro produz anualmente. Admirado por leitores de jornais, alguns colegas e parentes de vítimas do que chama de "curvas assassinas", Machado parece longe de sensibilizar os poderes públicos. Mesmo oferecendo-se para elaborar gratuitamente o projeto das correções, corrigiu apenas 21 curvas em todo o país. É figura incômoda. Mas a luta do professor acaba de ganhar um reforço: o seu livro As Curvas Assassinas e Outras Sinas - Uma Saga no Reino dos Sofistas do Trânsito (edição do autor, 286 páginas, R$50, pedidos pelo tel. 3865-4461 ou 3872-4683). É uma fartíssima, divertida e esclarecedora coletânea de artigos, citações, estatísticas, correspondência, projetos, cálculos, desenhos, fotos e anedotas com que o autor pretende chamar a atenção para a sua causa — que, em vez de bandeira obstinada de um homem só, deveria ser elementar obrigação dos governantes.

Radiografia da exclusão


Professor de Sociologia da Universidade da Califórnia, Berkeley, e pesquisador no Centro de Sociologia do Collège de France, em Paris, Loïc Wacquant perpetra uma verdadeira radiografia da marginalidade urbana no livro Os Condenados da Cidade (Editora Revan, 224 páginas, R$ 26). O trabalho parte de uma investigação sobre a natureza de um gueto negro nos Estados Unidos e de um aglomerado periférico na França, com semelhanças e diferenças remetendo à necessidade de muito estudo ainda, caso governos e sociedade tenham realmente como estratégia a elaboração de políticas contra a exclusão social.

Verde que te quero verde


Oxigenação, sombra e beleza, mas não só. Árvores, quando estrategicamente inseridas na paisagem urbana, podem se tornar até referencias para os habitantes de uma cidade, ajudando-os a se localizar e a conservar a memória do lugar. Nos processos de reurbanização e/ou de requalificação urbana visando à qualidade de vida, as árvores desempenham papel fundamental. Nessa linha, os professores da FAUURGS Lucia Mascaró e Juan Mascaró produziram um livro muito prático: Vegetação Urbana (co-edição Finep e UFRGS, 242 páginas, R$ 34), que ao final até fornece um utilíssimo catálogo de espécies adequadas ao clima tropical. Pedidos à Livraria do Arquiteto, Porto Alegre, tel. (51) 3212-4644 ou pelo site liv.arq@terra.com.br.

Nomes que recontam a história


A palavra Anhangabaú já teve pelo menos cinco grafias, e bem mais complexas do que a atual: Unhiguibahul, Unhengabahyl, Inhangavahy, Inhangavahu e Anhangabay. Essa e outras curiosidades compõem o livro A Dinâmica dos Nomes na Cidade de São Paulo/ 1554-1897, da professora Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick, da FFLCH/USP (Annablume, 394 páginas, R$ 25). Elaborado para tese de livre-docência, o estudo parte dos nomes dados aos logradouros da cidade para recontar a história desde o povoado quinhentista, surgido no Pátio do Colégio, à cidade dos oitocentos precursora da metrópole de hoje.

Corcéis legendários


Músico, produtor cultural e militante de causas ambientais e de cidadania, o paulistano Malcolm Forest é um estudioso dos carros que ocuparam as ruas de São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Os legendários Lincoln, Auburn, Oldsmobile, Hupmobile, Marmon, Ford, Stutz, Lancia e Packard, entre muitas outras marcas, desfilam, com seus pilotos e proprietários, nos capítulos de seu livro Automóveis de São Paulo – Memória Fotográfica de Pessoas, Automóveis e Localidades do Estado de São Paulo (Arquivo do Estado/Imprensa Oficial, 208 páginas, R$47), em edição encadernada e ilustrada por fotografias de época. Precioso para quem deseja conhecer (ou recordar) um tempo em que o automóvel se compunha com o homem e a cidade. À venda na livraria do Arquivo do Estado (Rua Voluntários da Pátria, 596, tel. 6221-4785).


  Mix Mesa  
Efigênia

Sob as vigas metálicas do viaduto e ao pé do Mosteiro de São Bento, cozinha e ambiente fazem sucesso

JOÃO PODANOVSKY


A alimentação não é só mata-fome. É uma experiência sensorial ampla, que afeta todos os sentidos, toda a pessoa, corpo e espírito. Para satisfação dos ouvidos, som de jazz e boa mpb no ar, trilos de pássaros, sinos de São Bento. Para alegria dos olhos, gente bonita à volta e o verde de velhas árvores. Para contentamento do olfato e paladar, o aroma e sabor das iguarias. Para agrado do sentido social, atendimento simpático e sem frescuras, mesas bem distaciadas. Para prazer cultural, o estar sob as vigas de ferro belga do Viaduto Santa Ifigênia e ao pé do Mosteiro de São Bento, que antes fora a aldeia de Tibiriçá. Com tantas e tais compensações seletivas, o bolso talvez não lamente os reais, tendo-os por muito bem gastos. (É honesto creditar esse parágrafo ao proprietário Tito Caloi, que o inspirou.)

Pela conversa tida com Tito, ele e o sócio Zeca Alcântara Machado — ambos jovens-maduros de 44 anos, administradores de empresas, colegas desde os tempos de colégio — devem pertencer à "geração natureba". Querem tudo fresquinho, matéria-prima de primeira, apesar de mais cara. Na cozinha, o paraibano chefe Carlindo disputa vedetismo com um forno alemão de última geração, que assa e hidrata ao mesmo tempo graças a seu duplo sistema de ar quente e vapor, e que preserva ao máximo os nutrientes dos alimentos. Quase tudo sai desse forno, há um mínimo de frituras. O que há muito é salada. Daí a opção pelo serviço de bufê, que favorece a variedade.

E gamaram o lugar pela sua verde tropicalidade, bem no coração da depressiva urbe de cimento e aço. A chuva de folhas que cai do dossel de árvores forçou a montagem de enorme tenda translúcida, protetora da comida. O consolo é pensar que ela, a tenda, semelha uma gigantesca barraca campestre.

Dois ambientes. Um sob a alta barraca branca (que lá já estava armada quando Tito e Zeca inauguraram o restaurante em julho do ano passado). Outro sob o vigamento belga do viaduto, nas místicas raízes do mosteiro beneditino. O passaredo freqüenta as árvores sem conta ao redor. Nos finais de tarde, maritacas em bando vêm esgüelar na galhada, contraponteando com o jazz da happy-hour. Tão desafinadas, tão encantadoras. Uns 200 assentos de junco para a platéia embevecida.

Tão bom ter no centro histórico de São Paulo um lugar assim.

Efigênia
Estação São Bento do Metrô, piso boulevard, lojas 1 e 2. — Almoço de segunda a sexta: 12h-15h30. Bufê quente e frio: R$14,90. Às terças, sushis e sahimis no bufê, feitos na hora. Grelhado (opcional, vem da cozinha): R$6,00 – Happy-hour quarta, quinta e sexta: 15h30-23h. Bufê de frios, queijos e embutidos, por peso: R$2,98 cada 100 gramas. Também porções à la carte, as clássicas. Música ao vivo (mpb) às sextas. — Bar completo. Chope Kaiser ou cerveja (lata): R$2,80. Vinho em copo (Miolo, Almadén, Santa Helena): R$4,40. 3311-8800 e 8877.


  Mix - Achados no Centro  
Tipo exportação


Alguns dos melhores cafés servidos no mundo seguem um longo caminho entre o cultivo e o consumidor. Seus grãos vêm de fazendas do interior paulista e seguem até Santos, onde são selecionados, torrados, ensacados e, então, exportados. Mas não é preciso correr o mundo para apreciar e comprar o pó de um desses cafés especiais, o Floresta. É só esticar até a cafeteria de mesmo nome, na Galeria do Edifício Copan. Há quem venha de longe para provar um expresso (R$1,00) e quitutes caseiros como o bolo de banana e a torta de limão. Para quem sai de um dos muitos teatros da região e procura um local para relaxar depois do espetáculo, vale aproveitar o horário do Café Floresta – todos os dias até 1h da madrugada.
Café a R$13,00 o quilo, somente no Centro.

Café Floresta – Galeria Copan – Avenida Ipiranga, 200, Loja 21. Metrô República.
Tel. 3259-8416. Segunda a sábado, das 6h30 à 1h, e domingo, das 8h à 1h.

Peças de coleção


A Ravil é uma das muitas lojas que não abrem mão do Centro e resistem oferecendo tradição e qualidade. Fundada em 1954, ano de comemoração do Quarto Centenário da cidade, continua sendo uma referência para os apaixonados por canetas, especialmente tinteiro. Seu slogan é "Revendedores autorizados das Alfamadas marcas de Instrumentos de Escrita". E é assim mesmo. O cliente encontra desde canetas Inox Crom (R$10,00) e Parker (R$36,00) até peças exclusivas de série limitada como a Aurora (R$ 4.560,00), totalmente manufaturada e em prata.

Ravil Canetas e Lapiseiras Ltda. – Av. São João, 33, Loja. Metrô São Bento. Tels. 3106-0723, 3104-2134 e 3104-6609. http://www.ravil.com.br

Cutelaria & Cia


A Oruam não é apenas uma cutelaria. instalada na Galeria R. Monteiro, uma das mais tradicionais do Centro Novo. A loja também importa perfumes e apresenta um leque variado de produtos destinados ao público feminino. Mas são os artigos diferenciados, como o cachimbo Peterson (R$412,00), importado da Irlanda, que destacam a Oruam entre outras casas do ramo. Além de cachimbos e fumos refinados de diferentes procedências, o cliente também encontra ampla variedade de isqueiros, canivetes, chaveiros, jogos e artigos de toucador.

Oruam Centro – Rua Barão de Itapetininga, 88, Lojas 08 e 14. Metrô República.
Tels. 3255-3256 e 3256-5703. Horário Comercial. http://www.oruam.com.br

Pecado capital


Uma verdadeira tentação. Onde? No Mosteiro de São Bento. É que além da arquitetura, dos rituais religiosos semanais e do canto gregoriano que aquieta a alma, monges oferecem forte tradição culinária. É aí que mora o perigo, o da gula. São delicadas iguarias, produzidas com fervor e capazes de deixar qualquer mortal em estado de graça. A lojinha, situada à esquerda da Capela Mor, atrai legiões de fiéis apreciadores de geléias, compotas, pãezinhos, bolos e licores. Os preços praticados também são convidativos: os bolos feitos com frutas, e muito segredo no preparo, custam entre R$ 12,00 e R$ 25,00; os licores entre R$ 5,00 e R$ 25,00. Dica importante, sobretudo a quem planeja comprar o pão de mandioquinha, cujas fornadas saem de segunda à sexta, às 12h30, e domingos, às 11 horas: ninguém reclama da penitência antecipada que são as filas. Portanto, bom apetite!

Mosteiro de São Bento – Largo de São Bento, s/n. Metrô São Bento. Horário das Missas: Segunda a sexta, às 7h; sábado às 6h e às 7h; domingo, às 8h30 e 10h.


  Notas  
Aos poucos, a Roosevelt recupera-se


Diversas pequenas obras, empreendidas pela Administração Regional da Sé (AR-Sé), vêm aos poucos mudando as condições ambientais da Praça Roosevelt, um dos pontos mais degradados do Centro. Fendas e "janelas" que serviam de esconderijo para menores de rua e delinqüentes foram fechadas e vários bancos, canteiros e caixas d’água inutilizados foram removidos. Também algumas muretas, que contribuíam para dar um mau aspecto à praça, foram substituídas por grades. O próximo passo é a implantação de uma área arborizada, de floreiras e de uma pista de skate, além da pintura de muros e gradis. Os melhoramentos são o resultado de encontros entre dirigentes da Ação Local Roosevelt com o ex-titular da AR-Sé e hoje subprefeito da Sé, Sérgio Torrecillas, e outras autoridades municipais. A Praça Roosevelt não recebia nenhum melhoramento há exatos 13 anos.

BID discute o Centro com Prefeitura e VIVA O CENTRO


Uma ampla discussão sobre o Programa de Reabilitação do Centro foi realizada em agosto, em São Paulo, por técnicos e assessores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com equipes da Prefeitura, coordenadas por Maurício Faria e Nadia Somekh, presidentes da Emurb e do ProCentro, e representantes da sociedade civil. Pela VIVA O CENTRO, compareceram o superintendente geral Antonio José Ayres Zagatto e a arquiteta Rosely Carmona. Por quatro dias debateram-se as ações urbanísticas constantes do programa, para as quais a Prefeitura negocia com o BID um empréstimo de US$ 100 milhões para um total a ser investido da ordem de US$ 200 milhões, dos quais os outros US$ 100 milhões serão da Prefeitura, como contrapartida, e o modelo de agência de desenvolvimento para a área central. "Se o banco avaliar que o nosso projeto tem um propósito de inclusão social, a contrapartida poder baixar do patamar de US$ 100 milhões em 40%, ou até 30%, nos itens em que se comprovar que muitos serão os beneficiados", explicou Nadia Somekh. Para o debate, à equipe de negociação o BID juntou três especialistas em projetos de renovação urbana: Alfredo Garay, que coordenou o bem sucedido projeto de Puerto Madero, em Buenos Aires; Villa Scuza, que participou da renovação de Barcelona após os jogos olímpicos; e o economista francês Remy Prud΄Homme, estudioso das relações entre qualidade urbanística das cidades e desenvolvimento econômico. Alfredo Garay, por exemplo, diz que é possível atrair construções modernas para os centros das cidades, sem destruir o patrimônio histórico. "As cidades têm um patrimônio arquitetônico no centro, mas nem todas as construções têm valor", disse o urbanista argentino ao jornal Folha de S. Paulo. "Há muita arquitetura de má qualidade. O que se faz em políticas de preservação é ter vários níveis de proteção. O restante pede regras que permitam a construção de edifícios novos." Para Zagatto, "a diversidade de funções, incluindo-se aquelas relacionadas à moderna economia de base informacional, é o principal atributo dos centros metropolitanos dinâmicos, e um plano estratégico para o Centro de São Paulo deve tê-la como uma de suas principais metas." Um novo encontro entre técnicos do BID, Prefeitura e entidades da sociedade civil está agendado para outubro. A Associação prepara-se para a ocasião ouvindo associados e a comunidade. Em sua próxima edição, urbs abordará o evento.

VIVA O CENTRO E SAS em parceria pelos moradores de rua


A Associação VIVA O CENTRO, as AÇÕES LOCAIS e a Secretaria Municipal da Assistência Social (SAS), comandada pela ex-vereadora e assistente social Aldaíza Sposati, firmaram parceria para dinamizar o Projeto Acolher. Esse projeto, elaborado pela SAS, destina-se ao atendimento de moradores de rua e seu encaminhamento a albergues para cuidados de saúde e higiene, apoio para obter documentos e atividades culturais e educativas. O primeiro curso de capacitação de voluntários, ministrado por funcionários da secretaria a cerca de 20 integrantes de Ações Locais foi realizado em meados de agosto. Esses voluntários passaram a trabalhar na abordagem e encaminhamento de moradores de rua em conjunto e sob orientação dos técnicos da SAS. Detalhe: novas turmas deverão ser formadas com a mesma finalidade.

VIVA O CENTRO e Ação Local na homenagem aos bombeiros


Uma delicada réplica do Marco da Paz, em mármore branco, foi ofertada em 12 de setembro pela Associação Comercial de São Paulo, com apoio da VIVA O CENTRO, da Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista e do Espaço Cultural Pateo do Collegio, ao capitão Daniel Daly, representante do Corpo de Bombeiros de Nova York, e outra ao comandante do Corpo de Bombeiros de São Paulo, coronel Wagner Ferrari. Ao receber a homenagem, extensiva a todos os bombeiros do mundo, Daly, que integrou uma das equipes de resgate durante e após os trágicos acontecimentos do 11 de setembro de 2001, quando terroristas lançaram dois aviões sobre as torres gêmeas do World Trade Center, expressou seu orgulho em representar seus companheiros de trabalho: "Fico orgulhoso de chamar os bombeiros brasileiros de irmãos e o povo brasileiro de amigo". A singela cerimônia foi seguida de palestra do capitão norte-americano sobre a experiência daquele dia. O saldo de quase três mil mortes teria sido muito maior, segundo Daly, se os bombeiros não tivessem conduzido a remoção de mais de 20 mil pessoas com segurança antes do desabamento dos prédios.

Ranking do "Cidadão de Carteirinha"


Dirigentes e conselheiros de Ações Locais têm se reunido com freqüência com responsáveis por algumas das instâncias do poder público municipal voltadas à melhoria das condições urbanas e funcionais do Centro, entre eles a nova presidente do ProCentro, Nadia Somekh, a secretária de Assistência Social, Aldaíza Sposati, e o subprefeito da Sé, Sérgio Marasco Torrecillas. Como resultado, nota-se uma construtiva interação entre as Ações Locais e a administração municipal, na qual as entidades entram com opiniões para melhorar a zeladoria urbana e o poder público com o encaminhamento de soluções para os problemas apontados. Veja o ranking das Ações Locais com mais conselheiros até agora:

AÇÕES LOCAIS - Conselheiros
Maria Paula - 82
Pátio do Colégio/Boa Vista - 71
Nove de Julho I - 65
Paissandu - 52
Barão de Itapetininga - 60
24 de Maio - 50
São Francisco - 39
*Em formação



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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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