ANO V   -   No. 27   -   julho / agosto 2002
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  MAIS INVESTIMENTO PRIVADO, MELHOR GESTÃO
Mosaico  Associação dos Advogados inaugura nova sede
Correios, no Anhangabaú, entrará em obras
Um órgão Tamburini no Pátio do Colégio
Edifício da Paz, na Barão, será restaurado
Fachada histórica vai ser recuperada
Minhocão aos domingos
Reportagem  Memória da Humanidade
São Paulo, Guarulhos, sem escalas nem surpresas
Vocação cultural
Correção de rumo
Calçadão URGENTE
Urbanismo  O novo Largo da Batata
Urbanismo Internacional  Londres na vanguarda da verticalidade
Entrevista  É a hora de morar no Centro
Cultura  REFERÊNCIA EM MÚSICA
Cidade da arte
Reportagem  • "A Bela e a Fera", arrasador
Mix  Fortes impressões
Arcângelo Ianelli: Renovação aos 80 anos
Por um merecido lugar na história
Modernidade à brasileira
Boemia, aqui me tens de regresso
Reflexões sobre a arte
Grandes atrações
Em nome da música erudita
Achados do Centro  Direto da Índia
Escola antiga
Experiência e tradição
Design moderno
Livros  Parques e praças do Brasil
Cultura da cidade
Sob a ótica cultural
Periferia revisitada
DO CORTIÇO AO ARRANHA-CÉU
Mesa  Entre o Júlio e o Barão
Notas  Pátio do Colégio/Boa Vista, primeira AL a receber título de Oscip
VIVA O CENTRO recebe visita de ministro
Financiamento externo, para o centro
Secretária pede apoio para ação social
Pátio do Colégio recebe Projeto Praticidade
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  Cartas  
urbs nΊ 26

Parabéns pela reportagem Contra o Feio, por Amor à Cidade. Gostaria de acrescentar mais alguns comentários a essa matéria. Sou carioca e sei exatamente o que estou escrevendo aos senhores. Todos que migram para o Rio de Janeiro tratam a cidade como se fosse a sua cidade natal. Todos que moram lá se consideram cariocas, eles nasceram em Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, não importa o estado de origem, eles são cariocas. Estou aqui nesta cidade há quatro anos e me considero paulistano. Tento desesperadamente mostrar a todos os inúmeros erros que esta cidade sofre, mas a maioria dos paulistanos acha que estou depreciando a cidade. Muito pelo contrário, eu gosto muito desta cidade que me acolheu e tudo o que falo não é depreciação. Eu tento mostrar aos meus amigos o que eles não enxergam por estarem há anos observando os mesmos erros e absurdos, talvez por acharem que tal situação seja normal, mas sabemos que não é.

A população de São Paulo trata esta cidade como os portugueses trataram o Brasil Colônia. A única intenção é ganhar dinheiro. A Prefeitura, a CET, a Telefônica, a Cetesb e todos os outros órgãos têm que lucrar, e os grandes empresários também. Se você mora em um prédio que não dispõe de garagem para todos os moradores, pois é um prédio da década de 50, e você é obrigado a deixar seu carro estacionado na rua, a Prefeitura te obriga a pagar Zona Azul ou você será multado. Que absurdo é este? E os impostos que pagamos, IPTU, Renavam etc.? Por que a população desta cidade não reclama de nada? O que acontece aqui? Ninguém gosta daqui? Pois então que voltem para seus estados. E os paulistas que tomem vergonha e parem de agir como se fossem forasteiros (...).
Cesar Messias de Souza, arquiteto
por e-mail



Parabenizo-o pela excelência da reportagem Um Oásis Chamado Carandiru.
Luiz Flávio Borges D’Urso
São Paulo-SP

Oportuna e necessária a reportagem O Dilema da Moradia, de Federico Mengozzi, especialmente neste momento em que a cidade discute as propostas de seu novo Plano Diretor, cujo projeto está tramitando nesta Casa. Qualquer planejamento estratégico que se faça para São Paulo deve considerar, prioritariamente, a questão do cidadão paulistano e as condições em que ele vive nesta cidade. Ou seja, o aspecto social jamais poderá ser desconsiderado. A reportagem de urbs faz esse alerta e coloca em discussão a moradia na região central da cidade, que deve, sem dúvida, ter seu aspecto urbanístico revisto e recuperado, mas sem perder de vista as necessidades básicas do paulistano, como a moradia. Parabéns.
Toninho Paiva, vereador
São Paulo-SP

Miopia

Passando de carro pelo Parque D. Pedro II com um amigo que trabalha na região, comentava sobre alguns fatores que causam a degradação do tecido urbano. Ele ficou impressionado por nunca os ter enxergado, observando que tudo acontecia lenta e letalmente no dia-a-dia. Na hora ele mudou sua opinião sobre a pista elevada do "fura-bolso do contribuinte". Junto às suas colunas, depois de alguns toques, o rapaz até previu um miniefeito Elevado Costa e Silva nas proximidades, acentuando mais ainda a degradação da região. Diante do fato, percebi a falta de informação até de pessoas instruídas. Se "em urbanismo tudo é decisão política", cabe a nós, profissionais do urbanismo, por meio de campanhas, conscientizar a população para que enxergue o "invisível" e pressione o poder público para que abra os olhos.
Marcus Carrasco
por e-mail
Do Equador

A través de esta comunicación deseo espresarle mi felicitación por el maravilloso trabajo que viene desarrollando esta organización em el rescate del Centro de São Paulo y a la vez agradecerle por el envio de la revista urbs, que trae interesantes temas de reflexión sobre la ciudad construida, aspectos que enriquecen el debate y permiten analizar las potencialidades de la participación comunitaria em la definición de su patrimonio.

Dora Arízaga Guzmán

Universidad Andina Simón Bolívar
Quito, Equador
por e-mail

Escuridão

Engraçado... Depois que o Banco Santander comprou o Banespa, nunca mais vi os edifícios-monumentos pertencentes ao Banespa com a fachada iluminada. Podem reparar: tanto o Banespinha (no Viaduto do Chá) quanto a torre do Banespão (a sede do banco) andam (em 27/5/2002) no maior escuro.
Ricardo Ribeiro da Silva
por e-mail


  Panorama  
MAIS INVESTIMENTO PRIVADO, MELHOR GESTÃO


A região central, e particularmente os distritos Sé e República, que compõem o Centro, não carecem de grandes obras financiadas pelos cofres públicos, mas de manutenção regular, disciplina de usos, embelezamento e, em alguns casos, de ampliação ou modernização do equipamento instalado, como galerias de águas pluviais. A solução para alguns de seus problemas, como o péssimo estado das calçadas e o inadequado e obsoleto mobiliário urbano, não representa investimentos de monta. Um rigoroso monitoramento e a aplicação de penalidades severas eliminaria o uso indevido dos espaços públicos. Suas mazelas sociais, como os cortiços e a população desabrigada, não resistiriam a um esforço coordenado das ONGs atuantes na área em ativa parceria com o poder público. Em resumo, a área central é uma entidade urbana completa. O que nela necessita ser feito resume-se a aprimoramento, manutenção e, no caso das questões sociais, a sérias políticas públicas. Em suma, bem gerenciados, o Centro e os bairros centrais contíguos poderiam se constituir em sólida base para o audacioso projeto de desenvolvimento urbano e social de que a cidade tanto necessita.

À gestão eficiente e integrada dos espaços e equipamentos públicos devem acrescentar-se atitudes que encorajem o investimento privado em hotelaria, turismo, serviços, entretenimento, cultura, comércio diferenciado e habitação, entre outras atividades típicas de centro metropolitano. A despeito dessa cristalina evidência, até hoje não se conseguiu implantar um modelo de gestão que atenda às necessidades do Centro no que diz respeito ao uso correto dos logradouros, à limpeza urbana, à manutenção dos parques e monumentos, ao funcionamento adequado dos serviços. Não bastasse tamanha carência, a ambigüidade em torno dos já existentes mecanismos de incentivo aos investimentos privados — em especial a Operação Urbana Centro —, manifestada pela inexistência de divulgação sistemática dos benefícios que oferecem, surte o efeito de desencorajar a aplicação de capitais na área da metrópole que ostenta a maior taxa de conversão do montante aplicado em postos de trabalho, renda e receitas públicas. Nesse capítulo, a anunciada Agência de Desenvolvimento do Centro terá a função de aproveitar intensamente o potencial da área. Nunca é demais lembrar que ela é a única região da metrópole a aliar expressivo patrimônio histórico-arquitetônico a uma completa infra-estrutura de telecomunicações, transporte e energia, um diversificado setor de serviços — com destaque para o ramo financeiro, com as duas bolsas, e os serviços avançados ligados às tecnologias da informação —, um conjunto de equipamentos culturais de primeira linha e a maior concentração de órgãos governamentais e da Justiça de todo o município.

Por fim, quando falamos em desenvolvimento econômico, leia-se tambem inclusão social, moradia, qualidade urbana, turismo cosmopolita — em resumo, praticamente tudo de que São Paulo necessita para superar seus impasses e consolidar-se como megacidade produtiva e global. Se a intenção for realmente essa — e não cabe dúvida de que a prefeita Marta Suplicy está a isso determinada, como comprova o recente lançamento do Programa de Reabilitação do Centro, o segundo de sua gestão destinado a recuperar o Centro —, mãos à obra.


  Mosaico  
Associação dos Advogados inaugura nova sede


O seminário "Ética nas Relações do Mundo Jurídico", de 17 a 20 de junho, foi escolhido como evento inaugural da nova sede da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), no prédio Gastão Vidigal, localizado no nΊ 151 da Rua Álvares Penteado, em pleno Centro histórico e financeiro da cidade. A entidade, com 67,7 mil advogados filiados, investiu cerca de R$ 4 milhões na aquisição do edifício de sete mil metros quadrados, que abrigou até o início dos anos 60 a sede do Banco Mercantil de São Paulo e depois a Bovespa, e quantia equivalente em sua reforma, a partir de projeto elaborado pelo escritório Piratininga Arquitetos Associados. Segundo o arquiteto Sérgio Kipnis, coordenador do projeto, o Centro acaba de receber um prédio que, depois de totalmente reformado, encontra-se entre os de primeira linha em matéria de informatização, climatização e segurança, pouco ou nada devendo aos novos edifícios construídos na cidade, embora seja uma edificação dos anos 40.

Correios, no Anhangabaú, entrará em obras


O Centro festeja a notícia de que o prédio central dos Correios, no Vale do Anhangabaú, finalmente entrará em obras. No final de maio, o presidente da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), Hassan Gebrin, e sua diretoria aprovaram a contratação da reforma do edifício à construtora Triunfo, vencedora de concorrência pública realizada em abril para os trabalhos. As obras, orçadas em R$ 10 milhões e previstas para durar um ano, conforme cronograma elaborado pelo escritório Una Arquitetos, autor do projeto, abrangem a execução integral do previsto para o subsolo, térreo e mezanino, onde, além da criação de espaço para atividades culturais serão reinstaladas, totalmente modernizadas, a Agência Central do Correio em São Paulo, a maior do país, e a Filatélica de São Paulo.

Um órgão Tamburini no Pátio do Colégio


Desde meados de maio, o complexo cultural do Pátio do Colégio, no Centro de São Paulo, conta com mais uma novidade no conjunto de seus novos atrativos. Trata-se do órgão italiano Tamburini, com 1018 tubos, recuperado pela Associação Internacional Anchieta com patrocínio do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura, e instalado na Capela Beato Anchieta. O instrumento, construído na Itália em 1950, pertenceu inicialmente à Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, no Bom Retiro, e, até 1999, à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em São Caetano do Sul, quando foi adquirido pela Capela Anchieta. Assinam seu restauro os respeitados artesãos da Família Rigatto.

Edifício da Paz, na Barão, será restaurado


O edifício de número 262 na Rua Barão de Itapetininga, que até os anos 1960 abrigou a famosa Confeitaria Vienense, terá restaurada sua fachada e modernizado o seu interior. As obras, orçadas em R$ 2 milhões, partem de projeto assinado pela arquiteta Ioco Soga e pelo engenheiro Armando Petrella. Datado de 1913, o prédio é tombado pelo patrimônio histórico e tem, hoje, seus quatro andares ocupados por escritórios e lojas, que deverão permanecer no local após a reforma.

Fachada histórica vai ser recuperada


A fachada do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, instituição que chegou a ter em seu corpo docente ninguém menos do que o poeta Mário de Andrade, vai ser finalmente recuperada por iniciativa da Secretaria de Estado de Cultura, com recursos provenientes da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU), graças à Lei Mendonça de incentivo fiscal. Jovens carentes, especialmente treinados por profissionais do Senai, se encarregarão do restauro. Pena que o interior do prédio, onde há um auditório de grande importância histórica para a cidade, ficará à espera de outro patrocínio para ser restaurado. "É inacreditável que um imóvel dessa importância artística e arquitetônica, tombado pelo Condephaat, tenha chegado a esse grau de abandono", diz Júlio da Cruz Navega Neto, diretor do Conservatório e de sua fundação mantenedora. O prédio de 1910 abrigou a primeira escola de música da cidade e já teve 1.400 alunos de uma só vez.

Minhocão aos domingos


Foram mais de mil negativos clicados desde 1998, e somente aos domingos, quando a obra viária mais polêmica da cidade — alguns gostariam de vê-la implodida por ter deteriorado uma das regiões mais bonitas do Centro, outros fazem sua defesa irrestrita por tornar mais rápida a ligação Leste-Oeste — entra em calmaria. Dessa coleção saíram as 35 imagens em P&B e nove em cor que compõem a mostra Minhocão — Altos e Baixos, em cartaz no Espaço Arte do Shopping Light (Rua Cel. Xavier de Toledo, 23), de 5 de julho a 10 de agosto. São fotos de grande sensibilidade captadas por Arlindo Gonçalves Marrão Júnior, 31 anos, e Luciana Fátima da Silva, 26, ambos funcionários da Serasa, ele como analista de crédito, ela no setor de análise de cadastro. Dois amantes da fotografia, que têm na cidade de São Paulo, suas ruas, habitantes e monumentos, o seu principal tema.



  Reportagem  
Memória da Humanidade

Ana Francisca Ponzio

World Monument Fund, ONG sediada em Washington, incentiva a preservação do patrimônio histórico em todo o mundo


Em abril deste ano, Bonnie Burnham, presidente do World Monuments Fund (WMF), esteve em São Paulo para participar de um seminário na Pinacoteca do Estado e visitar, em seguida, a cidade de Paranapiacaba. Fundado em 1965 e com sede em Nova York, o WMF é uma organização sem fins lucrativos que se dedica a preservar e salvaguardar a herança histórica, artística e arquitetônica da Humanidade. A atenção que agora vem dispensando à cidade do interior paulista deve-se à inclusão dessa vila construída por uma empresa ferroviária inglesa no século XIX, na lista de 2002 dos cem patrimônios históricos ou culturais mais ameaçados do mundo.

Para obter benefícios intermediados pelo WMF é preciso informar à instituição os locais com problemas – algo que o Brasil não tem feito com a intensidade devida. Ao constatar necessidades, o WMF arregimenta apoio público e privado em âmbito internacional, além de desenvolver ações capazes de contribuir para a recuperação dos patrimônios em perigo. No caso de Paranapiacaba, o WMF vai investir US$ 50 mil na restauração de uma casa que se transformará num centro de memória e pesquisa sobre a vila.

O financiamento de projetos como esse ocorre atualmente graças à subvenção de US$ 10 milhões que a American Express Company, patrocinadora fundadora da Lista do Patrimônio Cultural Mundial, comprometeu-se a oferecer durante dez anos para o WMF. A subvenção concedida pela empresa de cartões de crédito começou em 1996 e deve financiar projetos de conservação em 37 países. Entre eles, estão incluídos a China, cuja Grande Muralha integra a lista de 2002, assim como monumentos no Paquistão, Rússia, Croácia, Espanha, Turquia, Filipinas e Vietnã. De muitos países o WMF também recebe donativos destinados aos seus projetos. Pessoas físicas podem colaborar até com US$ 50.

Em entrevista a urbs, Bonnie Burnham fala sobre a recuperação das áreas centrais de grandes centros urbanos e sobre o trabalho que o WMF vem desenvolvendo na região nova-iorquina da Lower Manhattan, depois do atentado terrorista de 11 de setembro. Sobre São Paulo, que ela conhece pouco, Burnham arrisca sugestões, mas enfatiza a necessidade da metrópole paulistana investir em sua qualidade de vida.

urbs – Quais os componentes decisivos na recuperação de áreas urbanas centrais?

Bonnie Burnham – A preservação da arquitetura de áreas em declínio urbano é um desafio muito difícil, especialmente em cidades grandes como São Paulo, as quais abandonaram ou nunca cultivaram alta estima pela herança arquitetônica do passado. O World Monuments Fund tem trabalhado em várias cidades, pequenas e históricas, que tenham enfrentado crises, tais como Veneza e Mostar. Pelo fato de estarmos sediados nos Estados Unidos, também temos testemunhado a recuperação e a renovação de importantes áreas centrais em cidades como Nova York (por exemplo na South Street Seaport e nas áreas históricas do bairro do Harlem), Boston (na área da Baía) e Washington (na área em torno da Washington Station). Todos esses locais tornaram-se vitais tanto para residentes quanto para visitantes, por meio de esforços de preservação. Nos Estados Unidos, essas revitalizações foram impulsionadas por creditação de impostos oferecida por investidores, os quais preferiram conservar propriedades históricas existentes em vez de demolí-las ou construir novas estruturas. Sem esse sistema de impostos, o processo teria sido muito mais difícil, pois teria faltado um estímulo ou um agente catalisador.

O World Monuments Fund também tem participado de esforços para revitalizar o centro da Cidade do México. Mas, esse caso tem funcionado a longo prazo e com dificuldades de realização porque, além de vontade política, falta confiança por parte da sociedade mexicana quanto à possibilidade de recuperar o centro histórico da cidade. Baseados em experiências como essas, acreditamos que os componentes que mais influem na recuperação de áreas centrais são: visão política, lideranças dentro da sociedade capazes de realizar as metas de recuperação urbana, além de um incentivo ou de um agente catalisador. Acima disso, é preciso haver um bom plano de ação. Planejar e esclarecer objetivos deve ser o primeiro passo.

Você pode explicar como o World Monuments Fund está trabalhando na região histórica ao sul de Manhattan, depois do atentado de 11 de setembro?

Imediatamente após o desastre de 11 de setembro, o World Monuments Fund entrou em contato com lideranças governamentais e organizações privadas de conservação, para discutir um plano comum de ação. Cinco organizações – a New York Landmarks Conservancy, a Municipal Art Society, a Preservation League of New York State, a National Trust for Historic Preservation e o World Monuments Fund – se juntaram para criar o Lower Manhattan Emergency Conservation Fund. Donativos coletados pelas cinco organizações foram enviados para uma conta comum. Nossos esforços têm sido canalizados para colher informações e monitorar mudanças na área que podem afetar a estrutura histórica. Também estamos oferecendo pequenas subvenções para trabalhos de conservação, além de defender a preservação de estruturas importantes afetadas pela catástrofe. A maior parte das propriedades afetadas pelo desastre foram cobertas pelo seguro ou pelo fundo de desastre do governo. Nosso fundos de investimento têm sustentado várias subvenções para diagnósticos de condições ou planejamento. Continuamos a monitorar um edifício que é um importante marco de referência e que ficou ameaçado por causa do desastre. Como os planos são desenvolvidos no sentido de reutilizar o local do World Trade Center, nós agiremos conjuntamente como defensores da preservação da arquitetura tradicional da área. Agora que a remoção dos destroços do World Trade Center está terminada, nós podemos começar a avaliar o estado do bairro, o que dele permaneceu, o que ele precisa e qual o seu potencial para mudanças positivas.

Quais são os principais problemas que o World Monuments Fund tem detectado nos atuais centros urbanos?

O primeiro inimigo dos centros urbanos é o planejamento malfeito, decorrente das decisões de governos que conseguem apagar ou eliminar áreas inteiras em favor de novos desenvolvimentos, geralmente com a intenção de criar edifícios em larga escala e infra-estrutura para grandes avenidas e rodovias. Está provado que este é o maior erro em muitas cidades ao redor do mundo. Freqüentemente, os governantes acham que é oportuno encorajar o desenvolvimento em larga escala. Mas, eles subestimam quanto isso custa em termos de desarranjo social e de novas pressões na infra-estrutura urbana. Em muitas cidades, os preservacionistas têm demonstrado que, economicamente, faz sentido reter a escala tradicional e a identidade dos bairros urbanos. Porém, os responsáveis pelas decisões públicas têm como modelo as grandes cidades e hoje, esse processo é especialmente destrutivo na Ásia, onde toda a evidência do estilo de vida tradicional está sendo varrida em favor do desenvolvimento em larga escala. O segundo inimigo dos centros urbanos é o adiamento de manutenção. Quando não há incentivos para que os proprietários possam manter e preservar propriedades históricas, acaba-se perdendo distritos inteiros para a construção pela construção.

Qual o papel dos cidadãos na recuperação das áreas centrais das cidades?

Um importante catalisador para a recuperação urbana é a voz dos cidadãos e do setor privado, ou seja, o desejo coletivo de ver os valores urbanos e as tradições das cidades mais antigas, amparadas por meio de novos investimentos. Ao redor do mundo, muitos cidadãos não acreditam que seja possível efetuar mudanças positivas, e por isso não se manifestam francamente. Algumas vezes um evento negativo pode ser o catalisador de uma recuperação urbana. Na cidade de Nova York, a demolição de nossa histórica Pennsylvania Station fez com que a massa de cidadãos acordasse para a importância de seus edifícios públicos. Quando a Grand Central Station foi ameaçada de demolição, ativistas preservacionistas, liderados por Jacqueline Kennedy Onassis, conseguiram fazer recuar e depois encerrar esse processo.

Qual a importância da união de esforços entre empresas públicas e privadas, para solucionar os problemas das áreas centrais?

As corporações podem assumir um papel simbólico e muito importante ao comprar estruturas de interesse histórico e usá-las para funções corporativas. Como exemplo temos a Banamex, que foi a primeira corporação a investir na renovação do centro histórico da Cidade do México, ao comprar o Palacio Iturbide. A Fiat agiu de forma semelhante ao comprar o Palazzo Grassi de Veneza, passando a operá-lo como uma instalação cultural, aberta para exibição. Esses precedentes difundem uma mensagem forte. Líderes de corporações também podem ser uma voz poderosa quando juntam grupos cívicos, que estão tentando salvar a herança cultural. Quando um homem de negócios poderoso toma uma posição de apoio com relação aos valores da cidadania, ele chama a atenção do governo. A American Express reconheceu essa relação ao decidir apoiar nosso trabalho de forma prioritária e global. Boa parte das subvenções da American Express tem sido dirigida para apoiar importantes locais urbanos, com necessidades de conservação.

O que você conseguiu conhecer sobre São Paulo, durante sua visita à cidade?

Antes da visita deste ano, eu já havia estado em São Paulo uma vez, dois anos atrás. Sei que há muitas instituições culturais importantes na cidade, como o museu de arte moderna, além de importantes edifícios modernos, com arquitetura concebida por Oscar Niemeyer. Fiquei muito impressionada com a nova Pinacoteca, que representa um grande desenvolvimento no sentido de reestabelecer uma vida cultural na área central. Estou certa que a conversão de estações em espaços culturais também terão efeito similar.

O que você sugere para a São Paulo que você conhece?

São Paulo poderia perder seu apelo para investidores comerciais, visitantes estrangeiros e cidadãos afluentes se não investisse em sua vitalidade. Precisa considerar seu futuro como cidade e aumentar sua capacidade de atrair investimentos na qualidade de vida urbana. No Rio de Janeiro e em muitas cidades brasileiras menores, já estamos vendo o impacto positivo de planos que consideram os recursos históricos. Recursos culturais e históricos, assim como disponibilidade de lazer e recreação, são fontes de atração cujos valores talvez tenham sido sub-apreciados em São Paulo.


  Reportagem  
São Paulo, Guarulhos, sem escalas nem surpresas



Em três anos, linha de trem expresso interligará o maior aeroporto brasileiro à região da Barra Funda

Federico Mengozzi - Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)

Quinta-feira, 21 de março de 2002. Seria um dia como outro qualquer na rotina dos cidadãos da Grande São Paul, mas, para quem se dirigia ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, foi um dia de cão. A via de acesso ao aeroporto foi interditada por manifestantes, provocando atrasos em pelo menos 15 partidas e, para centenas de pessoas, a perda do vôo. Funcionários, passageiros e tripulantes sentiram como é frágil o direito de ir e vir e como basta um incidente (manifestação, acidente) numa das rodovias — Ayrton Senna, Dutra, Fernão Dias — que levam a Cumbica para atrapalhar a jornada dos usuários do aeroporto e disseminar o caos urbano, aumentando os já quilométricos congestionamentos de São Paulo.

Até o ano 2005-2006, os usuários continuarão a se dividir em duas categorias: aqueles que já passaram maus momentos ao tentar chegar ao maior aeroporto brasileiro e aqueles que ainda vão passar. Por que 2005-2006? Porque nessa data, se tudo der certo, estará funcionando a linha de trem expresso entre o aeroporto e o terminal metrorrodoferroviário da Barra Funda. A partir daí, São Paulo poderá se equiparar a cidades como Nova York e Paris, que, há muito, têm linhas ferroviários interligando os aeroportos à região central. Quem sabe um dia a referência seja Heathrow, em Londres, conectado ao centro da capital do Reino Unido por metrô — a viagem até Piccadilly Circus dura aproximadamente 40 minutos, com partidas de cinco em cinco minutos.

Primeiro passo

Após as idas e vindas que cercam projetos de tal envergadura, o primeiro passo para a construção da linha foi dado em março, quando a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária, Infraero, e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, CPTM, assinaram um convênio. O acordo não significa que as obras começam amanhã, mas que a linha vai sair do território dos sonhos. Na verdade, é mais um compromisso de estudos em conjunto. Pelo convênio, os objetivos principais da primeira fase são: conceber e aprovar as alternativas de traçado, localização de estações, reurbanização e adequação viária que consolidem a interligação ferroviária; conceber, definir funcionalmente e aprovar o programa de necessidades das estações caracterizadas como terminais remotos aeroportuários; conceber, definir funcionalmente e aprovar o serviço de encomendas e bagagens e o seu dimensionamento; estabelecer as relações institucionais e jurídicas das partícipes e outros envolvidos na implantação do empreendimento; definir e aprovar a modelagem de concessão para de sua implantação.

Após tais estudos, já em fase final, as empresas elaborarão e aprovarão um edital de concessão, internacional, desencadeando o processo de escolha das empresas participantes, o que pode durar quatro meses. Aí, efetivamente, começam as obras. Segundo Fernando Perrone, presidente da Infraero, a construção da linha de trem expresso será iniciada ainda este ano e os trabalhos se estenderão de 24 a 30 meses, coincidindo, ele espera, com o término das obras do terceiro terminal do aeroporto, que fará com que os 14 milhões de passageiros – tanto quanto movimentam, juntos, os aeroportos de Brasília e Rio de Janeiro (Galeão), o terceiro e o quarto do país – atendidos atualmente subam para 27 milhões, duplicando a capacidade de Cumbica. "Por isso será preciso melhorar o acesso ao aeroporto", explica Perrone, acrescentando que a estação ferroviária será instalada junto ao novo terminal. Parte dos 13 milhões de passageiros novos virá do Aeroporto de Congonhas, projetado para atender até 6 milhões de pessoas/ano, mas hoje atendendo cerca de 11 milhões.

É impossível que o aeroporto possa duplicar sua capacidade sem a linha de trem expresso. Portanto, em 2005 ou 2006, começa uma nova fase na história de Cumbica: a do transporte rápido, 30 quilômetros cobertos em 25 minutos, a até 100 km/h, entre o principal aeroporto e a principal cidade do Brasil, para onde vai, ou de onde vem, a maioria dos usuários — o Expresso Aeroporto atenderia 20 mil passageiros/dia. Uma fase, aliás, que — afirma o arquiteto Renato Viegas, supervisor de Projetos de Transportes da CPTM — não estava prevista nos planos originais do aeroporto paulista. Como sempre, corre-se atrás do prejuízo (vide o metrô de São Paulo, somente iniciado quando o metrô de Londres, o mais antigo do mundo, já comemorara há muito o primeiro centenário.) Antes tarde do que nunca, diriam os otimistas, mas Viegas não pensa no atraso que tem a recuperar, e sim na tarefa a cumprir. Tecnicamente, enfatiza, não é difícil: "É basicamente uma construção em nível, menos complexa que uma estrutura elevada. O trecho mais complicado é um túnel, de aproximadamente 1 quilômetro, na área da Luz".

Há uma linha a construir que, por sorte, encontrará dois terços de seu percurso já delineados. É o leito da CPTM, que receberão aproximadamente 20 quilômetros linhas novas, com a mesma bitola das existentes, exclusivas para o novo serviço. Os 10 quilômetros restantes passam por áreas do Parque Ecológico do Tietê, de Guarulhos e da Infraero. "As composições, de seis a nove carros", esclarece Viegas, "partirão a intervalos de 12 minutos, tempo que diminuirá para 6 minutos no futuro. Os passageiros só viajarão sentados, com TV individual nas poltronas e possibilidade de uso de leptops. Um serviço que lembrará mais um avião do que um trem." Para Viegas, a linha de trem expresso precisa trazer conforto, confiabilidade e segurança, sem nenhuma surpresa no caminho. A um custo, estimado por Perrone, de US$ 395 milhões — o custo por quilômetro será de US$ 15 milhões, ou 10% do valor de construção de um mesmo trecho de metrô. A Infraero entraria como sócia no empreendimento.

Construção

Para sua realização, o Expresso Aeroporto deverá se valer do sistema DBOT - Design (projeto), Built (construção), Operation (operação), Transfer (transferência). Em miúdos, significa que o Estado faz uma licitação para que uma empresa ou grupo de empresas adquira os direitos e os deveres de fazer o projeto, construir a linha e instalar o serviço, operando-o por um período x. No caso, possivelmente de 25 a 30 anos – segundo Viegas, um padrão internacional. No final do prazo, o serviço é transferido ao poder concedente, ou seja, o Governo do Estado de São Paulo. A CPTM vem estudando há tempos possíveis soluções para ligar, por via férrea, São Paulo e o aeroporto. Em sua versão mais atualizada, o estudo prevê a implantação de uma via adicional, ao longo da atual linha F da companhia, do Brás até um ponto entre as estações de Engenheiro Goulart e Ermelino Matarazzo. A partir daí, a linha se dirige ao aeroporto, passando pelo Parque Ecológico do Tietê, tangenciando o bairro da Cecap, em Guarulhos, margeando a rodovia Hélio Shmidt e chegando ao terminal da Infraero.

A nova linha poderia atender de 40% a 50% dos passageiros, desobstruindo as vias de acesso ao aeroporto e, em conseqüência, também facilitando a locomoção de quem vai ou vem via rodoviária. Hoje, cerca de 75 mil pessoas passam pelo aeroporto todos os dias – boa parte se desloca em seu próprio carro, congestionando a malha viária da região. A linha terá duas estações novas – em Cumbica e na Barra Funda -, sem estações intermediárias, vias elevadas e subterrâneas curtas e, importante, nenhuma desapropriação, barateando assim os custos. Os terminais guardarão um quê de aeroporto e estação de metrô, com escadas rolantes para desníveis e esteiras para percursos mais longos, além de shopping, hotéis, restaurantes etc. Para marcar de vez a diferença, a estação ferroviária será um "terminal aeroportuário remoto" e o passageiro poderá fazer o check in e despachar sua bagagem de lá mesmo. Mais cômodo, impossível.

Inicialmente, cogitou-se que a linha poderia ligar Cumbica a uma de cinco estações paulistanas: Brás, Luz, Barra Funda, Pinheiros e Berrini. Tudo dependeria da opinião dos usuários (1.600 pesquisados) e funcionários (400) do aeroporto. Assim foi feito e a decisão final beneficiou a Barra Funda, estação para a qual já havia uma certa inclinação técnica, por reunir um complexo de integração trem, metrô e ônibus, até intermunicipais – com estacionamento. A decisão final, diz Viegas, não foi tomada, mais uma vez, por tecnocratas comodamente instalados em suas poltronas. Desta vez, os usuários e funcionários, ouvidos em pesquisa da Toledo & Associados, fizeram ouvir sua voz. "Oitenta e cinco por cento dos entrevistados disseram que tomariam ou provavelmente tomariam o trem expresso." Segundo Viegas, há a possibilidade de um prolongamento da linha do trem expresso para Pinheiros, atendendo assim a duas regiões distintas da cidade.

Confiabilidade

Para Jurandir Fernandes, secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, o diferencial, ou o que torna o Expresso Aeroporto competitivo, será a "oferta paralela ou associada de serviços típicos aeroviários de embarque e desembarque e, especialmente, a confiabilidade, comparativamente ao deslocamento rodoviário, sujeito a imprevisíveis congestionamentos nas vias de acesso ao aeroporto". Com o complexo do Expresso Aeroporto, a CPTM cumpre sua função - a companhia tem uma malha que cobre 270 quilômetros e 22 municípios, herdada das antigas ferrovias federais e estaduais, e transporta mais de 250 milhões de passageiros/ano -, mas é apenas o começo. "A demanda projetada até 2010 é da ordem de 260 mil passageiros/dia, considerando a linha F, a linha Expresso Aeroporto e os usuários que embarcarem na futura estação Cecap", diz Fernandes. Quem sabe, em associação com a iniciativa privada, não virá mais, como a ferrovia de 40 quilômetros que, há pouco, empresários japoneses pretendiam construir, interligando os três aeroportos – Congonhas, Campo de Marte e Cumbica - que servem São Paulo? O projeto, em convênio com a Prefeitura, estava orçado em US$ 200 milhões, incluindo vias elevadas e subterrâneas, com seis estações no percurso. Um sistema para transportar cerca de 200 mil pessoas/dia, a pouco mais de R$ 5,00 a passagem.

Expresso popular
Em Guarulhos, comenta-se que o aeroporto movimenta muito dinheiro, mas que, para a população local, sobra o barulho das decolagens e pousos. Por lá, já se comenta que o Expresso Aeroporto irá pelo mesmo caminho e que, na prática, apesar de usar o território da cidade, o novo meio de transporte não favorecerá os trabalhadores da região, que também precisam chegar mais rápido à capital. A começar do preço, por volta de R$ 20 – compatível com os preços internacionais, afirma Viegas, lembrando que o preço da passagem do ônibus especial que liga o aeroporto a São Paulo é R$ 14 –, proibitivo para quem precisaria usar a linha todos os dias. Como se diz por lá, a linha será destinada a quem utiliza carros particulares, táxis e ônibus especiais. De certa forma para responder a essas vozes, a CPTM projeta a criação do Expresso Guarulhos, uma linha de trens para a população local, especialmente quem mora na região do bairro da Cecap. A linha, prevista para atender 100 mil passageiros/dia, aproveitaria as obras de infra-estrutura e a via permanente do Expresso Aeroporto, mas teria terminais exclusivos. Detalhe: bilhete a R$ 2.


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Vocação cultural

Vila Inglesa recupera-se e demonstra ser um simpático locus para exposições e ateliês de arte em pleno Centro

ANA CÂNDIDA VESPUCCI • Fotos de marcelo santos



É do coração da metrópole, de um espaço com cinco mil metros quadrados cobertos de pedra e madeira, que uma pequena vila se ergue com elegância discreta. Das janelas de suas casas descortinam-se fragmentos da skyline que mudou o perfil da cidade, de provinciano a cosmopolita.

O nome do conjunto habitacional situado na Rua Mauá originalmente não era Vila Inglesa, como há muito vem sendo chamado, e sim Jardim Marquesa de Itu, já que foi erguido nas terras dessa senhora da sociedade imperial. Trata-se de uma fieira de casas em estilo Tudor que envolve o coração do terreno, abraçando um generoso pátio central e legando uma forma simples de conviver: frente a frente, lado a lado. De peito aberto para as alamedas internas, portas e janelas olham-se permanentemente, entre as esquadrias de madeira nobre, em meio a arcos e sóbrias colunas. No topo de todas as casas, as tradicionais e versáteis mansardas aproveitam os desvãos do telhado, como sempre preconizou a velha Europa, e desenham um jogo harmonioso de águas. Ao rés do chão, as fachadas alternam varanda e bay window, com o intuito de atender ao gosto dos moradores para os quais o herdeiro do imóvel, Eduardo Aguiar d’Andrade, as construiu: os funcionários da São Paulo Railway, aqui radicados com a missão de ampliar a Estação da Luz, a poucas centenas de metros dali.

A Rua Mauá, onde ficava o casarão da marquesa, bisavó do construtor, integrava uma região em que chácaras e clubes elegantes, como o São Paulo Golf Club e o Regatas, sugeriam a paz de uma paisagem bucólica, bem ao gosto dos ingleses. Vislumbrando ocupação certa, D’Andrade demoliu a sede da chácara e construiu a vila. Cuidados como sistemas de decantação de águas pluviais a cada cinco casas, lavanderia coletiva, pequenos pátios privados nos fundos e estruturas sólidas, o construtor não poupou para entregá-las em 1915. As grossas colunas têm miolo de taipa de pilão revestido por tijolos, garantindo a sustentação das edificações no solo arenoso e úmido que, segundo levantamentos, caracteriza a gleba e as imediações. Ele foi parcimonioso nos adornos, mas obedeceu às exigências mínimas para os padrões da época e dotou as casas de piso e forro de peroba rosa, discretas volutas, respiradouro nas esquadrias, vidros trabalhados, ferragens importadas.

Renascendo

Virado o século, hoje há quem viva ali e diga que as aves que ali gorjeiam o fazem como em qualquer parte e, à exceção do ruído pesado dos trens riscando os trilhos, nada se ouve da cidade pulsando lá fora. Moradores dizem que é agradável conviver com o encanto de uma história que não foi totalmente destruída e, por acaso, depois de desafiar a decadência que assolou a região, renasce devagar mas promissora. São 28 casas, todas com três pavimentos e 250 metros quadrados relativamente bem conservados e, quando não, passíveis de recuperação, embora, em muitos casos, pisos tenham sido substituídos e outras atrocidades cometidas. Ainda assim, para um conjunto habitacional que depois de abrigar os ingleses e mais tarde se tornar reduto de uma classe média integrada por Whitakers, Villares e Almeidas transformou-se num cortiço, as condições são das melhores e o futuro auspicioso. Durante anos pulverizadas entre vários herdeiros do construtor, há aproximadamente um ano pertencem exclusivamente a um dos bisnetos, o advogado Pierre Moreau, que as negociou com os parentes.

As potencialidades do lugar foram descobertas sob pressão, quando em 1975 a Prefeitura enquadrou a vila na categoria Z8 200, capítulo da lei de zoneamento que também protege o patrimônio. Diante então da obrigatoriedade de preservá-la, indenizaram-se os pensionistas e, oferecendo descontos de 50% no valor dos aluguéis, atraíram-se novos locatários com o slogan "abra seu negócio em Londres". Demorou mas deu certo. Hoje 60% das casas estão ocupadas com atividades muitas vezes ligadas de algum modo à vida cultural, como o Sindicato dos Arquitetos, a Gemma Design e ateliês de arte.

Refúgio

Está lá o ateliê de três professores egressos do extinto Liceu de Artes e Ofícios: Antonio Rivato, mestre do entalhe, Romildo Paiva, pintor e gravador e Roseli Mota, professora de tear. Na melhor tradição romântica, uma das alunas, Maria Lygia Wey, deixou a advocacia no caos da Avenida Faria Lima para viver no sótão, ouvindo da mansarda as maritacas e as badaladas do sino da Igreja de São Cristóvão. Ela afirma que era exatamente isso que queria, poder mesclar num mesmo espaço prazer e profissão, sem horários nem deslocamentos apertados no trânsito e na agenda. Seu colega Antonio César Bianchi também. Ele diz que encontrou na vila um refúgio, onde aprimora suas habilidades na arte do entalhe, conjugando a satisfação de não se sentir um "excluído" terceiromundista da alternativa de viver no Centro, como fazem os europeus. O apreço que cultivam pelo lugar e a presença constante geram disponibilidade, e os dois estão agora empenhados em contribuir com a recuperação dos imóveis, tratando do restauro do madeiramento prejudicado pelo tempo e pelos maus tratos passados. "Há quem tenha arrancado os conduítes de fiação, e junto os rodapés", comenta César, levando Lygia a lembrar que alguns trabalhos são fáceis de executar, outros não, como justamente os rodapés que, muito largos, exigiram ferramentas especiais não disponíveis no mercado.

Em frente ao ateliê fica outro entusiasta da necessidade de preservar a vila. É Marcos Marin, da Casa de Intercâmbio Cultural, uma entidade correspondente ao salões oficiais de Paris, cuja sede ocupava um imóvel nos Jardins e ele transferiu para a vila. Sempre fascinado pelas regiões portuárias e ferroviárias que observou revitalizadas mundo afora, apaixonou-se pelo conjunto habitacional e prontamente identificou-o como "um exemplar nacional do Bergamote Station, de Los Angeles". Acha que a vila reúne todas as qualidades para integrar-se a um grupo de equipamentos capaz de tornar toda a área um complexo similar ao Soho nova-iorquino, ao Cais Sodré de Lisboa e outros tantos que pontuam diversas metrópoles. Aponta as fachadas recém-pintadas e os novos telhados que já cobrem um terço das edificações, como indícios de que, com pulso firme, o projeto de inseri-la em um circuito de bens culturais tem tudo para alcançar êxito.

Orgulha-se de sua própria contribuição, por meio da realização de eventos, como uma exposição realizada em abril do ano passado com obras de Victor Brecheret, Aldemir Martins e Andy Warhol, que lotou as alamedas da vila e para ela atraiu os olhares de artistas e personalidades do meio cultural. Há, segundo ele, quem se negue a freqüenta-la por puro preconceito, já que, na sua concepção, além de bela é muito mais segura que os Jardins. "Lá, sim, há seqüestros e assaltos". Por falta de recursos, passou recentemente a dividir o imóvel que ocupava com a sede da administradora, cuja casa em que estava instalada foi alugada para um restaurante. E afirma que vai continuar batalhando pela preservação da vila. Está tentando articular parcerias para elaborar um projeto de ocupação programada e, assim, garantir-lhe a função necessária à sua presença num circuito cultural e, com o tombamento em curso no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Artístico e Turístico (Condephaat) e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), articular algum tipo de incentivo. Provavelmente isenção de IPTU por meio da Lei Mendonça.

Aval seguro

Pierre Moreau, o proprietário, apóia toda e qualquer iniciativa capaz de contribuir para a preservação dos imóveis. Lembra que, embora a vila tenha protegidas pela Z8 200 apenas as fachadas de suas casas, ele próprio vem se desdobrando para que as edificações não percam internamente as características originais que restaram. Não é favorável ao tombamento pelo Iphan, já que trará exigências, mas não contrapartidas diretas — "é ônus sem bônus, não é justo". Acha que colhe benefícios indiretos, sim, já que a vila está numa área visada por um amplo projeto de recuperação, o Monumenta, que virá valorizar os seus imóveis. Mas, como suas propriedades não figuram no grupo que receberá empréstimos do Banco Mundial, restarão apenas os incentivos fiscais, na sua concepção pouco vantajosos: "Qualquer um que tenha um projeto cultural pode tentar, e se conseguir..." Ainda assim, Moreau reafirma seu interesse em preservar a vila quando também cobra dos poderes públicos medidas que venham favorecer sua conectividade com o resto do Centro e seus equipamentos culturais revitalizados.

Observa que, sendo aquele trecho da Mauá interrompido pela Avenida Tiradentes, não só a vila, mas também o Museu de Arte Sacra e a Igreja de São Cristóvão ficam isolados da Luz e da Pinacoteca, tendo como único elo a passarela da CPTM, em péssimo estado, sem limpeza nem iluminação. Sugere que o Metrô libere a passagem de um lado para o outro da Mauá, hoje possível apenas usando-se as catracas, e acha que se os três pontos de ônibus instalados na rua fossem remanejados ajudaria a manter a ordem, prejudicada pelo trânsito e pela presença de camelôs e muito lixo.

Ao avaliar a questão, a arquiteta Helena Saia também não concorda com o tombamento do conjunto pelo Iphan: "Trata-se de uma referência urbana de interesse para São Paulo, mas não para o Brasil". Na sua opinião, no geral, o que se vem fazendo é banalizar a figura do tombamento federal, numa postura mercantilista cujo propósito é garantir a captação de recursos. "Quando o tombamento é federal, pode-se abater integralmente o montante investido." Segundo ela, há bens muito mais importantes para o patrimônio nacional, que são documentos fantásticos, mas estão completamente abandonados, ninguém se interessando porque "uma fortaleza, lá longe, não dá visibilidade". Tudo isso mostra, no seu entender, que tombar só não basta. É preciso uma política completa, que envolva a preservação dos bens. Quanto à Vila Inglesa em particular, é da opinião que, além disso, os imóveis já foram muito descaracterizados, não havendo mais por que tombá-la em outro nível.


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Correção de rumo

Programa de Reabilitação do Centro aperfeiçoa plano anterior, limita-se aos distritos Sé e República e cria agência de desenvolvimento econômico para a região

Ana Candida Vespucci e Ana Maria Ciccacio
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)

O processo de requalificação do Centro, pelo qual a Associação VIVA O CENTRO batalha há mais de dez anos, acaba de receber substancial impulso do poder público municipal, depois do anúncio, no final de maio, pela prefeita Marta Suplicy, de um novo plano de recuperação para a região central em substituição ao Reconstruir o Centro, lançado no primeiro semestre do ano passado. Mais prático, realista e consistente do que o plano anterior, o Programa de Reabilitação do Centro contém diretrizes que a VIVA O CENTRO sugeriu à então candidata Marta Suplicy em 2000, quando de sua visita à entidade durante a campanha eleitoral, e tem defendido em seus veículos de comunicação e em entrevistas e declarações à mídia desde então. Acima de tudo, essas diretrizes se resumem à aplicação de instrumentos eficientes de gestão na região central.

Três frentes de atuação caracterizam o novo programa, destacando-se entre elas a criação da Agência de Desenvolvimento do Centro, entidade pública mista que terá entre seus objetivos articular parcerias com a iniciativa privada para implementar investimentos na região. A segunda frente diz respeito à área de abrangência das intervenções públicas contidas no programa. Enquanto o projeto anterior, por incluir todos os dez distritos da Administração Regional da Sé (AR-Sé), encaminhava-se para a dispersão e por isso mesmo foi muito criticado, o novo, ao enfocar Sé e República — núcleo identificador da metrópole — faz mais sentido ao concentrar ações e coincidir com os limites territoriais da Operação Urbana Centro, outra das estratégias defendidas pela VIVA O CENTRO.

A opção pela eficiência com base em medidas simples e de baixo custo fica patente na definição da área de atuação do Programa: o território compacto, densamente simbólico e funcionalmente diversificado dos distritos Sé e República pode, inclusive, servir depois de paradigma de requalificação para outros pontos da cidade. Com efeito, verificam-se ganhos de eficiência de gestão quando o foco desta se concentra em espaços relativamente pequenos e com alguma homogeneidade de problemas e soluções. O Centro propriamente dito, composto por Sé e República, possibilita uma prática de gestão assentada no monitoramento permanente dos usos, conflitos e necessidades de uma estrutura urbana de grande complexidade e importância.

Quanto à terceira frente, vale apontar que ela se volta inteiramente aos chamados "Projetos Motores", ou seja, os indutores de qualidade urbana, igualmente em três frentes: 1) requalificação de espaços públicos com ações de zeladoria, e programas e projetos especiais, voltados à solução de questões sociais, aí incluídos a assistência social à população carente e o disciplinamento do comércio informal; 2) intervenções urbanísticas no Parque D. Pedro II, no Centro Velho e no Centro Novo, e, ainda, na região da Luz; e 3) inventivos à moradia, com ênfase na produção de novas unidades habitacionais e conversão de prédios desocupados de escritórios em edifícios residenciais.

Agência

Importante no novo programa é que ele inclui a criação da Agência de Desenvolvimento do Centro, outra das sugestões da VIVA O CENTRO. Sem esse instrumento, indispensável à condução da estratégia de desenvolvimento econômico e social do Centro, dificilmente um processo de requalificação irá adiante. A agência deverá funcionar como ponta de lança de novos tempos para a região, destinando-se à captação de investimentos privados, ao incentivo a novas atividades produtivas e à multiplicação de empregos e renda na área central.

Para a prefeita Marta Suplicy e a arquiteta Nadia Somekh, presidente do ProCentro, vice-presidente da Emurb e articuladora do projeto, o investimento privado é prioritário para a geração de trabalho e renda, podendo produzir "transformação com inclusão social". A exemplo da atração que o Centro tem exercido sobre empresas ligadas às tecnologias de ponta na área da comunicação (telemarketing, web hosting, call centers), graças à presença de densa rede de fibras óticas na área, Nadia Somekh acredita no incremento de outros setores de serviços, como o hoteleiro e o do ensino, já revigorados por uma série de iniciativas do empresariado.

Para tornar a região mais atraente a investimentos, as ações de zeladoria devem voltar-se à manutenção do espaço urbano, focando a questão dos camelôs, da segurança pública, da programação visual, da acessibilidade e da recuperação de ruas e passeios. Parte dessas ações já está em curso, como a reorganização da coleta e da varrição de lixo, a retirada de painéis e letreiros de edifícios tombados e a recuperação dos calçadões, que começou com obras no quadrilátero piloto e agora estende-se por toda a região.

De todos os problemas, o dos camelôs, segundo Nadia, é o mais complexo, demandando a "existência de alternativas de trabalho e renda". Por isso, junto com certas medidas, como a repressão à pirataria e operações envolvendo a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Federal, o programa propõe a criação de cooperativas de trabalhadores, com o propósito de qualificar mão-de-obra para aproveitá-la nas obras de recuperação de edifícios no próprio Centro, reduzindo-se com isso o desemprego.

Intervenções urbanísticas, concentradas no Centro Velho e Novo, Parque D. Pedro II e Luz, promoverão a recuperação de edifícios públicos e privados, a revitalização de praças como as da República e Roosevelt, a reorganização dos transportes, a integração de equipamentos culturais e a recuperação de vias, calçadas e parques. Incluem ainda o término das obras do Corredor Cultural, que será marcado pela modernização da Biblioteca Mário de Andrade e pela conclusão da reforma da Praça do Patriarca; a transferência da sede da Prefeitura para o edifício do Banespa Patriarca, liberando o Palácio das Indústrias para uso como centro de exposições e contribuindo para que o parque volte a ser de fato uma área de contemplação e lazer e seu ilustre vizinho, o Mercado Municipal, seja restaurado e revele a beleza de suas linhas arquitetônicas. Na Luz, a proposta é complementar o projeto Monumenta, concentrando atenções nos bens históricos por ele não contemplados, como a Vila Economizadora, a Rua Santa Ifigênia e o Jardim da Luz. Dessa forma, acredita Nadia, vai se criar a sinergia que projetos importantes, mas relativamente isolados, como a Sala São Paulo, há muito vêm pedindo.

Por fim, a nova conceituação deverá facilitar a liberação de recursos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), referentes a um empréstimo de até US$ 100 milhões para a recuperação do Centro e cujo processo se arrasta desde 1997/98. Na época, havia propostas de requalificação da área, mas nada suficientemente abrangente e articulado como agora. Uma delegação do BID, que esteve em negociações com a Prefeitura na última semana de maio e também visitou a VIVA O CENTRO, confirmou a intenção do banco, com base no Programa de Reabilitação do Centro, de iniciar a contratação do financiamento. Entre as exigências está a de que haja contrapartida pecuniária semelhante da municipalidade e que, para identificar problemas e estabelecer os objetivos e estratégias do programa, haja um efetivo envolvimento do poder público nas três esferas (municipal, estadual e federal) e também da sociedade civil. Quanto a esse envolvimento, o presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, fez questão de afirmar que a entidade compromete-se a participar ativamente desse processo.



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Calçadão URGENTE

Duas décadas depois de implantadas, ruas de pedestres continuam muito aquém das expectativasdo morador, comerciante ou usuário do Centro

Federico Mengozzi • Fotos de jesus carlos (Imagenlatina)

Implantados nos anos 70 com a finalidade de assegurar condições de fluidez, segurança e tranqüilidade ao tráfego de pedestres e estimular o uso do Centro como lugar de entretenimento, comércio e serviços, os calçadões da área central passaram a formar, em pouco tempo, uma densa e intrincada rede somando mais de 7 km de vias pedestrianizadas. Equipadas com mobiliário específico — postes e luminárias com design exclusivo, bancos e lixeiras — e piso à base de placas de granito e mosaico português, tais vias pareciam, nos primeiros anos de funcionamento, cumprir boa parte de seu papel. Mas não tardou para que os problemas ressurgissem — e de forma mais grave.

Idealizados para se constituir em oásis de sossego e entretenimento, mas não contando com faixas reservadas para o tráfego de veículos autorizados destacadas do espaço pedestrianizado, os calçadões continuaram a ser percorridos pelos veículos de serviços (transporte de valores, bombeiros, concessionárias de serviços públicos, policiamento etc.), agora em conflito ainda maior com os transeuntes — porque invadindo um território designado como exclusivo do pedestre —, e destruindo o frágil e inadequado pavimento. Como resultado, sobressaltos, desconforto e até riscos tornaram-se a regra para quem caminha nos calçadões. Um outro problema, contudo, se avoluma. Se o sistema pedestrianizado foi concebido para reanimar e qualificar as atividades comerciais, de serviços e lazer em numerosas ruas do Centro, o resultado acabou sendo justamente o oposto — o agravamento da situação de ruas como a Barão de Itapetininga e a 24 de Maio, que perderam estabelecimentos comerciais e escritórios para outras regiões, devido à dificuldade de acesso principalmente por táxis e automóvel particular.

Por fim, o sistema não possui uma gestão específica, ajustada às suas características especiais. É administrado no dia-a-dia como se ostentasse o mesmo padrão e necessidades dos milhares de ruas e avenidas convencionais do município. A manutenção do piso — crucial em vias de uso intensivo e contínuo por pedestres, devendo ser efetuada rápida e permanentemente — é demorada e irregular, pois sujeita a procedimentos de rotina. E assim também com a coleta de lixo e a manutenção de equipamentos e mobiliário. Ademais, inexistem normas específicas de paisagismo e de desenho desse mobiliário. Assim, em vez de se constituírem em locais atraentes e favoráveis à sociabilidade, os calçadões centrais se converteram em ambientes inóspitos e desagradáveis, invadido maciçamente pelo comércio informal e por outras formas predatórias de uso.

Soluções

Este, em suma, é o diagnóstico elaborado por centenas de técnicos, administradores públicos, dirigentes empresariais e de entidades e usuários reunidos no ciclo de trabalhos O Calçadão em Questão – 20 Anos de Experiência do Calçadão Paulistano, promovido há quatro anos pela Associação Viva o Centro e Faculdade de Belas-Artes de São Paulo).

O ciclo, realizado em três etapas (audiência pública, pesquisa de campo, mesa-redonda e workshops com grupos temáticos) com o apoio da Associação Brasileira de Pedestres (Abraspe) e Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), durou nove meses e apresentou recomendações claras para reverter o processo de degradação que, em duas décadas, tomou conta do sistema de vias pedestrianizadas de São Paulo. De uma das etapas, o workshop com técnicos e especialistas, dividido em cinco grupos temáticos – "Conflito pedestre/veículo nos calçadões", "Gestão e uso do espaço público", "Questões sociais da cidade e dos calçadões", "Repercussão dos calçadões no Centro" e "Melhorias dos calçadões: aspectos de desenho urbano e projeto" -, vieram sugestões para requalificar tais áreas. Recomendou-se, por exemplo, "estabelecer pólos de atração institucionais e culturais e estimular a função habitacional; incentivar a manutenção e a ampliação das atividades institucionais pública no Centro, explicitando a finalidade democrática dessa localização".

As recomendações foram mais longe, abrangendo as mais diversas facetas de uma questão complexa, que envolve interesses públicos, privados e intrincados fatores socioeconômicos e urbanísticos. No item "Conflito pedestre/veículo", os técnicos sugeriram a criação de um leito carroçável nos calçadões, com pavimento diferenciado, para circulação de veículos autorizados, e a possibilidade de livre circulação depois de determinado horário, medidas associadas a um processo de revitalização da área, além da determinação de uma distância máxima entre qualquer ponto do calçadão e uma via de livre circulação, para possibilitar, em especial, o abastecimento das áreas internas ao calçadão. No item "Questões sociais", os técnicos recomendaram que a localização dos camelôs deve se enquadrar em regras rigorosas e, de preferência, contemplar a relocação dos comerciantes informais em centros de comércio popular fora do espaço público e situados fora da região ou nos limites dela.

O último item, "Melhoria dos calçadões", recomenda expressamente a revisão da rede pedestrianizada, prevendo-se o acesso controlado por automóvel a algumas áreas e a melhor integração da rede ao sistema de transporte público. Item fundamental é o que sugere o conceito de "horários pedestrianizados" em vez de áreas pedestrianizadas para os calçadões do Centro. Outras sugestões incluem a iluminação cênica dos edifícios e monumentos no período noturno; a valorização da visualização e acesso aos edifícios de interesse público, estabelecendo-se percursos temáticos; a definição de um piso adequado quanto à resistência, durabilidade, aderência e economia, e que seja de fácil substituição; a atuação coordenada das concessionárias de serviços públicos, para que utilizem as redes subterrâneas de maneira mais racional, com o fim de facilitar a manutenção e a reconstituição dos pisos. A intenção é evitar um efeito em cadeia daninho: o poder municipal constrói, a concessionária quebra e recobre a área de qualquer jeito, descaracterizando o calçadão.

Em maio do ano passado, em cerimônia no Pátio do Colégio, foi lançado o livro O Calçadão em Questão, coletânea de estudos e sugestões produzidos no ciclo de trabalhos, editado pela VIVA O CENTRO e pela Faculdade de Belas Artes, sendo um exemplar entregue à então administradora regional da Sé, arquiteta Clara Ant, que representava a prefeita Marta Suplicy. Na ocasião, a administradora confessou-se assustada com tamanha oferta de sugestões, mas se comprometeu a arrumar os calçadões da região central: "Estou arregaçando as mangas. Vamos assumir as responsabilidades que a cidade nos deu. Vamos governar o Centro e o calçadão". Um ano depois, Clara deixou a função, hoje ocupada pelo engenheiro Sérgio Marasco Torrecilas, mas o compromisso não foi esquecido. "Vamos dar continuidade ao projeto e estamos começando a reforma das calçadas pertencentes ao município", disse o novo titular da AR-Sé. Entre outros motivos, os administradores levam em conta a aprovação, mesmo com críticas, da população ao sistema de calçadões.

Em suma, e apesar das objeções ao sistema, os calçadões são uma conquista do pedestre e devem ser revistos e aperfeiçoados, para poderem retomar sua função. À mesma conclusão também chegaram as dezenas de usuários partipantes da audiência pública realizada no ciclo de trabalhos "O Calçadão em Questão". É preciso equacionar a solução dos aspectos profundamente negativos que o sistema apresenta hoje em dia. Entre eles mencionaram-se os problemas do pavimento, a falta de segurança, a presença esmagadora de camelôs, o lixo e a sujeira etc. Entre os positivos, a possibilidade de caminhar com tranqüilidade, o maior fluxo de pessoas, a possibilidade de apreciar as vitrines etc. Muitas observações —, mas nada que proponha, ou implique, o desmonte do sistema pedestrianizado, que é bem aceito pela população. "A pesquisa", diz o livro, "permite a conclusão de que, apesar de seus graves problemas, os calçadões são percebidos como uma conquista do pedestre e devem ser aperfeiçoados. A própria concepção dessas vias, como um território livre dos riscos e conflitos do tráfego motorizado, é que faz com que elas sejam bem aceita pelo usuário."

Para ficar

Por fim, o estudo reconhece que os problemas que se abatem sobre os calçadões muitas vezes são comuns a toda a cidade. "Eles apenas incidem de forma mais ou menos intensa nas vias pedestrianizadas. Suas causas não decorrem especificamente dos calçadões, ainda que suas características – como no despovoamento já às primeiras horas da noite – possam acentuá-las", considera o estudo. Em 1977, o arquiteto Ernest Mange assumiu a recém-criada Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano e disse que era preciso ter esperanças na transformação de São Paulo numa cidade de sonhos. Os calçadões, que então foram lançados, eram — ao lado da reurbanização da Praça da Sé e da reforma e restauro do Edifício Martinelli — uma iniciativa nesse sentido. Ao empossá-lo, o então prefeito Olavo Setubal o chamou de o "homem que vai revolucionar São Paulo". Talvez não tenha ocorrido exatamente isso, mas Mange implantou um sistema que veio para ficar e, como tal, reflete as necessidades de seu tempo.

Mange seguia uma tendência internacional, que reservava as vias mais intensamente usadas por pedestres para os próprios pedestres, ao mesmo tempo em que fomentava a revitalização da área. "Nos Estados Unidos, os primeiros calçadões, ou pedestrian malls – passeios para pedestres - foram implantados em cidades pequenas no início dos anos 60", lembra o arquiteto Sun Alex. "O objetivo era deflagrar um processo de revitalização comercial e renovação urbana dos centros das cidades, atraindo de volta a população que se mudara para os subúrbios." O calçadão veio para ficar, mas cabe ao poder público não deixar que se descaracterize e se degrade. Atualmente, a um custo de R$ 700 mil — revela Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb)—, a municipalidade empreende a recuperação do piso do quadrilátero delimitado pelas avenidas São João e Ipiranga e ruas Sete de Abril e Conselheiro Crispiniano,e da região do Centro histórico e financeiro, constituídos majoritariamente por calçadões.

É um trabalho cosmético, "uma intervenção simples", segundo Faria, que não altera o calçadão em sua estrutura nem atende às sugestões do ciclo de trabalhos da VIVA O CENTRO, mas promove uma recuperação básica da área, evitando o agravamento do processo de degradação. O memorial descritivo dos serviços contratados diz que o seu objetivo é a recuperação do calçamento danificado e/ou descaracterizado, o reordenamento, a recolocação e a adaptação de novo mobiliário urbano, o rebaixamento de guias e sarjetas para promover a acessibilidade universal e a implantação de projeto paisagístico. Assim, garante Faria, não mais se verão o mosaico português com pedras soltas, nem caixas de correio, lixeiras e telefones públicos fora de lugar, nem árvores ou jardineiras maltratadas — prevê-se o plantio de 44 árvores na área —, nem calçadas e ruas com iluminação inadequada. É apenas o começo de um processo que se liga às obras de remodelação da Praça do Patriarca, Rua Xavier de Toledo e Praça Dom José Gaspar, e, na seqüência, beneficiará os calçadões do Centro histórico e financeiro.

Carlos de Paula, gerente de uma loja na Rua Barão de Itapetininga, já vê mudanças no ar e até sonha com os tempos dourados daquela que foi uma das mais aristocráticas vias paulistanas. Um cronista dos anos 40 entusiasmava-se: "A rua que foi chácara, em que brotou o melhor chá da província, e que deu guarida a sua aristocracia como rua residencial, é hoje a artéria mais conceituada na esfera comercial..." Mal podia imaginar no que, décadas mais tarde, a rua se transformaria. Até há pouco era tomada pelos camelôs, que concorriam com as lojas. "Hoje se vêem poucos camelôs na Barão", garante De Paula. "A rua está mais tranqüila e segura." O número de camelôs, que havia chegado a 20 mil na área da AR-Sé, vai ser reduzido para 2,5 mil - e somente duas centenas, devidamente castrados, poderão atuar no quadrilátero que compreende a rua, informa Torrecilas.

Fracasso

Claro que o calçadão da Barão ainda não é uma rambla de Barcelona, amplo calçadão com duas estreitas pistas laterais e muita atividade 24 horas por dia, e que Maurício Faria reputa o mais bem-sucedido modelo de via de pedestre que existe, com sua efervescência humana e cultural. "As Ramblas registram a energia da presença humana e têm profundas raízes culturais. Infelizmente, não temos nada parecido e os calçadões não realizaram os objetivos urbanísticos pretendidos. Existem ambientes urbanos interessantes na cidade, como o Largo do Café, mas são poucos." Certo, os calçadões não realizaram os objetivos pretendidos, o que não significa, diz Faria, que não sejam válidos. "Eles têm um ponto de partida essencial, que é a valorização do ato de caminhar, a relação que criam com a cidade. Não podem, porém, cobrir espaços extensos. O futuro dos calçadões será sua constituição em polígonos menores, bem ordenados e geridos com rigor. E mais, o calçadão é de todos e não pode depender somente da ação do Estado. Diz-se que a arquitetura e o urbanismo são um jogo de múltiplos atores. O Estado é apenas um deles."

José Luiz Brenna é um dos atores desse jogo. Arquiteto, trabalha no escritório da paisagista Rosa Grena Kliass, responsável pelo projeto paisagístico do Vale do Anhangabaú. Como Valentino (outro ator), mora longe e não usufrui o calçadão. Mesmo porque este pouco tem a lhe oferecer. "Quando vou, está tudo fechado." Mesmo assim, arrisca-se a dizer que o caráter do calçadão é e será o uso que se fizer dele. Daí a necessidade de, para justificar sua própria existência, ter bons equipamentos, contar com manutenção eficiente, estar próximo dos sistemas de transporte etc. "A população merece", enfatiza Brenna. O que o calçadão não pode ser, definitivamente, é uma pista de corrida de obstáculos. Mas uma garantia do direito de ir e vir — e, sempre que possível, ficar.



  Urbanismo  
O novo Largo da Batata

Concurso escolhe projetos que vão dar nova função e visual ao hoje degradado logradouro

Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)

ANA CÂNDIDA VESPUCCI

Era um campo extenso e plano, de tal modo desengajado do resto da cidade que se prestava apenas ao papel de entreposto informal de distribuição de batatas. O tempo passou, a região cresceu e a área tornou-se um entroncamento de transportes coletivos rodoviários. O potencial de consumo que a intensa circulação de pessoas engendrava cortejou o comércio e, dadas as características do público, desenharam-se as feições populares que ali se foram instalando. Com a crise econômica, a vitalidade do movimento local atraiu os camelôs e o descaso dos poderes públicos e de segmentos da sociedade fez o resto: pintou o quadro atual de completa degradação. Por abrigar as conexões entre várias linhas de ônibus, não é paradoxal a presença do deteriorado Largo da Batata na ponta de uma avenida com o perfil da Avenida Brigadeiro Faria Lima, que tange o bem cuidado Jardim Europa e abriga um shopping como o Iguatemi, considerado o mais sofisticado da cidade. Na verdade, são duas realidades que, em princípio, não se mesclam, exceto nos congestionamentos de trânsito. A simples passagem da linha 4 do metrô já traria benefícios a todo o corredor que deverá atender, com suas estações ligando pontos do percurso da Luz à Vila Sônia, no Butantã, entre elas a da Faria Lima. Mas, na concepção da administração municipal, não bastaria. Nem mesmo se ali fosse edificado um shopping nos moldes daquele que foi construído em frente à estação Santa Cruz, com ligação às plataformas por meio de um acesso subterrâneo direto, aberto sob a Domingos de Moraes, facilitando e promovendo o trânsito de pedestres. Segundo Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, o Largo da Batata representa um espaço de oportunidades para se implantar um pólo capaz de extrapolar a função de um mero centro de consumo. Ainda que não contasse com uma definição do governo do Estado quanto à inclusão da estação Faria Lima na primeira fase da construção da linha 4, a Prefeitura julgava importante e que seria possível antecipar as intervenções. Contava com outros elementos positivos concorrendo para a realização das obras, entre eles a proximidade com a estação da CPTM e a construção nas imediações de uma unidade do Sesc e da presença do Instituto Tomie Ohtake, agentes de reconhecido papel revitalizador. Também dispunha de uma verba de 60 milhões, oriunda da Operação Urbana Faria Lima que, obrigatoriamente, pela legislação, só podia ser empregada na área em que foi captada. Não havia, portanto, porque protelar. Em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil, a Emurb lançou um concurso, um júri avaliou 42 projetos, e deve começar a ser implantada em outubro a proposta de requalificação da área, feita pelo escritório do arquiteto Tito Lívio Frascino, primeiro colocado, incorporando as melhores sugestões dos segundo e terceiro classificados, como previa uma das regras. "Processos de deterioração criam consolidações difíceis de se reverter", como Maurício Faria justificou a iniciativa.

Resumindo, o Largo da Batata vai se transformar num complexo envolvendo edifícios para serviços públicos e privados, uma esplanada, praças e calçadões que vão abrigar negócios diversos, cultura, lazer e disciplinar o comércio e a ocupação locais. Por tudo isso, a concurso impunha duas exigências básicas. Primeiro, o projeto tinha de se enquadrar na verba disponível, uma exigência inédita segundo explicou Faria, cujo objetivo é garantir a consecução da obra, sem paralisações nem necessidade de suplementações. "Antes, dava-se liberdade sem equacionamento de custos. Agora não, o projeto tem de enquadrar no montante disponível." Segundo, teria necessariamente de apresentar soluções de conexão com a futura estação do metrô, cuja implantação finalmente definiu-se e será inserida na primeira fase, a iniciar-se para daqui um ano e meio, conforme informou Marta Lagreca, superintendente da Diretoria de Desenvolvimento da Emurb. Como o projeto vencedor deve abraçar as melhores sugestões dos dois outros colocados, suas feições finais não estão definidas, mas nos próximos meses, as soluções serão organizadas e compatibilizadas as diferentes propostas. Já se sabe, por exemplo, que a idéia que seria aproveitada da segunda colocada, a arquiteta Maria do Carmo Vilarino, de construir uma praça em frente a Igreja Nossa Senhora de Monte Serrate e um edifício para a administração regional provavelmente não seja executada já, por causa justamente das obras do metrô na mesma área. A preocupação de Maurício Faria é apenas evitar a superposição de cronogramas, já que hoje a implantação do metrô conta com métodos não destrutivos, que não interferem demais nas superfícies urbanas, bastando apenas um equacionamento racional dos prazos.

Linha 4

A Linha 4 do Metrô é estratégica para a cidade, segundo os especialistas. Funcionará como um elemento articulador de todo o sistema sobre trilhos de São Paulo. É, portanto, parte vital do Projeto de Integração Centro, que transformará a Estação da Luz num pólo de integração metro-ferroviária mais movimentado e importante do que é atualmente a Estação Sé. Paralelamente, interligará os principais pólos de serviços — Centro, Paulista, Faria Lima e Marginal Pinheiros. Daí a importância do Largo da Batata. Frascino explicou que sua idéia é criar uma grande extensão de áreas públicas, mas, ao mesmo tempo, preservar a vocação comercial daquela região. Para Maurício Faria, com as obras, o largo também se conecta a um grande eixo de atividades integrado pela Faria Lima, Berrini e, mais adiante, Águas Espraiadas. "Trata-se de um grande eixo terciário moderno em todos os sentidos, da arquitetura contemporânea aos processos de adição de valores, cujo efeito é irradiador." Em sua opinião, o Largo da Batata é hoje um ponto de desestruturação e, portanto, a requalificação da área interessa a todos, e mais, não pode ser entendida como excludente. Ao contrário, ele entende que trará grandes benefícios, já que o projeto incorpora as atividades ali já sediadas e ainda abre espaço para outras. Menciona que um espaço avançado demanda, além de comércio para atende-lo, uma série de outros serviços complementares do cotidiano, como uma simples barbearia, por exemplo, e que além disso, qualidades urbana e ambiental resultam em qualidade de vida e qualidade de vida em produtividade. Lívio Frascino sugere a abertura de uma grande esplanada com a desapropriação do lote da Cooperativa Agrícola de Cotia e de alguns lotes adjacentes, a edificação de um prédio privado de 22 andares e, como contrapartida do empreendimento, outro público, mais baixo, para abrigar um centro cultural cujo programa não seja redundante com o do Sesc. Ele também prevê três calçadões em quadras das ruas Teodoro Sampaio, Cardeal Arcoverde e Pedro Cristi, entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima e a Rua Cunha Gago. O terminal de ônibus será remanejado, interceptando-se o transporte intermunicipal no terminal de Vila Sônia, concentrando-se os ônibus urbanos em outro terminal próximo à estação da CPTM, na Marginal Pinheiros, e deixando no largo apenas troncos alimentadores de acesso à estação Faria Lima. Provavelmente também sejam construídas garagens subterrâneas para servir a área e implantados dois bulevares, um na Rua Cunha.

Para Eduardo Leira, urbanista e arquiteto espanhol de prestígio internacional que integrou o júri, o projeto de Fracino cria uma área de centralidade, com objetivo de abranger diferentes usos e, caso venha a atrair o uso residencial, melhor: " O conceito de zonas concentrando somente atividades produtivas está superado." Leira, que em sua terra natal dirigiu o Novo Plano Geral de Madri e no Brasil já havia participado da elaboração do projeto Eixo do Tamanduatehy, da Prefeitura de Santo André, julga que a proposta organiza bem o espaço público, aproveitando os elementos que a área oferece, disciplina a ocupação local, conseqüentemente melhorando a qualidade de vida, e forma uma nova centralidade complementar que virá integrar o centro expandido. " Os terminais, em Vila Sônia e Pinheiros, vão eliminar as linhas de ônibus que geram atividades paralelas; há a estação da linha 4 do metrô e o prédio da Cooperativa que pode ser desapropriado, enfim grandes oportunidades de melhorar o espaço público." No seu entender, bem mais do que crescer para dentro, o que também é importante na sua concepção, a metrópole tem de ser policêntrica; mas disciplinada, não espontânea, desorganizada como é São Paulo. Para ele, a cidade requer novas centralidades que qualifiquem a periferia e também precisa revitalizar o centro velho, onde reunir atividades destinadas às pessoas que não moram nele e, assim, promover uma mobilidade cruzada, como o próprio Largo da Batata, que na sua opinião vai favorecer a mobilidade à Vila Madalena. A cidade complexa, mas a seus olhos fascinante, dona de uma força e uma dinâmica surpreendentes, "uma metrópole que está sempre fervendo", precisa equacionar um de seus grandes problemas, a fragmentação. "É importante que cada parte não tenha manifestação de fragmento e sim identidade, mas os fragmentos são tão desconectados que se torna impossível uma identidade própria, não fazendo parte do todo." Por isso, Leira insiste que São Paulo também tem de investir em transporte coletivo de boa qualidade, de forma a dissuadir o usuário de veículos particulares: "Não se pode usar carro sempre. Fora, todos já aceitam abrir mão dele. Nos Estados Unidos, em vez de construir, estão demolindo viadutos. Carro é uma maravilha, mas incompatível com outra maravilha que é a cidade".



  Urbanismo Internacional  
Londres na vanguarda da verticalidade

JOANA CARLA SOARES GONÇALVES*

Londres, a cidade mãe das cidades modernas, mais uma vez toma a dianteira no debate global sobre crescimento sustentável de centros urbanos de caráter internacional, trazendo a público a tão polêmica discussão da verticalidade. As considerações a respeito do tema englobam desde as vantagens e desvantagens da arquitetura de edifícios altos à importância da definição de critérios e limites para a implementação de torres, tendo em vista os interesses coletivos da sociedade como fatores determinantes nas políticas de desenvolvimento urbano.

O desastre ocorrido em Nova York e Washington em setembro de 2001, envolvendo as torres gêmeas do World Trade Center, abalou momentaneamente o mercado da construção em todas as grandes cidades dos países industrializados; porém, observando as tendências de mercado em cidades como Londres, Frankfurt, Chicago e até mesmo Nova York, as perspectivas são de incentivos ainda maiores à construção de edifícios altos em centros de alta densidade neste início de século. Segundo o arquiteto inglês de renome internacional Norman Foster, "os edifícios altos são uma realidade tanto quanto a urbanização em si".

O prefeito de Londres, Ken Livingstone, acredita que o desenvolvimento da cidade no século XXI precisa ser tão audacioso quanto, por exemplo, no caso da arquitetura vitoriana. Segundo o prefeito, as propostas de edifícios altos dos mais variados gabaritos devem ser consideradas sob o aspecto positivo que o processo de verticalização é capaz de acrescentar ao caráter internacional de Londres e suas atuais demandas, principalmente as geradas por pressões econômicas e demográficas.

Só em 2001 foram realizados três eventos interdisciplinares em Londres para a troca de conhecimento especializado sobre a questão da verticalização. Em maio, o Royal Institute of British Architects (RIBA) promoveu o debate Tall Storeys. Em dezembro, a London School of Economics and Political Science (LSE) organizou o seminário Tall Buildings in London. No mesmo mês, o Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) reuniu especialistas e convidados na conferência Buildings for the 21th Century.

Londres, a cidade mais cosmopolita de todas, é também a maior cidade da Europa, com 7,5 milhões de habitantes ocupando uma área de 1,6 mil km2, numa densidade de 50 pessoas/acre (Department of the Environment, Transport and the Regions of London, 1999). Em termos globais, esses números caracterizam Londres como uma cidade de densidade média, além de apontar para um problema grave: o espalhamento da mancha urbana, incorrendo diretamente na ineficiência da infra-estrutura de serviços da cidade e na degradação das áreas naturais periféricas.

No contexto da União Européia, Londres integra a área metropolitana da Europa Noroeste, que inclui Paris, Amsterdã, Rotterdam e as cidades ao longo dos rios Rhine e Ruhr. É a região economicamente mais forte da Europa, contendo perto de um terço da população européia. Com a globalização da economia e o impacto do desenvolvimento da tecnologia de transportes, as áreas metropolitanas lideradas por esses centros urbanos se tornaram bem mais interdependentes, tendo Londres como centro financeiro dominante.

No contexto internacional, Londres é uma das três cidades — Nova York e Tóquio são as outras duas — classificadas como world cities, "cidades do mundo", ou "cidades globais", terminologia utilizada para definir grandes centros urbanos que, atualmente, polarizam a macroeconomia mundial.

As pressões da globalização têm forçado mudanças de atitude na sociedade de Londres. Preocupações com o meio ambiente e o uso mais eficiente de recursos e materiais começam a despontar com força nos planos de políticas públicas. O grande desafio é fomentar o crescimento da economia e a acomodação do acréscimo demográfico, provendo ao mesmo tempo melhoria na qualidade das edificações, no espaço público e na infra-estrutura da cidade.

Pressões pela verticalização

Nas décadas de 50 e 60, seguindo diretrizes de projetos públicos do período pós-Guerra, o setor da construção produziu grande quantidade de edifícios altos, com maioria constituída por blocos residenciais de 20 andares. Hoje, Londres possui por volta de dois mil desses blocos. Contudo, problemas de qualidade ambiental, como ventilação insuficiente e falta de conforto acústico e térmico, contribuíram significativamente para a generalização de uma imagem pública de fracasso desses empreendimentos. Em decorrência, vários deles se tornaram guetos, locais de criminalidade e degradação ambiental.

No entanto, essa imagem vem mudando devido a experimentos de qualidade, principalmente ao longo do Rio Tâmisa. Certamente, locais como esses se destinam a camadas abastadas, mas propostas para novos edifícios altos residenciais, englobando diferentes padrões, e a serem implantados em locais reconhecidos como apropriados para o adensamento populacional, terão, a princípio, apoio e incentivo da política pública atual.

Após décadas de declínio, a população de Londres voltou a crescer nos últimos anos da década de 90, sendo necessárias no mínimo 23 mil unidades extras por ano, para o período de 2002 a 2011 (Greater London Authority, maio de 2001). A pouca disponibilidade de terrenos livres para a construção foi tomada pelo poder público como fator determinante da opção por empreendimentos residenciais com maior taxa de densidade demográfica.

A política pública de apoiar e incentivar a construção de edifícios altos insere-se num plano maior de escala urbana, o chamado London Plan (Plano de Londres), que está sendo elaborado pela Prefeitura em conjunto com especialistas atuantes no mercado, entre eles arquitetos, engenheiros e demais consultores.

Fala-se na construção de 15 a 20 torres na cidade nos próximos dez anos. Segundo a Prefeitura, esse número, combinado com o de outros empreendimentos mais modestos, atenderia à demanda não só de escritórios mas também de moradia, em prédios de uso misto. Um exemplo é o da proposta para a torre mais alta da Europa, com 306 metros, a London Bridge Tower — projetada pelo escritório de arquitetura Renzo Piano Building Workshop em colaboração com os arquitetos locais do Broadway Malyan —, a ser implantada sobre a London Bridge Station, junto ao Rio Tâmisa, contendo escritórios, hotéis e residências. Além dessa, outras suas propostas estão em processo de aprovação por órgãos públicos: a do edifício Heron Tower, de 222 metros de altura, do escritório norte-americano Kon Pendersen Fox Aassociates, e a da nova sede da empresa de seguros Swiss Re, já em construção e projetada pelo Norman Foster and Partners, com 154 metros. A proposta da London Bridge Tower fica nas imediações do distrito financeiro central de Londres, a City, enquanto as outras duas são para o centro propriamente dito.

O desenvolvimento de edifícios altos em local afastado do centro consolidado, a área de Docklands, também vem acontecendo sob o impulso de um grande volume de investimentos estrangeiros desde meados da década de 90. Docklands é essencialmente uma região de empreendimentos novos, fora das restrições estabelecidas para o restante da cidade, completamente entregue às vontades dos investidores internacionais.

Especialistas de mercado afirmam que, apesar do fracasso econômico no momento do lançamento dos primeiros empreendimentos em Docklands, atualmente esse pólo de edifícios de escritórios exerce papel fundamental no mercado imobiliário da cidade. Sem o espaço para os investimentos em Docklands, o distrito central, a City, estaria sob pressões de demanda impossíveis de atendimento sem danos ao tecido histórico.

Apesar do número significativo de torres a serem erguidas na cidade, parece bem claro para a política pública de incentivo a esses investimentos não haver interesse em transformar Londres em um aglomerado de torres, como Manhattam e Hong Kong. No novo plano de Londres, a noção de diversidade é intrínseca, por essa ser uma qualidade inerente à conformação tanto morfológica como mercadológica da cidade.

Acredita-se na capital inglesa que o aumento da oferta no mercado imobiliário, no qual os edifícios altos representam apenas uma parcela dos investimentos, tornará Londres — hoje a cidade mais cara do mundo, com o metro quadrado custando US$ 1.455, enquanto em Tóquio e Hong Kong esse valor é de respectivamente US$ 1.440 e US$ 1.149; em Nova York, US$ 722; e em Paris, US$ 776 — menos dispendiosa e, conseqüentemente, mais competitiva (Greater London Authority, maio 2001).

Um estudo sobre os impactos causados por edifícios altos em Londres será apresentado à sociedade no final deste ano e a versão final do London Plan, que poderíamos chamar de Plano Diretor de Londres, em 2003.

Metas e desafios

A Prefeitura de Londres compreende 32 bairros, mais o distrito denominado Corporation of London, o bairro financeiro. É responsabilidade legal da Prefeitura produzir estratégias de planejamento para tratar das seguintes questões: transporte público, desenvolvimento econômico, cultura, biodiversidade, conforto acústico, qualidade do ar e gerenciamento do lixo urbano. Mas, em 1999, um decreto lei estipulou que os planos da Prefeitura deveriam abordar também a saúde e contribuir para o crescimento sustentável do Reino Unido. E agora Livingston vai além: pretende estender essas políticas às questões de energia e habitação, considerando obviamente as políticas nacionais já implantadas.

Para fazer de Londres um modelo de cidade global sustentável, o plano diretor estima um período de 15 a 20 anos, tendo como metas: acomodar o crescimento econômico e global da área urbana, criar uma cidade próspera, aumentar a oferta de habitação, garantir a acessibilidade eficiente a todas as partes da cidade, promover uma cidade "verde" e, finalmente, criar uma cidade mais humanizada, uma cidade para as pessoas. O objetivo da atual gestão pública é mover Londres no sentido contrário às estratégias anteriores, que primaram pelo espalhamento da mancha urbana e conseqüente descentralização e antiverticalização.

As medidas de suporte à produção do espaço verticalizado acham-se definidas no seguinte conjunto de ações (Greater London Authority, outubro 2001):

  • ocupação de uma série de lugares na cidade, incluindo a City e partes específicas dos arredores ao sul e ao leste do centro, Docklands, partes da região de Westminster, áreas periféricas tradicionais da cidade como Croydon, e áreas em processo de recuperação, como Paddington, London Bridge e Waterloo;

  • reabilitação tecnológica de uma grande variedade de edifícios, entre eles antigas construções vitorianas, conjuntos de edifícios de escritórios e edifícios novos variando entre plantas-tipo de 840 a 4,8 mil m2;

  • construção de edifícios de grande porte ultrapassando 120 mil m2;

  • oferta de espaço para escritórios em edifícios baixos, de médio e alto porte;

  • oferta de locação variando de baixo custo, podendo competir com outras cidades européias, até o mais alto padrão de acomodações, quase independente de custos.

    Já as expectativas diante do aumento de torres na cidade devem promover os seguintes efeitos:

  • contribuir para a consolidação formal de grupos de edifícios altos, o que demanda a escolha de áreas que já possuem torres;

  • gerar ícones arquitetônicos que representem um novo entendimento a respeito do edifício alto, ou seja, novos conceitos para sua relação com o espaço da cidade e seu desempenho como espaço para habitabilidade e convivência;

  • incentivar a recuperação de áreas urbanas degradadas econômica, social e ambientalmente;

  • atrair a atenção para lugares da cidade de importância cívica ou visual, como grandes terminais de transporte, em muitos casos de relevante valor histórico;

  • criar focos visuais de orientação em meio à malha edificada da cidade, de modo que surjam na paisagem como objetos em grupo ou isolados, e finalmente

  • promover a confiança no futuro de Londres, tanto econômica como esteticamente.

    Com relação às exigências de projeto para propostas de edifícios altos, o Plano de Londres estabelece os critérios básicos para evitar impactos negativos do edifício:

  • pavimento térreo acessível ao público;

  • fachadas articuladas, apresentando um detalhamento arquitetônico interessante visualmente;

  • topo do edifício projetado de modo a expressar uma intenção de "coroamento" ou relação com o plano de fundo do céu, agregando valor simbólico à paisagem da cidade;

  • materiais de construção apropriados ao contexto;

  • espaços públicos do entorno capazes de lidar com o aumento do movimento e da densidade de pedestres;

  • impacto sobre o comportamento das correntes de vento mantido dentro de limites toleráveis para o conforto do transeunte nas imediações do edifício.

    Em maio do ano passado, Livingstone declarava na versão preliminar do London Plan que "uma revisão das políticas estratégicas para a implementação de edifícios altos, incluindo o seu papel em maximizar a densidade dos empreendimentos e o seu impacto em paisagens urbanas importantes, está sendo elaborada pela Prefeitura como parte da preparação do relatório final do Plano de Londres".

    Impacto na paisagem

    Edifícios altos, na escala em que aparecem nas grandes cidades, são primordialmente símbolos do domínio tecnológico e do poder econômico para grandes feitos, atraindo a atenção para localidades de importância visual ou mesmo cívica na cidade. As construções isoladas ou em grupos, fortes ícones na paisagem, chegam a dominar vistas panorâmicas de bairros inteiros à medida em que o ponto de observação se afasta..

    O impacto visual, conceito bastante subjetivo e passível de muita polêmica na discussão sobre a verticalidade, é inevitavelmente um fator determinante na elaboração das diretrizes para edifícios altos no caso de Londres. O Plano de Londres define claramente seu conceito de impacto visual negativo do edifício alto. Seria quando ele bloqueia a vista de outro prédio grande ou tolhe panoramas de valor histórico vistos de áreas públicas, também de importância histórica e cívica. A proximidade de um edifício novo de uma obra antiga também pode gerar impacto negativo na paisagem construída. É importante que seja mantida uma margem de céu ao redor dos edifícios classificados como monumentos, a fim de permitir sua contemplação dentro de uma "moldura" proporcional ao contorno dele.

    A grande maioria dos edifícios históricos de Londres é de pequeno e médio porte, com exceção de alguns poucos projetados propositadamente para dominar a paisagem, caso da Catedral de St. Paul e da Abadia de Westminster. Respeitando o baixo gabarito, recomenda-se para a localização de novos edifícios altos primeiramente as áreas próximas a edifícios altos já existentes.

    Planejamento do futuro

    Ao mesmo tempo em que o Plano de Londres demonstra interesse em atender aos anseios do mercado, a fim de explorar as chances de capitalização geradas em um processo de verticalização, as medidas em prol da qualidade de vida e preservação do tecido histórico são bastante impositivas, limitando os novos investimentos a áreas pré-determinadas e aumentando os custos de projeto.

    Contudo, dando o exemplo para o mundo, os investidores europeus atuantes em Londres parecem dispostos a pagar o preço e a se submeter às medidas restritivas, em troca de uma melhor qualidade ambiental do edifício e da cidade, tendo a consciência de que os cuidados com os bens públicos como um todo garantem também valor, segurança, estabilidade e respeitabilidade aos seus próprios investimentos.

    Persistente nesse passo, e realizando a cidade vislumbrada daqui a 20 anos, a conseqüência natural é que Londres se torne um lugar de excelência em termos de qualidade de vida urbana — a cidade do mundo para o século XXI, mais uma vez reafirmando seu papel de mãe das cidades modernas.

    * Arquiteta, professora do Departamento de Tecnologia da FAUUSP, doutoranda do programa de pós-graduação da FAUUSP com estágio na Architectural Association Graduate School em Londres, no ano de 2001.

    Referências Bibliográficas

  • BLACKER, Zoë. London aims for 20 new towers. The architects’ journal, No. 10, vol. 214, p. 4 e 5, setembro de 2001. Londres: Emap Construct, 2001.

  • CAPPELLIERI, Alba (ed.). La torre e la cittá. Domus, Architettura, Design, Arte, Comunicazione. No. 840, setembro 2001, p. 34-100. Milão: Editoriale Domus Spa, 2001.

  • Department of the Environment, Transport and the Regions of London. Final Report of the Urban Task Force, chaired by Lord Rogers of Riverside. Towards an Urban Renaissance. Londres: E. and FN SPON (Taylor and Francis Group plc), julho de 1999.

  • Greater London Authority. Towards the London plan. Initial proposals for the Mayor’s Spatial Development Strategy. Londres: Greater London Authority, maio 2001.

  • Greater London Authority. Interim strategic planning guidance on tall buildings, strategic views and the skyline in London. Londres: Greater London Authority, outubro 2001.

  • ROGERS, Richard, GUMUVHDJIAN, Philip (ed.). Cities for a small planet. Londres: Faber and Faber, 1997.



  •   Entrevista  
    É a hora de morar no Centro
    Paulo Teixeira
    Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


    Quando a Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sehab) foi entregue a Paulo Teixeira, no início da gestão Marta Suplicy, a imagem pública e o histórico de lutas sociais desse advogado de 41 anos suscitaram as mais desencontradas expectativas. Passado ano e meio, Teixeira firma-se, aos olhos da opinião pública e da mídia, como uma das melhores surpresas do secretariado da prefeita. Aberto ao diálogo e valendo-se de uma visão plural da cidade e da sociedade, ele e sua equipe vêm realizando um trabalho sólido que começa a apresentar resultados. Melhor ainda: um esforço orientado por consistente visão urbanística das intervenções habitacionais. Nisso ele conta com a colaboração de técnicos como a arquiteta Helena Menna Barreto, vice-presidente do ProCentro, que participou da presente entrevista, a qual procurou destacar as experiências da Sehab na região central. No final de maio, Teixeira foi ouvido por Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora assistente de urbs.

    urbs - A Sehab desenvolve um esforço para reverter o processo de esvaziamento demográfico da área central de São Paulo. Já é possível perceber algum resultado?

    Paulo Teixeira – Nesse ano e meio de gestão Marta Suplicy coube-nos elencar e desenvolver uma série de medidas que facilitem o desenvolvimento de programas com o objetivo de reformar esse parque imobiliário envelhecido, a sua reciclagem, a intervenção em cortiços, a facilitação de financiamentos. Creio que elas começam a dar resultado. Além disso, conseguimos aprovar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e na esfera federal um empréstimo de US$ 200 milhões para intervenções de natureza variada na área central. A partir de março do próximo ano estaremos investindo na recuperação de áreas livres e espaços públicos, na paisagem, em habitação e no patrimônio histórico. É um volume de investimentos que há muitos anos o Centro não recebe.

    Investimentos privados o Centro tem recebido muitos.

    Mas não investimentos públicos, e num volume que não víamos há muitos anos. Outra medida significativa nesse período foi a criação de um ambiente favorável ao financiamento, pela Caixa Econômica Federal, de projetos de reforma e reciclagem de prédios na região central. Quatro desses edifícios estão em fase de acabamento. Vamos terminar o ano com mais dez.

    Como a Prefeitura influi nesse financiamento da CEF?

    Ela financia o estudo prévio desses prédios, dá rapidez à aprovação dos projetos, às vezes assessora na compra e na localização do imóvel. Além disso, estamos contratando diretamente 21 intervenções no Centro, compreendendo reformas de casarões e antigos cortiços e o reassentamento de populações de favelas, como a do Gato, na Marginal do Tietê.

    Há também um programa de locação social. Qual o seu público alvo?

    Famílias que moram em cortiços e têm baixíssima renda. Por isso não se enquadram nas exigências para financiamento. Aliás, estamos assinando convênio com o Governo do Estado para intervir em alguns perímetros com forte concentração de cortiços. Parte dessas operações será feita pelo Estado, parte por nós.

    Quais as facilidades a ser oferecidas para atrair a classe média?

    Com a melhora das condições ambientais, urbanas e paisagísticas do Centro, parte da classe média vai optar por residir na área. Há um segmento dessa classe que não exige apartamento com garagem, prédio com piscina ou mesmo playground. São casais sem filhos ou idosos, solteiros ou famílias que querem desfrutar dos benefícios que só a região central oferece. Para facilitar a vinda ou a fixação desse contingente, nós temos dialogado com proprietários de imóveis e visitado imobiliárias para explicar as vantagens de reformar os imóveis e trabalhar com carta de crédito.

    A reforma de imóveis é um negócio técnica e economicamente viável no Centro?

    Digamos que não é um ramo forte da construção civil no Brasil. Nosso empreendedor imobiliário tem formação e competência para a construção de novas edificações e uma experiência bem menor em reformas, mesmo porque vivemos num país muito novo, onde a média de idade dos prédios é bem menor que na Europa, por exemplo. Reformar exige uma tecnologia especial. Você necessita de uma estratégia para conciliar as obras com a movimentação urbana. Não é como um canteiro de obras no qual você fecha o acesso ou a passagem. Você precisa proteger os transeuntes. Por isso promovemos, com o Governo do Estado, a CEF e a iniciativa privada, esta representada basicamente pelo Sinduscon, e com a cooperação do governo francês, um seminário para conhecer e debater tecnologias de reforma de prédios, com a participação de técnicos com larga experiência nessa matéria na França. Estamos também desenvolvendo um curso com o Laboratório de Habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP destinado a estimular segmentos profissionais organizados a empreender projetos de moradia na área central.

    Alguns arquitetos e urbanistas chamam a atenção para o fato de que a reforma ou o retrofit às vezes sai mais caro do que erguer um prédio novo, e nem sempre dá uma real qualidade ao imóvel.

    Se comparar o custo de uma reforma e o de uma construção, você geralmente tem ganho maior na construção, porque o custo da tecnologia de reforma ainda é alto entre nós. Mas poderemos atingir o mesmo custo se desenvolvermos essa tecnologia. E não é só isso. Se você constrói num bairro afastado, como é cada vez mais comum em São Paulo, vai dispor de menos infra-estrutura. Os custos de construir na periferia são bem mais altos e os benefícios de morar na área central são muito maiores. E nem sempre está claro que o custo da reforma é de fato maior que o da construção. Por fim, morar no Centro e nos bairros centrais envolve outros ganhos, como a convivência com o patrimônio histórico, o diálogo com a cidade e com outras gerações, a experiência da diversidade funcional e social. São ganhos fenomenais. O que fazemos é incentivar a indústria imobiliária a investir em reforma, para desenvolver um mercado novo, até mesmo mais vantajoso e menos custoso que o mercado atual. Por exemplo, a reforma de um prédio residencial demanda menos tempo que a construção de um novo. Ou seja, a possibilidade de investir com retorno de menor prazo é maior na reforma do que na construção.

    (Helena Menna Barreto) É claro que alguns edifícios se prestam mais do que outros à reforma visando ao seu uso como habitação de interesse social, e isso baixa muito os custos. Por exemplo, prédios em que funcionaram hotéis. Eles têm uma divisão de cômodos e de número de banheiros que facilita a adaptação para pequenos apartamentos de custo relativamente baixo. Há também uma diferença se o imóvel é tombado pelo patrimônio histórico, o que implica um investimento adicional no restauro da fachada. Temos um grupo de técnicos com a missão de analisar a adaptabilidade desses prédios. Fizemos com o Sinduscon um estudo abrangendo grande número de imóveis na área central, estabelecendo tipologias de acordo com sua maior ou menor possibilidade de adaptação para o uso residencial. Cada unidade de habitação produzida deve incorporar o custo do imóvel e o custo da obra. Mas estamos atentos a edifícios que se tornaram inadequados ou inviáveis para certos tipo de uso, como escritório ou mesmo residência, pelo fato de não terem garagem, entre outras limitações, e isso significa redução do custo do imóvel. Muitas vezes o proprietário não tem outra coisa a fazer com seus prédios, que perderam valor de localização e de acessibilidade, e não apresentam certos requisitos que o mercado exige.

    Como tem sido a resposta dos empresários no diálogo com a Prefeitura?

    Muito positiva. Eles têm aceitado bem a idéia, que começa a tomar corpo. Podem, inclusive, organizar os financiamentos para a classe média, porque o financiamento da Caixa, o PAR (Plano de Arrendamento Residencial), é só para a faixa de três a cinco salários mínimos. É claro que esse segmento médio é um mercado que vai se aquecer quando todos começarem a perceber que o Centro está mudando para melhor.

    Mas essa mudança está demorando...

    Não, já começou. Você tem uma transformação significativa no chamado quadrilátero dos calçadões, no Centro Novo, uma mudança na ocupação do espaço público, na paisagem urbana. Não se vê a quantidade abusiva de anúncios que havia antes. Existem conservação das calçadas e limpeza. Nesse ano e meio já se nota isso...

    As barracas de camelôs continuam atravancando o quadrilátero.

    Bem, a situação melhorou muito em relação ao padrão que tínhamos há um ano e meio. Não é o ideal, mas caminhamos para isso.

    De que forma o indivíduo de classe média vai se convencer de que chegou a hora de mudar-se para o Centro?

    Qual é o momento de vir morar na região central? É agora. E por quê? Porque ela vai sofrer uma valorização imobiliária depois desses investimentos para reabilitar o espaço público, a paisagem, a oferta cultural. Se alguém pedir a minha orientação sobre a conveniência de morar na região, eu, como secretário da Habitação, direi o seguinte: venha morar agora. Esse novo morador vai contribuir para acelerar o processo de recuperação da área, ao mesmo tempo em que é seu beneficiário direto.

    Como ele vai participar do processo?

    Vai ajudar o poder público a eleger as melhores intervenções. Nós temos uma administração muito permeável às sugestões e novas idéias.

    Nesse contexto, como ficará a Operação Urbana Centro? Fala-se que vai ser reformulada, ou que se enquadrará nas regras das demais operações urbanas previstas no novo Plano Diretor, isto é, vai se descaracterizar.

    Ela sofre hoje um questionamento judicial no que diz respeito à transferência de potencial construtivo. Como resultado, esse potencial não mais será transferido e só poderá ser aproveitado no perímetro da própria operação. Aliás, o Estatuto da Cidade determina justamente isso. Quanto a uma eventual revisão da lei da operação, a 11.349, só deverão sofrê-la aqueles incentivos que acarretem expulsão de moradores ou prejuízo ao patrimônio histórico.

    Talvez o problema não esteja no incentivo, mas no tipo de imóvel ou lugar sobre o qual seja aplicado. Ou no projeto a ser incentivado. Podem-se exigir projetos compatíveis com as necessidades sociais e de preservação.

    (Helena Menna Barreto) Às vezes um incentivo é bom para um setor e não para outro. É preciso saber exatamente o quê e por que se incentiva. Talvez por isso não tenhamos assistido à vinda de investimentos para o Centro, apesar dos fortes incentivos da Operação Urbana Centro. O único instrumento que funcionou foi justamente a transferência de potencial construtivo. Uma política de incentivos deve considerar as diferenças entre as várias regiões da cidade, cada qual com suas características. Um dos programas desta Secretaria é o que chamamos de Reabilitação por Perímetro, que prevê intervenções em áreas com concentração de cortiços, de edifícios vazios e terrenos subutilizados, para abrigar não só empreendimentos para famílias de baixa renda como também para as de renda média. Nesses perímetros, instrumentos de incentivo bastante interessantes agirão combinados com outros disponibilizados pelo novo Plano Diretor.

    Suponhamos que uma entidade de classe se interesse por um edifício de escritórios vazio numa rua de bancos e instituições financeiras. Convertido em prédio de apartamentos, ele vai discrepar da paisagem e da função tradicional da rua. A Sehab acha isso bom?

    As pessoas e entidades procuram edifícios vazios em áreas que sejam, pelo menos em parte, residenciais ou que comportem essa função. Em suma, bairros ou ruas onde gostariam de morar. E a Prefeitura verifica se o imóvel tem características residenciais ou está em área com infra-estrutura de serviços adequada para tal uso. Dificilmente um prédio na Rua 15 de Novembro se prestaria à ocupação residencial. Num distrito financeiro, valeria muito mais destinar o prédio à sede de uma secretaria municipal, a um centro cultural ou a outra finalidade que não a moradia.

    (Helena Menna Barreto) Uma de nossas preocupações é manter os usos originais dos pavimentos térreos. Entre outras funções, como a animação da rua, ajudariam a custear as despesas do condomínio.


      Cultura  
    REFERÊNCIA EM MÚSICA

    Instituição genuinamente paulistana, Sociedade de Cultura Artística completa 90 anos sempre no Centro

    ANA FRANCISCA PONZIO - Fotos de Marcelo Santos



    A elegância discreta que já rendeu versos à capital paulista também é traço marcante da Sociedade de Cultura Artística (SCA) que, sem alardes mas com o estilo e a qualidade de programação que lhe são peculiares, está comemorando 90 anos. Genuinamente paulistana, a instituição sediada na Rua Nestor Pestana entrou para a história do Centro de São Paulo por conseguir impor à cidade o alto padrão musical que em 1942 já era reconhecido por um de seus sócios e incentivadores — o escritor Mário de Andrade.

    O currículo pontuado por estrelas do panorama artístico nacional e internacional começou a ser construído antes que a SCA ganhasse o teatro que também passou a fazer parte do patrimônio arquitetônico de São Paulo. Para se ter idéia da pulsação cultural que a Cultura Artística, como é informalmente mencionada até hoje, introduziu na cidade, basta lembrar que o grupo Ballets Russes, dirigido pelo empresário Serge Diaghilev e tendo o bailarino Nijinsky como atração principal, aqui se apresentou em 1917. Por intermédio da SCA, a troupe que revolucionou as artes no início do século XX e que já havia eletrizado Paris, então capital cultural do mundo, chegou ao Brasil na mesma época em que estreou nos Estados Unidos.

    No ano seguinte, outro mito do balé russo — Anna Pavlova — também se apresentou em São Paulo em espetáculo promovido pela SCA. As temporadas de dança, embora sempre presentes na programação, nunca ocorreram na mesma intensidade dos eventos musicais, que até hoje garantem a presença de expoentes na cidade. Desde os primeiros tempos, quando Heitor Villa-Lobos tornou-se um maestro da casa, constantemente à frente de seus concertos, a Cultura Artística ganhou chancela para convidar os mais importantes artistas da cena erudita mundial.

    Pontos altos

    Hoje, passadas nove décadas, a SCA não precisou mudar sua rotina para comemorar, com requinte, o aniversário de quase um século. A programação musical se mantém no calendário de 2003, com os pontos altos de sempre. Em agosto, por exemplo, a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo deve marcar o calendário cultural da cidade, com recitais conduzidos pelo maestro Yuri Temirkanov. Em setembro, chega outra atração especial: a Orchestra of the Age of Enlightenment. Com músicos dominando instrumentos antigos, esse conjunto inglês terá como solistas a soprano Emma Kirkby e o contra-tenor Michael Chance.

    A Orquestra Filarmônica de Dresden, acompanhada do Coro da Igreja da Santa Cruz, da mesma cidade alemã, apresentam-se em outubro, sob regência de Roderich Kreile. Em novembro, o encerramento da programação de 2002 contará com um dos mais celebrados violinistas da atualidade – o russo Gidon Kremer, que atuará como solista e regente da Kremerata Báltica. Para espectadores que não garantiram ingressos por meio das tradicionais assinaturas do SCA, resta a chance de obter bilhetes avulsos para esses recitais, sobre os quais é possível encontrar informações na Internet, por meio do site www.culturaartistica.com.br

    "Nossa programação não chega a ser revolucionária. Mas temos mostrado o que há de qualidade no mundo", diz Gérald Perret, superintentende da Cultura Artística desde o final de 1979. Nascido na Suíça, Perret passou a gerenciar a SCA quando a instituição voltou a se expandir, depois da crise financeira enfrentada nos anos 60, quando seu teatro foi alugado pela TV Excelsior. Embora tenha marcado época na cidade com seus eventos de música popular, a Excelsior entrou em decadência. Despejada pela Justiça Federal em novembro de 1970, devolveu em ruínas a sala de espetáculos que, para ser recuperada pela SCA, consumiu sete anos de reforma.

    Reinaugurado em 1977, o teatro da Rua Nestor Pestana, projetado no início do século XX pelo arquiteto Rino Levi, deu início a nova e promissora fase. Em 26 de setembro de 1979, a SCA apresentou seu milésimo sarau, conforme registram os textos saborosos do escritor Ivan Ângelo, no livro 85 Anos de Cultura — História da Sociedade de Cultura Artística, publicado pelo Studio Nobel em 1998. Na trajetória da SCA, o sarau é termo corrente. Quando a Sociedade foi concebida por um rol de intelectuais que incluía os poetas Vicente de Carvalho e Olavo Bilac, o jornalista Nestor Rangel Pestana, o diretor do jornal O Estado de S. Paulo, Julio Mesquita, e o crítico literário e jurista Alfredo Pujol, a idéia básica era realizar saraus lítero-musicais, ou seja, conferências seguidas de música.

    Em 26 de setembro de 1912, o sarau que inaugurou a SCA no Salão do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo começou com uma conferência sobre o poeta Raimundo Corrêa, ministrada por Amadeu Amaral. Em seguida, o maestro João Gomes de Araújo regeu um concerto que incluía peças para canto e piano de compositores como Carlos Gomes, Alexandre Levy, Henrique Oswald, Chopin e Ponchielli. Financiada por 325 sócios, a SCA logo se firmou como referência musical. Paralelamente, suas conferências disseminavam informações culturais diversas.

    Em 1914, para o lotado auditório do Clube Germânia, Afonso Arinos falou sobre as lendas e as tradições brasileiras. Mário de Andrade, que se tornou um dos conferencistas mais assíduos da SCA, protagonizou momento histórico em 1926. Incomodando ouvidos convencionais, o autor de Macunaíma exaltou as qualidades eruditas de um compositor até então considerado popular, Ernesto Nazareth, que após a conferência interpretou suas músicas ao piano.

    Abandonadas com o tempo, as conferências estão voltando à cena da SCA. "Neste ano começamos a resgatar esse tipo de atividade com o curso ‘Chaves para Compreender a Música’, que o crítico e jornalista J. Jota de Moraes está ministrando até julho", diz Perret, que pretende dar continuidade a essa programação com curso semelhante sobre teatro, a ser conduzido pelo crítico Alberto Guzik no segundo semestre. Para 2003, a proposta é convidar Zuza Homen de Mello para falar sobre bossa-nova. Temas como arquitetura também estão na pauta de Perret, que quer igualmente oferecer novidades na programação de espetáculos.

    "Em 2000 trouxemos a alemã Utte Lemper, cantora de gênero cabaré, e neste ano a atriz Anna Schygulla que, em apresentação sui generis, cantou músicas de Kurt Weil e Hanns Eisler num recital dedicado a Brecht. Com isso, esperamos estimular o público mais tradicional do SCA a ver outras coisas", comenta o superintendente. Se depender de Perret, o prédio que abriga o teatro da Cultura Artística também ganhará maior difusão. "Infelizmente não temos uma praça em frente, que facilitaria a apreciação do mosaico da fachada exterior do edifício, assinado por Di Cavalcanti e considerado um dos maiores do mundo em comprimento."

    Teatro e dança

    Desde 1947, quando começou a ser construído, o Teatro da Cultura Artística tornou-se tema em cursos universitários. "Até hoje os professores da FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) mandam seus alunos estudarem o prédio", salienta Perret. Um clássico da arquitetura brasileira, o projeto desenvolvido por Rino Levi concedeu ao Centro de São Paulo um auditório privilegiado, com visibilidade de palco garantida em qualquer ponto. Além dessa sala maior, denominada Esther Mesquita, o conglomerado inclui a Sala Rubens Sverner, menor e mais aconchegante.

    Inaugurado em 1950, o Teatro da Cultura Artística marcou presença na cidade também com produções de teatro e dança, apesar da predominância musical de sua programação. Já em seu primeiro ano de funcionamento, os palcos da Rua Nestor Pestana receberam nomes como Maria Della Costa e Itália Fausta, que protagonizaram a peça O Fundo do Poço, de Helena Silveira e Jamil Haddad, além do bailarino e coreógrafo Harald Kreutzberg (1902-1968), um dos precursores da dança expressionista alemã. Contudo, antes mesmo de possuir sede própria, a SCA cultivou em outros teatros, como o Municipal, a tradição de trazer sumidades para São Paulo. Violinistas como Yehudi Menuhim e Maxim Vengerov, pianistas como Wilhelm Kempff e Radu Lupu, violoncelistas como Rostropovich e Yo-Yo Ma, cantoras como Bidu Sayão e Cecilia Bartoli, trouxeram o brilho de gerações diversas para os calendários culturais paulistanos. Sem contar as inúmeras e importantes orquestras, lideradas por regentes igualmente consagrados (de Barbirolli a Osawa), que por aqui têm passado via Cultura Artística.

    Segundo Perret, o sistema de colegiado é um dos fatores que fortalecem a Sociedade, cuja atual direção, presidida por José Mindlin, inclui nomes como J. Jota de Moraes, Jayme Sverner, João Lara Mesquita e José Zaragoza. "As decisões são democráticas e dificultam apadrinhamentos", diz o superintendente, que se auto-denomina um executivo da instituição. "Sou a pessoa que fica na casa, que apresenta projetos e procura soluções, em comum acordo com todos". Por meio de assembléias, a SCA também procura cultivar a renovação entre os integrantes de seu conselho, que acaba de admitir Pedro Herz, proprietário das livrarias Cultura.

    Na esteira de bem-sucedidos superintendentes anteriores, como Nestor Pestana e Esther Mesquita, Perret vem dando continuidade a um projeto modelar da cidade, que hoje, ao contrário dos primeiros tempos, é financiado mais por patrocinadores do que por sócios. "Nossa conduta é pautada pela dedicação", ele diz, esperando comemorar, com o estilo de sempre, o centenário da instituição, em 2012.


      Cultura  
    Cidade da arte

    25ͺ Bienal transformou o prédio do Ibirapuera num espaço para artistas de 70 países discutirem o fenômeno urbano

    FEDERICO MENGOZZI – Fotos de Jesus Carlos (imagenlatina)


    Quem paga o preço de viver de maneira intensa a aventura urbana, dia sim, dia não, sonha em algum grau com o idílio da vida campestre. Pura idealização. Da teoria à prática, quase nunca dá certo, já que, assim como o homem mora na cidade, a cidade mora no homem, vincula-se à sua biografia, incorpora-se à sua epiderme, forma uma mistura homogênea, de difícil separação. Com os artistas – prova-o a 25ͺ Bienal de São Paulo, que elegeu o tema Iconografias Metropolitanas para nortear o tradicional balanço que, a cada dois anos, por algumas semanas, desloca o eixo do mundo cultural para o hemisfério sul – não é diferente. A arte é um fenômeno eminentemente urbano e houve um tempo em que refletir sobre as cidades, inventá-las, também era coisa de artista. Claro, durante o Renascimento, quando abundavam as concepções de governos e lugares ideais – Utopia, de Thomas Morus; A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella etc. – e não se sabia ao certo onde terminava a arte e começava a ciência, ou vice-versa.

    Piero della Francesca queria uma cidade asséptica como sua pintura, quase desprovida de habitantes, mais um cenário que um centro vivo, enquanto Leonardo da Vinci era mais pragmático e se preocupava com aspectos da circulação urbana, não misturando o tráfego de pessoas com o de veículos, antecipando dessa maneira – ele que antecipou tanto - os calçadões. Eram visões de quem vivia em cidades precárias e que, cidadão ativo, desejava sugerir, interferir, mudar. Com o tempo, à exceção de uma ou outra escultura numa praça ou rua, de um ou outro painel na fachada de um prédio, e afora a atividade de artistas-arquitetos como Michelangelo, Bernini ou, mais recentemente, Le Corbusier, os artistas continuaram morando nas cidades e as cidades continuaram morando neles, mas não, com o espírito de intervenção no espaço urbano, em seus trabalhos. No século passado, a relação mudou e, de ações conceituais a grafites nas paredes, o artista ensaia cada vez mais sair do ateliê e, à moda impressionista, procurar o sol. Detalhe: não para retratá-lo.

    A Bienal de São Paulo pediu licença aos arquitetos e urbanistas e, repetindo a máxima segundo a qual a guerra é algo importante demais para ser resolvida somente pelos generais, convocou artistas de todo o mundo – 190 nomes de 70 países - para pensar a cidade. Segundo o alemão Alfons Hug, curador geral da mostra paulistana, para quem o tema Iconografias Metropolitanas não quis mostrar apenas a imagem da cidade na arte do presente, mas também a maneira pela qual correntes de energia urbana influem nos artistas contemporâneos, pode-se afirmar que, hoje, a cidade é a arte. "Partimos da premissa de que também nos dias atuais, como já há 100 anos nos casos de Paris, Berlim e Moscou, as metrópoles definem substancialmente o perfil da criação artística. E agora as novas megalópoles, que nas últimas décadas cresceram quase que explosivamente na Ásia, África e América Latina, entram cada vez mais no foco da nossa atenção. Nelas transcorrem os grandes dramas urbanos, são testadas novas formas de convívio humano e desenvolvidas novas estratégias de sobrevivência."

    Para Hug, as metrópoles são laboratório nos quais surge a massa crítica que transforma o espírito de uma época em arte. "Diante do simples tamanho de muitas megacidades, dentre elas a própria São Paulo, coloca-se também a pergunta de como os artistas lidam com o problema da escala. Como a obra de arte concorre com as dimensões metropolitanas? Diante da velocidade e complexidade dos processos urbanos existe o risco de a arte ficar a reboque da cidade, ao invés de correr à sua frente e indicar-lhe a direção." Historicamente, cabe aos artistas dirigir suas antenas para o passado, para o presente e para o futuro, sinalizando, ao fim do processo, uma direção. Foi assim com momentos estéticos como o Renascimento, o Barroco, o Romantismo etc. Foi assim com os ismos que marcaram o século XX – Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo. Aos arquitetos e urbanistas cabe resolver a equação apresentada pelas cidades e seus habitantes, mas quem disse que os artistas, espíritos livres, não podem apontar caminhos?

    Também historicamente, sabe-se que a Bienal de São Paulo é um palco de debates – por exemplo, a nuvem abstrata que se abateu sobre o Brasil nos anos 50 e 60 foi trazida pelas primeiras edições da mostra. E, ainda no terreno da constatação histórica, sempre se cobra qualidade à exposição, quando se deveria cobrar ousadia. A Bienal não existe, apesar de o público exigir e eleger como um dos pontos máximos de cada evento, para mostrar grandes retrospectivas de grandes nomes. Isto é, também existe, mas apenas no sentido de apresentar tais artistas como antecipadores ou sintetizadores de uma maneira de ver e reagir. É natural que uma Bienal seja um espaço imperfeito, já que é um espaço de teste. Assim, nem vale entrar no mérito do que se viu no Ibirapuera, mas no mérito de sua proposta, apresentada em cinco segmentos principais: "11 Metrópoles" - Berlim, Caracas, Istambul, Johannesburgo, Londres, Moscou, Nova York, Pequim, Sidney, Tóquio e, logicamente, São Paulo -, "Representações Nacionais", "Núcleo Brasileiro", "Salas Especiais" e "Net Arte".

    "Estimular a produção de arte contemporânea para difundi-la". É esse o papel da Bienal, diz Agnaldo Farias, curador da representação brasileira, ao justificar a opção pelos trabalhos inéditos. Trabalhos que vieram de todo o mundo, tanto que Hug recorre a "O Aleph", de Jorge Luis Borges, para enfatizar o caráter global – não globalizante – da Bienal. No conto, Borges explica que um Aleph é "o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos. (...) Se todos os lugares da terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz". A 25ͺ Bienal, escala à parte, foi um abrigo – por meio de seus artistas-cidadãos - de todos os, ou muitos, lugares. "As imagens de que trata a exposição", segundo Hug, "mostram a diversidade, o contraditório e o multifacetado da Terra. Esta grande mostra de arte contemporânea nos leva para uma longa viagem através de todos os continentes e culturas e ousa lançar um olhar para cumes espetaculares e abismos obscuros."

    Olhar aguçado

    A arte, ao contrário das "modalidades superficiais de observação", como Hug define a mídia e demais sensores, tem um olhar aguçado e penetra aquelas camadas interiores do mundo que necessariamente permanecem ocultas. "As colônias da arte são locais de segregação, ilhas de resistência num mar de uniformidade. O olhar incorruptível do artista obriga-nos a ver a presença das imagens e das histórias recalcadas." Para ele, mesmo ao trazer o mundo ao Ibirapuera, a Bienal não deixa de ser, como sempre foi e, provavelmente, sempre será, uma proposta de viagem ao centro da Terra – o outro, e não menos verdadeiro, centro da Terra. "A viagem não será confortável, pois os artistas do nosso tempo raramente se satisfazem com a bela superfície das coisas. Acima de tudo, eles se insurgem contra a enxurrada de imagens estereotipadas que a quermesse da mídia, com sua visão maniqueísta, joga em nossa cara, na qual o Oriente Médio, por exemplo, aparece unicamente como área bélica, como se todas as outras formas de vida tivessem sido erradicadas."

    Gal Weinstein ou Sliman Mansour, artistas que representaram, respectivamente, Israel e Palestina, são exemplos de que, independente do lado em que eles estejam, a vida continua pulsando no Oriente Médio. Mas a Bienal, independente dos nomes que a compõem – vale repetir que são quase 200 artistas - deve ser vista como uma proposta global, na qual as peças regionais se encaixam para formar um conjunto universal, que tenta deslocar a atenção para as zonas periféricas, negligenciadas pelos circuitos tradicionais, rompendo com os eixos. Tanto faz se Paris-Nova York ou Rio-São Paulo - metade dos 30 artistas do "Núcleo Brasileiro" não atua no eixo-Rio-São Paulo, diz Farias, para quem "há centros pulsantes no Brasil inteiro". A intenção manifesta é romper com o pensamento hegemônico e eurocêntrico. O caráter ecumênico de São Paulo, segundo Hug, é fundamental para fomentar o diálogo norte-sul, pois a Bienal de São Paulo "opera a partir de uma das maiores e mais pluriculturais cidades do planeta". Para Hug, São Paulo é um laboratório vivo:

    "Esta megalópole não produz apenas, diariamente, dramaturgias inauditas de massacres e atos violentos, mas também um número igual de novos contextos sociais e surpreendentes constelações culturais. Nas 7 mil ruas de São Paulo surgem constantemente tantos ready mades dos tipos mais distintos imagináveis, de modo que o trabalho do artista pode se restringir em muitos casos à apropriação dos objetos encontrados, ainda que estes sejam apenas casinhas para cachorros que foram montadas ao longo da rodovia por nordestinos e reapareçam nas instalações de uma jovem artista na forma de cidades em miniatura..."

    Para representar São Paulo, o curador Agnaldo Farias escolheu os artistas Arthur Lescher, Lina Kim, Raquel Garbelotti, Rubens Mano e Vânia Mignone. "Hoje, a cena paulistana é muito matizada", enfatiza. Mais uma vez, os nomes contam pouco e, sim, contam as propostas dentro da proposta maior, a própria Bienal. Ao contrário do Artecidadezonaleste, a mais recente edição do projeto Arte/Cidade, recém-encerrada, que reuniu intervenções de artistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros na Zona Leste da cidade, surpreendendo o paulistano no seu lugar, no seu cotidiano, a Bienal se ateve ao majestoso prédio concebido por Oscar Niemeyer nos anos 50. Certamente uma contingência, já que a Bienal se desenvolve no pavilhão da... Bienal, mas igualmente um limite, pois discutir a cidade fora da cidade – o Ibirapuera é um apêndice de São Paulo – faz pouco sentido. Ainda assim, mais que as afirmações, valem as indagações que o pavilhão ecoou sobre o futuro da cidade e da própria arte, que, atendendo à sugestão da última Bienal de Arquitetura de Veneza, poderia proclamar: "Menos estética, mais ética!"


      Reportagem  
    "A Bela e a Fera", arrasador

    Novo espetáculo doTeatro Abril supera Os Miseráveis em sofisticação cênica e recursos técnicos

    Ana Francisca Ponzio - Fotos de Jesus Carlos (imagenlatina)

    Era uma vez uma fábula tão antiga quanto o tempo. Assim definida por seus narradores, a história de A Bela e a Fera vem atravessando incontáveis gerações. Neste ano, sua chegada em forma de teatro musical ao palco do Teatro Abril, em São Paulo, está sendo considerada um marco histórico tanto para as artes cênicas brasileiras quanto para a vida cultural da cidade.

    Se, até pouco tempo atrás, o acesso dos espectadores brasileiros a esse tipo de espetáculo estava associado a viagens ao exterior – ou mais exatamente a passagens pela Broadway, em Nova York –, agora também já está ficando para trás o preconceito de que, no Brasil, não há artistas com a múltipla habilidade de interpretar, cantar e dançar, exigida pelos musicais.

    Embora "importada" dos Estados Unidos pela CIE (Corporação Internacional de Entretenimento), que na capital paulista é proprietária de três salas de espetáculos, o Credicard Hall, o Direct TV e o Teatro Abril, a produção de A Bela e a Fera, que entrou em cartaz em 19 de junho, conta com elenco inteiramente brasileiro, escolhido pelos diretores da versão original americana.

    "Em dezembro passado os americanos começaram a fazer testes para escolher 40 cantores-atores-bailarinos entre os cerca de 3 mil candidatos que se apresentaram", diz o diretor teatral Jorge Takla, que agora ocupa o cargo de diretor da divisão de teatros da CIE.

    Segundo Takla, o momento histórico inaugurado pelo musical Os Miseráveis, que ficou em cena no Teatro Abril durante 11 meses, e que agora ganha maior dimensão com a montagem bem mais sofisticada de A Bela e a Fera, é um impacto que se reflete no meio artístico e no chamado mercado cultural. À parte a injeção de ânimo que uma produção desse calibre representa para o calendário cultural da cidade, fica também provado que a chance do centro paulistano sediar uma Broadway brasileira está cada vez mais próxima da realidade.

    "Investimentos como esses tornaram-se irreversíveis. Como homem de teatro, também fico emocionado ao constatar a qualidade de nosso elenco. Ao perceber a existência de um mercado, o artista brasileiro está investindo na preparação corporal e vocal e, por isso, já contamos com excelentes profissionais. Também os 80 brasileiros que integram a equipe técnica estão ganhando um know how precioso", comenta Takla, entusiasmado inclusive com as condições do Teatro Abril, cujo padrão tecnológico assinalou um avanço até então sem precedentes entre as salas de espetáculos da cidade.

    Essa matéria-prima nacional, somada à receptividade do público, estimula investimentos de porte e prova que, também em palcos nacionais, a fera pode sim virar príncipe. "A pergunta que mais tenho ouvido daqueles que viram o espetáculo em Nova York é se teríamos a cena da transformação tal como ocorre na Broadway", comenta Takla sobre o instante em que a monstruosa criatura que protagoniza a peça, assume, como num passe de mágica, a aparência física de um belo príncipe.

    O efeito surpreendente costuma deleitar platéias. Porém, os truques de mágica e os efeitos visuais usados na versão de A Bela e a Fera da Broadway, agora revividos da mesma forma no Teatro Abril, são mantidos em segredo pela produção. "O contrato com a Disney, que detém os direitos da peça, proíbe todos os envolvidos, dos produtores aos artistas, de revelar como funcionam certas cenas, principalmente a da transformação", conta Takla.

    Por trás da magia, o que se sabe é que, embaixo do palco, a quantidade de técnicos é equiparável ao número de atores que atuam em cena. Operando monitores, máquinários e computadores, a equipe técnica garante efeitos de tirar o fôlego. Distantes da vista do público, os responsáveis pelas 32 mudanças de cenários e a troca de mais de 300 figurinos dão show de competência também nos bastidores.

    "Estamos formando uma geração de stage managers, uma função que não era praticada no Brasil", acrescenta Takla, salientando que os profissionais americanos estão impressionados com a qualidade de trabalho dos brasileiros. "Os diretores já dizem que o nosso é o melhor elenco entre os que foram formados nos 17 países onde A Bela e a Fera já foi montada. O problema é que logo perderemos artistas e técnicos para os palcos americanos."

    Longevidade

    Somando investimento de R$ 8 milhões, a montagem brasileira de ‘A Bela e a Fera’ terá sete sessões semanais. A expectativa é que a temporada siga o exemplo da Broadway também na longevidade. "Por enquanto, temos seis meses confirmados", diz Takla, torcendo para que a afluência de público estimule a permanência em cartaz durante alguns anos.

    Motivos para tanto não faltam. Além do encantamento cênico, A Bela e a Fera aborda um tema que, nos dias que correm, funciona como um diluidor de tensões no cotidiano da metrópole. Com origens na Grécia, Índia e África, a fábula, que já chegou ao cinema por intermédio de diretores como Jean Cocteau e ao desenho animado via estúdios Disney, ganhou o enredo que permanece até hoje quando a escritora francesa Madame de Beaumont publicou sua versão da história, em 1756.

    A princípio, A Bela e a Fera é um conto infantil. Porém, platéias de todas e épocas e idades sempre se identificaram com a história desencadeada pelo príncipe egoísta e rude, que ganha uma aparência horrível depois de negar abrigo a uma mulher velha e feia.

    Na verdade uma feiticeira, a senhora rejeitada decide que o príncipe só recuperará sua antiga forma física quando tornar-se um homem bom e de espírito elevado. Uma rosa que ela havia lhe dado serve para marcar o tempo: antes que a última pétala se perca, a Fera tem que aprender a amar e conquistar o amor de uma mulher.

    Até a Fera conseguir despertar o amor da formosa e bondosa Belle, não faltam situações para conquistar a platéia, pois além de atingir o príncipe, o feitiço também transforma todos os criados do castelo onde ele vive em objetos animados. Um deles é uma xícara travessa, que costuma ser interpretada por crianças.

    No Brasil, os atores-mirins Guilherme Lobo e Igor Rudolf, ambos de sete anos, se encarregam de roubar a cena. "A Bela e a Fera é uma história avassaladora. Fala de uma menina que ama um monstro e que consegue transformá-lo. Não há quem resista a esse tema, que mostra o poder transformador do amor", conclui Takla.

    Serviço – A Bela e a Fera: Teatro Abril (Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 411; tel. 3101-5055). Quartas, quintas e sextas-feiras às 21h. Sábados às 17h e 22h. Domingos às 15h e 20h.Ingressos: R$ 50 a R$ 150. Vendas por telefone: Ticketmaster, tel. 6846-6000.


      Mix  
    Fortes impressões


    O CCBB oferece uma programação cuja excelência tem sido amplamente reconhecida, além, é claro, de um belo prédio histórico. Do cinema às artes plásticas, passando por uma série de outras atividades, a instituição procura apresentar um leque variado de opções representativas de diferentes vertentes do fazer artístico. Um bom exemplo é a peça de teatro Mozart e Salieri – A Inveja, em cartaz até 04 de agosto, um texto de Aleksander S. Puichin, escrito em 1830, que num misto de realidade e ficção, aborda a intensa relação entre Mozart e Salieri. Outro destaque da programação no período é a mostra Arte Popular Brasileira, que deve reunir artistas dedicados ao artesanato regionalista como Ranchinho e Chico da Silva ou o índio Amati Trumai, descoberto pelos irmãos Villas-Boas. Para os cinéfilos, o CCBB preparou um programão, que fica em cartaz entre agosto e setembro: o tradicional Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, que faz parte do calendário oficial de eventos da metrópole paulistana.

    Centro Cultural Banco do Brasil – R. Álvares Penteado, 112. Tel. 3113-3651 ou 3113-3652. Metrô São Bento ou Sé. Terça a domingo, das 12h às 18h30. Ingressos de R$3,00 a R$15,00. Estacionamento e transporte por van, de terça a domingo, a partir das 11h50, com saída do estacionamento Estapar da Rua da Consolação, 228 e ponto final no Hotel Othon (R. Líbero Badaró, 190), com retornos periódicos. O preço do estacionamento é de R$7,00 por até 3 horas de permanência e o transporte de van é gratuito, patrocinado pelo Seguro Ouro Auto.

    Arcângelo Ianelli: Renovação aos 80 anos


    Permanentemente irrequieto e vital, Arcângelo Ianelli tem em exposição no Espaço Cultural BM&F, em pleno Centro histórico e financeiro da cidade, uma série de telas atestando que aos 80 anos continua indispensável a quem ambicione antenar-se com o melhor da arte brasileira atual. Num universo de 1.358 inscrições de todo o país, o jovial Ianelli figura entre os 56 artistas selecionados para fazer parte do 10Ί Salão Paulista de Arte Contemporânea, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura. Neste ano, o evento traz como novidade, além das premiações, a utilização de diversas salas de exposições no Centro de São Paulo, sendo uma delas a da BM&F. Com Ianelli, o espaço já está em sua quarta mostra, desde a inauguração no final de janeiro. "Começamos com nosso próprio acervo, no qual se encontram nomes expressivos como Di Cavalcanti, Portinari, Anita Malfati e outros. Oferecemos logo a seguir o acervo da Bovespa, com destaque para obras de Benedito Calixto que capturam imagens santistas, e já mostramos os quadros de Bertoni, um fascinado pelo cenário paulistano", lembra o presidente do Conselho de Administração da BM&F, Manoel Felix Cintra Neto. Até 31 de julho.

    Espaço Cultural BM&F – Praça Antônio Prado, 48. Tel. 3119-2404. Metrô São Bento. Segunda a sexta, das 10h30 às 17h. Entrada franca. Sem estacionamento.

    Por um merecido lugar na história


    Provavelmente o primeiro teatro em formato de arena do Brasil, o Teatro de Arena Eugênio Kusnet, a partir de 1955, foi palco da origem e do desenvolvimento do teatro e da dramaturgia brasileiros. Além de nomes como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Oduvaldo Viana Filho, seus principais idealizadores, por ele passaram Paulo José, Dina Sfat e Raul Cortez, entre tantos outros que construíram a cena teatral no Brasil. Com montagens de cunho político, também viveu alguns dos mais duros momentos da repressão, tornando-se um símbolo das ações de censura à livre expressão. Mas apesar de sua representatividade, não tem sido alvo de ações para sua preservação, ao contrário, sofreu uma série de descaracterizações ao longo dos anos. É para assegurar seu papel na história do teatro que o projeto Harmonia na Diversidade está reivindicando à Funarte, organismo ao qual pertence o Arena, à Secretaria Nacional de Artes Cênicas e à Câmara dos Vereadores de São Paulo o tombamento e restauro da casa. O projeto envolve as companhias que vêm ocupando o Arena, como a Folias d’Arte e a Cia Teatral Islã Madrasta. O movimento inclui campanhas de conscientização do público e de captação de patrocinadores, e será respaldado por uma exposição permanente sobre a historia do teatro, um documentário, leitura de peças e outras ações, como um abaixo-assinado para endossar a reivindicação. Já há um anteprojeto arquitetônico feito pela arquiteta Cristina de Castro Mello que devolve o conceito original do teatro, desfigurado por obras inadequadas. Mais informações no site www.ciasaojorge.hpg.com.br/harmonia

    Teatro de Arena Eugênio Kusnet – Rua Teodoro Baima, 94. Tel. 256-9463. Metrô República. Horário variado. Preço a conferir. Sem estacionamento.

    Modernidade à brasileira


    A Orquestra Sinfônica do Estado, sob a regência de John Neschling, executa a Abertura festiva op. 96 de Shostakovich como prólogo para o solo de violino do spalla da OSESP, Cláudio Cruz, nos dias 25 e 26 de julho (quinta e sexta-feira, às 21h). Na seqüência, música modernista brasileira com o Coro da OSESP – O Maracatu de Chico Rei, que é uma das peças mais importantes do compositor ítalo-brasileiro Francisco Mignone. Para o mês de agosto, o grande destaque é a dupla de virtuoses Hans Graf, regência, e Michel Beroff, piano, nos dias 22 (quinta-feira, às 21h) e 24 (sábado, às 16h30). O repertório acompanha a importância do encontro e inclui a Sinfonia NΊ 36 em Dó Maior, KV 425 – Linz, de Mozart, Fantasia Coral, op. 80 de Beethoven e Concerto em Ré Maior para a Mão Esquerda de Ravel. O encontro terá o acompanhamento do Coro da OSESP.

    Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz. Quintas-feiras, às 21h, e sábados, às 16h30. Ingressos R$10,00 a R$30,00. Amplo estacionamento interno (R$5,00).

    Boemia, aqui me tens de regresso


    Apoio não faltou. A Associação VIVA O CENTRO e a Secretaria de Estado da Cultura ajudaram a realizar um velho sonho dos boêmios paulistanos congregados no Movimento Cultura de Boteco. É o chamado Clube da Insônia que resgata o ideal da entidade informal fundada pelo compositor Zé Ketti e pelo jornalista Marcos Faerman (já falecido), entre outras figuras da noite de São Paulo. Seu objetivo é trazer de volta a tradição das casas noturnas do Centro da cidade que promoviam shows de música brasileira. A programação inspira-se em locais antológicos do Centro, como O Beco, Jogral, Viva Maria, João Sebastião Bar ou Telecoteco na Paróquia!. Maiores informações, boêmios assumidos podem buscar no site www.clubedainsonia.com.br. Freqüentadores de bares como O Lugar (Rua Acaraú, 11 – Bela Vista), Hemisfério Sul (Av. Ipiranga, 958) ou Confraria MPB Bar (Av. Dr. Arnaldo, 1318) podem saber desde já que têm lugar garantido no projeto, que pode funcionar como um estímulo para se freqüentar o bom e velho centro.

    Reflexões sobre a arte


    Além da programação convencional, no momento estrelada por Waltércio Caldas, um dos expoentes da arte conceitual, a nova direção da Pinacoteca está em busca de programas que ajudem a divulgar o papel da arte no contexto cultural atual. Uma das iniciativas, o Projeto Trópico na Pinacoteca, passou a vigorar em fins de maio e deve prosseguir enquanto puder promover reflexões sobre o fazer artístico. Trata-se de uma parceria entre a instituição e a revista eletrônica Trópico, do portal Uol, que reúne intelectuais de diferentes disciplinas e artistas diversos para debater temas da atualidade cultural brasileira e internacional. Os encontros são realizados todo último sábado de cada mês com entrada franca.

    Pinacoteca do Estado – Praça da Luz, 02. Metrô Luz. Tel. 229-9844. Terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada franca. Sem estacionamento.

    Grandes atrações


    Depois da Orquestra Sinfônica de São Petersburgo, sob regência de Yuri Termikanov, tocando Wagner, Rachmaninov e Tchaikovsky, uma infinidade de outras grandes atrações marcam o ano do 90Ί aniversário do Teatro de Cultura Artística. A programação comemorativa inclui, por exemplo, entre os dias 09 e 11 de Setembro, a consagrada Orchestra of the Age of the Enlightment, que se apresenta junto da soprano Emma Kirkby e do contratenor Michael Chance trarão para São Paulo um programa variado. A Orquestra é reconhecida mundialmente por ter nascido, em 1986, da iniciativa de alguns musicistas ingleses especializados em instrumentos de época. Vale conferir!

    Teatro Cultura Artística – R. Nestor Pestana, 196. Tel. 258-3344. Metrô República. Horário variado. Preço a conferir. Sem estacionamento.

    Em nome da música erudita


    Tudo pela música erudita. Um grande problema para os freqüentadores do Municipal é o estacionamento de veículos. Pois agora, os motoristas não precisam mais contornar o teatro para deixar o carro na praça. Em horários de espetáculo, pode-se, vindo da Xavier de Toledo, entrar à esquerda, que é contramão em condições normais, e entregar o carro ao serviço de valets que aguarda na Praça Ramos, bem em frente. Outra medida que o Municipal pode tomar para atrair o público é educativa: está-se estudando a criação de sessões matutinas para habituar os ouvidos de crianças e adolescentes com o melhor da música erudita, como Macbeth de Verdi, em cartaz até 29 de julho. Com legendas em português, o texto de Shakespeare será acompanhado pela Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência de Ira Levin, e pelo Coral Lírico, e terá por solistas Juha Uusitano e Gail Gilmore.

    Teatro Municipal – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Tel. 228-8968. Metrô Anhangabaú/ Saída Xavier de Toledo. Preços a conferir. Horário variado. Sem estacionamento.


      Achados do Centro  
    Direto da Índia


    É provável que grande parte das pessoas que circulam pelo Centro de São Paulo nunca tenha notado a pequena Rua Dr. Miguel Couto, que liga as ruas São Bento e Líbero Badaró, na altura do Largo do Café. Ainda mais discreta é a pequena Galeria Prefeito Firmiano Pinto, onde se localiza uma das mais completas lojas de produtos indianos de São Paulo. Com grande variedade de velas, estojos, esculturas, porta-jóias e incensos, a loja Surya Kiran também vende roupas e acessórios para apaixonados e apaixonadas pelo equilíbrio contido na diversidade de cores e aromas que vem da Índia. Na entrada, tochas artificiais remetem ao misticismo do Oriente.

    Surya Kiran – Rua São Bento, 315, Lojas 15/16/17/19. CEP 01011-000. Metrô São Bento. Tel. 310-5049/3101-3058. Horário comercial.

    Escola antiga


    Cabelos artificiais e naturais. Pentes, escovas, máquinas de corte profissionais. Produtos para hidratação, xampus, cremes, tesouras especiais. Voltada para cabeleireiros e esteticistas, profissionais e amadores, a loja Teruya, na esquina das avenidas Ipiranga e Rio Branco, é uma das mais famosas de São Paulo. Entre seus clientes, grandes redes de cabeleireiros e estética da cidade, além de pessoas que buscam bons preços e variedade de produtos para tratamento de cabelo e pele. Detalhe: é uma das mais antigas escolas de cabeleireiros e estética de São Paulo.

    Teruya – Supermercado de Cosméticos, Centro Técnico e Escola de Cabeleireiros e Estética – Avenida Rio Branco, 125, 127 e 211, 2ͺ Sobreloja. CEP 01205-000. Metrô República. Tels. 229-7829/229-4757/229-7749. Horários variados.

    Experiência e tradição


    Não há fotógrafo que não conheça o trabalho de Celso Eberhardt, especialista na recuperação e manutenção de máquinas fotográficas profissionais. Lentes sujas ou com fungos, falta de parafusos ou riscos – nada é novidade para o senhor apaixonado por fotografia e máquinas antigas. Em um prédio da Rua São Bento, num conjunto comercial pequeno e escondidinho, ele atende há 41 anos fotógrafos reconhecidos como Cristiano Mascaro e outros nem tanto, além de instituições como a FAUUSP e o Centro de Tecnologia Aeroespacial (CTA), de São José dos Campos.

    Celso Eberhardt – Rua São Bento, nΊ 279, cj. 50b. CEP 01011-000. Metrô São Bento. Tel. 3104-5402. Segunda a sexta, das 8h30 às 12h e das 13h às 17h30.

    Design moderno


    Presente em muitos shoppings e galerias de São Paulo, a loja de óculos Chilli Beans marca presença no Centro com um quiosque dentro do Shopping Light. São centenas de modelos diferentes, a preços que variam de R$ 50 a R$ 150. A especialidade da marca são óculos com design arrojado e moderno, para o público jovem que cada vez mais circula, trabalha e reside no Centro.

    Chilli Beans – Shopping Light – Rua Coronel Xavier de Toledo, 23, 2o Piso. Tel. 257-2299. Metrô Anhangabaú/saída Xavier de Toledo. Horário comercial.


      Livros  
    Parques e praças do Brasil


    Praças Brasileiras (Fabio Robba e Sílvio Soares Macedo, 312 páginas, $ 75) e Parques Urbanos no Brasil (Sílvio Soares Macedo e Francine Gramacho Sakata, 208 páginas, R$ 60) são os dois novos lançamentos da Edusp, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado, que — a partir de Quadro do Paisagismo no Brasil, de Sílvio Soares Macedo, e do CD Paisagismo Brasileiro: Guia de Parques e Praças — vem divulgando o excelente trabalho do Projeto Quapá, desenvolvido no Laboratório da Paisagem da FAUUSP. Os dois volumes são ricamente ilustrados e constituem-se num inventário do que as cidades brasileiras possuem de mais notável em praças e parques, no quadro geral de precariedade e escassez que marca a presença desse equipamento urbano no país. À venda na livraria da Edusp (Av. Prof. Luciano Gualberto, Travessa J, 374, Cidade Universitária), com 20% de desconto. Informações pelos telefones 3091-4008 e 3091-4150.

    Cultura da cidade


    Fruto de seminário realizado em 2000 no Instituto Goethe de São Paulo, em parceria deste com a FAUUSP, Cidade e Cultura – Esfera Pública e Transformação Urbana (Estação Liberdade, 118 páginas, R$ 22), organizado por Vera M. Pallamin e coordenado por Marina Ludemann, aborda o freqüente mal-estar que acompanha a cultura urbana, o impacto das tecnologias e a produção e consumo da cultura nas cidades. Participam do volume Barbara Freitag-Rouanet, Claudia Büttner, Laymert Garcia dos Santos, Nicolau Sevcenko, Oskar Negt, Otilia Arantes, Vera M. Pallamin e Walter Prigge, com breves e agudos ensaios.

    Sob a ótica cultural


    Fatos relevantes para o Brasil e o mundo nos últimos 24 anos, mas vistos sob uma ótica diferenciada, a da cultura, figuram nos textos da coletânea Cultura Pública — A Organização Política do Sonho (Editora Senac, 352 páginas, R$ 44), do jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação Padre Anchieta e ex-secretário de Estado da Cultura na gestão Franco Montoro. Democracia, socialismo, reforma urbana, o impasse na Rede Cultura, o governo FHC, cidadania e educação figuram entre os temas abordados.

    Periferia revisitada


    A periferia das grandes cidades brasileiras, em particular São Paulo, é o tema do nΊ 42 da revista Espaço & Debates, do Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos da USP. Com coordenação editorial de Maria Cristina da Silva Leme e Sarah Feldman, os ensaios e artigos que compõem a edição procuram atualizar a discussão do processo de expansão das periferias numa per5spectiva conceitual e das dinâmicas próprias dessas áreas de exclusão e pobreza.

    DO CORTIÇO AO ARRANHA-CÉU


    Modernidade e Moradia – Habitação Coletiva no Rio de Janeiro, Séculos XIX e XX (7 Letras/Faperj, 184 páginas, R$ 22) trata de um (aparente) paradoxo: a moradia coletiva no Rio de Janeiro e a sua evolução desde os cortiços e casas de cômodos, cujas origens vêm do século XIX, até os edifícios de apartamentos de hoje, enxergados como símbolo de modernidade. Interessante é que, nessa trajetória histórica, as classes e camadas mais pobres deslocaram-se da habitação coletiva para a moradia unifamiliar nas favelas, ao passo que os estratos mais aquinhoados trocam suas casas pelos edifícios de ocupação coletiva. A autora, arquiteta Lilian Fessler Vaz, é professora da UFRJ e pesquisadora do CNPq.


      Mesa  
    Entre o Júlio e o Barão

    JOÃO PODANOVSKY
    Fotos de marcelo santos

    Fátima Rosalina vai abrir restaurante. (Ela detesta esse Rosalina, tão meigo-lindo.) Me ligou, intimativa: "Vou a São Paulo comprar tudo. Você tem que me levar aonde acho as coisas, e ao melhor chope de São Paulo, aqui em Jaú só tem chope-choco, e para comer o melhor filé alla parmigiana da cidade", e blá-blá-blá, e tá-tá-tá, irmão é pra essas coisas.

    Fácil: Rua Paula Sousa. Panelas (de barro, de ferro – Fátima quer distância dos perigos do alumínio), pratos (diferentes, bonitos), talheres, copos, fogão, geladeira, utensílios para todo serviço de cozinha e salão, até uniformes para funcionários. Na Paula Sousa tem tudo. E o chope? A poucos passos, na Barão de Duprat, Bar Barão, melhor que o badalado Bar Leo da Aurora. E o parmigiana? Na Paula Sousa mesmo: Júlio. De fato, o segundo melhor. O primeiro é no Recreio Jaraguá da Freguesia do Ó, fora de mão.

    Paula Sousa. Verdadeira feira permanente de utilidades e equipamentos para restaurantes, bares e lares. Uns seis mil itens, varejo e atacado. Rodamos por mais de vinte lojas, Fátima deslumbrada. Achou tudo que queria. Pausa para almoço: parmigiana no Júlio, Paula Sousa, 87.

    Uai, fechado!? Nem placa? Vizinho consultado: "É, fechou". — "...?" — "Coisa de ano e meio". Gelei. Uma cantina ótima, com 63 anos de história! Não pode fechar. É crime de lesa-gastronomia.

    "Maninha, fico devendo o filé. À noite no Ó. Vamos almoçar, garanto que bem, muito bem, aqui pertinho, no Barão. É lá que servem o melhor chope da cidade."

    Beleza. Poupo encômios ao chope ($2,20) e ao eisbein ($10) porque vou precisar de espaço. E ao gerente "Tigrão" (Edilon) pela alvissareira informação: "O Júlio? Fechou não. Mudou de lugar. Está naquela vilinha da Florêncio de Abreu" etc., ensinou direitinho. Alívio! Findo o almoço, para fazer o quilo, fomos caminhando até a tal vilinha.

    Logo virando a esquina da Florêncio, um beco. Nos fundos, só estacionamento e o Júlio. Surpresa agradável: mesma equipe básica, mesma primorosa culinária cantineira. Agora é bar-restaurante. Ambiente despojado, limpo. Balcão com banquetas embaixo, refeições em cima, no longo salão azulejado. Seu Joãozinho (há 35 anos na casa) continua administrador-garçom. Na cozinha, velhos conhecidos, chef Edivaldo e seu segundo, o Abílio. Massas, carnes, peixes, frangos, pratos do dia – precinhos cristãos.

    Coração aliviado, novamente às lojas. Pechinchenta, Fátima comprou até o que não planejara: panela oriental wok de ferro polido, paellera espanhola, réchauds para fondue, centro de mesa giratório, sousplats de madeira, lampião eletrocutador de moscas.

    À noite, outra vez Júlio. Foi mortificante resistir a tentações como Mocotó ($10), Cappelletti in Brodo ($5), Codeguim (da Ceratti, $9,80), Filé à Luís XV ($24, enorme). Tinha que ser o carro-chefe da casa. Devoramos gulosamente um Filezão alla Parmigiana ($22), que daria para três.

    Dia seguinte, na hora de partir, maninha estava radiante. Mas dei mancada ao palpitar: "Olha que nome belíssimo para o seu restaurante: Rosalina". Me olhou obliqua com uma careta feíssima. E arrancou cantando pneus.

    Júlio
    Tel. 227-4111. Florêncio de Abreu, 636 (fundo do beco). Metrô Luz quase em frente. 7h-21h, sábado até 17h, folga domingo e feriado.

    Bar Barão
    227-9687. Barão de Duprat, 561 (entre Senador Queirós e Paula Sousa). 11h-21h, sábado até 16h, folga domingo e feriado. Tradicional bar-restaurante (desde 1968), pequeno, simples, a "Igrejinha" dos amantes de chope bem-tirado (não servem sem colarinho cremoso). Ótimos frios, pratos variados no almoço (até 15h), destaque para os pratos do dia (feijoada branca às quartas).


      Notas  
    Pátio do Colégio/Boa Vista, primeira AL a receber título de Oscip


    A Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista é o primeiro dos núcleos do Programa Ação Local a obter do Ministério da Justiça o título de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o que permitirá parcerias mais produtivas com organismos públicos em prol de sua microrregião. A estratégia de transformar Ações Locais em Oscips partiu da VIVA O CENTRO, que adaptou o estatuto padrão dessas entidades com esse objetivo e designou a Boa Vista/Pátio do Colégio como Ação Local piloto de implantação, abrindo o caminho para as demais. A área de Apoio às Ações Locais da VIVA O CENTRO está a postos para prestar as informações necessárias sobre o processo para a obtenção do título. A Ação Local Anhangabaú também está tomando providências para se transformar em Oscip.

    VIVA O CENTRO recebe visita de ministro


    O ministro Ovídio de Ângelis, da Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República, esteve em visita à ASSOCIAÇÃO VIVA O CENTRO no final de maio, sendo recebido pelo presidente da Diretoria Executiva da entidade, Marco Antonio Ramos de Almeida, pelo consultor Jorge Cunha Lima e pelo superintendente geral Antônio José Ayres Zagatto. O ministro, em sua visita, deu andamento às discussões visando à criação do Programa Federal para os Centros Metropolitanos (Profecem), proposta defendida pela VIVA O CENTRO com o objetivo de articular as ações dos diversos órgãos, autarquias e empresas federais instalados nas áreas centrais das metrópoles brasileiras.

    Financiamento externo, para o centro


    Uma delegação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que esteve em negociações com a Prefeitura na última semana de maio, também visitou a Associação VIVA O CENTRO em companhia da arquiteta Nadia Somekh, presidente do ProCentro e vice-presidente da Emurb. Na ocasião, os visitantes confirmaram o interesse do banco em apoiar o Programa de Reabilitação do Centro, recém-lançado pela prefeita Marta Suplicy. O BID e a Prefeitura discutem a liberação de um financiamento de US$ 100 milhões, mediante contrapartida da municipalidade de igual valor.

    Secretária pede apoio para ação social


    A convite da Associação Viva o Centro, a secretária de Assistência Social do município, Aldaíza Sposati, esteve na entidade no começo de junho para expor aos dirigentes de Ações Locais os planos de sua pasta para o Centro. No concorrido encontro, a secretária fez questão de evidenciar a mudança de conceito sobre a função de sua secretaria, que deve lutar contra velhos costumes de apartação da pobreza, passando a realizar trabalhos efetivos de promoção social. Segundo Aldaíza, a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) não deve ser encarada "como a secretaria da miséria e da pobreza, conceitos carregados de negatividade, mas como a secretaria voltado ao desenvolvimento humano". Quanto ao problema social que mais aflige o Centro, o dos moradores em situação de rua, a secretária disse estar com um amplo programa de ação já pronto, que entre outras providências inclui a instalação da Oficina Boracéa, proposta estruturada em atendimento, albergue e atividades multidisciplinares.

    Pátio do Colégio recebe Projeto Praticidade


    O Pátio do Colégio acolhe, desde o final de maio, o projeto "PraTiCidade/Pólo Centro: Trilha Histórica do Centro", que tem por finalidade atrair mais crianças ao Centro histórico e financeiro de São Paulo e prepará-las para respeitar e defender o patrimônio cultural da cidade no futuro. O PraTiCidade resulta de parceria do ProCentro com a ONG de assistência infanto-juvenil Cidade Escola Aprendiz, presidida pelo jornalista Gilberto Dimenstein, e a Fundação BankBoston, com apoio da VIVA O CENTRO. Estiveram presentes no evento Marcelo Santos, presidente da fundação e vice-presidente do BankBoston (associado à VIVA O CENTRO), a prefeita Marta Suplicy, o secretário municipal da Cultura, Marco Aurélio Garcia, a presidente do ProCentro, Nadia Somekh, o presidente da Diretoria Executiva da VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, o jornalista Dimenstein e integrantes do programa Escola Aprendiz. Na ocasião, os presentes e as crianças do Cidade Escola Aprendiz percorreram pontos históricos da região, guiados por técnicos do DPH, e deram início no Pátio a uma oficina de arte, que deve se repetir sempre aos sábados, para construir uma "trilha histórica" de pedras portuguesas e cerâmica ligando esses atrativos.


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    Pinheiro Neto Bank Boston
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    Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

    Editor: Jule Barreto
    Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
    Editora de Arte: Lu Rodrigues
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    Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
    Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
    Tratamento de imagens: Delcine de Assis
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