Londres na vanguarda da verticalidade
JOANA CARLA SOARES GONÇALVES*
Londres, a cidade mãe das cidades modernas, mais uma vez toma a dianteira no debate global sobre crescimento sustentável de centros urbanos de caráter internacional, trazendo a público a tão polêmica discussão da verticalidade. As considerações a respeito do tema englobam desde as vantagens e desvantagens da arquitetura de edifícios altos à importância da definição de critérios e limites para a implementação de torres, tendo em vista os interesses coletivos da sociedade como fatores determinantes nas políticas de desenvolvimento urbano.
O desastre ocorrido em Nova York e Washington em setembro de 2001, envolvendo as torres gêmeas do World Trade Center, abalou momentaneamente o mercado da construção em todas as grandes cidades dos países industrializados; porém, observando as tendências de mercado em cidades como Londres, Frankfurt, Chicago e até mesmo Nova York, as perspectivas são de incentivos ainda maiores à construção de edifícios altos em centros de alta densidade neste início de século. Segundo o arquiteto inglês de renome internacional Norman Foster, "os edifícios altos são uma realidade tanto quanto a urbanização em si".
O prefeito de Londres, Ken Livingstone, acredita que o desenvolvimento da cidade no século XXI precisa ser tão audacioso quanto, por exemplo, no caso da arquitetura vitoriana. Segundo o prefeito, as propostas de edifícios altos dos mais variados gabaritos devem ser consideradas sob o aspecto positivo que o processo de verticalização é capaz de acrescentar ao caráter internacional de Londres e suas atuais demandas, principalmente as geradas por pressões econômicas e demográficas.
Só em 2001 foram realizados três eventos interdisciplinares em Londres para a troca de conhecimento especializado sobre a questão da verticalização. Em maio, o Royal Institute of British Architects (RIBA) promoveu o debate Tall Storeys. Em dezembro, a London School of Economics and Political Science (LSE) organizou o seminário Tall Buildings in London. No mesmo mês, o Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) reuniu especialistas e convidados na conferência Buildings for the 21th Century.
Londres, a cidade mais cosmopolita de todas, é também a maior cidade da Europa, com 7,5 milhões de habitantes ocupando uma área de 1,6 mil km2, numa densidade de 50 pessoas/acre (Department of the Environment, Transport and the Regions of London, 1999). Em termos globais, esses números caracterizam Londres como uma cidade de densidade média, além de apontar para um problema grave: o espalhamento da mancha urbana, incorrendo diretamente na ineficiência da infra-estrutura de serviços da cidade e na degradação das áreas naturais periféricas.
No contexto da União Européia, Londres integra a área metropolitana da Europa Noroeste, que inclui Paris, Amsterdã, Rotterdam e as cidades ao longo dos rios Rhine e Ruhr. É a região economicamente mais forte da Europa, contendo perto de um terço da população européia. Com a globalização da economia e o impacto do desenvolvimento da tecnologia de transportes, as áreas metropolitanas lideradas por esses centros urbanos se tornaram bem mais interdependentes, tendo Londres como centro financeiro dominante.
No contexto internacional, Londres é uma das três cidades Nova York e Tóquio são as outras duas classificadas como world cities, "cidades do mundo", ou "cidades globais", terminologia utilizada para definir grandes centros urbanos que, atualmente, polarizam a macroeconomia mundial.
As pressões da globalização têm forçado mudanças de atitude na sociedade de Londres. Preocupações com o meio ambiente e o uso mais eficiente de recursos e materiais começam a despontar com força nos planos de políticas públicas. O grande desafio é fomentar o crescimento da economia e a acomodação do acréscimo demográfico, provendo ao mesmo tempo melhoria na qualidade das edificações, no espaço público e na infra-estrutura da cidade.
Pressões pela verticalização
Nas décadas de 50 e 60, seguindo diretrizes de projetos públicos do período pós-Guerra, o setor da construção produziu grande quantidade de edifícios altos, com maioria constituída por blocos residenciais de 20 andares. Hoje, Londres possui por volta de dois mil desses blocos. Contudo, problemas de qualidade ambiental, como ventilação insuficiente e falta de conforto acústico e térmico, contribuíram significativamente para a generalização de uma imagem pública de fracasso desses empreendimentos. Em decorrência, vários deles se tornaram guetos, locais de criminalidade e degradação ambiental.
No entanto, essa imagem vem mudando devido a experimentos de qualidade, principalmente ao longo do Rio Tâmisa. Certamente, locais como esses se destinam a camadas abastadas, mas propostas para novos edifícios altos residenciais, englobando diferentes padrões, e a serem implantados em locais reconhecidos como apropriados para o adensamento populacional, terão, a princípio, apoio e incentivo da política pública atual.
Após décadas de declínio, a população de Londres voltou a crescer nos últimos anos da década de 90, sendo necessárias no mínimo 23 mil unidades extras por ano, para o período de 2002 a 2011 (Greater London Authority, maio de 2001). A pouca disponibilidade de terrenos livres para a construção foi tomada pelo poder público como fator determinante da opção por empreendimentos residenciais com maior taxa de densidade demográfica.
A política pública de apoiar e incentivar a construção de edifícios altos insere-se num plano maior de escala urbana, o chamado London Plan (Plano de Londres), que está sendo elaborado pela Prefeitura em conjunto com especialistas atuantes no mercado, entre eles arquitetos, engenheiros e demais consultores.
Fala-se na construção de 15 a 20 torres na cidade nos próximos dez anos. Segundo a Prefeitura, esse número, combinado com o de outros empreendimentos mais modestos, atenderia à demanda não só de escritórios mas também de moradia, em prédios de uso misto. Um exemplo é o da proposta para a torre mais alta da Europa, com 306 metros, a London Bridge Tower projetada pelo escritório de arquitetura Renzo Piano Building Workshop em colaboração com os arquitetos locais do Broadway Malyan , a ser implantada sobre a London Bridge Station, junto ao Rio Tâmisa, contendo escritórios, hotéis e residências. Além dessa, outras suas propostas estão em processo de aprovação por órgãos públicos: a do edifício Heron Tower, de 222 metros de altura, do escritório norte-americano Kon Pendersen Fox Aassociates, e a da nova sede da empresa de seguros Swiss Re, já em construção e projetada pelo Norman Foster and Partners, com 154 metros. A proposta da London Bridge Tower fica nas imediações do distrito financeiro central de Londres, a City, enquanto as outras duas são para o centro propriamente dito.
O desenvolvimento de edifícios altos em local afastado do centro consolidado, a área de Docklands, também vem acontecendo sob o impulso de um grande volume de investimentos estrangeiros desde meados da década de 90. Docklands é essencialmente uma região de empreendimentos novos, fora das restrições estabelecidas para o restante da cidade, completamente entregue às vontades dos investidores internacionais.
Especialistas de mercado afirmam que, apesar do fracasso econômico no momento do lançamento dos primeiros empreendimentos em Docklands, atualmente esse pólo de edifícios de escritórios exerce papel fundamental no mercado imobiliário da cidade. Sem o espaço para os investimentos em Docklands, o distrito central, a City, estaria sob pressões de demanda impossíveis de atendimento sem danos ao tecido histórico.
Apesar do número significativo de torres a serem erguidas na cidade, parece bem claro para a política pública de incentivo a esses investimentos não haver interesse em transformar Londres em um aglomerado de torres, como Manhattam e Hong Kong. No novo plano de Londres, a noção de diversidade é intrínseca, por essa ser uma qualidade inerente à conformação tanto morfológica como mercadológica da cidade.
Acredita-se na capital inglesa que o aumento da oferta no mercado imobiliário, no qual os edifícios altos representam apenas uma parcela dos investimentos, tornará Londres hoje a cidade mais cara do mundo, com o metro quadrado custando US$ 1.455, enquanto em Tóquio e Hong Kong esse valor é de respectivamente US$ 1.440 e US$ 1.149; em Nova York, US$ 722; e em Paris, US$ 776 menos dispendiosa e, conseqüentemente, mais competitiva (Greater London Authority, maio 2001).
Um estudo sobre os impactos causados por edifícios altos em Londres será apresentado à sociedade no final deste ano e a versão final do London Plan, que poderíamos chamar de Plano Diretor de Londres, em 2003.
Metas e desafios
A Prefeitura de Londres compreende 32 bairros, mais o distrito denominado Corporation of London, o bairro financeiro. É responsabilidade legal da Prefeitura produzir estratégias de planejamento para tratar das seguintes questões: transporte público, desenvolvimento econômico, cultura, biodiversidade, conforto acústico, qualidade do ar e gerenciamento do lixo urbano. Mas, em 1999, um decreto lei estipulou que os planos da Prefeitura deveriam abordar também a saúde e contribuir para o crescimento sustentável do Reino Unido. E agora Livingston vai além: pretende estender essas políticas às questões de energia e habitação, considerando obviamente as políticas nacionais já implantadas.
Para fazer de Londres um modelo de cidade global sustentável, o plano diretor estima um período de 15 a 20 anos, tendo como metas: acomodar o crescimento econômico e global da área urbana, criar uma cidade próspera, aumentar a oferta de habitação, garantir a acessibilidade eficiente a todas as partes da cidade, promover uma cidade "verde" e, finalmente, criar uma cidade mais humanizada, uma cidade para as pessoas. O objetivo da atual gestão pública é mover Londres no sentido contrário às estratégias anteriores, que primaram pelo espalhamento da mancha urbana e conseqüente descentralização e antiverticalização.
As medidas de suporte à produção do espaço verticalizado acham-se definidas no seguinte conjunto de ações (Greater London Authority, outubro 2001):
ocupação de uma série de lugares na cidade, incluindo a City e partes específicas dos arredores ao sul e ao leste do centro, Docklands, partes da região de Westminster, áreas periféricas tradicionais da cidade como Croydon, e áreas em processo de recuperação, como Paddington, London Bridge e Waterloo;
reabilitação tecnológica de uma grande variedade de edifícios, entre eles antigas construções vitorianas, conjuntos de edifícios de escritórios e edifícios novos variando entre plantas-tipo de 840 a 4,8 mil m2;
construção de edifícios de grande porte ultrapassando 120 mil m2;
oferta de espaço para escritórios em edifícios baixos, de médio e alto porte;
oferta de locação variando de baixo custo, podendo competir com outras cidades européias, até o mais alto padrão de acomodações, quase independente de custos.
Já as expectativas diante do aumento de torres na cidade devem promover os seguintes efeitos:
contribuir para a consolidação formal de grupos de edifícios altos, o que demanda a escolha de áreas que já possuem torres;
gerar ícones arquitetônicos que representem um novo entendimento a respeito do edifício alto, ou seja, novos conceitos para sua relação com o espaço da cidade e seu desempenho como espaço para habitabilidade e convivência;
incentivar a recuperação de áreas urbanas degradadas econômica, social e ambientalmente;
atrair a atenção para lugares da cidade de importância cívica ou visual, como grandes terminais de transporte, em muitos casos de relevante valor histórico;
criar focos visuais de orientação em meio à malha edificada da cidade, de modo que surjam na paisagem como objetos em grupo ou isolados, e finalmente
promover a confiança no futuro de Londres, tanto econômica como esteticamente.
Com relação às exigências de projeto para propostas de edifícios altos, o Plano de Londres estabelece os critérios básicos para evitar impactos negativos do edifício:
pavimento térreo acessível ao público;
fachadas articuladas, apresentando um detalhamento arquitetônico interessante visualmente;
topo do edifício projetado de modo a expressar uma intenção de "coroamento" ou relação com o plano de fundo do céu, agregando valor simbólico à paisagem da cidade;
materiais de construção apropriados ao contexto;
espaços públicos do entorno capazes de lidar com o aumento do movimento e da densidade de pedestres;
impacto sobre o comportamento das correntes de vento mantido dentro de limites toleráveis para o conforto do transeunte nas imediações do edifício.
Em maio do ano passado, Livingstone declarava na versão preliminar do London Plan que "uma revisão das políticas estratégicas para a implementação de edifícios altos, incluindo o seu papel em maximizar a densidade dos empreendimentos e o seu impacto em paisagens urbanas importantes, está sendo elaborada pela Prefeitura como parte da preparação do relatório final do Plano de Londres".
Impacto na paisagem
Edifícios altos, na escala em que aparecem nas grandes cidades, são primordialmente símbolos do domínio tecnológico e do poder econômico para grandes feitos, atraindo a atenção para localidades de importância visual ou mesmo cívica na cidade. As construções isoladas ou em grupos, fortes ícones na paisagem, chegam a dominar vistas panorâmicas de bairros inteiros à medida em que o ponto de observação se afasta..
O impacto visual, conceito bastante subjetivo e passível de muita polêmica na discussão sobre a verticalidade, é inevitavelmente um fator determinante na elaboração das diretrizes para edifícios altos no caso de Londres. O Plano de Londres define claramente seu conceito de impacto visual negativo do edifício alto. Seria quando ele bloqueia a vista de outro prédio grande ou tolhe panoramas de valor histórico vistos de áreas públicas, também de importância histórica e cívica. A proximidade de um edifício novo de uma obra antiga também pode gerar impacto negativo na paisagem construída. É importante que seja mantida uma margem de céu ao redor dos edifícios classificados como monumentos, a fim de permitir sua contemplação dentro de uma "moldura" proporcional ao contorno dele.
A grande maioria dos edifícios históricos de Londres é de pequeno e médio porte, com exceção de alguns poucos projetados propositadamente para dominar a paisagem, caso da Catedral de St. Paul e da Abadia de Westminster. Respeitando o baixo gabarito, recomenda-se para a localização de novos edifícios altos primeiramente as áreas próximas a edifícios altos já existentes.
Planejamento do futuro
Ao mesmo tempo em que o Plano de Londres demonstra interesse em atender aos anseios do mercado, a fim de explorar as chances de capitalização geradas em um processo de verticalização, as medidas em prol da qualidade de vida e preservação do tecido histórico são bastante impositivas, limitando os novos investimentos a áreas pré-determinadas e aumentando os custos de projeto.
Contudo, dando o exemplo para o mundo, os investidores europeus atuantes em Londres parecem dispostos a pagar o preço e a se submeter às medidas restritivas, em troca de uma melhor qualidade ambiental do edifício e da cidade, tendo a consciência de que os cuidados com os bens públicos como um todo garantem também valor, segurança, estabilidade e respeitabilidade aos seus próprios investimentos.
Persistente nesse passo, e realizando a cidade vislumbrada daqui a 20 anos, a conseqüência natural é que Londres se torne um lugar de excelência em termos de qualidade de vida urbana a cidade do mundo para o século XXI, mais uma vez reafirmando seu papel de mãe das cidades modernas.
* Arquiteta, professora do Departamento de Tecnologia da FAUUSP, doutoranda do programa de pós-graduação da FAUUSP com estágio na Architectural Association Graduate School em Londres, no ano de 2001.
Referências Bibliográficas
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