ANO V   -   No. 26   -   maio / junho 2002
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Estratégia de requalificação ou política habitacional?
Mosaico  São Paulo colonial
Cidade nos trilhos
Novo comando na ar-Sé
Tema para as Américas
Bom Prato na 25 de Março
Broadway Paulistana, agora com apoio federal
Reportagem  Patriarca: Reurbanização da praça central tem início
Carandiru: Famoso presídio será espaço de lazer
Parque D. Pedro: Saída da Prefeitura agrava abandono
Habitação: Faltam moradias, mas só a área central possui 54 mil unidades vazias
Ovo de Colombo  Contra o feio, por amor à cidade
Urbanismo  Um artigo de Marcos Capobianco
Cultura  Orquestra Experimental de Repertório
Inaugurado há um ano, o CCBB-SP supera as expectativas e reanima parte do Centro histórico e financeiro
Livros  Rino Levi, uma visão panorâmica
Painel modernista
Presente no passado
Niemeyer, na história
Turismo Cultural  Hospedagem com arte
Entrevista  Nelson Brissac Peixoto
Notas  Uma parceria estimulante
Ação Local mobiliza comunidade na Maria Paula
Projeto Guri na Galeria do Rock
Ranking do "Cidadão de Carteirinha"
Mix  Entre melhores e melhores
Nível internacional
Sobre todas as artes
Figurinos antológicos
Em nome da cultura
Celebrações
Espaço democrático
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  Caro Leitor  
urbs está de visual novo. Ganhou um padrão gráfico mais clean. Entretanto, coerente com sua diretriz intelectual de obra aberta à novidade e à contestação, não assume um desenho definitivo senão em suas linhas essenciais. Tal como o seu foco de interesse e atuação, que é a cidade, urbs pretende-se uma realidade em processo, sensível à mudança e ao dinamismo de seu objeto de trabalho. Para que não se desminta a si mesma, cristalizando-se em formas que de início julgou satisfatórias mas que podem envelhecer rapidamente sem que haja imediata consciência disso, seus jornalistas necessitam da observação atenta do leitor. Inovações, quando pertinentes e compatíveis com a proposta da revista, serão sempre bem-vindas. A avaliação, afinal, caberá sempre ao nosso público leitor.

Esta experiência de roupagem nova envolve um conteúdo diferenciado que esperamos ser do interesse e agrado do leitor. Voltamos a falar de habitação, agora enfocando a contraditória superoferta de imóveis numa cidade carente de moradias. O abandono do Parque D. Pedro II e a reconfigurada Praça do Patriarca, mais as reportagens culturais, remetem a uma metrópole desconcertada em que iniciativas de grande refinamento técnico e estético, como a Orquestra Experimental de Repertório, contrastam com um parque central convertido em entroncamento viário e em depósito de mazelas e dejetos da cidade. Contudo, lendo a entrevista com o curador do projeto Arte/Cidade, Nelson Brissac Peixoto, o leitor terá a impressão — e mesmo a convicção — de que os descompassos de São Paulo não assinalam o caos, mas uma extraordinária energia que a nós cabe identificar e conduzir no sentido da transformação.

O editor


  Cartas  
Plano Diretor

A mancha urbana que compõe a cidade de São Paulo impressiona mais por sua extensão e menos por sua intensidade, ou seja, excede em área (circunstância) e carece de densidade (substância). Destacar um cenário impactante, digno de representar a pujança dessa cidade, em meio à profusão de edifícios inexpressivos, não é tarefa fácil, nem mesmo ao observador mais atento. São Paulo precisa de um plano estratégico capaz de propiciar, e não restringir, o aparecimento do belo, do monumental e do singular em sua paisagem. (Os (Des) caminhos do Plano Diretor, urbs nº 25)
Demétrio de Oliveira Fioritti
Serra Negra-SP

As grandes cidades do mundo, e nem todas elas do chamado Primeiro Mundo, estão investindo pesado em renovação urbana e, principalmente, na potencialização dos centros tradicionais, reforçando sua multifuncionalidade (negócios, turismo, moradia, lazer). Os investimentos são captados com o incentivo à máxima ocupação do terreno com projetos arquitetônicos de excelência, evitando-se impactos negativos à qualidade ambiental e de vida. Li recentemente em Veja que Xangai (sim, a até ontem decrépita aglomeração) está levantando um edifício de quase 500 me-tros de altura e inaugurando um trem que corre sobre um leito magnético, tudo para conquistar de Hong Kong o título de metrópole global da China. Aqui, lendo a matéria de capa sobre o Plano Diretor (urbs nº 25), fico sabendo que os urbanistas querem, entre outras coisas, desverticalizar São Paulo. Claro, Xangai está errada e nós certos. Pois não é que os edifícios altos fazem sombra e barram a visão do horizonte, além de atrair terroris- tas suicidas? E trem magnético para quê, se temos o Fura-fila?
Josete V. Raymundo
por e-mail

Sobre as premissas pétreas do Plano Diretor, objeto de urbs nº 25, tenho a comentar o seguinte: a) se a cidade toda é Z-1 e qualquer acréscimo depende de pagamento de contrapartida, isto é, de ônus para o construtor, então o preço da terra urbana subirá. Baixaria se ao lado dessa Z-1 houvesse uma Z-2 ou outra de maior potencial construtivo; b) tem-se a impressão de que há uma multidão de construtores dispostos a pagar qualquer fortuna para construir em São Paulo — prédios do tamanho que o Plano Diretor quer, não eles —, e que essa demanda será forte pelos próximos anos e décadas, o suficiente para financiar boa parte dos melhoramentos planejados para a cidade. Lamento, mas está dado o recado para prefeituras de municípios vizinhos: se quiserem atrair investimentos e tecnologias em edifícios de grande porte, façam bons planos que incentivem as empresas a construir fora, mas bem ao lado, do município de São Paulo...
Thaís dos Reis
São Paulo-SP

Fachadas

Belo trabalho está sendo feito próximo ao Mappin: a remoção das feias fachadas de anúncios que destroem o belo visual proporcionado pela arquitetura local. Espero que seja levado a todo o Centro, inclusive à Rua 25 de Março, Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e bairros centrais como a Bela Vista.
Eronides Oliveira
por e-mail

Emanuel Araújo

Excelente a entrevista com o artista Emanuel, também grande admi-nistrador cultural e observador inteligente da cidade (urbs nº 25). Esperemos, agora, que tenha sucesso no tal Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, começando pela obrigatória mudança do nome, que nada quer dizer. Qualquer museu de arte tem como acervo, necessariamente, frutos do imaginário. Difícil seria conceber uma arte destituída dos elementos conscientes ou inconscientes, atávicos ou resultantes dos mass media, que formam esse imaginário coletivo de nosso povo. Quanto à Pinacoteca que Emanuel e Paulo Mendes da Rocha nos deixaram, desnecessário dizer que é o mais belo e um dos mais interessantes museus brasileiros.
Pedro H. G. de Mattos
por e-mail

CORREÇÕES
Ao digitarmos o poema Praça da República dos Meus Sonhos, de Roberto Piva, reproduzido na reportagem Viva a República Viva, à pág. 32 de urbs nº 25, omitimos, por um lapso, o verso "onde Garcia Lorca espera seu dentista", que vem na seqüência de "onde beatificados vêm agitar as massas".

As fotos das páginas 11, 20, 22 e 52 da mesma edição são de Marcelo Santos.


  Panorama  
Estratégia de requalificação ou política habitacional?


A ampliação do uso residencial do Centro é um imperativo da estratégia de requalificação de áreas centrais, não podendo ser considerada uma ação de política habitacional. À parte as limitações de ordem técnica e econômica do retrofit e conversão para uso residencial de imóveis comerciais ociosos e as decorrentes da sua localização em áreas fortemente ocupadas por atividades de comércio e serviços, há que considerar que, no caso de São Paulo, essa ocupação em nenhuma hipótese alcançará a escala que a torne relevante como política de moradia. Também as limitações da oferta de imóveis para reciclar e de terrenos para construir jamais permitirão uma produção em massa de residências no Centro paulistano. Um programa bem sucedido de uso residencial do Centro será importante por seu significado simbólico, não como atendimento à esmagadora demanda por moradia na cidade. No entanto, na perspectiva da requalificação da área, faz todo o sentido incentivar a função residencial como uma dentre as muitas que compõem o principal atributo de um centro metropolitano: a diversidade funcional.

Como instrumento de política habitacional, o uso residencial da região central exige não só o aproveitamento do estoque imobiliário ocioso — com a conversão de uso de imóveis, onde for viável —, mas principalmente a produção de unidades residenciais novas, inclusive na coroa de bairros centrais ainda não consolidados, suscetíveis de ocupação mais densa. E isso não deve se dar exclusivamente por investimentos públicos subsidiados ou a fundo perdido. A construção e comercialização de moradias para populações de menor renda também podem interessar ao capital privado, desde que se ofereçam incentivos adequados, conforme o parecer de numerosos consultores e especialistas do ramo imobiliário. O que não se pode imaginar é que esse capital vá levantar essas moradias como contrapartida obrigatória ao direito de construir, na região, acima dos baixos coeficientes de aproveitamento do terreno que seriam fixados pelo novo Plano Diretor que ora se propõe. É importante lembrar que já há muitos anos a Operação Urbana Centro oferece gratuitamente esses benefícios, sem que tenha atraído o interesse dos empreendedores imobiliários.

Somente pelo reforço dos atributos da centralidade metropolitana — e não apenas aumentando a ocupação habitacional do Centro — se provocará a reversão do movimento centrífugo que hoje empurra a população residente dos bairros consolidados para as periferias.


  Mosaico  
São Paulo colonial


O Museu Padre Anchieta, no Pátio do Colégio, (foto abaixo) acha-se oficialmente reaberto à visitação pública desde 8 de abril, depois de permanecer fechado por quase um ano para reformas, com patrocínio da Petrobrás através da Lei Rouanet e do governo das Ilhas Canárias, onde nasceu o jesuíta. O acervo, formado principalmente por obras de arte sacra, contém entre outros destaques uma interessante maquete histórica que remete o espectador ao primitivo povoado de São Paulo de Piratininga no final do século XVI, quando certamente ninguém conseguiria imaginar a metrópole em que se transformaria a cidade a partir do final do século XX.

Cidade nos trilhos


Prosseguem em ritmo acelerado as obras do projeto Integração Centro, entre as estações Brás e Luz (foto acima) da CPTM, que promoverão a conexão das linhas de trem e metrô na região. No começo de abril o governador Geraldo Alckmin fez questão de visitar as obras pessoalmente, ocasião em que deu notícias sobre o estágio atual do Pitu 2020. Segundo o governador, a Linha 4 do metrô, com 13,5 km e 13 novas estações, ligando Vila Sônia, na Zona Sudoeste, à Estação da Luz, está em fase final de pré-qualificação licitatória. Também começou a montagem da passarela metálica coberta para pedestres que se interligará com o mezanino do metrô, na Estação Brás da CPTM. Em meados de março, Alckmin já havia assinado convênio com a CPTM e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) para a implantação da linha Expresso Aeroporto, ligando o Centro de São Paulo ao Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos.

Novo comando na ar-Sé


A Administração Regional da Sé (AR-Sé) tem novo comando desde 5 de abril, quando, para o lugar da arquiteta Clara Ant, o secretário de Implementação das Subprefeituras, Jilmar Tatto, anunciou a posse do engenheiro químico Sérgio Marasco Torrecilas, que ocupava o cargo de regional da Mooca. Também houve substituição no Butantã, com a saída de Eduardo José Siqueira Barbosa e posse de Carlos Alberto da Silva, vindo da Regional de Santana. Torrecilas, de 39 anos, assumiu a AR-Sé com a missão de dar início efetivo à implantação do plano Reconstruir o Centro e de regularizar a situação dos camelôs na região.

Tema para as Américas


Concebido pelo Ministério da Cultura no âmbito do Plano Avança Brasil, o Projeto Monumenta, para o qual a cidade de São Paulo pleiteia financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a fim de recuperar conjuntos de interesse histórico-arquitetônico do bairro da Luz, foi tema de um dos painéis da Conferência Regional da International Federation of Landscape Architects (Ifla), promovida pela Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap) no começo de maio em Belém do Pará, dedicada à "Arquitetura Paisagística nas Américas". Segundo a arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass, presidente da Abap e vice-presidente da Ifla, o bairro da Luz, que já está recebendo intervenções isoladas, precisa de um programa aglutinador como o Monumenta. "De pouco adiantam soluções pontuais, sejam no Parque da Luz (foto ao lado) ou na Praça Júlio Prestes. É preciso um plano geral de abordagem de todo esse setor urbano, com tratamento não só dos edifícios tombados ou não pelo patrimônio, mas também de todo o percurso que os liga", afirma a paisagista.

Bom Prato na 25 de Março


A região central de São Paulo acaba de receber mais uma unidade do restaurante Bom Prato, rede criada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento para atender à população de baixa renda, fornecendo refeições de 1.600 calorias, quantidade prescrita como ideal pelos nutricionistas, por apenas R$ 1. A nova unidade, (foto abaixo) inaugurada em 11 de abril pelo governador Geraldo Alckmin e o secretário João Carlos de Souza Meirelles, fica na Rua 25 de Março, 166, e surgiu de uma parceria com a comunidade israelita de São Paulo. As demais unidades ficam no Brás, Liberdade e Campos Elíseos.

Broadway Paulistana, agora com apoio federal


Autoridades federais, como o ministro de Esportes e Turismo, Caio Luiz de Carvalho, e o coordenador nacional do Projeto Monumenta, Pedro Taddei Netto, visitaram o Largo Paissandú e entorno, no final de março, e se comprometeram a alavancar recursos para a implementação do Projeto Broadway Paulistana, coordenado pelo engenheiro Cláudio de Sena Martins para a Secretaria de Estado da Cultura, comandada por Marcos Mendonça. O projeto, que tem o apoio da VIVA O CENTRO, prevê a transformação dos cinemas ali situados, hoje desativados ou em péssimo estado de conservação, em casas de espetáculos e a construção de um estacionamento subterrâneo para servir também ao Teatro Municipal, Grandes Galerias e outros equipamentos culturais e de entretenimento do Centro.



  Reportagem  
PATRIARCA em obras

Usuários e comerciantes torcem para que a intervenção na praça seja um sucesso. Beleza e funcionalidade é o que todos esperam dela

ANA MARIA CICCACIO
Fotos de JESUS CARLOS (Imagenlatina)


Foram dez anos. De 1992, quando o arquiteto Paulo Mendes da Rocha elaborou o projeto por encomenda da Associação VIVA O CENTRO, até o início das obras – em meados de fevereiro deste ano – sob o comando da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), mas a nova Praça do Patriarca finalmente saiu do papel, podendo tornar-se um exemplo para a recuperação de todas as praças do Centro daqui por diante.

A torcida, especialmente favorável entre os usuários da praça, é para que as obras – pórtico-cobertura monumental em estrutura metálica sobre o acesso à Galeria Prestes Maia, pedestrianização com restauro do piso em mosaico português, remoção do terminal de ônibus, implantação de pista exclusiva (em concreto) para a entrada de veículos de turismo, segurança, socorro e transporte de valores, mudança da iluminação e do mobiliário urbano (lixeiras e cabines telefônicas) – a deixem realmente bonita e acolhedora.

"Minha expectativa de pronto é o embelezamento do lugar", diz William Boucheb, dono de um escritório de consultoria empresarial instalado na Rua Líbero Badaró e presidente da Ação Local Líbero I, integrante do Programa Ação Local coordenado pela VIVA O CENTRO, ou seja, do movimento de zeladoria urbana deflagrado por usuários e moradores da região central de São Paulo desde 1996. "Essa praça sempre fez parte da minha vida. Eu tinha de 11 para 12 anos quando, acompanhado do meu pai, um imigrante libanês, ouvi da sacada da Rádio Piratininga, onde hoje está o prédio do Unibanco, a notícia de que a Segunda Guerra Mundial havia acabado. Dançamos na praça, eu e meu pai. Foi a maior festa. É claro que eu quero a praça recuperada."

Transtorno passageiro

Como Boucheb, a gerente da unidade da Camisaria Colombo instalada na Patriarca há cerca de 60 anos, Dulva Magalhães, está ao mesmo tempo paciente e esperançosa. "Reforma é assim mesmo: durante, é um transtorno, como na casa da gente. Mas depois compensa. Vai ficar bonito, e virão o lucro e as vantagens." Irene Vicente de Oliveira, gerente das Lojas Marisa, não é tão otimista. Segundo ela, "pode até ser que a praça fique melhor do que era, mas o comércio dificilmente será o mesmo com a retirada dos ônibus". Dulva acha exatamente o contrário. "Sem os ônibus, além de melhorar a visibilidade na praça, tudo vai ficar mais limpo. Espero que os camelôs também não voltem."

Sonha ainda mais alto o padre Giorgio Cunial, da Igreja de Santo Antônio, uma das mais antigas da cidade, e que abençoa a região da Patriarca desde o século XVI. "Minha expectativa é de que a praça, hoje um lugar de passagem, venha a se tornar um ponto de encontro, como aconteceu com o Vale do Anhangabaú, depois da reforma. Eu gostaria de ver a Patriarca limpa e arrumada, unindo o útil ao agradável, como o metrô, que tem desempenhado até um papel educativo na cidade, criando padrões mais civilizados de comportamento com a coisa pública."

Na memória do arquiteto Carlos Lemos, a Praça do Patriarca tem registro garantido nos bons tempos de sua juventude. Exatamente quando ele, no final da adolescência, pôde visitar, na Galeria Prestes Maia, duas grandes exposições itinerantes pelas Américas de arte francesa, com obras dos neoclássicos aos expressionistas, vindas do Louvre e de outros museus, porque era um jeito de preservá-las da voracidade dos nazistas na Franca ocupada. Lemos festeja a recuperação da praça e a volta da Galeria à sua função cultural com o Masp-Centro (ver Um pouco de história). "Também cheguei a expor na Prestes Maia, quando o espaço exibia o salão da Associação dos Artistas Plásticos de São Paulo. Isso entre 1946 e 1948. Bons tempos aqueles."

Intervenção responsável

Os recursos para a execução da reforma na Patriarca foram reservados pela Comissão Executiva da Operação Urbana Centro em dezembro de 1999, ainda na gestão Pitta. Não houvesse o empenho da gestão Marta Suplicy, o projeto de Paulo Mendes talvez tivesse sido engavetado. "Mas tratava-se de dar seqüência a uma proposta que, além de boa para o Centro, já havia sido deflagrada e tinha verba reservada. A atual diretoria da Emurb não entrou aqui para reinventar a roda", diz o diretor de Desenvolvimento da empresa, arquiteto Horácio Calligaris Galvanese.

Importante é que, de uma ação pontual ou isolada, o projeto Patriarca passou a figurar como parte de algo maior – o Corredor Cultural. Como o Patriarca exigisse a retirada dos ônibus da praça e a opção de transferi-los para a Rua Xavier de Toledo demandasse uma série de obras de adequação no logradouro, incluindo o alargamento e repavimentação das calçadas, percebeu-se que as benfeitorias poderiam ser extensivas a um traçado natural envolvendo vários equipamentos culturais – a Biblioteca Mário de Andrade, na Praça D. José Gaspar, o Teatro Municipal, na cabeceira da Rua Xavier de Toledo, o Masp-Centro na Galeria Prestes Maia, com acesso pela Praça do Patriarca reformada ou o Anhangabaú requalificado, e o Centro Cultural Banco do Brasil, na esquina das ruas Álvares Penteado e da Quitanda. Espera-se que, além de concretizar-se, a idéia do Corredor Cultural inspire intervenções em outros locais do Centro, como o caminho que vai da Sala São Paulo, passando pela Estação da Luz, até a Pinacoteca e o Museu de Arte Sacra.

Grades de segurança serão instaladas na entrada da Galeria Prestes Maia, embora o projeto inicial não as previsse, da mesma forma que serão preservadas as árvores existentes no local. Se o cronograma das obras não falhar, a previsão é de que em julho elas estejam finalizadas. "Paulo Mendes da Rocha é um arquiteto que dá valor ao histórico. Na Praça do Patriarca ele preserva modernizando, exatamente como fez na Pinacoteca", observa Horácio Galvanese. "Em sua lógica, ele cria uma peça moderna – o pórtico de metal –, mas a igreja do século XVII é o centro de seu projeto, a grande referência. Ao saírem dela, as pessoas deverão descortinar toda a praça."

Recuperação geral

Praticamente todos os edifícios da Praça do Patriarca são tombados pelo Conpresp, órgão municipal que responde pelo patrimônio histórico na cidade, podendo-se recorrer à Lei de Fachadas (nº 12.350/97) para restaurá-las e também à Lei de Operação Urbana Centro (nº 12.349/97), caso necessitem de reformas internas substanciais. As obras na praça já estão estimulando os proprietários dos edifícios a restaurar suas fachadas, caso do Othon Palace Hotel. "De 1954, quando inaugurado, a 1970 o Othon foi um dos grandes hotéis de luxo de São Paulo", diz seu gerente geral, Gilberto Cordeiro. "De lá para cá, a progressiva decadência do entorno prejudicou-o bastante. As reformas da praça e da fachada do Othon, que está buscando recursos nas leis de incentivo existentes, devem ser entendidas como um marco no processo de recuperação do Centro." Também é animadora a expectativa de transferência da Prefeitura para o Edifício Patriarca, antiga sede das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na ponta do Viaduto do Chá. "Comercialmente deverá ser ótimo. Haverá demanda para bons produtos hoteleiros."

Marlene Morais, gerente geral da Rede Tio Mega Lanches, recém-instalada na Patriarca, e funcionários da tradicional Casa São Nicolau, estabelecida na praça há 80 anos, também estão confiantes. "O Centro todo, e não apenas a Praça do Patriarca, estava muito abandonado", diz Marlene. "Com essa reforma vai melhorar, tanto para os comerciantes como para os habitantes e usuários da região. O que a gente espera é que, além de bonita, a praça tenha um monitoramento constante, porque não adianta fazer e depois descuidar. Durante a reforma ninguém gosta. É barulho em excesso, poeira, o incômodo é total. Atrapalha até a carga e descarga. Mas depois vale a pena. A gente torce para que ela também seja bem freqüentada."

UM POUCO DE HISTÓRIA

A praça se chama do Patriarca em homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca (pai e artífice) da Independência, amigo de Pedro I, por ele nomeado chefe do Ministério constituído logo após o Grito do Ipiranga e, depois, tutor de seus filhos. No mais, é uma praça de pouca história. Não teve vários nomes como a da República. Também não tem nenhum Marco Zero, como a Sé, nem abrigou manifestações políticas como a das Diretas Já, caso do Anhangabaú. Projetada em 1906, a Praça do Patriarca foi concluída em 1926 para dar vazão ao grande fluxo de pedestres e veículos do Viaduto do Chá, como parte do Plano Bouvard de remodelação da cidade. Acolheu magazines elegantes como o Mappin Stores e a tradicional Casa Fretin, recém-transferida para a Praça Antonio Prado. Assistiu, no início dos anos 40, à inauguração da Galeria Prestes Maia, importante ligação entre o Centro Velho e o Centro Novo, e que, recentemente, com a instalação do Masp-Centro, recuperou a finalidade cultural com que foi construída. Na Patriarca, os arranha-céus chegaram a partir dos anos 50, com o hotel Othon Palace, em 1954, e mais tarde os prédios Barão de Iguape (hoje abrigando o Unibanco) e Conde de Prates. Nada, felizmente, atingiu a secular e delicada Igreja de Santo Antônio, cuja primeira referência histórica data de 1592, foi reedificada em 1717 e tem nova fachada desde 1911, subsistindo aos tempos apesar de espremida entre as torres do entorno. Quanto ao Patriarca da Independência, desde 1972 uma estátua criada pelo escultor Alfredo Ceschiatti, com duas vezes a escala do corpo humano, trata de reverenciá-lo num dos extremos da praça, e ali permanecerá daqui para a frente, olhando para o Viaduto do Chá e não mais, como hoje, para a fachada do Edifício Barão de Iguape.


  Reportagem  
UM OÁSIS CHAMADO CARANDIRU

Maior conjunto penitenciário da América Latina está sendo desativado para transformar-se em agente de inclusão social

FEDERICO MENGOZZI
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)

Desde os anos 20 o paulistano incorporou à paisagem as linhas do Complexo Penitenciário do Carandiru, na Zona Norte. Então, a região era um descampado situado na várzea do rio Tietê, a poucos quilômetros do Centro. A partir de 1974, quando foi inaugurada a linha Norte-Sul do metrô, o Carandiru passou a abrigar uma das estações e foi incorporado, com seus muros altos e atmosfera pesada, de vez à rotina da cidade. Ao longo do tempo, o paulistano se acostumou a ver a escalada rumo à degradação, traduzida pela superlotação, pelas rebeliões, e o complexo foi se transformando numa filial do inferno vizinha ao Centro. Quando foi inaugurado, era um modelo de estabelecimento prisional. Uma crônica dos anos 40, algo ingênua, dizia: "A Penitenciária é uma instituição modelar... Homem! Hoje, apreciando o primor da Penitenciária, há até quem fique com vontade de praticar um crime para ficar ali, preso..." Já nos 50, era considerado um modelo superado e, em anos recentes, passou a ser uma chaga aberta na epiderme urbana.

O complexo do Carandiru está com os dias contados e será substituído por um parque, o da Juventude. No dia 28 de março, o governador Geraldo Alckmin assistiu à derrubada de um muro e ao início da demolição da estrutura do chamado Carandiru 2 – o esqueleto de concreto começou a ser erguido em 1990 e abrigaria a Casa de Detenção 2, mas foi abandonado em 1993, um ano após o "massacre do Carandiru". Alckmin assistiu à derrubada de um muro da vergonha? Com certeza. No mesmo dia do início da demolição, o governo estadual apresentou o projeto do Parque da Juventude e garantiu que, até o fim do ano, mais de 55 mil metros quadrados de Mata Atlântica, preservados dentro do complexo, estarão disponíveis para a população. Detalhe: há carência de áreas verdes no Carandiru e região. No conjunto, o projeto do novo parque prevê a construção de oito quadras poliesportivas, dois campos de futebol society, pistas de cooper e skate, ciclovia e espaços culturais. Afirmar que o Parque da Juventude mudará a vida do bairro e adjacências não é um palpite infeliz.

Três etapas

A construção do parque envolve três fases distintas. Segundo as previsões, as duas primeiras deverão estar concluídas até o fim de 2002. A primeira etapa inclui as áreas esportivas e de lazer – assim que as quadras estiverem prontas, o parque começará a receber o público pela entrada da Avenida Zachi Narchi; na segunda etapa, serão construídos espaços para eventos culturais, com capacidade para até 10 mil pessoas, e liberado o trecho de Mata Atlântica – a entrada será pela Avenida General Ataliba Leonel. Os trabalhos começaram com a derrubada do muro, que, afirmou o governador, "será substituído por alambrados, como no Ibirapuera". Geraldo Alckmin deu o pontapé inicial, mas foi o governador Mário Covas que elegera o desmantelamento do complexo prisional como meta de governo. Para ele, o Carandiru era um grande mal para a cidade, especialmente para a zona norte. Um mal que deveria ser extirpado pela raiz.

Como a Casa de Detenção, durante décadas, simbolizou a exclusão social, o projeto prevê que a área será transformada em centro de educação para o trabalho, com a implantação de cursos técnicos e profissionalizantes, escolas e até faculdades. É a terceira e última etapa, voltada para projetos educacionais para jovens. A Casa de Detenção "passará a ser um lugar de inclusão social e protagonismo juvenil", destacou Gabriel Chalita, secretário estadual da Educação. É uma espécie de mea-culpa da sociedade, deixa entender Chalita, e tem a função de dar instrumentos para que os jovens não ingressem no crime. "Grande parte da população carcerária é formada por jovens. O desafio é oferecer possibilidades para que a juventude canalize todo seu potencial para coisas boas, como o esporte, a cultura e o lazer." A terceira etapa buscará na sociedade o aval para sua implantação por meio de "audiências públicas", disse o governador. "Vamos buscar a opinião dos interessados." "A cadeia, que era incontrolável pelo número de presos e inadministrável pelo tamanho – a Casa de Detenção era o maior presídio da América Latina e chegou a abrigar mais de 7.000 pessoas –, dará lugar a um parque que promoverá a inclusão social", disse o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, que considerou o início da derrubada dos muros uma data histórica. Para que a demolição fosse iniciada, o Estado transferiu mais de 5.000 presos para 11 penitenciárias já construídas no interior, principalmente no Oeste paulista, em cidades como Álvaro de Carvalho, Getulina, Pacaembu e Valparaíso – recentemente, o Ministério da Justiça repassou R$ 70 milhões para o Estado e mais 12 presídios serão construídos. Porém, 1.800 presos ainda se encontram na Casa de Detenção, cuja desativação completa está prevista para antes do fim do ano. A Penitenciária do Estado, a Penitenciária Feminina e o Hospital Penitenciário continuarão funcionando. Mesmo com a ocupação parcial do complexo prisional, as obras estão em curso.

O parque da Juventude estará localizado entre a Casa de Detenção, a Penitenciária do Estado, com 2.500 presos, e a Penitenciária Feminina, com 800 presas, e, até o final do ano, com cerca de 250 mil metros quadrados, incluindo a porção de Mata Atlântica, deverá ser entregue à população. Quando o parque estiver completamente estruturado, deverá ter 500 mil metros quadrados, contra 800 mil metros quadrados do parque Ibirapuera. Para o arquiteto Roberto Aflalo Filho, da Aflalo & Gasperini Arquitetos, escritório responsável pelo projeto, a convivência de um parque público e unidades prisionais é complexa, mas aceitável, já que transitória. "É uma dificuldade, mas, com a disponibilização de 55% da área, torna viável a primeira etapa do projeto." Depois, há o fato de que as penitenciárias em atividade serem mais seguras. E algumas medidas extras, como cercas perimetrais de isolamento, serão tomadas para que a segurança seja total. Sem contar que os vários setores, esportivo, cultural, educativo, serão separados por portarias.

Há quem defenda, e o projeto original em parte defendia, a preservação de, ao menos, um dos pavilhões da Casa de Detenção – talvez como um museu. Vale observar que um museu não deve se referir necessariamente à história oficial de um lugar, de preferência ligado a fatos, digamos, positivos, mas também a espaços mais polêmicos, que tragam lembranças incômodas. Como as lembranças incômodas, ligadas ao martírio dos primeiros cristãos, lavradas nas pedras do Coliseu, em Roma, que ninguém pensa demolir. "O Plano Diretor previa dois pólos de atividades", esclarece Aflalo Filho. "O primeiro, em torno da Casa de Detenção, que seria dirigida a atividades de cultura, educação e lazer; o segundo, em torno da Penitenciária do Estado, que seria um centro de exposições. Mas o plano sofreu uma série de mudanças radicais, em parte devido aos custos onerosos da reforma dos pavilhões da Casa de Detenção." Quanto à não-liberação total da área, comenta-se que, além de as penitenciárias do interior não comportarem todos os presos, muitas prisões foram efetuadas nos últimos meses. O Carandiru é necessário.

O projeto do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos venceu o Concurso Nacional de Plano Diretor e Reurbanização da Área do Carandiru, promovido pela Secretaria Estadual da Administração Penitenciária e o Instituto dos Arquitetos do Brasil, em 1999, disputando com mais de cem escritórios de arquitetura. Um dos mais antigos escritórios brasileiros de arquitetura, a Aflalo & Gasperini começou a surgir quando, em 1962, os arquitetos associados Plinio Croce e Roberto Aflalo se juntaram ao arquiteto Gian Carlo Gasperini para participar de um dos maiores concursos internacionais da época, para a construção daquela que seria a maior torre de escritórios da América do Sul, a ser erguida em Buenos Aires. O trio, na faixa dos 30 anos, conseguiu o primeiro prêmio e resolveu organizar um escritório moderno e, a partir de então, desenvolveu inúmeros projetos, como os edifícios-sede da IBM, do Citicorp, do Banco Sudameris etc. Com a morte de Croce e Aflalo, passaram a fazer parte da sociedade os arquitetos Roberto Aflalo Filho e Luiz Felipe Aflalo Herman.

Inicialmente, os arquitetos queriam preservar alguns pavilhões, mas a Secretaria não concordou, alegando problemas de custo – na época, o projeto estava orçado em mais de R$ 100 milhões. Mas não só, também problemas conceituais, como o fato de os pavilhões lembrarem episódios trágicos, como aquele ocorrido no dia 2 de outubro de 1992, quando o confronto da Polícia Militar do Estado de São Paulo e presos rebelados redundou em 111 mortos no pavilhão 9 – segundo o projeto, um teatro com capacidade para 2.000 pessoas ocupará o espaço dos pavilhões 6, 8 e 9. Assim, substituiu-se a preservação por uma proposta de apelo social, com estruturas voltadas para as necessidades da comunidade local – desprovida de estruturas esportivas, culturais e educacionais públicas. Um dos prédios, porém, será preservado: a Penitenciária do Estado. Segundo Aflalo Filho, o prédio, com 66 mil metros quadrados, foi projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo nos anos 20 e tem "grande valor histórico". Também serão preservadas as torres de observação dos muros.

O parque da Juventude contará com uma estação de Metrô na porta, será uma das principais áreas verdes da cidade e deverá mudar o bairro do Carandiru. "A começar pela desativação de um bolsão de violência", diz Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização, Emurb. "O Carandiru era uma sombra ameaçadora, um sinal da decadência urbana, com um forte impacto negativo sobre a região. A transformação do complexo em área verde, com a implantação de equipamentos de lazer, trará mudanças a uma região que poderia ser direcionada para atividades ligadas a exposições, hotelaria e turismo, promovendo um novo desenho urbano." O Complexo Penitenciário do Carandiru foi sinônimo de exclusão social. O parque da Juventude quer ser sinônimo de inclusão social e, com o apoio de entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Senai, e o Serviço Social da Indústria, Sesi, um local de integração e valorização do homem. Principalmente os jovens, que, sem ocupação definida ou sem ter o que fazer, enveredam pelo crime e se tornam usuários potenciais de complexos como o que o parque da Juventude enterrará. Para sempre.

A prisão e o dr. Varella

O Carandiru é best-seller e, logo, poderá estar entre os maiores sucessos cinematográficos da temporada. Em 1989, o médico oncologista Dráuzio Varella começou um trabalho voluntário de prevenção à Aids no Complexo Penitenciário do Carandiru e, por 12 anos consecutivos, esteve em contato direto com tipos humanos marginalizados. Gente como Mário Cachorro, "Roberto Carlos", Sem-Chance, Seu Jeremias, Alfinete, Filósofo, Loreta, Seu Luís e tantos outros, que inventaram uma maneira de viver que segue um rígido código, não-escrito, criado entre as grades, cuja transgressão pode significar a morte. No livro "Estação Carandiru", Varella falou dessas pessoas, das formas que encontram para viver longe da sociedade, recebeu três prêmios Jabuti, entre os quais o de Melhor Reportagem, e alcançou a marca dos 150 mil exemplares vendidos. Por ocasião da assinatura da autorização do uso do pavilhão 8 para as filmagens de "Carandiru", inspirado no livro, Varella voltou a expressar o que seu livro diz em cada linha: "O Carandiru é uma academia do crime, pois é totalmente inviável colocar tantos presos num mesmo local".A partir do livro de Varella, o cineasta argentino-brasileiro Hector Babenco escreveu o roteiro de "Carandiru" e conseguiu filmar cenas do filme no início do ano, nas dependências do presídio. Segundo Babenco, o livro é complexo e permitiria realizar, no mínimo, três filmes diferentes. "Tem o aspecto documental, o da narrativa e o jornalístico", detalha. "A gente quer passar a vivência de alguém que conta as histórias lá de dentro, sem criticar, denunciar, glamurizar." "Carandiru" narra a história do doutor Varella a partir do momento em que iniciou seu trabalho de prevenção na Casa de Detenção de São Paulo. O médico entra em contato com uma realidade insuspeitada, na qual a violência é a palavra de ordem, mas testemunha também exemplos de solidariedade. Para Babenco, o filme recria a "realidade em termos de ficção" e procura criar um retrato poderoso da diversidade humana, criando um painel ora cômico, ora cruel, ora grandioso – isso mesmo – da condição humana."Carandiru" tem estréia prevista para o início de 2003.


  Reportagem  
E O PARQUE, como fica

Mudança da Prefeitura reforça a questão do Parque D. Pedro II, a grande área verde que o Centro perdeu
Federico mengozzi



"Eu assisti à declaração de morte do Parque D. Pedro II." A revelação é da arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass, que participou de importantes projetos urbanísticos de São Paulo, como o do Vale do Anhangabaú. "Foi no final da década de 60. Lembro-me de que, numa reunião comandada pelo prefeito Faria Lima, estavam presentes secretários, engenheiros etc. Eu trabalhava no planejamento de áreas verdes e, diante do prefeito, que cobrava uma solução urbanística para o Parque D. Pedro, que excluísse a construção de viadutos, a conclusão foi que não havia outra solução. Os viadutos, transformando o que era um dos grandes parques urbanos da cidade num nó viário, mataram a região. Foi um crime paisagístico contra a cidade. É triste."

A partir de então, erguendo-se viadutos, instalando-se terminais de ônibus, alterando-se a conformação socioeconômica local, o Parque D. Pedro II começou a se tornar o que é hoje. Uma área descaracterizada e deteriorada, um simples ponto de passagem de tamanho equivalente a algumas praças da República, que se cruza com indiferença e pressa, na interligação entre vários pontos da cidade. Raul Isidoro Pereira, também arquiteto paisagista, abona o termo "crime", ao se referir ao processo de desqualificação do parque, que, aliás, está no título de um artigo que escreveu para urbs há alguns anos: "O Crime do Parque". Ele relembra o artigo para defender sua tese de que o início do processo predatório, uma "destruição lenta e homeopática, na calada do dia, a céu aberto", começou bem antes. Para Pereira, a morte anunciada teve início com a implantação do Plano de Avenidas do prefeito Francisco Prestes Maia, a partir de 1938, que transformou o parque na principal área de articulação viária do Centro com a Zona Leste.

"Foi dentro desse cenário que o Parque D. Pedro sofreu um prolongado processo de agonia", afirma Pereira. "Inicialmente, através da implantação de um viaduto aqui, outro ali, até chegar a uma morte súbita. Praticamente não houve reações. Seus gritos não tiveram eco, pois quem poderia socorrê-lo já não morava mais ali. O parque já estava esvaziado pelo cinturão industrial do Brás e redondezas, muito mais impessoal que as vilas operárias dos outros tempos. A conjuntura era propícia a isso e vários fatores contribuíram: o rio já estava poluído, o sistema viário consolidado, as moradias esvaziadas pelo setor de comércio.

Em 1992, quando a Prefeitura foi transferida para o Palácio das Indústrias, um exemplo da chamada arquitetura eclética de gosto italianizante, pensava-se que, com a presença cotidiana do alcaide da maior cidade brasileira, algo seria feito pelo que restava do parque. Algo, sim, foi feito, como a restauração do palácio pela arquiteta Lina Bo Bardi – o projeto previa a construção de um prédio anexo para as secretarias municipais - e o início da implantação de um projeto do arquiteto José Paulo de Bem, que liberaria o parque do sistema viário, propondo a despoluição do rio Tamanduateí e a criação de um espaço de múltiplas funções, mas o processo logo foi interrompido. Com a mudança da gestão de Luiza Erundina para as de Paulo Maluf e Celso Pitta, tudo foi suspenso e os atentados contra a região, na forma de projetos como o Fura-Fila, o polêmico meio de locomoção em via exclusiva cujo esqueleto está à vista de todos, para mostrar como se trata o dinheiro público no Brasil – ninguém admite que o projeto, oneroso e de eficiência mais que discutível, possa ser interrompido –, prosseguiram.

Nova sede

Dez anos depois de sua instalação no parque, a sede da Prefeitura será transferida para o edifício sede das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, o chamado Banespinha, edifício de mármore travertino postado num dos extremos do Viaduto do Chá, e a área do parque continuará ao deus-dará. Se, com a presença do prefeito e da burocracia municipal, nada foi feito pelo parque, quem garante que, longe das vistas do poder municipal, embora circunscrito à órbita do Departamento de Parques e Áreas Verdes, o Depave, alguma coisa será feita? É difícil imaginar que deixe de ser uma terra de ninguém", na definição do arquiteto Marcelo Ferraz, colaborador de Lina e um dos responsáveis pela próxima recuperação do Palácio das Indústrias, que retornará às origens. "O palácio", diz Ferraz, "foi construído para exposições e, agora subordinado à Anhembi Turismo e Eventos, uma empresa da Prefeitura, será transformado num espaço para pequenas mostras. O auditório estará aberto ao público e o restaurante voltará a funcionar. É um esforço que se insere num plano geral de recuperação do parque, hoje uma terra de ninguém."

Nó viário? Melhor seria nó górdio, em referência ao nó que ligava o jugo ao timão do carro do rei Górdio, da Frígia, que ninguém conseguia desatar. E, de fato, ninguém consegue desatar o nó górdio do Parque D. Pedro II, mas é preciso, talvez sem muita sutileza – Alexandre, o Grande, diante da assertiva de que o mundo seria entregue a quem desatasse o legendário nó, simplesmente cortou-o com a espada –, que alguém o faça. Por alguém entenda-se o poder público. É uma decisão política. "Em urbanismo, tudo é decisão política", observa Rosa Kliass. "É o que está faltando. A recuperação do parque mudaria o Centro da cidade." Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, presidente da Adviser Consultores, com a visão de homem de mercado, vai na mesma direção. "É preciso recuperar o Parque D. Pedro e, por extensão, a Zona Cerealista, junto ao Mercado Municipal. A degradação do parque contribuiu para a degradação do Centro. Para inverter o processo é preciso recuperar o parque."

Bouvard

A várzea do Carmo, a porção banhada pelo rio Tamanduateí localizada entre o Centro e o Largo da Concórdia, no Brás – o atual Parque D. Pedro II –, desocupada devido às inundações periódicas, sempre foi um problema para São Paulo. Por volta de 1870, era o lixão da cidade. A partir de 1914, com a constituição da Companhia da Várzea do Carmo, o rio foi canalizado, o terreno drenado e a área aterrada, iniciando-se a construção do parque, sob a direção do arquiteto e paisagista francês Joseph Antoine Bouvard, que também projetou os jardins do Vale do Anhangabaú. Inaugurado nos anos 20, com a chegada dos restos mortais de D. Pedro II ao Brasil, ganhou o nome do segundo monarca. Afora o Jardim da Luz, São Paulo não sabia o que era um parque e coube a Bouvard, ligado à prefeitura de Paris e com a experiência de quem colaborara na reformulação urbana de Buenos Aires, impor conceitos urbanísticos e resolver os problemas técnicos decorrentes.

Inaugurado em 1924, o Palácio das Indústrias, atribuído ao arquiteto italiano Domiziano Rossi e desenvolvido pelo escritório do brasileiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo, mesma equipe responsável pelo projeto do Teatro Municipal de São Paulo, surgiu como uma espécie de arremate do parque e se destinava a exposições e certames agrícolas, comerciais e industriais, eventos científicos e sociais. Entre outras curiosidades, mencione-se que foi ali que os modernistas descobriram, trabalhando num dos salões do prédio inacabado, o escultor Victor Brecheret, logo transformado num dos principais nomes da Semana de Arte Moderna de 22. O Parque D. Pedro II surgiu como um parque europeu na capital paulista, mas já incompleto. "O projeto", diz Rosa Kliass, "previa a construção de ginásio, quadras esportivas, área para piquenique, equipamentos que nunca foram feitos." Hoje, é uma área que não evoca o mínimo sinal de lazer e, muito menos, de urbanismo.

Repensar

Para a arquiteta paisagista, o "crime" é ainda maior porque ela chegou a freqüentar o parque, cruzando-o, quando estudante, em seus deslocamentos pela região central. "Era absolutamente seguro. Lembro de pessoas de ascendência japonesa que jogavam beisebol por ali. Aliás, os primeiros jogos de futebol de São Paulo tinham o parque como, digamos, estádio. O Brás era um bairro populoso e, ao perder o caráter residencial, fez com que o parque perdesse também sua freguesia. É preciso repensar o parque, aproveitar esse espaço sem utilidade social para outros usos." Para Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, também é preciso repensar o parque. "Ele tem uma dimensão espacial que permite estruturar um novo pólo urbano. Claro, é necessário estudar em detalhes um novo destino para a região, que poderia se ligar às origens do Palácio das Indústrias e, junto com a Casa das Retortas, dirigir-se para a área de exposições e feiras, com muita demanda e pouco espaço na cidade."

Recentemente, a então administradora regional da Sé, Clara Ant, sinalizou nessa direção: "Vamos criar um pólo cultural, de modo a atrair a população que nem conhece aquela área, o coração da cidade". Mas como retomar o espaço dos viadutos que o cruzam? Simples: demolindo-os. Segundo estudos, alguns viadutos, como o Diário Popular, no extremo norte do parque, têm fluxo viário reduzido. Aliás, o projeto de Lina Bo Bardi previa a demolição de três viadutos, que não afetariam substancialmente a circulação de veículos na região, a ampliação da área verde e a reurbanização das ruas da zona cerealista, que abrigariam residências e unidades de órgãos administrativos municipais. Assim como o prédio anexo para as secretarias não saiu do papel, pouco mais foi feito. "É preciso avançar", diz Faria, "no sentido da implantação de um sucedâneo do Parque D. Pedro. É preciso um projeto global para a região, que inclua a área do Mercado Municipal".

Assim como o governo do Estado construiu a Sala São Paulo no coração de um setor degradado do Centro, e reformou, também nessa área, a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte Sacra, basta querer e o Parque D. Pedro II voltará a cumprir o seu destino. Voltará a ser um grande parque. E bem no Centro da metrópole.


  Reportagem  
São Paulo virou a própria Paulicéia Desvairada

Com um déficit habitacional de 500 mil moradias, São Paulo tem cerca de 420 mil unidades residenciais vazias. O problema parece simples de ser resolvido: coloquem-se estas no mercado imobiliário, para locação ou venda, e estará praticamente resolvido um dos problemas mais graves da cidade, zerando-se (ou quase) o déficit. Não é bem assim, alerta Eduardo Della Manna, diretor do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Comerciais e Residenciais de São Paulo, o Secovi. "O número de 420 mil domicílios vagos tem uma aura, já que o déficit habitacional é da ordem de 500 mil domicílios. Bastaria colocá-los no mercado para resolver o problema habitacional. Infelizmente, não é tão fácil."

Para Della Manna, é necessário verificar o que há de concreto nesse número e os motivos da vacância dos imóveis, se não há pendências judiciais ou outro motivo. A partir dessa verificação, sim, seria possível estudar uma política que os colocasse no mercado, como incentivos fiscais etc. "Em tese, a colocação de um número tão grande de imóveis no mercado, obedecendo à lei da oferta e da procura, faria com que os preços baixassem", diz. O número de 420 mil domicílios não foi tirado do bolso do colete, mas apurado pelo Censo 2000 e divulgados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Dos 3,5 milhões de domicílios particulares existentes no município, apontou o Censo 2000, 420.327 – ou quase 12% – estão vagos. Ou estavam vagos à ocasião em que o recenseador, utilizando-se do critério de ausência do morador, bateu à porta. Sapopemba, na região leste, o segundo distrito mais populoso de São Paulo, com 281.985 habitantes, é, em números absolutos, aquele com mais domicílios vagos, 9.073 unidades.

A Sé, na região central, lidera, com 26,84% de seus domicílios vazios, um total de 11.384 unidades. São prédios inteiros sem nenhum morador, resultado de um processo de esvaziamento populacional que, em dez anos, do censo de 1991 ao de 2000, registrou uma queda de 19,73% no número de moradores. Em relação ao Censo 1991, a população paulistana cresceu 7,87%, enquanto o número de domicílios particulares subiu 39,82%. Segundo os estudiosos, essa aparente contradição se deve à modificação da estrutura familiar, que se fragmentou e leva seus membros a morar sozinhos, multiplicando-se, em conseqüência, o número de habitações. A cidade possui 600 mil habitantes morando em cortiços, 2 milhões em favelas e 2,5 milhões em loteamentos clandestinos, segundo dados fornecidos pelo arquiteto e vereador Nabil Bonduki, presidente da Comissão de Estudos sobre Habitação na Área Central, da Câmara Municipal de São Paulo. Essa mesma cidade dá-se ao luxo de possuir uma residência vaga em cada grupo de 10. Para cada um dos seus 9 mil moradores de rua, há 46 imóveis vagos.

Antes de sugerir ações para a efetiva colocação dessas moradias no mercado, Sérgio Ferrador, diretor do Secovi, insiste na questão do número de imóveis residenciais vazios. Ele o reduziria para cerca de 100 mil imóveis vagos, para chegar a um número mais realista. "Ora, segundo a Associação das Administradoras de Imóveis, temos 30 mil unidades disponíveis para locação na cidade. Juntemos 5 mil imóveis novos à venda, segundo amostragem do Secovi, mais 50 mil imóveis usados à venda, segundo dados de que disponho, e chegamos a 85 mil. Arredondemos e atingimos 100 mil imóveis. Ainda assim, é muito." Quando se sabe que São Paulo inteira, por volta da virada do século XIX para o século XX, compreendia cerca de 25 mil imóveis, percebe-se que os 100 mil ou 420 mil imóveis vazios de hoje, considerando-se a população que mora mal ou não tem onde morar, é um número expressivo – seja qual for.

Para Ferrador, alguns fatores essencialmente ligados ao mercado impedem que tais moradias ociosas cheguem à população. "Há imóveis muito degradados, principalmente na área central, difíceis de ser comercializados. Há a questão do preço, que pode não atrair compradores ou locatários. Há problemas como as dificuldades na aprovação da ficha cadastral de quem vai alugar, nem sempre ideal para quem aluga, ou a falta de fiador para garantir os pagamentos. E ainda há a própria realidade econômica brasileira, com as pessoas perdendo renda e sendo obrigadas a novas composições familiares, como os filhos casados que moram com os pais, ou a mudança compulsória para a periferia, quando não para debaixo da ponte.

Ferrador também opera no mercado norte-americano e, por comparação, aponta a diferença de postura das instituições financeiras do Brasil, que poderiam atuar de forma eficaz para contribuir na colocação dos imóveis vazios no mercado, e dos Estados Unidos. Mais do que isso, para contribuir na resolução do problema da moradia. "Aqui, tirando a Caixa Econômica Federal e poucos bancos privados, não há linhas de crédito para a compra do imóvel usado. Sem contar que, quando há, os juros, 12% ao ano, mais IGPM/FGV, são abusivos, além de se exigir que o candidato a comprador possa adiantar 30% ou 40% do valor da entrada. Nos Estados Unidos, mesmo para estrangeiros, o imóvel é financiado em 30 anos e os juros podem ser abatidos do imposto de renda." Abrir linhas de crédito, alongar prazos de pagamento e baixar os juros – para Ferrador, bastariam esses itens para reverter o quadro da moradia para venda. Quanto à locação, diz, é preciso mais generosidade diante do panorama socioeconômico. "Muitas pessoas atuam no mercado informal e ganham razoavelmente, mas não podem comprovar renda. Sem comprovação de renda, não conseguem se habilitar a nada. Estabelece-se um círculo vicioso."

Fato sociológico

É possível que um dos imóveis que engrossaram a estatística do IBGE pertença à esposa do especialista em mercado imobiliário Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores. "Só para demonstrar que o mercado é um fenômeno sociológico, e não meramente estatístico, lembro que minha mulher tem um apartamento de dois dormitórios em Santo Amaro, o qual, há algum tempo, estava alugado por R$ 900. O inquilino saiu e ela não encontrou outro disposto a pagar o mesmo valor. Baixou para R$ 700 e esperou oito longos meses. Não conseguiu alugá-lo, fazendo-o, finalmente, por R$ 580 – quase 40% a menos que o preço inicial. O mercado de imóveis é um segmento da economia e reflete o momento. O imóvel é um bem de liquidez difícil e, se não encontra interessados, fica vago mesmo." Ainda assim, Oliveira Ribeiro não aceita o número apresentado pelo IBGE como uma verdade absoluta. Para ele, mais do que precisar números de imóveis residenciais vazios, é preciso apurar as razões pelas quais o mercado imobiliário se encontra nesse estado. Às vezes o imóvel não está em condições de ser habitado. Outras vezes apresenta uma situação jurídica complicada.

"A verdade é que, sem uma rentabilidade mínima, o destino de um imóvel é ficar fechado", afirma. "Ninguém rasga dinheiro ou o joga pela janela. Basicamente, a reserva de imóveis residenciais deriva do achatamento da renda da população, da oferta exagerada de unidades e da falta de linhas de crédito imobiliário ou condições favoráveis de pagamento. O empresário imobiliário não é um mecenas. Cabe ao Estado intervir para alterar o quadro atual, com ações de incentivo, principalmente quando se trata de habitações populares."

O setor bancário é um dos mais rentáveis da economia brasileira e, portanto, deveria investir mais no segmento imobiliário. A opinião é de Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), para quem, ao lado das linhas de crédito da Caixa Econômica Federal, seriam bem-vindas novas linhas abertas pelas instituições financeiras privadas. "Os bancos deveriam financiar pelo menos 10% da habitação, aos juros mais baixos possíveis", diz. "Fica difícil cobrar do setor bancário essa posição numa economia de mercado, mas, de qualquer maneira, para os imóveis residenciais em condições e vazios, talvez por motivos especulativos, deveriam ser estudados instrumentos específicos para que estivessem no mercado."

IPTU progressivo no tempo. Eis o nome de um desses instrumentos que, por onerar progressivamente o proprietário que mantiver um imóvel vago, poderia colocá-los à disposição de eventuais compradores. O IPTU é um instrumento previsto pelo Estatuto da Cidade, de âmbito federal, mas aplicado pelas prefeituras a partir da aprovação de um Plano Diretor. Recentemente, porém, o secretário municipal de Planejamento, Jorge Wilheim, anunciou que o imposto progressivo no tempo não constaria do novo Plano Diretor cujo projeto a sua secretaria está elaborando para São Paulo, surpreendendo quem defende a criação de um instrumento legal que contribua para diminuir os vazios urbanos e os imóveis subutilizados, dois dos principais fenômenos associados ao processo de periferização e ampliação rarefeita da infra-estrutura urbana. O IPTU progressivo no tempo consta da Constituição e, desde 1988, era letra morta. Mas, a partir da colocação em vigor da Lei 5.788/90, do Estatuto da Cidade, os municípios foram autorizados a cobrar o tributo, que, segundo os advogados Fernando e Sérgio Roxo da Fonseca, foi criado para "estancar a especulação imobiliária em detrimento do interesse público".

Contra a especulação

A administração pública passou, esclarecem os advogados, a ter o poder de aumentar progressivamente o percentual do IPTU cobrado daqueles que, tendo lotes, por exemplo, negam-se a construir neles. "Primeiramente, deve notificar o proprietário do imóvel para que, no prazo de um ano, protocole o seu projeto e, no prazo de dois anos, inicie as obras do empreendimento. Somente após a fluência do prazo poderá o Fisco aumentar progressivamente o percentual de cobrança do IPTU. Se, decorridos cinco anos, mesmo assim o proprietário não construir, a administração estará munida do poder de desapropriar o imóvel com o pagamento do preço com títulos da dívida pública resgatáveis no prazo de dez anos. O IPTU progressivo no tempo tem a finalidade parafiscal que aponta para a proibição de atividades especulativas na área imobiliária." Pelo instrumento, o IPTU a ser cobrado num ano poderia ser até duas vezes maior do que o cobrado no ano anterior e assim sucessivamente, durante cinco anos, até que o poder público municipal possa exercer o poder que a lei lhe faculta: a desapropriação.

Em São Paulo, enfatiza Nabil Bonduki, o IPTU progressivo no tempo poderia ser aplicado a prédios inteiros vazios "que não estão cumprindo a função social da propriedade". Mas ele também enfatiza que é preciso ver o número apresentado pelo IBGE com um "certo cuidado". Segundo Bonduki, que foi secretário de Habitação da gestão Luiza Erundina, o fato de o recenseador não ter encontrado ninguém na residência não significa que estivesse vazia. "Existem pessoas que moram no interior e mantêm um apartamento na capital. Às vezes o imóvel é um anexo à casa, um escritório, por exemplo. Lógico que, como acontece na área central, parte desses imóveis residenciais ditos vazios se encaixam na definição e poderiam estar à venda ou disponíveis para aluguel. Mas, também como acontece no Centro, nem sempre interessa ao proprietário alugar o imóvel por um preço baixo, correndo o risco de colocar um inquilino que se mostrará inadimplente e o qual terá dificuldade de despejar."

Bonduki também bate na tecla de que, para colocar os imóveis residenciais vazios no mercado, é necessário criar linhas de crédito menos complicadas e escorchantes. E, por que não, com subsídios do Governo do Estado. "Ao invés de construir uma unidade nova, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) entraria com parte do valor do imóvel. Dinheiro há. O Estado tem quase R$ 1 bilhão em caixa destinado à habitação. E deveria haver um programa de financiamento governamental para unidades usadas com juros mais atraentes. Quanto aos bancos, acho difícil que cheguem a uma taxa semelhante à da CEF." Para Bonduki, porém, a questão da colocação do estoque de imóveis residenciais vazios no Centro e nos bairros centrais é mais premente, já que não se pode correr o risco, como já acontece, de que a "cidade se despovoe na área central".

No Centro

Somente os distritos Sé e República, o Centro propriamente dito, perderam 17.418 moradores entre os censos de 1991 e 2000, concentrando hoje em torno de 67 mil habitantes. As pessoas se vão e ficam os imóveis residenciais – vazios. Há, nos dez distritos que formam a jurisdição da Administração Regional da Sé (AR-Sé) – Sé, República, Bela Vista, Santa Cecília, Liberdade, Bom Retiro, Consolação, Pari, Brás e Cambuci – 54.733 imóveis residenciais vazios. A Eletropaulo, com base no número de medidores que não acusam consumo de eletricidade, baixa o número para 22.024 imóveis hipoteticamente vazios. A ocupação residencial do Centro é fundamental para o processo de requalificação do coração da cidade. Para o secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura, Paulo Teixeira, a centrifugação demográfica, a região central da cidade se esvaziando e a periferia se adensando – o distrito de Anhangüera, revela o Censo 2000, foi o que mais cresceu, 210,30% (moradores) e 300,80% (domicílios) – mostram, de maneira inequívoca, que a política habitacional passa pela reocupação da área central. "Na década de 90, o Centro da cidade teve um crescimento negativo", afirma o secretário. "Ele, mais o chamado Centro expandido, esvaziou-se e bairros sem nenhuma infra-estrutura, onde estão os mananciais da cidade, registraram um crescimento de aproximadamente 18%. É fundamental um programa voltado para a região central que tenha como objetivo trazer as pessoas que nela trabalham."

Para que as pessoas vivam no Centro e nos bairros centrais é preciso que imóveis residenciais estejam disponíveis e sejam acessíveis. Bonduki defende as linhas de crédito, mas também uma legislação que agilize a reforma dos edifícios centrais – reformas que, muitas vezes, esbarram numa legislação dirigida para construções modernas, mas inadequadas para edifícios construídos há 40 ou 50 anos. "A colocação do estoque de imóveis residenciais vazios no mercado é uma questão social, e tropeça em fatores como a saúde da economia brasileira, que registra uma inadimplência como nunca se viu, mas é também uma questão urbana." Segundo a arquiteta Valéria Bomfim, colaboradora do Escritório Piloto de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e autora do estudo A Dinâmica das Ocupações na Área Central da Cidade de São Paulo, "os distritos Sé e República registram uma média de 30% de imóveis vazios, comerciais e residenciais. A tolerância internacional é da ordem de, no máximo, 5%."

"Quando é constatado o processo de abandono, já se tomam providências para reverter o esvaziamento urbano e evitar a degradação da região", argumenta ela. "No Brasil, acostumamo-nos a abandonar o que já existe e criar mais lixo urbano. Os imóveis residenciais vazios deveriam ser colocados no mercado e ter o apoio de linhas de financiamento adequadas para atingir, por exemplo, a população sem moradia. O Plano de Arrendamento Residencial, PAR, da Caixa Econômica Federal, existe para isso, mas sua viabilização é complexa. E há o problema da reforma, já que nossa tecnologia é para novas edificações, enquanto já existe, na Europa, todo um know how para tratar o imóvel deteriorado."

Lei do Inquilinato

No passado, a Lei do Inquilinato era o implacável algoz dos locatários e havia até uma Associação dos Inquilinos Intranqüilos para defendê-los da "crueldade" dos locadores. "Hoje", pergunta o advogado e diretor do Secovi, Jaques Bushatsky, "onde está a Associação?" Para ele, e como também reconhece o vereador Bonduki, esse é o maior sinal de que a atual Lei do Inquilinato, em vigor desde 1991, é adequada e neutra. "É uma boa lei e está de acordo com aquela regra comercial segundo a qual um negócio só é bom quando favorece ambas as partes", diz Bushatsky. "É uma lei que protege o mercado, já que não deixa que se eternizem situações injustas, permitindo até reajustes de aluguel. No caso dos proprietários, permite despejos mais ou menos rápidos, desde que respeitem o prazo contratado. No caso dos inquilinos, não os onera com reajustes sucessivos." Para o advogado, a lei permite que as pessoas, se quiserem, comportem-se como os europeus ou norte-americanos, que não têm a compulsão da "casa própria" e podem muito bem viver, sem maiores sobressaltos, num imóvel alugado. A culpa pelo estoque de imóveis residenciais vazios, ele não tem dúvida, é da situação econômica do país, com seus altos índices de desemprego e inadimplência. "No final do processo, restam os imóveis, vazios. E, sem renda, o locador não investe. Em conseqüência, os imóveis se deterioram. É preciso uma política pública de investimento no setor habitacional. E linhas de crédito, claro, inclusive uma de pequenos valores, R$ 5 mil, R$ 10 mil, para a reforma de imóveis residenciais destinados à locação", pensa Bushatsky. "Bastaria isso para que tais imóveis estivessem no mercado. Para que se tenha uma idéia de como a Lei do Inquilinato não é a vilã, basta que se diga que o número de ações de despejo não passa de 3mil por mês. É um número insignificante diante do mercado de locação paulistano."

À época da Habitat 2, o presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo(Creci), Roberto Capuano, escreveu: "Com um fantástico déficit habitacional, acabamos com os pequenos construtores, tirando-lhes a competitividade ao financiar apenas empresas grandes. É difícil justificar que criamos uma legislação que inviabilizou os loteamentos populares..." E mais: "Os imóveis populares construídos nos últimos 30 anos custaram o dobro do preço normal e foram na sua maioria erguidos em terrenos imprestáveis (...). E o sistema de geração de empregos consiste em financiar um construtor a custo zero, porque repassa a dívida ao comprador, com um lucro de 50% sobre o que não investiu para gerar cem empregos de salário mínimo que acabam junto com a obra". Não chegou a dizer que o governo, nos diversos níveis, arrecada 38% do custo de um imóvel. "Imagine", diz Sérgio Ferrador, "tirar esse percentual de um imóvel que custe R$ 30 mil e se terá uma idéia do quanto se onera o eventual comprador."

Mais habitações e, paradoxalmente, mais gente sem casa. Uma das equações que desafia empreendedores, governantes, moradores e proprietários é, não fosse tão complexa, muito simples: como colocar as residências vagas no mercado? Tão simples e tão complexa como reconhecer que "ser ou não ser" é a questão. É preciso conjugar a oferta e a procura. Ou melhor, é preciso que a oferta potencial seja, de fato, uma oferta real.


  Ovo de Colombo  
Contra o feio, por amor à cidade


Afirma-se que São Paulo é uma cidade feia. Não é verdade. Faz-se dela – ou deixa-se que façam dela – uma cidade feia. E os poderes públicos são, em geral, os primeiros a dar o exemplo de desprezo pela estética urbana, como se esta fosse "perfumaria" e seus elementos meros adereços perfeitamente dispensáveis frente a verdadeiras "prioridades". Veja-se o caso dos postes. Em São Paulo, mesmo nos logradouros mais nobres, há um poste para cada função: um para a iluminação pública e a fiação de energia elétrica e telefonia, outro para sustentar o semáforo, outro para a sinalização de trânsito, ainda outro para a placa com o nome da rua e, por fim, mas não necessariamente por último, um para a rede de trólebus. O resultado visual é o pior possível e, em termos de praticidade, é simplesmente um caos.

No Brasil, dentre umas poucas cidades que procuram inovar em mobiliário urbano, o bom exemplo – patrocinado pelo poder público – vem do Rio de Janeiro. Na principal via pública do Centro carioca, a Avenida Rio Branco, foram instalados postes de linhas modernas (foto acima) com a função de reunir essas múltiplas funções sem congestionar a calçada e agredir a paisagem. Com uma luminária destinada especialmente à iluminação da calçada, outro item que nunca é observado em São Paulo. Em resumo, beleza também é prioridade se a cidade deseja ser amada por seus habitantes.


  Entrevista  
Urbanismo da imaginação
Nelson Brissac Peixoto
Fotos de Jesus Carlos (Imagenlatina)


Dê asas à imaginação e experimente, leitor, intervir na megacidade contemporânea, em São Paulo especificamente. Reinventá-la na escala das pessoas e de seu cotidiano, sem descuidar da inserção na rede global de cidades. Como? Com a arte, em vez das ferramentas inoperantes do urbanismo tradicional. Arte, sim, mas não a que se vê nos museus e galerias. Tente criá-la nas (ou extraí-la das) próprias situações urbanas, não se esquecendo das personagens que estão nelas – em urbanês clássico, dos seus múltiplos agentes. A cidade imaginária e sonhada surgirá dos escombros da cidade real e a ela se imporá, revelando o falso – porque desumana e feia – daquela. É o que o projeto Arte/Cidade vem fazendo desde 1994, em edições que ocuparam, pela ordem, um antigo matadouro, alguns edifícios antigos do Centro e um trecho de 2,5 km de trilhos e construções ferroviárias entre a Barra Funda e o Brás. A edição deste ano, denominada Artecidadezonaleste, uma realização do Sesc São Paulo patrocinada pela Petrobras e encerrada no início de maio, abrange um território de 10 km2 na Zona Leste, no qual se distribuem intervenções de artistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros – entre as quais um astro da arquitetura mundial, o holandês Rem Koolhas –, cada qual provocando a novidade e desafiando a inoperância do velho planejamento. Uma das grandes fontes de inspiração do Arte/Cidade são as reflexões de Hélio Oiticica, o visionário artista plástico que trabalhou simultaneamente as dimensões arquitetônicas, artísticas e urbanas da experiência corporal-existencial do indivíduo, o seu estar-na-cidade. Curador do projeto desde os seus primórdios, o professor de comunicação e semiótica da PUC-SP Nelson Brissac Peixoto, autor de várias obras sobre as relações entre cidade e cultura (entre as quais A Sedução da Barbárie, Brasiliense, 1982 e, no prelo, Intervenções Urbanas, um making of do Arte/Cidade, editora Senac), foi entrevistado no Sesc Belenzinho pelos jornalistas Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora assistente de urbs.

urbs – O Arte/Cidade parece ser um esforço para demonstrar que a cidade, particularmente São Paulo, é um campo extremamente fértil para – radicalizando um pouco – um urbanismo da imaginação. O que se pretende com o Arte/Cidade? Mudar a cabeça das pessoas, do urbanismo vigente? Mostrar que a cidade pode ser diferente se assim quisermos, pois, além de qualquer definição técnica, é fruto do desejo?

Nelson Brissac Peixoto – Ao longo das suas quatro edições, o projeto Arte/Cidade sofreu um desdobramento. As condições urbanas passaram a fazer parte do projeto, no sentido de que a cidade deixou de ser um pano de fundo sobre o qual as novas situações favoreciam um revigoramento no repertório dos artistas e arquitetos envolvidos, na medida em que colocavam situações que não aparecem normalmente num ateliê ou em exposições convencionais. Creio que o projeto superou esse estágio e passou a cuidar mais diretamente dos processos urbanos e das questões infra-estruturais da cidade.

Por que, desta vez, a Zona Leste?

O recorte deste Artecidadezonaleste é uma área bem próxima do Centro, partindo do Parque D. Pedro. É uma região extremamente complexa e desestruturada. Discutiu-se muito o problema da locomoção do público entre os pontos das diversas intervenções, tendo em vista que as barreiras da Radial Leste e da linha ferroviária interrompem os trajetos. Chegamos à conclusão que isso é parte do problema e não deveríamos ofuscá-lo com uma sinalização muito precisa. Daí termos optado por um mapa do século XIX, ao qual acrescentamos os principais eixos do sistema viário contemporâneo.

Para o público, qual a utilidade prática de um mapa do século XIX?

Walter Benjamin dizia que todo mapa só serve para você se perder... Seria inviável detalhar os trajetos num mapa contemporâneo. Perder-se com um mapa nas mãos, contemporâneo ou do século XIX, faz parte da experiência da cidade, dos seus descaminhos.

Voltando à escolha da Zona Leste...

Houve um embate com situações urbanas, por tratar-se de áreas que sofrem uma desestruturação muito forte, com um longo histórico de desinvestimento e, principalmente, por ser hoje um palco importante de processos de reinvestimento em escala global. Não por acaso a Maharishi Tower seria implantada aqui. É uma área totalmente servida por infra-estrutura e próxima ao Centro. Na região do Jardim Anália Franco, no Tatuapé, já estamos assistindo a um fortíssimo processo de reinvestimento, com o surgimento de enclaves modernos.

Lembrando algo do gosto de Walter Benjamin, o mapa funciona como um palimpsesto, uma leitura de camadas, os enclaves modernizantes sobre a tessitura viária atual e tudo sobre o arruamento já parcialmente desaparecido do século XIX. Como se as barreiras às transposições permanecessem, no caso das ferrovias, ou se transmutassem nos controles invisíveis dos enclaves de hoje.

Foi uma idéia presente desde o início. Fazendo rapidamente um pano de fundo: a questão colocada é, primeiro, as grandes escalas que necessariamente se impõem quando temos uma megacidade num contexto de globalização intensiva. Percebemos, pela experiência internacional, que a lógica desse processo no território da cidade traduz-se na implantação de núcleos altamente modernos que funcionam como enclaves dotados de infra-estrutura, torres corporativas, shopping centers, áreas de lazer, e que estão diretamente integrados com áreas equivalentes em outras cidades do mundo.



Com uma correspondente desestruturação do território contíguo de significado meramente local...

Exato, com o restante da cidade entrando em colapso. Essa mecânica vem se reproduzindo internacionalmente. Ver como o impacto desse processo acontece aqui e quais são os seus agentes urbanos, sociais, econômicos e políticos que emergem com a crise do Estado, da capacidade da administração pública de restaurar investimentos e regulamentar a ocupação, esta é a base conceitual e política do nosso trabalho. Outro aspecto que procuramos desenvolver é a questão do repertório. Arquitetos e artistas passaram por um longo período de isolamento devido aos governos militares e às crises econômicas, ficando restritos a práticas convencionais e limitadas, no caso dos arquitetos aos edifícios privados, lofts ou a projetos para pessoas físicas. A arquitetura paulistana se acantonou nisso, com pouquíssima reflexão sobre as dinâmicas urbanas e as profundas mutações que aqui ocorreram nas últimas décadas. Nesse sentido, a tradição modernista – ainda base de uma cultura profissional – é um cânone hoje em dia limitador, a impedir os arquitetos de pensar o que é essencial para compreender uma megacidade, ou seja, as novas situações dinâmicas e complexas que emergiram com a globalização.

Por que essa limitação?

A tradição moderna tem uma herança construtiva e, por sua rigidez formal, mal dá conta de processos fluidos e de mutações constantes, simultâneos, com múltiplos agentes, cuja compreensão exigiria programas mais que projetos arquitetônicos. É preciso voltar a pensar a cidade como uma infinidade de interesses e processos, com uma extrema diversidade de agentes às vezes em conflito, outras em interação, mas sempre demandando uma capacidade de negociação que a implantação arquitetônica pura e simples ignora ou impede. Tomemos a noção de repertório: como hoje em dia o arquiteto aborda questões colocadas nessa escala e complexidade? Em geral ele não tem respostas, a não ser os mesmos projetos de revitalização, e por isso a cidade está assim. Em resumo, não fomos capazes de nos relacionar com processos semelhantes que acontecem no mundo, não trocamos experiências, não trazemos pessoas que estão refletindo para provocar um repensar das estratégias e procedimentos. Esse isolamento agora cobra o seu preço. O (edifício) São Vito é uma enorme favela vertical a 100 metros da Prefeitura!

E a não mais de 500 metros das duas bolsas.

O São Vito é emblemático da falência do poder público. É como se ele dissesse: se São Paulo não repensar as suas estratégias de reestruturação urbana de escala abrangente, para que dêem conta de situações como a minha, jamais fará parte das redes de cidades globais.

E não se trata de meros planos diretores, certo?

Sem dúvida alguma. A questão é: quais os agentes que hoje efetivamente determinam os processos urbanos e como fazer com que eles se entendam e criem novos processos que dêem conta de desafios como o São Vito e tantos outros? No princípio do planejamento urbano está a necessidade de reconhecer o outro, digamos o encortiçado e o favelado, não como indivíduos ou grupos a ser evacuados, mas como interlocutores para o desenvolvimento de políticas. O catador de papel, por exemplo, é um agente informal que é preciso reconhecer.

E o camelô?

Antes de mais nada, um dos sinais da falência do repertório urbanístico vigente é a incompreensão que se tem do informal. Este aparece no pensamento do urbanista como uma negatividade, que já fica explícita no nome. Não havendo uma palavra certa, denomina-se o informal pelo negativo, como não-formal.

À direita e à esquerda?

Em ambas. Muitas vezes a esquerda tende a idealizar o camelô. Mas é evidente que ele está comprometido com as mesmas regras de mercado, as mesma formas de exploração, de apropriação do espaço público que se insiste em associar ao capital. Quase sempre é dominado por máfias e pelo crime organizado. Ou seja, ao reconhecer o camelô como agente não se deve tomá-lo como um segmento ideal e diferenciado do resto da população. Ele tem os mesmos procedimentos das grandes corporações ao privatizar espaços públicos e áreas urbanas.

Essa confusão não estaria na raiz da tolerância do poder público ao uso predatório da cidade?

Isso revela que estamos vivendo uma era de desregulamentação completa do espaço urbano, uma falta absoluta de critérios, de políticas, de formas de norteamento da ocupação, de tal modo que esse no where, esse faroeste em que se transformou a cidade implica uma verdadeira guerra urbana. De um lado, processos altamente estruturados, grandes condomínios, áreas corporativas segregadas; de outro, esses agentes fluidos, extremamente pervasivos, que vão ocupando os espaços intersticiais. E o Estado é absolutamente incapaz de imprimir diretrizes, de agenciar negociações, de impor políticas.

Observa-se a irrupção de novos agentes, inclusive criminosos, e de novas formas de ação que excluem a política?

O que se enxerga é um deslocamento do quadro institucional, com a emergência de agentes que antes não tinham a sua presença afirmada. Isso se dá em todos os planos, da política internacional e da economia aos processos urbanos em todo o mundo. Um exemplo concreto dessa migração da política para outras formas de organização e ação é a emergência de uma estrutura de crime organizado no interior das próprias prisões.

Todas essas novas formas são intrinsecamente más?

Algumas são perversas, como o crime organizado, outras não. O que não podemos fazer é jogar tudo no mesmo saco e vincular o processo ao negativismo. É o grande dilema da administração pública.

Retomando a questão do impacto da globalização sobre os processos urbanos: o espaço dos lugares, do tempo linear, dos interesses não-globais, está se desintegrando e tornando-se um campo fértil de violência e desagregação da convivência. Hoje o maior desafio do urbanista, e não só dele, mas dos artistas e dos criadores em geral, é arregimentar as energias, inclusive as de sonho e imaginação, num esforço de síntese das esferas global e local, da rua com o cyberespaço. Será isso plausível?

Já acontece. Se por um lado existe a desagregação de áreas em escala local, por outro você assiste ao surgimento de novas formas de ocupação e de afirmação da identidade cultural, ao desenvolvimento de novos repertórios que recriam essas áreas de outra maneira, muito mais fluidas e adaptadas à megacidade global. Não se deve esperar que os planejadores reconheçam e façam a cidade. Ela é muito mais viva que os planejadores.

Na própria Zona Leste há nichos de novidade reagindo à desagregação, como a profusão de pequenas e médias indústrias que já existiam ou vão surgindo vizinhas ao habitat dos trabalhadores, que se livram dos deslocamentos...

Outro exemplo, que mencionei há pouco, são os catadores de papel. Existem numerosas entidades, ONGs, que regulam a fabricação dos carrinhos, organizam o processamento do material recolhido. Essa economia de reciclagem é benéfica para a cidade, gera renda para uma parcela da população e tem uma função social agregadora, geradora de economia e sociabilidade.

Mas os catadores não estão inseridos naquele panorama de apropriação informal da cidade, de que você falou? Não estará mais próximo do camelô e do morador de rua, do ocupante dos vãos de viadutos?

Esta é a questão. A ocupação informal da infra-estrutura urbana é um fenômeno intenso em praticamente todas as cidades, sobretudo as do Terceiro Mundo. Há pouco se dava em áreas vazias, hoje ocupa a própria estrutura viária. É um fator complexo e preocupante. Lagos, na Nigéria, é uma megacidade na qual a ocupação de viadutos e vias públicas e o desvio da infra-estrutura para usos locais é constitutiva. Isso está se repetindo em São Paulo e no Rio, de forma descontrolada, com efeitos extremamente danosos.

Como agir?

Criando um repertório dessa ocupação. Gerando equipamentos de outro tipo voltados diretamente às populações que ocupam os interstícios. Cito como exemplo os baixos de viadutos na várzea do Glicério, onde fizemos uma intervenção. Mas veja o paradoxo: a área pública tem sido tratada como algo a ser fortificado e defendido da população. Isso teve início há alguns anos, quando os monumentos começaram a ser pichados com mais intensidade. Quando o Jânio (Quadros, ex-prefeito) instalou grades em torno de monumentos, criou-se um disparate, como o do belo monumento a Verdi ao lado do Teatro Municipal, em que uma grande figura alada é literalmente engaiolada.

Um engaiolamento que serve de matriz para outros em todos os níveis da cidade. Assim vai se construindo a cidade-gaiola, em essência idêntica à cidade-periferia – fruto ou da transgressão à lei, como nas periferias informais, ou do medo de que se viole a lei, no caso das grades. Tem-se assim a cidade produzida não pelo poder da lei, mas pela transgressão.

E essas leis não dizem respeito só ao zoneamento, à edificação, à ocupação do solo, mas também aos equipamentos, às formas imediatas de uso, aos programas, à possibilidade de reconverter continuamente as áreas de modo a diversificar a sua utilização. Numa das intervenções do Artecidadezonaleste, na Rua Piratininga, um grupo de artistas e arquitetos holandeses propõe algo muito simples, a implantação de equipamentos míminos de lazer para ser utilizados em horários noturnos e nos finais de semana, em espaços que são usados apenas em determinadas horas ou dias, como calçadas diante de lojas ou estacionamentos, numa descontinuidade que favorece inclusive o uso criminoso.

Por que um melhoramento tão simples não é implantado?

As pessoas ficam só pensando em construir centros culturais. E a cultura é muito mais rica que isso, ela se desenvolve em todo lugar. Poucos vão a esses centros culturais. Essa incompreensão da gestão urbana se reflete no plano cultural. Tanto a cultura como a cidade são geridas da mesma forma estruturante, fechada, calculada e sobretudo limitada em termos de diversificação de uso.

Qual é o principal desafio, hoje, da reflexão urbanística?

O pensamento urbanístico tem o desafio de recriar completamente a sua linguagem, os seus conceitos, de modo a identificar, compreender e intervir nessas novas situações que irromperam na cidade de uns vinte anos para cá.

Um pensamento dialético, que capte o fluxo e a multiplicidade. Mas os planejadores continuam aspirando à perenidade da obra construída, à permanência das formas e funções urbanas pelas décadas à frente.

O urbanista tradicional pensa o espaço público como o desenho de uma praça com uma escultura no meio e um banquinho. Veja o caso do Jardim da Luz. O projeto de sua revitalização é a recriação de um jardim de esculturas, um repertório do século XIX numa área totalmente deteriorada, com outros agentes sociais, outras implicações. Tudo muito convencional. É preciso repensar o espaço público para além dos modelos existentes, que nos foram legados pela cidade moderna. Eles não se sustentam em situações tão fluidas e cheias de transformações como são as situações dominantes hoje nas cidades.

Pode-se então afirmar que a cidade global, com seus enclaves mundialmente conectados em fluxos e com seus territórios marginalizados e desconectados das redes globais, é mais um processo do que propriamente um lugar?

Exatamente. A cidade hoje é muito mais um work in progress do que a consolidação monumental de determinadas configurações físicas. Se entendermos a cidade como uma mecânica contínua de transformação, estaremos mais capacitados a lidar com ela, sobretudo no que se refere ao espaço público, objeto de uma atitude generalizada de apropriação privada, do camelô ao presidente de multinacional.

Na cidade em mutação vertiginosa, sustenta-se ainda o conceito de espaço público? Nesse ambiente de infinitas e simultâneas ações de apropriação privada, pode-se falar no uso coletivo de tais espaços?

Na prática, tal como a cidade tradicional o criou, o espaço público não existe mais. Ele foi fisicamente erodido por mecânicas e procedimentos em relação ao espaço urbano que são de uma outra ética, outra cultura, outro segmento. Ou se recria o público em outros termos ou não vamos mais lidar com uma cidade onde o coletivo tenha significado. O público é hoje menos uma questão da delimitação do espaço e mais de novas configurações de uso. Importa menos se foi desenhado para ser uma praça ou um estacionamento. Isso é secundário. O que interessa é como ocupamos esse espaço, a diversidade de atividades por ele garantidas ou permitidas ou proporcionadas, como os diversos agentes se entendem nessa ocupação.

O que conta, portanto, é a natureza e a qualidade da apropriação?

Certamente. Se um camelô se apropria do ponto de ônibus para vender churrasco e impede as pessoas de tomar o ônibus, isso não é público – pouco importa se o camelô é pobre ou rico.

Quando idealizamos a cidade, pensamos em Paris. Esse ideal de cidade-monumento ainda pauta nossas idéias e ações em São Paulo. Não lhe parece um despropósito?

As pessoas vão a Paris ver o cartão-postal em que ela se transformou, em função de suas expectativas de espetacularização...

Mas essa Paris foi predominantemente construída nos séculos XVIII e XIX. E é um conjunto preservado, de características únicas. Nada tem a ver, por exemplo, com a modesta e esparsa arquitetura antiga do Centro de São Paulo.

Acontece que o repertório de Paris consolidou-se de tal forma que você não tem, ainda hoje, um ideário que fuja a esse modelo. O problema é que as cidades lutam para se ajustar a esse repertório porque, entre outros aspectos, ele corresponde às expectativas do turismo cultural.


  Urbanismo  
A cidade e o Centro: aplacando a vingança do mercado

MARCOS CAPOBIANCO*

A discussão da dinamização econômica da grande cidade e das intervenções nas suas áreas centrais e estratégicas envolve a questão das relações (parcerias) público-privadas, e requer a consideração de algumas idéias, recorrentemente analisadas nos últimos dez anos, e oportunas face à discussão de um Plano Diretor e da própria reabilitação do planejamento.

As áreas centrais das grandes cidades ganham hoje grande destaque em função de pelo menos dois fatores: o repovoamento e a dinamização estética e ambiental. No primeiro caso – para o incentivo do crescimento habitacional do Centro –, o aproveitamento da infra-estrutura instalada (transporte, energia, telecomunicações etc.) é um dado importante, mas o outro gume da faca são os riscos inerentes à geração de tráfego, aos adensamentos e prejuízos (deseconomias) decorrentes de mais aglomeração. Deve ser monitorado com extremo cuidado. Com base nos dados da Pesquisa Origem/Destino/1997 concluiu-se que "o temor da total paralisia viária da capital não é nada desprezível, quando se projeta o violento acréscimo de veículos individuais que deverá tomar de assalto o já sitiado sistema de vias da metrópole paulistana". (Benvenuto, 1999). Mas, sem dúvida, a recuperação de prédios degradados para moradia popular deve ser incrementada, pois, além de solução social, melhora a paisagem e contempla o meio ambiente e a saúde pública.

O segundo fator é a percepção crescente da importância da paisagem e da qualidade ambiental dos espaços públicos centrais para o bem-estar do cidadão (como direito humano coletivo, de última geração), e como pressupostos para uma política de turismo. O benefício ao cidadão fica mais claro quando se conhece o impressionante afluxo diário de gente em direção ao Centro durante o dia, e o seu retorno para os bairros desde o fim do dia. São milhões de indivíduos, num colossal movimento de sístole/diástole.

Recentemente urbanistas afirmaram: "...as interpretações da abrangência física e da natureza espacial e funcional dos problemas das áreas centrais não podem dispensar, sob pena de tornarem-se inadequadas ou mesmo superficiais, uma abordagem integral do funcionamento metropolitano. O problema da decadência de áreas urbanas centrais, conjugado aos projetos de estruturação metropolitana, desdobra-se em um conjunto de questões decisivas para a prática do urbanismo contemporâneo" (Meyer; Grostein; Biderman, 2001).

Após analisar Die Grossstadt, de Otto Wagner, que dizia que "o que influi decisivamente na imagem [lato sensu] da cidade é a sua fisionomia", Carlos Andrade complementa: "Se o eclipse do espaço público é o principal sintoma da crise da cidade modernista, a alienação cada vez maior das massas na construção do seu habitat sinaliza a esterilização da cidadania. A perda da forma urbana é também um esquecimento da cidade enquanto comunidade cívica, o esvaziamento de seus conteúdos simbólicos e a redução dos espaços urbanos a seus aspectos estritamente funcionais". (Andrade, 1995)

Há pouco tempo, o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil citou Vilanova Artigas: "A felicidade de um povo se mede pela beleza de sua cidade". Força de expressão, mas é verdade que beleza também faz o habitat prazeroso, a qualidade de vida.

José G.Simões Jr. (Simões, 1994) assinala que "a revitalização urbana é uma tendência crescente nos anos 90, visando cada vez mais a qualidade de vida – aliando a recuperação ambiental e paisagística à restauração do patrimônio cultural – numa proposta mais participativa, na qual desde o cidadão comum até o empresário são envolvidos no processo". E lembra que em São Paulo percebeu-se que "investir só na periferia, esquecendo-se do centro era partir de uma premissa falsa, pois era justamente nessa área central que muitos moradores da periferia passavam a maior parte do seu tempo, durante o expediente de trabalho". O importante será "procurar estabelecer o correto equilíbrio na relação de parceria público/privado".

Áreas centrais de cidades no mundo todo têm sido amiúde objeto de políticas de revitalização para reverter deterioração e decadência. Há casos emblemáticos, como Baltimore, Barcelona e Birmingham, e outros, como Lisboa, Berlim, Amsterdam, Montpellier, Seattle. No Brasil foram significativas as intervenções em Salvador (Pelourinho), Curitiba, São Luiz (Projeto Reviver) e Rio de Janeiro (Projeto Corredor Cultural), dentre outros. Em São Paulo intervenções mais pontuais, como a requalificação do Anhangabaú, a implantação de bulevares, as intervenções na Luz, representam um ganho de qualidade dos espaços públicos da área central. Todavia, não tiveram o condão de alavancar (como um master project) um processo de transformação peremptório da região.

Para que a municipalidade não arque com todo o custo das intervenções de revitalização, ela cria parcerias com o setor privado, inclusive através de mecanismos de venda do direito de construir além do normatizado, e reinvestindo os recursos obtidos em programas sociais ou na própria melhoria dos espaços públicos. A "venda de excepcionalidades" causa polêmica à esquerda, mas já foi adotada inclusive pela primeira gestão do Partido dos Trabalhadores, em São Paulo, e está na proposta do Plano Diretor da gestão atual, do mesmo partido: operações urbanas, requalificação urbana e captação de parte de ganhos imobiliários para prioridades coletivas urbanas.

No âmbito metropolitano coube à Emplasa elaborar em 1994 o Plano Metropolitano da Grande São Paulo-1994/2010 (PMD-GSP, 1994). O Plano situa São Paulo como cidade mundial, já inserida na rede dos fluxos dessas megacidades. Dentre as 84 diretrizes propostas para a RMSP estão aquelas que apontam para a "requalificação de espaços", a "proliferação de empreendimentos multifuncionais de grande porte", "pólos terciários fortalecidos, novos pólos/descentralização", "tendência à criação de complexos empresariais, intensivos de capital", "reciclagem de áreas degradadas", "a parceria público/privado viabilizará operações de renovação urbana: recuperação, revitalização ou reurbanização" (PMGSP, 1994).

Se o centro é importante também por ser o destino número um dos turistas em qualquer cidade, um centro revitalizado por obras de restauro, reconstrução, requalificação e implantação de novas referências notáveis pode ser elemento catalisador de mudanças para uma melhor qualidade de vida dos moradores, e impulsionador do turismo e da economia. No caso de Boston os resultados impressionam. Logo no primeiro ano pós-revitalização (1978) a cidade recebeu dez milhões de visitantes (semelhante ao que recebeu a Disneylândia no mesmo período). Em meados dos anos 80 já eram 16 milhões por ano, correspondendo a mais de três vezes o recebido pelo México ou pelo Havaí.

Certas intervenções, embora mais localizadas, também produzem alavancagem importante, como nos casos de Nova York (Battery Park), Londres (Docklands), Berlim (Potsdam Platz) e outros. São importantes os elementos-âncoras e obras notáveis. Londres e Manchester passam por radical processo de criação de "símbolos emblemáticos de sua modernidade", em que se está investindo cerca de "US$7bi, em duzentas obras monumentais" (revista Veja), como o Domo do Milênio (80.000m?/US$1 bi), a nova galeria Tate Modern (US$200 mi), o Jardim do Éden (estufas equivalentes a 35 campos de futebol), a Roda Gigante Olho de Londres (135m de altura), dentre outros, já inaugurados.

David Harvey (Harvey, 1996) percebeu que foi ao longo dos anos 80 e 90 que se deu a mudança do modelo, ou estratégia de gestão, que chama de gerencialista, para a empreendedorista ou empresarialista dos governos locais, que corresponde a um conjunto de ações nas instituições e nos ambientes construídos urbanos, para alavancar a vida econômica. Com a expansão do neoliberalismo, adveio maior competição entre empresas, países e também entre cidades; reforma do Estado; desindustrialização; desemprego estrutural; convicção na racionalidade do mercado e diminuição do poder de controle do Estado Nacional sobre os fluxos financeiros internacionais. Segundo Harvey, como resultado dessa nova realidade muitos governos locais optaram pela negociação direta com os capitais financeiros internacionais, e procurando aumentar e divulgar os atrativos e as vantagens comparativas potenciais de suas cidades.

Ele identifica no empreendedorismo: a atração de pontos externos de financiamento; as parcerias público/privadas em projetos urbanos; ações pontuais desencadeadoras de efeitos imediatos e decisivos, como a criação de vantagens para a produção de bens e/ou serviços, melhoramentos dos ambientes urbanos, com inovações culturais, de consumo e de entretenimento, controle de áreas como pólos tecnológicos, distritos industriais de ponta, infra-estrutura avançada de comunicação e transportes etc.

Castells e Borja (Castells & Borja, 1996) assinalam que, aí, a cidade passa a ser protagonista (ator econômico-social complexo) e assume definitivamente a centralidade na criação e dinamização de bens simbólicos e do bem-estar de sua população. Em relatório apresentado à Conferência Habitat II, defenderam a importância do que chamam de Plano Estratégico de Cidade, que busca definir um Projeto de Cidade.

O projeto de cidade deve mobilizar atores públicos e privados e os cidadãos; concretizar-se em medidas implementadas de imediato; construir ou modificar a imagem da cidade ("o valor de marca e de dinâmica com relação ao exterior"). Propõem a ampliação do campo de atuação, das competências do governo da cidade, e entendem que "a promoção econômica da cidade requer a colaboração com outros atores públicos e privados, porém com iniciativa própria, no desenvolvimento de zonas de atividades empresariais...campanhas internacionais que atraiam investidores e visitantes...oficinas de informação e assessoria a empresários e investidores locais e internacionais etc."

Colocam mesmo como destaque a definição de grandes obras públicas financiadas pelo Estado para recuperação de áreas obsoletas; definição de novas figuras de planejamento que o vinculem à execução de projetos; execução conjunta com outras administrações e com agentes privados de grandes operações de desenvolvimento urbano; e de reabilitação de centros antigos, planos de uso etc.

Castells e Borja citam grande número de cidades que implementaram o planejamento estratégico e o projeto de cidade. No caso da Europa, essa visão consolida-se nas Conferências das Eurocidades, em Rotterdam (1986) e Barcelona (1989). É importante notar que em 1993 a Comunidade Econômica Européia criou o Comitê de Regiões, que integra os governos regionais e das cidades: "reconheceu, finalmente, as estruturas institucionais dos governos locais".

O modelo proposto por Castells e Borja contempla o social, prevendo moradia popular e urbanização básica; saúde e ensino não universitário; programas de geração de emprego; oferta cultural; além de "extensão da cidade à periferia (o que inclui monumentalização, comunicação, centralidades urbanas e descentralização administrativa)". Note-se, ainda, que é prioritário o processo participativo na definição de conteúdos.

François Ascher (Ascher, 1998) entende que do pós-guerra até meados dos anos 70 ("trinta gloriosos") o planejamento cumpriu seu papel, mas ao longo dos 80 o neoliberalismo pôs em cheque os planos urbanísticos. Procurou-se "impor o market lead planning (em lugar do town planning), onde é o mercado que decide o crescimento, e o poder público apóia as suas escolhas, corrigindo eventualmente os seus excessos". Todavia, a situação muda a partir do final dos 80, quando ficam evidentes as dificuldades para aplicação de um modelo liberal nas cidades européias, e o laissez faire tentado passou a ser repelido pelo próprio setor privado, como na Inglaterra, onde, em 1991, reivindicou e conseguiu o "reforço legislativo do planejamento urbano e a instauração de regras mais rígidas e, por isso, mais seguras para garantir seus investimentos". Na França ocorreu o mesmo : a onda liberal fez com que os planos elaborados nos 70 fossem questionados e modificados nos 80. Mas o crescimento explosivo do imobiliário urbano nos 80 revelou as limitações da parceria público-privada. Já no final dos anos 80 dá-se uma progressiva reabilitação da intervenção dos poderes públicos no planejamento e ordenamento urbanos. O planejamento que surgiu daí, conforme Ascher, foi o do "projeto de cidade, um urbanismo flexível e uma atividade permanente de negociação".

Ascher defende "projetos urbanos em vez de planos diretores"; "miscigenação funcional e polivalência das cidades; marketing urbano." Deve-se reconstruir permanentemente uma parte das estratégias ou das táticas, a fim de aproveitar as oportunidades; é considerar as regras não como objetivos a respeitar por si próprios, mas antes como instrumentos; fazer adaptações ou reconfigurações estratégicas (p. ex., para não perder um investimento, que poderia ir para outra cidade). Ascher posiciona-se muito mais claramente nesse aspecto do que Harvey e Castells & Borja (e também do que Borja & Forn). Sugere uma liberalidade maior, como Nuno Portas, que confessa: "Hoje o urbanismo é altamente negocial. Sei que a palavra é perigosa, mas assumo-a. O urbanismo é negocial, pois contrata como empresa a vida para as cidades. Oferece inúmeras contrapartidas e os interessados oferecem à cidade outras tantas" (Portas, 1993). Mas todos reconhecem a emergência da postura empreendedorista da cidade, da parceria público-privado e do planejamento incremental.

Embora mais pessimista, Mark Gottdiener raciocina como Harvey: "A cidade tem experimentado uma certa retração da esfera econômica sob seu domínio, e agora deve concorrer com outros lugares pela oportunidade de abrigar atividades geradoras de valor". Uma "intensa concorrência entre lugares por novos recursos econômicos tem forçado uma mudança fundamental nas relações políticas do governo local". As políticas públicas urbanas tradicionais redistributivas viriam perdendo espaço e "os regimes municipais têm passado a promover um ‘bom ambiente de negócios’ e o subsídio ao crescimento", via redução de impostos, dinheiro barato via bônus, subvenções, criação de superagências de desenvolvimento e parcerias de todo o tipo.

No início dos anos 90, também E. Preteceille diagnosticava : "O planejamento perdeu sua centralidade hegemônica, e o Estado central se atribui um papel secundário na economia em relação a uma dinâmica de reestruturação, onde a legitimidade principal é afirmada pelo lado da empresa...".

No livro A Cidade do Pensamento Único – Desmanchando Consensos (Vainer, Maricato e Arantes, 2000) os autores alertam para os riscos do modelo analisado. A massa de deserdados, mormente nas periferias, deve ser a grande prioridade. A dinamização cultural e da estética urbana pode ser o Cavalo de Tróia portador de negócios de desfavorável relação custo/benefício coletivo, e mesmo de discutível agregação de valor cultural e turístico. A discussão deve envolver setores que historicamente postam-se em defesa da ética na gestão pública, para coibir esses problemas e para evitar o viarismo e o monumentalismo, em detrimento do foco no déficit social.

Carlos Vainer cita o caso do plano carioca como uma "bem orquestrada farsa, cujo objetivo tem sido o de legitimar orientações e projetos caros aos grupos dominantes da cidade." A cultura também, segundo Otília Arantes, pode ser o novo (cultural turn) grande pretexto para justificar grandes intervenções e grandes negócios imobiliários na cidade. Poderia até ter papel de entorpecimento da consciência crítica face aos conflitos sociais.

Rose Compans, do IPPUR-FRJ, radiografa o Plano Estratégico da cidade do Rio de Janeiro e conclui que as estratégias (projetos) no setor de infra-estrutura urbana, acessibilidade, mobilidade e telecomunicações foram priorizadas em detrimento daquelas que tratavam de emprego, da qualidade de vida e democratização da Administração Pública. Teria havido nítida "inversão privilegiada de recursos públicos no atendimento das exigências (estratégias) do setor privado", no plano carioca (Compans, 1997). Em outro trabalho ela diz que essas estratégias "se traduzem em inversões volumosas de recursos públicos, provisão de equipamentos urbanos e operações imobiliárias destinadas apenas a certos tipos de usuários, aos executivos das grandes empresas e às novas camadas profissionais ‘estratégicas’ do terciário avançado". E pergunta: "O alto custo social desta priorização de gastos orçamentários por administrações locais..., onde existem déficits sociais há décadas acumulados, é compensado pelo dinamismo econômico resultante da inserção aos fluxos econômicos globais?" (Compans, 1999).

Comparando experiências de renovação urbana nos EUA, Heitor Frúgoli Jr. conclui que "Assim, articulam-se intervenções urbanas de caráter mais pontual, muito marcadas pela aliança entre interesses do capital e do poder público, num contexto de crise tanto da perspectiva modernista – que era a de tentar criar, com todas as contradições, soluções sociais de caráter abrangente –, como do próprio poder público, basicamente sua incapacidade gradativa de investimentos sociais. Isso resulta em processos marcados por práticas excludentes, já que, entre outras coisas, tais intervenções estão sobretudo norteadas pelo mercado, tendo como público preferencial as classes médias e altas" (Frúgoli, 2000).

Ana Clara T. Ribeiro vê também que "o turismo transforma-se em justificativa e meta de intervenção pública, legitimando interesses e envolvendo segmentos sócio-espaciais...deixando dúvidas com relação ao caráter salvacionista que tipifica o discurso construtor da expectativa de expansão do turismo" (Ribeiro, 1995).

É verdade, os grandes problemas urbanos decorrem sempre, por um lado, da derrogação ou da desregulamentação espúria das limitações legais ao exercício do direito de construir, quando o interesse individual submete o coletivo; e decorrem, por outro lado, da pobreza – num quadro de segregação urbano-social que, por evidente, tem sido detectado por muitos, e ganho diversos nomes: fragmentação, polarização, segmentação, dualização, insularização, duas velocidades etc. Daí a solução dos problemas urbanos advir, primordialmente (além da evolução da consciência política e do combate à corrupção), das políticas sociais e redistributivas especialmente federais. Mas, sem nenhum controle sobre o exercício do direito de construir e sobre o mercado imobiliário pelo poder público, "a competição para rendas de monopólio do solo urbano distorce o desenvolvimento racional das cidades... Impossibilita o planejamento urbano adequado, por que permite que especuladores ajam como atores que decidem o crescimento futuro" (Gottdiener, 1996).

Por outro lado, verifica-se que muitas posições que embasam essas políticas urbanas ("pós-modernas") e esse Planejamento Estratégico em questão não são refutadas por grande parte dos estudiosos, urbanistas e planejadores, e inclusive por administrações progressistas.

Mas impõe-se a discussão com a sociedade sobre os meios de intervenção no mercado imobiliário e sobre o limite da participação do poder público, o limite da flexibilização do planejamento, da regulação, vale dizer, da sustentabilidade.

Conclusão

Não se é pura e simplesmente contra parceria, cultura e turismo, mas deve-se precaver em circunstâncias espúrias, onde há vícios público-privados como o clientelismo e a corrupção. Daí concluir-se que em situação de governança com a marca da honradez e da honestidade, não há por que repelir estratégias nesse rumo.

Veja-se o caso de São Paulo, administrada por partido de esquerda, onde as prioridades são saúde, educação e moradia; já tem cerca de treze Operações Urbanas programadas, e tem como diretriz a captação da mais-valia, transferindo parte dos ganhos imobiliários para reduzir o déficit social (Sempla, 2002).

Sintonizada com a idéia da promoção (image making) e da dinamização econômica da cidade, a prefeita tem discutido a realização de eventos internacionais.

A prefeitura de Santo André (do mesmo partido) simplesmente comprou a vila de Paranapiacaba (centro ferroviário construído pelos ingleses em 1856, tombado pelo Condephaat e em processo no Iphan), antevendo o seu potencial para agregação de valor turístico ao município. A vila custou R$ 2,1 milhões e receberá R$18 milhões de investimento para restauro, recuperação de infra-estrutura e adequação a uma atividade turística mais sólida (Livre Mercado, 2002).

As intervenções do Governo do Estado na região central da Luz, em São Paulo, estão conformando um pólo de raro valor turístico e cultural, pela riqueza arquitetônica e como patrimônio histórico, e pelos novos espaços criados para a arte e o entretenimento, com destaque para a Sala São Paulo, o Museu do Imaginário/Memorial do Cárcere, a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte Sacra. Agora caminha-se para a consolidação da área, com a revitalização da Estação da Luz e a aplicação de U$ 8 milhões oriundos do BID (maior parte), da União, do Estado e da Prefeitura.

A expressão idade da inocência do capitalismo foi cunhada com refinada verve e precisão imagética por Rolf Kuntz, ao se referir ao welfare state, predominante no fordismo, isto é, aos trinta gloriosos (1945/1975), época do capitalismo com alguma face humana (Kuntz, 1995).

A outra expressão, vingança do mercado, remete a Marcus André B. C. de Melo, falando sobre o acirramento das contradições e do caos social exatamente no período seguinte, da acumulação flexível (Melo, 1991), mostrando, diríamos, que, não havendo mais razões para a sublimação de suas pulsões tanáticas, o mercado libera os instintos do individualismo e da cupidez, no vale-tudo do liberalismo deste fim de século.

Sobre a evidência da existência da vingança do mercado, seus reflexos na urbanidade e os controles atuais, os textos de Harvey, de Castells & Borja e de Ascher não deixam dúvidas. Por outro lado, sobre os riscos do deslumbramento com o empresarialismo/PEC, como vimos, não faltam alertas.

Ao dizer que qualquer melhoria "será eventualmente eclipsada por essa crescente crise do desenvolvimento desigual", Gottdiener nos faz lembrar que, sendo a receita per capita da cidade de São Paulo miseravelmente insuficiente para financiar o seu desenvolvimento (US$ 368, contra US$ 1.110 de Buenos Aires ou US$ 5.256 de Tóquio), não haverá futuro algum enquanto não se corrigir os desequilíbrios horizontais e verticais do federalismo fiscal brasileiro (e, no âmbito local, a consciência social não submeter o self interesting, impondo medidas como, por exemplo, os IPTUs progressivos). Veja que na Suécia o município gera 72% dos recursos públicos, enquanto no Brasil gera cerca de 13%. Então não há mesmo saída sem criativas medidas desencadeadoras de dinamização econômica e especialmente de atração externa de investimento no município, que, se estiverem destinadas à terceira e quarta gerações dos direitos – direito à cidade e ao acesso ao patrimônio público, histórico e ambiental (Sachs, 1998) – e de modo geral a melhorar padrões de acessibilidade e mobilidade, já terão valido a pena.

Portanto, nova realidade mundial, mesmas carências sociais e pior situação fiscal; mas, em certos lugares, com maior transparência, ética e controle social. Aí é possível um jogo limpo.

Tomando-se como premissas intocáveis a preservação do espaço público, do patrimônio histórico e do meio ambiente e a salvaguarda dos recursos financeiros públicos, que devem atender prioritariamente as carências existentes primordialmente nas periferias, há que se cuidar das centralidades, podendo-se adotar os novos padrões de dinamização urbana aplicados mundo a fora, adaptando-os à nossa realidade, com estrito controle social das relações público-privadas.

*Antonio Marcos Capobianco é sociólogo da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).


    Bibliografia

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  Cultura  
ACORDES OUSADOS

Surgida para explorar os limites da contemporaneidade artística, a Orquestra Experimental de Repertório encanta o público há mais de uma década

ANA FRANCISCA PONZIO
Fotos de Marcelo Santos


Começar carreira ao lado de sumidades musicais como o trompetista norte-americano Wynton Marsalis ou o maestro de mesma nacionalidade Lorin Maazel é oportunidade rara para músicos de qualquer parte do mundo. Na Orquestra Experimental de Repertório (OER), do Teatro Municipal de São Paulo, no entanto, intercâmbios desse tipo já fazem parte do cotidiano desse conjunto sinfônico dirigido por Jamil Maluf, cuja trajetória vem sendo marcada pela versatilidade, a ousadia e a invenção.

Embora mais de 80 de seus 100 integrantes sejam considerados músicos em processo de profissionalização, a OER ocupa status nobre na programação cultural paulistana. Com seu repertório abrangente e anticonvencional, a ex-Orquestra Sinfônica Jovem costuma proporcionar espetáculos tão singulares quanto memoráveis. "Sempre produzimos o máximo possível, mesmo em condições adversas", diz Maluf, o maestro nascido em Piracicaba e que desde 1980 está à frente do conjunto que já impulsionou a carreira de músicos consagrados internacionalmente. Um deles é Alexandre Klein. Depois de debutar na OER, ele foi contratado pela Orquestra Sinfônica de Boston e hoje é considerado um dos melhores oboístas do mundo.

Na capital paulista, a OER é a orquestra que conduz o espectador tanto para os meandros do repertório clássico quanto para os estímulos multimídia da música contemporânea. Famosa por suas séries temáticas, a OER não pára de fazer jus ao nome – ou seja, experimentar. Na série "Cinema em Concerto", voltada para as trilhas originais feitas para a sétima arte por mestres como Nino Rota, os recitais costumam ser antecedidos pela projeção de um trecho do filme em foco. Na ocasião em que a orquestra se deteve na antológica parceria entre o cineasta Alfred Hitchcock e o compositor Bernard Herrmann, uma projeção mostrou a cena do assassinato no chuveiro, que marca o filme Psicose. "Projetamos com e sem música, para que o público pudesse perceber a diferença", conta Maluf, cujas "invenções" funcionam como injeções de vitalidade na OER.

"A arte sinfônica é muito mais ampla do que se costuma imaginar", ele afirma. "Uma orquestra está condenada à mesmice se ignorar a abertura que o século XX proporcionou à música sinfônica. Hoje temos brilhantes compositores que associaram suas criações a universos distintos, como o cinema e o teatro, e eu acredito que não podemos ficar alheios às possibilidades que essa diversidade nos oferece".

Na produção dedicada ao cinema, Maluf cita o russo Alexander Nevsky entre os inúmeros que, além do repertório clássico habitual, escreveram partituras primorosas para o cinema. Nesse tipo de investida, a OER não se priva de explorar as duas faces da mesma moeda, tocando tanto as composições feitas especialmente para cinema que depois viraram obras de concerto, quanto as músicas já existentes que mais tarde foram apropriadas pelo cinema (como é o caso de A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick).

Dinâmico

Entusiasmado, Maluf é convincente sobre os inesgotáveis filões de suas séries temáticas. Ainda na fértil abordagem do cinema, a OER já se antecipou aos circuitos de exibições. "Em primeiríssima mão", segundo o maestro, a orquestra apresentou para as platéias paulistanas a trilha do filme O Guarani, dirigido por Norma Benguell e com músicas de Wagner Tiso.

A curiosidade juvenil que Maluf consegue encorajar na OER também costuma resultar em eventos inéditos – e históricos – em São Paulo. Em 1983, a orquestra promoveu a primeira encenação da ópera A Flauta Mágica, um título que até então não havia chegado ao palco principal da cidade. "Acho que muita gente não imagina que o Teatro Municipal permaneceu até os anos 80 sem realizar essa obra de Mozart", lembra o maestro.

Ininterruptamente, a OER vive revelando novidades. Do repertório operístico, além dos grandes "cavalos de batalha", como La Traviata, de O Barbeiro de Sevilha e Carmen (reencenada em março deste ano), já levou para o palco também as peças que escapam das programações convencionais, como Os Pescadores de Pérolas, de Bizet, A Voz Humana, de Poulenc, e O Chapéu de Palha de Florença, de Nino Rota.

Por vezes tais obras ainda acabam sendo mostradas com certa provocação. À ópera La Bohème, de Puccini, a OER deu conotações atuais, graças aos figurinos. O deslocamento no tempo também fez parte da interpretação de La Traviata, levada à época do charleston. Com isso, a OER também amplia colaborações com profissionais diversos, como cenógrafos e diretores de teatro. "Jorge Takla fez sua primeira direção de ópera conosco", cita Maluf, enfatizando que os espetáculos da orquestra dão prioridade absoluta para os cantores nacionais. "Fomos nós que lançamos a soprano Céline Imbert, que não havia sido notada até sua participação em A Voz Humana, que nós produzimos em meados dos anos 80."

Relatos curiosos, encontros e produções idem não faltam na trajetória da OER. Entre os visitantes ilustres que já participaram de intercâmbios com a orquestra, inclui-se Wynton Marsalis, que durante a festejada temporada de seu grupo, o Jazz at Lincoln Center em São Paulo (J@LC), no ano passado, deu uma extraordinária "canja" junto aos músicos da OER. Acompanhado dos 14 "feras" de sua banda, Marsalis despiu-se de estrelismos para ensaiar e se apresentar com a orquestra de Maluf, com a qual compartilhou o virtuosismo e o suíngue jazzístico que lhe é peculiar. Após interpretar um programa que incluiu uma versão de Duke Ellington para o balé O Quebra Nozes, de Tchaikovsky, a troca de elogios tomou conta da OER e da J@LC, com Marsalis somando credibilidade ao talento dos jovens músicos paulistanos.

Outra personalidade que está dando destaque à OER é Lorin Maazel. Responsável por um concurso internacional para regentes, ele escolheu a orquestra paulistana para sediar uma das cinco semi-finais do evento, que em 2002, além de São Paulo, ocorrem em Tóquio, Estados Unidos, Polônia e Inglaterra. "Maazel escolheu a OER como a orquestra que tocará sob regência dele próprio e dos candidatos a regentes, os quais depois trabalharão com ele como estagiários".

O encontro de Maazel com a OER, programado para abril, integra as atividades de 2002 da orquestra, que neste ano, como de hábito, promoverá premières de novas obras. Uma delas é a ópera João e Maria, que o compositor Engelbert Humperdinck concebeu sob inspiração de um dos contos infantis dos Irmãos Grimm. A encenação, marcada para junho, contará com a Companhia Imago. Na trilha de grupos similares europeus, a Imago é um elenco teatral de São Paulo que tem como especialidade a técnica do teatro negro, o qual permite efeitos surpreendentes por meio de imagens delineadas através da luz, sob o fundo escuro do palco.

Avanços

No calendário de 2002 da OER também está confirmada a série Cinema e Concerto, com enfoque na obra do cineasta espanhol Luis Buñuel. À parte a programação artística, a orquestra comemora avanços também na sua estrutura administrativa. Recém-promovida a corpo estável do Teatro Municipal de São Paulo, a OER agora integra os elencos de música, dança e ópera da principal casa de espetáculos da cidade, ao lado de elencos como o da Orquestra Sinfônica Municipal e do Balé da Cidade de São Paulo. "Agora somos realmente da casa", comenta Maluf, que com isso ganha o Teatro Municipal como palco oficial de seus músicos.

Para a orquestra que surgiu timidamente e que já sobreviveu sob condições precárias, a evolução tem sido significativa. Em 1980, quando Maluf assumiu o cargo de regente, a atual OER ainda ficava à margem da cena principal da cidade. Porém, não demorou muito para que os jovens músicos assumissem status mais relevante. Com a abertura do repertório, por meio de um concerto protagonizado por Arrigo Barnabé em 1983, ficou claro que o sucesso seria rápido e definitivo.

Foi em 1990, na gestão da prefeita Luiza Erundina e sob a iniciativa de Marilena Chauí como secretária municipal de Cultura, que a antiga Orquestra Sinfônica Jovem passou a ser identificada como Orquestra Experimental de Repertório. "Depois de uma luta intensa, a Câmara Municipal aprovou e regulamentou o trabalho da OER, que deixou de correr riscos mesmo se houver mudanças de humores políticos", relata Maluf.

Atualmente, entre os 100 músicos da OER, ele faz questão de manter o sistema de cargos de confiança. "É importante que ninguém seja efetivo. Músicos não demissíveis são o primeiro caminho para orquestras acomodadas", diz. Compasso a compasso, Maluf vem fazendo da OER uma orquestra livre de rótulos. "Não podemos ficar carimbados por um tipo específico de repertório, que pode cansar o público. Nosso principal trunfo é o dinamismo", salienta.

Movida por dinâmica própria, a OER faz de seu repertório o melhor instrumento para eliminar fronteiras. Por meio da série Outros Sons, aproximou-se da música popular, tocando ao lado de nomes como Gal Costa e grupos como o português Madredeus e os brasileiros Uakti e Nouvelle Cuisine. Seu "namoro" com a dança também foi devidamente assumido com a série Com-Passo, que já rendeu belas parcerias com o Balé da Cidade de São Paulo. Entre os projetos recentes, a série Música em Cena associou a OER a grupos teatrais multimídia, como o XPTO e o Cidade Muda. Sem contar os flertes com a tecnologia, como o espetáculo em que interpretou o Concerto para Computador e Orquestra, de Rodolfo Coelho de Souza, que teve um computador como solista. "Temos que refletir a modernidade", afirma o maestro. Nos 12 anos que deixaram-se reger pela disposição experimental, ele e sua orquestra conseguiram fazer da OER uma das melhores atrações de São Paulo. Tudo indica que com perspectivas de longevidade sem fim.


  Cultura  
Missão cumprida

Inaugurado há um ano, o CCBB-SP supera as expectativas e reanima parte do Centro histórico e financeiro

ANA FRANCISCA PONZIO


Em 21 de abril de 2001, o Centro Cultural Banco do Brasil inaugurou sua unidade paulista com o desafio de criar uma programação capaz de fazer do Centro histórico de São Paulo um ponto de convergência na vida artística da cidade. Situado no calçadão onde as ruas da Quitanda e Álvares Penteado se encontram, o CCBB-SP se introduziu numa área bancária e comercial cujo afluxo de público caía a quase zero após o expediente de bancos e lojas. Se de início pairavam dúvidas sobre a viabilização do Centro Cultural em tal endereço, agora não faltam motivos para celebrar o aniversário de um ano da instituição que, além de receber cerca de 1.300 pessoas por dia, inclusive nos fins de semana, já está injetando vitalidade nas cercanias. "É possível avaliar os reflexos do Centro Cultural Banco do Brasil até no Mosteiro de São Bento, onde as missas estão cada vez mais cheias de gente", observa Yole de Mendonça, que assumiu a gerência da instituição já no início de seu funcionamento. Formada em jornalismo e há 20 anos trabalhando no Banco do Brasil, Yole constata que o prognóstico inicial – de que uma programação diversa atrairia público expressivo – está se confirmando a cada dia.

Para comemorar o primeiro aniversário do CCBB paulista, Yole e sua equipe organizaram uma programação especial, que se compõe de eventos significativos em várias áreas artísticas. Na simbólica data de 21 de abril, estará em funcionamento a exposição de Lucio Fontana, artista argentino naturalizado italiano, considerado um nome importante da arte do século XX. Sob curadoria de Paulo Herkenhoff, a mostra de Fontana ocupará, até junho, quase todos os andares do Centro. Em teatro, a atração será o musical Elis, a Estrela do Brasil, com direção de Diogo Vilela e cenografia de Gringo Cardia.

A programação de cinema, que ao longo de 2001 firmou-se como um dos pontos fortes do CCBB, também estará caprichada no mês de aniversário, com a realização da sétima edição do festival de documentários É Tudo Verdade. Aproveitando o entorno do prédio, que se transformou num palco complementar, o Centro ainda apresenta o evento Dança no Centro da Rua, que renderá tributo a uma das mais contundentes manifestações urbanas de São Paulo, o hip hop. A oferta de atrações ainda se estende às oficinas de criação, projeto permanente do CCBB, que em abril terá a atriz Denise Del Vecchio como convidada especial, para ministrar cursos de teatro para não atores.

Em meio a tais atividades, a festa de aniversário culmina às 16h30 do dia 21 com o show que Arnaldo Antunes comandará no átrio da instituição, em companhia do DJ Dolores e da orquestra Santa Massa. Gratuito e de portas abertas para o público, o evento promete mobilizar a cidade, assim como ocorreu um ano atrás, quando o artista plástico Tunga protagonizou a exposição performática que inaugurou o Centro.

Considerando o que vem pela frente, a programação de aniversário do CCBB-SP é apenas o começo de um calendário cujo conteúdo cultural está ancorado, em 2002, num orçamento de R$ 7,5 milhões. "Além de verba, é preciso democracia na seleção de projetos, para garantir bons resultados", ressalta Yole, que selecionou as atrações deste ano a partir das 819 propostas recebidas, em 2001, de artistas e produtores culturais de todo o Brasil. "A nosso favor, temos o sistema de inscrições via Internet, que torna o Centro acessível para interessados das mais diversas regiões. Isso aumenta a possibilidade de organizar uma programação que, além de representar a produção cultural de todo o país, tem a cara de São Paulo, cuja população aglutina os mais diversos sotaques."

Segundo Yole, a perspectiva ampla e diversificada da programação, que procura apresentar o que há de melhor em cada área artística, é um dos motivos do sucesso do CCBB-SP. "Nossa meta é não fechar possibilidades", ela comenta, acrescentando que o monitoramento constante, por meio de pesquisas que avaliam o grau de satisfação do público, é outro cuidado que influi nos bons resultados. "A todo momento, conseguimos medir se estamos acertando ou não".

Acesso

A sintonia permanente com as expectativas do público também permitiu facilitar o acesso ao Centro Cultural. Inaugurado recentemente, um serviço de vans transporta gratuitamente o espectador que deixar seu carro no estacionamento situado à Rua da Consolação nº 228. Com saídas e retornos a cada 15 minutos, as vans alcançam a Rua Álvares Penteado com rapidez, garantindo conforto e segurança ao público.

À parte o sucesso de sua programação, o Centro Cultural Banco do Brasil também já pode comemorar as transformações que está provocando em torno de seu edifício-sede. Desde a inauguração do Centro, o entorno vem ganhando pontos de encontro, como bares, cafés e pequenos restaurantes. Além do surgimento de novos estabelecimentos do gênero, os que já funcionavam procuram elevar seus padrões. Reformas de interiores e fachadas tornaram-se comuns e a tendência de recuperação dos prédios já apresenta sensíveis avanços.

A perspectiva de valorização cultural também começa a fazer do Centro histórico e financeiro de São Paulo um local cobiçado por outras instituições. Nas vizinhanças do CCBB-SP, a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) acaba de instalar um espaço voltado para a cultura. Outro "morador" que a região está ganhando é a Universidade Anhembi Morumbi, que em breve ocupará o prédio que adquiriu do BankBoston na Rua Líbero Badaró, o que levará de volta para as imediações o público estudantil que deixou de se concentrar no coração da cidade.

Ao que tudo indica, essa renovação também deve beneficiar a segurança. Segundo constatação da direção do Centro Cultural Banco do Brasil, ocorrências policiais têm sido relativamente raras na região. "Quando viemos para cá, os responsáveis pela segurança pública do Centro da cidade nos informaram que a percepção da insegurança é maior do que a insegurança em si. É o que estamos observando na prática", explica Yole de Mendonça, que por meio deste detalhe ressalta a necessidade de desmistificar as conotações negativas do centro de São Paulo. Em acelerado processo de recuperação, o glamour parece mesmo ter encontrado a rota, para novamente se instalar na cidade.


  Livros  
Rino Levi, uma visão panorâmica


Os (muitos) admiradores da obra do arquiteto paulista Rino Levi (1901-1965) vão encontrar, em Rino Levi – Arquitetura e Cidade (Romano Guerra Editora, 324 páginas, R$ 80, à venda nas livrarias ou pelo site www.vitruvius.com.br), uma rica fonte de informações. Com o patrocínio cultural de Furnas Centrais Elétricas, coordenação editorial de Abílio Guerra, pesquisa e texto de Renato Anelli, imagens fotográficas de Nelson Kon e um esclarecedor prefácio de Lúcio Gomes Machado, o volume contém extensa documentação sobre os projetos do arquiteto, inclusive os que não foram implantados, como o do Viaduto do Chá e o do edifício central do Aeroporto Santos Dumont, no Rio. O livro destaca os projetos de cinemas em São Paulo e muitos outros aspectos da diversificada atividade profissional de Levi, como a concepção criativa e rigorosa de residências e edificações verticais, e – vistas num belo ensaio fotográfico –, as edificações do Instituto Sedes Sapientiae. Rino Levi foi um dos mais importantes pioneiros do movimento modernista em São Paulo e figura chave no processo de expansão vertical da cidade, unindo qualidade estética, ousadia e ampla visão urbanística em seus projetos.

Painel modernista


O formato reduzido, apenas 15 x 17cm, não impede que o interessante painel elaborado pelo antropólogo e arquiteto Lauro Cavalcanti para o livro Quando o Brasil era Moderno – Guia de Arquitetura 1928-1960 (Editora Aeroplano, 468 páginas, R$ 42) exiba conteúdo consistente e hamoniosa programação visual, satisfazendo assim aos mais exigentes leitores. Ao todo são 125 projetos de 33 arquitetos modernistas e, de quebra, uma bibliografia complementar para quem quiser mais informação sobre cada um deles.

Presente no passado


Cidade, espaço e tempo são os temas centrais dos ensaios contidos no livro Por uma Nova História Urbana – Bernard Lepetit (Edusp, 325 páginas, R$ 39), organizado e apresentado por Heliana Angotti Salgueiro, doutora em História e pesquisadora da Fapesp no IEB-USP. Ao enfocar os textos de Lepetit, conhecido professor da École de Hautes Études em Sciences Sociales, o que se enfatiza é que o passado pode ser reconstruído a partir de questões do presente, da mesma forma que as cidades de hoje originam-se de suas configurações anteriores.

Niemeyer, na história


No capítulo de A História da Arquitetura (Editora PUC-Rio e Edições Loyola, 240 páginas, R$ 53) dedicado às revoluções arquitetônicas surgidas depois da Primeira Guerra, no século XX, somente três arquitetos merecem do inglês Jonathan Glancey subcapítulos exclusivos, e um deles é o brasileiro Oscar Niemeyer. Segundo Glancey, Niemeyer trouxe para o movimento modernista um grau de sensualidade sem precedentes, situando-se entre aqueles criadores hipersingulares, como Gaudí, na Espanha.


  Turismo Cultural  
Hospedagem com arte

Grandes hotéis do Centro integram-se ao pólo cultural que se consolida na região
Fotos de Marcelo Santos


Com sua voz intimista, a cantora Alaíde Costa era atração freqüente no antigo bar do Hotel Jaraguá, considerado um dos melhores da cidade na época que antecedeu a decadência do Centro de São Paulo. Não muito longe, cruzava-se com celebridades das artes e da realeza internacionais nas dependências do Hotel Ca’ d’Oro, um ponto de encontro tradicional, em cujo restaurante de altíssimo padrão era possível saborear pratos da cozinha lombarda, além de novidades como o carpaccio, que mais tarde tornou-se trivial em todo o país.

Embora a época áurea tenha ficado para trás, o Ca’d’Oro resistiu ao declínio do Centro, enquanto o Jaraguá, em plena reforma, programa a reabertura de suas portas para o primeiro semestre de 2004, quando São Paulo celebrará 450 anos. Símbolos da cidade, os dois hotéis também representam a aposta na recuperação da região central, hoje compartilhada pelas demais casas do gênero, igualmente dispostas a resgatar o glamour das décadas passadas e a influência no turismo cultural paulistano.

Entre os hotéis que renovam seu investimento no Centro, o Normandie se antecipou e hoje classifica-se entre os mais modernos de São Paulo. Para quem circula pela Avenida Ipiranga, é difícil imaginar que no interior do prédio de número 1.187 desfruta-se do conceito de design hotel, lançado em Nova York no início da década de 90 e inédito no Brasil até a reforma do Normandie. "O design hotel possui três atributos básicos: arquitetura e decoração radicalmente modernas, tecnologia de ponta disponível em todos os recintos, além de um serviço ultra-minucioso, que deve fazer o hóspede sentir-se em uma pousada charmosa", diz Fábio Ionesco, proprietário do Normandie, que investiu R$ 6 milhões na modernização do hotel.

Convencido de que o Centro voltará a ser uma área de excelência, Ionesco vem participando ativamente do processo de requalifcação da área. Além de fazer do Normandie um local novamente freqüentado por "descolados", como artistas, modelos e publicitários, ele tornou-se um divulgador da programação cultural da cidade, cujo apelo tem multiplicado o número de hóspedes no hotel. "Tivemos resultados excelentes em 2001. Além do público executivo, constatamos um aumento significativo de turistas puros, ou seja, aqueles que vêm à cidade em busca de atividades de lazer, consumo e cultura. Acho que no ano passado fui um dos maiores vendedores de ingressos do musical Os Miseráveis, para espectadores de fora de São Paulo’", diz Ionesco, que para obter tais resultados criou pacotes temáticos, enviados para agências e operadoras turísticas de todo o Brasil.

Atração à parte

Além das ofertas da cidade, o Normandie se esmerou para fazer de suas instalações uma atração à parte. Contrastando com as imediações externas, o hotel pode ser considerado um oásis de tranqüilidade em meio à agitação urbana. Em seu lobby totalmente branco, é possível respirar uma atmosfera zen, que se prolonga no conjunto de 174 apartamentos, nos quais também impera o estilo clean contemporâneo. Recebendo cerca de 4 mil hóspedes por mês, Ionesco só lamenta a incapacidade da Prefeitura de acelerar a recuperação do Centro. "À medida que o Centro não se desenvolve, há um desperdício de dinheiro, impostos e emprego. Acho que a atual administração municipal ainda não arregaçou as mangas para valer", comenta o dono do Normandie, que também está investindo em outro hotel de sua propriedade, o Nobilis, localizado próximo ao Normandie, na Rua Santa Ifigênia. "Quando a reforma se completar, em meados de 2003, o Nobilis deve ficar mais bonito que o Normandie. No momento, as áreas já recuperadas, como o lobby com pé direito de 10 metros, que o torna parecido a uma galeria novaiorquina, já viraram lugar da moda. Prova disso foram os lançamentos da Forum, Ellus e da programação do Free Jazz, que lá ocorreram em 2001."

Tradição

Enquanto no Normandie é possível encontrar peças de decoração de design ousado, assinadas por nomes como Philippe Starck e Mies Van Der Rohe, no Ca d’Oro desfruta-se de um tradicional ambiente europeu, onde a arte se revela em gravuras de Debret, cartografias produzidas em 1762 na corte francesa do Rei Sol, pianos de cauda (um deles em madeira esculpida, da marca Érard), além de objetos antigos, como o ancestral telefone de parede, fabricado pela Bell, que inaugurou a telefonia no Brasil. Para lembrar as raízes do hotel construído na confluência das ruas Augusta, Caio Prado e Avanhandava, o idioma italiano prevalece sobre o inglês na mensagem telefônica gravada, que recepciona quem liga para o Ca’ d’Oro.

Às vésperas de completar meio século, o Ca’ d’Oro surgiu em 1953 por iniciativa de Fabrizio Guzzoni, um italiano de Bérgamo, cuja família já possuía tradição na hotelaria européia. Foi a paixão por uma hóspede, uma paulista de Campinas com quem se casou, que motivou a mudança de Guzzoni para São Paulo, onde ele recomeçou a vida profissional abrindo um restaurante no coração da paulicéia, à Rua Basílio da Gama, onde também funcionou o primeiro Hotel Ca’d’Oro. "Em São Paulo não havia restaurantes especializados na cozinha do norte da Itália, tampouco hotéis de alta categoria". Percebendo o potencial do mercado, Guzzoni logo construiu o primeiro dos três prédios que compõem o Grand Hotel Ca’ d’Oro, na região que ele até hoje ajuda a conservar.

"Fiz toda a calçada da Caio Prado até a entrada principal do hotel, na Rua Augusta. Quando percebemos que não havia bocas-de-lobo nas imediações, compramos os sacos de areia que ainda nos permitem evitar os alagamentos provocados por temporais nas cercanias do hotel", diz o octagenário Guzzoni, que agora dá continuidade aos negócios treinando o neto de 22 anos. Dividindo tarefas com o avô, Fabrizio Machado Guzzoni salienta: "Estou torcendo para que os planos da Prefeitura saiam do papel. Se não acreditássemos na recuperação do Centro, não continuaríamos investindo."

Celebridades

Para o neto aspirante, não faltam exemplos vindos do avô. Graças a Guzzoni, o quarteirão onde se localiza o Ca’ d’Oro é o único da Augusta, no prolongamento que vai da Avenida Paulista ao Centro, que não mais possui "inferninhos". Para tanto, Guzzoni chegou a comprar um prédio de três andares que abrigava um prostíbulo em frente ao hotel, para lá construir uma praça arborizada e com chafariz, que agora também serve de estacionamento para carros de hóspedes e visitantes. "Reformamos a paisagem em volta, mas o governo precisa fazer sua parte."

Mesmo com a queda do movimento, o Ca’ d’Oro continuou sendo um dos cartões de visitas de São Paulo. Sem se render ao estilo padronizado das redes hoteleiras, preservou a identidade que lhe conferiu a preferência de inúmeras celebridades. De Pavarotti a François Mitterrand, o Ca’ d’Oro já hospedou a fina flor das artes e da política. Ricardo Mutti, maestro da Orquestra do Teatro La Scala de Milão, somou-se no ano passado ao rol de regentes ilustres que já assinaram seus nomes num "livro de ouro", cujos antecedentes italianos incluem o autógrafo de Pietro Mascagni, o compositor da célebre Cavalleria Rusticana.

Direta ou indiretamente, os hotéis do Centro integram-se à cultura da cidade, que em breve voltará a contar com o Hotel Jaraguá. Com sua reforma, sob responsabilidade do arquiteto Miguel Juliano, o Centro deve ganhar, inclusive, uma rua de charme. Permitindo que os hóspedes desembarquem dentro do hotel, essa ruela coberta, que ligará as ruas Martins Fontes e Major Quedinho, foi projetada essencialmente para pedestres, devendo abrigar lojas e uma confeitaria. Além de um restaurante de alto padrão e um centro de convenções de 6 mil metros quadrados, o novo Jaraguá promete reinaugurar seu famoso bar do térreo, onde artistas como Alaíde Costa voltarão a ter um palco no coração da cidade.

O Centro é, tradicionalmente, uma região de bons hotéis. Nomes como o Othon Palace, o San Raphael e o Hilton, entre outros, fizeram e continuam fazendo a moderna história da hospedagem qualificada em São Paulo. Já são, em certa medida, "hotéis de cultura", e o serão mais vigorosamente à medida que o Centro se consolide como o grande pólo cultural da metrópole. Outros estabelecimentos vão abrir as portas num futuro próximo, como o Mercure Downtown. Hotéis de grande porte, como o já inaugurado Novotel, com 420, surgem na vizinha região do Anhembi, em plena área central. Todos farão parte de um emergente complexo turístico e cultural que ganha forma no Centro.


  Mix  
Entre melhores e melhores


A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo acabou de gravar, no final do mês de fevereiro, dois CD´s para lançamento mundial pelo selo BIS, especializado em música erudita. A gravadora sueca é responsável pela divulgação de concertos das principais orquestras do mundo. O primeiro CD da Osesp conta com duas sinfonias de Camargo Guarnieri, regidas por John Neschling; o segundo, com duas sinfonias de Cláudio Santoro, sob regência de Roberto Minczuk. No mês de junho, a orquestra grava novo CD com as Bachianas brasileiras I, II, III e IV, regidas por Minczuk. De sua programação de espetáculos, repleta de atrações internacionais, vale destacar a dos dias 20 e 22 de junho, quando apresenta-se o compositor italiano Luciano Berio, pioneiro da música eletroacústica e considerado o nome mais importante da música contemporânea. Ele vai reger três de suas principais obras, o Rendering, o Concertino para Clarinete e Violino e a Sinfonia para 8 vozes e Orquestra, com o renomado conjunto vocal Swingle Singers.
Sala São Paulo – Praça Júlio Prestes, s/n. Tel. 3337-5414. Metrô Luz. Quintas-feiras, às 21h, e sábados, às 16h30. Ingressos R$10,00 a R$30,00. Amplo estacionamento interno (R$5,00).

Nível internacional


Apostas certas, uma na qualidade arquitetônica de um importante espaço cultural de São Paulo, outra no potencial do Centro da cidade, e o resultado está aí: o Teatro Abril, que ressurgiu das "ruínas" do velho Teatro Paramount, traz musicais norte-americanos consagrados e alavanca as possibilidades de consagrar o Bixiga como bairro das artes cênicas de São Paulo. Les Miserábles ficou mais de um ano em cartaz e se despediu, no final de março, registrando sucesso de crítica e público. Aos amantes de grandes espetáculos cabe, agora, aguardar a montagem de A Bela e a Fera, capaz de repetir o êxito de sua antecessora. A estréia está prevista para o mês de junho e promete trazer nomes consagrados para elenco, direção, figurinos e produção.
Teatro Abril – Av. Brigadeiro Luís Antonio, 411. Tel. 3115-4771. Metrôs Sé e Brigadeiro. Programação a conferir.

Sobre todas as artes


Imagine-se assistindo a uma cópia restaurada do filme Metrópolis, um marco do expressionismo alemão de Fritz Lang da década de 1920, no Teatro Municipal de São Paulo. Agora, imagine-se ouvindo a trilha do filme, interpretada simultaneamente à exibição da fita pela Orquestra Sinfônica Municipal, sob regência de Frak Strobel da Alemanha. O sonho será possível nos dias 21 e 22 de abril. E não terminam aí as atrações do Municipal, um espaço cada vez mais eclético que oferece um leque variado de opções culturais. Somente para a dança, seus palcos receberão o Ballet Stagium, dias 3, 4 e 5 de maio; o Ballet Folclórico do México, dia 8 de maio; e o Ballet Antonio Márquez, dias 23 a 26 de maio. Além disso, continuam as apresentações do Balé da Cidade e da Orquestra Sinfônica Municipal, com destaque para a apresentação dos dias 19 e 20 de maio, quando a Sinfonia dos Salmos de Stravinsky será executada, sob regência de Ira Levin com participação do Coral Lírico.
Teatro Municipal – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Tel. 228-8968. Metrô Anhangabaú/Saída Xavier de Toledo. Preços a conferir. Horário Variado. Sem estacionamento.

Figurinos antológicos


Corria o ano de 1954. Graças ao crescimento acelerado que experimentara, São Paulo já se gabava do título de maior cidade da América Latina e comemorava à altura o seu quarto centenário de fundação. Entre os numerosos eventos que celebraram a data à exaustão, um em particular despertou a opinião pública: a entrega dos figurinos do Balé do Quarto Centenário para artistas plásticos polêmicos, entre eles DI Cavalcante, Burle Marx e Lasar Segall (ao lado). Entregues depois à guarda do Teatro Municipal, os trajes foram preservados e podem ser apreciados pelo público. Estão expostos no Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal, reunidos na mostra Dançando São Paulo, em cartaz desde 03 de abril, que propõe releituras feitas por estudantes de moda do Senai. São quatorze peças originais e 64 releituras, em cartaz até o dia 02 de junho. Paralelamente às suas atividades regulares, o Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal acena com outra boa notícia: prepara-se para começar a reforma do antigo Edifício das Policlínicas, na rua Roberto Simonsen, construção de fins do século XIX que, até 2004, deve abrigar as novas instalações da instituição.
Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal – Praça da Sé, 111, Terceiro Andar.
Metrô Sé. Terça a domingo, das 12h às 18h30. Entrada franca. Sem estacionamento.

Em nome da cultura


Já faz um ano que o Centro Cultural Banco do Brasil irradia cultura e oferece entretenimento nos calçadões do Centro Velho de São Paulo. No período, o novo equipamento cultural do Centro recebeu 300 mil visitantes para apreciar cerca de 300 atrações. Mas não é só. Além da presença do público, o CCBB-SP recebeu principalmente o reconhecimento da comunidade e das instituições paulistas. Os críticos da Associação Paulista de Críticos de Arte concederam-lhe o título de melhor instituição cultural de 2001, da Associação Comercial de São Paulo veio o prêmio Marco Histórico no Centro e da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, o prêmio pela publicação do livro Pujol, Concreto e Arte. Para celebrar o aniversário, registrado em 21 de abril, o CCBB-SP elaborou uma vasta programação, incluindo desde recitais de poesia a importantes exposições de artes plásticas, ciclos de cinema e, ainda, vários espetáculos de dança. Até 16 de junho dá para conferir A Ótica do Invisível, com a "arte espacial" de Lúcio Fontana. E para quem gosta de teatro e de Elis Regina, até 26 de maio, fica em cartaz o espetáculo Elis, a Estrela do Brasil, com direção de Diogo Vilela. A montagem que vem do Rio de Janeiro mostra nos palcos paulistanos a vida conturbada de Elis, tida como a maior cantora brasileira de todos os tempos.
Centro Cultural Banco do Brasil – R. Álvares Penteado, 112. tel. 3113-3651 ou 3113-3652. Metrô Sâo Bento ou Sé. Terça a domingo, das 12h às 18h30. Ingressos de R$3,00 a R$15,00. Estacionamento e transporte por van, de terça a domingo, a partir das 11h50, com saída do estacionamento Estapar da Rua da Consolação, 228 e ponto final no Hotel Othon (r. Líbero Badaró, 190), com retornos periódicos. O preço do estacionamento é de R$7,00 por até 3 horas de permanência e o transporte de van é gratuito, patrocinado pelo Seguro Ouro Auto.

Celebrações


Ela é do tempo em que a capital paulista convertia-se de vila em metrópole. Tem 90 anos. Noventa anos dedicados à boa música. Não é pouco. E quem ganha com tal longevidade e tamanha dedicação é São Paulo. Duplamente, já que a programação comemorativa é especial. A aniversariante, a Sociedade de Cultura Artística, começa os festejos com A Temporada Internacional de 2002, que se estende de abril a 12 de novembro, repleta de atrações. Inaugura a seleção de espetáculos o pianista Nikolai Lugansky, um jovem russo, de apenas 29 anos, cujas apresentações acontecem dias 22, 23 e 24 de abril, com concertos de Mozart, Brahms e Chopin, entre outros. Outro destaque, já no mês de maio, é a Orquestra de Câmara de Lausanne, sob regência e piano solo de Christian Zacharias, nos dias 13, 14 e 15. A programação anual está pontuada de preciosidades, como a presença da Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, dias 16 e 17 de agosto, e da Orchestra of the Age of Enlightnement, no mês de setembro.
Teatro Cultura Artística – R. Nestor Pestana, 196. Tel. 258-3344. Metrô República. Horário variado. Preço a conferir. Sem estacionamento.

Espaço democrático


Nem só de grandes exposições internacionais e de artistas renomados vive a Pinacoteca do Estado. Nos corredores do imponente edifício, junto ao célebre acervo de arte acadêmica, mostras de fotografia e apresentação de projetos sociais são realizadas com grande êxito. Na Cafeteria Bravo! – Café do Ramos, por exemplo, pode-se ver o trabalho fotográfico de Mônica Vendramini, com a Imperfeição da Rosa, de 14 de abril a 19 de maio. Outra opção é a exposição Retratos de Família de Camila Butcher, entre 26 de maio e 30 de junho. Já no Hall Central, no térreo do edifício, acontece de 05 de maio a 02 de junho a apresentação do Projeto Rocinha, organizado por André Cypriano.
Pinacoteca do Estado – Praça da Luz, 02. Metrô Luz. Tel. 229-9844. Terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada franca. Sem estacionamento.


  Notas  
Uma parceria estimulante


Na primeira semana de abril, oito jovens ex-alunos da Associação Profissionalizante da Bolsa de Mercadorias & Futuros conseguiram emprego por meio do boletim informe, publicação quinzenal da Associação VIVA O CENTRO. Sensível à relevância social desse projeto, a VIVA O CENTRO tem estampado gratuitamente em seu boletim um pequeno anúncio em que a escola da BM&F, voltada a estudantes de baixa renda, oferece seus jovens já formados para o preenchimento de vagas de auxiliar de escritório, secretária júnior, recepcionista, office-boy, atendente e auxiliar de manutenção (pintura, hidráulica, elétrica e reparações em geral). Sem dúvida, a oportunidade agora dada a esses jovens por seus empregadores possibilitará a grande virada na vida de cada um deles.

Ação Local mobiliza comunidade na Maria Paula


Com menos de um ano de fundação, a Ação Local Maria Paula já mobiliza a coletividade de sua microrregião, a maioria moradores, para uma série de atividades entre as quais se destacam programas sociais com crianças e adolescentes, eventos culturais e de lazer com idosos e zeladoria urbana, com melhorias para as ruas e praças locais. Fazem sucesso os passeios a hotéis fazenda próximos da Capital, realizados sempre aos domingos, como o da foto, na cidade de Paraibuna. A programação tem tido tão boa acolhida que a Ação Local decidiu colaborar ativamente com a festa de Corpus Christi no Centro, a ser realizada em 30 de maio, e está convidando toda a comunidade a participar. Há quatro anos, o Centro Pastoral São Francisco de Assis vem realizando a tradicional festa, com missa campal e procissão que deverá percorrer o quadrilátero formado pela Rua Japurá, Viaduto Jacareí e ruas Santo Amaro e Dr. Nestor Estevão Natividade. A intenção da diretoria e integrantes da Ação Local Maria Paula é resgatar a tradição de que as ruas percorridas sejam enfeitadas com tapetes produzidos por artistas locais com serragem e tinta doados por colaboradores da região central.

Projeto Guri na Galeria do Rock


Aulas de percussão, cordas, sopro e canto, entre outras, estão sendo ministradas gratuitamente a dezenas de jovens carentes na faixa de 8 a 18 anos que freqüentam a Galeria do Rock (Grandes Galerias), no Largo do Paissandu. Essas aulas integram o Projeto Guri, formalizado por convênio entre o Instituto Cultural Galeria do Rock e a Secretaria de Estado da Cultura, com o apoio da Ação Local Paissandu, e voltado à qualificação dos jovens para a convivência social, colocação profissional e elevação de sua auto-estima. De ambiente tido como hostil na década de 80, a Galeria do Rock vem se convertendo nos últimos anos em locus a favor da vida, da cultura e do lazer. Entusiasmado com as perspectivas do projeto, o secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça, batizou-o de Guri do Rock.

Ranking do "Cidadão de Carteirinha"


Algumas Ações Locais estão sempre idealizando formas de cativar a comunidade para os seus projetos de zeladoria urbana e melhoria da qualidade de vida em suas microrregiões. A Ação Local Avanhandava, por exemplo, promove no momento um censo com a finalidade de divulgar o Programa Ação Local, coordenado pela Associação VIVA O CENTRO, co-nhecer melhor os moradores, comerciantes, traba-lhadores e usuários do local e ampliar ainda mais o quadro de seus conselheiros. Ações desse tipo fazem com que essas entidades alcancem a legitimidade que lhes permite reivindicar junto ao poder público municipal benfeitorias e melhorias urbanas para o Centro. Eis o ranking das Ações Locais com mais conselheiros até agora:

AÇÕES LOCAIS Conselheiros
Maria Paula 84
24 de Maio e Ladeira da Memória* 49
Anhangabaú e Barão de Itapetininga 43
Pátio do Colégio/Boa Vista e Paissandú 42
Roosevelt 40

* Em formação


VIVA O CENTRO presente em conferência internacional


O presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, esteve entre os palestrantes convidados à conferência sobre Conservação do Patrimônio na América do Sul: Desafios & Soluções, organizada pela renomada instituição internacional World Monuments Fund (WMF) em meados de abril, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. A WMF, com sede em Nova York, é mundialmente famosa por dedicar-se à preservação de obras de arte e arquitetura que se encontrem em risco mundo afora. Ramos de Almeida discorreu sobre o processo de reabilitação do Centro paulistano.

Feira da Saúde atende a 5 mil no Pátio do Colégio


O Pátio do Colégio abrigou uma concorrida Feira da Saúde organizada durante todo o dia 4 de abril pela Distrital Centro da Associação Comercial de São Paulo com a colaboração de vários parceiros, entre os quais a Ação Local Pátio do Colégio/Boa Vista e o Sesc Carmo, e apoio da agência de publicidade Grafite. O evento, idealizado por Caetano Brancanti Luigi, da Associação Comercial, ofereceu exames gratuitos de colesterol, glicemia, pressão arterial, câncer de pele, dengue e oftalmologia, entre outros, dando atendimento a 5 mil pessoas num universo de quase 10 mil que passaram pela feira, entre 8h e 18h. O sucesso foi tanto que já se planejam outras edições, provavelmente ainda para este ano.


PATROCINADORES Revista URBS

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Pinheiro Neto Bank Boston
Apoio Institucional:

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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretaria)

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
(LZ Arte & Comunicação)
Assistente de arte: Antonio C. Decarli
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Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Federico Mengozzi, João Podanovsky, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
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