Os (des)caminhos do Plano Diretor
A boa qualidade urbana e de vida que São Paulo poderia alcançar a partir de 2010 esbarra,
desde já, nas contradições de uma "desverticalização planejada" da cidade.
JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina
Quando (e se) aprovar o projeto de lei de seu novo Plano Diretor, este ano, São Paulo estará selando o próprio destino até 2010 ou para sempre. Se, em vez de aprová-lo integralmente, a Câmara Municipal impuser emendas aos aspectos mais controversos do texto, ou se a Prefeitura se antecipar introduzindo modificações ao redigi-lo, esse destino poderá ser menos negativo do que avaliam, hoje, numerosos urbanistas e especialistas do mercado imobiliário. O texto final da proposta de Plano Diretor elaborada pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Sempla) ainda não havia sido divulgado quando do fechamento desta urbs (no início de março) e uma gama de dúvidas, temores e insatisfação sobre tópicos cruciais persistia sem que a Sempla desse sinais de que poderia abrir mão de alguns princípios.
Não há exagero na expressão selagem de destino. Uma vez transformado em lei, o Plano Diretor peça legal que estabelece diretrizes e normas para orientar a ocupação e a gestão da cidade por um prazo determinado deve ser obedecido por quem ocupe o Executivo municipal. Ele dispõe do poder impositivo da lei e ganha extraordinário reforço com o Estatuto da Cidade. "Cabe ao administrador público fazer cumprir as determinações do plano, sob pena de ser questionado", explica Urbano Ruiz, da Associação Juízes para a Democracia. "Qualquer entidade civil pode contratar advogado e promover uma ação pública contra o administrador omisso. As penas vão de multas diárias à perda do cargo e à inelegibilidade por oito anos." Para que não cause prejuízos irreparáveis à cidade, o plano precisa ser discutido exaustivamente com um máximo de organismos representativos da sociedade, entidades profissionais e técnicas, ONGs e partidos politicos. A proposta básica, sobre a qual se dá a discussão, deve ser flexível para acolher modificações extraídas dos debates, buscando-se o mais amplo consenso sem prejuízo do rigor técnico.
A Sempla tem cumprido um calendário de apresentações e debates públicos. No final de fevereiro, o site da Secretaria (www.prefeitura.sp.gov.br) informava que 29 reuniões haviam sido realizadas entre outubro e dezembro, com a participação de cerca de 521 entidades comunitárias, associativas e de classe. No período, foram registradas 339 solicitações de esclarecimento, inclusões ou modificações da proposta original. Dessas, 15 estavam em estudos, três já haviam sido incorporadas à proposta e dez aproveitadas para reforçar pontos já existentes. A intenção da Sempla, de acordo com o site, é, ainda neste semestre, após um grande encontro denominado Assembléia da Cidade, encaminhar o projeto de lei à Câmara Municipal.
A proposta da Sempla está longe de uma aceitação unânime. As principais controvérsias têm surgido no meio acadêmico e, particularmente, nas entidades representativas do ramo imobiliário, as quais contestam o principio pelo qual o futuro Plano Diretor pretende não só modelar a cidade como dotá-la de fontes de financiamento. Trata-se das novas regras para uso e ocupação do solo. A proposta da Sempla estabelece um coeficiente básico igual a 1 (uma vez a área do terreno) para a cidade, com exceção das zonas de preservação ambiental. A edificação além desse limite será possível, excetuando-se as zonas estritamente residenciais, até um limite de 2,5 (duas vezes e meia a área do terreno) através do mecanismo de outorga onerosa ou pagamento de contrapartida. Quem quiser construir acima desse limite, até um máximo de 4 ( quatro vezes a área do terreno), terá que se acomodar numa das 13 operações urbanas previstas para funcionar até 2010, incluindo-se as três hoje existentes (Centro, Água Branca e Faria Lima). A legislação em vigor, do início dos anos 70, permite até quatro vezes em cerca de 10% da área urbana, saltando para seis ou mais vezes nas operações urbanas. Assim, pelas novas regras, a cidade deverá sofrer um evidente processo de desconcentração, com a obrigatoriedade de construir menos em cada terreno, sejam os edificios comerciais ou residenciais. Sem embargo, o objetivo declarado é que, ao mesmo tempo que assegure melhores indicadores de distribuição populacional por toda a mancha urbana "manter a atual densidade mediante a sua melhor distribuição", em palavras do secretário Jorge Wilheim , a "desverticalização planejada" ajude a financiar os investimentos públicos. A outorga onerosa é um mecanismo bastante utilizado em diversas metrópoles do mundo. Mas, associada à desverticalização (com uma correspondente desconcentração) compulsória, como se propõe em São Paulo, terá como resultado o encarecimento do solo urbano e do custo final dos imóveis. O efeito da redução drástica do potencial construtivo dos terrenos em toda a cidade, inclusive nas áreas de operações urbanas, somado à pouca disponibilidade de terrenos de proporções adequadas ou suscetíveis de remembramento, será a radicalização da escassez tanto de espaço horizontal contíguo como de espaço vertical, ou solo criado e o brutal encarecimento do solo urbano, por uma lógica de mercado. O baixo potencial construtivo, associado à escassez e ao alto custo dos terrenos, reduzirá os ganhos de escala.
"Não vai ser fácil construir na cidade", admite Eduardo Zaidan, vice-presidente da área de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo(Sinduscon-SP). Para ele, existem cada vez menos terrenos para construir e, se as propostas da Sempla forem aprovadas e transformadas em lei, eles se tomarão ainda mais caros. "E o construtor deverá agregar o custo da contrapartida para construir além do índice 1 ao valor do imóvel, encarecendo-o ainda mais." Para o presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), Romeu Chap Chap, o investimento imobiliário será desencorajado e ficará ainda mais restrito o acesso à habitação. Impossibilitados de materializar o lucro imobiliário em patamar satisfatório, muitos empreendores deixarão de investir na cidade, acredita o dirigente. "O capital imobiliário vai aonde tem retorno e segurança garantidos, e isso a proposta de Plano Diretor não oferece", reforça Eduardo Zaidan.
Para o secretário Wilheim, a visão é equivocada. "São Paulo não é uma ilha com dimensões finitas próximas de se esgotarem. O mercado está excessivamente concentrado em ilhas de demanda para consumidores de alta renda", afirma. " Veja-se a súbita explosão de bairros antes considerados fora de mercado, como a Penha, o Tatuapé e a Casa Verde. Há muitas oportunidades para empreendedores. As futuras operações urbanas, bastante distribuídas no território do município e com suas melhorias infra-estruturais e de transporte, certamente abrirão novas perspectivas de negócios imobiliários diferenciados. Não temo que os investidores fujam." No entanto, para que as operações urbanas sejam de fato atraentes, seria necessário definir novas planilhas de rentabilidade, com outra relação entre investimento e retorno, pois nelas o índice máximo de 4 e a escassez de terrenos de razoáveis dimensões ou contíguos limitam a escala do empreendimento a níveis inferiores aos permitidos pela atual legislação. Grandes hotéis com mais de 400 apartamentos, que começam a despontar na cidade, só seriam possíveis, mesmo no perímetro das operações urbanas, se dispusessem de terrenos suficientemente grandes para acolher tais edificios terrenos que, por certo, seriam muito caros e dificeis de encontrar dentro ou fora de qualquer área de operação urbana.
O problema não é muito diferente quando se trata de edificios comerciais "inteligentes", dotados de tecnologia de última geração. Havendo lotes disponíveis, tais edificios podem ser horizontais sem perda técnica significativa e com custo de construção equivalente ao de um arranha-céu, afirma Paul Weeks, diretor da empresa de consultoria internacional Cushman & Wakefield Semco, especializada em imóveis de alto padrão. "O que se gasta ao ocupar uma área maior de terreno se compensa na economia com fundações e subsolos, não tão profundos, e na rede de elevadores, não tão verticais." No entanto, Weeks avalia que a construção de edificios inteligentes de médio ou grande porte se tornará inviável nas regiões mais centrais, a começar pelo Centro, devido à pequena oferta de terrenos, à exígua dimensão dos que existem e à ausência de contigüidade entre eles. E são justamente esses edificios, afirma o especialista, que deflagram processos de recuperação urbana.
A propósito: Wilheim, que num primeiro momento chegou a acreditar que a redução do potencial construtivo baratearia o preço da terra urbana (Jornal da Tarde, 12/11/2001), embora indagado a respeito, não comentou mais profundamente o assunto na entrevista que concedeu a urbs, por e-mail, em meados de janeiro (ver o box).
Efeitos perversos
Imagine-se o seguinte cenário. Mesmo diminuindo seu ritmo de investimentos, a indústria imobiliária continuará a construir. Mas a escassez de solo, inclusive de solo criado ou aéreo, resultará no incremento do valor fundiário e imobiliário não só nas áreas de novas construções e nas já edificadas, mas também em regiões vizinhas que possam receber empreendimentos tão logo aquelas se esgotem ou se tornem desinteressantes. Serão, na maioria dos casos, bairros consolidados de pequenos sobrados e residências unifamiliares suscetíveis de demolição. Não é dificil antever que a pressão imobiliária empurrará para as bordas da cidade periferias e áreas de proteção ambiental e para os confins da região metropolitana os segmentos de menor renda, e induzirá ao subparcelamento do lote e à ocupação coletiva dos imóveis nessas áreas, processo que já vem ocorrendo com intensidade há três décadas. "O Plano Diretor que está sendo proposto vai agravar esse movimento centrífugo", afirma Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores. "Apesar de conter algumas propostas positivas, como a de financiar melhoramentos públicos com os recursos das contrapartidas, numa redistribuição social de parte dos lucros imobiliários, o plano que a Prefeitura propõe terá o efeito de expandir ainda mais a mancha urbana metropolitana e de expulsar moradores para as periferias, estas, sim, em franco processo de adensamento".
Para o consultor, caso vingue a proposta da Sempla, haverá um período de transição em que serão aprovados muitos projetos, com uma conseqüente superoferta de imóveis e queda de preços, mas estes subirão fortemente em seguida. "Trata-se o urbanismo como se fosse uma ciência exata, e ele é uma ciência humana. Por isso, apesar das boas intenções, as coisas têm dado errado com tanta insistência."
Em diversas cidades do mundo a redução dos índices de ocupação do solo e a vigência de leis que limitam a altura dos prédios são compensadas pela verticalização acentuada em zonas especiais, de operação urbana pelo simples motivo de que a economia contemporânea exige edificios de grande porte e, muitas vezes, altura. Essa é a razão por que até metrópoles de tamanho médio, como Frankfurt e Cingapura, não os dispensam. Queira-se ou não por razões de ordem prática e/ou simbólica , eles são inseparáveis do capitalismo em seu estágio global, como acomodação para os negócios e as empresas ou como produção de espaço para multiplicação do capital. Na proposta do Plano Diretor de São Paulo, não há uma só operação urbana nova que contemple essa demanda por imóveis singulares, fora dos padrões e das tipologias correntes. Apenas a Operação Urbana Centro viabiliza o atendimento a esse tipo de demanda.
As operações urbanas são mecanismos modernos e amplamente utilizados, mundo afora, para a articulação negociada de interesses da sociedade, do poder público e da iniciativa privada através do projeto urbanístico em um território delimitado. A qualidade ambiental, funcional e estética do projeto não é determinada por índices restritivos de ocupação do solo e de altura das construções, mas pela qualidade técnica do projeto, que permite a materialização do consenso entre os atores envolvidos. Nesse consenso são computadas as demandas por habitação, trabalho e qualidade de vida associadas aos objetivos do investimento privado. Se este se relaciona às necessidades da economia contemporânea por escritórios, sedes corporativas, hotéis e complexos de serviços, lugares de realização dessa economia, os edificios deverão adequar-se às suas exigências, ou o investimento e a própria economia serão feitos em outra parte. Limitar a priori o tamanho dos imóveis, atrelando-o às dimensões de terrenos hoje já escassos e caros, equivale a impedir a produção. "É um erro", diz a urbanista Nadia Somekh, da Universidade Mackenzie, uma estudiosa da verticalização em São Paulo. "A operação urbana permite verticalizar com o critério da qualidade urbana. A exigência de uma boa relação dos edificios com as áreas livres é um exemplo disso." O pagamento de contrapartida, para a urbanista, deve financiar a qualidade urbana do entorno, tratando-se de um instrumento de distribuição social de parte dos frutos do investimento privado. Ele acaba beneficiando também o investidor. Por isso, não há resistência deste ao pagamento de contrapartida. Se possibilitar um bom aproveitamento do espaço aéreo, a outorga onerosa não vai onerar o preço final dos imóveis. O que encarece o produto imobiliário é o preço do solo, regulado pela escassez de área disponível e de potencial construtivo.
Mobilidade
A proposta da Sempla dá como certo que, até 2010, a cidade contará com pelo menos 100 km de linhas de metrô, a ser construídas pelo governo do Estado com o apoio da Prefeitura, mediante parcerias específicas (por exemplo, operações urbanas de pequeno porte no entorno das principais estações, cujos recursos ajudariam a financiar as obras). No entanto, mesmo prevendo a entrega de duas linhas (a 4 e a 5) nos próximos anos, o Plano Integrado de Transporte Urbano (Pitu), do governo estadual, pode estar sujeito a crises que interrompam o fluxo de financiamentos internacionais, à redução da capacidade de investimento do Estado, a mudanças no governo e a dificuldades de ordem técnica ou jurídica que possam alterar seu cronograma. Em outras palavras, nada autoriza uma certeza absoluta sobre a situação da rede metroviária em 2010.
Mesmo que, com a ajuda de ramais ferroviários modernizados, se chegue a uma rede básica de 100 km, ela não cobrirá toda a cidade. Entre os troncos, cuja capacidade de transporte autorizaria um índice bem maior de ocupação, haverá extensas áreas dependentes do transporte individual ou coletivo de baixa capacidade. As duas situações, no entanto, receberão um mesmo tratamento do Plano Diretor: Z-l com ou sem possibilidade de construir até o coeficiente 2,5 e zonas de operação urbana com índice máximo de 4. "O Plano Diretor não trata de forma diferenciada as áreas pouco adensadas, liberando-as para a construção civil, e as áreas sobrecarregadas, limitando sua ocupação e uso", comenta o vice-presidente da área de meio ambiente do Sinduscon-SP, Francisco Vasconcellos. "É estranho que a Prefeitura admita valores diferenciados para o IPTU e não aplique o mesmo critério à ocupação das áreas urbanas". Ou seja, as áreas dotadas de transporte público de grande capacidade, como o metrô, deveriam ser adensadas, valendo-se inclusive da verticalização, e as áreas menos equipadas preservar uma densidade compatível com a sua infra-estrutura instalada.
Haveria algum sentido no tratamento uniforme se as áreas ao longo das linhas metroviárias estivessem plenamente ocupadas e adensadas, como se previa no projeto da rede básica, nos anos 60. O adensamento verticalizado não se verificou. Houve um surto de edificios residenciais em pontos relativamente distantes das estações, não em seu entorno imediato. Ademais, "o metrô não adensa necessariamente em número de moradores, já que os apartamentos próximos a ele são caros para o poder aquisitivo das massas. Hoje a população de baixa renda não tem acesso sequer às unidades do Projeto Cingapura e é continuamente expulsa para a periferia", diz a coordenadora da Comissão de Circulação e Urbanismo da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Valeska Peres Pinto. Antes de conter o crescimento vertical em toda a cidade será preciso povoar largos trechos ao longo das linhas de metrô, se for o caso com edificios em que a escala, ou outro critério de produtividade, possa baratear o preço de venda ou locação. Ou mesmo "sistemas mais amigáveis de densidade, com blocos pequenos", como prefere Valeska. De qualquer forma, um tratamento diferente daquele que se aplicaria a áreas já bastante densas, como as periferias, com seus lotes subdivididos e crescente encortiçamento sem verticalização nem metrô.
E o Centro ?
A proposta de Plano Diretor considera o Centro como área de operação urbana, incorporando-o às 13 previstas até 2010. Wilheim promete que a lei 12.349/97, da Operação Urbana Centro, não deverá ser modificada para ajustar-se ao índice máximo de 4 (hoje não há um limite predeterminado, dependendo este da análise caso a caso dos projetos pelas comissões técnica e executiva da Operação ). Sabe-se ainda, pelas declarações do secretário Wilheim à imprensa e pelo que tem dito nas discussões públicas, que o mecanismo de transferência do potencial construtivo de imóveis tombados ou de interesse de preservação será amplamente utilizado. Solicitado por urbs a manifestar-se sobre o destino da Operação Urbana Centro, Wilheim assim respondeu, por escrito: "A lei da Operação Urbana Centro, como as das duas outras operações vigentes (Água Branca e Faria Lima), não será alterada pela lei do Plano Diretor. Permanecerão os mesmos atuais parâmetros. Estes poderão, contudo, ser alterados no futuro se a lei específica vier a ser melhorada. De qualquer modo, creio que os diversos projetos incluídos no Reconstruir o Centro, programa da Prefeitura, através da AR-Sé, para o Centro, trarão mais alterações e melhorias ao Centro do que a própria Operação."
Resultado de um substitutivo de consenso entre os vereadores, aprovada por unanimidade na Câmara Municipal após três anos de muita insistência e discussões, contando com o apoio da maioria das principais instituições da sociedade civil lideradas pela Associação VIVA O CENTRO e contemplando não só a preservação do patrimônio histórico e o uso residencial mas as demandas atuais e futuras de desenvolvimento econômico e social da área, a Operação Urbana Centro só não deu, até agora, melhores resultados porque a Prefeitura não tornou a região mais limpa, ordenada e atraente via práticas de gestão cotidiana disciplinamento do comércio informal, varrição e coleta de lixo, manutenção das vias públicas e áreas verdes, limpeza e recuperação dos monumentos , não porque seja ineficiente. Situações de indefinição como a atual, quando não se traça claramente o futuro do instrumento nem se garante o respeito às regras, colaboram para o seu descrédito sem que nada de igual ou melhor se ponha em seu lugar. O Reconstruir o Centro é um programa de melhoria do espaço público e de incentivo a novos usos, principalmente o residencial, que para sua implementação, através de projetos e ações, depende de uma ferramenta justamente a pouco valorizada Operação Urbana Centro.
Com um estoque reduzido de terrenos, o Centro tem no solo criado o seu espaço vital. E devido a sua vocação para abrigar complexos de serviços avançados, inclusive dos que fornecem os insumos para a elaboração de produtos de alto valor agregado em atividades de finanças, publicidade, informática, direito especializado, relações públicas, contabilidade, auditoria, consultorias, comunicação e geração de imagens, processamento de dados, telemarketing etc., funcionando simultaneamente e sob parâmetros de máxima produtividade, configurando o que a socióloga e pensadora norte-americana Saskia Sassen chama de economias de aglomeração típicas de modernos centros metropolitanos , o Centro necessita de edificios de última geração, às vezes de maior porte (o que, no caso, significa de maior altura), para aglomerar esses fornecedores de insumos e facilitar sinergias por efeito da contigüidade. E o Centro de uma metrópole complexa e produtiva de perfil global não poderá manter-se apenas por seu valor evocativo e simbólico, principalmente como é o caso de São Paulo se não possui um conjunto histórico-arquitetônico preservado, integrado às funções modernas e de grande expressão cultural.
Tampouco é possível imaginar que, apenas com a reabilitação de imóveis obsoletos, se poderá suprir as demandas por espaços construidos de alta qualidade. A dificuldade técnica e o alto custo financeiro do retrofit da maioria dos edificios antigos do Centro, para tal padrão, é fato inquestionável. Além disso, sem a Operação Urbana Centro, grandes hotéis com 300 ou 400 apartamentos nunca mais poderiam ser erguidos na área, o que prejudicaria qualquer projeto de estímulo ao turismo, inclusive o de negócios. Tem-se a impressão de que, no mínimo por sua ambigüidade e indefinição, a proposta de Plano Diretor sequer considera os fundamentos econômicos do Centro metropolitano de São Paulo e de sua indispensável requalificação. E não só do Centro. Quem lê os textos disponibilizados até agora pela Sempla neles enxerga o desejo de uma cidade humana, equilibrada e favorável ao desenvolvimento social mas as medidas propostas vão na contramão desses desejos e funcionarão como um freio ao impulso econômico real que faz de São Paulo uma experiência urbana única e cuja energia é preciso aproveitar, não conter ou banir. Esta é a verdade. (Com reportagem de Federico Mengozzi)
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A explicação do secretário
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Entrevistado por urbs em meados de janeiro, o secretário Jorge Wilheim procurou esclarecer, por e-mail, alguns pontos controvertidos da sua proposta de Plano Diretor. Algumas respostas encontram-se no corpo desta reportagem. Outras:
Redução do potencial construtivo
"A limitação do direito (potencial) construtivo não é drástica... Permitir-se-á construir uma área computável de 2,5 e 4 vezes a área do terreno. Revogada a permissão, hoje legalizada pela chamada Lei de Adiron, de dobrar o potencial outorgado pela Lei de Zoneamento, se obterá uma área construída não longe da atualmente praticada. Há um estoque suficiente de áreas potencialmente disponíveis: se todos os imóveis hoje em Z-2 fossem ser edificados de acordo com o permitido pela atual lei, a cidade cresceria 1,7 vezes, abrigando uma população de 17 milhões no município. Embora este cálculo seja teórico, pois não há demanda para tal crescimento, deve-se ponderar que a estrutura viária existente não comportaria de forma alguma tal adensamento."
Rentabilidade
" A rentabilidade de um empreendimento não depende fatalmente do aumento de sua escala e, sim, da relação entre investimento e rentabilidade em determinado tempo; pequenos empreendimentos podem ser altamente rentáveis e são realizados em tempo menor, reproduzindo mais rapidamente o capital; algumas alterações no Plano Diretor são previstas com a finalidade de aumentar a possibilidade de pequenas empresas construtoras (e pequenos empreendimentos) serem mais frequentes."
Densidade melhor distribuída
"O Plano Diretor não idealiza uma cidade de baixa densidade e, sim, manter a atual densidade, porém mediante uma melhor distribuição. Grande concentração de imóveis, notadamente os de escritórios, exigiria uma considerável ampliação de infra-estrutura, especialmente a viária, nem sempre possível (...) O ideal defendido pelo PD é de uma São Paulo mais justa, com equipamentos e infra-estrutura melhor distribuídos; uma vasta zona de usos mistos, convivendo de forma controlada e civilizada, fazendo com que cada família possa contar , nas proximidades de sua moradia, com os complementos necessários à sua vida cotidiana: escola, abastecimento, lazer, local de trabalho, e de ter que circular menos."
Alterações na proposta
"Os debates do plano, em seu primeiro ciclo, encerrado em fins de dezembro, propiciaram diversos aperfeiçoamentos da proposta original. O segundo ciclo, em janeiro e fevereiro, culminando na realização de uma Assembléia da Cidade, continuará produzindo melhorias no texto do projeto de lei, o qual estará disponível na Internet em fins de janeiro. Objetiva-se construir consensos, embora saibamos que, como dizia Rousseau, "o interesse público não é o mesmo que o interesse de todos". (...) Até agora, o debate não nos comprovou ou convenceu de que o coeficiente (de aproveitamento dos terrenos) em si deva ser maior do que o proposto. O debate, porém, não se encerrou e os procedimentos adotados continuam transparentes e abertos para a sociedade."
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Além das questões que foram mencionadas na presente reportagem, os responsáveis pela proposta de Plano Diretor precisam esclarecer solidamente algumas dúvidas na verdade, variações sobre o problema do uso e ocupação do solo antes de lançar-se à elaboração do projeto de lei.
São Paulo é vertical?
A versão condensada da proposta de Plano Diretor, no site da Sempla, diz textualmente que uma das características negativas da cidade é o "alto grau de verticalização". Mas de que tipo? São Paulo vem sendo desverticalizada há décadas por leis que reduzem cada vez mais o potencial construtivo do solo. Em vez da metrópole vertical, o que se vê hoje da janela de um avião, por exemplo é uma profusão esmagadora de arranha-céus de porte reduzido ou médio, entre 10 e 20 andares, abarrotando centenas de quarteirões e irrompendo nos bairros mais distantes. Não há, como em outras metrópoles, um ou mais distritos de máxima verticalização contrastando com bairros de tipologias arquitetônicas mais ou menos homogêneas e de baixa altura. São Paulo não tem edificios verdadeiramente altos, segundo padrões internacionais. É uma paisagem achatada, de verticalização tolhida.
É densa ?
Apenas em alguns bairros consolidados (como a Bela Vista) e, principalmente, em vastos setores da periferia, onde um explosivo crescimento demográfico ocorre com o subparcelamento dos lotes, a autoconstrução e o encortiçamento. O partido assumido pela proposta do Plano Diretor parece ser a de que prédios pequenos são iguais a densidade boa, esquecendo-se de que, ao mesmo tempo que se verticaliza com baixa densidade em regiões perfeitamente equipadas, mais de um terço da população paulistana vive em condições de máximo adensamento sem infra-estrutura básica, ensaiando uma tosca verticalização acrescentando sucessivos pisos às lajes da autoconstrução. Aliás, a relação verticalidade/adensamento parece não ter sido seriamente avaliada pelos autores da proposta. Um quarteirão pode conter muitos edificios de pequeno ou médio porte, como acontece nos bairros de classe-média de São Paulo, e apresentar mais densidade construtiva e demográfica que uma área de torres altas cercadas por amplos espaços livres.
Nova economia do Centro
Nos últimos anos o Centro vem recebendo empresas usuárias de tecnologias da informação, graças a uma densa rede de fibras óticas, ao acesso por transporte público de qualidade e aos serviços que oferece. Muitas dessas empresas necessitam de edifícios modernos, com garagem subterrânea, pisos elevados, cabeamento ótico, ar condicionado central e controles eletrônicos. Tais equipamentos raramente podem ser instalados em imóveis antigos, por razões técnicas e econômicas. Edificios técnica e comercialmente viáveis só têm condições de ser erguidos, nos pequenos e escassos terrenos do Centro, se estes dispuserem de elevado potencial construtivo, permitindo estruturas de muitos andares.
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