ANO V   -   No. 25   -   março / abril 2002
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Maior presença do Centro no Plano Diretor
Capa  Os (des)caminhos do Plano Diretor
Ovo de Colombo  Um belo trabalho que deveria prosseguir
Reportagem  Mais estudantes no Centro
Conselhos Tutelares em Perigo
Viva a República viva
Urbanismo  Os planos diretores e a habitação social nas áreas centrais
Entrevista  O homem que reinventou a Pinacoteca com o artista plástico baiano Emanuel Araújo.
Em Tempo  Novos serviços descobrem o Centro
Segurança recebe reforço de homens e viaturas
Centro ganha sala de arte da BM&F
Holiday Inn assume o novo Jaraguá
Arquitetura e urbanismo no Centro
Ventura, a mais nova livraria
Os 80 anos do Modernismo, em alto estilo
Cultura  Quarteirão das artes
Em busca de sinergia
Mix  Convidados muito especiais
De volta ao passado
Sagração das artes plásticas
Testemunhos da vida privada
Saga e obra dos imigrantes japoneses
Nos subterrâneos da história
Livros  Pensando a segurança
História maiúscula
Bairros à mão
Painel  Governo japonês faz doação a projeto social
Para agilizar as reivindicações ao poder público
Um guia para recuperar calçadas
VIVA O CENTRO aposta na reciclagem
Ranking do cidadão de carteirinha
Mesa  Por que com K? por João Podanovski
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  Cartas  
urbs nΊ 24

Parabéns pelas matérias da última edição da revista, principalmente a de morar no Centro. Essa matéria soube abordar bem os problemas e as soluções para essa questão que é uma das mais problemáticas para o Centro.
Everton Calício
por e-mail

Gostei da entrevista com a professora e vereadora Aldaíza Sposati. Senti um certo alívio. Parece-me que o velho ranço populista em relação aos camelôs, tão típico de uma certa esquerda em nosso país, vai sendo substituído por uma visão que atribui a esses vendedores informais uma atitude mais cidadã e responsável com a sua cidade. De fato, algumas lideranças de camelôs já pensam assim, que o camelô é um agente econômico e deve estabelecer-se em edifícios próprios, liberando a via pública. Em suma, tratando-os com dignidade e não como párias do ‘neoliberalismo". Espero que Aldaíza continue avançando para uma esquerda moderna, muito longe de um paternalismo demagógico e humilhante para os camelôs que já andou dominando o PT.
Carlos Alberto Pacheco do Rego
por e-mail


Descaso
Sou portador de deficiência física e por diversas vezes não pude estacionar meu carro nas vagas reservadas para pessoas nessas condições. Taxistas ocupam as vagas da Rua Sete de Abril, entre as ruas Bráulio Gomes e Xavier de Toledo. A vaga existente na Rua do Arouche, em frente à entrada da estação do metrô, está geralmente ocupada por uma barraca ou carrinho de camelô. E as duas da Rua Conselheiro Crispiniano, em frente ao Restaurante Pelicano e próximo ao Cine Marrocos, são usadas por veículos comuns, que ficam lá horas sem que os donos sejam molestados. A última vez em que tive meus direitos desrespeitados nesse local tive que chamar um policial militar para que, pelo menos, multasse os veículos. Acho absurda a negligência da fiscalização (da Prefeitura? Do Estado?). O Centro da cidade é uma terra-de-ninguém.
Alcione Caxambu
por e-mail


Fiquei feliz em saber que a Praça do Patriarca será saneada, com retirada de ônibus, táxis etc. Realmente, a praça é muito pequena para tudo isso, e atravessá-la sempre foi sufocante, surtout no verão, dada a descarga dos veículos. Outrossim, trabalhando na Praça da Sé, passando diversas vezes por dia na Praça João Mendes, fundos da Catedral, nem sei como dizer de tantas dificuldades em tão pequeno trajeto: 1) O sinal de pedestres, à esquerda da Catedral, em frente à Igreja de São Gonçalo, está quebrado há meses. Ninguém está nem aí! 2) Nem se fala do mosaico português, nem das lajes graníticas, soltos, afundados, quebrados. Torçam-se pés, quebrem-se unhas. Ouvi dizer que não se pode tocar nas lajes, tombadas pelo Condephaat, e têm que ser originais. Curioso! Tantos remendos de cimento, toscos — serão originais? Que o Condephaat tomba, mas pouco cuida, todos sabem. 3) Marreteiros: tenho um amigo que define sarcasticamente bem — saúvas, tiriricas e marreteiros — ninguém acaba! É! Já esburacado o calçamento, já tapumes reduzindo o leito de pedestres, ainda os camelôs ocupam 7% da área... Ao que eu saiba, via, do latim, é passagem de trânsito comum. Não sei se nossos administradores também sabem. Quem toma para seu uso 1 metro quadrado que seja, usurpa o direito comum. Vamos lá, senhor Regional, estamos na Praça João Mendes, centro da maior cidade do hemisfério sul. E a esquina da Quintino com a Praça, então — só de placas de propaganda...
Maurício José Rios
São Paulo-SP


E o pedestre?
Parece que as calçadas das imediações do Terminal Barra Funda foram confiscadas do pedestre de uma vez por todas. Do lado norte está totalmente ocupoada por barracas e as pessoas caminham no leito da rua, entre os carros e ônibus.Na estação Santana do metrô a situação não é outra: as barracas chegam a formar filas duplas. A falta de qualquer providência deixa os cidadãos desanimados e descrentes, o que não é bom para ninguém — nem para a cidade, nem para a prefeita e o seu partido.
José L. Gomes
São Paulo-SP


Correção
As fotos das páginas 34, 35, 36, 37, 41 e 42 são de Jesus Carlos/Imagenlatina. As do Sumário (pág. 4) e a da página 12 são de Marcelo Santos.


  Panorama  
Maior presença do Centro no Plano Diretor

Marco Antonio Ramos de Almeida


O pouco que se conhece até o momento sobre o destino reservado ao Centro na proposta de Plano Diretor da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Sempla) não permite grandes expectativas de parte de um amplo segmento da sociedade que, há uma década, vem lutando para que a região assuma o seu papel nuclear na metrópole. O que se sabe, através principalmente do site da secretaria, é que está prevista a realização de operações urbanas em áreas centrais ao longo da orla ferroviária e que, no Centro propriamente dito, algumas medidas deverão ser implementadas no âmbito do plano Reconstruir o Centro, composto por diretrizes gerais em torno, basicamente, da qualidade do espaço público e do estímulo à habitação. É muito pouco. O Centro, como unidade administrativa, já foi diluído, ou descaracterizado, numa inadequada expansão da área de atuação do ProCentro, agora englobando dez distritos de características profundamente desiguais.

Tem-se a impressão (porque a proposta oficial efetivamente ainda não veio à luz e careceria de mais discussão e diálogo) de que o ponto de partida da Sempla é o equivocado pressuposto de que a expansão centrífuga da mancha urbana municipal e metropolitana, com o esvaziamento das áreas centrais e o espantoso adensamento das periferias, é sobretudo uma questão de oferta de moradias nos anéis centrais e intermediários da cidade. E que, incentivando-se a função residencial e melhorando-se os espaços públicos centrais, os investimentos — principalmente em moradias e na recuperação do patrimônio histórico associada a atividades de cultura, ensino e comércio — afluirão. O Centro não é enxergado como um ente histórico e urbano vocacionado também como pólo estratégico da chamada nova economia, representada pelas numerosas empresas de prestação de serviços avançados que já vêm se instalando na área, atraídas por uma excelente infra-estrutura de telecomunicações e transporte público, e que a Sempla pouco considera em sua proposta.

A Sempla deve levar em conta as características fundiárias do Centro, onde os terrenos têm pequenas dimensões, e a imperiosa necessidade que a região terá, à medida em que se recupere, de receber edifícios de grande porte, dependentes de um mais intenso aproveitamento do terreno. Sem eles, dificilmente empresas de uma gama de atividades — web hostings, consultorias jurídicas e de finanças, call centers, escritórios de design e mar–keting, firmas de auditoria e contabilidade, prestadoras de personal services, hotéis de maior porte — escolherão o Centro para nele constituir complexos de serviços qualificados, típicos de centros metropolitanos multifuncionais e favorecidos por densa rede de infra-estrutura que, no caso do Centro paulistano, já se encontra instalada. E não só. Também no caso de universidades, centros de treinamento profissional e complexos de lazer, comércio e moradia o Centro necessita de coeficientes de aproveitamento do solo compatíveis com as suas características fundiárias.

É preciso, portanto, fortalecer e ativar cada vez mais a Operação Urbana Centro. E os veementes desmentidos do secretário Jorge Wilheim, de que se pretenderia impor a ela os mesmos limites propostos para as novas operações urbanas, devem ser tomados como uma garantia da sua manutenção nos moldes atuais.

Não há meio-termo. Ou o Centro dá pleno cumprimento à sua função estruturadora e diretriz também no campo da economia, dos serviços e atividades de ponta, da hotelaria, do ensino e do turismo — e para isso é indispensável que a Operação Urbana Centro seja prestigiada e promovida ao lado de intervenções específicas que melhorem as condições ambientais, sociais e funcionais da área, além de atrair moradores de vários segmentos sociais — ou desde logo se admita que a ele se reserva o destino de ser tão somente mais um bairro de moradia, comércio e serviços convencionais. O que seria bom se o Centro não fosse muito mais que isso.


  Capa  
Os (des)caminhos do Plano Diretor

A boa qualidade urbana e de vida que São Paulo poderia alcançar a partir de 2010 esbarra,
desde já, nas contradições de uma "desverticalização planejada" da cidade.

JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Quando (e se) aprovar o projeto de lei de seu novo Plano Diretor, este ano, São Paulo estará selando o próprio destino até 2010 – ou para sempre. Se, em vez de aprová-lo integralmente, a Câmara Municipal impuser emendas aos aspectos mais controversos do texto, ou se a Prefeitura se antecipar introduzindo modificações ao redigi-lo, esse destino poderá ser menos negativo do que avaliam, hoje, numerosos urbanistas e especialistas do mercado imobiliário. O texto final da proposta de Plano Diretor elaborada pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Sempla) ainda não havia sido divulgado quando do fechamento desta urbs (no início de março) e uma gama de dúvidas, temores e insatisfação sobre tópicos cruciais persistia sem que a Sempla desse sinais de que poderia abrir mão de alguns princípios.

Não há exagero na expressão selagem de destino. Uma vez transformado em lei, o Plano Diretor – peça legal que estabelece diretrizes e normas para orientar a ocupação e a gestão da cidade por um prazo determinado – deve ser obedecido por quem ocupe o Executivo municipal. Ele dispõe do poder impositivo da lei e ganha extraordinário reforço com o Estatuto da Cidade. "Cabe ao administrador público fazer cumprir as determinações do plano, sob pena de ser questionado", explica Urbano Ruiz, da Associação Juízes para a Democracia. "Qualquer entidade civil pode contratar advogado e promover uma ação pública contra o administrador omisso. As penas vão de multas diárias à perda do cargo e à inelegibilidade por oito anos." Para que não cause prejuízos irreparáveis à cidade, o plano precisa ser discutido exaustivamente com um máximo de organismos representativos da sociedade, entidades profissionais e técnicas, ONGs e partidos politicos. A proposta básica, sobre a qual se dá a discussão, deve ser flexível para acolher modificações extraídas dos debates, buscando-se o mais amplo consenso sem prejuízo do rigor técnico.

A Sempla tem cumprido um calendário de apresentações e debates públicos. No final de fevereiro, o site da Secretaria (www.prefeitura.sp.gov.br) informava que 29 reuniões haviam sido realizadas entre outubro e dezembro, com a participação de cerca de 521 entidades comunitárias, associativas e de classe. No período, foram registradas 339 solicitações de esclarecimento, inclusões ou modificações da proposta original. Dessas, 15 estavam em estudos, três já haviam sido incorporadas à proposta e dez aproveitadas para reforçar pontos já existentes. A intenção da Sempla, de acordo com o site, é, ainda neste semestre, após um grande encontro denominado Assembléia da Cidade, encaminhar o projeto de lei à Câmara Municipal.

A proposta da Sempla está longe de uma aceitação unânime. As principais controvérsias têm surgido no meio acadêmico e, particularmente, nas entidades representativas do ramo imobiliário, as quais contestam o principio pelo qual o futuro Plano Diretor pretende não só modelar a cidade como dotá-la de fontes de financiamento. Trata-se das novas regras para uso e ocupação do solo. A proposta da Sempla estabelece um coeficiente básico igual a 1 (uma vez a área do terreno) para a cidade, com exceção das zonas de preservação ambiental. A edificação além desse limite será possível, excetuando-se as zonas estritamente residenciais, até um limite de 2,5 (duas vezes e meia a área do terreno) através do mecanismo de outorga onerosa ou pagamento de contrapartida. Quem quiser construir acima desse limite, até um máximo de 4 ( quatro vezes a área do terreno), terá que se acomodar numa das 13 operações urbanas previstas para funcionar até 2010, incluindo-se as três hoje existentes (Centro, Água Branca e Faria Lima). A legislação em vigor, do início dos anos 70, permite até quatro vezes em cerca de 10% da área urbana, saltando para seis ou mais vezes nas operações urbanas. Assim, pelas novas regras, a cidade deverá sofrer um evidente processo de desconcentração, com a obrigatoriedade de construir menos em cada terreno, sejam os edificios comerciais ou residenciais. Sem embargo, o objetivo declarado é que, ao mesmo tempo que assegure melhores indicadores de distribuição populacional por toda a mancha urbana – "manter a atual densidade mediante a sua melhor distribuição", em palavras do secretário Jorge Wilheim –, a "desverticalização planejada" ajude a financiar os investimentos públicos. A outorga onerosa é um mecanismo bastante utilizado em diversas metrópoles do mundo. Mas, associada à desverticalização (com uma correspondente desconcentração) compulsória, como se propõe em São Paulo, terá como resultado o encarecimento do solo urbano e do custo final dos imóveis. O efeito da redução drástica do potencial construtivo dos terrenos em toda a cidade, inclusive nas áreas de operações urbanas, somado à pouca disponibilidade de terrenos de proporções adequadas ou suscetíveis de remembramento, será a radicalização da escassez –tanto de espaço horizontal contíguo como de espaço vertical, ou solo criado – e o brutal encarecimento do solo urbano, por uma lógica de mercado. O baixo potencial construtivo, associado à escassez e ao alto custo dos terrenos, reduzirá os ganhos de escala.

"Não vai ser fácil construir na cidade", admite Eduardo Zaidan, vice-presidente da área de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo(Sinduscon-SP). Para ele, existem cada vez menos terrenos para construir e, se as propostas da Sempla forem aprovadas e transformadas em lei, eles se tomarão ainda mais caros. "E o construtor deverá agregar o custo da contrapartida para construir além do índice 1 ao valor do imóvel, encarecendo-o ainda mais." Para o presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), Romeu Chap Chap, o investimento imobiliário será desencorajado e ficará ainda mais restrito o acesso à habitação. Impossibilitados de materializar o lucro imobiliário em patamar satisfatório, muitos empreendores deixarão de investir na cidade, acredita o dirigente. "O capital imobiliário vai aonde tem retorno e segurança garantidos, e isso a proposta de Plano Diretor não oferece", reforça Eduardo Zaidan.

Para o secretário Wilheim, a visão é equivocada. "São Paulo não é uma ilha com dimensões finitas próximas de se esgotarem. O mercado está excessivamente concentrado em ilhas de demanda para consumidores de alta renda", afirma. " Veja-se a súbita explosão de bairros antes considerados fora de mercado, como a Penha, o Tatuapé e a Casa Verde. Há muitas oportunidades para empreendedores. As futuras operações urbanas, bastante distribuídas no território do município e com suas melhorias infra-estruturais e de transporte, certamente abrirão novas perspectivas de negócios imobiliários diferenciados. Não temo que os investidores fujam." No entanto, para que as operações urbanas sejam de fato atraentes, seria necessário definir novas planilhas de rentabilidade, com outra relação entre investimento e retorno, pois nelas o índice máximo de 4 e a escassez de terrenos de razoáveis dimensões ou contíguos limitam a escala do empreendimento a níveis inferiores aos permitidos pela atual legislação. Grandes hotéis com mais de 400 apartamentos, que começam a despontar na cidade, só seriam possíveis, mesmo no perímetro das operações urbanas, se dispusessem de terrenos suficientemente grandes para acolher tais edificios – terrenos que, por certo, seriam muito caros e dificeis de encontrar dentro ou fora de qualquer área de operação urbana.

O problema não é muito diferente quando se trata de edificios comerciais "inteligentes", dotados de tecnologia de última geração. Havendo lotes disponíveis, tais edificios podem ser horizontais sem perda técnica significativa e com custo de construção equivalente ao de um arranha-céu, afirma Paul Weeks, diretor da empresa de consultoria internacional Cushman & Wakefield Semco, especializada em imóveis de alto padrão. "O que se gasta ao ocupar uma área maior de terreno se compensa na economia com fundações e subsolos, não tão profundos, e na rede de elevadores, não tão verticais." No entanto, Weeks avalia que a construção de edificios inteligentes de médio ou grande porte se tornará inviável nas regiões mais centrais, a começar pelo Centro, devido à pequena oferta de terrenos, à exígua dimensão dos que existem e à ausência de contigüidade entre eles. E são justamente esses edificios, afirma o especialista, que deflagram processos de recuperação urbana.

A propósito: Wilheim, que num primeiro momento chegou a acreditar que a redução do potencial construtivo baratearia o preço da terra urbana (Jornal da Tarde, 12/11/2001), embora indagado a respeito, não comentou mais profundamente o assunto na entrevista que concedeu a urbs, por e-mail, em meados de janeiro (ver o box).

Efeitos perversos

Imagine-se o seguinte cenário. Mesmo diminuindo seu ritmo de investimentos, a indústria imobiliária continuará a construir. Mas a escassez de solo, inclusive de solo criado ou aéreo, resultará no incremento do valor fundiário e imobiliário não só nas áreas de novas construções e nas já edificadas, mas também em regiões vizinhas que possam receber empreendimentos tão logo aquelas se esgotem ou se tornem desinteressantes. Serão, na maioria dos casos, bairros consolidados de pequenos sobrados e residências unifamiliares suscetíveis de demolição. Não é dificil antever que a pressão imobiliária empurrará para as bordas da cidade – periferias e áreas de proteção ambiental – e para os confins da região metropolitana os segmentos de menor renda, e induzirá ao subparcelamento do lote e à ocupação coletiva dos imóveis nessas áreas, processo que já vem ocorrendo com intensidade há três décadas. "O Plano Diretor que está sendo proposto vai agravar esse movimento centrífugo", afirma Luiz Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores. "Apesar de conter algumas propostas positivas, como a de financiar melhoramentos públicos com os recursos das contrapartidas, numa redistribuição social de parte dos lucros imobiliários, o plano que a Prefeitura propõe terá o efeito de expandir ainda mais a mancha urbana metropolitana e de expulsar moradores para as periferias, estas, sim, em franco processo de adensamento".

Para o consultor, caso vingue a proposta da Sempla, haverá um período de transição em que serão aprovados muitos projetos, com uma conseqüente superoferta de imóveis e queda de preços, mas estes subirão fortemente em seguida. "Trata-se o urbanismo como se fosse uma ciência exata, e ele é uma ciência humana. Por isso, apesar das boas intenções, as coisas têm dado errado com tanta insistência."

Em diversas cidades do mundo a redução dos índices de ocupação do solo e a vigência de leis que limitam a altura dos prédios são compensadas pela verticalização acentuada em zonas especiais, de operação urbana – pelo simples motivo de que a economia contemporânea exige edificios de grande porte e, muitas vezes, altura. Essa é a razão por que até metrópoles de tamanho médio, como Frankfurt e Cingapura, não os dispensam. Queira-se ou não –por razões de ordem prática e/ou simbólica –, eles são inseparáveis do capitalismo em seu estágio global, como acomodação para os negócios e as empresas ou como produção de espaço para multiplicação do capital. Na proposta do Plano Diretor de São Paulo, não há uma só operação urbana nova que contemple essa demanda por imóveis singulares, fora dos padrões e das tipologias correntes. Apenas a Operação Urbana Centro viabiliza o atendimento a esse tipo de demanda.

As operações urbanas são mecanismos modernos e amplamente utilizados, mundo afora, para a articulação negociada de interesses da sociedade, do poder público e da iniciativa privada através do projeto urbanístico em um território delimitado. A qualidade ambiental, funcional e estética do projeto não é determinada por índices restritivos de ocupação do solo e de altura das construções, mas pela qualidade técnica do projeto, que permite a materialização do consenso entre os atores envolvidos. Nesse consenso são computadas as demandas por habitação, trabalho e qualidade de vida associadas aos objetivos do investimento privado. Se este se relaciona às necessidades da economia contemporânea por escritórios, sedes corporativas, hotéis e complexos de serviços, lugares de realização dessa economia, os edificios deverão adequar-se às suas exigências, ou o investimento – e a própria economia – serão feitos em outra parte. Limitar a priori o tamanho dos imóveis, atrelando-o às dimensões de terrenos hoje já escassos e caros, equivale a impedir a produção. "É um erro", diz a urbanista Nadia Somekh, da Universidade Mackenzie, uma estudiosa da verticalização em São Paulo. "A operação urbana permite verticalizar com o critério da qualidade urbana. A exigência de uma boa relação dos edificios com as áreas livres é um exemplo disso." O pagamento de contrapartida, para a urbanista, deve financiar a qualidade urbana do entorno, tratando-se de um instrumento de distribuição social de parte dos frutos do investimento privado. Ele acaba beneficiando também o investidor. Por isso, não há resistência deste ao pagamento de contrapartida. Se possibilitar um bom aproveitamento do espaço aéreo, a outorga onerosa não vai onerar o preço final dos imóveis. O que encarece o produto imobiliário é o preço do solo, regulado pela escassez de área disponível e de potencial construtivo.

Mobilidade

A proposta da Sempla dá como certo que, até 2010, a cidade contará com pelo menos 100 km de linhas de metrô, a ser construídas pelo governo do Estado com o apoio da Prefeitura, mediante parcerias específicas (por exemplo, operações urbanas de pequeno porte no entorno das principais estações, cujos recursos ajudariam a financiar as obras). No entanto, mesmo prevendo a entrega de duas linhas (a 4 e a 5) nos próximos anos, o Plano Integrado de Transporte Urbano (Pitu), do governo estadual, pode estar sujeito a crises que interrompam o fluxo de financiamentos internacionais, à redução da capacidade de investimento do Estado, a mudanças no governo e a dificuldades de ordem técnica ou jurídica que possam alterar seu cronograma. Em outras palavras, nada autoriza uma certeza absoluta sobre a situação da rede metroviária em 2010.

Mesmo que, com a ajuda de ramais ferroviários modernizados, se chegue a uma rede básica de 100 km, ela não cobrirá toda a cidade. Entre os troncos, cuja capacidade de transporte autorizaria um índice bem maior de ocupação, haverá extensas áreas dependentes do transporte individual ou coletivo de baixa capacidade. As duas situações, no entanto, receberão um mesmo tratamento do Plano Diretor: Z-l com ou sem possibilidade de construir até o coeficiente 2,5 e zonas de operação urbana com índice máximo de 4. "O Plano Diretor não trata de forma diferenciada as áreas pouco adensadas, liberando-as para a construção civil, e as áreas sobrecarregadas, limitando sua ocupação e uso", comenta o vice-presidente da área de meio ambiente do Sinduscon-SP, Francisco Vasconcellos. "É estranho que a Prefeitura admita valores diferenciados para o IPTU e não aplique o mesmo critério à ocupação das áreas urbanas". Ou seja, as áreas dotadas de transporte público de grande capacidade, como o metrô, deveriam ser adensadas, valendo-se inclusive da verticalização, e as áreas menos equipadas preservar uma densidade compatível com a sua infra-estrutura instalada.

Haveria algum sentido no tratamento uniforme se as áreas ao longo das linhas metroviárias estivessem plenamente ocupadas e adensadas, como se previa no projeto da rede básica, nos anos 60. O adensamento verticalizado não se verificou. Houve um surto de edificios residenciais em pontos relativamente distantes das estações, não em seu entorno imediato. Ademais, "o metrô não adensa necessariamente em número de moradores, já que os apartamentos próximos a ele são caros para o poder aquisitivo das massas. Hoje a população de baixa renda não tem acesso sequer às unidades do Projeto Cingapura e é continuamente expulsa para a periferia", diz a coordenadora da Comissão de Circulação e Urbanismo da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Valeska Peres Pinto. Antes de conter o crescimento vertical em toda a cidade será preciso povoar largos trechos ao longo das linhas de metrô, se for o caso com edificios em que a escala, ou outro critério de produtividade, possa baratear o preço de venda ou locação. Ou mesmo "sistemas mais amigáveis de densidade, com blocos pequenos", como prefere Valeska. De qualquer forma, um tratamento diferente daquele que se aplicaria a áreas já bastante densas, como as periferias, com seus lotes subdivididos e crescente encortiçamento – sem verticalização nem metrô.

E o Centro ?

A proposta de Plano Diretor considera o Centro como área de operação urbana, incorporando-o às 13 previstas até 2010. Wilheim promete que a lei 12.349/97, da Operação Urbana Centro, não deverá ser modificada para ajustar-se ao índice máximo de 4 (hoje não há um limite predeterminado, dependendo este da análise caso a caso dos projetos pelas comissões técnica e executiva da Operação ). Sabe-se ainda, pelas declarações do secretário Wilheim à imprensa e pelo que tem dito nas discussões públicas, que o mecanismo de transferência do potencial construtivo de imóveis tombados ou de interesse de preservação será amplamente utilizado. Solicitado por urbs a manifestar-se sobre o destino da Operação Urbana Centro, Wilheim assim respondeu, por escrito: "A lei da Operação Urbana Centro, como as das duas outras operações vigentes (Água Branca e Faria Lima), não será alterada pela lei do Plano Diretor. Permanecerão os mesmos atuais parâmetros. Estes poderão, contudo, ser alterados no futuro se a lei específica vier a ser melhorada. De qualquer modo, creio que os diversos projetos incluídos no Reconstruir o Centro, programa da Prefeitura, através da AR-Sé, para o Centro, trarão mais alterações e melhorias ao Centro do que a própria Operação."

Resultado de um substitutivo de consenso entre os vereadores, aprovada por unanimidade na Câmara Municipal após três anos de muita insistência e discussões, contando com o apoio da maioria das principais instituições da sociedade civil lideradas pela Associação VIVA O CENTRO e contemplando não só a preservação do patrimônio histórico e o uso residencial mas as demandas atuais e futuras de desenvolvimento econômico e social da área, a Operação Urbana Centro só não deu, até agora, melhores resultados porque a Prefeitura não tornou a região mais limpa, ordenada e atraente via práticas de gestão cotidiana – disciplinamento do comércio informal, varrição e coleta de lixo, manutenção das vias públicas e áreas verdes, limpeza e recuperação dos monumentos –, não porque seja ineficiente. Situações de indefinição como a atual, quando não se traça claramente o futuro do instrumento nem se garante o respeito às regras, colaboram para o seu descrédito sem que nada de igual ou melhor se ponha em seu lugar. O Reconstruir o Centro é um programa de melhoria do espaço público e de incentivo a novos usos, principalmente o residencial, que para sua implementação, através de projetos e ações, depende de uma ferramenta – justamente a pouco valorizada Operação Urbana Centro.

Com um estoque reduzido de terrenos, o Centro tem no solo criado o seu espaço vital. E – devido a sua vocação para abrigar complexos de serviços avançados, inclusive dos que fornecem os insumos para a elaboração de produtos de alto valor agregado em atividades de finanças, publicidade, informática, direito especializado, relações públicas, contabilidade, auditoria, consultorias, comunicação e geração de imagens, processamento de dados, telemarketing etc., funcionando simultaneamente e sob parâmetros de máxima produtividade, configurando o que a socióloga e pensadora norte-americana Saskia Sassen chama de economias de aglomeração típicas de modernos centros metropolitanos –, o Centro necessita de edificios de última geração, às vezes de maior porte (o que, no caso, significa de maior altura), para aglomerar esses fornecedores de insumos e facilitar sinergias por efeito da contigüidade. E o Centro de uma metrópole complexa e produtiva de perfil global não poderá manter-se apenas por seu valor evocativo e simbólico, principalmente – como é o caso de São Paulo – se não possui um conjunto histórico-arquitetônico preservado, integrado às funções modernas e de grande expressão cultural.

Tampouco é possível imaginar que, apenas com a reabilitação de imóveis obsoletos, se poderá suprir as demandas por espaços construidos de alta qualidade. A dificuldade técnica e o alto custo financeiro do retrofit da maioria dos edificios antigos do Centro, para tal padrão, é fato inquestionável. Além disso, sem a Operação Urbana Centro, grandes hotéis com 300 ou 400 apartamentos nunca mais poderiam ser erguidos na área, o que prejudicaria qualquer projeto de estímulo ao turismo, inclusive o de negócios. Tem-se a impressão de que, no mínimo por sua ambigüidade e indefinição, a proposta de Plano Diretor sequer considera os fundamentos econômicos do Centro metropolitano de São Paulo e de sua indispensável requalificação. E não só do Centro. Quem lê os textos disponibilizados até agora pela Sempla neles enxerga o desejo de uma cidade humana, equilibrada e favorável ao desenvolvimento social – mas as medidas propostas vão na contramão desses desejos e funcionarão como um freio ao impulso econômico real que faz de São Paulo uma experiência urbana única e cuja energia é preciso aproveitar, não conter ou banir. Esta é a verdade. (Com reportagem de Federico Mengozzi)

A explicação do secretário
Entrevistado por urbs em meados de janeiro, o secretário Jorge Wilheim procurou esclarecer, por e-mail, alguns pontos controvertidos da sua proposta de Plano Diretor. Algumas respostas encontram-se no corpo desta reportagem. Outras:

Redução do potencial construtivo

"A limitação do direito (potencial) construtivo não é drástica... Permitir-se-á construir uma área computável de 2,5 e 4 vezes a área do terreno. Revogada a permissão, hoje legalizada pela chamada Lei de Adiron, de dobrar o potencial outorgado pela Lei de Zoneamento, se obterá uma área construída não longe da atualmente praticada. Há um estoque suficiente de áreas potencialmente disponíveis: se todos os imóveis hoje em Z-2 fossem ser edificados de acordo com o permitido pela atual lei, a cidade cresceria 1,7 vezes, abrigando uma população de 17 milhões no município. Embora este cálculo seja teórico, pois não há demanda para tal crescimento, deve-se ponderar que a estrutura viária existente não comportaria de forma alguma tal adensamento."

Rentabilidade

" A rentabilidade de um empreendimento não depende fatalmente do aumento de sua escala e, sim, da relação entre investimento e rentabilidade em determinado tempo; pequenos empreendimentos podem ser altamente rentáveis e são realizados em tempo menor, reproduzindo mais rapidamente o capital; algumas alterações no Plano Diretor são previstas com a finalidade de aumentar a possibilidade de pequenas empresas construtoras (e pequenos empreendimentos) serem mais frequentes."

Densidade melhor distribuída

"O Plano Diretor não idealiza uma cidade de baixa densidade e, sim, manter a atual densidade, porém mediante uma melhor distribuição. Grande concentração de imóveis, notadamente os de escritórios, exigiria uma considerável ampliação de infra-estrutura, especialmente a viária, nem sempre possível (...) O ideal defendido pelo PD é de uma São Paulo mais justa, com equipamentos e infra-estrutura melhor distribuídos; uma vasta zona de usos mistos, convivendo de forma controlada e civilizada, fazendo com que cada família possa contar , nas proximidades de sua moradia, com os complementos necessários à sua vida cotidiana: escola, abastecimento, lazer, local de trabalho, e de ter que circular menos."

Alterações na proposta

"Os debates do plano, em seu primeiro ciclo, encerrado em fins de dezembro, propiciaram diversos aperfeiçoamentos da proposta original. O segundo ciclo, em janeiro e fevereiro, culminando na realização de uma Assembléia da Cidade, continuará produzindo melhorias no texto do projeto de lei, o qual estará disponível na Internet em fins de janeiro. Objetiva-se construir consensos, embora saibamos que, como dizia Rousseau, "o interesse público não é o mesmo que o interesse de todos". (...) Até agora, o debate não nos comprovou ou convenceu de que o coeficiente (de aproveitamento dos terrenos) em si deva ser maior do que o proposto. O debate, porém, não se encerrou e os procedimentos adotados continuam transparentes e abertos para a sociedade."

Questões abertas
Além das questões que foram mencionadas na presente reportagem, os responsáveis pela proposta de Plano Diretor precisam esclarecer solidamente algumas dúvidas –na verdade, variações sobre o problema do uso e ocupação do solo – antes de lançar-se à elaboração do projeto de lei.

São Paulo é vertical?

A versão condensada da proposta de Plano Diretor, no site da Sempla, diz textualmente que uma das características negativas da cidade é o "alto grau de verticalização". Mas de que tipo? São Paulo vem sendo desverticalizada há décadas por leis que reduzem cada vez mais o potencial construtivo do solo. Em vez da metrópole vertical, o que se vê hoje – da janela de um avião, por exemplo – é uma profusão esmagadora de arranha-céus de porte reduzido ou médio, entre 10 e 20 andares, abarrotando centenas de quarteirões e irrompendo nos bairros mais distantes. Não há, como em outras metrópoles, um ou mais distritos de máxima verticalização contrastando com bairros de tipologias arquitetônicas mais ou menos homogêneas e de baixa altura. São Paulo não tem edificios verdadeiramente altos, segundo padrões internacionais. É uma paisagem achatada, de verticalização tolhida.

É densa ?

Apenas em alguns bairros consolidados (como a Bela Vista) e, principalmente, em vastos setores da periferia, onde um explosivo crescimento demográfico ocorre com o subparcelamento dos lotes, a autoconstrução e o encortiçamento. O partido assumido pela proposta do Plano Diretor parece ser a de que prédios pequenos são iguais a densidade boa, esquecendo-se de que, ao mesmo tempo que se verticaliza com baixa densidade em regiões perfeitamente equipadas, mais de um terço da população paulistana vive em condições de máximo adensamento sem infra-estrutura básica, ensaiando uma tosca verticalização acrescentando sucessivos pisos às lajes da autoconstrução. Aliás, a relação verticalidade/adensamento parece não ter sido seriamente avaliada pelos autores da proposta. Um quarteirão pode conter muitos edificios de pequeno ou médio porte, como acontece nos bairros de classe-média de São Paulo, e apresentar mais densidade construtiva e demográfica que uma área de torres altas cercadas por amplos espaços livres.

Nova economia do Centro

Nos últimos anos o Centro vem recebendo empresas usuárias de tecnologias da informação, graças a uma densa rede de fibras óticas, ao acesso por transporte público de qualidade e aos serviços que oferece. Muitas dessas empresas necessitam de edifícios modernos, com garagem subterrânea, pisos elevados, cabeamento ótico, ar condicionado central e controles eletrônicos. Tais equipamentos raramente podem ser instalados em imóveis antigos, por razões técnicas e econômicas. Edificios técnica e comercialmente viáveis só têm condições de ser erguidos, nos pequenos e escassos terrenos do Centro, se estes dispuserem de elevado potencial construtivo, permitindo estruturas de muitos andares.



  Ovo de Colombo  
Um belo trabalho que deveria prosseguir


Postes históricos ao lado de grotescos postes de cimento. Aqueles, iluminando e ornamentando o ambiente urbano. Estes, sustentando os cabos de trólebus e atravancando a já maltratada paisagem de São Paulo, em especial a de seu Centro — a região símbolo da cidade. Uma experiência realizada há alguns anos poderia muito bem ser retomada. O Ilume contribuiu para a estética da cidade ao retirar os postes de cimento da Rua Líbero Badaró, transferindo o suporte da fiação dos trólebus para os postes ornamentais ou para a fachada de prédios. O resultado foi admirável. Que o digam os usuários, comerciantes e executivos que trabalham no logradouro.

O excelente trabalho do Ilume, no entanto, ficou apenas nessa rua. Como não implica grandes custos nem exige intervenções de alta complexidade técnica, ele poderia ser estendido a todas as ruas do Centro nas quais transitam ônibus elétricos, principalmente àquelas com elevado valor simbólico, como as avenidas São João, Ipiranga, São Luís e Rio Branco. O resultado estético, como no caso da Líbero, ajudaria a melhorar consideravelmente a imagem de São Paulo junto à população — reforçando a sua auto-estima — e aos milhões de turistas e visitantes que a cidade recebe anualmente.


  Reportagem  
Mais estudantes no Centro

O campus Vale do Anhangabaú da Universidade Anhembi Morumbi ocupa um dos
prédios do BankBoston e atrai um novo público à região

Federico Mengozzi
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Em 1987, uma antiga estação ferroviária situada às margens do rio Sena, abandonada por quase meio século, até ser recuperada sob o comando da arquiteta italiana Gae Aulenti, reabriu com novas funções. Era o Museu d’Orsay, o museu dos impressionistas, um dos mais vistosos cartões-postais parisienses, atraindo um público novo, e altamente qualificado, para uma região que andava meio jogada às moscas. Não é preciso ir a Paris para encontrar exemplos de que reciclar, inclusive para conservar preciosidades arquitetônicas, mais do que nunca é preciso. Aqui mesmo, em São Paulo, existem boas iniciativas nesse sentido, a começar do Sesc Fábrica da Pompéia, uma referência em arquitetura e reciclagem de prédios industriais. Antiga fábrica de geladeiras, as instalações foram repensadas pela arquiteta (também italiana) Lina Bo Bardi, transformando-se num dos mais dinâmicos centros de cultura e lazer da cidade. Recentemente, o imenso hall da Estação Júlio Prestes, no Centro, após muita vontade política e dois anos de obras, transformou-se no melhor espaço de música sinfônica da cidade, a Sala São Paulo.

Reciclar, para requalificar velhas estruturas, é preciso. Renovar o espectro de usuários, também. Há alguns anos, o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, atual secretário de Planejamento Urbano de São Paulo, recomendava medidas simples e baratas para reverter a degradação e recuperar a região central, como a instalação de banheiros públicos, o plantio de árvores no Parque D.Pedro, que já foi uma das maiores áreas ajardinadas do país, e a proibição de estacionamento no Pátio do Colégio. E medidas mais complexas, como a criação de uma universidade junto ao triângulo formado pelas ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro. Argumentava Wilheim que uma instituição de ensino promoveria a animação noturna da região. O Centro, principalmente à noite, deixaria de ser uma terra de ninguém. Não há portanto que estranhar o fato de um dos prédios ocupados pelo BankBoston no Centro, o de tom esverdeado à Rua Líbero Badaró, 487, e que se abre para o Vale do Anhangabaú, torne-se, a partir deste ano, uma escola: o campus Vale do Anhangabaú da Universidade Anhembi Morumbi. A decisão de instalar uma unidade no coração financeiro da cidade foi tomada após diversos contatos da Anhembi Morumbi com a Associação VIVA O CENTRO.

O campus é mais uma iniciativa no sentido de transformar uma realidade adversa, uma dessas alternativas viáveis que dão razão ao aforismo do poeta português Fernando Pessoa, segundo o qual tudo vale a pena se a alma não é pequena. Por que não uma unidade de ensino num estabelecimento bancário? Por que não uma faculdade (ou mais de uma) encravada no coração de São Paulo? Mais, por que não levar mais público estudantil para a região central, com seu poder de fazer com que as idéias entrem em processo de ebulição e, inevitavelmente, atraiam centros de discussão e encontro — isto é, livrarias, cafés e restaurantes? A nova unidade começa com o curso de Direito, o primeiro da Universidade Anhembi Morumbi. O reitor Gabriel Mário Rodrigues, que estudou Direito no Largo de São Francisco, descarta comparações. "Não vamos concorrer com os cursos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Longe disso. Mas procuraremos dar seqüência a uma tradição histórica do Centro de São Paulo."

Tradição

Afinal, é a região central que mais evoca a história da cidade e remete ao longínquo ano de 1828, quando os cursos de Direito foram iniciados no Brasil, atraindo estudantes e mestres de todo o país para a vila do planalto de Piratininga. A nova unidade é uma das formas que a Anhembi Morumbi encontrou para se estabelecer no Centro histórico paulistano e demonstrar que apóia as iniciativas do poder público e da sociedade civil no sentido de melhorar a área central. "É preciso continuar a reverter o processo", prega o reitor Rodrigues. Outra prova nesse sentido é a participação da instituição, em associação com a Prefeitura, no projeto Domingo no Minhocão, que consiste em promover, entre 10 e 16 horas, atividades culturais, esportivas e recreativas, além de oferecer uma vasta gama de serviços gratuitos à população, no Elevado Costa e Silva. Aos domingos, o elevado se transforma na maior rua de lazer da cidade. Prova ainda mais enfática foi a inauguração, em 1997, do campus Brás, em plena área central.

O reitor Gabriel Mário Rodrigues, de 69 anos, lembra-se de sua juventude, nos anos 50, inteiramente passada na região central. "Era maravilhoso. Tudo girava em torno do Centro da cidade, em torno da Rua Direita, mais popular, ou da Rua Barão de Itapetininga, mais elitizada." Para ele, o campus Vale do Anhangabaú atende duas necessidades básicas. A primeira, de ordem privada, da própria universidade, que está se expandindo e precisa encontrar melhores espaços sob o aspecto logístico. A segunda, de ordem pública, refere-se à cidade, que precisa, como já defendia o secretário Wilheim, de unidades de ensino no Centro, principalmente à noite, quando as pessoas que trabalham na região voltam para casa e a área se transforma num deserto de asfalto. "Aceitamos o desafio de ajudar o Centro a se requalificar, recuperando a importância que tinha há cerca de 40 anos", diz Rodrigues. "A presença de universitários, cerca de 8 mil quando todos os cursos estiverem funcionando, será um estímulo para o surgimento de novas atividades de cultura e lazer."

Vantagens

Para o reitor da Anhembi Morumbi, o Centro não tem contra-indicações. Fala-se em problemas de segurança. "E existe lugar seguro em São Paulo? Se existe, o Centro é um dos mais seguros", diz. O prédio, 23 andares, mais subsolo, com área construída de 14,5 mil metros quadrados, só estará completamente desocupado a partir de agosto. De início, nele só funcionará o curso de Direito, para cerca de 200 alunos - no futuro o campus Vale do Anhangabaú abrigará, atendendo à vocação dessa área do Centro, diversos cursos ligados à atividade bancária, negócios etc. Enquanto não se fazem algumas reformas – "praticamente só divisórias", esclarece o reitor -, adequando-se o prédio ao funcionamento de uma universidade, o curso de Direito é ministrado no centro de treinamento que o banco possui na Rua Líbero Badaró, 633, a Boston School. O ano de 2002 reserva outras novidades para a instituição. O campus Morumbi (Avenida Roque Petroni Jr., 630, na zona sul), voltado às áreas de Design e Moda, também começa a funcionar este ano.

Para a Universidade Anhembi Morumbi, cuja sede fica na Vila Olímpia, num campus com capacidade para 11 mil estudantes, adquirir – em agosto do ano passado, por R$ 18 milhões, facilitados em quase dez anos, revela o reitor – e adaptar um prédio construído para outras finalidades não é nenhuma novidade. No final dos anos 90, a instituição comprou o antigo prédio da fábrica da indústria têxtil São Paulo Alpargatas, erguido em 1907, para transformá-lo, sim, num centro de educação, mas também num espaço de cultura e lazer aberto para a comunidade. No momento, o prédio abriga cursos de Gastronomia, Nutrição, Turismo e Hotelaria. O objetivo final é, preservando-se as linhas arquitetônicas originais, abrir espaços para a região na qual está instalado, oferecendo uma infra-estrutura de serviços e lazer, com lojas comerciais, auditório, cinemas e teatro. "Estamos no Centro", afirma o reitor Rodrigues. "Viemos para ficar."

O campus Brás da Universidade Anhembi Morumbi fica na divisa de dois tradicionalíssimos bairros paulistanos: a Mooca e o Brás. O prédio da Alpargatas, tombado pelo Patrimônio Histórico e referência para os habitantes da região, teve preservadas suas características básicas, mas ganhou um novo uso, transformando-se num pólo universitário para até 20 mil alunos – hoje são 5.000 - e num centro cultural aberto para a comunidade. Como no caso da nova unidade Vale do Anhangabaú, a Universidade Anhembi Morumbi quis colaborar para requalificar o perfil da Mooca e do Brás. Afinal, inaugurar um teatro no Brás, antigo bairro de imigrantes da região central, tem muito mais impacto do que inaugurar um teatro na zona sul, na qual já se encontra boa parte do equipamento cultural da cidade. Da mesma forma, bibliotecas, cinemas, salas de informática e até salas para exposições de artes plásticas, em convênio com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, sem esquecer a inevitável praça de alimentação, viriam atender uma região muito populosa e, apesar disso, carente de opções de cultura e lazer. Na unidade, um dos destaques é o chamado laboratório de gastronomia, que conjuga instalações modernas, uma cozinha industrial e velhos galpões.

O campus da Rua Dr. Almeida Lima, 1.134, foi inaugurado em 1998 e prova o empenho do grupo Anhembi Morumbi em participar ativamente do processo de valorização e reconstrução do Centro de São Paulo. Segundo o reitor Gabriel Mário Rodrigues, "verifica-se que, em todo o mundo, os centros históricos das cidades decaem e, após o início de um lento processo de recuperação, renascem. Isso já está ocorrendo com o nosso Centro". E agora com a participação de um crescente público estudantil.


  Reportagem  
Conselhos Tutelares em Perigo

Irregularidades ameaçam experiência que reforça os laços da comunidade com crianças em situação de risco

Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina

"Fraude anula eleição para Conselho em SP". "Eleição do Conselho Tutelar tem urnas impugnadas e denúncias". (Dos jornais).

Definitivamente, não foi desta vez que os adultos deram o exemplo. As manchetes dos jornais foram incisivas ao noticiar a mais recente, a quarta, eleição para os Conselhos Tutelares de São Paulo, realizada em novembro de 2001. As irregularidades não foram uma ou duas, mas cerca de 20, da inexistência de local isolado para votação ao transporte de eleitores, da utilização de declarações de endereço falso à violação de urnas, da ausência de divulgação da eleição à promessa de cestas básicas. Sim, também foram registradas ocorrências incompatíveis com uma cidade que se orgulha de ter um pé no Primeiro Mundo, como a simples e inquestionável compra de votos. Aguardavam-se no máximo 100 mil votantes, apesar de todos os paulistanos estarem aptos a votar, mas apareceram mais de 200 mil. Um surpreendente interesse pelas crianças e adolescentes? Infelizmente, tudo indica que não. Após denúncias, nem duas, nem três, mas 73, encaminhadas por escrito ao Ministério Público, a eleição foi anulada. A nova eleição foi prevista para 17 de março.

O padre Júlio Lancellotti, de antiga e reconhecida ação na defesa das crianças e adolescentes, diretor da Casa Vida, entidade que cuida de crianças órfãs e portadoras do vírus HIV, foi um dos que apontaram a gritante contradição. "O mais grave, porém, é a questão ética: como é que adultos que querem educar crianças e adolescentes podem ter comportamento tão inadequado e promover uma luta de interesses tão mesquinha?", questiona. "Os candidatos são seres humanos sujeitos a erros, enganos, e passíveis de aprendizagem e aperfeiçoamento, mas devem ser livres de atrelamentos escusos e busca do poder e de prestígio eleitoral não compatíveis com as funções complexas que exercerão os eleitos". Segundo Motauri Ciocchetti de Souza, da Promotoria de Justiça de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos da Infância e da Juventude da Capital, foi a primeira vez que aconteceram problemas do gênero, provocados por duas razões: os salários dos conselheiros aumentaram de R$ 470 para R$ 1.286 e, em conseqüência, o número de candidatos cresceu. Para o promotor, quem troca cestas básicas por votos não tem condições morais para ser conselheiro.

Os Conselhos Tutelares surgiram em função do Estatuto da Criança e do Adolescente (lei federal nΊ 8.069), em julho de 1990, e assinalam o compromisso da sociedade brasileira com o amanh㠗 ou seja, suas crianças. O estatuto prevê que em cada município brasileiro haverá no mínimo um Conselho Tutelar, permanente e autônomo, composto de cinco membros, eleitos pela comunidade para um período de três anos. Cada conselheiro só pode ser reconduzido ao cargo uma vez. O município de São Paulo tem 34 Conselhos Tutelares e 170 conselheiros — 1.754 candidatos disputaram as vagas na eleição anulada. Mas não é um número fixo. "Em razão da demanda, respeitados pareceres de viabilização orgânica/estrutural", a cidade pode criar mais Conselhos. Os conselheiros são responsáveis por dar o primeiro atendimento aos menores vítimas de violência e também aos menores infratores e, entre suas funções, está a de fiscalizar a aplicação do estatuto em instituições que trabalhem com menores.

Emprego?

Ser conselheiro é bem mais do que um emprego, diz Max Dante, gerente de comunicação da Fundação Projeto Travessia, que atende crianças que vivem nas ruas do Centro, procurando reintegrá-las a suas famílias e comunidades. "É uma função que envolve idealismo e sentido de cidadania. Há quem defenda que seja um trabalho voluntário, embora isso seja difícil, já que há a obrigatoriedade de uma carga semanal mínima de 40 horas. E há quem defenda que deva ser remunerado. Com a crise econômica, muitos candidatos viram nos Conselhos Tutelares um emprego, e não, como deveria ser, uma oportunidade de melhor atender à criança e ao adolescente." Por lidar com uma "matéria-prima" frágil, que goza da proteção do Estado, está claro que nem todos podem ser conselheiros. Estes, além de reconhecida idoneidade moral, deve ter conhecimento e habilidade específicos. "Os conselheiros tutelares", pensa o padre Lancellotti, "são guardiões da cidadania, pois podem e devem proporcionar a inclusão dos menores em programas comunitários ou oficiais de auxílio à família, à criança e ao adolescente. Promover e garantir proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice."

Na prática, um conselheiro tutelar é pau pra toda obra. Uma menina é obrigada a se prostituir pelo padrasto alcoólatra, uma criança fica pelas ruas por não achar vaga na creche ou na escola, menores são surpreendidas furtando, uma mãe tem dificuldade para tirar uma certidão de nascimento... Todos os tipos de problemas que envolvam a criança e o adolescente podem cair nas mãos de um conselheiro tutelar e cabe a ele, devidamente assessorado por entidades públicas e privadas de assistência ao menor, procurar soluções que visem a garantir, em primeiro lugar, seu bem-estar e direitos. O Conselho Tutelar deve levar em conta as necessidades imediatas — alimentação, educação, habitação, saúde, segurança etc. — da criança e do adolescente e, na seqüência, fortalecer os laços familiares e comunitários. Também cabe aos conselheiros assessorar o Executivo na elaboração da proposta orçamentária para planos e programas de atendimento dos direitos das crianças e adolescentes. Ser conselheiro tutelar não é um emprego, enfatize-se. É uma vocação.

Os conselheiros tutelares são — ou deveriam ser — educadores de crianças e adolescentes, além de membros respeitados em sua comunidade. Entre suas habilidades, devem saber interpretar a lei e traduzir em linguagem simples as determinações legais e o encaminhamento recomendado a cada tipo de questão. E devem ter jogo de cintura para procurar soluções, ou auxílio, diante dos problemas mais complexos e variados. Sobretudo, têm que desfraldar, a qualquer hora e em qualquer lugar, a bandeira da defesa da criança e lutar por sua promoção. Recomendam-se, no plano ideal, formação universitária e experiência em trabalhos com crianças e adolescentes. "A missão do conselheiro tutelar", lembra o padre Lancellotti, "é garantir vida, educação, saúde, cultura, lazer, profissionalização, enfim, vida digna para as crianças e adolescentes, cidadãos e cidadãs de nossa cidade, e não cadeia. E, para aqueles que cometerem atos infracionais, medidas socioeducativas, e não vingança, tortura e mais violência."

Desgaste

Há o consenso de que o fortalecimento dos Conselhos Tutelares e a sua atuação integrada com a comunidade é uma ferramenta para impedir o envolvimento dos menores com o crime. Seria esse o motivo pelo qual a prefeita Marta Suplicy determinou o aumento do salário que o Município de São Paulo paga a seus conselheiros. "O objetivo", destaca Dante, "era melhorar ainda mais os Conselhos, mas oportunistas sem qualquer compromisso com os direitos infanto-juvenis atentaram contra a lisura e a legitimidade do processo eleitoral. Não tem sentido o voto de cabresto." A intenção de aumentar os salários foi boa, mas o efeito, em princípio, desastroso. O padre Lancellotti teme pelos próprios Conselhos, que são uma inequívoca conquista, já que representam o compromisso da comunidade com suas crianças e adolescentes e, mais do que isso, a participação popular na definição e controle das políticas sociais públicas. "O momento é grave, porque levou a população ao desânimo e ao descrédito no processo eleitoral, e ao inevitável desgaste da imagem do Conselho Tutelar".

Como reação imediata ao episódio da eleição de novembro – francamente desabonador, tratando-se de instrumentos criados para cuidar de menores –, o Ministério Público Estadual recomendou ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente a criação de uma comissão de ética para supervisionar a atuação dos conselheiros tutelares. É preciso supervisionar e, sobretudo, zelar para que uma experiência nova, que já demonstrou bons resultados, não perca o prumo e o rumo. Segundo o promotor Vidal Serrano Júnior, da Promotoria de Justiça de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos da Infância e Juventude, os "conselheiros fazem um bom trabalho social. Temos medo de que interesses estranhos à função o desvirtuem". Entre os motivos para o temor, a natureza política do cargo. Pela atuação na sociedade, os conselheiros se relacionam com muitas pessoas e alguns podem enxergar uma perspectiva de carreira política. Sem contar que certos políticos, cientes do papel dos conselheiros, querem, por meio de seus apadrinhados, ter uma presença direta numa determinada região.

Assim como é preciso zelar pelas crianças e adolescentes, convém fazer o mesmo pelos Conselhos Tutelares. Se possível, entregando o processo de votação à Justiça Eleitoral e chamando a população a votar. "Uma eleição como essa deveria mobilizar pelo menos 50% do eleitorado da cidade, mas o voto é facultativo. Como se a responsabilidade pelas crianças e adolescentes fosse facultativa. Votar naqueles que depois usam do poder para nos espoliar é obrigatório. Votar naqueles que devem proteger os espoliados é facultativo", indigna-se o padre Júlio Lancellotti. Vale lembrar que nós, os cidadãos de São Paulo, somos os Conselhos Tutelares e que não adianta cobrar desses organismos uma ação efetiva se nós, cidadãos, nos omitimos e os deixamos ao Deus-dará. Aliás, ao mesmo Deus-dará que as crianças e os adolescentes que vagam pelas ruas do Centro, cheirando cola de sapateiro ou praticando pequenos furtos, tão bem conhecem. Deus-dará que pode ser chamado por vários nomes, mas principalmente por Indiferença. (Federico Mengozzi)


  Reportagem  
Viva a República viva

Com forte presença no imaginário e na obra de escritores, cineastas e pintores,
a praça não merece o abandono a que é relegada

Ana Maria Ciccacio

Aparece no letreiro dos ônibus, em letras garrafais: REPÚBLICA. E no elenco de estações da Linha Leste-Oeste do metrô. É uma referência espacial. Fica perto ou logo depois da República, subindo a Ipiranga ou entrando pela Vieira de Carvalho. É como Patriarca ou Sé. Um símbolo com lugar reservado no imaginário de cada paulistano, artistas também. O poeta Roberto Piva criou um de seus mais poderosos poemas para ela — Praça da República dos Meus Sonhos —, filmes como São Paulo, Sinfonia de uma Metrópole (1929), de Adalberto Kemeny e Rudolf R. Lustig, São Paulo S/A (1964), de Luiz Sérgio Person, Cléo e Daniel (1967), de Roberto Freire, e Isto É São Paulo (1969), de Rubens Rodrigues dos Santos, entre outros, têm cenas filmadas ali.

Ignácio de Loyola Brandão inscreveu a República em um punhado de contos e em dois de seus melhores romances, Bebel que a Cidade Comeu, depois filmado por Maurice Capovilla com o título Bebel, a Garota Propaganda, e o combativo Zero. Com um cinzel afiado, o contista João Antônio esculpiu a frase "a cidade desconheceu os homens e mulheres da madrugada, e quando é madrugada até um cachorro na Praça da República fica mais belo" no seu grande e áspero Malagueta, Perus e Bacanaço, enquanto o injustamente esquecido José Geraldo Vieira menciona a praça em vários momentos de seu romance Ladeira da Memória.

No cenário da República, o artista plástico hiperrealista Gregório Gruber, 49 anos, já reinterpretou a solidão metropolitana em várias de suas telas. E Cláudio Tozzi, num bem-humorado jogo de pop art, pintou uma "Zebra" pastando, e pendurou-a no alto de um dos prédios da praça, o da H. Stern do colecionador Milton Guper. "Foi em 1972, época da loteria esportiva. E a zebra, que graficamente é um animal muito bonito, comendo em cima da cidade, causou o maior frisson. Hoje está incorporada à praça", lembra o artista.

Todos se recordam da República em seus tempos de infância ou de juventude — anos 50, 60 e 70 — dependendo da geração a que pertencem. Um tempo em que o lugar e o entorno ainda não estavam tão degradados como hoje. Máximo Barros, 72 anos, conhecido montador de cinema em São Paulo e professor da FAAP, recorda-se de cenas impossíveis de se filmar hoje na República, mas que fizeram a delícia do documentário Se a Cidade Contasse (1954), do cineasta Tito Battini. "Nessa época, as babás levavam as crianças das madames passear na República, como ainda acontece na Praça Buenos Aires, sem o menor perigo. Eu filmei essas cenas, garanto que as babás não eram figurantes."

"A praça não tem aparecido em minhas novelas porque minha obra é leve, de humor... e ultimamente fica difícil fazer humor com a praça", admite Walcyr Carrasco, 49 anos, autor de A Padroeira, a novela das 6 na Globo, e morador na praça. "Na novela O Cravo e a Rosa eu citava a República com freqüência, mas eram outros tempos, final da década de 20... bons tempos. Agora, para falar da praça hoje, minha obra teria que ser densa, pesada, dramática, e perderia a graça."

Pinceladas rápidas

No começo do século XIX, durante o processo de arruamento e demarcação da Cidade Nova, uma área foi reservada entre a Chácara do Chá, pertencente ao cadete Joaquim José dos Santos (futuro Barão de Itapetininga), e a chácara do general José Arouche de Toledo Rendon. Primeiro nome do lugar: Praça da Legião, com função explícita de abrigar exercícios militares. Em 1811, descontente, o próprio Arouche propôs chamá-la Praça dos Milicianos, especificando seu uso por esse, e não outro, grupamento militar.

Mais seis anos e... um novo nome! Campo ou Largo dos Curros. Desta vez, D. João VI resolvera que o Brasil deveria comemorar com festas populares o Dia da Aclamação, e São Paulo improvisou uma arena de touradas no largo. A Praça dos Milicianos transformou-se, assim, em área de recreação, mas não sem que as touradas à paulistana, esporte de pouquíssima penetração nestas plagas, fossem ridicularizadas até por Auguste de Saint-Hilaire e Spix e Martius em suas andanças pela cidade, no ano de 1819.

Fato é que, dando em nada a farra do boi, as instalações viraram ruínas em pouco tempo, sendo logo desmontadas, embora a área mantivesse o nome de Largo dos Curros por mais de 42 anos, quando passou a chamar-se Largo 7 de Abril. Árvores foram plantadas mais tarde, mas o povo continuou protestando contra o lamaçal que se formava à época das chuvas. Enfim, em 1889, o espaço recebeu o nome que o consagraria como uma das grandes referências paulistanas, Praça da República. Mas somente na gestão do prefeito Antonio Prado — um século atrás exatamente —, recebeu o primeiro projeto paisagístico de sua história, assinado pelo francês Joseph Bouvard, foi cercado de arame farpado e transformou-se em verdadeiro canteiro de obras.

Três anos depois, em 1905, a República reabriu completamente mudada. À época, como diz Rosa Kliass em Parques Urbanos de São Paulo, ganhava seu feitio atual, com pedras e lagos artificiais cruzados por pontes rústicas, rochedos e área aproximada de 30 mil metros quadrados. Já havia o Caetano de Campos com sua Escola Normal em funcionamento desde 1894 e as compenetradas normalistas fazendo a cabeça dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, como versejariam mais tarde os dois Andrade, Mário e Oswald. Ambos por sinal, reverenciados pelo poeta Fábio Weintraub, junto com a Praça da República, no belo poema "II. Mário Inventário", de 1996.

Ao longo do tempo a praça recebeu vários adendos e seu traçado sofreu algumas ameaças. Mas na década de 70 houve uma vitória glamurosa. Para construir a estação do metrô, foram colocadas à sociedade duas alternativas, ambas desastrosas para a memória paulistana e o bem público: demolia-se o Caetano de Campos ou o Edifício Ester, um dos marcos da arquitetura moderna no Estado. A população disse nenhum nem outro. E a Companhia do Metrô acabou encontrando uma terceira alternativa que, além de preservar o patrimônio histórico e a praça, não produziu interferências de maior monta.

Hoje, a Administração Regional da Sé, comandada pela arquiteta Clara Ant, procura meios e está empenhada em recuperar a praça, como parte do Programa Reconstruir o Centro. Segundo o arquiteto Décio Amadio, também da Regional, já estão reservados R$ 300 mil para o restauro do calçamento e cerca de R$ 50 mil para a recuperação do casario que abriga a administração da praça. O lago terá a impermeabilização refeita e filtros e bombas consertados. Serão implantados sanitários públicos, inclusive para deficientes físicos, e uma base para uma patrulha permanente da Guarda Civil de São Paulo, também no casario. A Secretaria Municipal do Abastecimento (Semab) incumbe-se, por sua vez, de reordenar a Feira de Arte e Artesanato que existiu por décadas na praça, mas na gestão Pitta primeiro foi dissolvida e depois acabou virando uma balbúrdia, completamente invadida por camelôs.

Hora da virada

Loyola, 65 anos, que migrou de Araraquara em 1957, com apenas 20, para trabalhar no jornal Última Hora, associa suas lembranças da República às livrarias, lojas e restaurantes elegantes das redondenzas. "No Dony΄s comi um dos primeiros, e mais maravilhosos, beirutes da cidade. Lembro também que na praça estava a finíssima Cássio Muniz, uma das primeiras lojas de departamentos de São Paulo. E tinha principalmente o Cine República, com a maior sala da América Latina, cinemascope e tudo."

Para o crítico e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, Davi Arrigucci Jr., 58, autor de O Cacto e as Ruínas, que chegou a São Paulo em 1961, com 17 anos, para cursar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, então na Maria Antonia, a Praça da República sempre representou um lugar de passagem. "Eu passava por ela para chegar à Livraria Francesa, ou ir ao restaurante Rubayat, ou assistir a um espetáculo no Municipal. Ainda estava relativamente inteira." Mas os cinemas foram fechando ou virando cines pornô, o Clubinho dos Artistas, na 7 de Abril, desapareceu. "Um espaço só existe na medida em que sua existência tem um sentido para nós. Deixamos de ir à República porque ficou difícil e arriscado. Os lugares precisam ser atraentes, seja do ponto de vista intelectual, cultural ou de lazer."

"Meu endereço é Praça da República, sim", faz questão de dizer Walcyr Carrasco com todas as letras. "Escolhi morar aqui pela qualidade do apartamento, pela vista, pela facilidade dos serviços. E, principalmente, por acreditar que o Centro seria recuperado. Mas não vejo nenhuma iniciativa concreta nesse sentido." O historiador Roney Citrinovicz, 38, que trabalha vizinho à praça, no Edifício Andraus, adverte sobre as estátuas e bustos destruídos ou decapitados existentes hoje na praça "Não vai adiantar restaurá-los, porque daqui a pouco a população os irá decapitar de novo, não dizem nada a ela. Precisam ser transformados em marcos, em referências. A praça precisa voltar a ser um pouco a de 1902, mas também a do Largo dos Curros, popular e festiva."

Gregório Gruber, que fez o ginásio no Caetano de Campos, preocupa-se ao saber que a Prefeitura planeja recuperar a praça. "Acho que tem que haver um consenso para não se fazer besteira, como já aconteceu na São João. Chega de Minhocão, o maior crime contra a avenida mais bonita da cidade. Um conselho formado por artistas, arquitetos e quem mais goste de participar do destino da cidade deveria ser formado para analisar esses casos."

Saudosos, os artistas gostariam de reaver o tempo em que podiam conversar na praça, sem se preocupar com segurança. Acham que alguma coisa tem que ser feita para salvar a República e seu entorno e arriscam palpites nesse sentido. Para alguns, como Décio Pignatari, 75, poeta e professor aposentado da FAUUSP, hoje radicado em Curitiba, a perspectiva da utopia jamais deve ser perdida. "A República tem história. Exige respeito. Ela precisa de um projeto muito audacioso. Quem sabe cobri-la com uma imensa cúpula de cristal, tendo um bom design paisagístico embaixo. A República teve uma boa escala nos anos 40. Mas encolheu, ficou pequena diante do crescimento urbano. É preciso culturalizá-la, criar condições de convívio. Se foi praça um dia, deve agora virar um jardim."

Na virada do século
Jorge Americano*


"Era um escampado, ora poeirento, ora enlameado, conforme a época do ano. A grande árvore que está ao centro da rua, onde há o bronze de um índio rastejando, estava dentro da Chácara Vieira de Carvalho. Na praça armavam-se rodas-gigantes e circos de cavalinhos giratórios, tocados a vapor. Armavam-se também circos de espetáculos. Ali por 1902 a Praça da República foi cercada de arame farpado. Vieram carroças, removeu-se terra de aqui para ali, fizeram o lago, plantaram árvores, gramaram canteiros, e numa tarde de Ano Bom, com banda de música, foi inaugurado o jardim, com a presença do Presidente do Estado e do Prefeito. Ajardinada a Praça da República, ao cair da noite, depois do jantar, tornou-se ponto de reunião das famílias dos Campos Elíseos, Vila Buarque e Higienópolis. Mais tarde (1910 mais ou menos) criou-se o hábito dos sábados pré-carnavalescos, que começavam no ano novo e terminavam no último sábado antes do carnaval."

* Em São Paulo, Naquele Tempo, 1895-1915, citado no livro Lembranças de São Paulo — A Capital Paulista nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças, de João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo, publicado em 2000.


Barricada
Oswald de Andrade*


Todos os passarinhos da Praça
            da República
Voaram
Todas as estudantes
Morreram de susto
Nos uniformes de azul e branco
As telefonistas tiveram uma
            síncope de fios
Só as árvores não desertam
Quando a noite luz


*Em Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade, 1927, republicado na coleção das Obras Completas de Oswald de Andrade, 1991. A barricada do título provavelmente se refira a episódios da revolta de 1924, quando a cidade sofreu ataque das forças federais.


No apogeu
José B. Almeida Júnior*


"A Praça da República — belo jardim em pleno coração da cidade — é o ‘quintal’ das crianças que moram nos apartamentos que a circundam. Pela manhã e à tarde, é muito comum ver-se, em diferentes pontos do logradouro, senhoras a bordar, a costurar ou a ler, enquanto seus filhos brincam no jardim. Na Praça da República está instalado um magnífico ‘play ground’. Esse jardim de belas e pujantes árvores, guarnecido de flores, é também um lugar romântico. À noite, na ponte se reúnem os namorados para os seus sonhos e juras de amor. É um recanto de paz e tranqüilidade na metrópole agitada, atordoada de ruídos."

* No Guia Pitoresco e Turístico de São Paulo, 1948, também citado no livro Lembranças de São Paulo — A Capital Paulista nos Cartões-Postais e Álbuns de Lembranças, de João Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo, publicado em 2000.


Praça da República dos Meus Sonhos*
Roberto Piva


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com
            paciência pela paisagem de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo
e crianças brincando na Tarde de esterco

Praça da República dos meus Sonhos
            onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
            onde beatificados vêm agitar as massas
            onde conquistamos a imensa desolação dos dias
                  mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma
            os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras
            sexos de papel anjos deitados nos canteiros cobertos
            de cal água fumegante nas privadas cérebros
                  sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da
            República dos meus Sonhos última sabedoria
            Debruçada numa porta santa


* Em Paranóia, 1963, reeditado pelo Instituto Moreira Sales em 2001


  Urbanismo  
Os planos diretores e a habitação social nas áreas centrais

Marta Dora Grostein e Regina M. Prosperi Meyer

O exame dos documentos produzidos pelo poder público municipal, sobretudo os planos diretores elaborados a partir da década de 60, cujo objetivo é a formulação de uma política abrangente de desenvolvimento urbano, revela uma constante preocupação com a oferta de habitação social. Ultrapassando as questões associadas à unidade habitacional propriamente dita, o processo de urbanização acelerada que ocorre dentro de um padrão material precário é visto nos diversos documentos como um decisivo fator de exacerbação do quadro habitacional no município de São Paulo. As brechas encontradas pela população mais pobre, não atendida nas suas demandas habitacionais, criaram ao longo das últimas quatro décadas, assentamentos urbanos que traduzem, em todas as suas dimensões, uma profunda anomalia na sua forma de inserção na cidade. Embora não tenha ainda resultado de forma objetiva em nenhum encaminhamento da questão, o poder público municipal vem manifestando em seus documentos analíticos uma plena consciência desta crucial situação urbana.

Assim, é possível afirmar que, do ponto de vista do discurso, como veremos a seguir, a questão da habitação de interesse social e a sua localização no interior do município de São Paulo tem recebido grande destaque nos documentos oficiais, sobretudo nos planos diretores municipais. É também necessário dizer que do ponto de vista da efetivação de políticas habitacionais, não tivemos nenhum conjunto de ações que atestasse uma mudança de postura. Para verificar alguns aspectos mais diretamente associados a esta relação entre os planos diretores e a provisão de habitação social em áreas urbanas menos precárias elegemos os planos que nos pareceram mais significativos.

O primeiro é o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de 1971, cuja influência permanece viva. Desde sua promulgação em 72 até hoje, o PDDI é o mais decisivo instrumento normativo presente na trajetória da urbanização do município de São Paulo. O segundo é o Plano Diretor de 85, elaborado na gestão Mário Covas, no qual reconhecemos um excelente esforço analítico, além de uma atualização das transformações vividas pelo município naquele período. Baseado em novos dados e uma inovadora metodologia, o plano apresentou análises e propostas muito criativas para o desenvolvimento urbano municipal. Na análise específica da Área Central, que envolve o Centro e alguns bairros centrais, o PD 85 reconhece a subutilização da infra-estrutura instalada e, portanto, a existência de excelente potencial de utilização habitacional. É a primeira referência clara à questão que aqui procuramos analisar.

O terceiro é o Plano Diretor 91, formulado na gestão Luiza Erundina. Trata-se do primeiro Plano Diretor elaborado após a promulgação da Constituição Brasileira de 1988 na qual os municípios ganham imensa autonomia e uma série extensa de novas obrigações. Além destes condicionantes o PD 91 apresentou, de forma oportuna, um rico arsenal de novos conceitos para o desenvolvimento urbano municipal. A proposição de localizar habitação social na Área Central ganhou neste PD nova dimensão ao ser relacionada à questão das áreas adensáveis.

Uma inquestionável conquista

O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado de 71 veio revestido de grande expectativa e introduziu um marco na legislação urbana: promulgou a lei de zoneamento no município de São Paulo, em vigor desde então. O PDDI foi concebido a partir de dois objetivos principais e conjugados: implantar uma legislação de zoneamento funcional para o conjunto do município e alterar o sistema viário estrutural e funcional da cidade, revendo os problemas viários resultantes de sua estruturação radioconcêntrica. Um sistema de vias ortogonais e expressas deveria criar a rede viária alternativa capaz de "corrigir" as disfunções oriundas da estrutura radial, tema já explorado pelo Plano Urbanístico Básico de 1968.

O álibi da escassez de recursos condenou o PDDI a realizar apenas um de seus objetivos: a implantação da legislação de zoneamento funcional. Embora a ausência de recursos fosse autêntica, a complexidade técnica da implantação de uma malha ortogonal sobre uma cidade já estruturada a partir de uma lógica radial não é nada desprezível. Assim, a Lei de Zoneamento consolidou-se isoladamente como o principal mecanismo de controle do uso e ocupação do solo. A natureza desse instrumento urbanístico assim como a sua gestão nos últimos 30 anos, tem sido diretamente responsável, e de certa forma responsabilizada, pelas disfunções verificadas no processo de crescimento urbano.

Desde a sua promulgação até o final dos anos 90, a Lei de Zoneamento incorporou detalhamentos e sofreu, devido aos defeitos que lhe são imputados, constantes críticas. Estabeleceu inicialmente oito zonas de uso no município, (Z1 a Z8), e através de subdivisões sucessivas nas zonas Z2 foram criadas e especificadas novas zonas, acrescidas de mais 10: em 1975 criaram-se as zonas Z9, Z10, Z11 e Z12, em 1978 as zonas Z13, Z14, Z15, Z16, e em 1980 as zonas Z17 e, Z18. Estes procedimentos, no entanto, não afetaram os fundamentos e conceitos originais da legislação, apesar das críticas constantes aos seus efeitos ou aos casuísmos de muitas das alterações pontuais verificadas. O processo de expansão urbana seria, portanto, controlado pelas normas deste instrumento que vinculava uso e ocupação ao parcelamento do solo urbano. A ilegalidade urbana atribuída em décadas precedentes à insuficiência das normas urbanísticas seria sanada e loteamentos com qualidade resultariam de sua aplicação.

No final da década de 70, a multiplicação de loteamentos irregulares ou clandestinos impulsionando a expansão urbana e o crescimento das periferias deixava claro para o poder público que a questão da habitação social não se resolveria com as mudanças introduzidas na legislação urbanística. A prefeitura entendeu, naquele momento, que era necessário interromper o ciclo de extensão desmesurada das periferias, sobretudo em virtude dos altos custos econômicos e sociais que tal processo representava para o próprio poder público. A figura da renovação urbana em áreas centrais foi a resposta que o poder público ofereceu ao procurar estimular a produção de novas moradias em áreas plenamente equipadas.

O documento "Política de Habitação e Renovação Urbana" produzido pela Coordenadoria Geral de Planejamento (COGEP), em 79, avalia a natureza do problema habitacional na cidade. De sua leitura podemos destacar aspectos negativos do processo de urbanização tanto relacionados com a política habitacional quanto com a de uso e ocupação do solo existentes. Apontou-se para a necessidade de alterar a atuação do poder público de modo a possibilitar a provisão de espaços residenciais adequados na cidade, especialmente para a população de baixa renda. Afirmava-se corretamente que o sistema de produção de habitação não estava organizado de modo a aproveitar as vantagens que as áreas mais equipadas ofereciam como alternativa para a redução dos custos globais de urbanização. Na verdade, o poder público estava atuando apenas no sentido de reduzir o custo da unidade habitacional, o que explica a construção de conjuntos habitacionais nas periferias extremas onde o preço da terra era baixo. O enfoque setorial desta política pública desconsiderou os gastos que teria a municipalidade, mais tarde, para estender a infra-estrutura e serviços até os novos conjuntos habitacionais.

Os vazios urbanos, com altos índices na cidade, eram, reconhecidamente, resultado de processos especulativos com a terra urbana e são avaliados como extremamente negativos e responsáveis pelo encarecimento dos custos globais de urbanização. Para estimular a ocupação desses espaços recomenda-se implantar medidas de natureza fiscal que coibissem esses processos, bem como estruturar mecanismos financeiros para subsidiar localizações mais favoráveis para habitação social possibilitando o acesso a famílias de menores recursos. Estavam assim relacionadas duas variáveis muito importantes: os custos econômicos e sociais que representavam para o poder público a extensão desmesurada de periferias desprovidas de infra-estrutura e serviços públicos; e a vantagem apresentada pela possibilidade de renovação urbana das áreas centrais, que poderiam receber novas moradias e investimentos, a custos econômicos menores, com benefícios sociais evidentes.

A concretização dessas hipóteses dependeria, por sua vez, da criação de novos instrumentos de ação formulados pelo poder público, tais como: a "Operação Casada", o "Banco de Terras" e o "Programa CURA - Ampliado". A "Operação Casada" permitiria combinar projetos diversificados visando a atender diferentes classes de renda, mediante a transferência dos lucros gerados em empreendimentos para classe de renda média/alta e média que, por sua vez, subsidiariam propostas que iriam atender a população de baixa renda, no mesmo núcleo ou não.

O "Banco de Terras" permitiria criar um estoque de terras para disponibilizar futuramente para habitação de interesse social, e o "Programa Cura Ampliado" (linha de financiamento do BNH) seria utilizado para subsidiar a localização de habitação de interesse social nos vazios urbanos, com recursos do Imposto Territorial Progressivo que seria criado.

Como vimos, do ponto de vista do discurso a questão da moradia periférica e os processos predatórios de expansão urbana compunham uma questão que os planos diretores procuravam enfrentar. Procuramos deixar claro que uma das diretrizes propostas pelo poder público para reverter esse processo estava na ocupação habitacional dos espaços mais centrais providos de infra-estrutura e serviços. Durante as décadas de 70 e 80 as premissas e a lógica presentes na formulação da legislação de zoneamento, tal como concebido nos anos 60, permaneceu como instrumento inquestionável. A natureza desse instrumento urbanístico e sua gestão têm portanto responsabilidade direta nas disfunções verificadas no processo de crescimento urbano paulistano ainda hoje.

O desenvolvimento de um pensamento crítico sobre os efeitos do zoneamento urbano na cidade, entendido como um elemento que contribui para reforçar as desigualdades socioespaciais, resultou em proposições de mudanças introduzidas no Plano Diretor 91. Pretendia-se através destas alterações da legislação existente "contornar" ou, até mesmo "amenizar" os reconhecidos efeitos negativos da legislação de zoneamento, atacando principalmente os seguintes aspectos: a supervalorização fundiária criada através da escassez de terra edificável; a segregação de usos e atividades; a sobrecarga na infra-estrutura e no sistema viário; e a multiplicação da ilegalidade nos processos de expansão urbana.

Um novo marco: o adensamento dos bairros centrais

Em 85, na gestão do prefeito Mario Covas, foi elaborada a proposta de um novo plano diretor para a cidade de São Paulo, que não foi aprovado pela Câmara. O diagnóstico que apoiou sua elaboração apontou a demanda social por moradias na cidade como de extrema gravidade. Nesta ocasião o total de habitações classificadas como sub-normais, conforme estimativas contidas no Plano Municipal de Habitação de 1983, era de 55% do total de habitações com a seguinte distribuição: 5% da população (460.000 pessoas) morava em favelas, 28% da população (2.576.000 pessoas) de aluguel em cortiços e casas precárias e 22% da população (2.024.000 pessoas) em casa própria autoconstruída precária. O atendimento à demanda social por moradias foi descrito como uma das metas de uma política de desenvolvimento urbano. E os bairros centrais teriam papel significativo no cumprimento dessa meta.

O Centro e os bairros centrais estão contidos na delimitação administrativa dos distritos municipais Sé, República, Bom Retiro, Pari, Brás, Cambucí, Liberdade, Bela Vista, Consolação, Santa Cecília, Barra Funda, Mooca e Belém e são descritos, mencionado diagnóstico, como bairros onde predominam moradias de baixo padrão habitacional e também cortiços, e com elevada densidade de população com renda até cinco salários mínimos sendo que as habitações classificadas como subnormais estão entre 25% e 60% do total de residências na área, além de possuir boa acessibilidade à rede viária e ao transporte público e estarem dotados de infra-estrutura .

Para essa região a meta da política de desenvolvimento consiste em "melhorar os padrões ambientais, paisagísticos e de equipamento público, para atender às necessidades de circulação e espaços públicos, e viabilizar a evolução funcional da zona particularmente no sentido de seu uso popular" (PD/85). Emergem daí dois grandes objetivos que devem ser alcançados através dessa política, por um lado estimular o aproveitamento do solo em função do potencial de localização de áreas como Cerqueira César, Santa Cecília, Centro Histórico, Liberdade, Bela Vista, Campos Elíseos e Brás e assim apoiar e recuperar as funções do centro metropolitano facilitando seu aproveitamento pelo conjunto da população. Por outro, orientar e controlar a ocupação do solo em áreas onde é desejável maior intensidade e diversidade de uso especialmente o uso residencial popular, como nos distritos a leste do centro, Pari e parte da Mooca, e a oeste a Barra Funda e assim adensar, sobretudo pela expansão de funções centrais e com habitação para média renda (PD/85).

A região definida como "adensável", com forte ênfase no uso residencial, já era servida por infra-estrutura, não apresentava o fenômeno dos "vazios urbanos" e os edifícios verticais existentes eram de construção antiga, caracterizando uma região estagnada do ponto de vista da dinâmica imobiliária com 35% de proprietários entre os moradores e com incidência de cortiços e grande presença de uso industrial. A densidade populacional predominante era de até 150 hab / ha e do ponto de vista de renda, entre 40% e 60% da população moradora tinha rendimentos até cinco salários mínimos e, acima de 20% da população, de até três salários mínimos.

A estratégia proposta para alcançar o adensamento desejável consistia basicamente em "incentivar a verticalização; manter e regulamentar o uso industrial; estimular a reciclagem do uso de imóveis desativados; criar espaços livres e criar novas oportunidades para assentamento da população de média renda". A ação induzida deveria "criar incentivos à verticalização e lei de uso do solo; criar zona industrial municipal (Z6 municipal); instituir zoneamento que permita a reciclagem dos prédios existentes; implantar equipamentos e áreas de uso coletivo e público, através de projetos de associação com o setor privado; operações urbanas voltadas para a reurbanização de áreas de baixa densidade" (PD/85). O poder público buscou esta ação através de projetos específicos de renovação urbana que tinham como objetivo renovar e promover o adensamento habitacional em áreas do entorno do Centro Principal, como parte da Bela Vista, dos Campos Elíseos e da Liberdade.

Os projetos deveriam contar com a participação de empresários imobiliários, construtores, proprietários dos terrenos e a prefeitura e, a fim de viabilizá-los e possibilitar a oferta de novas habitações destinadas a famílias com rendimentos entre cinco e dez salários mínimos, afirmava-se que seriam necessárias alterações no zoneamento de modo a permitir índices de aproveitamento mais altos e assim neutralizar os preços dos terrenos, relativamente elevados (PD/85, pg 150).

A recuperação destes dados atesta que a relação entre habitação social e bairros centrais já estava plenamente analisada e encaminhada como diretriz de desenvolvimento urbano, em 1985.

Novos conceitos para o desenvolvimento urbano

Em 1991, na gestão da prefeita Luiza Erundina, foi elaborado um novo Plano Diretor que apresentado à Câmara Municipal também não chegou a ser aprovado. O plano propunha mudanças conceituais importantes. Apoiou-se em novos instrumentos urbanísticos previstos na Constituição Federal de 1988 e no Projeto de Lei Federal de Desenvolvimento Urbano (775/93). É interessante destacar que este projeto de lei federal veio a ser aprovado apenas em 2001, tornando-se conhecido como Estatuto da Cidade (Lei nΊ 10.257/2001). Foi o primeiro Plano Diretor produzido pelo poder público municipal após as mudanças constitucionais de 1988 que outorga ao Plano Diretor Municipal a condição de instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana, bem como de instrumento capaz de aferir o cumprimento da função social da propriedade urbana.

Diante dos desequilíbrios sócio-espaciais verificados na metrópole paulista, resultantes inclusive dos processos de expansão e transformação urbana, historicamente acumulados, a reformulação conceitual do instrumento "plano diretor" tornou-se tarefa essencial para responder às atribuições a ele outorgadas.

Os pressupostos presentes na elaboração do Plano Diretor 91 revelam a intenção de implantar mecanismos que pudessem induzir transformações na lógica de ocupação do solo na cidade bem como no valor da terra urbana e sua disponibilidade, apontada como responsável pelos desequilíbrios sócio-espaciais verificadosi, e assim influir, de modo mais incisivo, na transformação de algumas condições críticas, como o transporte, a moradia ou o meio ambiente. A proposta apresentada em 1991, atrelada a este compromisso, assume que para transformar o processo de produção do espaço urbano "é necessário garantir um planejamento de natureza estratégica, em função do qual se organizará a ação normativa e executiva do Poder Público", afirma ainda que o Plano Diretor pode intervir na lógica de produção e apropriação do solo urbano. "na medida em que redefine o patamar de compromissos que referencia a ação dos que constroem e vivem na cidade, e que orienta a relação entre os agentes públicos e privados nos processos de tomada de decisões sobre a vida urbana".

A estratégia geral proposta para a revisão da concepção e aplicação da legislação de zoneamento é a de introduzir por um lado a idéia de um coeficiente de aproveitamento único igual a um para todo o município, e, por outro, na identificação de "zonas adensáveis". Para essas se estabelece um potencial construtivo bastante questionado quando da formulação, que seria vendido pelo poder público no que excedesse o coeficiente um. Com tais procedimentos seriam criados mecanismos que permitiriam ao poder público direcionar, além de controlar, a produção imobiliária e a expansão e transformação urbana, equilibrando a oferta de áreas construídas com a capacidade da infra-estrutura instalada.

Na nova concepção para a legislação de zoneamento vincula-se à proposta de coeficiente único, a outorga onerosa pelo poder público da construção de área adicional. Este direito de construir excedente denomina-se solo criado, e é a aplicação do princípio legal da separação do direito de propriedade que incide sobre o solo, do direto de construir sobre ele, mecanismo que vinha sendo proposto no município desde a década de setenta, associado à idéia de preservação de bens de interesse histórico e cultural.

A definição de "zonas adensáveis" (a densidade construída é variável a ser monitorada) baseou-se em estudos que relacionaram a capacidade da infra-estrutura instalada e as possibilidades de atendimento futuro dessas regiões, resultando da análise a indicação de estoques de área edificáveis e usos desejáveis. Assim, as denominadas zonas adensáveis expressam um potencial de intensificação de uso do solo em parcelas determinadas do território urbano. Representariam assim um potencial de área edificável relacionado às capacidades da infra-estrutura neles instalada e teriam seus estoques revistos a cada dois anos. A relação pretendida entre agentes econômicos e a capacidade pública de suprir o território com infra-estrutura apontam, conforme afirmam os estudos, mais para o início de um planejamento-processo do que um plano nos moldes tradicionais corte-situação-diagnóstico, colocando-se a ênfase no planejamento-gestão e não em metas a cumpririi.

O Plano introduz também instrumentos normativos ativos, isto é, que têm como função estimular investimentos e suprir carências verificadas. É um exemplo o estímulo oferecido ao mercado imobiliário para que invista na produção de moradias para população de baixa renda ao conceder gratuitamente o direto de construir acima do coeficiente um no caso da construção de Habitações de Interesse Social. Outro exemplo seria a utilização do Fundo de Urbanização - que seria criado com os recursos arrecadados com o solo criado - na implementação de programas habitacionais para população com renda inferior a cinco salários mínimos ou na implantação de áreas verdes, obras de drenagem e viárias.

A proposta do Plano Diretor 1991, ao construir o conceito de "zona adensável" na zona urbana - estabelecida por macrorregiões do município -, propõe que o crescimento da cidade esteja condicionado pela presença de serviços de infra-estrutura (são consideradas as infra-estruturas que configuram redes, sistema viário, água, energia, saneamento, transporte), e, sobretudo, onde eles estejam ociosos. A interpretação dada no Plano Diretor à variável "ociosidade da infra-estrutura instalada" no Centro e nos bairros centrais vinculou o dimensionamento do estoque edificável proposto ao incremento de uso no "contrafluxo" das atividades predominantes (comércio e serviços), afirmando que esta região "pode crescer com habitações". Estabeleceu-se como uma diretriz de desenvolvimento urbano o incentivo ao uso habitacional no Centro, que seria operacionalizada pela gestão de dois tipos de zonas adensáveis, ZA-1 e ZA-2 (esta abrange também parte da região leste), onde se destinam 90% do estoque a edificar nessas zonas para o uso residencial. O argumento que apoia esta diretriz é o de incentivar o uso dessas zonas quando a infra-estrutura instalada fica ociosa, isto é, no contrafluxo, já que no horário comercial existe sobrecarrega.

"A intensa ocupação da Região Centro por comércio, serviços e indústrias compromete de forma extrema a infra-estrutura instalada. O sistema viário não suporta maior volume de tráfego e o sistema de energia elétrica só pode ser ampliado através de redes subterrâneas que têm um custo 10 vezes superior ao das redes aéreas. O Plano Diretor propõe que a região cresça com habitações, pois dessa forma a infra-estrutura pode ser utilizada nos horários não comerciais quando ela permanece ociosa. O uso residencial neste caso é um uso de contrafluxo."

À zona adensável ZA-1, compreendendo os distritos Sé, Campos Elíseos, Consolação, Bela Vista, Liberdade, Santa Efigênia, Santa Cecília, parte do Pacaembú e Cerqueira César, foi destinado o menor estoque de área edificável da cidade, pois além das condições da infra-estrutura estarem bastante comprometidas são poucos os terrenos vazios. Já a zona adensável ZA-2, que compreende os distritos do Brás, Pari, Ponte Pequena, Bom Retiro, Mooca e Belenzinho, pela presença de mais de um milhão de m2 de terrenos vazios, o estoque de área edificável é quase três vezes maior. (Ver tabela).

Como a zona adensável ZA-2 abrange também a Região Leste, seu estoque não será utilizado somente pela Região Centro.

O plano diretor cria as Zonas Especiais de Interesse Social ZEIS - estas zonas seriam prioritárias para a aplicação de recursos do Fundo de Urbanização - nos moldes do que já vinha sendo implantado na cidade de Recife desde a segunda metade da década de 80. As ZEIS são zonas criadas no sentido de forçar o uso de terrenos para habitação de interesse social, portanto delimitadas para atender demandas específicas da população de menores recursos, onde segundo mencionado no plano se pretende elaborar plano de urbanização em conjunto com a população, com a finalidade de favorecer a produção de Habitações de Interesse Social ou recuperar áreas em condições precárias de habitação, garantindo a permanência da população já instalada.

Para a Região Centro, o Plano Diretor 91 definiu duas Zonas Especiais de Interesse Social - ZEIS, em duas áreas onde se verifica grande concentração de cortiços, no Pari e no Glicério (ZEIS-4), e uma na favela do Pari (ZEIS-1). Nas ZEIS-4, onde predominam os cortiços, há incentivo aos proprietários de terrenos para estimular a construção de habitações de interesse social de valor equivalente às localizadas na mesma zona, eles poderão construir gratuitamente espaços comerciais e de serviços acima do coeficiente de aproveitamento um.

Para impedir a ampliação clandestina das pequenas indústrias, que hoje ocorre porque a lei de zoneamento só permite indústrias com até 500m2 de área construída na maior parte da Região Centro, o Plano Diretor aumenta este limite. Poderão se instalar, em qualquer ponto da Região, com exceção de áreas preservadas, indústrias não poluidoras com área até 2.500m2. Para que isso ocorra, elas deverão obedecer a exigências de áreas para estacionamento, carga e descarga.

Estoque para a Região Centro
ZA Residencial Não residencial Total
ZA-1 557 168 725
ZA-2 2.107 137 2.244


Exercícios de retórica

Esta rápida exposição dos conteúdos, argumentos e encaminhamentos dos Planos Diretores da cidade de São Paulo que fizemos acima, sempre com foco na proposta de provimento de habitação social em áreas centrais, nos possibilitam alguns comentários a título de arremate. Estes comentários não são, no entanto, especificamente voltados para o tema aqui tratado.

Diante do exposto e observando a questão dos Planos Diretores de forma mais abrangente, podemos dizer que no contexto da cultura urbanística, não apenas local, isto é, paulistana, mas nacional e internacional, existe desde os anos 70 uma clara frustração com os Planos Diretores. Em alguns países a frustração veio associada a algo mais concreto, isto é, associa-se a pontos de vista críticos diante dos resultados alcançados, na medida em que houve avanços na execução e implementação de idéias e metas. Em outros, que é o nosso caso, pelo menos na cidade de São Paulo, o desprestígio dos planos diretores é bem mais profundo.

Aqui, a incapacidade de criar instrumentos básicos e adequados de controle do uso do solo urbano é diretamente relacionada às formulações equivocadas ou insuficientes dos próprios planos. Há, nesta cultura urbanística que mencionamos acima, mecanismos de autodefesa que dificultam as críticas cujo objetivo é, sobretudo, o aperfeiçoamento do processo de planejamento municipal.

No entanto, é também preciso ressalvar que o plano diretor, enquanto instrumento voltado para a transformação, melhora e correção dos rumos da urbanização, não chega a se efetivar. As dificuldades enfrentadas pelas distintas gestões municipais de verem aprovadas as propostas contidas nos seus planos, criou um vácuo para os seus formuladores. Diante da impossibilidade de experimentar as proposições que as análises recomendavam, os planos tornaram-se discursos inócuos, meros exercícios de análise e proposição. No quadro repetitivo das propostas que estiveram sempre presentes sem, contudo, apresentar nenhum avanço concreto, a produção de habitação de interesse social no Centro, não chegou em nenhum momento a se configurar como uma efetiva alternativa à produção periférica. E, como decorrência lógica, nunca foram aperfeiçoados os mecanismos financeiros, jurídicos ou projetuais que essa proposição continha. Em resumo, algumas soluções contidas nestes planos envelheceram sem ter vivido o estágio da verificação e, como desdobramento, sem se tornarem conhecimento acumulado para o poder público.

Assim, é impossível não reconhecer que todos os planos diretores aqui analisados entenderam, de forma bastante semelhante, que as áreas centrais representam um valioso patrimônio urbano cujo potencial de uso para a habitação de interesse social não foi ainda efetivamente utilizado. Tanto as análises quanto as propostas encaminhadas até o presente, seja pela falta de objetividade no seu encaminhamento, ou pelo parco universo das proposições, permanecem obstinadamente no campo da retórica.

Bibliografia
Cadernos de Planejamento - Infra-estrutura Urbana e potencial de Adensamento e Zoneamento e Mercado Imobiliário - D.O.M.; São Paulo, 37 (243), 24 de dezembro 1992

Cadernos de Planejamento - Zoneamento e Mercado Imobiliário: subsídio para a transformação da legislação urbanística do Município de São Paulo. - D.O.M.; São Paulo, 37 (243), 24 de dezembro 1992.

Campos Filho, Candido Malta Política de Habitação e Renovação Urbana COGEP / PMSP 1979.

Folheto Plano Diretor de São Paulo - Propostas para a região Centro, gestão Luíza Erundina.

Rolnik,R; Kowarik,L; Somekh, N 9( ed) São Paulo: Crise e Mudança, Editora Brasiliense, 1991..

Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA). Plano Diretor do Município de São Paulo: 1985-1999. Série Documentos, 1985.

Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA) -. Plano Diretor do Município de São Paulo: 1985-1999. Série Documentos Caderno de Mapas São Paulo, 1985.

Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA) Plano Municipal de Habitação, 1983. Plano Urbanístico Básico – PMSP 1968.


  Entrevista  
O homem que reinventou a Pinacoteca


O artista plástico baiano Emanuel Araújo é um grande diretor de museu. Mais que isso, construtor ou— quando se parte de quase zero, como Emanuel — inventor. Dez anos após assumir a Pinacoteca do Estado, ele a retirou de um estado de profunda decadência e transformou-a numa das mais respeitadas instituições culturais de São Paulo e do Brasil. Ampliou e enriqueceu o acervo e, numa perspectiva visionária de concepção museológica mas também de intervenção urbana, chamou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha para converter a semi-arruinada estrutura projetada por Ramos de Azevedo há mais de cem anos num dos edifícios de museu mais belos e arrojados que existem. Comparado em importância a outro grande (embora distinto em estilo e métodos) construtor-inventor de museu, Pietro Maria Bardi, esse escultor — com destaque assegurado na história da arte contemporânea brasileira — é também um agudo observador de São Paulo e de sua evolução histórica. Ao deixar a direção da Pinacoteca, neste início de ano, Emanuel conversou com os jornalistas Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora assistente de urbs. Os principais trechos da entrevista:

urbs - Quando e como foi o seu primeiro contato com São Paulo?

Emanuel Araújo – Com o golpe de 1964, a dissolução da cultura e cada um indo para o seu lado, na Bahia, aceitei o convite de um amigo e vim para cá. Marquei uma exposição para o ano seguinte numa galeria importante, que ficava na Praça Ramos de Azevedo, e conheci muita gente. Naquela época o Centro de São Paulo era realmente o centro, o núcleo, tudo estava ali, na São Luís, na Ipiranga, na São João. Aquilo me fascinava. Não havia essa quantidade de gente que há hoje, mas era já a grande metrópole verticalizada, eletrizante. Intuitivamente, percebi ser um grande lugar para viver. Mas eu tinha só 24 anos, não possuía meios para morar aqui e posterguei a vinda. Como tinha feito muitos amigos, pude voltar em 1965. Fiz a exposição, que foi um sucesso. Tudo acontecia no Centro ou perto dele, o Juão Sebastião Bar, o Nick Bar, o TBC... São Paulo me causou um impacto semelhante ao que senti quando fui pela primeira vez a Nova York.

Onde você morou?

Fui morar em Taboão da Serra. Mas, nesses primeiros anos, eu morava também em Salvador, seis meses lá, seis em São Paulo. Só em 1971 me radiquei definitivamente aqui.

Qual a diferença daquela São Paulo em relação à de hoje?

Hoje a cidade não mais conjuga o urbano com o humano. Antigamente os personagens e locais imprimiam o modo de viver em São Paulo. Hoje não existem mais referências, lugares como a Avenida São Luís, no apogeu da Galeria Metrópole. Havia ruas de referência. Hoje essa memória dispersou-se. Há um elemento perverso na sociedade brasileira, creio que na paulistana principalmente, que é o desgarrar-se do seu lugar. Por que as pessoas largam o habitat para viver em outro lugar? Essa especulação imobiliária terrível que domina o Brasil de norte a sul... Cria-se a infra-estrutura e depois muda-se o centro, mudam-se as pessoas, mudam-se os prédios, abandonam-se as regiões consolidadas e vão-se todos para locais distantes e sem história, sem densidade urbana. As pessoas vão se afastando para o infinito. Vendo as ruas aqui do Bom Retiro, a Amazonas por exemplo, tão bonita, com um de seus lados sem aquela horrível fiação aérea, percebe-se o absurdo desse processo. Por que sair de onde a cidade já está sedimentada, urbanamente civilizada, para morar tão longe?

São Paulo hoje é uma megacidade com vários centros e pólos de atração. O escândalo é o abandono das melhores regiões da cidade em troca de novas fronteiras especulativas, de ganho imobiliário, coisa de faroeste. Você não acha que faltam coragem e empenho dos prefeitos para reverter esse esvaziamento das áreas centrais?

Certa vez eu disse que São Paulo precisa ser administrada não por um político, mas por um arquiteto, uma pessoa que pudesse entendê-la com sensibilidade.

Em São Paulo perdem-se a identidade, a história, as referências. E nada se faz.

Acho terrível, me deixa aflito. Essa história de morar no campo... Morei em Taboão da Serra até que um dia disse a mim mesmo: quero morar na Avenida São Luís, sentir cheiro de gasolina. A avenida era linda, com suas árvores. De repente, ela se desmanchou também. Agora quero morar no Bom Retiro, fazer o contrário do que todos fazem, voltar para este trecho central da cidade.

Por que o Bom Retiro?

Você tem coisas maravilhosas aqui. Ruas absolutamente tranqüilas, com lojinhas de aviamento, de armarinho, com designer, vitrinazinhas boladas...

É um pólo de criação e confecção de moda.

A confecção brasileira é de uma qualidade maravilhosa.

Um bairro judaico-coreano com origens italianas, de um ecletismo inimaginável em outra cidade. Talvez não exista coisa igual no mundo.

É fantástico. E eu fico pensando: estou no bairro todo dia, percorro as ruas, vejo as lojas, os cenários, tomo café aqui e acolá... O lugar é civilizado, igual a qualquer grande cidade do mundo. Morei em Nova York, acabo de voltar de Lisboa, Valência, Madri, sei o que estou dizendo. Bastaria limpar, conservar. Não é preciso nenhum milhão de dólares para isso. É só colocar uma calçada decente, despertar a auto-estima das pessoas.

Não seria tarefa para o tal prefeito-arquiteto de que você falou? Mais ainda, para um arquiteto e um artista plástico? Afinal, você e Paulo Mendes da Rocha viraram o eixo da Pinacoteca, que voltou a olhar para a polis, o Centro...

Bem, o Paulo é um arquiteto e um filósofo, um homem de pensamento, voltado para as cidades. Por isso o chamei para o projeto da reforma da Pinacoteca. Lembro-me que o Paulo topou, se instalou aqui, num ateliê, e perguntou: tem a planta do edifício? Não tinha nada. Nem foto. Tenho a impressão de que o prédio havia saído da memória das pessoas. Há um ou outro cartão postal e uma foto da inauguração do monumento a Ramos de Azevedo, que arrancaram daqui e que tem que voltar para o lugar original.

O monumento deveria voltar para a Avenida Tiradentes? A desculpa que deram para retirá-lo eram os prejuízos ao trânsito, pois ocupava quase a metade da largura da avenida. Será que vão concordar em trazê-lo de volta?

Têm que concordar. Ele está na Cidade Universitária, abandonado e esquecido. Precisamos trazê-lo de volta, sim. O lugar dele é aqui. Ramos de Azevedo é um arquiteto fundamental para São Paulo.

Voltando a Paulo Mendes da Rocha...

O Paulo fez surgir uma arquitetura que nem Ramos de Azevedo imaginou. Quando ele colocou estes vidros, cobriu estas clarabóias, abriu os espaços que tinham grades ou umas esquadrias de madeira fina, pintada, horrorosas, aí começaram a surgir umas transparências... O prédio é muito bonito e o Paulo teve a visão da transparência. Quem fez tudo isso (a reforma do prédio da Pinacoteca) foi ele, não eu.

Mas o administrador é quem decide. A partir disso, o arquiteto cria e executa.

Eu apenas lhe garanti condições de trabalho e dei-lhe corda, muita corda. Acho o Paulo o homem mais brilhante do Brasil. Certa vez, creio que em 1992, na Suíça, fui convidado a almoçar na casa de Max Bill. Lá estava também um arquiteto, amigo do anfitrião, que me disse o seguinte: Emanuel, você mora numa cidade que tem o maior arquiteto do mundo. Sempre mando alunos meus estagiar com Paulo Mendes em São Paulo.

O Brasil faz questão de ignorar histórias como essa.

É difícil não lembrar o grande poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, calculista dos projetos de Niemeyer, que morreu necessitado e com a habilitação profissional cassada exclusivamente pela incompetência administrativa do governo de Minas Gerais (o desabamento do pavilhão de exposições da Gameleira, nos anos 60). O Brasil é um país perverso. Ele fez com Joaquim Cardozo o que a sociedade faz com a cidade de São Paulo, com os seus artistas.

Baixa-estima cultural e colonização mental.

É preciso parar com essa angústia e medo de ser Terceiro Mundo. Estamos do lado de cá do Atlântico, isso não significa ser Terceiro Mundo. Mas estamos sempre olhando o lado de lá como se fosse a única forma certa de estar no mundo.

Além de Paulo Mendes, quem mais foi decisivo para o projeto de reforma da Pinacoteca?

Tive a sorte de contar com o total apoio do governador Mário Covas e do secretário Marcos Mendonça, por quem tenho uma enorme admiração. Tive também a sorte de acontecerem coisas como a exposição de Rodin.

Como era a Pinacoteca à época em que você assumiu?

Eu me lembro de que havia umas mesinhas horrendas, remendadas com arame, onde as pessoas trabalhavam. Cada mesa tinha um vasinho de comigo-ninguém-pode, um monte de fotografias e santinhos... Eu disse: escutem, onde vocês estão? Num terreiro de umbanda? Estão se defendendo de quem? Do governador? Ele não vem aqui. Todo mundo vai tirar os retratos da família e colocar as plantinhas num vaso só (risos). Então eu diagramei a sala em diagonal, a amiga fica aqui, a outra lá... Mas era uma coisa muito forte e as mesas foram se mexendo novamente, devagarinho, para voltar à posição em que estavam... e de repente foram ressurgindo as espadas-de-São Jorge, as comigo-ninguém-pode, os santinhos... Um dia achei que bastava e joguei tudo fora. Cada espaço deste prédio foi conquistado desse jeito. Só um sujeito meio arrivista, como eu era, poderia mudar as coisas.

Alguma experiência chocante?

Certa manhã, depois de uma chuva forte, o segurança me telefona: o museu está inundado. Como inundado? Venha para cá, ele pedia. Meu Deus, parecia Veneza! A água corria lá de cima e a sala estava inundada, duplicada pelo reflexo das obras na água, um efeito muito lindo (risos). E lá estávamos todos, eu, os guardas, os funcionários, com as calças arregaçadas, protegendo o acervo. A água baixou no dia seguinte. Havia lama. Aí entendi a função de um murinho que construíram para tentar segurar a água, e que naquele dia não segurou. O pessoal já estava bem treinado para essas ocasiões.

Fala-se que você foi convidado para dirigir um futuro museu no edifício do antigo Dops, um certo Museu do Imaginário do Povo Brasileiro. Recebeu outros convites?

A prefeita me convidou para a Secretaria Municipal da Cultura.

Por que não aceitou?

Eu dirigia a Pinacoteca do Estado e queria levar meu trabalho até o fim. E ainda porque o posto de secretário exige uma intimidade com quem governa. Mais que um cargo de confiança, é um cargo de intimidade. Antes de eu vir para cá, o governador Antonio Carlos Magalhães me convidou para dirigir o Museu de Arte da Bahia e me perguntou quais os meus projetos. Eu lhe disse: transformar o museu. Ah, objetou ele, então você não serve, porque é muito pouco humilde. Respondi: o senhor sabe quem foi meu pai? Era um ourives nascido no sertão da Bahia, constituiu uma família enorme, sofreu dificuldades quando as jóias começaram a sair de uso, e eu, seu filho, sou um artista, resultado de mim mesmo. Portanto, quem tem que ser humilde é o senhor, que é governador, e não eu. Está certo, disse ele. Se você aceitar o cargo, venha toda semana jantar comigo no palácio, vamos conversar, vamos despachar juntos.

Por que está deixando a Pinacoteca?

Estou cansado. Acho que chegou mesmo a hora de sair, de cuidar das minhas coisas. Cumpri meu compromisso. As reservas, o café, o restauro e a reforma radical do edifício estão aí, prontos. As grandes exposições, o auditório...

A Pinacoteca conquistou credibilidade e prestígio internacional.

Pois é. Acho que, daqui para a frente, basta manter o que foi feito. Já não há muito o que melhorar.


  Em Tempo  
Novos serviços descobrem o Centro


Um site específico sobre o Centro de São Paulo, o Sampacentro (www.sampacentro.com.br), está completando um ano de atividade. Criado e administrado por um grupo de jovens jornalistas, ele apresenta 32 pontos de interesse histórico e turístico a partir do ponto de vista de seus personagens, moradores e trabalhadores. Há seções com entrevistas, indicações de livros e sites e de sugestões do visitante. Outra boa notícia é a criação, também no Centro, de uma agência de publicidade especializada na região, a Dárquia. Atuando nas áreas de marketing de comunicação, construção de posicionamento de marca, planejamento publicitário e suporte para assessoria de imprensa, tem como foco principal a aplicação de instrumentos de comunicação na recuperação do patrimônio histórico e arquitetônico do Centro, valendo-se de incentivos governamentais. Por fim, outra excelente notícia: fundado há poucos meses, o site SPCiteCity (www.spsitecity.com.br), realização da Companhia City com a colaboração e apoio de diversas empresas, técnicos, entidades e órgãos governamentais, já recebe em média 3 mil visitas mensais, incluindo-se acesos dos Estados Unidos, Canadá, Europa, Ásia, África e Austrália. Os núcleos disponíveis referem-se à história da cidade e dos bairros, planos e projetos urbanísticos, gestão urbana, a formação da megalópole e práticas de cidadania. O Centro recebe um enfoque privilegiado.

Segurança recebe reforço de homens e viaturas


Em solenidade realizada na manhã de 22 de fevereiro, no Vale do Anhangabaú, o governador Geraldo Alckmin presidiu a apresentação de 266 novos policiais militares que passaram a reforçar o policiamento ostensivo, preventivo e comunitário na Capital e Região Metropolitana, e entregou 61 novas viaturas Blazer à corporação, das quais cinco exclusivamente para o Centro. O evento contou com a presença dos secretários da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, e da Juventude, Esporte e Lazer, Gabriel Benedito Issac Chalita, escolhido paraninfo pelos formandos, além do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Rui Cesar Melo, entre outras autoridades.


Centro ganha sala de arte da BM&F


O ano começou com o Centro ganhando mais um equipamento cultural. No final de janeiro, para marcar a passagem de seu 16Ί aniversário, a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) inaugurou no hall social de seu edifício sede, à Praça Antonio Prado, 48, o Espaço Cultural BM&F, a mais nova sala de exposições da região central de São Paulo. Até meados de março o público conheceu parte do acervo de arte da própria BM&F, um conjunto de pinturas do modernismo brasileiro, destacando-se obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Rebollo e outros.

Holiday Inn assume o novo Jaraguá


A rede mundial de hotelaria Six Continents e o Grupo Sol Invest, do ex-governador Orestes Quércia, anunciaram uma parceria para inaugurar, em junho de 2003, o Holiday Inn Select Jaraguá Hotel and Convention Center, no edifício onde funcionaram o tradicional Hotel Jaraguá e os jornais O Estado de S. Paulo e Diário Popular, na Rua Major Quedinho. Serão investidos na reforma e adaptação do prédio R$ 40 milhões. O hotel, a ser administrado pela Guest Hotelaria, terá 415 apartamentos, restaurantes, bar, coffee-shop e se especializará em convenções, reservando 5 mil m2 em três pavimentos para esse fim. Projetado na década de 50 pelo arquiteto Jacques Pillon, o edifício é protegido pelo patrimônio histórico e terá a sua fachada restaurada graças aos incentivos previstos na lei da Operação Urbana Centro.

Arquitetura e urbanismo no Centro


Com sede no Centro, mais exatamente à Rua General Jardim, na Vila Buarque, começa a funcionar neste mês de março uma nova faculdade de arquitetura e urbanismo em São Paulo, a Escola da Cidade, voltada à formação do profissional cidadão. O novo núcleo de ensino é dirigido pelo arquiteto Ciro Felice Pirondi, ocupa dois edifícios de sete andares projetado por Oswaldo Bratke, tem o apoio de entidades como os Institutos Itaú Cultural e Takano e parceiros como o Instituto Sou da Paz. Detalhe: as aulas, estruturadas em blocos teóricos e práticos, desenvolverão projetos com os alunos tendo por base situações reais de São Paulo.

Ventura, a mais nova livraria


Mais nova livraria do Centro, a Ventura Livros é especializada nas áreas de economia, administração, tecnologia e literatura e localiza-se à Rua Dr. Miguel Couto, 36. Com a proposta de oferecer livros de qualidade e ser ponto de encontro para os profissionais da região, a Ventura é resultado da grande confiança de suas proprietárias, Elisabeth Carmargo da Silva e Cláudia Silva, na recuperação do Centro de São Paulo. "Temos uma relação afetiva com o Centro, espaço extremamente propício para a convivência democrática e a reunião de forças do empresariado, poder público e população em geral. Estamos aqui porque queremos fazer parte desta história", afirmam.

Os 80 anos do Modernismo, em alto estilo


Realmente especial a edição comemorativa dos 80 anos da Semana de Arte Moderna da revista D. O. Leitura, publicada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Antônio Cândido e José Mindlin, entrevistados por Walnice Nogueira Galvão e fotografados por Cristiano Mascaro, recordam em 26 primorosas páginas suas experiências pessoais com o Modernismo. De quebra, acompanha a revista uma edição facsimilar do livro de poemas de Ronald de Carvalho, Jogos Pueris, do qual a biblioteca de Mindlin guarda um dos raríssimos exemplares existentes.


  Cultura  
Quarteirão das artes

Complexo Cultural Júlio Prestes e prédio do extinto Dops vão abrigar, respectivamente, uma escola de música erudita e um museu de arte popular brasileira

Ana Francisca Ponzio
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Logo após a inauguração da Sala São Paulo, em julho de 1999, começou a germinar a idéia de fundar-se uma escola superior de música, vinculada à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Para abrigar a futura instituição de ensino, pareceu ideal o prédio da Rua Mauá nΊ 247, onde até 1983 funcionou o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Projetado por Ramos de Azevedo em 1914, o edifício, que surgiu como armazém e escritório da Estrada de Ferro Sorocabana, e que na época da ditadura militar ganhou conotação funesta por servir de cárcere e câmara de tortura para presos políticos, aparentemente tinha tudo para tornar-se sede de uma organização ligada à música erudita e assim adentrar no século XXI com história e imagem renovadas.

Avaliações de engenharia, no entanto, colocaram por água abaixo o projeto acalentado por Marcos Mendonça, secretário estadual da Cultura. Em vez de ocupar o antigo prédio do Dops, a Academia Superior de Música, como já está batizada a instituição, deverá funcionar nas dependências da própria Sala São Paulo, na vizinha Estação Júlio Prestes. A mudança não desagrada o maestro John Neschling, que em breve deve ocupar dupla função. Além de diretor da Osesp, ele se ocupará também da direção da escola.

"Acho que a readequação do espaço foi necessária por características de engenharia do prédio do Dops, que é muito frágil e necessitaria de uma reforma caríssima", diz Neschling. "Se a Secretaria me puser à disposição os espaços existentes e necessários na Sala São Paulo, poderemos ter a escola perfeitamente bem instalada. Custará dinheiro e serão necessários outros espaços complementares, mas essa necessidade ocorreria também se usássemos o edifício do Dops."

Em 2002

Segundo Mendonça, a Academia Superior de Música começará a funcionar no decorrer deste ano, nas dependências da Sala São Paulo, devendo receber 300 alunos. "Se fôssemos reforçar a fundação do prédio do Dops, como se provou necessário, iríamos gastar R$ 10 milhões, o que praticamente dobraria os investimentos programados para a escola, que ficará bem instalada nos estúdios de ensaios da Sala São Paulo", afirma o secretário.

Haron Cohen, arquiteto responsável pela reforma do prédio do Dops, que em 21 de abril será inaugurado como Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, explica que o reforço estrutural na fundação do edifício seria fundamental para atender às necessidades de acústica da Escola Superior de Música. "Sob o ponto de vista de área disponível, o prédio do Dops seria perfeito para a escola. Mas os testes mostraram que as paredes não eram tão pesadas para agüentar a carga acústica necessária."

Em contrapartida, a estrutura física da antiga Estação Júlio Prestes, onde está a Sala São Paulo, é "brutalmente forte", na constatação de Cohen. "Lá pode-se fazer o que quiser, sem reforço estrutural. Já fizemos um estudo de área e a Sala São Paulo é até melhor do que o prédio do Dops para abrigar a Academia Superior de Música, considerando que não atrapalhará em nada as atividades da Osesp. Pelo contrário, a interligação da escola com a orquestra ocorrerá em perfeitas condições", acrescenta o arquiteto, que já estudou, in loco, as instalações de instituições musicais de renome, como o Conservatório de Música de Paris.

"De agora em diante, a existência da Academia Superior de Música de São Paulo vai depender somente de investimento financeiro", observa Cohen. A promessa de que a escola funcionará ainda neste ano é referendada por Marcos Mendonça, que deve somá-la às demais inaugurações que a Secretaria Estadual da Cultura está programando para 2002, como o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, o Centro Paulista da Dança (que funcionará em prédio anexo à Oficina Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro) e o Centro de Estudos Musicais Tom Jobim. Esta última instituição, voltada para o ensino e a pesquisa da música popular brasileira, deverá acolher 5 mil alunos na sede que está sendo adaptada no antigo Hotel Flórida, situado em frente ao prédio do Dops.

Com isso, a requalificação do Centro de São Paulo ganhará reforço e a Academia Superior de Música, garantem Mendonça e Neschling, perseguirá o mesmo nível de qualidade conquistado pela Osesp. "Tenho certeza de que a escola terá o mesmo padrão internacional e servirá mais uma vez, assim como a Osesp, como parâmetro para todas as escolas brasileiras e do continente latino-americano", afirma o maestro.

Ainda em processo de formatação por Neschling, a Academia Superior de Música terá um corpo docente formado por músicos brasileiros ou radicados no Brasil. Paralelamente, serão realizadas master classes dirigidas por profissionais convidados, como solistas ou regentes, vindos do Brasil e do exterior. "Espero que essa escola preencha uma lacuna no panorama das escolas de música no País, formando músicos para todas as orquestras brasileiras e latino-americanas", salienta Neschling, que também pretende lecionar na Academia.

A vinculação da escola à Osesp é importante, segundo Neschling, pelas seguintes razões: "Não há renovação no panorama dos músicos de orquestras no Brasil. Ao mesmo tempo, não temos escolas de música ou conservatórios que se ocupem dessa especialidade, ou seja, a formação de músicos para orquestras. Finalmente, é necessário criar um som típico da nossa orquestra e quanto mais músicos forem formados por nós, mais o som da Osesp será uniforme."

Uma escola modelo: assim deve ser a Academia Superior de Música, na opinião de Neschling. "A Academia da Osesp funcionará sobretudo como um curso técnico de formação de músicos de orquestra", ele confirma. "Como no Brasil o curso básico de formação é falho e ineficiente, teremos que ‘atacar’ desde a jovem adolescência até a formação profissional."

Além de dois andares da Sala São Paulo, a Academia Superior de Música ocupará, se necessário, algumas salas onde funciona a Secretaria Estadual da Cultura – as quais Marcos Mendonça não vê problemas em ceder. Ao final, todo esse conglomerado deve integrar o Complexo Júlio Prestes, no qual se inclui o prédio do Dops, com seu Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, sobre cujo padrão de qualidade o arquiteto Haron Cohen não tem dúvidas. "Se a obra ficar do jeito que planejamos, teremos o melhor museu de São Paulo, com segurança necessária para receber as obras de arte que quisermos", ele afirma.

Vocação

Se para abrigar uma escola de música o prédio do Dops deixou a desejar, o mesmo não acontece com relação à instalação de um museu. "Em vez da acústica, a necessidade maior de um museu é o sistema de ar condicionado, o qual será facilmente adaptado no edifício do Dops, cuja área total, de cerca de 7.500 metros quadrados, é bastante boa para abrigar salões de arte.", diz Marcos Mendonça.

Ao tornar-se sede das manifestações culturais brasileiras, com ênfase na miscigenação formada pelos indígenas, africanos e imigrantes europeus, o prédio do Dops estará resgatando sua vocação para museu. Em 1967, a estação que hoje compõe o complexo Júlio Prestes já havia sido reformada, com a intenção de acolher o Museu Ferroviário, que lá funcionou durante seis meses.

Com a reestruturação atual, o prédio do Dops ainda terá lugar para o Memorial do Cárcere. Localizado no andar térreo, onde ficaram as antigas celas dos prisioneiros, deverá realizar exposições sobre questões relativas à liberdade e cidadania. "Os nomes de todas as pessoas que tiveram passagem pelo Dops estarão afixados em placas. Entre os notáveis que por lá passaram estão Mário Schenberg, Fernando Henrique Cardoso, que esteve no prédio para prestar depoimentos, além de Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrentou uma fase mais branda da ditadura, quando já não mais havia torturas", comenta Mendonça.

A partir de 21 de abril, o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro abre suas portas para o público. Seu acervo, ainda em fase de implantação, deve crescer sem dificuldades, acredita o secretário. "Graças ao sucesso obtido pela Pinacoteca do Estado, hoje desfrutamos de credibilidade suficiente para obter peças de colecionadores". Com a pretensão de tornar-se um dos parâmetros culturais de São Paulo, o museu inaugura suas atividades sob as bênçãos de um protetor poderoso: o Padre Cícero, que será o tema de sua primeira exposição.

Um lugar para a dança
A dança entra na pauta da Secretaria Estadual da Cultura com a criação do Centro Paulista da Dança, que tem funcionamento previsto para o final de março, devendo ocupar dois andares de um prédio anexo à Oficina Cultural Três Rios. Entre as diretrizes formuladas pelo secretário Marcos Mendonça, ainda em janeiro, o centro deverá abrigar uma escola popular de dança, aberta a quem gostaria de estudar balé, mas não tem condições financeiras, seminários, workshops e palestras. Como companhias residentes do novo núcleo educativo foram escolhidos dois grupos — o Stagium e o Cisne Negro —, o que não agradou à totalidade dos coreógrafos independentes da cidade. Segundo eles, além de possuir sedes próprias, esses grupos têm recebido a maior parte da verba até agora concedida à dança pela Secretaria. Polêmica à parte, a coreógrafa Cláudia de Souza, do grupo Danças, acha que o centro chega a ser "uma luz no fim do túnel", cabendo aos bailarinos organizar-se para participar das decisões e, em conjunto, fazer do novo espaço uma referência positiva tanto para a dança quanto para o Estado de São Paulo.


  Cultura  
Em busca de sinergia

É o público quem ganha com a atuação harmoniosa e coordenada dos equipamentos culturais


Sinergia cultural é uma expressão ainda pouco utilizada entre produtores, coordenadores e responsáveis pelos eventos artísticos que acontecem em São Paulo. Lembrada na teoria mas quase inexistente na prática, a ação de unir esforços para expandir resultados é vista positivamente – e tida como necessária – por diretores de instituições como o Sesc, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-SP) e o Teatro Municipal e de departamentos especializados da Secretaria Estadual da Cultura. No entanto, todos param para pensar quando questionados se já realizaram ou se têm como perspectiva próxima essa conjugação de forças que, até agora, se situa mais no terreno das idealizações do que no plano concreto.

"As instituições fomentadoras da cultura, ao contrário de outros mercados, não concorrem entre si. Pelo contrário, se complementam", observa Yole de Mendonça, diretora do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Por essa razão, acredita Yole, a sinergia cultural seria fundamental na cidade que, assim, poderia capitalizar resultados e obter maior repercussão para suas efemérides. "Seria ideal se houvesse uma entidade congregadora, capaz de pensar a sinergia cultural de forma mais ampla e profunda."

Público ganha

À frente do CCBB-SP desde sua inauguração, em abril de 2001, Yole diz que até o momento tem feito parcerias e convênios com representações culturais estrangeiras, como Cultura Inglesa e consulados – os quais ainda não configuram uma real sinergia. "Mais do que financeira, a prática de tal possibilidade teria um reflexo efetivo na qualidade da programação cultural de São Paulo."

Lucia Camargo, diretora do Teatro Municipal, compartilha opinião e expectativas com Yole. "Seria perfeito se pudéssemos contar com uma sinergia ampla, a qual nos permitiria maximizar o mínimo de recursos, sejam financeiros ou artísticos". Para Lucia, o público seria o grande beneficiário de uma ação cultural conjunta. "Evitaríamos a superposição de agendas e os espectadores poderiam aproveitar melhor um calendário sem tantos eventos simultâneos".

Apesar da abertura para a cooperação com outras entidades, a direção do Municipal vem colocando a idéia em prática somente "dentro de casa". Ano passado, por exemplo, um evento dedicado a Carlos Gomes reuniu todos os corpos estáveis do teatro, além da Escola Municipal de Bailados. "Espero que o Centro Cultural Banco do Brasil ou a Secretaria Estadual da Cultura nos procure porque poderemos estabelecer trocas, sem perder nossas identidades. No futuro, quem não investir na sinergia acabará falando sozinho", salienta Lucia.

Na Secretaria Estadual da Cultura, a sinergia é vista com igual entusiasmo. "Trata-se de um anseio importantíssimo para a cidade. Infelizmente, por questões de ordem prática, técnica e política, não houve até agora um diálogo capaz de colocar a idéia em prática", afirma Antonio Carlos de Moraes Sartini, diretor do Departamento de Formação Cultural da Secretaria. Segundo ele, as parcerias entre instituições diversas têm acontecido até agora de maneira muito informal, sem planejamento mais profundo ou a longo prazo. Como exemplo, ele cita o intercâmbio que tem ocorrido entre o Departamento do Patrimônio Histórico, vinculado à Prefeitura de São Paulo, e a Oficina Cultural Oswald de Andrade, pertencente ao Estado. "Porém, é muito mais a proximidade geográfica entre essas duas entidades que vem gerando parcerias eventuais."

Consciência

Outro exemplo mencionado por Sartini é o Projeto Monumenta que, por meio de recursos fornecidos pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), tem como propósito recuperar áreas históricas de algumas cidades brasileiras. "É um projeto que tem de ser administrado pelas prefeituras, em conjunto com os governos estaduais. Até agora, São Paulo foi a única cidade que não usou esse recurso porque o ex-prefeito Celso Pitta o recusou. Ano passado, com a chegada de Marta Suplicy à Prefeitura, conseguimos reabrir o projeto, só para que São Paulo pudesse desfrutar do benefício, já usufruído por outras cidades do País", relata Sartini, revelando a falta de consciência quanto à importância das ações conjuntas.

"Por meio de ações complementares estaríamos trabalhando com mais inteligência, inclusive quanto a recursos", prossegue Sartini, fazendo eco a uma das instituições culturais mais ativas de São Paulo, o Sesc, que dentro de aproximadamente três anos deverá atuar mais intensamente no Centro, com a inauguração de nova unidade no antigo endereço das lojas Mesbla, na Rua 24 de Maio. "Acho a sinergia indispensável", reitera Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. "Há muitos anos venho falando sobre a necessidade dessa articulação. Acho que várias entidades estão abertas para esse tipo de cooperação e nós, do Sesc, estamos dispostos a descobrir fórmulas isonômicas de participação, capazes de assegurar a igualdade, a competência e o compromisso diante de projetos comuns", afirma, ressaltando que a sinergia só se concretizará se houver uma ação coletiva nessa direção. Ou seja: entre idealização e prática, parece que falta pouco. Na verdade, basta começar pela sinergia entre programadores que por ela anseiam. (Ana Francisca Ponzio)


  Mix  
Convidados muito especiais


Um dos maiores violoncelistas do mundo, o brasileiro Antonio Meneses, é destaque da programação de abril na Sala São Paulo em dois momentos: dias 4 e 6, em recital de música de câmara, executando o Sexteto NΊ I, Op. 18, de Brahms, e dias 11 e 13, acompanhado pela Sinfônica do Estado, regida por John Neschling, solando o Choro para Violoncelo e Orquestra, de Camargo Guarnieri. Outro destaque é a vinda ao Brasil do polonês Jan Krenz, regente regular de algumas das principais orquestras do mundo, como a Filarmônica de Berlim e a Sinfônica de Londres. Jan Krenz estará à frente da Sinfônica do Estado nos dias 18 e 20 de abril, regendo o Masques, composição de sua autoria e de Karol Szymanowski, o Capriccio para Piano e Orquestra, de Igor Stravinsky, e a Sinfonia No 08 em Sol Maior, Op. 88 de Antonín Dvorák.

De volta ao passado


Desde 15 de março, o público pode reviver a história de São Paulo de Piratininga, tomar contato com aquele velho núcleo que deu origem a um dos maiores conglomerados urbanos do mundo, rever os assentamentos portugueses, as tribos indígenas, a terra rica em rios e florestas. Modo de dizer? De certa forma não. Basta cooptar a imaginação, deixar a mente retroceder alguns séculos e dar um pulo ao Pátio do Colégio. O Museu Padre Anchieta se encarrega do resto, fornecendo todos os parâmetros necessários, já que foi todo remodelado para garantir informações de forma ordenada. É importante ter em mente que, das grandes cidades mundiais, São Paulo é a única que tem seu local de fundação reconhecido, o que significa que ao pisar no Pátio do Colégio está-se, seguramente, onde a metrópole nasceu. Ainda assim, somente em 2001 a instituição recebeu um projeto museográfico à altura de seu papel. Com investimento de cerca de R$1,7 milhão controlado pela Companhia de Jesus, patrocínio da Petrobrás através da Lei Rouanet e do Fundo Nacional de Cultura e do governo das Ilhas Canárias, onde nasceu o Padre Anchieta, museu, acervo e capela estão totalmente restaurados, além de terem sofrido uma reestruturação espacial. O projeto museográfico previu tudo. A maquete que reproduz a região central da época da fundação da cidade está colocada logo na entrada, para preparar o visitante e orientá-lo quanto à disposição dos equipamentos urbanos; no primeiro andar, o museu promete uma interação com peças que fizeram parte do quotidiano dos primeiros paulistanos, como a pia batismal e obras de arte sacra, entre elas, relicários e oratórios; e em outra sala está a história da Companhia de Jesus, que mostra detalhes sobre a vida de Ignácio de Loyola, de Anchieta e outros jesuítas. Depois da viagem histórica, o clássico café ao ar livre, instalado no pátio interno do museu, encarrega-se de devolver o visitante à realidade. Foi reinaugurado com nova arquitetura, cardápio variado, almoço e happy hour, num espaço que está sendo considerado um dos mais charmosos do Centro.
Museu Padre Anchieta: Praça do Pátio, 84, tel. 3105-6899. Metrô Sé. Entrada franca. Terça a doming, das 9h às 17h.

Sagração das artes plásticas


Marcelo Araújo, o novo diretor da Pinacoteca do Estado, em substituição a Emanuel Araújo, começa sua gestão com algumas exposições de importantes artistas brasileiros, como Ivens Machado (até 5 de maio) e João Câmara (a partir de 11 de abril). São exposições realmente imperdíveis. Ivens Machado, escultor e gravador catarinense radicado no Rio de Janeiro, compõe seus trabalhos em ferro, cimento, vidro e madeira, exacerbando o antagonismo existente entre uma leitura meramente figurativa do real e a projeção onírica de uma mente realmente criadora. Câmara — pintor, gravador e professor — integra a fértil geração de artistas pernambucanos da década de 1960 e sua obra é permeada por retratos do corpo humano repletos de deformações e ambigüidades. De quebra o visitante ainda pode sorver da beleza de duas mostras em que o imaginário popular é que dá as cartas. São elas: Lenços e Colchas de Chita de Alcobaça, com 53 peças; e Native Born — Exposição de Arte Aborígene da Austrália. Alcobaça, vilarejo português próximo a Lisboa, tem na tapeçaria uma tradição que, influenciada pela estamparia indiana, remonta ao século XVIII. As peças expostas na Pinacoteca foram tecidas nos primeiros teares instalados em Alcobaça. Já a mostra Native Born traz a São Paulo, por obra e graça da Sociedade de Cultura Inglesa, vindos do outro lado do planeta, pinturas, gravuras, objetos e esculturas principalmente em madeira, muito parecidos com a arte de mestre Vitalino e da arte indígena brasileira. Na verdade, essa exposição representa apenas uma pequena parte da série de eventos que acontecerão em São Paulo para fortalecer os laços de amizade entre o Brasil e a Austrália.
Pinacoteca do Estado de S. Paulo: Praça da Luz,2, tel. 229-9844. Metrô Luz. Entrada franca. Terça a domingo, das 10h às 18h.

Testemunhos da vida privada


Os primeiros registros de sua construção datam de 1730. Trata-se de um dos mais antigos exemplares preservados da arquitetura residencial de São Paulo. Só por isso e pela notoriedade de sua ilustre moradora, a Marquesa de Santos, o solar — atual Museu da Cidade de São Paulo — merece uma visita. Mas além das paredes de taipa que estão expostas e são alvos de constantes estudos arqueológicos e de um acervo sobre a vida da marquesa, que entre outras ousadias foi a única mulher a participar da maçonaria no Brasil no século XIX, a casa, onde se desenrolaram importantes acontecimentos históricos, reúne um vasto acervo de peças de mobiliário colonial e um farto material etnográfico sobre a presença indígena, um tema que será abordado em uma série de eventos em cartaz entre fevereiro e abril, como a mostra Guarani Mbxa Renbiapo-Arte do Povo Guarani.
Museu da Cidade de São Paulo: Rua Roberto Simonsen, 136, tel. 3105-0991. Metrô Sé. Entrada franca. Sem estacionamento. Terça a domingo, das 9h às 17h.

Saga e obra dos imigrantes japoneses


Sua presença e importância todos conhecem e reconhecem, mas à sua história nem todos têm acesso. O Museu Histórico da Imigração Japonesa trata de focalizá-la de forma didática, desde a chegada dos primeiros imigrantes à adaptação de sua cultura em terras brasileiras. Rico acervo fotográfico, farta documentação, objetos, vídeos, biblioteca, tudo remete à vida dos japoneses que aqui chegaram, fixaram-se e educaram seus descendentes em meio às dificuldades que encontravam para preservar seus costumes. O trajeto parte do Tratado da Amizade Brasil-Japão de 1895, inclui a vinda, em 1908, do primeiro navio de imigrantes japoneses para o Brasil, o Kasato Maru, e passa pelo cotidiano dos japoneses, cujas comunidades se concentraram em São Paulo, Paraná e Pará, formando uma colônia estimada em mais de 1 milhão de imigrantes, além de seus descendentes. O acervo do museu reúne vários painéis, um deles reproduzindo o globo terrestre com as principais rotas dos navios que vinham do Japão para o Brasil, fotos da Segunda Guerra Mundial, maquetes, objetos utilizados nas fazendas de café e nas casas de nipo-brasileiros, réplicas de uma canoa e de uma cabana típicas da ocupação japonesa no Vale do Ribeira, com bonecos de madeira reproduzindo uma família local.
Museu Histórico da Imigração Japonesa: R. São Joaquim, 381, tel. 3209-5465. Museu no 7Ί, 8Ί e 9Ί andares. Biblioteca, no 3o andar. Metrô São Joaquim. Ingressos: menores de 12 anos, R$ 1; até 65 anos, R$ 3; estudante, meia entrada; maiores de 65, grátis. Sem estacionamento. Terça a domingo das 13h30 às 17h30.

Nos subterrâneos da história


Poucos sabem, mas há um interessante museu — o da memória do teatro paulistano — sob o Viaduto do Chá, envolto pelos jardins da Praça Ramos de Azevedo. De seu acervo constam fotos e outros registros das atividades dos teatros da cidade de São Paulo do século XIX até 1911, ano em que se concluíram as obras de construção do Teatro Municipal, e, a partir daí, também do novo teatro. Há programas da primeira apresentação no Municipal até hoje, fotos de mais de 600 artistas mundialmente renomados. que passaram por seu palco, batutas que pertenceram a maestros famosos, instrumentos musicais, sapatilhas, enfim, tudo o que foi possível recuperar em matéria da história teatral na cidade.
Museu do Teatro Municipal: Baixos do Viaduto do Chá, s/n. tel. 239-3815. Metrô Anhangabaú/Saída Xavier de Toledo. Entrada franca. Sem estacionamento. Exposição permanente de terça a domingo, das 9h às 17h. Pesquisas de segunda a sexta, das 9h às 17h.


  Livros  
Pensando a segurança


Resultado de uma fecunda parceria entre o Núcleo de Estudos da Violência da USP, a Ford Foundation e a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), a série Polícia e Sociedade aborda temas de estratégica importância para a formulação de políticas de segurança pública. Trata-se de leitura indispensável neste momento em que o Brasil, e especialmente São Paulo, são encurralados pelo crime. As obras apresentam e discutem o que de mais avançado existe no pensamento e na experiência internacionais. O já clássico Padrões de Policiamento, de David H. Bayley (trad. Renê Alexandre Belmonte, 267 páginas, R$ 25) contribui para a elaboração de uma teoria do policiamento ao analisar os aspectos fundamentais da tarefa policial, a partir de três questões primordiais —.como os sistemas policiais modernos se desenvolveram? Que tarefas cabem à polícia? Quão independente é a polícia enquanto ator social? Nova Polícia – Inovações nas Polícias de Seis Cidades Norte-Americanas, de David H. Bayley e Jerome H. Skolnick (trad. Geraldo Gerson de Souza, 257 páginas, R$ 30), analisa comparativamente os casos de Houston, Detroit, Santa Ana, Denver, Oakland e Newark. Por fim, Polícias e Sociedade na Europa, de Jean-Claude Monet (trad. Mary Amazonas Leite de Barros, 353 páginas, R$ 25) enfoca os modelos funcionais e institucionais das polícias européias frente à insegurança pessoal, ao terrorismo e ao crime organizado.

História maiúscula


Com uma menção ao espólio de Escobar, famoso personagem machadiano que Bentinho julga ter sido amante de sua mulher, Capitu, o arquiteto e urbanista Irã Taborda Dudeque, professor da PUC-PR e da Unicenp, inicia e finaliza um dos livros sobre arquitetura mais instigantes e bem escritos dos últimos tempos. Espirais de Madeira, uma História da Arquitetura de Curitiba (Editora Studio Nobel, 440 páginas, R$ 45), fruto de pesquisa produzida com apoio da Fapesp para mestrado na FAUUSP, recupera o papel da arquitetura no processo de afirmação cultural, política e econômica da capital paranaense entre as décadas de 1920 e 1990. Na verdade, somente a partir da segunda metade do século XX Curitiba supera a angústia de não ter identidade urbana, graças à arquitetura que irá projetá-la no país e no exterior. Entre outras coisas, a arquitetura curitibana, segundo Dudeque, conseguiu transformar em orgulho as construções feitas com ripas, tábuas e troncos, antes vistas com vergonha pelo paranaense, embora o estado tenha sido dos maiores produtores de madeira do mundo.

Bairros à mão


Mais de 240 bairros têm suas certidões de nascimento expostas em Bairros Paulistanos de A a Z (Editora Senac, 252 páginas, R$ 29), do jornalista Levino Ponciano. A pesquisa de Ponciano centrou-se na documentação de bibliotecas dos bairros abordados, de coleta de história oral de moradores mais antigos e da literatura existente sobre o tema. Entre outras curiosidades, o livro mostra que Sumaré é o nome de uma orquídea, também conhecida como "rabo-de-tatu".


  Painel  
Governo japonês faz doação a projeto social


Em cerimônia realizada no final de fevereiro na sede do Consulado do Japão, a Ação Local São Francisco recebeu a doação de R$ 131,2 mil do Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês para que o núcleo aperfeiçoe o trabalho de coleta seletiva de lixo desenvolvido para os catadores de papel que, ainda no ano passado, ocupavam a Praça Paulo Duarte e o Largo do Ouvidor. Também atuaram na elaboração desse projeto, que sensibilizou os japoneses por sua qualidade e seriedade, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil e a Associação dos Ex-Alunos da Fundação Getúlio Vargas, com apoio da Administração Regional da Sé e da Secretaria da Assistência Social da Prefeitura de São Paulo.

Para agilizar as reivindicações ao poder público


A Associação Viva o Centro prepara-se para implementar, ainda neste semestre, uma Central de Serviços em apoio ao Programa AÇÃO LOCAL para agilizar a chegada de reinvindicações da comunidade do Centro ao poder público municipal. A Central receberá e converterá em comunicados formais à Prefeitura reclamações telefônicas das AÇÕES LOCAIS — por exemplo, a necessidade de se substituir lâmpadas queimadas de um poste público em um determinado logradouro — para que sejam tomadas as devidas providências.

Um guia para recuperar calçadas


Uma antiga reivindicação da sociedade civil organizada de que o Centro tenha calçadas tecnicamente corretas, até para servir de modelo a toda cidade, começa a ser atendida pela Prefeitura. A Administração Regional da Sé está distribuindo a donos de imóveis em seus dez distritos o Guia para Reconstruir as Calçadas do Centro e dos Bairros Centrais.A publicação é uma realização da AR-Sé, que também assina sua coordenação, junto com o ProCentro e a Secretaria Municipal de Implementação das Subprefeituras, mediante apoio da Porto Seguro e colaboração da VIVA O CENTRO, Associação Comercial de São Paulo-Distrital Centro, Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de São Paulo e Associação Brasileira de Cimento Portland. Exemplares podem ser obtidos na sede da AR-Sé, à Avenida do Estado, 900, tel. 228-7766.

VIVA O CENTRO aposta na reciclagem


A Associação VIVA O CENTRO e o Centro de Educação Ambiental Luz (CEA Luz) uniram-se para proporcionar um curso de formação de agentes multiplicadores em coleta seletiva e educação ambiental para moradores e usuários do Centro. As aulas semanais, agendas até maio, acontecem na sede da VIVA O CENTRO e fazem parte de um programa maior da entidade, que sempre apoio ações no sentido da reciclagem de materiais.

Ranking do cidadão de carteirinha


Com o advento da lei federal 9.790/99, que criou as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), as Ações Locais, organizações da sociedade civil atuantes no Centro de São Paulo e vinculadas à Associação VIVA O CENTRO, passam a partir deste ano a adaptar-se à nova legislação para, como representantes da comunidade da região central da cidade, atuar diretamente com o poder público municipal e estadual. Para tanto, empresas, instituições e condomínios vêm credenciando representantes (Conselheiros) na Ação Local onde têm sede ou filial. Eis o ranking das Ações Locais com mais conselheiros até agora:

Conselheiros Conselheiros
Maria Paula 84
Barão de Itapetininga
Pátio do Colégio/Boa Vista
Ladeira da Memória*
41
Anhangabaú 37
24 de Maio 36
São Francisco 35
*Em formação


  Mesa  
Por que com K?

João Podanovski


Kilo e kilo’s são barbarismos indigestos a gurmês amantes da língua pátria.   Restaurante por quilo, senhores proprietários.

Aliás, essa maneira de servir tem sérios inconvenientes. Higiene comprometida pela poeira invisível que se vai depositando sobre a comida exposta; pela mesquinhez de donos reaproveitadores de sobras "de ontem"; pela incivilidade de pessoas que ajeitam os cabelos e conversam junto ao bufê, ou que chegam da rua, até do banheiro, sem lavar as mãos, e se servem com os mesmos talheres usados pela gente bem-educada. Nem toda iguaria resiste ao bufê quente: há massas que ficam molengas, peixes que passam do ponto de cozimento, molhos que se oxidam, carnes que ressecam, frituras que murcham (tão gostosas quando crocantes, como polentinhas, mandioca e batata-palito). Visual feio para os famintos da última hora, que evitam o empurra-empurra do "horário nobre".

Mas as vantagens são indiscutíveis. Rapidez, conveniente a tantos escravos do ritmo frenético da vida moderna, condenados ao antigastronômico fast-food. Economia, que começa pela inexistência de cuver e termina com a não cobrança dos 10%. O que se come por 8 ou 10 reais custaria uma pequena fortuna, se o pedido fosse à la carte. Variedade: tantas opções frias e quentes, e sobremesas – banquete completo para carnívoros e vegetarianos. Justiça, rigidamente controlada pela balança: paga-se de acordo com os gramas consumidos. E justiça educativa: sobrou no prato, pagou.

Meio Quilo

Considerando as vantagens citadas e inspirado pelo Famiglia Mancini (que usava balança, e ainda usa, para a venda de antepastos), o construtor Carlos Frank, no finzinho de 1985, resolveu montar um restaurante que servisse tudo por peso. Daí o Meio Quilo, na Lapa (Rua Albion), pioneiro de um sistema que rapidamente se espalhou pela cidade, pelo Brasil, por outros países.

Carlos, sangue alemão, contava com uma vantagem extra: a esposa Marilda, neta de italianos, consumada artista da culinária doméstica, artesanal. Anos depois, passou a contar também com a assessoria do filho Frederico, chef formado nas cozinhas de Emmanuel Bassoleil (São Paulo) e Claude Troisgros (Nova York), experiência acumulada em "Oropa, França e Bahia".

Em 1989 o Meio Quilo foi transferido para um maravilhoso casarão restaurado na Santa Cecília. Palacete aristocrático, construído no comecinho do século 20 pelo médico dr. Aratangy, consultório seu e residência sua e da família. Em 1928 o imóvel passou para o fazendeiro Adolfo Guimarães Correia, cujas filhas (herdeiras) a venderam para Carlos Frank.

Lugar lindo, confinado por verde muro-d’hera. Sete saletas reservadas para refeições. Para sobremesa e cafezinho, 30 mesas praianas no quintal-bulevar pavimentado com paralelepípedos-miracema, sombreado por velhas árvores frutíferas e um simpático pé de café.

Dona Marilda escolou bem sua equipe feminina em especialidades francesas, italianas, alemãs, chinesas, brasileiras, que compõem o extenso cardápio. A variação é diária: pratos mais sofisticados aparecem no bufê apenas uma vez por mês. Mas o arroz-feijão e as misturinhas caseiras lá estão todo dia. Feijoada, só nas quartas-feiras invernais.

Outras opções

Existem muitos outros "quilos" ótimos (dizem). Dos poucos que conheço, pouquíssimos recomendaria a um amigo. Dentre estes, no Centro:

Classe A
Largo do Arouche, 53, junto à Vieira de Carvalho, metrô República. Tel. 3333-3030. Das 11h às 16h30 ou 17h. Bufês (quente-frio) e churrascos todo dia, mais feijoada às quartas e sábados, mais bacalhaus e frutos do mar aos sábados e domingos. De segunda a sexta: R$13,90. Aos sábados e domingos: R$15.90.

Gourmet Garden
Av. São João, 126, esquina com Anhangabaú, sobre o restaurante Guanabara, metrô São Bento. Tel. 229-1605. Segunda a sexta, 11h-15h30. Comida brasileira e oriental (chinesa, japonesa). R$12.80. A primeira sobremesa é grátis.

Nova Opção Grill
Rua Três de Dezembro, 50, junto à Boa Vista, metrô Sé. Tel. 3105-5769. Segunda a sexta, 11h30-15h40. Bufês e churrascos. Preço (R$22,90) acima da média, justificado pelo uso de matéria-prima de primeira qualidade.

Bovinu’s Grill & Beer
Av. São João, 119, esquina com Anhangabaú, metrô São Bento. Tel. 3242-3820 ou 0682. Churrascaria (grande rede) que serve por peso tanto as carnes quanto os bufês quente e frio. Segunda a sexta, 11h20-15h30. R$20,80. De terça a sexta, das 18h às 22h ou mais, happy-hour com bufê de frios e petiscos, R$22,80. Sexta-feira, até meia-noite pelo menos, agitada danceteria.


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Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
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Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
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