ANO V   -   No. 24   -   dezembro 2001 / janeiro 2002
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Capa  Morar no Centro, Ao lado do ‘trabalho, perto de tudo
Ovo de Colombo  Beleza a custo zero
Reportagem  Noites escuras
Sementes de democracia
Entrevista  Mais civilidade e consciência social com Aldaíza Sposati
Em Tempo  Público terá acesso às torres da Sé
Casa de Dona Iaiá, no Bixiga, será restaurada
Agência dos Correios retorna ao Vale em 2002
Vila Buarque luta por rádio comunitária
Associação dos Advogados instala sede no Centro
Cultura  Grandes montagens em 2002
No coração do Centro
Mix  Os russos estão aí
Marília Pêra
Agitos no Masp-Centro
Cultura em quermesse domingueira
Ou melhor, brasileiros
Venite, adoremus
Osesp, temporada 2002
Música em tom maior
Livros  Perspectiva histórica
A representação na cidade
Mapa da exclusão
Comércio em foco
Olhar do coração
Contra o fashion
Design prático
Memória judaica
Mesa  A pressa é inimiga da refeição
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  Caro Leitor  
Esta edição traz algumas novidades que, esperamos, o agradem. As reportagens, de modo geral, estão mais concisas, sem perda de substância e clareza. A partir de agora, a matéria de Capa poderá ser mais longa (caso desta edição) ou breve desde que possa dar conta de sua proposta de avançar fundo no que investiga. A seção Mesa perde o seu formato tradicional e passa a inserir-se numa subseção, Mix, pertencente à seção Cultura. Estamos certos de que, com perdão do trocadilho, não perderá sabor. Enfim, urbs é uma espécie de obra aberta, como o são as cidades, e outras inovações poderão vir, sempre em benefício do leitor.

Morar no Centro, habitar a região mais bem equipada da metrópole e que, não obstante, perde população e ostenta dezenas de milhares de imóveis residenciais vazios. O que impede uma política vigorosa (não meras intervenções pontuais) de moradia nessa área privilegiada? A péssima iluminação pública é outro escândalo urbanístico paulistano a ganhar reportagem nesta edição. Mas ânimo, leitor — há cada vez mais energia em movimento. ONGs que surgem em vários pontos da cidade lutam para melhorar a rua, o bairro, a região, a cidade inteira, tendo em muitos casos a VIVA O CENTRO como inspiração e modelo.

O editor pediria especial atenção para as duas reportagens de Cultura e a entrevista com a vereadora Aldaíza Sposati, cujo interesse e esforço pela causa pública vai além de sua (notável) atuação como vereadora. E estamos certos de que gostará do inteligente e sensível ensaio em que o professor Roney Cytrynowicz estuda os lugares que ancoram a memória paulistana ou podem vir a fazê-lo, se devidamente valorizados. Aproveite a revista, caro leitor, não sem antes receber nossos melhores votos de feliz Natal e de um ano de 2002 com muitos e fecundos problemas para, como cidadão de São Paulo, ajudar a resolver.

O editor


  Cartas  
Correção

Vimos por meio desta fazer uma ressalva à reportagem Memória da Energia, de Ana Francisca Ponzio (urbs nº 23): a equipe de arquitetos responsáveis pela recuperação da construção sita à Alameda Cleveland, 601, que foi citada (Danilo Cauvilla, Mariana Rolim e Roberta Martins Silva) está trabalhando sob a coordenação dos arquitetos responsáveis pelo Programa de Patrimônio Arquitetônico da FPHESP, que são Edméa Fioretti Mateu e Lucas Otavio Rotta.

Edméa F. Mateu e Lucas O. Rotta
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Cumprimentos

Gostaria de cumprimentá-los pelo excelente padrão da revista. Os artigos estão excelentes, de uma beleza gráfica e conteúdo excepcionais. Aceitem os nossos parabéns e continuem nesse caminho... é o correto.
José Ramos de Almeida, diretor
Saint Jean Cap-Ferrat Viagens e Turismo
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Desrespeito

Um recado à Prefeitura: as (poucas) vagas de estacionamento para carros de deficientes físicos não estão sendo respeitadas no Centro. As da Rua Sete de Abril são invadidas por taxistas e, nas da Rua Conselheiro Crispiniano, já me deparei até com uma caçamba. A vaga da Rua do Arouche, ao lado do metrô, é quase sempre ocupada por um carrinho de camelô. Certo dia tive que deixar o carro perto da Avenida Duque de Caxias e caminhar até a Praça do Correio.
Alcione Caxambu
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Atenção, autoridades

Não é só reformando, pintando e plantando que melhoraremos o Centro da cidade. Acredito que o principal não está se fazendo. É preciso uma política duríssima para transformar o Centro no que foi um dia. Uma cidade acolhedora e agradável de se morar. Abaixo dou alguns exemplos e emito algumas opiniões. 1) A violência está atingindo níveis alarmantes. Exemplos: na esquina da Barão de Itapetininga com a Praça da República, todos os sábados e domingos agem pelo menos dez ladrões. Já vi pelo menos uns trinta assaltos ali e muito raramente você vê polícia. Em dia de pagamento basta fazer plantão e você vê velhinhos sendo jogados no chão e pessoas em geral sendo roubadas. Tem um fliperama na Praça Júlio Mesquita que é o maior antro de ladrões e traficantes. Durante a semana é só passar em frente que dá para ver dezenas de delinqüentes (menores e maiores) na porta ou dentro dessa casa de jogos; 2) Aumentou também o número de menores cheirando cola na rua. Eles andam em bando e muitas vezes ameaçam as pessoas. O estranho é que isso recomeçou de dois anos para cá, pois havia tempo em que não se via menor algum cheirando cola; 3) Praça da República à noite, não é preciso nem falar. O que precisa ali, urgente, é colocar uma guarita com pelo menos dois policiais 24 horas por dia, dentro da praça e não em volta; 4) O número de pedintes é outro fator que aumentou. Você não consegue andar dez minutos que aparece alguém pedindo ou explorando crianças, obrigando essas a pedir dinheiro (muitos não aceitam pão ou comida e só querem dinheiro); 5) Bancos de praça são feitos para mendigos dormirem. Muitos velhinhos que passeiam pelas praças de São Paulo não têm onde se sentar, simplesmente porque os mendigos transformam esses bancos em camas; 6) Falta fiscalização no sentido da higiene, pois muitos moradores saem com seus cães que fazem as necessidades nas calçadas e os mesmos não se dão ao trabalho de recolher; 7) É impressionante o número de camelôs no Centro. Eles estão se espalhando por toda a cidade. Você simplesmente não consegue andar em algumas ruas. Eles não respeitam o espaço do pedestre; 8) Com relação à limpeza, é só passar aos domingos pelas ruas do Centro e verificar que em alguns locais a população não respeita aquela lei de que é proibido colocar lixo nesse dia. Resultado: os mendigos rasgam os sacos de lixo, espalhando o que tem dentro pelas calçadas, deixando um mau cheiro terrível. Também não adianta ligar para o Disk-Sujinho, que, ou ninguém atende, ou está sempre ocupado. Fico triste, pois poderia enumerar muitos outros itens que estragam a nossa cidade e, como já observei, não é fazendo uma reforma simples que mudaremos esse contexto e sim agindo duramente sobre os problemas. Obs.: Sei que a Prefeitura não tem competência para resolver alguns problemas, como colocar segurança policial nas ruas, mas na campanha da prefeita Marta Suplicy o que mais se falou foi sobre uma união dos governos municipal e estadual no sentido de solucionar esses problemas.
E. P. S.
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  Capa  
Morar no Centro, Ao lado do ‘trabalho, perto de tudo

Com crescimento demográfico negativo e 54 mil habitações vazias, área central de São Paulo — quando for requalificada — pode tornar-se o melhor espaço residencial da cidade


O Centro tem completa infra-estrutura de serviços públicos, escolas de alto nível, comércio variado, lazer e entretenimento, parques e praças. Sete estações de metrô, duas de ferrovia e quatro grandes terminais de ônibus garantem a mobilidade. Além disso, possui charme. É uma região monumental, repleta de edificações históricas e cenários urbanos impactantes, como o Vale do Anhangabaú. Bom para morar? Claro. Em qualquer grande cidade do mundo, um apartamento nesse torvelinho urbano seria disputadissimo, como acontece em Manhattan, em Paris, nos distritos centrais de Buenos Aires. Pois em São Paulo, não. O Centro vem sofrendo um processo de perda de população há pelo menos 20 anos. Saem os moradores, vão-se também lojas, cinemas, restaurantes. É verdade que estão chegando novos estabelecimentos, inclusive shoppings diferenciados e elegantes, como o Light — mas não novos moradores em número que compense os que se foram. Com tantos atributos favoráveis, o Centro foi abandonado pelas administrações municipais recentes, perdeu investimentos e viu seus calçadões, avenidas e praças ser tomados pela sujeira, pelo descaso, pelo comércio irregular. O Centro seria um excelente local de moradia se voltasse a ser ordenado, limpo e bem conservado como os centros de que se falou acima.

Entre os dois últimos censos do IBGE, 1991 e 2000, os distritos Sé e República, que compõem o Centro, perderam um total de 17.418 moradores. Hoje concentram em torno de 67 mil habitantes, 22% menos que no início da década de 90. A quantidade de imóveis residenciais vazios também impressiona: são nada menos que 54.733 nos dez distritos — Sé, República, Bela Vista, Santa Cecília, Liberdade, Bom Retiro, Consolação, Pari, Brás e Cambuci — que formam a jurisdição da Administração Regional da Sé (AR-Sé), sobre um total de 210.458 (ver o quadro). Em todo o município de São Paulo cerca de 420 mil imóveis residenciais estão vazios, sobre um total de 3.551.000. São números alarmantes. A arquiteta Valéria Bomfim, colaboradora do Escritório Piloto de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, coordenou uma pesquisa sobre as condições residenciais do Centro, cujos resultados surpreendem. "Na região da Sé verificamos uma média de 30% de vacância em edifícios residenciais e comerciais, numa variação de 9% a 50% por imóvel. O padrão internacional de tolerância para imóveis vagos é de no máximo 5%", disse a urbs.

Um urbanista estrangeiro que nunca houvesse estado em São Paulo se espantaria ao constatar que o mesmo território privilegiado que concentra equipamentos culturais de excelência como o Complexo Cultural Estação Júlio Prestes, a Pinacoteca do Estado e o Centro Cultural Banco do Brasil é desprezado como local de moradia. E simplesmente se chocaria caso, desembarcando aqui, visse com os próprios olhos a razão desse escândalo urbanístico: o abandono do Centro não apenas pelos altos escalões dos governos, mas pelos responsáveis pela mais corriqueira e banal gestão cotidiana —varrer, lavar, desimpedir espaços públicos, multar infratores, reparar equipamentos e pisos, trocar lâmpadas de postes, cuidar da grama dos jardins — que qualquer cidade civilizada desempenha bem e sem alarde. Comprovará, então, que as pessoas querem, sim, estar vizinhas aos grandes recintos sinfônicos, teatros, museus, comércio diversificado, paisagens de rara beleza, palácios históricos, centenas de restaurantes e bares. Mas não aceitam caminhar em calçadas esburacadas e invadidas por milhares de camelôs. Querem a praticidade do metrô a poucos passos de casa, os serviços de todo tipo, a proximidade com o local de trabalho, mas não se conformam em conviver com toneladas de lixo depositadas no meio-fio em qualquer horário, nem com as praças despoliciadas e descuidadas a ponto de não serem utilizadas pela população. Claro, todos gostariam de desfrutar o clima metropolitano, os bares e restaurantes, o amplo calendários de artes e espetáculos, os (poucos) cinemas e os (muitos) teatros, o fantástico Mercado Municipal. Mas não suportariam deparar-se diariamente com mais e mais monumentos e edifícios pichados sem que as autoridades sequer procurem saber quem são os vândalos — quanto mais puni-los.

Diagnóstico

Mas há urbanistas estrangeiros que não se chocaram. Um deles, o espanhol Jordi Borja, prestigiado por seu trabalho na reforma urbana de Barcelona por ocasião dos Jogos Olímpicos de 1992, esteve muitas vezes em São Paulo e fez seu diagnóstico: o Centro, junto com um certo número de bairros centrais, tem um imenso potencial para absorver uma população adicional heterogênea, de todas as faixas sociais e culturais, habitando edificações de variada tipologia e usando intensamente todos os equipamentos e serviços da área, animando-a dia e noite. Para tanto bastaria, como ponto de partida, o poder público intervir decididamente para melhorar as condições ambientais, estimular a recuperação de edifícios vazios ou semi-arruinados e a construção de outros, recuperar os parques, tornar a região mais atraente e segura.

A plena ocupação residencial do Centro é muito mais do que um item de política habitacional. É um instrumento de requalificação e refuncionalização da área mais importante, histórica e democrática da cidade. No entanto, ao cumprir essa função, passaria a ter um papel relevante na política habitacional do município, ao induzir o mesmo tipo de ocupação residencial qualificada em bairros contíguos hoje desprezados pela atividade imobiliária e cheios de imóveis vazios. Aos poucos, esse efeito de contágio iria se alastrando. Não querendo ou podendo morar perto do local de trabalho e das atrações do Centro, o indivíduo procuraria ficar próximo a uma estação de metrô que o leve em alguns minutos à, por exemplo, Praça da Sé. Isso não significa que as populações que hoje se aglomeram nas trágicas periferias venham morar mais perto em condições melhores, mas sim — se o plano de recuperação da área central for inserido numa política abrangente de habitação — que se pode deflagrar um processo mais racional de ocupação daquela metade da mancha urbana já dotada de todos os requisitos urbanos — infra-estrutura de saneamento e comunicação, transporte, escolas, hospitais, abastecimento — que faltam na outra metade e cuja implantação estaria, hoje, muito acima das possibilidades mais otimistas do erário público.

Um projeto habitacional para o Centro, que contemple moradia social para as camadas mais pobres e apartamentos de padrões diversificados para a classe-média, precisa contar com eficientes instrumentos legais e urbanísticos para que consiga recuperar as habitações subnormais — cortiços horizontais e verticais —, garantindo a permanência de seus ocupantes, e estimular investimentos privados em retrofit e construção de edifícios. Ao mesmo tempo, terá que de algum modo recolocar no mercado os imóveis vazios, para aliviar o déficit habitacional e equilibrar os preços de locação e venda. Nos dois casos, a Prefeitura já dispõe de leis que lhe dão condições para dar início a um plano habitacional na área.

Uma dessas peças, o Estatuto da Cidade, de âmbito federal mas cuja aplicação cabe às prefeituras, onera os proprietários que mantêm vagos os seus imóveis. "A simples aplicação do Estatuto teria força para colocar os imóveis residenciais hoje vagos no mercado imobiliário, já que ele prevê diversas formas de penalidades, que vão do IPTU progressivo no tempo à desapropriação para quem não der um uso social à propriedade", diz o advogado Nelson Saule, especialista em direito urbanístico e presidente do Instituto Pólis. "E a colocação de um grande número de imóveis no mercado com certeza reduziria os preços de locação e venda e poderá dar início a uma redefinição do quadro residencial paulistano". Outro instrumento é a lei 12.349/97, da Operação Urbana Centro, que concede incentivos para investimentos no Centro e em parte do bairro central do Brás, reservando um capítulo para imóveis residenciais — a construção de novos e a recuperação de antigos, desde que sejam considerados de interesse do patrimônio histórico. Prevê, entre outras possibilidades, o uso de até 12 vezes a área do terreno para edifícios de apartamentos, dispensando-os da obrigatoriedade de incluir garagens. Em vigor desde 1997, a lei ainda não apresentou os resultados esperados, provavelmente porque, apesar dos incentivos, o investidor ainda hesita diante do abandono da região, que a Prefeitura não conseguiu reverter até agora. Não é difícil imaginar que, se o Centro atrair interessados em nele fixar residência, os investimentos virão, sim — e pesadamente.

Por que, então, a Prefeitura não divulga massivamente a Operação Urbana Centro aos empresários da construção civil, inclusive do Exterior, já que o resultado seria um inestimável benefício à região, à cidade e aos cidadãos que procuram melhores condições de moradia? Maurício Faria, presidente da Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, gestora da Operação Urbana Centro, diz que tudo vai bem com a Operação: "Ela constitui-se num forte incentivo à atividade imobiliária e ao uso habitacional do Centro". Ele acredita em que o baixo desempenho da lei é devido mais às complicações burocráticas e aos custos ainda elevados na região do que ao desinteresse do mercado. Tanto que, quando ocorre uma feliz compatibilização de custos e de preços, ajudada por uma rápida tramitação burocrática, como no caso de dois edifícios de médio padrão recém-concluídos na região do Glicério, os resultados são muito bons. "Os incorporadores se surpreenderam com a rápida comercialização das unidades, adquiridas por pessoas que trabalham no Centro. O terreno foi relativamente barato". Segundo Faria, a racionalização dos custos é fundamental para baratear os preços. Mesmo assim, diz, "pelo preço de um apartamento pequeno na periferia pode-se hoje adquirir um apartamento bem maior no Centro".

Moradia social

Enquanto as indefinições que cercam as operações urbanas (serão 13 nos próximos anos, segundo a proposta de Plano Diretor em elaboração pela Secretaria de Planejamento) e o próprio Plano Diretor ameaçam inibir ainda mais o mercado, a Prefeitura dá início a alguns programas de habitação social. Um deles, custeado com recursos do Plano de Arrendamento Residencial, PAR, da Caixa Econômica Federal, já entregou um primeiro edifício totalmente reformado a 54 famílias com renda de até seis salários-mínimos. O programa consiste no arrendamento da unidade por 15 anos com opção de compra no final. Dos 42 edifícios incluídos no PAR em todo o Estado, quatro estão no Centro de São Paulo. Em 2002 está prevista a entrega de um com 75 unidades na Rua Maria Paula e outro, com 167, na Avenida Prestes Maia, ambos com projeto do escritório da arquiteta Helena Saia. Comparando-se à demanda reprimida (o déficit habitacional) e à superoferta não aproveitada de imóveis, os programas municipais não vão apresentar, nem no melhor dos casos, números que modifiquem o quadro vigente. Se bem-sucedidos, deverão ajudar a ocupação residencial do Centro, jamais fazê-la sozinhos. Para uma reversão do panorama, falta desenvolver a outra parte do processo, a ativação do mercado de locação e venda.

Dito assim, pode parecer que mercado e habitação social são compartimentos que não se comunicam ou interagem. Pelo contrário. A administração pública e as leis podem, e devem, favorecer a inserção de segmentos de baixa renda no mercado, seja incentivando a locação ou compra dos imóveis hoje vagos, seja onerando os que insistem em permanecer vazios. O ideal é que boa parte da demanda por moradia popular seja atendida pelo mercado. Dessa forma, a propriedade imobiliária estaria cumprindo a sua função social. "No Centro há cerca de 200 prédios vazios e 10% dos imóveis são usados como estacionamento. Uma das formas de ocupação, ou de pressão para que os imóveis ingressem no mercado, contribuindo para baixar os preços, seria não isentá-los do pagamento de IPTU", afirma o arquiteto e vereador Nabil Bonduki, presidente da Comissão de Estudos sobre Habitação na Área Central, da Câmara Municipal. Esta recomenda que a recuperação da região seja feita sem exclusão social, principalmente no caso da moradia. "Para que isso ocorra", diz um relatório da comissão, "é preciso primeiro concretizar alguns pré-requisitos, tais como assegurar subsídios para a população de baixa renda, revisar e alterar a legislação vigente de modo a tornar mais ágil e barata a produção habitacional, e garantir o acesso à terra e sobretudo aos imóveis subutilizados". Seriam necessárias ainda novas estratégias e parcerias, reformular o que está ruim e suprimir o que não funciona. É o caso do Fundo Municipal de Habitação, criado para dar sustentação financeira à política habitacional da Prefeitura. A própria Prefeitura reconhece que o fundo não cumpriu o seu papel social ao seguir regras, diretrizes específicas e normas financeiras semelhantes àquelas do Sistema Financeiro de Habitação. Sem flexibilidade, já que atende um público algo à margem do mercado, o fundo se asfixia em suas próprias regras. Seria necessária uma revisão que lhe desse regras mais flexíveis. Recentemente a Prefeitura divulgou um projeto que, aprovado pela Câmara, permitirá que esta aceite imóveis como pagamento de dívidas, repassando-os aos programas de moradia.

De qualquer forma, as soluções serão obrigatoriamente múltiplas e até combinadas. Mercado, políticas públicas, aluguel social (em vez de apenas arrendamento ou venda), conversão de uso e retrofit de imóveis e construção de novos em áreas demolidas. "É preciso fazer um inventário de todos os imóveis vazios da região, ver o que pode ser aproveitado e, no caso de construções muito degradadas, optar pela demolição. Seria possível demolir áreas inteiras em bairros centrais como os Campos Elíseos, obtendo-se os terrenos para uma reurbanização de boa qualidade", acredita Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio, Embraesp.

Para o secretário municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Paulo Teixeira, os números dos dois últimos censos, acusando um crescente processo de centrifugação demográfica no Município, com o esvaziamento dos bairros consolidados do chamado Centro expandido e o adensamento sem qualidade urbana e de vida nas periferias, são uma indicação segura de que a política habitacional da Prefeitura tem que passar pela recuperação da área central. "É fundamental trazer para o Centro e os bairros centrais as pessoas que neles trabalham". E aqui se incluem os que residem precariamente nos extremos da cidade ou segmentos da classe média que poderiam encontrar, nesses bairros centrais, condições de habitação e de mobilidade bem melhores que as habituais em sua faixa de renda.

Classe média

Mas a área central e o Centro, ressalva Teixeira, não têm garagem nos prédios, e isso afastaria a classe-média. Para o especialista em mercado imobiliário Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, da Adviser Consultores, trata-se de um problema real. "São Paulo tem hoje um veículo para dois habitantes. Mesmo pessoas de baixa renda têm a sua Brasília. A falta de garagem na maioria dos edifícios é um dos fatores que dificultam o interesse dos incorporadores em investir no Centro". Por essa e outras carências, os imóveis da região são excessivamente caros, ainda que o seu preço seja baixo em comparação com outros bairros. No entanto, é preciso ressaltar que a lei que proibia a construção de garagens no Centro, inclusive as verticais de uso coletivo, já foi revogada. A Operação Urbana Centro concede incentivos à construção de garagens e, além disso, nem toda a população residente da área tem o clássico perfil do "cativo do automóvel". Como em qualquer centro de metrópole, a área central de São Paulo é, e pode vir a ser cada vez mais, local de moradia de estudantes, aposentados, artistas e pessoas que não dependem de grandes deslocamentos para trabalhar. Os que necessitam podem contar com o metrô e, caso tenham mesmo que usar o carro, o farão sempre no contrafluxo do rush diário — enquanto a maioria segue no sentido bairro-Centro ou vice-versa, eles disporão de ônibus e pistas vazios na direção oposta.

A moradia pode ser o grande argumento, a lógica irrefutável para a requalificação da área central. Se é de democracia que se trata, o Centro é o lugar de coexistência das mais diversas camadas sociais. Se a questão é o acesso facilitado à cultura, à diversão e ao estudo, novamente é o Centro o único a oferecer um amplo leque de ofertas sempre acessíveis a todos os bolsos. Transporte? É o principal nó de interconexão de metrô, ferrovia e ônibus. "Há, obviamente, interesse em morar na área central, e isso não só em relação aos contigentes de menor renda mas também à classe-média", assegura Eduardo Della Manna, diretor executivo do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Comerciais e Residenciais de São Paulo, Secovi. O arquiteto Haron Cohen, professor da Fundação Armando Álvares Penteado, é um paulistano de classe-média nascido na Mooca e que passou 45 dos seus 65 anos morando no Centro. Ocupa um amplo apartamento na Avenida São Luís e mantém seu escritório no edifício do Instituto de Arquitetos do Brasil, na Vila Buarque. "Quem mora no Centro não perde tempo, já que aqui há de tudo. Desço do meu escritório e há um bar logo embaixo. Além da comodidade há a segurança, devido talvez ao movimento intenso da região. É um dos lugares menos violentos da cidade", diz. Apesar de projetado pelo famoso arquiteto Gregori Warchavchik, o edifício da São Luís não tem garagem — e nem faz falta. Cohen vai a pé ao trabalho e ao Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, para ouvir música. Livrarias, bares, supermercados e mercearias, restaurantes, bancos, tudo está ao alcance de uma caminhada. O arquiteto é um crítico severo do abandono do Centro e da ocupação especulativa das margens do Rio Pinheiros. A prosseguir nessa tendência, São Paulo se tornará uma metrópole sem centro, única no mundo, acredita. "Claro que o Centro empobreceu, perdeu cinemas e restaurantes, embora subsistam endereços ilustres como o Ca’d’Oro. Muita gente se foi. Minha rua, porém, continua mais ou menos a mesma. Mas noto, na esquina com a Ipiranga, um número crescente de ambulantes. Instalam-se duas ou três barraquinhas e em alguns meses está tudo lotado. Caso não se faça algo, as pessoas irão mesmo embora. É preciso mudar o uso que se faz do Centro, trazer empresas de vulto, instituições de ensino superior. É fundamental fazer com que os jovens vivenciem o Centro".

A também arquiteta Cecília Scharlach mora há 20 anos "na cidade" — como ela define a região entre Pacaembu, Higienópolis e Santa Cecília onde fica sua rua, a São Vicente de Paula. Com carteira de habilitação mas não dirigindo, ela nunca precisou mesmo do carro. O metrô a deixa no Centro e em outros pontos da cidade em alguns minutos. A região, para ela, ainda tem uma escala mais humana e aconchegante do que o resto da cidade. "Antes que a administração municipal abandonasse o Centro, as pessoas tomavam chope ao ar livre na Praça D. José Gaspar, frequentavam o bar Redondo, o Teatro de Arena, o restaurante Baiúca", recorda. Considera um marco de abandono a saída do Instituto de Educação Caetano de Campos da Praça da República — "de repente o Centro deixou de ter colegiais". Colaboradora de Oscar Niemeyer no projeto do Memorial da América Latina e no engavetado plano da urbanização das margens do Tietê, na gestão Jânio Quadros, Cecília gosta de freqüentar o Clube Inglês, na Rua Visconde de Ouro Preto, fundado no final do século XIX. Quem diria que no Centro de São Paulo há um clube com várias quadras de tênis? Para Cecília, esse sentido de surpresa é um dos encantos da região, que já tem equipamentos culturais invejáveis. E pode ter mais. "Acho fantástico que o Sesc tenha comprado o prédio da Mesbla, na Rua 24 de Maio, para convertê-lo numa de suas unidades de cultura e lazer. É fundamental atrair as pessoas, e principalmente a juventude, para dar mais vida ao Centro".

Menos moradores

Variação de população na
área central de São Paulo 1991/2000
Distritos Variação %
Bela Vista -12,09
Bom Retiro -26,47
Brás -26,93
Cambuci -22,79
Consolação -18,45
Liberdade -18,88
Pari -31,82
República -17,89
Santa Cecília -17,15
-26,04
Potencial adormecido

Número de domicílios e de domicílios
vagos por distrito na área central de São Paulo
Distrito Total de Domicílios Domicílios vagos
Bela Vista 33.848 8.846
Bom Retiro 10.807 2.488
Brás 11.622 3.270
Cambuci 11.370 2.350
Consolação 29.577 7.961
Liberdade 29.392 7.177
Pari 5.817 1.414
República 30.849 9.711
Santa Cecília 36.171 9.611
11.410 3.689
TOTAL 210.458 54.733


  Ovo de Colombo  
Beleza a custo zero




Com toda certeza, a bela forma criada pelo arquiteto João Filgueiras Lima para os abrigos e terminais de ônibus da cidade de Salvador perdeu toda a delicadeza ao ser transplantada para São Paulo, sem qualquer preocupação com as características do logradouro — o atravancado e compacto Largo do Paissandu — e o caráter histórico de algumas construções vizinhas, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, cuja visão é parcialmente obstruída por esses abrigos teoricamente certos, mas no lugar errado.

Moldadas em cimento pintado de verde e permanentemente cobertas por cartazes e pichações, as réplicas paulistanas das aladas formas do arquiteto carioca são um exemplo de como uma boa solução plástica pode tornar-se grotesca e inadequada. Filgueiras Lima, o Lelé, querido e admirado colaborador de Oscar Niemeyer e autor de obras-primas como o Hospital Sarah, em Brasília, não merecia homenagem tão desastrada, e nem o paulistano — cuja cidade se enfeia a cada dia — tal tipo de equipamento público .

Solução? Demolir os abrigos do Paissandu (há outros do mesmo modelo pela cidade) e substituí-los por modernas coberturas em alumínio e acrílico iguais às que já existem em muitas ruas e avenidas, instaladas por uma empresa privada, que lucra com a publicidade comercial, e — muito importante — sem qualquer custo para a Prefeitura.

* Esta seção destina-se a apontar problemas cuja solução é simples e de baixo custo, podendo ser providenciada sem complicação e perda de tempo pela Prefeitura.



  Reportagem  
Noites escuras

O racionamento de energia só veio agravar a precária iluminação pública da cidade e, principalmente, do Centro

FEDERICO MENGOZZI
Fotos de Marcelo Santos


Uma cidade às escuras talvez sensibilize um diretor de filmes noir, repletos de mulheres fatais, humphrey-bogarts e falcões malteses, mas não interessa, definitivamente, a seus habitantes. Quando a iluminação pública é precária, as condições de circulação, habitabilidade e segurança se agravam. Sem contar que a metrópole fica mais triste e perde muito de sua personalidade, de sua qualidade de vida. Enfim, embrutece. Não à toa, um dos filmes mais brilhantes de Charles Chaplin se chama Luzes da Cidade (City Lights), como a dizer que uma metrópole é, sobretudo, luz. Racionamento à parte, por problemas que vão do tipo de iluminação em vigor à manutenção do equipamento existente, São Paulo está um pouco sombria. Além de as lâmpadas de vapor de mercúrio não serem as mais eficientes, nem sempre a substituição das unidades queimadas ou o conserto dos postes de iluminação é providenciada com a presteza que uma metrópole exige. Resultado: um cenário de filme noir à procura de um diretor.

Se depender do Programa Nacional de Iluminação Pública Eficiente, o Reluz, que prevê a substituição de 420 mil lâmpadas de vapor de mercúrio, e acessórios, por lâmpadas de vapor de sódio — um custo de R$ 140 milhões que não onera diretamente a Prefeitura —, a escuridão de São Paulo está com os dias contados. "É a grande iniciativa da Prefeitura na área da iluminação pública", diz o engenheiro Newton José Guaraldo, diretor do Departamento de Iluminação Pública de São Paulo, o Ilume. "O projeto foi elaborado com a Eletropaulo e, tanto técnica quanto financeiramente, foi aprovado pela Eletrobrás. Só está faltando a assinatura do contrato entre a Eletropaulo e a Eletrobrás, que pode sair a qualquer momento — a papelada está em Brasília. Na seqüência, virá o contrato entre a Eletropaulo e a Prefeitura." Em dois anos, a cidade estará 40% mais iluminada e economizará 35% em energia, ou 185,3 mil MWh/ano. Detalhe: sem desembolsar nada, já que a amortização se fará, em cinco ou seis anos, pelo repasse do custo da energia utilizada atualmente.

Perigo nas ruas

Assim, graças à redução do consumo que as lâmpadas amarelas propiciam, as noites da secretária Penita Cuschnir serão mais iluminados. Ela mora na Rua Maria Antonia há quase 30 anos e, em parte pela insegurança que a falta de iluminação gera, é um dos habitantes do Centro que se enclausuram em casa. "Depois das 22h, evito sair. As ruas ficam desertas e, em alguns pontos, como a Praça Roosevelt, são perigosas." Para Penita, a falta de iluminação altera a rotina da população. "As pessoas estão deixando de ir ao Teatro Municipal. Quando chegam, há as luzes do Extra, o antigo Mappin. Ao sair, o magazine está às escuras e é preciso andar algumas quadras para pegar o automóvel. Dá medo." A microempresária Nadir Khouri, mulher do cineasta Walter Hugo Khouri, mora na Rua Martins Fontes há 40 anos. De sua cobertura, gostava de contemplar a cidade. "Parecia Nova York. Agora, também em função do racionamento, São Paulo virou uma cidade fantasma. Evito passar em lugares mais escuros. Iluminação é segurança."

O programa Reluz dispõe de R$ 1 bilhão para melhorar 8 milhões de pontos de luz, de um total de 14,5 milhões, e instalar mais 1 milhão de pontos em todo o país. Ao lado da maior eficiência do sistema de iluminação pública, propiciando o aprimoramento do item segurança, o programa foi criado para economizar energia. Implantado, a economia equivalerá à potência da usina nuclear de Angra I, ou R$ 270 milhões por ano — é o consumo anual com iluminação pública das regiões Norte e Nordeste. A Eletrobrás responde pela administração e financiamento do programa, em parceria com a Agência Nacional de Energia Elétrica, Aneel, e as concessionárias locais. Os recursos têm a participação do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, Bird. Em parte pela dívida que tem com a Eletropaulo, São Paulo demorou a se vincular. "Não houve interesse político", diz Guaraldo. "Desde 1996, o município não pagava as contas de energia. Dívida que soma R$ 500 milhões."

Enquanto o programa, lançado em junho de 2001 e em ação desde o início deste ano, não começa, a Prefeitura está agindo e já trocou, no quadrilátero piloto do Plano Reconstruir o Centro — delimitado pelas ruas Conselheiro Crispiniano e Sete de Abril e avenidas Ipiranga e São João — as lâmpadas de vapor de mercúrio por lâmpadas de vapor de sódio. Além de substituir a luz branca pela amarela, favorecendo a criação de uma atmosfera menos impessoal, a lâmpada de vapor de sódio é, de acordo com Guaraldo, mais econômica (24%) e eficiente (30%). Da mesma forma, independentemente do Reluz, o Ilume instalou cerca de 2.100 novos pontos apenas de janeiro a março. Em seguida será melhorada a iluminação da Avenida São João e do Largo do Paissandu. Mas, já que São Paulo é mais um município vinculado ao programa (no total, são 1.743 municípios), é lícito aguardar um trabalho de maior, digamos, visibilidade. Guaraldo destaca que a iluminação não é, como se apregoa, segurança, e sim um instrumento de segurança. "Nem sempre luz espanta bandido."

Não iluminam

Sim, o programa Reluz é a "grande iniciativa da Prefeitura na área da iluminação". E, ao que parece, a questão da iluminação em São Paulo termina aí. Ao contrário de outras metrópoles, como Barcelona, na Espanha, onde se fazem estudos para encontrar soluções mais inteligentes para a iluminação pública, que favoreçam tanto o leito carroçável das ruas quanto as calçadas, eternamente dependentes dos "restos" de luz que vêm dos postes ou das vitrinas, desconhecem-se, em São Paulo, iniciativas governamentais nesse sentido. É assim que ninguém sabe exatamente o que fazer com as antigas luminárias ornamentais que constituem uma das "caras" da cidade. Há quem as julgue belas e ou feias, mas a opinião unânime é que, feias ou belas, pouco iluminam, já que não são espelhadas e a luz, dirigida para cima, se perde. "Os cidadãos gostam dessas luminárias, que são tombadas pelo patrimônio histórico". São centenas na cidade, praticamente todas no Centro", diz Guaraldo.

O que fazer com as luminárias ornamentais? Para o designer Fernando Campana, um dos irmãos Campana, estrelas do design brasileiro contemporâneo que já expuseram no Museu de Arte Moderna de Nova York, tais luminárias dão identidade a São Paulo e, claro, devem ser preservadas. Obviamente, não espalhadas pela cidade, mas agrupadas em certos trechos, na área mais antiga, como a Praça Ramos de Azevedo, onde já se encontram, e até em bairros mais tradicionais, como o Brás. "As luminárias ornamentais podem conviver com outros tipos de iluminação. Sem problemas. Desde que estejam juntas e integradas ao entorno, favorecendo a criação de uma iluminação mais poética. Seria impossível colocá-las, por exemplo, ao longo da Avenida Luís Carlos Berrini. O resultado seria fake." Para entender o que seria uma iluminação mais poética, basta evocar os pastéis nos quais, nos anos 70 e 80, Gregório Gruber fixou a paisagem urbana paulistana. Neles, aqui e ali, figuram os postes de ferro que iluminaram a velha São Paulo.

Campana cita a iluminação do bairro do Leblon, no Rio, como exemplo do que pode ser feito aqui. "Ao lado de uma iluminação direta para a rua, dando segurança ao tráfego, a luz é rebatida, indiretamente, para a calçada, beneficiando também os pedestres. O resultado é sutil, balanceado por uma luz uniforme." O projeto da iluminação do bairro carioca é do designer Guto Índio da Costa — Campana aceitaria, sim, o desafio de criar um novo projeto de iluminação pública para o Centro paulistano. Ele trabalha no bairro de Santa Cecília e confessa gostar do Centro, já que é a região central a que mostra "como pulsa uma cidade". Por enquanto, esta pulsa "escuro", já que houve um corte de 18,4% na iluminação pública. Ainda assim, bem menos do que os 35% exigidos pelo plano de racionamento do governo federal. As novas metas definidas pelo governo federal, vigentes a partir de dezembro, aliviam consideravelmente a situação. Para Guaraldo, fica ainda mais fácil argumentar para manter a cidade acesa. "A energia elétrica empregada em iluminação pública representa 1% do gasto total de energia." Ou seja, a escuridão nas ruas tem um custo social alto para uma poupança irrisória.


  Reportagem  

Sementes de democracia

Cada vez mais os paulistanos se mobilizam em ONGs para recuperar áreas degradadas e melhorar a qualidade de vida



Em junho de 1859, nos campos próximos ao rio Mincio, na Lombardia, norte da Itália, defrontaram-se as forças francesas e piemontesas contra as forças austríacas — a batalha de Solferino, um dos combates da campanha pela unificação italiana. De um lado, 135 mil soldados; do outro, 140 mil. O resultado da batalha foi favorável aos exércitos aliados, mas a tragédia foi geral: 13 mil baixas entre os franceses e os piemonteses; 18 mil entre os austríacos. O filantropo suíço Henri Dunant já havia constatado, na guerra da Criméia, o trabalho da enfermeira inglesa Florence Nightingale e a dificuldade de salvar vidas no campo de batalha. Depois da carnificina de Solferino, empenhou-se pessoalmente para, durante a Convenção de Genebra, em 1864, criar a Cruz Vermelha Internacional, uma instituição fundada para ajudar as vítimas de guerras e também atuar em tempos de paz. Sim, uma ONG, num tempo em que não se falava em ONGs, ou organizações não-governamentais.

Em 1901, Dunant, a quem chamaram de o "homem que, em seu século, alcançou os maiores méritos para com a Humanidade", ganhou o primeiro Prêmio Nobel da Paz, junto com o pacifista francês Frédéric Passy. De lá para cá, algumas ONGs, como a própria Cruz Vermelha Internacional, por três vezes, a Anistia Internacional e a Médicos sem Fronteiras foram contempladas com o Nobel da Paz e reafirmaram a importância de agir. Quando as organizações governamentais falham, mostram-se impotentes ou se omitem, adubam o terreno para o surgimento das ONGs. Mais e mais, com a falência ou as limitações do Estado, os cidadãos se associam para resolver, eles próprios, seus problemas. As ONGs, dizia o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que não se conformava com os índices sociais brasileiros e lançou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, são sementes de democracia. Hoje, contabilizam-se cerca de 25 mil no mundo, dedicadas às causas mais diversas, da preservação do meio ambiente à promoção dos direitos humanos.

Em São Paulo, não poderia ser diferente. E, a partir do exemplo pioneiro da Associação Viva o Centro, criada em 1991, e posteriormente de seu programa de Ações Locais (ver o box), outras organizações não-governamentais, constituídas ou em vias de sê-lo, articularam-se para suprir as deficiências cada vez maiores do Estado num capítulo específico — a melhoria das condições urbanas da cidade de São Paulo. A Associação Paulista Viva, o Projeto Bela Vista Viva!, a Associação Colméia, o Projeto Pontal Leste e tantos outros são exemplos de que a cidade, como sempre, não pode parar — principalmente quando o Estado pára. São iniciativas privadas que, em linhas gerais, têm como meta atender uma área específica da cidade, atenta às suas peculiaridades. Assim é que a Câmara dos Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, que congrega os empresários de um dos mais importantes centros de confecções do Brasil, empenha-se em criar um projeto, a ser apresentado à Prefeitura, que tem como um dos destaques a criação de uma escola de criação de moda. Detalhe: conjugando os esforços de empresários judeus e coreanos, mais uma prova de que São Paulo é mesmo uma cidade única no mundo.

Símbolo

A Associação Paulista Viva é um exemplo de que é possível reverter um quadro negativo. Em 1990, véspera do centenário da avenida aberta pelo empreendedor imobiliário uruguaio Joaquim Eugênio de Lima no Alto do Caaguaçu, onde passava o Caminho da Real Grandeza, trilhado pelas boiadas que se dirigiam ao matadouro da Vila Mariana, foi escolhida, por mais de 1 milhão de votos, como símbolo de São Paulo. Ao longo da década, com o surgimento de novos pólos comerciais na cidade, a Paulista foi perdendo status e se descaracterizando. Para impedir que o processo de degradação avançasse é que, em 1996, por iniciativa do ex-prefeito Olavo Setubal e outros empresários da região, surgiu a entidade. Segundo seus estatutos, a principal meta é reforçar os valores sociais e humanos da região, tornando-os compatíveis com sua história e importância. "Queremos criar melhores condições para quem vive e trabalha na Paulista", diz o advogado Nelson Baeta Neves, presidente do Conselho Deliberativo da associação.

Projetos foram plantados e resultados obtidos, como a retirada de circulação de 55% dos ônibus que passavam pela avenida. "Mas a Paulista continua com um trânsito complicado", diz Neves. Ele lembra o projeto do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz, em 1971, que previa seis faixas de trânsito rápido abaixo do nível da avenida. O projeto foi engavetado e o trânsito só fez piorar. "O metrô não aliviou os congestionamentos", constata. "É preciso criar outras rotas, que deixem a avenida a salvo." Entre as iniciativas recentes, a retirada dos camelôs (ainda que freqüentemente ensaiem voltar à avenida) e a recuperação do Parque Tenente Siqueira Campos, um trecho de Mata Atlântica no coração da cidade. Hoje, a principal meta é a segurança. Nesse sentido, a associação está alugando um imóvel para que a Polícia Militar mantenha uma companhia com 200 milicianos na região. Da mesma forma, um controle de segurança monitorado por câmeras de TV, já em funcionamento na Praça Alexandre de Gusmão, será estendido a toda a avenida. "É necessário brecar o declínio da Paulista", insiste o advogado.

Preservar a alma boêmia da Bela Vista, o Bixiga. O Projeto Bela Vista Viva!, lançado em setembro passado, reúne inicialmente três empresas — Grupo Silvio Santos, Hudson Petróleo e Grupo CIE Brasil — que, em conjunto com órgãos municipais e estaduais, pretendem recuperar um dos mais tradicionais (e deteriorados) bairros da cidade, distante 1 km do Centro. Apesar de seu prestígio, o Bixiga também sofre dos males paulistanos, como o descaso, a sujeira e a violência. Como resultado do abandono, essa área primordialmente turística, com muitos restaurantes e teatros, vê as pessoas se afastarem e vai perdendo a magia. "Queremos que as pessoas voltem a circular pelas ruas do Bixiga sem medo e usufruam a boemia, a cultura e a gastronomia, as marcas do bairro", afirma Eduardo Velucci, diretor do Grupo Silvio Santos. Da mesma forma, acentua, o projeto quer que os moradores, tão ligadas ao bairro, voltem a sentir orgulho de morar ali e que, "com medo das ruas, não se tornem escravas da própria casa".

Intervenções

O projeto, que envolve ações de curto, médio e longo prazos, surgiu para articular parcerias que promovam a revitalização do bairro, resgatando as condições de convívio e reaproximando a comunidade de seus espaços. Entre as ações de curto prazo, melhorias como limpeza e pintura de fachadas até paisagismo, iluminação, limpeza geral e recuperação de bens públicos. Um projeto dentro do projeto, o Major Diogo Viva, coordenado pelo cenógrafo J.C. Serroni, contemplará o quarteirão do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e inclui pintura das fachadas, arborização da rua, unificação do calçamento e instalação de um Pórtico Cultural. Da mesma forma, prevê-se a remodelação da Praça Pérola Byington, com a instalação de um posto de informações turísticas. A médio prazo virão a reestruturação dos baixos do Viaduto Júlio de Mesquita Neto, com a modernização do sacolão que ali existe e a instalação de quadras de esporte e áreas de lazer, além da criação de um corredor iluminado e uma programação cultural nos domingos.

Uma prova de que benfeitoria atrai benfeitoria é a reforma dos teatros TBC e Paramount, atual Teatro Abril — ambos tombados pelo patrimônio histórico —, que envolveu os imóveis contíguos e motivou os comerciantes locais a preservarem seus estabelecimentos, ao mesmo tempo em que promoveu a reativação do comércio na região. A cada ação de recuperação, cria-se um movimento positivo ao redor. Um dos projetos privados que certamente contribuirão para a recuperação da área é o Centro de Entretenimento, Lazer e Cultura, um investimento de R$ 75 milhões do Grupo Silvio Santos dedicado exclusivamente à cultura e à diversão, com conclusão prevista para 2003. Em 55 mil metros quadrados de área construída, dez cinemas multiplex, dois teatros (750 e 450 lugares), uma casa de espetáculos (3.500 lugares), academia de ginástica, megastore de livros e CDs, área de games (jogos virtuais), praça de eventos, praça de alimentação, bares e restaurantes. Um projeto fiel à vocação boêmia do bairro.

A Associação Colméia, fundada por empresários da Vila Olímpia, também é de constituição recente. Em princípio, a ONG quer lutar pela implantação de um projeto urbanístico num bairro próximo à nova centralidade que se forma no eixo da Avenida Luís Carlos Berrini, e caracterizada pela concentração de empresas ligadas à Internet. Os melhoramentos incluem reforma das calçadas e da pavimentação, nova iluminação, drenagem e melhora das comunicações. Em seguida, ou se possível ao mesmo tempo, os esforços se estenderão ao transporte, à segurança, ao lazer e à cultura, à sinalização e à comunicação visual. Segundo Adalberto Bueno Netto, diretor-presidente da ONG, o "novo projeto urbanístico irá ao encontro dos desejos dos usuários e moradores e à vocação da Vila Olímpia". O nome Colméia sugere a necessidade de, em sociedade, trabalhar solidariamente. Uma das iniciativas prevê, com a colaboração da Eletropaulo, o cabeamento subterrâneo de eletricidade e telefonia, uma iniciativa ainda rara no país e um contraponto ao denso emaranhado de fios aéreos que enfeia toda a cidade. Como que a reforçar a identidade do bairro, prevê-se também a criação do site Vila Olímpia.

Expansão

Projetos, projetos, projetos... As ONGs surgem para vencer o imobilismo, mas — organismos criados por imperfeitos seres humanos — também precisam de controle e fiscalização, já que podem, sim, ser instituídas para fins menos nobres. "As ONGs incomodam porque são agentes de mudança social que se orientam pela defesa dos interesses coletivos e das maiorias", disse certa vez o sociólogo Silvio Caccia Bava, com o conhecimento de causa de quem dirigia a Abong (Associação Brasileira de ONGs). "O conceito passou a ser usado de maneira mais elástica. Fundações empresariais, entidades filantrópicas, projetos assistenciais, todos passaram a ser ONGs." É evidente, acentuava, que num universo de milhares de entidades sem fins lucrativos era possível encontrar quem não se orientasse pela defesa do interesse público. Havia possibilidades de corrupção, desvio de verbas ou descaracterização do trabalho. Mas destacava não ser a regra. "Todos os instrumentos públicos de fiscalização de uma empresa são aplicados às ONGs."

Cerca de 25 mil ONGs em todo o mundo; várias ONGs nos bairros paulistanos. Um número que amanhã já estará superado, tantas são as necessidades e tanto é o desejo de, movido pela consciência de que é necessário exercer a cidadania – "as associações são uma solução para São Paulo", defende Nelson Baeta Neves —, participar. Próxima ao Centro, na Liberdade, com a colaboração do Sebrae/SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo), a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil pretende desenvolver um projeto de desenvolvimento comercial, cultural e turístico que valorize as características da região. Isto é, o toque oriental que faz o charme da Liberdade. Mais distante, o projeto Pontal Leste quer, com o apoio de organismos municipais como a Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), revitalizar os bairros de São Mateus, Itaquera, São Miguel Paulista e Guaianazes, potencializando e estimulando a retomada do pólo industrial da região, atualmente estagnado.

Hoje, é lícito afirmar, o mundo não pode prescindir das ONGs. Vale lembrar as palavras de Peter Drucker, autor de Administração de Organizações sem Fins Lucrativos – Princípios e Prática: "Apenas a instituição do setor social, ou seja, as organizações não-governamentais, não-empresariais e sem fins lucrativos, pode criar o que agora precisamos: comunidades para cidadãos (...). Uma razão para isso é que apenas as organizações sem fins lucrativos podem fornecer a enorme diversidade de comunidades de que precisamos — de igrejas a associações profissionais e de organizações comunitárias preocupadas com os desabrigados aos spas e às academias de ginástica. As organizações sem fins lucrativos também são as únicas que podem atender à segunda necessidade da cidade, a necessidade de cidadania eficaz para seus membros..."

Retomando o assunto da abertura: Henri Dunant, que vivia na miséria e na obscuridade quando foi redescoberto pela mídia, também lutou pela abolição da escravidão, pela arbitragem internacional, pelo desarmamento e pela causa de um lar para os judeus. É um exemplo do que pode o homem. (Federico Mengozzi)

MicroONGs do Centro

A Associação VIVA O CENTRO criou o Programa de Ações Locais em 1996 para que os moradores, comerciantes e usuários do Centro participassem, de forma organizada, da gestão de cada rua ou microrregião. Hoje já estão em funcionamento mais de 40 desses núcleos. Cada um deles é composto por uma diretoria eleita diretamente pelos participantes e desfruta de autonomia, mas seguem um estatuto padrão fornecido pela VIVA O CENTRO. Em contrapartida, são autorizados a usar a marca Ação Local e recebem total apoio logístico da Associaçao. Como uma evolução recente do programa, cada Ação Local está formando o seu Conselho da Comunidade, aberto à participação de moradores, profissionais liberais, comerciantes, usuários permanentes e representantes de empresas e instituições. Original por se tratar de uma experiência pioneira de organização comunitária em um centro metropolitano complexo, o programa recebeu o Prêmio ECO 98 de Participação Comitária da Câmara Americana de Comércio de São Paulo (Amcham Brasil-São Paulo). Numa de suas próximas edições, urbs tratará, em reportagem, o atual estágio de consolidação e atuação das Ações Locais.


  Artigo  
Lugares da memória

Roney Cytrynowicz*


Entre o Largo do Arouche e a Praça da República, no Centro de São Paulo, estão depositados dezenas de monumentos e estátuas. Com algumas exceções, dificilmente se poderá dizer que eles foram alocados de forma planejada. Mas o que mais chama a atenção é que estes monumentos e estátuas nada dizem ao habitante que passa diariamente por eles e que, provavelmente, sequer os olha com alguma atenção. Ou seja, estes marcos históricos, em geral, nada evocam ao habitante da cidade.

Um dos aspectos que mais chama a atenção quando se pensa na degradação da vida em São Paulo é a falta de identidade entre a população da cidade, seja de que camada social for, e a sua história, o que é visível pelo abandono dos lugares de memória no espaço público. A falta de relação entre as pessoas e os monumentos não deriva de uma suposta falta de memória ou de conhecimento histórico - conforme o clichê de que "o brasileiro não tem memória" - mas talvez da própria concepção de história oficial imposta pelos monumentos. A maior parte deles refere-se a personagens que poderiam ser chamados de "vultos da história", segundo uma idéia de que a história é obra de "homens ilustres", apresentados como "donos" do tempo e do espaço. O cidadão não se reconhece nesta história, ela lhe parece referente a outro país, a outra história que não a sua.

Certamente uma das formas mais efetivas para estabelecer mediações e identidades entre o habitante e o espaço urbano - resgatando a cidadania e o prazer de viver na cidade - é uma ação de história. A função primeira dos monumentos deveria ser evocar registros de história ou memória coletiva - marcada pela diversidade e pelos diferentes agentes sociais que a constituem - criar referências e identidades, tornar o espaço e o tempo da cidade marcos reconhecíveis da ação humana, da constituição de uma memória social compartilhada, tornando a cidade um projeto coletivo em construção permanente e criando a percepção de que todos somos parte ativa deste processo. História e cidadania, portanto. As ações de revitalização urbana, em geral intervenções arquitetônicas de porte, muitas vezes não atentam para este aspecto. Pequenos ícones de identificação do habitante com sua cidade estão abandonados, como os nomes de ruas, logradouros e praças, que raramente dizem respeito aos habitantes, tornando-se lugares sem referência coletiva.

Em São Paulo, desenvolvimento tem sido sinônimo do apagamento da história da maioria da população, de esquecimento da multiplicidade social, cultural e étnica, que é uma de suas marcas singulares. Os diferentes grupos que constituem a cidade, e vão criando espaços e culturas próprias, reinventam suas próprias identidades. Mas as marcas desta maioria estão ausentes da memória urbana. Não há monumentos, estátuas, museus, registros e marcos que indiquem a sua presença.

Diversidade

Um exemplo extremo é o dos negros. Onde está a memória de sua presença, onde estão os marcos de sua história, aliás, de nossa história? O Largo do Paissandu não poderia ser um "lugar da memória" (conforme a expressão do historiador Pierre Nora) da cultura negra, afro-brasileira e, na mesma linha, a Praça da República não poderia ser um lugar para pensar a idéia de República? Igualmente, a história paulista tem sido contada a partir de 1554 desprezando-se a presença das populações indígenas, quando foi a vitalidade da presença indígena que atraiu e definiu a própria colonização no planalto paulista, que poderia ser lembrada, por exemplo, no Pátio do Colégio. Pode-se perguntar ainda: onde estão os marcos de identificação de uma história dos trabalhadores, de uma história operária, dos migrantes nordestinos, das mulheres, dos imigrantes?

Não se trata de contrapor uma memória popular a uma memória conservadora, uma memória do povo a uma memória da elite, o que seria esquemático. Trata-se de propor uma multiplicidade de registros e lugares de memória que tenha significado cotidiano para a variedade de agentes sociais, culturais e étnicos da cidade, criar uma geografia múltipla da história. O que se pode chamar de memória paulista atualmente é a memória das elites, mas elas próprias a abandonaram, ao deixar o espaço público e transferir-se para condomínios fechados e shopping-centers. Nestes locais, espaço e tempo perdem sua espessura e a história deixa de ter sentido, porque se perde de vista a idéia de transformação na esfera pública, em nome do conforto privado.

Em São Paulo, o eixo central de monumentos é, sem dúvida, o corredor que vai do monumento dos bandeirantes, de Brecheret, ao Obelisco de 1932, entre a memória da tomada da terra e sua interiorização, a vitória catequizadora e violenta sobre os índios e, em 1932, a guerra que opôs as oligarquias paulistas ao poder despótico de Getúlio Vargas. Estes monumentos representam o eixo de uma "nacionalidade paulistana", que quer São Paulo como líder do país, aliada a uma série de imagens e mitologias. O apelo ideológico, as celebrações, as datas cívicas, o calendário, os monumentos, as avenidas e ruas e, acima de tudo, o imaginário político está permeado pelos símbolos destes dois marcos, que se sobrepuseram.

Diferente de uma memória oficial paulista que tem sido identificada com estes episódios, seria interessante constituir outros registros, criar outros lugares de memória. É nos percursos do cotidiano, no reconhecimento de que existe uma identidade entre a vida pessoal e a cidade, entre cada indivíduo e um projeto coletivo passado e futuro, um ideal de cidade que cada um está construindo com seu trabalho, seu lazer e seus encontros, que as pessoas podem reverter um processo de desenraizamento em relação ao seu chão cotidiano. Existe uma dura violência neste processo de desenraizamento que torna tudo passageiro, destrutível e supérfluo, como se nossa vida e nossas referências afetivas não se nutrissem também de referências passadas no espaço: a casa onde morei, a rua onde joguei bola de gude, a farmácia de tal pessoa, o sapateiro, a escola, o campo de futebol, o bar, a praça, o comício político, a sede do partido, os lugares e os tempos que constituem uma memória social, tão vital para a vida quanto a memória subjetiva de cada um.

Esta transitoriedade forçada torna a cidade um cenário hostil e desestabilizador, sem referência. Não se trata de uma memória conservadora e saudosista que apela a uma idealização dos "bons tempos". Ao contrário, ela é a base para se construir projetos, para transformar, para brincar, para sonhar e para pensar a cidade. A cidade tem sido, desde a origem, por excelência, o lugar de experiências imprevisíveis e de trocas de identidade entre diferentes.

Uma ação de história permitiria dar maior profundidade e densidade à compreensão e experiência do nosso presente, porque a história não é apenas uma forma de conhecer o passado, como uma viagem de nostalgia e curiosidades. A história é ferramenta para pensar o presente e vê-lo em uma perspectiva de tempo mais larga, para que possamos criar e mudar a partir de um inventário de possibilidades menos paralisante do que o que nos parece como o "imutável" presente, que não pode ser visto como o resultado "natural" da "evolução" do homem. Esta visão do imutável está associada à importância que o desenvolvimento tecnológico tem no cotidiano e que nos induz a ver os processos sociais por este prisma, como se a história fosse uma corrida de progresso rumo a formas mais "evoluídas", conceito apresentado como uma escala de conforto material que pode ser consumido, por exemplo, em eletrodomésticos.

Em uma época marcada pela globalização do espaço e pela virtualização e aceleração do tempo, existe a necessidade de buscarmos raízes e vínculos, de pesquisar lugares e tempos de inserção, de nos incluirmos em uma genealogia de relações familiares, comunitárias e sociais, de conhecer as opções passadas para recuperar a capacidade de pensar e imaginar outras possibilidades para viver e organizar a nossa vida, principalmente para criar mecanismos de forma a incluir as massas de pessoas que estão sendo excluídas da cidade e da sociedade.

Cotidiano

É importante recuperar nossa condição de sujeitos dos processos coletivos. Nós não podemos ser apenas espectadores nem tampouco vítimas da história, por mais que a globalização nos imponha este lugar. O espaço global e o tempo virtual nos têm levado à direção oposta à de sujeitos, nos relegando a consumidores da história. O trabalho com memória e história pode ser importante para nos repor no curso da vida e do tempo, do que muda e se transforma, nos mostrar que a vida pessoal e a história são feitos de pessoas comuns, de processos cotidianos, de pequenas e grandes decisões, de vitórias e fracassos, de erros e acertos, de infinitas possibilidades que vão se combinando diariamente e, o que não se pode esquecer, de sonhos, utopias e projetos. Nós não podemos olhar o presente como o fim da história, acabada, mas apenas como uma etapa da história, sempre inacabada, sobre a qual temos responsabilidade.

Definir "lugares da memória" na cidade de São Paulo, estabelecer uma política pública de história e de memória que valorize a diversidade, incentivar a criação de vínculos dos habitantes com a história da cidade, adensar as noções de espaço e de tempo da metrópole, dar espessura ao passado, brincar e oferecer momentos lúdicos e prazerosos, estes são elementos que certamente contribuiriam para transformar o cotidiano da cidade.

*Roney Cytrynowicz é historiador, doutor em História pela USP, autor de Guerra sem Guerra. A Mobilização e o Cotidiano em São Paulo Durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp/Geração Editorial, 2000) e pesquisador da Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História. E-mail: roney@narrativaum.com.br


  Entrevista  
Mais civilidade e consciência social


Nascida nas imediações do Parque D. Pedro II, então um aprazível jardim à sombra das novas torres do Centro financeiro de São Paulo, a assistente social e vereadora pelo PT (está no terceiro mandato) Aldaíza Sposati não é conhecida apenas por sua atuação na Câmara Municipal, por suas aulas e pesquisas na PUC e pelos livros que escreveu sobre a pobreza urbana. Quando se abordam os problemas sociais da cidade, é impossível não recorrer ao Mapa da Exclusão/Inclusão Social da Cidade de São Paulo, amplo e minucioso estudo que ela coordenou com um grupo de pesquisadores da universidade em que trabalha. A obra, cuja terceira edição sairá em 2002, é uma radiografia da segregação socioespacial da metrópole baseada em números do IBGE aplicados a vários indicadores. Para Aldaíza, os efeitos e causas da exclusão — na moradia, no trabalho, na distribuição de renda, no acesso aos serviços públicos e à Justiça — seriam melhor equacionados se, ao lado de momentos de avanço e progresso social, a sociedade paulistana não apresentasse um viés regressivo que até hoje impede a materialização plena de algumas conquistas fundamentais. No final de novembro ela conversou com Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora-assistente de urbs, em sua sala na PUC, no bairro das Perdizes.

urbs - Seus estudos mostram que a cidade está se recompartimentando. Há grandes escalões de pobreza, cada vez mais isolados, convivendo de forma contígua a grandes riquezas. Vila Andrade seria um exemplo desse contraste?

Aldaíza Sposati – Vila Andrade e Morumbi também, porque eram áreas de antigas fazendas, meio rurais até uns 30 anos atrás. O fato é que São Paulo ficou bastante delimitada em seus acessos pela necessidade de pontes para a travessia dos rios. Os processos de ocupação habitacional foram acontecendo ao lado e ao longo de rios e córregos, em áreas deixadas para um tratamento posterior. A existência de pontes possibilitou que, além-rio, áreas mais abertas fossem objeto de ocupação. Tanto que os mananciais não estão ameaçados porque a população é perversa e quer destruí-los, mas porque as áreas no entorno deles ficaram livres e abandonadas. Não se pode esquecer que foi Jânio Quadros — portanto, na segunda metade dos anos 80 —, que retirou a favela próxima ao Jóquei Clube, a caminho do Morumbi, e iniciou ali uma operação interligada exatamente para que, logo na entrada, aquele bairro de alta renda não fosse flagrado com um visual de população de baixa renda. Essa é a marca da cidade, caracterizada nos últimos anos por um novo processo, o da ocupação de edifícios, e não mais de terras. São as ditas ocupações na região central da cidade, principalmente de prédios públicos ociosos. Hoje os edifícios abandonados no Centro estão sendo requisitados como formas habitacionais e não temos uma política extensiva em relação ao uso desses edifícios, por mais que já se iniciem projetos de recuperação. São Paulo é realmente uma cidade de profundos contrastes.

Essa dinâmica estaria se tornando mais aguda? Ou Vila Andrade é apenas um extremo?

São Paulo já foi, mais fortemente nas décadas de 1960 e 70, o grande sonho nacional como possibilidade de emprego, como cidade ascendente. Muito nesta cidade foi construído por essa leva migratória. Mas hoje o que se vê é que o novo pobre de São Paulo não é alguém que esteja chegando, mas que já mora aqui há algum tempo, que tem filho aqui ou é filho da terra. A figura do migrante deixou de ser demarcadora exclusiva da destituição. Além disso, mudou muito o formato produtivo na cidade. São Paulo experimentou uma forte informatização. Tornou-se a maior concentração de infovias, de telefonia e de tecnologia de ponta no país. Ocorre que essa tecnologia exige poder aquisitivo e qualificação. No entanto, nos últimos dez anos, como levantado pelo Mapa da Exclusão que fizemos, o percentual de chefes de família com precário grau de instrução — um a três anos de estudo sofreu variação mínima, não acompanhando as exigências das transformações tecnológicas. Trata-se possivelmente de um contingente que não vem encontrando estímulo e possibilidade para melhorar sua condição instrucional. São os portadores do chamado analfabetismo funcional, que certamente estão a merecer maiores incentivos. Este é um dado perverso, porque aqui deveria haver uma propulsão, e não está havendo.

Essa faixa está sendo excluída da chamada nova economia?

Essa economia precisa de mão-de-obra altamente qualificada — o comandante do robô —, mas também de mão-de-obra precariamente qualificada — o carregador dos produtos —, porque é esta última que vai fazer aqueles serviços, digamos, de mais baixo nível, até porque sai mais barato contratá-la do que automatizar. A lógica termina sendo essa. Mas voltando um pouco, eu diria que de algum modo o Morumbi e Vila Andrade são expressões da grande contradição existente nesta cidade. O Centro hoje revela discrepâncias mais relacionadas ao patrimônio herdado. Não há grandes discrepâncias do ponto de vista habitacional, porque quem tem empresas no Centro não está morando na região. No Centro as discrepâncias se apresentam mais fortemente nas condições de trabalho. É visível tanto a alta destituição no emprego, representada pelos que trabalham na rua, como a alta expressão da estabilidade, notável nos que estão empregados. O Centro historicamente abriga grandes marcas. A gente olha o Centro, e como é que caracteriza São Paulo? Pelo prédio do Banespa, pelo capital financeiro. Então, há um contraste violento com o ambulante, com a barraca. Se formos analisar, o que incomoda profundamente os segmentos que querem fazer um processo de recuperação do Centro é sua deterioração pela presença em forma de ocupação daqueles que menos renda têm. Mas essa ocupação tem crescido no Centro também no que se refere à moradia, na forma de cortiço, de habitação coletiva ou de outras formas, embora de maneira menos visível do que no Morumbi. No Centro, as discrepâncias são extremamente visíveis no campo do trabalho.

Por quê?

O ambulante está trabalhando, não está morando. Ele está em contraste com essa região. O que é o centro de uma cidade? É o lugar dos negócios, o lugar da troca. Não é o lugar de morar. Então, a vertente do trabalho vai ser o grande contraste na região central, muito mais do que a vertente da moradia. A moradia só se a gente pensar no povo de rua, mas como não temos o contraponto, isto é, um padrão claro de moradia no Centro, os moradores de rua aparecem como uma degradação, não como um contraste. O contraste na forma de trabalho é que aparece forte.

O que caracteriza hoje a questão habitacional no Centro?

Ela é marcada, digamos assim, pela ausência de moradia ou pela ocupação de prédios para moradia —, quer dizer, por uma resignificação. Aquele prédio que era do INSS, portanto uma repartição pública, vira moradia. É uma resignificação do espaço, mas não um contraste como o que se verifica em Vila Andrade, entre uma favela e um prédio, entre uma mansão e um barraco. Mas no campo do trabalho temos isso fortemente. Veja o conflito na 25 de Março entre o comércio estabelecido e o ambulante. Mas a lógica da 25 de Março é a mesma de um mercado, como os que se vêem em países árabes. Ela vem da forte presença árabe, uma expressão nata do comércio, da troca, embora seja em lojas, tanto que temos aquelas mercadorias projetadas para fora, colocadas ao olhar como em uma feira. A mercadoria tem uma exposição aberta, você mexe. As lojas da 25 têm isso.

Elas transbordam.

E nesse transbordar segue também o ambulante. Vai-se a um mercado em Istambul e se vê essa expressão. É diferente de uma loja, de um magazine, que controla bem o seu estoque, a vitrine, que tem cada coisa no seu lugar. É uma outra relação entre a mercadoria e o espaço. A 25 de Março não, tem essa cara de mercado e esse amálgama de ambulante e de dono de loja, e essa briga toda. É como no Largo da Concórdia. Um negócio que é um feirão, certo? Nesse feirão o estoque é crucial, adquirir estoque é uma questão de poder. Entre lojista e ambulante há semelhança de função, mas diferença na propriedade da ocupação.

O espaço público torna-se, então, espaço de conflito?

Essa é uma questão mais funda ainda. Na verdade, eu acho que perversamente, aqui em São Paulo, nós, sociedade e poder público municipal, não temos cultivado o espaço público. O Rio de Janeiro tem a praia, que é um espaço tido e trabalhado como "de todos". Acho que em São Paulo, uma cidade fortemente privatizante, o significado da preservação do espaço público é muito frágil. No Rio há jardins lindíssimos, como os da Glória. São Paulo é uma miséria nesse sentido. Não tem, digamos, essa idéia de grandiosidade dos jardins. Tudo o que era jardim foi encolhendo, se amesquinhando, reduzindo-se a ilhas, para restar somente o poste de iluminação e a rua. O automóvel aqui tem um significado muito forte.

E quando até a calçada é apropriada? Quando o camelô, como no entorno do Terminal Barra Funda, chumba a barraca no cimento da calçada, tornando-a fixa, perene, e coloca as mesas do seu boteco no caminho do pedestre, obrigando-o a disputar espaço com os carros?

Esse é o padrão de tráfego da periferia.

O camelô traz essa cultura da periferia?

Claro. A ausência de calçadas é uma das marcas daperiferia. Lá primeiro se faz o quê? Pavimentação da rua. E porque a calçada continua de terra, as pessoas disputam a rua com o carro. O tratamento dos passeios na periferia é quase nulo.

Em São Paulo, passeio não é obrigação direta do poder público, mas do proprietário do imóvel.

Nem esse significado está posto na periferia. Eu sempre digo que nesta cidade a ordem das coisas devia ser ao contrário. Na periferia deveria ter o quê? Primeiro, saneamento básico e drenagem, depois iluminação, calçada e, por fim, o calçamento da rua, que poderia ser inicialmente de cascalho, depois de asfalto. Mas é tudo invertido, por uma demanda até da própria população, para que cheguem o caminhão de gás, o ônibus, a ambulância. O asfalto é prioritário, mesmo que as pessoas tenham que andar competindo com o carro na rua. Na periferia, o valor da distinção entre o espaço do cidadão e o espaço do veículo não está colocado plenamente.

Para o Centro, que deveria refletir um padrão de respeito pelo espaço público, o camelô traz um padrão invertido.

Um espaço de feira. O imaginário do mercado. Como se costuma dizer, é aquilo que se faz quando nada se tem para fazer. Eu me lembro de meu pai dizendo que se eu ficasse sem nada para fazer poderia tentar vender uma caixa de bananas. Quer dizer, se quero trabalhar, preciso arrumar algo, e o que é arrumar algo para fazer? Em geral é tentar vender alguma coisa. É ser o intermediário em algum processo. Então acho que essa coisa do mercado, que é muito forte na cidade, se multiplicou. Isso não quer dizer, absolutamente, que eu esteja de acordo com essa forma de ocupação do espaço público. Estou tentando colocar o que acontece. A importância do espaço do cidadão em separado do carro foi extremamente esgarçada aqui. Mas em cidades como o Rio não, até pelo fato de haver praia, que é o espaço das pessoas, onde elas não competem com os carros, um espaço profundamente socializador, porque não dá para você distinguir muito entre biquini de quem tem dinheiro e de quem não tem. Aqui em SP nós não temos isso, acho que os espaços são muito demarcados, à exceção talvez do Parque Ibirapuera, mas mesmo lá pode-se notar espaços segmentados. É perversamente uma característica da cidade, que ao mesmo tempo é multicultural.

Uma contradição.

São Paulo tem bairro oriental, bairro judeu, bairro italiano...

Na América Latina, nem Buenos Aires tem coisa igual.

E também temos essa diversidade na comida. Mas é uma questão extremamente delicada. É preciso trabalhar essa dimensão multicultural não no sentido da guetização, mas no da troca, que eu acho um valor até mais humano, e no respeito à diferença.

Voltando ao comércio informal, não haveria formas mais racionais de instalação dos camelôs, para que se integrassem àeconomia sem prejudicar o espaço público?

É um trabalho que venho desenvolvendo há bastante tempo. Há o projeto de lei, que espero ver aprovado...

Do vereador José Eduardo Cardoso?

Estamos apresentando o substitutivo juntos. O do José Eduardo era basicamente um projeto regulamentador dos direitos administrativos. O que eu fiz foi inserir esse campo no âmbito da economia social solidária. E o que significa? Primeiro, o reconhecimento de uma forma de trabalho. É tirar da clandestinidade e, ao fazê-lo, deixar de olhar como algo à parte. Inserir. É o que diz o (Manuel) Castells: economicamente eles estão inseridos, embora ao olhá-los se possa dizer que são clandestinos.

Ainda que de forma precária, estão inseridos na economia global, segundo Castells.

O comércio nas ruas é uma forma histórica. Não é algo nem periférico nem casual, nem ocorre somente quando há desemprego, isso é uma mentira. Acompanho isso. Tem filho e filha de ambulante que continuam ambulantes. É um processo, uma ocupação contínua. Existem efetivamente um mercado e uma forma de ser. Eu entendo o comércio ambulante como uma economia, uma forma de economia social. Por que social? Antes de mais nada, porque eles não têm estoque, basicamente operam só no espaço da circulação.

Esse conceito considera a procedência da mercadoria?

Do ponto de vista da legalidade é outra coisa. Vocês têm razão. Os caminhos de ingresso e saída da mercadoria nesse comércio são ilegais. Os ambulantes não pagam impostos, não emitem nota fiscal, não têm uma forma de comércio regular. Mas se a gente estender esse conceito às formas de comercializar na cidade, quais são os lugares que oferecem de fato nota fiscal? Feira livre não oferece.

Fala-se em carga roubada, contrabando, lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

O que estou querendo dizer é que a escala em que isso ocorre é insignificante. Pode até ser que haja caminhões cheios de brinquedos roubados, mas não ocorre uma lavagem pesada de dinheiro. Eu diria que o comércio ambulante é escancaradamente ilegal, ilegal na transação, ilegal na chegada da mercadoria. Mas, por ser escancaradamente ilegal, ele só tem franjas de ilegalidade, não tem o grosso dela. Com isso não estou absolvendo o comércio ambulante, mas dizendo que essa questão é vasta. Não dá para vincular a lavagem de dinheiro de drogas aos ambulantes. Seria pífia essa lavagem. O que os ambulantes têm? Não trabalham com cheque, não têm crédito. Compram mercadoria em dinheiro. É um negócio ainda nos velhos moldes. Não têm nem a intermediação do crédito nem a intermediação bancária, é dinheiro vivo. Estive em Montevidéu e me chamou a atenção uma senhora que vendia três pentes, quatro retrozes de linha, cinco não sei o quê. Era um negócio, mas muito precário, sobre um caixote, coberto com um pano, parecia até desenho animado, como o da Luluzinha brincando de vender limonada. Simplificado demais, pueril. Claro que tem ambulante em outra condição, vendendo ferramentas ou mercadorias em grande quantidade. Mas tem também aqueles que só estendem o pano e colocam aqueles despertadores todos. E existe até uma certa sofisticação, como a compra de passes e tíquetes, que é o que fazem os grandes aplicadores com uma factory. Numa factory você vende o seu cheque por menos. O ambulante vende o quê? O vale-refeição. É uma factory popular...

Liquidez na hora.

É. Uma reprodução para o consumo de massa de esquemas já presentes na economia formal.

O prefeito do Rio, César Maia, escreveu certa vez que o comércio dos camelôs é lumpen, não informal.

É um mercado de massa.

Segundo Maia, se assegura a sobreviência imediata do camelô, também aprofunda a sua pauperização.

É um comércio sem garantia nenhuma. E também irracional. Por exemplo, se está na moda vender despertador, você tem aquele bip bip direto. É o dia do despertador. Existem mercadorias sazonais. Mas não há organização. A competição individual dificilmente permite uma organização entre eles.

Planejamento nem pensar.

No projeto de lei colocamos isso. Poderia haver intervenção do poder público no processo de aquisição de mercadorias, através de plano popular, alguma coisa assim. Mas voltando à ocupação da calçada, o que propomos é a existência de projetos urbanísticos que definissem o comércio ambulante também no espaço. A possibilidade de ter quiosques, enfim, uma comercialização mais organizada. Mas eu vou além. Se a pessoa vai usar o espaço público, não poderá ficar na livre lei do mercado, como é hoje. O ambulante opera na livre lei do mercado. Pode-se dizer que é uma das expressões maiores do neoliberalismo.

E trucidam-se entre si.

Por isso eu acho que tornar social a economia, torna-la solidária, é colocar um outro vetor que não seja tão só a regra pura e simples do mercado. É preciso encontrar locais, mas não só. É preciso definir mercadorias e também estabelecer uma relação tanto com a produção da economia solidária quanto com o turismo. Podem existir pontos de comercialização de objetos turísticos e, dentro da economia solidária, cooperativas de trabalho e produção. Eles poderiam fazer parte de uma cadeia produtiva, sim. Mas isso demanda uma força muito grande do poder público.

A prefeita bancaria isso?

Acho que, com algumas condições, possivelmente. O projeto de lei está caminhando, ainda que muito lentamente.

A quem não interessa a mudança?

Trata-se de uma trama complexa. O ambulante é funcional numa série de relações. Ele é funcional quanto ao escoamento de mercadoria, ao comércio e como clientela política.

Mudando de assunto: de que forma o Estatuto da Cidade poderia contribuir para o ordenamento da cidade?

Depende do momento. São Paulo é aparentemente progressista em muita coisa, mas altamente regressiva em outras, principalmente na questão da cidadania. Veja o fato de, apesar de ser uma cidade com 10 milhões de habitantes, não ter implantado até hoje a descentralização administrativa, as subprefeituras. São Paulo é uma cidade regressiva do ponto de vista da gestão. Uma alta centralização tem tudo para resultar num alto mandonismo. A história desta cidade tem sido muito perversa do ponto de vista da gestão. Quanto ao Estatuto, veja o zoneamento: no mapa oficial de São Paulo só o miolo da cidade é oficial. Cerca de 60% não têm o direito de estar no mapa. Temos essa dualidade entre a cidade real e a cidade legal. São Paulo ainda não passou pelo estatuto da cidadania. Espero que o Estatuto da Cidade seja uma forma de passagem para a cidadania.

Ainda engatinhamos nas questões da cidadania?

Não é só o ambulante que não respeita a cidade. Empresas e poder público rasgam, cortam, quebram a calçada, remendam. A cidade é um território vassalo de um monte de gente que se diz proprietária. A CET divide a cidade em seis grupamentos, a Secretaria da Educação em 13 regiões de gestão, a da Assistência Social em 17, a da Saúde em 41, as Regionais em 28. E não estou pondo aí nem o cartório, nem a Justiça, nem a polícia. Território aqui é acidente de percurso. Se todo mundo, a começar do poder público, divide, estraçalha a seu bom entendimento e agora, com a privatização, dá ainda às empresas privadas essa possibilidade de estraçalhar, como é que se discute a organicidade? Por que em São Paulo Plano Diretor não dá ibope? Você vê discussões amplas sobre o Plano Diretor? Por que temos um Plano Diretor de 1971? O de 1988 é uma repetição. Mas se hoje estamos todos mal é porque esta cidade não tem Plano Diretor. Nem o papel realmente organizativo de um Plano Diretor está posto, nem conseguimos construir claramente o desejo coletivo de São Paulo. Tudo isso é uma demonstração de que o nível de civilidade aqui é muito baixo, para não dizer quase inexistente.

Num quadro assim, a preocupação com o embelezamento da cidade fica em último plano. O que a Prefeitura faz é pintar de branco guias e postes, gastar dinheiro à toa e achar que está embelezando. O resultado é um insulto.

Esta cidade tem um padrão higienista, altamente fascista. Dá nisso.

Mistura de hospital com quartel...

É terrível. Quando nem se estuda geografia da cidade na escola, como é que se pode construir um Plano Diretor? Que referências a pessoa tem? É claro que a discussão de todos esses instrumentos — Estatuto da Cidade, Plano Diretor, sub-prefeituras — nos dará elementos para pensarmos numa outra dimensão. Mas nenhum deles, sozinho, contém a solução.

Sabe-se que a senhora trabalha num novo Mapa da Exclusão.

Sim, estamos nos articulando para elaborar um Mapa da Exclusão 2. Já temos parcerias firmadas. Dependemos apenas de o IBGE nos disponibilizar os números do último censo. O trabalho estará concluído em 2002 e incluirá até um debate, "o que é felicidade", porque chegamos à conclusão de que estar incluído significa estar buscando a felicidade. Definir felicidade humana é o nosso desafio.


  Em Tempo  
Público terá acesso às torres da Sé


Setembro de 2002 — segundo a engenheira Maria Aparecida Soukef Nasser, da Concrejato, esta é a previsão para o término das obras de recuperação da Catedral da Sé (foto) que, entre outras atrações, passará a contar com todas as 16 torres do projeto original. Como acontece em outras grandes catedrais do mundo, o visitante terá acesso a essas torres. Cogita-se, ainda, na possibilidade de que a Catedral venha também a ser um espaço cultural, levando-se em conta seu acervo de objetos antigos e de arte.

Casa de Dona Iaiá, no Bixiga, será restaurada


O Instituto Brasileiro Pró Desenvolvimento Social (Prodes) e a Reitoria da USP firmaram convênio para o restauro da histórica Casa de Dona Iaiá, no Bixiga. Há dois anos o Prodes apresentou à Comissão de Patrimônio Cultural da universidade um anteprojeto para recuperar o imóvel e adaptá-lo à recepção de atividades do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), ligado à Fundação Zerbini e com 25 anos de importantes serviços no tratamento e combate à drogadição. Pelo convênio, o Prodes vai elaborar o projeto executivo da obra, orçada em R$ 700 mil, e juntas as duas instituições buscarão patrocínio para as obras. O Grea deve instalar no espaço um centro de informações sobre dependência química, a central de um curso à distância de especialização em drogadição para profissionais de saúde e um parque infantil, além de desenvolver trabalho voltado a jovens da região central.

Agência dos Correios retorna ao Vale em 2002


Deslocada provisoriamente para um edifício comercial da Rua Líbero Badaró, a agência central da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ECT, deverá voltar, totalmente informatizada, ao pavimento térreo do histórico edifício (foto) do Vale do Anhangabaú, provavelmente ainda em 2002. É o que planeja a empresa, cuja direção anuncia que a tradicional agência filatélica e um espaço para exposições, ambos no mezanino, serão entregues ao público na mesma ocasião. Já os pavimentos superiores, que deverão receber um centro cultural com teatro, cinema, biblioteca, auditório, café e salas de exposições, passarão por uma completa limpeza e poderão ser utilizados até que o projeto do escritório Una Arquitetos, vencedor de concurso nacional relizado em 1996, possa ser finalmente implantado. Para essa segunda etapa dos trabalhos de reocupação e reciclagem do edifício, a ECT está buscando parcerias com a iniciativa privada.

Vila Buarque luta por rádio comunitária


Criar uma rádio comunitária na Vila Buarque, Centro de São Paulo, para tratar dos problemas da área com a participação da coletividade. Com esse objetivo representantes da Igreja da Consolação, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, do Edifício Copan, da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, da Oboré Projetos Especiais em Comunicações e Artes e da empresa Datagraph, entidades localizadas no bairro, resolveram se unir. "Para que a emissora venha a existir é necessário que a lei federal sobre o tema seja modificada, passando a ser regida pelas prefeituras", diz o jornalista e professor da ECAUSP Sérgio Gomes, diretor da Oboré e um dos responsáveis pelo projeto. Nesse sentido, o grupo enviou à Câmara Municipal a proposta de projeto que regulamenta as atividades das rádios comunitárias paulistanas. Assumido pelos vereadores Carlos Néder (PT) e Ricardo Montoro (PSDB), ele já foi aprovado por duas comissões e logo será votado em plenário. A criação da rádio vai dar força ao Circuito Vila Buarque de Educação e Cultura, que reúne cerca de 20 instituições com a finalidade de articular as atividades culturais do bairro, tornando-as um instrumento de requalificação urbana.

Associação dos Advogados instala sede no Centro


O prédio Gastão Vidigal, na Rua Álvares Penteado, no Centro histórico e financeiro de São Paulo, que até o início dos anos 60 abrigou a sede do Banco Mercantil de São Paulo e mais recentemente a Bovespa, deverá receber, em abril de 2002, a sede da Associação dos Advogados de São Paulo. A entidade investiu cerca de R$ 4 milhões na aquisição do edifício de sete mil metros quadrados e estima aplicar quantia equivalente em sua reforma, cuja parte civil está quase concluída. A meta é concentrar toda a parte administrativa, cultural (com auditórios e biblioteca) e de prestação de serviços na Álvares Penteado. O tombamento da fachada do prédio, com o fim de preservá-lo, está sendo pleiteado pela entidade no Conpresp.


  Cultura  
Grandes montagens em 2002

Ópera ganha nova força, após um periodo de poucas realizações.
Leia entrevista exclusiva do maestro Ira Levin

Ana Francisca Ponzio
Fotos de Gal Oppido


A encenação em 2002 de L’Enfant et les Sortilèges, de Maurice Ravel, é apenas o aquecimento que promete6 fazer novamente da ópera um dos pontos altos da programação do Teatro Municipal de São Paulo. Depois de um período inexpressivo no calendário do teatro, a produção operística recobrou fôlego neste ano para, de agora em diante, manter-se como uma prioridade defendida tanto por Marco Aurelio Garcia, secretário municipal de Cultura, quanto pelo novo diretor musical do teatro, o maestro norte-americano Ira Levin.

Se depender de Levin, o Centro paulistano voltará a acolher superproduções. "Estou planejando uma temporada de Tristão e Isolda, de Wagner. Mas, como acabo de ser nomeado, não temos tempo suficiente para montar essa ópera em 2002. Uma boa programação precisa ser organizada a longo prazo, por isso espero ter Wagner em 2003, assim como um programa em comemoração aos 200 anos do nascimento de Berlioz", diz o maestro.

O apoio político, necessário para manter uma programação operística de grande porte, deve ser sustentado por Marco Aurelio Garcia, amante e conhecedor do gênero. "Queremos garantir uma programação de qualidade", afirma o secretário que, para tanto, está fazendo parcerias com dois teatros tradicionais de ópera: o Colón de Buenos Aires e o Scala de Milão. "Também deveremos trabalhar em cooperação com o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, trazendo suas produções para o Municipal de São Paulo, porque do ponto de vista econômico é irracional não aproveitar o investimento exigido pela ópera", afirma Garcia.

Para espectadores assíduos, contar com L’Enfant et les Sortilèges em 2002 e Tristão e Isolda em 2003 já é notícia animadora. Hélio Gonçalves Arantes, 66 anos, que desde 1958 acompanha a programação de ópera do Municipal de São Paulo ("às vezes vejo a mesma produção duas vezes, uma com o elenco importado, outra com os cantores reserva"), acha importante encenar a obra-prima de Ravel, cuja modernidade escapa à regra do repertório tradicional. "É preciso divulgar peças menos conhecidas do grande público", comenta esse publicitário aposentado, que escuta ópera cotidianamente. Quanto a Tristão e Isolda, a que já assistiu em temporadas anteriores do Municipal, Arantes diz que é um acontecimento vê-la novamente no palco do teatro. "Desde que tenha cantores à altura, pois seus papéis são muito difíceis", ele observa, torcendo para que o maestro Levin não tenha dificuldades burocráticas para colocar seus planos em prática.

Em 2002, seis óperas deverão ser encenadas no Municipal. Lúcia Camargo, diretora do teatro, acha que ainda é pouco. "O ideal é ter pelo menos oito", afirma, anunciando que o florescimento da programação de ópera ainda está no começo. "Queremos não só renovar o repertório, incluindo obras de compositores como Luciano Berio, como também convidar encenadores de renome internacional", acrescenta Lucia, que também está estreitando a parceria com a Associação Patronos do Teatro Municipal. "A partir de agora, todas as óperas programadas pelos Patronos serão realizadas em conjunto com o teatro."

Com L’Enfant et les Sortilèges, lançada por Ravel em 1925 sobre um libreto da escritora Colette, o público de São Paulo poderá ver uma produção incomum. Originalmente destinado a um balé, o roteiro de Colette fala de um garoto cujas travessuras acabam despertando a revolta dos objetos e animais de sua casa, como a xícara chinesa, a poltrona bergère, a gata e a libélula. Para colocar essa história fantasiosa em prática, a direção do Municipal vai recorrer às técnicas do teatro negro de Praga. Programada para junho, ainda não tem cantores escolhidos, mas já tem confirmada a participação da Orquestra Experimental de Repertório, sob regência de Jamil Maluf.

Outro título raramente encenado e que vai constar da programação de 2.002 é Ernani, de Verdi. Já as demais óperas pertencem ao repertório mais conhecido. Carmen, que abre a temporada em março, traz para o Municipal a mesma produção apresentada no Teatro Alfa em 2.001. Macbeth, de Verdi, Don Giovanni e Réquiem, de Mozart, completam o calendário do próximo ano, que ainda oferecerá óperas-concerto, como Elektra, de Strauss.

"A programação do Municipal costuma ser convencional, mas saber que teremos L’Enfant et les Sortilèges em 2002 já é interessante", diz o barítono paulistano Paulo Szot, de 32 anos, que acaba de ser escalado pelo New York City Opera para interpretar em 2003 um dos principais personagens da ópera Carmen (o toureiro Escamillo). Revelação recente da música lírica brasileira, Szot tem participado de várias produções do Teatro Municipal, mas ainda lida com um campo de trabalho que ele considera restrito para uma cidade como São Paulo. "As entressafras geradas pelas mudanças políticas sempre prejudicam a programação do Municipal, que não pode desperdiçar o interesse do público jovem pela ópera. Temos no Brasil uma geração viciada pela televisão que, no entanto, tem sede de opções. Tendo chance, essa juventude não tem como não se entusiasmar com a beleza sonora proporcionada por uma ópera."

Público jovem

O interesse do público, principalmente o mais jovem, está cada vez mais evidente, segundo Hélio Gonçalves Arantes. "Percebo que a ópera está ganhando uma platéia significativa e assídua de pessoas com até 40 anos. Acho que existe na cidade um público novo, ávido por novidades. O que me preocupa, entretanto, é a qualidade do que é oferecido. As temporadas ainda são confirmadas em cima da hora, o que impede de convidar cantores consagrados, cujas agendas são programadas com antecedência. Talvez por economia, tenho visto cantores convidados com grandes limitações vocais e isso é desastroso. Uma ópera mal feita é capaz de afugentar o espectador que está vendo esse tipo de espetáculo pela primeira vez", alerta Arantes.

Critério na escolha das óperas e dos cantores também é cobrado pela soprano brasileira Patricia Endo, que atualmente mora na Itália. "É preciso pensar em formação de platéias e a produção de arte no Brasil deve ter uma preocupação educacional, o que não pode ser confundido com a chatice do didatismo. A ópera conjuga todas as linguagens artísticas e poderia ser melhor explorada pelos teatros brasileiros", diz Patricia. Também a soprano Céline Imbert reconhece que o Teatro Municipal, como um "templo da ópera", tem de aproveitar melhor o potencial do gênero. "A programação tem de ser menos convencional e repetitiva", afirma. No mês passado, Céline participou da ópera contemporânea O Homem dos Crocodilos, de Arrigo Barnabé, no Centro Cultural Banco do Brasil, outro endereço da região central que tem apresentado espetáculos de canto lírico.

"Tivemos platéia lotada durante toda a temporada, por público eminentemente jovem", diz Céline, lamentando que, nos últimos tempos, os cantores brasileiros têm sido pouco prestigiados pelas produções do Municipal. "Não tenho esperanças de cantar tão cedo no Municipal, que tem preferido convidar cantores estrangeiros de menor importância do que valorizar os inúmeros talentos do Brasil". A volta de Céline aos palcos do teatro da Praça Ramos de Azevedo, no entanto, deve ser bem mais rápida do que ela espera. "Céline esteve soberba em Tannhäuser, de Wagner, encenada neste ano pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro", comenta Marco Aurelio Garcia, que espera contar com a soprano nas próximas produções do Municipal paulista.

"Queremos criar em torno do Teatro Municipal um movimento capaz de suscitar vocações", enfatiza Garcia. "Temos um público constituído e conhecedor de ópera, que é cultivado e exigente. Além de corresponder às expectativas dessas pessoas, queremos captar novas platéias porque a ópera tem enorme apelo popular".

À altura de São Paulo

O pianista e maestro Ira Levin, novo diretor musical do Teatro Municipal de São Paulo, nasceu em Chicago (EUA) e hoje trabalha principalmente na Europa. Experiente na regência de óperas, já conduziu mais de 60 títulos, inclusive obras raramente executadas como as de Busoni, Martin e Braunfels. Ele afirmou a urbs que a ópera será uma de suas prioridades enquanto trabalhar no Brasil.

O senhor pretende ampliar a programação de ópera do Teatro Municipal?

Gostaria de aumentar e enriquecer as temporadas de ópera no Municipal. Isto depende de um bom planejamento e de uma situação financeira segura. Planejar a longo prazo também será necessário, se quisermos contar com bons artistas, que costumam se programar com muita antecedência.

Como será o repertório que pretende desenvolver?


É extremamente importante cultivar um repertório variado, seja na programação de concertos ou de óperas. Mas não temos tempo para concretizar projetos mais ousados em 2002. No entanto, acredito que na programação do próximo ano estaremos dando passos adiante em direção ao que espero colocar em prática a partir de 2003.

Além de Tristão e Isolda, de Wagner, e das temporadas em comemoração aos 200 anos de Berlioz, o que planeja apresentar em 2003?


Espero encenar obras de Verdi, Britten, Bartok e Puccini, além de óperas francesas menos executadas.

É possível garantir boa programação de ópera num teatro como o Municipal?


Há inúmeros fatores que garantem o bom funcionamento de um teatro de ópera. O mais importante é a direção, o diretor musical e, claro, os políticos capazes de colaborar na manutenção do alto padrão artístico do teatro. O diretor musical deve estar presente o máximo possível e contar com boa equipe de trabalho. À direção do teatro cabe estabelecer canais de comunicação eficientes com a equipe de trabalho e garantir que a estrutura funcione. Acho que o maior desafio, para mim e a direção do teatro, será compreender o potencial e os talentos dos que estarão trabalhando conosco, nas orquestras, nos coros ou no balé. Com isso funcionando, estaremos nos colocando no patamar cultural que São Paulo merece.

Qualidade assegurada

Como na Associação VIVA O CENTRO, o ano de 2001 também é o do 10º aniversário da Associação Patronos do Teatro Municipal de São Paulo e coincide com o 90º aniversário do próprio equipamento cultural. Na última década, a maioria dos grandes espetáculos montados no Municipal teve o apoio direto desse grupo de mecenas e amantes da música, interessados em colaborar com as atividades artísticas, pedagógicas e administrativas do teatro. Por todo esse tempo, a associação foi presidida pelo empresário José Ermírio de Moraes Filho, do Grupo Votorantin, até sua morte em 11 de setembro, e hoje têm à frente Ivo Rosset, da Valisère. Em média, quatro a oito eventos da programação anual do teatro vêm se viabilizando graças a recursos levantados com a iniciativa privada pelos Patronos, tendo as montagens operísticas, desde Porgy & Bess, em 1992, seguida de Os Pescadores de Pérolas (1995), La Traviata (1996 e 2001), Carmen (1998), Rigoletto (1999) e Il Trovatore (2001), entre os pontos altos desse apoio. Os Patronos contribuíram, ainda, para que São Paulo ouvisse artistas de peso como as sopranos Renata Scotto, Katia Ricciarelli, Aprile Millo e Mirella Frene, os violinistas Isaac Stern e Itzhak Perlman, a mezzo-soprano Frederica von Stade, o trumpetista de jazz Wynton Marsalis e a Filarmônica de Israel, sob regência de Zubin Mehta. "Daqui para a frente, nossa parceria com o Municipal tende a se incrementar, ainda mais porque o teatro passa a contar com uma direção artística de qualidade", diz o assessor de Imprensa dos Patronos, Osmar Fernandes Maduro, numa referência à importância da contratação do maestro Ira Levin para São Paulo.


  Cultura  
No coração do Centro

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Ana Francisca Ponzio
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


A chance de transformar o antigo prédio da Mesbla em mais uma sede do Sesc (Serviço Social do Comércio) tem significado especial para o arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Testemunha das conquistas e perdas da cidade de São Paulo, ele presenciou tanto a ocupação da Avenida Paulista, nos anos 30, quanto os bailes e encontros de lazer que ocorriam na década de 50 nas sedes sociais do Clube Pinheiros e do Automóvel Clube, então situadas no Centro paulistano.

"Vejo com muita esperança a instalação de uma unidade do Sesc na Rua 24 de Maio, onde funcionou o magazine Mesbla", diz o arquiteto, que se considera paulistano, embora tenha nascido em Vitória (ES), em 1928. Convidado pela direção do Sesc para reformular a arquitetura do edifício, Mendes da Rocha ainda não desenvolveu o projeto em maquete. "Tenho idéias bastante interessantes, mas por enquanto não é possível divulgá-las", comenta, acrescentando que o maior desafio da empreitada será satisfazer os desejos "acrisolados" da população.

"A Rua 24 de Maio é um lugar extraordinário de São Paulo. Liga a pequena praça lateral do Teatro Municipal à Praça da República, que conduz à AvenidaVieira de Carvalho e ao Largo do Arouche. Ao acolher um centro de cultura e recreação, o prédio da extinta Mesbla passa a corresponder ao caráter cósmico da animação, que constrói a concepção de cidade. Por estimular a troca de idéias e a reprodução do conhecimento, as atividades promovidas pelo Sesc serão revitalizantes para a região", salienta o arquiteto.

Compartilhando as mesmas expectativas, o sociólogo Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, espera inaugurar a sede da 24 de Maio dentro de três anos, no máximo. As reformas começam no início de 2.002, com o objetivo de transformar o prédio num conglomerado que incluirá teatro, restaurante, piscina e recintos diversos para atividades culturais e esportivas. Com área aproximada de 18 mil metros quadrados, o futuro endereço do Sesc terá uma dimensão física similar à do Sesc Vila Mariana. "Será nossa 12ª unidade na Capital. Com sua inauguração, deveremos desativar duas unidades centrais, a da Rua do Carmo, que atende principalmente o público da terceira idade, e a da Rua Florêncio de Abreu, onde temos os consultórios odontológicos", adianta Miranda.

Integração

Acima de tudo, o diretor espera fazer do Sesc um instrumento de interação na área central de São Paulo. "Estaremos num lugar de imensa circulação de pessoas, em frente a um ponto expressivo, que é a Galeria do Rock. Nossa intenção é atender a demanda desse público múltiplo, formado por uma população de todos os níveis sociais. O Centro paulistano é um local de encontros muito significativo. Está conectado com o que há de mais moderno, mas por ele também circula a periferia da cidade. Nesse contexto, esperamos gerar atividades que sejam integradoras e não excludentes. Não imagino o Centro como um lugar higienizado, sob o ponto de vista humano, mas como uma junção estimulante de contradições", observa Miranda.

Para comprar o prédio da Mesbla, o Sesc estará pagando no prazo de até quatro anos a quantia de R$ 6 milhões. "Estávamos procurando um imóvel próximo ao Vale do Anhangabaú ou do Teatro Municipal, quando surgiu a chance de participar do leilão promovido pelo então proprietário do edifício Mesbla, o Bradesco", diz Miranda. "Na reforma do prédio, deveremos gastar um montante equivalente ao investido na compra", ele prevê, levando em consideração a perspectiva de convivência e integração que a nova sede proporcionará. "Nossa proposta é prestar um serviço à cidade enquanto local de moradia e encontro."

Com os olhos no futuro, os idealizadores do novo Sesc assentarão suas idéias num edifício que faz parte da história de São Paulo. Segundo Mendes da Rocha, o prédio da Mesbla foi provavelmente construído na década de 50, "quando era possível participar de regatas no Rio Tietê". Para atender às demandas da loja de departamentos que abrigou, o imóvel passou por várias reformas. "Encarnou o empório comercial típico, assim como o Mappin e a Casa Alemã", lembra o arquiteto. "Sob o ponto de vista da construção civil, trata-se de um edifício bom e bem feito. Ao contrário dos arranha-céus, é sensivelmente horizontal e por isso possui uma espacialidade aberta a transformações."

Outra perspectiva que anima Mendes da Rocha é o retorno, por meio do Sesc, das atividades sociais para o Centro paulistano. "Se isso for retomado, de uma forma nova com relação ao passado, revigora-se a proposta de revitalização da região central, que se apaga à noite. Ainda convivemos com essa condição camponesa do Centro, com pessoas que retornam à noite para casa, depois de despender o dia na roça. Essa mobilidade diária da população é pouco compatível e até contraditória com a idéia contemporânea de cidade."

Fazer uma nova cidade, na opinião de Mendes da Rocha, também implica aproveitar prédios existentes e não ficar em busca de terrenos vazios para erigir novas construções. "Isso é um desastre para a cidade, a qual deve surgir dentro de si mesma. Ela deve se adensar não no sentido puramente quantitativo, da desordem, da acumulação, mas quanto à possibilidade de influenciar as atividades humanas. Para tanto, é preciso também estimular a idéia de habitação popular no Centro."

Para todos

Ao falar de habitação popular, o arquiteto esclarece que está se referindo à possibilidade de moradia para todos, não importa a classe social. "É preciso desmistificar a visão restrita do popular. Qualquer um de nós poderia desfrutar da condição de morar no Centro e, em São Paulo, o edifício Copan é um exemplo extraordinário de habitação popular, ou seja, acessível ao elenco de desejos e situações que a população exibe. Ao contar com locais de cultura e recreação próximos, como o Sesc, amplia-se o conjunto de situações que realiza a chamada cidade contemporânea."

Vivendo em São Paulo desde 1935, Mendes da Rocha sempre manteve seu escritório de arquitetura no Centro. "Trata-se de uma preferência da minha geração, que eu conservei", explica. Entre as marcas que seu trabalho possui na cidade, estão o ginásio do Clube Paulistano, o Museu Brasileiro da Escultura (Mube), a reforma da Pinacoteca do Estado, a loja Forma da Rua Augusta. No momento, ao voltar-se para o projeto do Sesc, encravado no coração da capital paulista, ele espera contribuir para a recuperação de sua decantada idéia de metrópole.

"Hoje, existem cerca de 400 mil habitações abandonadas, fechadas ou vazias em São Paulo. Essa realidade é atribuída às regras da especulação imobiliária. Perante esse fato e as discussões sobre a recuperação da área central, é importante questionar o abandono dos edifícios já edificados, para se construir novos em locais mais distantes. De certa forma, isso corresponde a uma idéia de exclusão, porque se funda uma outra cidade, longe daquela que já foi implantada e que necessariamente é democrática. Para mim, o lugar primordial de habitação é a área central, que já está equipada com todos os recursos de comunicação e transporte. Resgatando-se essa ocupação plena dos espaços centrais, chegaremos à condição festiva e até erótica da vida na cidade."


  Mix  
Os russos estão aí


Eles invadiram São Paulo no começo de dezembro. Entrincheiraram-se no Centro Cultural Banco do Brasil. E marcaram data para a retirada: 17 de fevereiro de 2002.

Lá estão, à frente de aguerrido pelotão, líderes respeitabilíssimos como Mayakovsky, Rodchenko, Malevich, El Lissitzki e os irmãos Stemberg.

Nada de pânico. Os russos não vieram com tanques nem fuzis. Estão de passagem, em pacífica missão cultural. Querem apenas exibir seu estilo, em busca de admiração e aplausos. Foram eles os vanguardistas das artes gráficas na primeira metade do século 20, criadores de admiráveis cartazes, gravuras, "rostas", fotomontagens. Até os fantasmas de Lenin e Stalin comparecem em inofensivas litografias. Trata-se da bela (aliás, belíssima) mostra "Gráfica Utópica".

O visitante poderá apreciar, para inveja dos jejunos parisienses, 147 obras originais, recolhidas nos três principais museus de Moscou, e que de lá nunca antes haviam saído.

A exposição traz o melhor do que produziram os artistas gráficos russos entre 1904 e 1942. Abrange o período pré-revolucionário (até 1917): estilo moderno russo, que soma art nouveau com traços da gravura japonesa, da arte popular dos lubik e da arte bizantina conservada pela igreja ortodoxa), documenta as transformações do fértil período revolucionário e registra a decadência do período stalinista (marcado pela perseguição e pelo terror).

O bondoso leitor me perdoa uma vulgaridade? Imperdível.

Centro Cultural Banco do Brasil

Esquina das ruas Álvares Penteado e da Quitanda. Melhor acesso: Metrô Sé ou São Bento. Terça a domingo, das 12h às 18h30. Visitação gratuita. Até 17/02/2002. Mais informações? Pelo telefone 3113-3618.


Marília Pêra


Ela é ele, ou ele é ela? Num show de versatilidade, a estrelíssima Marília Pêra brilha em Víctor ou Victória, na Sala Esther Mesquita do Teatro de Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3344. Quem ainda não viu deve ver, e quem já viu talvez queira rever essa incrível comédia musical, com elenco de 60 profissionais e orquestra ao vivo. Para isso, tem todas as noites (segunda a sábado, 21h; domingo, 18h) de janeiro e fevereiro de 2002. Vale o preço (R$ 30 a R$ 100).

Agitos no Masp-Centro


Cinco milhões. É quanto vai custar para o Masp, em 2002, a reforma da Galeria Prestes Maia (foto acima) na Praça do Patriarca. Também a praça será remodelada, projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, com obra a ser comandada pela Emurb (Empresa Municipal de Urbanização). A galeria seria rebatizada de Galeria Masp-Prestes Maia. A primeira grande exposição do ano acontecerá de 27 de fevereiro a 17 de março: Mapa Cultural Paulista, projeto da Secretaria de Estado da Cultura, com exemplares nas diversas modalidades de artes plásticas e também fotografia. Tel. 3101-7666. Acesso recomendável: Metrô Anhangabaú, saída Dr. Falcão.

Cultura em quermesse domingueira


Foi uma idéia boa, muito boa. Palmas para quem a teve e para a Secretaria de Cultura (estadual), que vem implementando o projeto São Paulo é um Espetáculo desde outubro último.

Todo domingo, a Praça Júlio Prestes é uma verdadeira quermesse das 8 da manhã às 5 da tarde. Lazer e cultura para a população da Luz, à qual se juntam pessoas que acorrem de outras áreas da cidade.

As atrações são muitas: automóveis antigos em exposição, barracas de comidas típicas, música, quebra-queixo e pipoca de graça para a criançada, exibições circenses e teatrais de rua, passeio pela região numa jardineira Ford Mobile 1931. Até a fantástica Sala São Paulo se abre para apresentação de espetáculos sinfônicos, normalmente às 5 da tarde, às vezes também às 11 da manhã, entrada por apenas 1 real. Mesmo preço simbólico para assistir a eventuais espetáculos no Teatro São Pedro. Grátis o acesso à Pinacoteca do Estado.

Haja fôlego! Sem dúvida, uma iniciativa elogiável, para alegria geral. Claro que a chamada "gente fina" vai achar defeitos. Com o tempo, e a experiência, o projeto se irá arredondando. Certamente a Prefeitura providenciará o conserto do calçamento esburacado, a prévia varrição da praça, a remoção dos vendedores de trambiques aos domingos, etc. Certamente a Praça do Choro (um dos itens do projeto São Paulo é um Espetáculo) aprenderá a equalizar o som. Certamente haverá um balcão de informações (talvez à entrada do estacionamento) que oriente os visitantes sobre a programação do dia.

O projeto está implantado. Importante é que ele vá em frente e se aperfeiçoe. A urbs o apóia e aplaude.

São Paulo é um Espetáculo.

Praça Júlio Prestes/Sala São Paulo, Jardim da Luz/Pinacoteca do Estado e Teatro São Pedro. Domingos, a partir das 10h. Ingresso: R$ 1 para espetáculos na Sala São Paulo. Mais informações no site
www.culturapress.com.br.

Ou melhor, brasileiros


Já foi a Hospedaria dos Imigrantes, mandada construir em 1886 pelo Visconde de Parnaíba, então presidente da Província de São Paulo. Em 91 anos (1887 a 1978) hospedou quase três milhões de estrangeiros que deixaram suas pátrias (as mais diversas) e optaram por viver no Brasil. Hoje (desde 1993), prédio histórico devidamente restaurado, é o Memorial do Imigrante.

A programação para 2002 tem quatro destaques. Dia 25 de janeiro (448° aniversário da fundação de São Paulo), "Festa da Cidade". No primeiro semestre, duas exposições: "Toscanos no Brasil", seguida de "Libaneses". No segundo semestre, "Imigração Alemã". Essas mostras visam chamar a atenção para a significativa participação de toscanos, libaneses, alemães e seus descendentes na formação do povo brasileiro e de sua cultura. Rua Visconde de Parnaíba, 1316, pertinho do Metrô Brésser. Tel. 6692-1866.

Venite, adoremus


Aonde? Ao Museu de Arte Sacra de São Paulo. Quando? Até 3 de fevereiro próximo. Por quê? Lá estão montados presépios. Uns noventa. Piedosa poesia plástica. Vinde, admiremos.

Há presépios brasileiros da Bahia, de Pernambuco, de Minas Gerais, de Santa Catarina, do Rio de Janeiro. Presépios africanos, com todos os personagens negros, presépios da Bolívia, da Guatemala, da Alemanha, da França, de Portugal, de muitos países diferentes. Cada um espelha a cultura específica da sociedade que o criou. No presépio japonês, José é um samurai, Maria é uma gueixa, Jesus é um menino de olhinhos puxados.

Na curiosa mostra "Presépios – Olhar dos Povos", o conjunto mais precioso da arte presepista é o Napolitano (foto). Obra de impressionante realismo executada no final do século 18. Só existem no mundo mais dois exemplares comparáveis em grandeza e beleza: um em Nova York (Metropolitan Museum), outro em Nápoles mesmo (Museu San Martino).

O Napolitano exposto no Museu de Arte Sacra de São Paulo foi comprado na Itália por Cicillo Matarazzo (década de 1940), que o doou à Prefeitura, que o repassou ao museu. São 1.623 peças. Apresenta uma diversidade de personagens típicas da sociedade napolitana do século 18, gente da cidade, pastores, agricultores, móveis, utensílios, animais, comidas. As figuras humanas (445, muitas ainda com suas roupas originais) são talhadas em madeira ou modeladas em terracota, sobre armação de arame. Vale a visita.

Museu de Arte Sacra de São Paulo.

Av. Tiradentes, 676, tel. 3326-1373 ou 5393. Melhor acesso: Metrô Tiradentes, saída quase à porta. Terça a sexta, das 11h às 18h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 19h. Ingressos: R$ 4; estudantes, R$ 2; maiores de 65 anos e crianças, grátis.


Superprodução continua

O Teatro Paramount foi criado (1929) com uma proposta: trazer para São Paulo os grandes musicais da Broadway. Quatro décadas de glória encerradas com um incêndio (1969). O nobre teatro então virou cinema, descambou para sessões corridas de filmes pornô, fechou. Por um triz o espaço não se tornou estacionamento com fachada e foyer em estilo art nouveau. Felizmente acabou nas mãos de gente ligada à cultura: grupo Abril e CIE (Corporación Interamericana de Entretenimiento). Após caprichosa reforma e 12 milhões de investimento, o Paramount renasceu em abril de 2001 com novo nome: Teatro Abril. Proposta, a mesma de 1929: a Brodway em São Paulo. Primeiro musical: Les Misérables, baseado em romance de Victor Hugo. Dado o sucesso de crítica e público, a superprodução interrompe a temporada somente no período de 23 de dezembro a 8 de janeiro de 2002, voltando ao cartaz de 9 de janeiro até o final de março. Espetáculos às quartas e sextas (21h), sábados (17h) e domingos (18). Ingressos: R$ 30 a R$ 120. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, tel. 3115-4771.

Osesp, temporada 2002


Música de qualidade e primeiras audições imperdíveis, como a de junho, em que o italiano Luciano Berio, pioneiro da música eletroacústica, regerá três de suas obras, uma delas, a Sinfonia para Oito Vozes e Orquestra, com o renomado conjunto Single Singers. Está demais a Temporada 2002 da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, s/n, tel. 3337-5414). Ao todo são 38 programas, em geral exibidos às quintas-feiras à noite com repetição aos sábados à tarde, como anunciou em fins de novembro o regente titular e diretor artístico da Osesp, maestro John Neschling. Pelo terceiro ano consecutivo, a Osesp oferece quatro séries de assinaturas com diferentes programas, distribuídas em dois conjuntos, Noite e Tarde. As assinaturas, de R$ 54 (estudante) a R$ 324 (balcão mezanino), podem ser adquiridas a partir de 7 de janeiro, de segunda a sexta, das 10h às 17h, na bilheteria da Sala São Paulo, ou pelo tel. 3351-8200. O concerto de abertura da temporada acontece em março (dias 7, 8, 9), com duas obras-primas: Sinfonia n° 1 em Ré Maior (Titan), de Gustav Mahler, e Magnificat em Ré Maior, de Johan Sebastian Bach, sob regência de Roberto Minczuk. Estacionamento interno, amplo: R$ 5.

Música em tom maior


Como ocorre todo ano há várias décadas, também em 2002 as atividades culturais no Centro serão especialmente incrementadas pela programação de duas tradicionalíssimas entidades do setor: a Sociedade de Cultura Artística, no Teatro Cultura Artística (Rua Nestor Pestana, 196), e o Mozarteum Brasileiro, na Sala São Paulo (Complexo Cultural Júlio Prestes) e no Teatro Municipal.

A Sociedade Cultura Artística inaugura sua temporada com recitais do pianista russo Nikolai Luganski, em abril. Em maio, traz a Orquestra de Câmara de Lausanne, regida por Christian Zacharias. No mês seguinte, o Chamber Ensemble da academia de St. Martin-in-the Fields e a Orquestra do Século XVIII, que será regida por Thomas Zehetmair. Em julho, o Quarteto Beethoven di Roma; em agosto, a Filarmônica de São Petersburgo, com o maestro Yuri Temirkanov e o pianista Alexander Toradze, e a meio-soprano Jennifer Larmore; em setembro, a Orchestra of the Age of Enlightenment; em outubro, a Orquestra Filarmônica de Dresden, acompanhando o Coro da Igreja de Santa Cruz da mesma cidade; e, encerrando a temporada, a Kremerata Baltica, regida pelo violinista Gidon Kremer. A venda de assinaturas começa em meados de fevereiro. Informações pelo tel. (11) 3256-0223 ou no site www.culturaartistica.com.br.

Abre a temporada do Mozarteum, em maio, a Bayerischer Rundfunk Orchestra, sob a regência de Lorin Maazel. Na mesma época, ocorre o concurso Maazel/Vilar de regência, com a participação da Orquestra Experimental de Repertório e um júri encabeçado pelo próprio Maazel. Em junho, a entidade traz a Danish National Radio Symphony, acompanhando o violinista Frank Peter Zimmermann, sob regência de Gerd Albrecht; em agosto, o conjunto de câmara German Brass; em setembro, a Heidelberger Sinfoniker, acompanhando Nelson Freire sob regência de Thomas Fey; e, encerrando a temporada, em outubro, a Norddeutscher Rundfunk Orchester Hamburg. Informações pelo tel. (11) 3815-6377 ou no site www.mozarteum.org.br.


  Livros  
Perspectiva histórica


O sociólogo, arquiteto e professor da FAUUSP Nestor Goulart Reis oferece à fruição intelectual um trabalho de inestimável valor científico e cultural, resultado de muitos anos de pesquisa. No livro Imagens de Vilas e Cidades do Brasil Colonial (Edusp e Imprensa Oficial, 411 páginas, R$ 140), escrito com a colaboração de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno e Paulo Valentino Bruna, Goulart Reis oferece um amplo panorama da evolução dos sítios urbanos brasileiros. Mapas, desenhos, croquis e muita documentação textual compõem o vasto material disperso sobre o assunto, que organizado por Goulart Reis proporciona importante instrumental para o entendimento da História do Brasil, indicando ao mesmo tempo sua rica e agitada vida urbana, sobretudo no século XVIII, período de intensa atividade cultural no país. O volume integra a Coleção Uspiana – Brasil 500 anos.

A representação na cidade


Empregando texto e CD-ROM, recurso interessante quando se pretende dar maior visibilidade à tese defendida, o livro Arte Urbana (co-edição Annablume/Fapesp, 82 páginas, R$ 20), da arquiteta Vera M. Pallamin, da FAUUSP, trata da conceituação sobre arte urbana e processos de estetização contemporâneos, com uma reflexão sobre práticas artísticas e sua relação com as transformações qualitativas dos espaços públicos, tendo como objeto de estudo a região central de São Paulo no período de 1945 a 98. No CD o leitor encontra três eixos referenciais: os urbanos, os artísticos e os de autores/obras.

Mapa da exclusão


Com o auxílio de um exaustivo levantamento sócio-geográfico, a vereadora e professora da PUC-SP Aldaíza Sposati apresenta no livro-mapa Cidade em Pedaços (Editora Brasiliense, 173 páginas, R$ 23,40) um painel da deterioração dos espaços públicos e instituições em São Paulo. Segundo a pesquisadora, a cidade não se conhece e não se reconhece como tal em suas ruas, praças, jardins e calçadas, que se tornaram forasteiras e perderam a identidade, vindo a abrigar toda sorte de miséria. O trabalho deriva de uma pesquisa maior, Mapa da Exclusão/Inclusão Social da Cidade de São Paulo, de 1996, com atualização em 2000, e revela uma São Paulo partida pelas desigualdades e pela incompetência burocrática.

Comércio em foco


Que imagem tem o comércio numa cidade e qual a imagem da cidade desenhada pelo comércio? A pergunta começa a ser respondida por um dos raros livros a abordar esse tema no Brasil – Espaço Terciário, o Lugar, a Arquitetura e a Imagem do Comércio (Editora Senac, 335 páginas, R$ 48), da mestre e doutora em arquitetura pela USP e economista pela PUC-SP, Heliana Comin Vargas. Do bazar árabe ao shopping center, do comércio ambulante ao virtual, a arquiteta se propõe investigar a interferência do comércio na composição das áreas urbanas.

Olhar do coração


Nesta publicação, um programa de rádio converte-se em livro. O jornalista Geraldo Nunes, repórter aéreo da Rádio Eldorado AM, traz para o papel, em São Paulo de Todos os Tempos (RG Editores, 246 páginas, R$ 40), sua experiência de 12 anos sobrevoando diariamente a cidade de São Paulo. Segundo Nunes, a cidade é incrivelmente bela, apesar de toda a sujeira dos rios, do lixo jogado por detrás dos muros, dos abusos no trânsito. "Sua beleza está nas ruas arborizadas, na arquitetura dos prédios e nas igrejas que dão um toque singelo à metrópole. São Paulo não pode ser observada apenas com os olhos, mas também com o coração."

Contra o fashion


No livro Brasil, Cidades — Alternativas para a Crise Urbana (Editora Vozes, 204 páginas, R$ 21) a arquiteta Ermínia Maricato, professora titular da FAUUSP, busca respostas para as novas questões colocadas às metrópoles brasileiras, entre elas, a de como implementar a participação social no planejamento da cidade. A impossibilidade da construção de um planejamento com orientação democrática, argumento freqüente do chamado "urbanismo fashion", é duramente criticado pela pesquisadora, que conclama críticos e teóricos a atuar exatamente na direção oposta, ou seja, de engajamento com a praxis urbana.

Design prático


Este livro foi publicado pela primeira vez em inglês em 1981, daí porque o lançamento, 20 anos depois, desta segunda edição em português, no Brasil, merece uma resenha. Afinal, Desenho a Cores – Técnicas de Desenho de Projeto para Arquitetos, Paisagistas e Designers de Interiores, de Michael E. Doyle (Bookman, 362 páginas, R$ 118), está entre aqueles títulos de aplicação eminentemente prática, como as boas obras de referência, e não perdeu atualidade. Segundo o próprio autor, esse trabalho destina-se a ajudar estudantes, jovens profissionais e professores a fazer com que o treinamento em design possa florescer.

Memória judaica


Notável entidade de benemerência mantida pela comunidade judaica de São Paulo, a Unibes tem os seus 85 anos de história registrados em um belo e documentado livro, com pesquisa histórica e texto de Roney Cytrynowicz e apoio de uma equipe especializada. O resultado é um trabalho que conta muito sobre a cidade de São Paulo e o bairro onde se concentraram, na primeira metade do século XX, os imigrantes europeus de origem judaica: o Bom Retiro, ainda hoje, com suas instituições culturais, sinagogas e restaurantes típicos, uma das mais interessantes referências do multiculturalismo paulistano. Muitas fotos antigas e contemporâneas e reproduções de documentos, além do texto primoroso, fazem do livro uma pequena mas fascinante aventura pelos meandros de uma história ainda pouco conhecida. O livro deve ser solicitado pelo tel. (11)3311-7300 e custa R$ 50.


  Mesa  
A pressa é inimiga da refeição

João Podanovsky


Garfo na mão direita, fios de macarrão suspensos no ar. Na mão esquerda, o celular. A boca, interrompido o gozo do molho ai quattro formaggi, ocupada com despachos executivos: "tá legal, nos encontramos no escritório em quinze minutos", "garçom, a notinha, por favor".

Cena triste, deprimente. A sagrada mesa de refeições convertida em profano altar de sacrifícios, sobre o qual, cotovelos nele fincados, o executivo moderno imola ao ídolo Money seu macarrão, seu vinho, seu bate-papo, sua saúde, seu tempo de prazer, sua vida.

Abaixo a padronização e globalização do sabor. Abaixo os agrotóxicos. Abaixo os alimentos transgênicos, os requentados, os pré-cozidos, os congelados. Abaixo freezers e microondas. Abaixo o sanduíche. Abaixo os McDonald’s, self-services por quilo e todos os templos do fast-food. Morte ao vírus da velocidade.

Viva a cozinha regional. Viva a receita tradicional. Viva a agricultura orgânica. Viva o bar, o pequeno restaurante, o hotel sem estrelas, a despretensiosa pousada. Viva o prazer em geral. Viva, em particular, o prazer da refeição saudável, pausadamente saboreada em amiga companhia. Viva o slow-food.

Esses gritos de guerra imaginários parafraseiam o vibrante mas circunspecto manifesto do Movimento Slow Food que, há 15 anos, vem se espalhando pelo mundo.

Esse movimento eclodiu na Itália, em 1986, quando, em Roma, em plena Piazza di Spagna, foi inaugurado um imponente Mc- Donald’s. Um pugilo de intelectuais liderados pelo jornalista e professor Carlo Petrini reagiu como que diante de um atentado terrorista.

Sediado no vilarejo de Bra (no Piemonte), o movimento rapidamente tomou corpo, alastrou-se pela Bota, ganhou adesões na França, Alemanha, Espanha, Portugal, Suíça etc., até em Nova York. Estruturou-se. Em dezembro de 89, em Paris, numa concorrida assembléia no Teatro Ópera, teve aprovados seus estatutos e manifesto.

Co-fundador do Slow Food e seu representante em São Paulo, Venanzio Ferrari, sócio do irmão Massimo no homônimo restaurante paulistano.

Hoje o movimento tem convívios (grupos organizados) em mais de 50 países dos cinco continentes. Só na Itália são mais de 40 mil filiados. No Brasil, existem convívios no Rio de Janeiro, na Bahia, no Acre, no Rio Grande do Sul.

Os convívios promovem debates, degustações, jantares temáticos, apoio efetivo a pequenos produtores, assistência alimentar a comunidades carentes. A sede, em Bra, mantém uma editora de livros e revistas voltados exclusivamente para a arte culinária e cultura gastronômica.

Movimento Slow Food

Gurmês paulistanos interessados em mais informações sobre o podem acessar a Internet (www.slowfood.com/) ou entrar em contato com Venanzio Ferrari no restaurante Massimo (Alameda Santos, 1826, tel. 3284-0311).


PATROCINADORES Revista URBS

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Pinheiro Neto Bank Boston
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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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