Pronta para a largada
Decadência? Esvaziamento? A economia da cidade nunca foi tão ativa e a sociedade tão pronta a participar. Ao poder público cabe aproveitar a chance e virar o jogo da exclusão e da pobreza
JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina
Integrar a São Paulo precária e injusta à cidade equipada e próspera, dar início a um círculo virtuoso de expansão econômica gerando e distribuindo renda. Este é o real desafio que a prefeita Marta Suplicy tem pela frente. Só assim atingirá o cerne dos problemas que prometeu desafiar: pobreza, exclusão, desemprego, má qualidade urbana e de vida. A seu favor a prefeita pode contar com a maior carga de expectativa e confiança jamais mobilizada por uma administração pública em São Paulo. E o município que administra é a cidade central de uma região metropolitana que, a despeito de suas mazelas, figura entre as aglomerações urbanas mais produtivas do mundo. Com um PIB metropolitano superior a US$ 100 bilhões, um potencial de consumo estimado, em 1998, em US$ 55 bilhões apenas no município, respondendo por 10% das exportações brasileiras e sediando a metade das maiores empresas privadas do país, a Região Metropolitana de São Paulo é classificada pelo GaWC, um instituto de estudos sobre globalização com sede em Londres, na categoria Beta World City, uma cidade mundial do mesmo peso de Toronto, Bruxelas, Madri, Seul, Moscou, San Francisco, Zurich, Cidade do México e Sidney. Ela abriga, ainda, um dos dois únicos pólos de inovação tecnológica da América Latina, conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado em julho. O outro é Campinas, e aos dois se poderia agregar o pólo aeroespacial e de telecomunicações de São José dos Campos ambos num raio de até cem quilômetros da Praça da Sé. O que significa essa síntese de máxima criatividade vis à vis extrema pobreza, inserção global versus exclusão local? Que a prefeita, se estiver disposta a mexer profundamente nas estruturas da cidade e está, não haja dúvida , vai se valer, num sentido prático, do que o urbanista espanhol Jordi Borja declarou a uma platéia de colegas e outros especialistas reunidos no Encontro Preparatório ao Seminário Internacional Centro XXI, realizado pela Associação VIVA O CENTRO em 1994, insistindo em que há saídas para o impasse de São Paulo: problemas imensos engendram soluções de igual escala. Ele ajustava ao contexto paulistano o célebre paradoxo de Marx segundo o qual a humanidade só se coloca problemas que ela pode resolver.
Resolver como? A resposta está no bojo do problema: a cidade produtiva e rica precisa incorporar a cidade pobre e injusta à máquina de gerar riqueza e, assim, tornar o conjunto mais eficiente e distributivo. Isso não será possível numa perspectiva tradicional de gestão e planejamento, começando pelo aumento da carga tributária das empresas mais dinâmicas. Para deflagrar o start de um processo de desenvolvimento e inclusão social em alta escala, com resultados expressivos nos limites de seus quatro anos de mandato, a prefeita pode recorrer às operações urbanas linha em que vem trabalhando a Secretaria de Planejamento Urbano , apoiar experiências empresariais inovadoras (que muitas vezes incluem melhoramentos urbanos para o entorno), incentivar as iniciativas populares pró-revitalização de bairros e, por fim mas não menos importante, estimular a economia do Centro. Programas locais de desenvolvimento, conduzidos pela Prefeitura, devem abrigar e propulsionar essas iniciativas nos bairros. No Centro faz-se necessário um órgão encarregado de implementar um plano estratégico, atrair investimentos e coordenar as forças sociais e produtivas da área.
Entre os focos de inovação e cidadania empresarial que se espalham pela cidade estão as 1.500 confecções de vestuário do bairro central do Bom Retiro, responsáveis pela massificação de grifes refinadas e que, agora, se preparam para investir na criação de suas próprias marcas, contando com estilistas formados pelas faculdades de moda. Reunidos na Câmara dos Dirigentes Lojistas do bairro, empresários judeus e coreanos numa das formidáveis sínteses culturais paulistanas idealizam melhoramentos para o bairro, em projeto a ser apresentado à Prefeitura, e falam em fundar uma escola de criação de moda. A idéia é que o Bom Retiro, cujos produtos têm chegado a países vizinhos e até aos Estados Unidos, seja uma referência no desenho e produção de moda. Outro exemplo vem da Vila Olímpia, bairro próximo à nova centralidade que se forma no eixo da Avenida Luiz Carlos Berrini e que reúne um grande número de empresas de Internet, as chamadas pontocom. Nele, um grupo de moradores e empresários fundou a Colméia, entidade que pretende aplicar recursos próprios para melhorar a paisagem e a segurança do bairro, com a reformulação das calçadas, o ocultamento no subsolo da agressiva fiação aérea e o reforço do policiamento preventivo, mediante parceria com as polícias Civil e Militar. No bairro central da Liberdade, a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil uniu-se à Prefeitura, ao BNDES e ao Sebrae para desenvolver um plano de desenvolvimento turístico, cultural e comercial com a valorização das características orientais da área. A Zona Leste é hoje o reduto de centenas de pequenas indústrias que, dispersas e misturadas ao casario, mal aparecem à primeira vista. São, na maioria, fábricas de artigos de plástico, metalúrgicas, confecções e gráficas instaladas em pequenos galpões quase sempre próximas do local de moradia dos empregados e convivendo pacificamente com a população residente. Estão lá, e não no Interior e em outros Estados, muitas das pequenas e médias empresas que ocupavam os prédios que hoje se vêem, vazios, ao longo da Avenida do Estado e da ferrovia, entre o Centro e o ABC. Em entrevista à publicação Balanço Anual, da Gazeta Mercantil (novembro de 2000), a urbanista Raquel Rolnik considera que essa dispersão, em si positiva, exige novas políticas urbanas e a mudança da legislação atual, que ainda prevê a concentração industrial em áreas segregadas uma herança da época em que qualquer indústria, grande ou pequena, era barulhenta e poluidora. Isso está mudando rapidamente.
Vital como sempre, a cidade não teve a sua capacidade produtiva danificada seriamente pelas últimas e desastradas gestões, nem foi vítima de um tão propalado quanto enganoso esvaziamento econômico provocado pela guerra fiscal. Nela continua havendo, e talvez como nunca, uma formidável massa de energia criativa.
É claro que nada disso escapa ao conhecimento da prefeita, dos secretários e técnicos da Prefeitura. Pois nesses fenômenos está boa parte da resposta aos imensos problemas que a cidade se coloca e que ela própria pode resolver. Esse inesgotável potencial de geração de renda, empregos, receitas públicas, animação e qualidade urbana encontra-se em toda parte. Há que aproveitá-lo do Centro às novas centralidades, dos centros dos bairros à periferia, às favelas e aos bairros populares da área central. Setores urbanos "expectantes", como as margens das ferrovias e dos rios, com seus galpões e pátios desertos, aguardam a intervenção do poder público para converter-se em núcleos pulsantes de economia e vida social. O que equivale a dizer que as profundas transformações de que São Paulo necessita já estão prefiguradas. Basta desatar forças produtivas e energias sociais ainda latentes e coordenar as já manifestas para que, integradas a bons projetos urbanos, moldem a configuração da nova cidade. A Prefeitura acertou em cheio ao privilegiar as operações urbanas pelo menos é o que se depreende das anunciadas intenções da Secretaria de Planejamento Urbano, refletindo, decerto, decisão da prefeita.
As operações urbanas
Numerosas cidades que, ao redor do mundo, vêm obtendo êxitos em suas políticas urbanas recorrem a essas operações. Trata-se da fórmula mais eficiente e democrática de assegurar ganhos sociais e urbanísticos com o uso de recursos privados, numa era marcada pelo declínio da capacidade de investimento do Estado. Sabe-se que, em São Paulo, alguns segmentos da administração municipal manifestam reservas a esse tipo de intervenção negociada, nela vislumbrando algum risco de "promiscuidade" entre o público e o privado. O temor, contudo, não procede.
"A operação urbana é um instrumento de parceria e negociação estabelecido entre o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada previsto no Direito urbanístico e consagrado pelo Estatuto da Cidade", afirma a advogada Evangelina Pinho, diretora do Departamento de Regularização do Solo (Resolo) da Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano. "O Estatuto resolve o problema jurídico da necessária separação entre o direito de propriedade e o de construir. Hoje já se pode alienar o direito de utilizar superfície, espaço aéreo, subterrâneos, e a operação urbana é o conjunto de ações que se pode desenvolver a partir disso. O problema dessas operações tem sido de gestão, e por isso faz-se necessário um controle social sobre elas." Em outras palavras, definem-se como um instrumento de negociação e consenso entre atores urbanos interessados. Ao poder público cabe elaborar um projeto que contemple não só a articulação das funções, mas a modelagem urbana que se deseja, e estabelecer as regras. À iniciativa privada compete o investimento e à sociedade o controle.
"A operação urbana ligada ao projeto urbano, à reestruturação urbana, é elemento chave do urbanismo contemporâneo", afirma o ex-vereador e atual presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Maurício Faria. Segundo ele, em São Paulo já existe um ambiente político e institucional bastante favorável ao seu uso. "Trata-se de uma boa forma de requalificar áreas urbanas e de proceder a parcerias público/privadas que interessem à cidade", confirmou a urbs o secretário municipal de Planejamento, Jorge Wilheim. "Estamos reexaminando as leis que instituíram as três operações vigentes, a fim de melhorar o seu desempenho. Na Faria Lima, para evitar o congestionamento das vias e priorizar o Largo da Batata, o Parque do Povo e a continuação do sistema viário em direção à Avenida Luiz Carlos Berrini. Na Água Branca, para melhorar toda a região descrita na lei e não apenas as áreas ao longo da Avenida Francisco Matarazzo. E, no Centro, para aumentar a arrecadação, otimizar o uso de edifícios tombados e acelerar algumas obras prioritárias previstas no plano de recuperação da área."
As próximas operações urbanas a ser desenvolvidas pela Prefeitura, segundo Wilheim, serão provavelmente Águas Espraiadas, Vila Leopoldina, Carandiru, Vila Sônia, Tamanduateí, Pirituba e Zona Leste, esta em torno do Parque do Carmo e no eixo da Avenida Jacu-Pêssego. Há, por certo, outras regiões pedindo esse tipo de intervenção. Citem-se, como exemplos, áreas ainda não ocupadas lindeiras ao Anhembi onde ganha forma um complexo de feiras e exposições, com vários hotéis em funcionamento ou em construção, o Campo de Marte, que pode vir a ser um aeroporto para jatos executivos e helicópteros, e um amplo setor de baixa ocupação entre o Terminal Barra Funda e a Casa Verde, no qual já despontam alguns empreendimentos hoteleiros e comerciais , e o trecho da chamada orla ferroviária entre a Lapa e a divisa de São Paulo com São Caetano do Sul, que se ligaria ao projeto Eixo do Tamanduatehy da Prefeitura de Santo André. Na primeira, destaquem-se a sua posição estratégica em relação ao Centro, à rede rodoviária e ao aeroporto de Guarulhos e um notável dinamismo que pede contrapartidas em melhoramentos urbanos e ações de inclusão social. No segundo, a existência de inúmeros galpões e construções fabris desativadas, pátios ferroviários ociosos e alguns edifícios de boa qualidade suscetíveis de reciclagem e uso por atividades de ensino e lazer, como ilustram os exemplos da fábrica da Alpargatas, que abriga uma seção da Universidade Anhembi-Morumbi, e o Moinho Santo Antonio. Para reforçar esse potencial, conte-se com a modernização da linha ferroviária que liga o Centro ao ABC e às zonas leste e oeste da Região Metropolitana, já em andamento.
Operações urbanas em diversos pontos da cidade podem facilitar à Prefeitura o cumprimento da promessa de virar o jogo da desqualificação urbana e da exclusão social em São Paulo. Elas têm enorme capacidade de gerar economia e criar cidade. No núcleo de cada uma delas devem instalar-se, como âncoras, atividades da nova economia e um complexo de serviços, dos pessoais aos producer services avançados. Funções diversificadas (incluindo-se a residencial), espaços públicos e uso diurno e noturno fazem parte dessa receita. "As operações urbanas devem levar em conta algumas linhas de abordagem que contemplem a metrópole terciária, a metrópole de inserção nas redes mundiais e a metrópole 24 horas", explica Maurício Faria. "Têm de estar em consonância com as grandes transformações que ocorrem não só na esfera produtiva, mas nas formas de organização do trabalho, nos hábitos, nos desejos, nos fluxos urbanos, e que correspondem à transição da metrópole industrial para a metrópole terciária. É essencial que se identifiquem as grandes oportunidades e demandas a que se responderá por meio do projeto urbano e da operação urbana."
Explica o presidente da Emurb que, além dos lugares onde já acontecem transformações de uso, como a Marginal Pinheiros/Berrini e o Anhembi, existem "áreas expectantes" como a orla ferroviária, na qual há muitos terrenos e construções disponíveis. O Carandiru é outra delas. Contrariando a idéia geral de que os espaços liberados pela desativação do complexo penitenciário devem se transformar exclusivamente em áreas verdes, Maurício Faria defende a ocupação de parte da gleba com atividades importantes para a dinamização do conjunto da área, em especial aquelas ligadas a feiras e hotelaria. A área expectante do Parque do Carmo, por outro lado, aposta na formação profissional especializada e na inovação tecnológica para a criação de um pólo de atividades econômicas de maior valor agregado. Já a Operação Urbana Águas Espraiadas deverá valer-se do iminente esgotamento dos terrenos no eixo Berrini/Marginal Pinheiros para, como diz Faria, "passar a limpo" a ocupação desordenada da Chácara Santo Antonio. "O que se vê na região da Berrini são edifícios empresariais ultramodernos implantados em um entorno urbano desestruturado, acanhado e feio, dotado de um improvisado e precário setor de comércio e serviços complementares. Águas Espraiadas é uma oportunidade para lidar, de maneira inovadora, com as dinâmicas do chamado quadrante sudoeste, ou seja, com desenho urbano, planos de marketing, inclusão social, mistura de classes e de usos, evitando-se o monofuncionalismo da Berrini."
A Prefeitura sabe que não está sozinha nessa empreitada. Há uma forte demanda reprimida na sociedade por criação de beleza e inovação, por mudanças que resultem em ambientes urbanos abertos e de boa qualidade. Professor da Fundação Getúlio Vargas com doutorado em planejamento urbano pela USP, o especialista em geografia de mercado Tadeu Masano propõe que a intervenção na orla ferroviária entre a Lapa e o Ipiranga, que compõe uma ferradura com centenas de galpões e fábricas desativadas, seja conduzida por uma empresa ou agência de desenvolvimento formada com a participação da Prefeitura, do Estado e do governo federal e encarregada de captar e distribuir recursos financeiros e de implementar um plano estratégico elaborado com a maior participação possível da sociedade. Masano tem insistido, em artigos na imprensa, no enorme potencial produtivo, de integração social e de estruturação urbanística do que denomina "anel de ferrugem" ou ferradura. "Qualquer projeto para salvar São Paulo terá de achar uma nova função e identidade para a zona morta em que se transformaram os tradicionais bairros fabris. Em vez de problema, a ferradura pode se tornar uma solução. Trata-se de uma região que, embora deteriorada, é provida de uma infra-estrutura invejável. Do sistema viário à rede de esgotos, tudo o que falta na periferia superpovoada existe de sobra no cinturão industrial","escreveu em Exame São Paulo, caderno da edição de dezembro último da revista Exame.
A idéia de Masano é que essa ferradura, que separa o quadrante sudoeste próspero e inserido às redes globais de informação, riqueza e poder das periferias excluídas, passaria por uma profunda reformulação destinada a transformá-la em agente de integração dessas metades da cidade. Nela se concentrariam pólos empresariais, de comércio e serviços, pavilhões de exposições e eventos, setores residenciais mistos, núcleos de profissionalização, escolas, centros de tecnologia e áreas de lazer, articulados por trem, metrô e ônibus a todos os cantos da região metropolitana e ao aeroporto internacional. Seria o lugar da conexão da maioria dos paulistanos, hoje à margem das redes mundiais, com a economia e a cultura globalizadas. Recursos para investir no projeto? "São Paulo é uma das 50 cidades globais que existem no mundo e tem uma grande capacidade de atrair recursos. E a Prefeitura pode manejar a ocupação e uso do solo, induzir um processo para determinadas áreas que atendam às necessidades da população e com isso angariar recursos para investir em infra-estrutura, em inclusão social. O solo é a moeda da Prefeitura." Sobre o temor à promiscuidade de interesses públicos e privados nas operações urbanas, o professor é taxativo. "Essa mistura só existe quando as coisas não são claras, mas disfarçadas. Promiscuidade é o que os governos conseguiram fazer desta cidade, é o indivíduo morar à beira do córrego, beber água de mananciais poluídos e levar três horas para ir e mais três para voltar do emprego, caso tenha um. Se você consegue devolver a cidade às pessoas, todos saem ganhando. Condenar projetos como Puerto Madero, em Buenos Aires, porque resgatam uma parte da cidade para a população, ainda que não para toda ela, é pura tolice."
Centro produtivo
Virtualmente abandonado pelo poder público na ultima década, o Centro é o grande patrimônio de São Paulo. Nenhum outro setor da metrópole apresenta tamanho potencial de geração de trabalho e renda, e um poder indutor de desenvolvimento urbano e social, como o Centro e os chamados bairros centrais. As tentativas de recuperá-lo têm estado muito aquém de sua importância para o presente e o futuro de São Paulo. Para fugir à regra, seria desejável que o plano da prefeita Marta Suplicy, que privilegia a recuperação dos espaços públicos, incluísse um programa de incentivo à economia emergente da área, composta por empresas usuárias de tecnologia avançada, ligadas às telecomunicações e à informática (centrais de atendimento, call centers, centrais de telemarketing e web hostings), e departamentos de armazenamento e processamento de dados de grandes bancos, que transformam a área central num dos "portos digitais" de São Paulo. São dezenas e surgiram nos últimos anos, quando a região foi totalmente cabeada com fibras óticas e passou a contar com grande oferta em telefonia. Geralmente operam 24 horas e empregam milhares de pessoas, quase todas jovens. De gigantes do telemarketing como a Atento a call centers altamente especializados como a TMS, chegando a prestadores de serviços inovadores e complexos como a "hospedeira de sites" (ou web hosting) .comDominio, tais empresas e departamentos chegaram ao Centro por rigorosos critérios de decisão locacional.
Para Diogo Bujaldon Moralles, diretor do Grupo TMS, com sede em Alphaville, e responsável pela TMS Call Center, instalada na Rua Líbero Badaró, a completa infra-estrutura de fibras óticas e telefonia, mais a boa oferta de transporte público de qualidade e serviços como hotéis e restaurantes, foram decisivas para a transferência das operações de call center, web call center e contact center da empresa para o Centro. "A região tem praticamente tudo de que uma empresa como a nossa necessita, e a um custo vantajoso", afirma. Custos imobiliários inclusive, completa Alexandre Nunes, vice-presidente executivo da .comDominio, que ocupa um prédio de sete andares na mesma rua. Às vantagens comparativas citadas por Moralles ele acrescenta, ainda, a confiabilidade do sistema reticulado subterrâneo de distribuição de energia elétrica, que só existe no Centro e em uns poucos bairros centrais.
São qualidades estruturais capazes de justificar a escolha do Centro. Para os dois empresários, os defeitos da região se resumem à falta de estacionamentos e à má gestão do espaço público. O acesso por automóvel particular é difícil e a paisagem malcuidada chega a desencorajar alguns clientes, dizem. São, contudo, problemas que uma Prefeitura empenhada na recuperação do Centro pode solucionar.
O perfil econômico do Centro vai além. Ele também abriga um complexo de serviços atuando em torno das duas bolsas e das principais instituições da Justiça da cidade. Estão no Centro alguns dos mais notáveis equipamentos culturais e a maioria das secretarias, empresas e órgãos das três esferas de governo. O comércio é uma mescla de lojas populares, galerias comerciais, grandes magazines e shopping centers diferenciados, como o Light, em edifício de valor histórico, e o recém-inaugurado Frei Caneca, com um moderno centro de convenções e exposições. A rede hoteleira está em processo de renovação. A menos de dois quilômetros do núcleo central se consolida o maior pólo de exposições, feiras e eventos do país, em torno do qual surgem novos hotéis. Duas linhas de metrô com sete estações (apenas nos distritos Sé e República), duas estações ferroviárias e quase 300 linhas de ônibus respondem pela vinda diária ao Centro de mais de dois milhões de pessoas, correspondendo a 22% de todas as viagens realizadas por todos os meios de transporte na Região Metropolitana, segundo a última (1997) Pesquisa Origem-Destino do Metrô.
O que seria, da parte da Prefeitura, levar em conta essa economia em seu plano para o Centro? Recuperar a qualidade dos espaços e tornar a região mais atraente, iluminada e segura é decisivo para a atração de empresas, comércio e outras atividades, além de favorecer a vinda de contingentes que se desabituaram a freqüentar a área ou nunca cogitaram fazê-lo. Sub-regiões ou logradouros com atividades especializadas, como a Rua Santa Ifigênia e transversais, o maior pólo de comércio de microeletrônica do país, e bairros multiculturais com forte apelo turístico, como a Liberdade, onde já existe um processo de mobilização com apoio da Prefeitura, são áreas privilegiadas a merecer tratamento diferenciado, de acordo com sua vocação (por que não uma rua de antiquários, como fez o Rio com a Rua do Lavradio? E uma de galerias de arte, como a Consell de Cent de Barcelona?) . O Centro, a rigor, é o único lugar que, sendo um dos pontos de inserção da metrópole à rede mundial de cidades, é ao mesmo tempo o seu território mais democrático e acessível, marcado por um forte caráter público. O que pode estar faltando ao plano Reconstruir o Centro, da Prefeitura, é um organismo específico para estimular economias que se traduzam em postos de trabalho e geração de renda e receitas públicas a partir dessas características exclusivas do Centro. Uma agência de desenvolvimento destinada a captar investimentos e a implementar um plano estratégico de Centro metropolitano, cujo arcabouço já existe a Operação Urbana Centro , não competiria ou disputaria tarefas com a futura subprefeitura da área, mas agiria em estreita colaboração com ela.
Uma das atribuições dessa agência seria o manejo de um instrumento proposto, há alguns anos, pelo então secretário de Planejamento Guilherme Afif Domingos: a redução, por tempo determinado, da alíquota do ISS sobre atividades consideradas importantes para a recuperação do Centro. Seriam beneficiadas principalmente empresas de tecnologia, usuárias ou criadoras. A produção de software receberia incentivos. Com isso, a atual ociosidade imobiliária seria preenchida e o Centro ganharia um novo agente de animação, com firmas empregando milhares de funcionários dia e noite. A médio prazo, não haveria perda para os cofres públicos. A redução na alíquota seria compensada amplamente pela expansão das atividades na área, com o conseqüente aumento da arrecadação, e pelo fim da prática de usar endereços de cidades da Região Metropolitana com alíquotas próximas de zero para instalar a sede da empresa e valer-se de São Paulo como mercado.
Uma constelação de atividades de lazer, turismo, cultura, educação e entretenimento animando outros ramos da economia, como a hotelaria e o comércio, alimentando os cofres municipais e empregando milhares de pessoas é uma meta ambiciosa, mas perfeitamente plausível. A conversão dos antigos e magníficos cinemas que ainda restam no Centro em salas de teatro, de musicais e mesmo de projeção poderia ser incentivada da maneira como se fez na região de Times Square, em Nova York, num mecanismo muito semelhante ao de transferência de potencial construtivo para imóveis históricos, um item da Operação Urbana Centro. Essas salas renovadas atrairiam multidões que ocupariam restaurantes, bares, hotéis, lojas e livrarias. Na área da educação, veja-se o caso da Universidade Anhembi-Morumbi, que em 1997 criou o seu Campus Centro no quase centenário edifício das indústrias Alpargatas, no Brás, e que no próximo ano pretende trazer para a Rua Líbero Badaró cerca de três mil alunos de diversos cursos que se instalarão num edifício do BankBoston, a ser esvaziado com a transferência de seus dois mil funcionários para a região da Marginal Pinheiros/ Berrini numa troca extremamente vantajosa para o Centro em termos de demanda por serviços e de agitação cultural. Por fim, recorde-se que o arquiteto Jorge Wilheim, no projeto com que participou do Concurso Nacional de Idéias para um Novo Centro de São Paulo, promovido em 1996 pela Prefeitura e IAB-SP, com apoio do BankBoston, da Rede Ferroviária Federal e da VIVA O CENTRO, imaginava a ocupação de diversos edifícios monumentais do Centro histórico e financeiro, em geral sedes desativadas de bancos, por escolas e cursos de reciclagem e capacitação profissional, conforme explicou a urbs (edição de novembro/dezembro de 1998). "Tudo depende de uma iniciativa da Prefeitura, em parceria com quem queira ganhar dinheiro montando cursos", disse ele à época. Hoje, com Wilheim na Prefeitura, este e outros projetos tornam-se, certamente, muito mais viáveis. (Colaborou Federico Mengozzi)
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