ANO V   -   No. 23   -   outubro / novembro 2001
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Dez anos pelo Centro e por São Paulo
Capa  A Associação VIVA O CENTRO completa uma década de trabalho pelo Centro metropolitano e marca presença na história recente de São Paulo (na foto, funcionários e colaboradores da Associação, dirigentes de Ações Locais e alunas da Escola Municipal de Bailado comemoram em frente à restaurada Fonte dos Desejos, na Praça Ramos de Azevedo)
São Paulo  Pequenas e médias empresas proliferam nos bairros, serviços de base tecnológica se instalam no Centro, a sociedade se articula para melhorar a cidade — é a São Paulo que muitos crêem decadente e esvaziada. A cidade reage. Uma oportunidade para a Prefeitura conduzir o processo de transformação
Idéias  Reabilitação de edifícios residenciais em áreas centrais: o caso de Santa Cecília *
Urbanismo  Agora é preciso unir esforços para que o Estatuto da Cidade não se torne mais uma das muitas leis que não "pegam" no Brasil
Entrevista  O fundador e presidente da VIVA O CENTRO, também presidente mundial do BankBoston, fala a urbs sobre as perspectivas da cidade e da Associação
Em Tempo  Boas perspectivas para o Bixiga
Rodin volta à Pinacoteca
Um novo Sesc no Centro
Música em estréia nacional no Belenzinho
O humor do kitsch no Masp-Centro
O Gato Que Ri faz 50 anos
Cultura  O precioso acervo da Fundação História da Energia de São Paulo vai se transferir para um histórico palacete do Centro; o Teatro Municipal faz 90 anos e abre-se o Festival Internacional São Bento de Órgão
A caminho do centenário
O festival do Centro
Livros  O centro na metrópole do século XXI
Bixiga revelado
Litoral em postais
Moradia irregular
Marco cultural
Exclusão, num retrato sem retoque
O centro na metrópole do século XXI
Bixiga revelado
Litoral em postais
Moradia irregular
Marco cultural
Exclusão, num retrato sem retoque
Registro  O evento dos dez anos da VIVA O CENTRO
Votorantim, Klabin e Prefeitura renovam a Praça Ramos
Superevento fotográfico no Centro
VIVA O CENTRO em ato de apoio à Bovespa
Associação participa de seminário no Condephaat
Mesa  Com jeito de clube
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  Caro Leitor  
A Associação VIVA O CENTRO ajudou, nestes últimos dez anos, a mudar o destino da cidade. Sem nenhum exagero: não fosse o vigoroso movimento cidadão despertado pela entidade, quem sabe o Centro nem figurasse nos programas dos candidatos ou nas preocupações das várias instâncias de gestão, como ocorre hoje. Possivelmente continuaria a ser tratado como um palco dos desacertos, bizarrices e misérias da cidade — e o fato de que o seja em alguma medida, por ser uma síntese do Brasil, não deve obscurecer o outro e mais relevante fato, de que ele é muito mais que isso. Ainda hoje o Centro e a área central apresentam resíduos e seqüelas desse longo período, mas têm a mostrar esplêndidas conquistas, principalmente na área da cultura, que fazem novamente da região um núcleo gravitacional de âmbito metropolitano e, por extensão, continental. E, mais que tudo, o recolocam — com qualidades que não se viam no antigo Centro — no imaginário e no repertório de referências das pessoas. A região mudou para melhor. E a cidade não perdeu seu centro, seu si-mesmo ou self. Como produto da Associação e testemunha participante de boa parte dessa luta de dez anos, urbs parabeniza a VIVA O CENTRO e sente-se, com perdão pela imodéstia, parabenizada.

A entrevista com o criador e presidente da Associação, Henrique Meirelles, a matéria de capa e as duas páginas ilustradas da seção Registro compõem a pauta comemorativa da edição. Sem embargo, o restante desta é ocupada por conteúdos de igual importância, como o Estatuto da Cidade e o boom econômico e participativo de uma metrópole que, contrariando uma opinião muito difundida, nunca parou. Por fim, o editor gostaria de chamar a atenção para uma pequena nota na seção Livros, noticiando o lançamento do belíssimo estudo sobre o bairro do Bixiga cujo autor, João Sacchetto, atende também pelo matronímico Podanovsky e há anos ajuda a abrilhantar esta urbs. Os colegas e amigos da revista desejam-lhe sucesso de crítica e público.

O editor


  Cartas  
urbs nΊ 22

Excelente o artigo O Amesquinhamento da Estética Urbana, texto, fotos e ilustrações muito bons! Aliás, os artigos desse número estão muito interessantes. Sobre o da estética, pergunto se não há meio de divulgá-lo em mídia mais abrangente, de forma a atingir mais pessoas e incentivar o cidadão a pensar mais a sua cidade.
Maria José Mei
por e-mail


Não me lembro bem quem escreveu que, com sua guias caiadas, São Paulo é a Capital Jeca do Brasil. Creio que foi um arquiteto bastante engajado na luta para fazer de São Paulo uma cidade menos feia. Seja quem for, acertou em cheio. E dizem que a prefeita é refinada e cosmopolita!
Carlos Alberto Pacheco
por e-mail


Sou estudante e vou sempre ao Centro, principalmente ao cinema. Gosto muito da região e sei que a Prefeitura quer recuperá-la. Existe até um plano que dizem já estar sendo implantado. Acredito que eles estejam trabalhando, mas a verdade é que os resultados ainda não aparecem. O Centro está muito malcuidado, sujo e nele, como na cidade inteira, os camelôs gozam de privilégios que o pedestre não tem.
Thaís dos Reis
São Paulo-SP


Gostei bastante da reportagem "Nem Só de Pão Elas Vivem", do João Podanovsky. É difícil encontrar fora de São Paulo padarias com serviço tão diversificado e que representem nossa referência cultural.
Lindalva Souza
por e-mail


Gostei da entrevista, gostei da figura do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da sua inteligência e bom humor (nem tanto do fato de ser palmeirense, mas ninguém é perfeito...). Fica claro, na sua fala a urbs (nΊ 22), que a recuperação do Centro é exigência da mais pura racionalidade econômica e urbanística. Por falar nisso, e a tão anunciada vinda para o Centro do Palácio do Governo do Estado? Foi só Mario Covas nos deixar e ninguém mais falou nisso.
Matheus C. Nogueira
por e-mail


Plano Diretor

A idéia do secretário Jorge Wilheim de desverticalizar, isto é, de achatar a cidade, conforme sua proposta de Plano Diretor, se implementada vai trazer enormes benefícios... para os grandes proprietários e investidores em construção civil. Isso porque as restrições drásticas ao uso do espaço aéreo apenas valorizarão o pouco que poderá ser construído, multiplicando a renda imobiliária e desatando processos especulativos em regiões vizinhas com terrenos vagos ou casario miúdo, autênticas reservas de valor do capital imobiliário. De quebra, a desverticalização vai expandir ainda mais a mancha urbana sem que haja transporte público de qualidade para vencer as distâncias (o famoso trinômio prédio de apartamento/longos percursos/automóvel vai atropelar qualquer planejamento) e, como não bastasse, vai adensar a cidade da maneira perversa que o plano diz querer evitar, pela ocupação maciça de quarteirão após quarteirão por um paliteiro de inumeráveis edifícios pequenos. Aliás, o sr. Wilheim, urbanista experiente, acredita que alguém vá pagar contrapartida financeira para ter o direito de construir até quatro vezes a área do terreno nas operações urbanas?
Josete V. Raymundo
por e-mail


  Panorama  
Dez anos pelo Centro e por São Paulo


Nestes dez anos de intenso trabalho pela recuperação da área central de São Paulo, a Associação VIVA O CENTRO responde por ações decisivas que mudaram o destino da região. Como fruto de sua atuação, o Centro reconquista a condição de maior pólo cultural da metrópole, a comunidade da região organiza-se em núcleos de ação local e o processo de recuperação da área central entra na agenda de prioridades dos governos, no imaginário da população, no interesse da iniciativa privada e na pauta da mídia. No entanto, há que salientar outra realização, igualmente valiosa ainda que menos visível: o notável patrimônio de conhecimento e experiência que a Associação vem acumulando como produto de seu trabalho. Trata-se de uma significativa massa de informações e de matéria de reflexão resultante de numerosos seminários, debates, workshops, discussões interdisciplinares e investigações levadas a efeito por seus colaboradores e por consultorias especialmente contratadas. Propostas urbanísticas de fôlego, como um plano para o Centro e os bairros centrais divulgado em 1996, e programas elaborados e implementados pela própria Associação, como o de Ações Locais, exigiram, e continuam exigindo, um esforço de conhecimento dos aspectos estruturais e de gestão da área central. Análises de questões de âmbito metropolitano e suas relações com o Centro, e de temas pontuais e específicos da área, levadas a efeito com interlocutores dos mais diversos ramos do conhecimento, são freqüentes na VIVA O CENTRO e dão substância a seus diagnósticos, estudos e propostas, que estão disponíveis à sociedade e ao poder público.

Grande parte desse acervo de conhecimento possui um lastro de participação coletiva que confere às propostas da Associação uma ampla representatividade. O caso das Ações Locais ilustra-o bem. Capilarmente distribuídas e atuantes no cotidiano do Centro, e dando voz e instrumentos de ação a um diversificado leque de atores sociais, elas despontam como legítimos porta-vozes de moradores, trabalhadores e usuários permanentes do Centro. As Ações Locais possibilitam um estreito e permanente contato com o dia-a-dia de cada logradouro do Centro, gerando conhecimento e ajudando a difundi-lo.

A Associação VIVA O CENTRO tem, portanto, fundadas razões para orgulhar-se de ser a voz mais ouvida quando se trata de elaborar, implantar e gerenciar projetos públicos e mesmo privados para a área central.

Para concretizar seu compromisso de priorizar a requalificação do Centro metropolitano de São Paulo, a prefeita Marta Suplicy encontra uma região que, embora ainda problemática em muitos aspectos, reverteu sua situação de deterioração e está preparada para um processo sustentável de recuperação.

A presença de cerca de 800 convidados — entre eles a prefeita Marta Suplicy, o ministro da Cultura Francisco Weffort (representando o presidente da República), o secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça (também representando o governador do Estado) e o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Walter Feldman, além de muitas outras autoridades federais, estaduais e municipais, parlamentares, dirigentes e participantes de numerosas entidades civis, personalidades e empresários — à solenidade que marcou o décimo aniversário da Associação reflete o prestígio desta como instituição engajada na luta da sociedade por uma São Paulo melhor e mais justa. Da mesma forma, atesta a importância da VIVA O CENTRO a ampla cobertura midiática de seu trabalho e das questões do Centro, nestes dez anos, a ponto de a informação jornalística constituir-se em aporte indispensável ao processo de recuperação da área. A todos, o nosso mais profundo reconhecimento.


  Capa  
A década em que São Paulo reencontrou o Centro


Associação Viva o Centro completa dez anos de trabalho para devolver à cidade o seu espaço emblemático de cidadania, história e progresso

São Paulo esboça um novo e surpreendente capítulo de sua história. A cidade se recompõe, rearticula-se. Assume, ainda que de modo turbulento, um perfil econômico avançado e ensaia, nos interstícios da velha ordem, formas mais solidárias de convivência. Teria respaldo nos fatos tamanho otimismo, com o qual se abre este texto? Com sua precariedade urbana, abismos sociais agudos e violência em escala, e ainda desemprego, corrupção, receitas públicas minguantes, fuga de atividades produtivas e, como não bastasse, perda da identidade e da esperança, detectável no cenário de um Centro malcuidado —, como falar em renascimento da cidade? Pois é a percepção dessa realidade-limite que, em vez de desmobilizar as pessoas, nelas reforça a idéia de que São Paulo tem que reagir e avançar.

Há mais. O Centro é o núcleo desse movimento ainda pouco articulado. A partir daqui o leitor poderá enxergar, por outro ângulo (um panorama cronológica ele encontrará em urbs nΊ 4, setembro/outubro de 1997), o papel da Associação VIVA O CENTRO nesse processo.

Fundada em outubro de 1991, a Associação foi, desde logo, muito além de uma proposta restauradora do brilho perdido do Centro. Ela já começou defendendo o resgate do Centro para, a partir dele, recompor a cidade. Insistiu na noção do Centro como o território solvente, fecundo, articulado e articulador da metrópole. Um projeto de Centro implicaria obrigatoriamente uma estratégia de cidade. Tal visão sistêmica da área central consolidou-se a partir de um evento de grande repercussão organizado pela VIVA O CENTRO em 1995, o Seminário Internacional Centro XXI.

Nos seus primeiros anos de atividade, após diagnósticos e investigações, a VIVA O CENTRO definiu um conjunto de intervenções e processos que, bem sucedidos em seu conjunto, resultariam numa plataforma segura para a recuperação da área central de São Paulo. Diziam respeito à requalificação dos espaços públicos, à ampliação e modernização do estoque imobiliário, ao aperfeiçoamento da segurança, à recuperação do patrimônio histórico e arquitetônico, ao incentivo ao uso residencial e a uma ação social efetiva para cuidar dos sem-teto e crianças de rua. Uma legislação específica de uso e ocupação do solo (a Operação Urbana Centro, em vigor desde 1997), um programa especial de segurança pública (o Programa Centro Seguro, agora reformulado e aperfeiçoado), uma lei de estímulo ao restauro de fachadas de imóveis tombados pelo patrimônio histórico e outras medidas relevantes, como restrições ao comércio informal e ao uso inadequado dos espaços públicos — exemplo dos mais gritantes eram os shows realizados no Vale do Anhangabaú, com a depredação do logradouro a cada evento —, contribuiriam decisivamente para estancar o declínio do Centro e garantir as bases para a recuperação. A cidade, então, poderia voltar a ter um centro gravitacional, um espelho de identidade e auto-reconhecimento, uma região-símbolo.

À época do Seminário Internacional, como fruto de reflexão a partir da experiência já acumulada e da interlocução com urbanistas (inclusive estrangeiros) de prestígio, duas novas formulações vieram a incorporar-se às propostas de trabalho da VIVA O CENTRO. A primeira argumentava que a inserção de São Paulo nas redes mundiais da economia e da cultura globalizadas reforçava o papel do Centro como "valor de marca" metropolitano e lugar de atividades e serviços diferenciados. A segunda expunha a tese de que a ocupação do Centro para uso residencial socialmente diversificado, mais do que um complemento, era um imperativo de caráter estratégico. Tinha como corolário o respeito à permanência das populações, em especial as mais pobres, em seus lugares de moradia, pois suas conveniências poderiam, sim, conciliar-se com políticas de reabilitação de cortiços e de edifícios ociosos ou degradados — eram o seu genuíno e indispensável conteúdo — e de melhoria das condições ambientais, incluindo-se a recuperação para usos contemporâneos de prédios e conjuntos de interesse histórico e arquitetônico. Amadurecia a idéia da ocupação qualificada dos espaços centrais rarefeitos, mas bem equipados de infra-estrutura, num processo de crescimento centrípeto para contrabalançar a excessiva e dispersa expansão da mancha urbana.

Frutos dessas conclusões, a proposta "São Paulo Centro – Uma Nova Abordagem", de 1996, antecipa um Centro integrado à cidade e à Região Metropolitana, e o Programa Ação Local, implantado efetivamente a partir de 1997, vem cumprindo um objetivo inédito nos registros do urbanismo brasileiro: a organização de moradores, comerciantes, executivos de empresas, lideranças comunitárias, usuários permanentes e síndicos em entidades representativas denominadas Ações Locais, distribuídas em 50 microrregiões de um Centro complexo e diversificado, com a missão de participar da gestão de cada rua ou fragmento urbano. A proposta de que a recuperação da área central se apóie em "âncoras culturais" dá bons resultados, com a região voltando a atrair segmentos de um público que, até os anos 60, afluía em busca dos cinemas e teatros do hoje desaparecido — com possibilidade de ressurgir — eixo de entretenimento ao longo da Avenida São João e transversais. A Sala São Paulo, parte de um complexo cultural voltado à música erudita instalado na monumental Estação Júlio Prestes, é um equipamento de excelência situado junto aos trilhos da ferrovia e do metrô, assim como a renovada Pinacoteca do Estado e, pouco mais adiante, o Museu de Arte Sacra. Pólos culturais como estes e o Centro Cultural Banco do Brasil, o Teatro Abril e o ainda improvisado Masp Centro, na Galeria Prestes Maia, seriam inimagináveis sem o prévio esforço de organização da sociedade, a argumentação técnica sobre a importância do Centro e o incentivo a parcerias e investimentos levados a termo pela VIVA O CENTRO, garantindo-lhes espaço. Para muitos é surpreendente que, ainda convivendo com a desordem urbana e as mazelas sociais brasileiras que nele se refletem amplificadas, o Centro abrigue um festival anual de órgão de expressão internacional, no Mosteiro de São Bento.

Diga-se, desde logo, que à crise do Centro corresponde uma mudança estrutural na cidade, que muitos enxergaram como decadência e perda da primazia na cena nacional. No entanto, essa decadência e o também propalado esvaziamento econômico de São Paulo nunca aconteceram de fato. O que ocorre é uma reestruturação profunda do aparato produtivo da cidade, a transição do modelo industrial-fordista para o terciário, com um rastro de incertezas, desagregação social e insegurança. E, numa relação lógica com o fato de que a solução para São Paulo vem se irradiando do Centro, a crise deste é em larga medida efeito antecipado do trauma da reestruturação metropolitana.

Esta se dá efetivamente a partir dos anos 90. Já a crise de obsolescência do Centro se manifesta um pouco bem antes e atinge um paroxismo no final da década anterior, quando os paulistanos chegaram a perder a noção da cidade. Sim, a grande manifestação coletiva dos anos 80, os comícios pelas eleições diretas, havia lotado as praças e espaços centrais. Mas o Centro já apresentava fortes sinais de desgaste e desprestígio, apesar da vigorosa novidade das duas linhas de metrô e da reurbanização do Vale do Anhangabaú, obras recentes. A cidade estava descentrada, e também seus moradores. A recessão dos anos 80 e a inflação galopante que se seguiu abalaram o núcleo central das pessoas, o seu self e auto-imagem, e da própria cidade. Nas primeiras, por efeito de um desnorteamento diante de forças econômicas imprevisíveis, reinantes acima do entendimento e controle do cidadão comum. Na cidade, em conseqüência da expansão compartimentada da mancha urbana e da segregação geográfica por renda e classe social, cada grupo com o seu enclave territorial, modo de vida e interesses. Centros regionais se multiplicaram pelos bairros e surgiram as novas centralidades representativas do emergente perfil econômico e funcional — a metrópole terciária inserida nas redes mundiais — abrigando sedes de empresas multinacionais e bancos de investimento, shopping centers, flats e, mais recentemente, firmas de publicidade e de Internet. No Centro, isolados do resto do organismo metropolitano e semi-esquecidos, ficaram os testemunhos arquitetônicos, as paisagens tradicionais, os espaços verdadeiramente públicos e a democracia das ruas. A cidade começa a tornar-se um corpo sem cabeça, sem consciência de si, sem memória. Este o descentramento.

Sem a afluência outrora maciça da classe média e mesmo de parte da população de menor renda (os ricos já estavam longe há décadas) em busca das suas atrações, cinemas, teatros, comércio, restaurantes e glamour, o Centro começou tolerar e absorver, como rotina, um sem-número de práticas informais e/ou ilegais, o comércio improvisado nas calçadas, os usos predatórios. Baldados os esforços feitos à época para reverter o abandono, como a citada reurbanização do Anhangabaú e a transferência da sede da Prefeitura para o Parque D. Pedro II, a região já se deixava ver pela opinião pública como um depósito das insolvências da cidade.

Vital como sempre

Ao decidir fundar, com um grupo de executivos e profissionais liberais, uma entidade para lutar pela revalorização do Centro, o engenheiro goiano Henrique de Campos Meirelles, então presidente do Banco de Boston no Brasil — atualmente é presidente mundial do BankBoston —, tinha como referência um procresso urbano que conhecia muito bem, a recuperação da área central de Boston. Ele observava que, ao contrário da cidade norte-americana, cuja downtown chegara a se converter numa combat zone, o Centro de São Paulo preservava suas instituições, o vigor econômico e a diversidade social e de usos — uma firme plataforma para a recuperação. Mas, apesar dessas atenuantes, Meirelles salientava que a recuperação do Centro era uma tarefa de não menos que 20 anos. Isso porque a recém-criada Associação encontrava o lugar mais importante, significativo e tradicional da metrópole no pior momento de seus mais de 400 anos de história. O Centro estava mais depredado, abandonado e desprestigiado que nunca.

A primeira questão que a entidade se colocava era: se o Centro, bem ou mal, preservava atributos de vitalidade e uso diversificado que a região central de Boston chegara a perder, por que decaíra tanto em poder de atração, em prestígio, em qualidade dos espaços públicos? Por que São Paulo havia perdido o seu Centro?

Essa perda, logo se viu, manifestava-se sobretudo numa postura mental, porque o Centro — sob a capa de suas mazelas e disfunções — em nenhum momento deixara de ser majestoso e ativo. Jamais perdera a vitalidade — a questão, portanto, não era revitalizá-lo, mas dar-lhe mais qualidade. O metrô e as ferrovias continuavam nele se cruzando, as duas grandes bolsas (Bovespa e BM&F) e bancos de varejo permaneciam no velho distrito financeiro, e assim os tribunais, os edifícios mais altos e belos (entre os quais o Banespa, o Itália, o Copan), instituições de peso como a Ordem dos Advogados do Brasil e o Instituto dos Arquitetos do Brasil, as principais corretoras de valores, grandes escritórios de advocacia e, claro, a Catedral, o Mosteiro de São Bento com seu órgão e cantos gregorianos, os templos das muitas religiões, os monumentos, um forte comércio especializado, alguns restaurantes famosos, as venerandas academias de Direito e Paulista de Letras, escolas, grandes museus como a Pinacoteca e o de Arte Sacra. O paulistano continuava a ir ao Centro. A diferença é que não mais se habituava a nele ficar; ou, se obrigado a fazê-lo, abstraía a sua já desagradável existência concreta como fonte de significado. O Centro deixava de ser o lugar por excelência da experiência do urbano.

E mais: as duas gestões municipais seguidas que logo teriam início não priorizaram o Centro. A gestão de Paulo Maluf criou o ProCentro, por insistência da VIVA O CENTRO, mas não levou a termo nenhum de seus programas. Durante a de Celso Pitta conseguiu-se, por força de um amplo movimento de opinião pública, com a ativa participação da VIVA O CENTRO, aprovar na Câmara Municipal, por unanimidade, a Lei da Operação Urbana Centro. Pitta recuperou os viadutos do Chá e Santa Ifigênia, viabilizou a instalação do Masp Centro, deu certa operacionalidade ao ProCentro. Esperava-se muito mais, é claro. Os meios de comunicação, presos à objetividade, registravam os fatos — e o Centro, à época bem mais do que hoje, era cenário de muita miséria e violência. O resto da cidade tampouco se revelava um paraíso urbano. No início da última década do século XX, que será lembrada como o da ressurreição dos centros no mundo inteiro, São Paulo se definia como uma aglomeração de infindáveis periferias contrapondo-se a um sem-número de enclaves urbanos auto-referentes e às vezes fortificados feito protótipos de comunidades defensivas ou, no melhor dos casos, como um emaranhado de fragmentos de cidade destituídos de conexões significantes entre si e de coerência de conjunto. Bairros? O bairro, em última análise, existe em e como função do Centro. Não era o caso.

De dez anos para cá, à semelhança de uma nebulosa, a cidade continuou se espraiando, as populações a conviver com a precariedade dos serviços e com a violência. Mas São Paulo voltou a divisar o próprio Centro. Núcleo de seu sentido e significado, lugar de origem e lastro de permanência histórica, o Centro finalmente emergiu do espesso nevoeiro em que se envolvia. Os fragmentos, enclaves e periferias continuam incólumes, onipresentes. Mas passam a ter uma possibilidade de coesão e coerência.

O Centro permanece malcuidado, as ruas estão sujas e repletas de barracas, mas sabe-se, do poder público à população em geral, que recuperá-lo é questão vital para São Paulo. É dele que efetivamente pode surgir um projeto de cidade e de convivência. Sem ele nenhum projeto é plausível. O plano Reconstruir o Centro da nova gestão municipal, apesar de genérico, sinaliza a disposição de prefeita Marta Suplicy de dar prioridade à recuperação do Centro.

É claro que há muito o que fazer. Mas o processo de recentramento de São Paulo está em marcha. A recuperação da sua centralidade principal — atributo indispensável da metrópole contemporânea e das cidades em todos os tempos — começa a recompor-se na imaginação, no entendimento e no desejo das pessoas. Retomando o otimismo do primeiro parágrafo deste texto, não é descabido afirmar que São Paulo vai sendo aos poucos empolgada por um movimento pró-mudanças, amplo, imperfeito ainda, cujo pressuposto implícito é a reabilitação para uso democrático de seu espaço-síntese de cidadania, história e progresso. A VIVA O CENTRO marca esse movimento desde suas origens, há dez anos, e confunde-se com a história recente da cidade.
O preço do abandono
Entrevistado por urbs (nΊ 20, fevereiro/março de 2001), assim o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, editor especial de Veja, enxerga as desencontradas relações de São Paulo com o seu Centro:

"Há um erro imenso toda vez que uma cidade abandona o seu centro. É como abandonar a si mesma. (...) Imagine se Paris vai abandonar seu núcleo central, ou Londres, ou Roma, ou Madri. É inimaginável que deixem de ser elas mesmas. São Paulo cometeu a loucura de abandonar o Centro e correr atrás da utopia maluca de construir outra cidade na Avenida Paulista, depois na Faria Lima, na Berrini e sabe-se lá mais onde. E paga um preço muito alto por isso, inclusive no que diz respeito à auto-estima, à noção de referência das pessoas. (...) É absurdo o abandono do Centro durante a noite. Vira uma cidade fantasma, assustadora. Você simplesmente declara morta uma realidade — morreu, é cidade fantasma, foi abandonada pelos seus habitantes e ponto final. É isso que você percebe quando visita o Centro depois das oito da noite."


Metamorfoses do Centro
Em 1993, a Associação VIVA O CENTRO já percebia a importância de uma relação de equilíbrio entre o Centro principal e as novas centralidades secundárias:

"Ao atingir novos patamares de sua condição metropolitana, São Paulo assiste ao desdobramento e consolidação de centros secundários. Este processo tem propiciado uma sensível transformação do centro principal que, tornando-se cada vez mais específico, ganhou novas características e funções. Identificar o novo perfil, consolidar as suas funções, evitar ativamente qualquer ameaça de decínio é uma meta primordial de setores públicos e privados envolvidos diretamente ou indiretamente com o centro principal da metrópole paulistana. Falar hoje em recuperação do centro principal implica admitir o seu declínio. E mais ainda, especificar as características desse declínio. No entanto, de pelo menos dois pontos de vista, o uso da palavra decínio parece impróprio. Primeiro porque a observação diária da vida da área central revela tal exuberância que torna-se abusivo o uso de qualquer palavra que denote enfraquecimento de suas atividades e funções. Em segundo lugar, porque a descentralização, isto é, o surgimento de centros secundários, corresponde a uma necessidade funcional do centro principal.

"Observando atentamente a migração das instituições comerciais, financeiras e institucionais, não é difícil perceber que ocorreu uma propagação natural de funções cuja multiplicação não descaracterizou o centro principal. Todos os atributos que conferem à zona central da cidade a denominação de centro principal continuam presentes. No entanto, hoje estes atributos já começam a demonstrar enfraquecimento, o centro principal parece ameaçado de perder ‘substância’.

"Todo e qualquer pensamento e ação tendo por objetivo resguardar os atributos essenciais do centro metropolitano de São Paulo deverá portanto conjugar esforços públicos e privados que considerem a diversidade de funções e interesses ali presentes. Para que o centro principal desempenhe plenamente suas funções, é necessária portanto uma dupla ação — impedir um processo de declínio e requalificar seu espaço público e privado." (Extraído de Documento 1, janeiro de 1993).


Patrimônio da metrópole
Em documento de 1996, a Associação destaca o "papel estratégico da metrópole na redefinição das formas de integração na economia internacional e o Centro como o local articulado e articulador da esfera global metropolitana" e a área central "como patrimônio cultural da metrópole, como o espaço da vida coletiva e como o espaço representativo da dimensão metropolitana e da diversidade funcional." Destaca ainda "a importância de participar da construção de um projeto político de intervenção na cidade, por meio de uma política urbana consistente, democrática e participativa que contemple a região central como indutora de qualidade urbana e de vida para toda a metrópole."


Nova abordagem
Elaborado em 1996 pelos arquitetos Fernando de Melo Franco, Sarah Feldman e Marcelo Laurindo sob a coordenação da arquiteta Regina Prosperi Meyer, consultora da VIVA O CENTRO, e condensando experiências e estudos dos primeiros cinco anos de atividade da Associação, o documento São Paulo Centro – Uma Nova Abordagem propõe a definição de uma Área Central composta pelo Centro (distritos Sé e República) e por alguns bairros centrais adensáveis nos sentidos norte e leste. O texto sugere diversas medidas destinadas a destacar o papel da área como centralidade metropolitana, entre elas o estímulo às articulações e ligações no tecido urbano, o adensamento dos bairros centrais, o reforço da diversidade funcional e da função habitacional, a reorganização dos fluxos e da circulação, a articulação dos espaços públicos em rede, a criação de novas formas de gestão e de exercício do poder local e o desenvolvimento de quatro projetos indutores no Parque D. Pedro II, Vale do Anhangabaú, Pátio do Pari e Estação da Luz. Cópias do documento foram entregues aos candidatos que, naquele ano, disputaram a Prefeitura. Nas eleições de 2000, os candidatos receberam, além de cópia do estudo, um documento que ressaltava a importância de uma Agência de Desenvolvimento do Centro Metropolitano de São Paulo para implementar a aplicação de instrumentos já disponíveis, como a Operação Urbana Centro, e apresentava uma relação com dez providências básicas que o futuro prefeito deveria se comprometer a implantar para acelerar o processo de recuperação da área central.


Projetos e diagnósticos
Entre os numerosos trabalhos em parceria com empresas privadas e o poder público realizados pela VIVA O CENTRO destacam-se o projeto básico de conversão de uso da Estação Júlio Prestes para instalação de um recinto de música sinfônica de padrão internacional, a Sala São Paulo, além da reurbanização do entorno, e o restauro e iluminação da fachada do Mosteiro de São Bento, a reurbanização do largo do mesmo nome, a reforma do órgão e a nova iluminação interna da basílica, além de assumir com o Mosteiro, a iniciativa de criar o Festival Internacional São Bento de Órgão, hoje em sua oitava edição. Quanto aos projetos, eventos e documentos técnicos elaborados pela Associação, podem ser mencionados, entre outros, o ciclo de trabalhos "O Calçadão em Questão – 20 Anos de Experiência do Calçadão Paulistano", em parceria com a Faculdade de Belas Artes de São Paulo e incluindo a edição de um livro com o mesmo título, o projeto de requalificação da Praça do Patriarca, de autoria do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, a ser implantado pela Prefeitura a partir deste ano, através da Operação Urbana Centro, diversos seminários e workshops sobre infra-estrutura, comércio informal e questões sociais e estudos sobre acessibilidade veicular e patrimônio imobiliário, executados por consultorias especialmente contratadas. Debates sobre temas específicos, como o Fura-fila, foram realizados, gerando matérias de grande repercussão em urbs. A Associação também participa de órgãos e entidades como a Comissão ProCentro, a Comissão Executiva da Operação Urbana Centro, a Fundação Projeto Travessia, a Comissão Coordenadora do Programa Centro Seguro, o Instituto São Paulo Contra a Violência e a Câmara Superior de Política Urbana da Associação Comercial de São Paulo.


Como participar
O corpo de associados da VIVA O CENTRO compreende cerca de 300 empresas e instituições públicas e privadas, entidades e órgãos de governo, além de mais de uma centena de profissionais liberais, estudantes e pessoas físicas interessadas no Centro. A filiação pode se dar em uma das seguintes categorias associativas: Sócios Contribuintes - empresas e instituições que contribuem de forma regular para manter a Associação e suas atividades; Sócios Institucionais - entidades públicas ou privadas de caráter representativo, institucional ou de notório interesse para a área central que, através de participação em trabalhos e estudos, contribuem com a Associação; Sócios Colaboradores Consultivos - pessoas físicas que colaboram com a Associação através de consultorias e serviços em sua especialidade profissional e Sócios Colaboradores Estudantes - que contribuem na sua área de estudo ou interesse. Empresas, instituições e pessoas físicas sediadas, residentes ou interessadas no Centro podem também participar do trabalho da VIVA O CENTRO por meio das Ações Locais, que atuam na região de forma localizada.



  São Paulo  
Pronta para a largada

Decadência? Esvaziamento? A economia da cidade nunca foi tão ativa e a sociedade tão pronta a participar. Ao poder público cabe aproveitar a chance e virar o jogo da exclusão e da pobreza

JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Integrar a São Paulo precária e injusta à cidade equipada e próspera, dar início a um círculo virtuoso de expansão econômica gerando e distribuindo renda. Este é o real desafio que a prefeita Marta Suplicy tem pela frente. Só assim atingirá o cerne dos problemas que prometeu desafiar: pobreza, exclusão, desemprego, má qualidade urbana e de vida. A seu favor a prefeita pode contar com a maior carga de expectativa e confiança jamais mobilizada por uma administração pública em São Paulo. E o município que administra é a cidade central de uma região metropolitana que, a despeito de suas mazelas, figura entre as aglomerações urbanas mais produtivas do mundo. Com um PIB metropolitano superior a US$ 100 bilhões, um potencial de consumo estimado, em 1998, em US$ 55 bilhões apenas no município, respondendo por 10% das exportações brasileiras e sediando a metade das maiores empresas privadas do país, a Região Metropolitana de São Paulo é classificada pelo GaWC, um instituto de estudos sobre globalização com sede em Londres, na categoria Beta World City, uma cidade mundial do mesmo peso de Toronto, Bruxelas, Madri, Seul, Moscou, San Francisco, Zurich, Cidade do México e Sidney. Ela abriga, ainda, um dos dois únicos pólos de inovação tecnológica da América Latina, conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado em julho. O outro é Campinas, e aos dois se poderia agregar o pólo aeroespacial e de telecomunicações de São José dos Campos — ambos num raio de até cem quilômetros da Praça da Sé. O que significa essa síntese de máxima criatividade vis à vis extrema pobreza, inserção global versus exclusão local? Que a prefeita, se estiver disposta a mexer profundamente nas estruturas da cidade — e está, não haja dúvida —, vai se valer, num sentido prático, do que o urbanista espanhol Jordi Borja declarou a uma platéia de colegas e outros especialistas reunidos no Encontro Preparatório ao Seminário Internacional Centro XXI, realizado pela Associação VIVA O CENTRO em 1994, insistindo em que há saídas para o impasse de São Paulo: problemas imensos engendram soluções de igual escala. Ele ajustava ao contexto paulistano o célebre paradoxo de Marx segundo o qual a humanidade só se coloca problemas que ela pode resolver.

Resolver como? A resposta está no bojo do problema: a cidade produtiva e rica precisa incorporar a cidade pobre e injusta à máquina de gerar riqueza e, assim, tornar o conjunto mais eficiente e distributivo. Isso não será possível numa perspectiva tradicional de gestão e planejamento, começando pelo aumento da carga tributária das empresas mais dinâmicas. Para deflagrar o start de um processo de desenvolvimento e inclusão social em alta escala, com resultados expressivos nos limites de seus quatro anos de mandato, a prefeita pode recorrer às operações urbanas — linha em que vem trabalhando a Secretaria de Planejamento Urbano —, apoiar experiências empresariais inovadoras (que muitas vezes incluem melhoramentos urbanos para o entorno), incentivar as iniciativas populares pró-revitalização de bairros e, por fim mas não menos importante, estimular a economia do Centro. Programas locais de desenvolvimento, conduzidos pela Prefeitura, devem abrigar e propulsionar essas iniciativas nos bairros. No Centro faz-se necessário um órgão encarregado de implementar um plano estratégico, atrair investimentos e coordenar as forças sociais e produtivas da área.

Entre os focos de inovação e cidadania empresarial que se espalham pela cidade estão as 1.500 confecções de vestuário do bairro central do Bom Retiro, responsáveis pela massificação de grifes refinadas e que, agora, se preparam para investir na criação de suas próprias marcas, contando com estilistas formados pelas faculdades de moda. Reunidos na Câmara dos Dirigentes Lojistas do bairro, empresários judeus e coreanos — numa das formidáveis sínteses culturais paulistanas — idealizam melhoramentos para o bairro, em projeto a ser apresentado à Prefeitura, e falam em fundar uma escola de criação de moda. A idéia é que o Bom Retiro, cujos produtos têm chegado a países vizinhos e até aos Estados Unidos, seja uma referência no desenho e produção de moda. Outro exemplo vem da Vila Olímpia, bairro próximo à nova centralidade que se forma no eixo da Avenida Luiz Carlos Berrini e que reúne um grande número de empresas de Internet, as chamadas pontocom. Nele, um grupo de moradores e empresários fundou a Colméia, entidade que pretende aplicar recursos próprios para melhorar a paisagem e a segurança do bairro, com a reformulação das calçadas, o ocultamento no subsolo da agressiva fiação aérea e o reforço do policiamento preventivo, mediante parceria com as polícias Civil e Militar. No bairro central da Liberdade, a Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil uniu-se à Prefeitura, ao BNDES e ao Sebrae para desenvolver um plano de desenvolvimento turístico, cultural e comercial com a valorização das características orientais da área. A Zona Leste é hoje o reduto de centenas de pequenas indústrias que, dispersas e misturadas ao casario, mal aparecem à primeira vista. São, na maioria, fábricas de artigos de plástico, metalúrgicas, confecções e gráficas instaladas em pequenos galpões quase sempre próximas do local de moradia dos empregados e convivendo pacificamente com a população residente. Estão lá, e não no Interior e em outros Estados, muitas das pequenas e médias empresas que ocupavam os prédios que hoje se vêem, vazios, ao longo da Avenida do Estado e da ferrovia, entre o Centro e o ABC. Em entrevista à publicação Balanço Anual, da Gazeta Mercantil (novembro de 2000), a urbanista Raquel Rolnik considera que essa dispersão, em si positiva, exige novas políticas urbanas e a mudança da legislação atual, que ainda prevê a concentração industrial em áreas segregadas — uma herança da época em que qualquer indústria, grande ou pequena, era barulhenta e poluidora. Isso está mudando rapidamente.

Vital como sempre, a cidade não teve a sua capacidade produtiva danificada seriamente pelas últimas e desastradas gestões, nem foi vítima de um tão propalado quanto enganoso esvaziamento econômico provocado pela guerra fiscal. Nela continua havendo, e talvez como nunca, uma formidável massa de energia criativa.

É claro que nada disso escapa ao conhecimento da prefeita, dos secretários e técnicos da Prefeitura. Pois nesses fenômenos está boa parte da resposta aos imensos problemas que a cidade se coloca e que ela própria pode resolver. Esse inesgotável potencial de geração de renda, empregos, receitas públicas, animação e qualidade urbana encontra-se em toda parte. Há que aproveitá-lo do Centro às novas centralidades, dos centros dos bairros à periferia, às favelas e aos bairros populares da área central. Setores urbanos "expectantes", como as margens das ferrovias e dos rios, com seus galpões e pátios desertos, aguardam a intervenção do poder público para converter-se em núcleos pulsantes de economia e vida social. O que equivale a dizer que as profundas transformações de que São Paulo necessita já estão prefiguradas. Basta desatar forças produtivas e energias sociais ainda latentes e coordenar as já manifestas para que, integradas a bons projetos urbanos, moldem a configuração da nova cidade. A Prefeitura acertou em cheio ao privilegiar as operações urbanas — pelo menos é o que se depreende das anunciadas intenções da Secretaria de Planejamento Urbano, refletindo, decerto, decisão da prefeita.

As operações urbanas

Numerosas cidades que, ao redor do mundo, vêm obtendo êxitos em suas políticas urbanas recorrem a essas operações. Trata-se da fórmula mais eficiente e democrática de assegurar ganhos sociais e urbanísticos com o uso de recursos privados, numa era marcada pelo declínio da capacidade de investimento do Estado. Sabe-se que, em São Paulo, alguns segmentos da administração municipal manifestam reservas a esse tipo de intervenção negociada, nela vislumbrando algum risco de "promiscuidade" entre o público e o privado. O temor, contudo, não procede.

"A operação urbana é um instrumento de parceria e negociação estabelecido entre o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada previsto no Direito urbanístico e consagrado pelo Estatuto da Cidade", afirma a advogada Evangelina Pinho, diretora do Departamento de Regularização do Solo (Resolo) da Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano. "O Estatuto resolve o problema jurídico da necessária separação entre o direito de propriedade e o de construir. Hoje já se pode alienar o direito de utilizar superfície, espaço aéreo, subterrâneos, e a operação urbana é o conjunto de ações que se pode desenvolver a partir disso. O problema dessas operações tem sido de gestão, e por isso faz-se necessário um controle social sobre elas." Em outras palavras, definem-se como um instrumento de negociação e consenso entre atores urbanos interessados. Ao poder público cabe elaborar um projeto que contemple não só a articulação das funções, mas a modelagem urbana que se deseja, e estabelecer as regras. À iniciativa privada compete o investimento e à sociedade o controle.

"A operação urbana ligada ao projeto urbano, à reestruturação urbana, é elemento chave do urbanismo contemporâneo", afirma o ex-vereador e atual presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Maurício Faria. Segundo ele, em São Paulo já existe um ambiente político e institucional bastante favorável ao seu uso. "Trata-se de uma boa forma de requalificar áreas urbanas e de proceder a parcerias público/privadas que interessem à cidade", confirmou a urbs o secretário municipal de Planejamento, Jorge Wilheim. "Estamos reexaminando as leis que instituíram as três operações vigentes, a fim de melhorar o seu desempenho. Na Faria Lima, para evitar o congestionamento das vias e priorizar o Largo da Batata, o Parque do Povo e a continuação do sistema viário em direção à Avenida Luiz Carlos Berrini. Na Água Branca, para melhorar toda a região descrita na lei e não apenas as áreas ao longo da Avenida Francisco Matarazzo. E, no Centro, para aumentar a arrecadação, otimizar o uso de edifícios tombados e acelerar algumas obras prioritárias previstas no plano de recuperação da área."

As próximas operações urbanas a ser desenvolvidas pela Prefeitura, segundo Wilheim, serão provavelmente Águas Espraiadas, Vila Leopoldina, Carandiru, Vila Sônia, Tamanduateí, Pirituba e Zona Leste, esta em torno do Parque do Carmo e no eixo da Avenida Jacu-Pêssego. Há, por certo, outras regiões pedindo esse tipo de intervenção. Citem-se, como exemplos, áreas ainda não ocupadas lindeiras ao Anhembi — onde ganha forma um complexo de feiras e exposições, com vários hotéis em funcionamento ou em construção, o Campo de Marte, que pode vir a ser um aeroporto para jatos executivos e helicópteros, e um amplo setor de baixa ocupação entre o Terminal Barra Funda e a Casa Verde, no qual já despontam alguns empreendimentos hoteleiros e comerciais —, e o trecho da chamada orla ferroviária entre a Lapa e a divisa de São Paulo com São Caetano do Sul, que se ligaria ao projeto Eixo do Tamanduatehy da Prefeitura de Santo André. Na primeira, destaquem-se a sua posição estratégica em relação ao Centro, à rede rodoviária e ao aeroporto de Guarulhos e um notável dinamismo que pede contrapartidas em melhoramentos urbanos e ações de inclusão social. No segundo, a existência de inúmeros galpões e construções fabris desativadas, pátios ferroviários ociosos e alguns edifícios de boa qualidade suscetíveis de reciclagem e uso por atividades de ensino e lazer, como ilustram os exemplos da fábrica da Alpargatas, que abriga uma seção da Universidade Anhembi-Morumbi, e o Moinho Santo Antonio. Para reforçar esse potencial, conte-se com a modernização da linha ferroviária que liga o Centro ao ABC e às zonas leste e oeste da Região Metropolitana, já em andamento.

Operações urbanas em diversos pontos da cidade podem facilitar à Prefeitura o cumprimento da promessa de virar o jogo da desqualificação urbana e da exclusão social em São Paulo. Elas têm enorme capacidade de gerar economia e criar cidade. No núcleo de cada uma delas devem instalar-se, como âncoras, atividades da nova economia e um complexo de serviços, dos pessoais aos producer services avançados. Funções diversificadas (incluindo-se a residencial), espaços públicos e uso diurno e noturno fazem parte dessa receita. "As operações urbanas devem levar em conta algumas linhas de abordagem que contemplem a metrópole terciária, a metrópole de inserção nas redes mundiais e a metrópole 24 horas", explica Maurício Faria. "Têm de estar em consonância com as grandes transformações que ocorrem não só na esfera produtiva, mas nas formas de organização do trabalho, nos hábitos, nos desejos, nos fluxos urbanos, e que correspondem à transição da metrópole industrial para a metrópole terciária. É essencial que se identifiquem as grandes oportunidades e demandas a que se responderá por meio do projeto urbano e da operação urbana."

Explica o presidente da Emurb que, além dos lugares onde já acontecem transformações de uso, como a Marginal Pinheiros/Berrini e o Anhembi, existem "áreas expectantes" como a orla ferroviária, na qual há muitos terrenos e construções disponíveis. O Carandiru é outra delas. Contrariando a idéia geral de que os espaços liberados pela desativação do complexo penitenciário devem se transformar exclusivamente em áreas verdes, Maurício Faria defende a ocupação de parte da gleba com atividades importantes para a dinamização do conjunto da área, em especial aquelas ligadas a feiras e hotelaria. A área expectante do Parque do Carmo, por outro lado, aposta na formação profissional especializada e na inovação tecnológica para a criação de um pólo de atividades econômicas de maior valor agregado. Já a Operação Urbana Águas Espraiadas deverá valer-se do iminente esgotamento dos terrenos no eixo Berrini/Marginal Pinheiros para, como diz Faria, "passar a limpo" a ocupação desordenada da Chácara Santo Antonio. "O que se vê na região da Berrini são edifícios empresariais ultramodernos implantados em um entorno urbano desestruturado, acanhado e feio, dotado de um improvisado e precário setor de comércio e serviços complementares. Águas Espraiadas é uma oportunidade para lidar, de maneira inovadora, com as dinâmicas do chamado quadrante sudoeste, ou seja, com desenho urbano, planos de marketing, inclusão social, mistura de classes e de usos, evitando-se o monofuncionalismo da Berrini."

A Prefeitura sabe que não está sozinha nessa empreitada. Há uma forte demanda reprimida na sociedade por criação de beleza e inovação, por mudanças que resultem em ambientes urbanos abertos e de boa qualidade. Professor da Fundação Getúlio Vargas com doutorado em planejamento urbano pela USP, o especialista em geografia de mercado Tadeu Masano propõe que a intervenção na orla ferroviária entre a Lapa e o Ipiranga, que compõe uma ferradura com centenas de galpões e fábricas desativadas, seja conduzida por uma empresa ou agência de desenvolvimento formada com a participação da Prefeitura, do Estado e do governo federal e encarregada de captar e distribuir recursos financeiros e de implementar um plano estratégico elaborado com a maior participação possível da sociedade. Masano tem insistido, em artigos na imprensa, no enorme potencial produtivo, de integração social e de estruturação urbanística do que denomina "anel de ferrugem" ou ferradura. "Qualquer projeto para salvar São Paulo terá de achar uma nova função e identidade para a zona morta em que se transformaram os tradicionais bairros fabris. Em vez de problema, a ferradura pode se tornar uma solução. Trata-se de uma região que, embora deteriorada, é provida de uma infra-estrutura invejável. Do sistema viário à rede de esgotos, tudo o que falta na periferia superpovoada existe de sobra no cinturão industrial","escreveu em Exame São Paulo, caderno da edição de dezembro último da revista Exame.

A idéia de Masano é que essa ferradura, que separa o quadrante sudoeste próspero e inserido às redes globais de informação, riqueza e poder das periferias excluídas, passaria por uma profunda reformulação destinada a transformá-la em agente de integração dessas metades da cidade. Nela se concentrariam pólos empresariais, de comércio e serviços, pavilhões de exposições e eventos, setores residenciais mistos, núcleos de profissionalização, escolas, centros de tecnologia e áreas de lazer, articulados por trem, metrô e ônibus a todos os cantos da região metropolitana e ao aeroporto internacional. Seria o lugar da conexão da maioria dos paulistanos, hoje à margem das redes mundiais, com a economia e a cultura globalizadas. Recursos para investir no projeto? "São Paulo é uma das 50 cidades globais que existem no mundo e tem uma grande capacidade de atrair recursos. E a Prefeitura pode manejar a ocupação e uso do solo, induzir um processo para determinadas áreas que atendam às necessidades da população e com isso angariar recursos para investir em infra-estrutura, em inclusão social. O solo é a moeda da Prefeitura." Sobre o temor à promiscuidade de interesses públicos e privados nas operações urbanas, o professor é taxativo. "Essa mistura só existe quando as coisas não são claras, mas disfarçadas. Promiscuidade é o que os governos conseguiram fazer desta cidade, é o indivíduo morar à beira do córrego, beber água de mananciais poluídos e levar três horas para ir e mais três para voltar do emprego, caso tenha um. Se você consegue devolver a cidade às pessoas, todos saem ganhando. Condenar projetos como Puerto Madero, em Buenos Aires, porque resgatam uma parte da cidade para a população, ainda que não para toda ela, é pura tolice."

Centro produtivo

Virtualmente abandonado pelo poder público na ultima década, o Centro é o grande patrimônio de São Paulo. Nenhum outro setor da metrópole apresenta tamanho potencial de geração de trabalho e renda, e um poder indutor de desenvolvimento urbano e social, como o Centro e os chamados bairros centrais. As tentativas de recuperá-lo têm estado muito aquém de sua importância para o presente e o futuro de São Paulo. Para fugir à regra, seria desejável que o plano da prefeita Marta Suplicy, que privilegia a recuperação dos espaços públicos, incluísse um programa de incentivo à economia emergente da área, composta por empresas usuárias de tecnologia avançada, ligadas às telecomunicações e à informática (centrais de atendimento, call centers, centrais de telemarketing e web hostings), e departamentos de armazenamento e processamento de dados de grandes bancos, que transformam a área central num dos "portos digitais" de São Paulo. São dezenas e surgiram nos últimos anos, quando a região foi totalmente cabeada com fibras óticas e passou a contar com grande oferta em telefonia. Geralmente operam 24 horas e empregam milhares de pessoas, quase todas jovens. De gigantes do telemarketing como a Atento a call centers altamente especializados como a TMS, chegando a prestadores de serviços inovadores e complexos como a "hospedeira de sites" (ou web hosting) .comDominio, tais empresas e departamentos chegaram ao Centro por rigorosos critérios de decisão locacional.

Para Diogo Bujaldon Moralles, diretor do Grupo TMS, com sede em Alphaville, e responsável pela TMS Call Center, instalada na Rua Líbero Badaró, a completa infra-estrutura de fibras óticas e telefonia, mais a boa oferta de transporte público de qualidade e serviços como hotéis e restaurantes, foram decisivas para a transferência das operações de call center, web call center e contact center da empresa para o Centro. "A região tem praticamente tudo de que uma empresa como a nossa necessita, e a um custo vantajoso", afirma. Custos imobiliários inclusive, completa Alexandre Nunes, vice-presidente executivo da .comDominio, que ocupa um prédio de sete andares na mesma rua. Às vantagens comparativas citadas por Moralles ele acrescenta, ainda, a confiabilidade do sistema reticulado subterrâneo de distribuição de energia elétrica, que só existe no Centro e em uns poucos bairros centrais.

São qualidades estruturais capazes de justificar a escolha do Centro. Para os dois empresários, os defeitos da região se resumem à falta de estacionamentos e à má gestão do espaço público. O acesso por automóvel particular é difícil e a paisagem malcuidada chega a desencorajar alguns clientes, dizem. São, contudo, problemas que uma Prefeitura empenhada na recuperação do Centro pode solucionar.

O perfil econômico do Centro vai além. Ele também abriga um complexo de serviços atuando em torno das duas bolsas e das principais instituições da Justiça da cidade. Estão no Centro alguns dos mais notáveis equipamentos culturais e a maioria das secretarias, empresas e órgãos das três esferas de governo. O comércio é uma mescla de lojas populares, galerias comerciais, grandes magazines e shopping centers diferenciados, como o Light, em edifício de valor histórico, e o recém-inaugurado Frei Caneca, com um moderno centro de convenções e exposições. A rede hoteleira está em processo de renovação. A menos de dois quilômetros do núcleo central se consolida o maior pólo de exposições, feiras e eventos do país, em torno do qual surgem novos hotéis. Duas linhas de metrô com sete estações (apenas nos distritos Sé e República), duas estações ferroviárias e quase 300 linhas de ônibus respondem pela vinda diária ao Centro de mais de dois milhões de pessoas, correspondendo a 22% de todas as viagens realizadas por todos os meios de transporte na Região Metropolitana, segundo a última (1997) Pesquisa Origem-Destino do Metrô.

O que seria, da parte da Prefeitura, levar em conta essa economia em seu plano para o Centro? Recuperar a qualidade dos espaços e tornar a região mais atraente, iluminada e segura é decisivo para a atração de empresas, comércio e outras atividades, além de favorecer a vinda de contingentes que se desabituaram a freqüentar a área ou nunca cogitaram fazê-lo. Sub-regiões ou logradouros com atividades especializadas, como a Rua Santa Ifigênia e transversais, o maior pólo de comércio de microeletrônica do país, e bairros multiculturais com forte apelo turístico, como a Liberdade, onde já existe um processo de mobilização com apoio da Prefeitura, são áreas privilegiadas a merecer tratamento diferenciado, de acordo com sua vocação (por que não uma rua de antiquários, como fez o Rio com a Rua do Lavradio? E uma de galerias de arte, como a Consell de Cent de Barcelona?) . O Centro, a rigor, é o único lugar que, sendo um dos pontos de inserção da metrópole à rede mundial de cidades, é ao mesmo tempo o seu território mais democrático e acessível, marcado por um forte caráter público. O que pode estar faltando ao plano Reconstruir o Centro, da Prefeitura, é um organismo específico para estimular economias — que se traduzam em postos de trabalho e geração de renda e receitas públicas — a partir dessas características exclusivas do Centro. Uma agência de desenvolvimento destinada a captar investimentos e a implementar um plano estratégico de Centro metropolitano, cujo arcabouço já existe — a Operação Urbana Centro —, não competiria ou disputaria tarefas com a futura subprefeitura da área, mas agiria em estreita colaboração com ela.

Uma das atribuições dessa agência seria o manejo de um instrumento proposto, há alguns anos, pelo então secretário de Planejamento Guilherme Afif Domingos: a redução, por tempo determinado, da alíquota do ISS sobre atividades consideradas importantes para a recuperação do Centro. Seriam beneficiadas principalmente empresas de tecnologia, usuárias ou criadoras. A produção de software receberia incentivos. Com isso, a atual ociosidade imobiliária seria preenchida e o Centro ganharia um novo agente de animação, com firmas empregando milhares de funcionários dia e noite. A médio prazo, não haveria perda para os cofres públicos. A redução na alíquota seria compensada amplamente pela expansão das atividades na área, com o conseqüente aumento da arrecadação, e pelo fim da prática de usar endereços de cidades da Região Metropolitana com alíquotas próximas de zero para instalar a sede da empresa e valer-se de São Paulo como mercado.

Uma constelação de atividades de lazer, turismo, cultura, educação e entretenimento animando outros ramos da economia, como a hotelaria e o comércio, alimentando os cofres municipais e empregando milhares de pessoas é uma meta ambiciosa, mas perfeitamente plausível. A conversão dos antigos e magníficos cinemas que ainda restam no Centro em salas de teatro, de musicais e mesmo de projeção poderia ser incentivada da maneira como se fez na região de Times Square, em Nova York, num mecanismo muito semelhante ao de transferência de potencial construtivo para imóveis históricos, um item da Operação Urbana Centro. Essas salas renovadas atrairiam multidões que ocupariam restaurantes, bares, hotéis, lojas e livrarias. Na área da educação, veja-se o caso da Universidade Anhembi-Morumbi, que em 1997 criou o seu Campus Centro no quase centenário edifício das indústrias Alpargatas, no Brás, e que no próximo ano pretende trazer para a Rua Líbero Badaró cerca de três mil alunos de diversos cursos que se instalarão num edifício do BankBoston, a ser esvaziado com a transferência de seus dois mil funcionários para a região da Marginal Pinheiros/ Berrini — numa troca extremamente vantajosa para o Centro em termos de demanda por serviços e de agitação cultural. Por fim, recorde-se que o arquiteto Jorge Wilheim, no projeto com que participou do Concurso Nacional de Idéias para um Novo Centro de São Paulo, promovido em 1996 pela Prefeitura e IAB-SP, com apoio do BankBoston, da Rede Ferroviária Federal e da VIVA O CENTRO, imaginava a ocupação de diversos edifícios monumentais do Centro histórico e financeiro, em geral sedes desativadas de bancos, por escolas e cursos de reciclagem e capacitação profissional, conforme explicou a urbs (edição de novembro/dezembro de 1998). "Tudo depende de uma iniciativa da Prefeitura, em parceria com quem queira ganhar dinheiro montando cursos", disse ele à época. Hoje, com Wilheim na Prefeitura, este e outros projetos tornam-se, certamente, muito mais viáveis. (Colaborou Federico Mengozzi)


  Idéias  
Reabilitação de edifícios residenciais em áreas centrais: o caso de Santa Cecília *
Edmur Caniato Arantes e Ricardo de Sousa Moretti


São Paulo começou como uma pequena cidade de taipa. Suas edificações foram substituídas pelas de tijolos de barro e sobre a cidade de tijolos construímos a de concreto. São três cidades em um século, no mesmo espaço, como escreveu Benedito Lima Toledo. Apesar da enorme expansão territorial da mancha urbana suas áreas centrais não foram poupadas. Abandonamos por muito tempo os prédios que fizeram parte de nossa história, deixamos de cuidar dos nossos bairros antigos, desprezamos nosso centro.

Embora se fale muito em desenvolvimento sustentável pouco se fala do forte impacto do setor de construção civil no consumo de recursos não renováveis. A partir dos dados do consumo de cimento no Brasil pode ser feita uma rápida avaliação: em 1999 foram 40 milhões de toneladas de cimento, cerca de 230 kg por habitante. Considerando que o cimento é usualmente utilizado com outros agregados, não renováveis (areia, pedra, aço etc.), constata-se que o consumo médio de cada indivíduo é de algumas toneladas por ano. Avalia-se assim o impacto, os riscos e o prejuízo ambiental associados ao abandono de setores da cidade. A necessidade de construir cada vez mais longe, resulta em ônus adicionais: o asfalto, a água e o esgoto, a eletricidade, o transporte público são apenas parte deste impacto. Somam-se as perdas associadas às relações pessoais e à memória da cidade.

Edificações em áreas centrais de quarenta, cinqüenta anos são consideradas inadequadas e obsoletas. Edificações horizontais são substituídas pelas verticais, residenciais por comerciais.

Agora a questão que se coloca é: poderemos demolir edifícios verticalizados para substituí-los por novos? Mesmo para aqueles que analisam simplesmente os aspectos financeiros, esta equação não tem se mostrado viável. Jogar fora todo o material empregado vai frontalmente contra os princípios da cidade sustentável. Em 1975 foi elaborada pelo Conselho da Europa a carta de Amsterdã onde o patrimônio arquitetural passa a ser considerado não somente aquele constituído pelos edifícios de reconhecido valor arquitetônico ou histórico, mas também pelos conjuntos formados pela cidade ou região, considerando-se sua relação com a população. Esse patrimônio construído, referencial da população, é considerado o meio ambiente indispensável ao equilíbrio e realizações do homem. Esta carta dá a base para o pensamento vigente sobre reabilitação.

Preservar a cidade significa assegurar o direito daqueles que participaram de sua constituição em usufruir de sua continuidade e de seu desenvolvimento e portanto manter as populações já integradas na cidade. Preservar, neste contexto, não significa tombamento, mas encontrar uma dinâmica nova para a continuidade do desenvolvimento, descartando a substituição do antigo pelo novo como critério único.

A reabilitação é portanto uma forma de adequar a edificação ao espaço urbano, às condições sócio econômicas e tecnológicas necessárias à recuperação de seu desempenho e função, seja esta função nova ou existente.

Na Europa, diversos fatores impulsionaram a reabilitação: a impossibilidade de expansão territorial, a estabilidade demográfica e a necessidade de preservar o patrimônio construído. Como decorrência desse quadro, o mercado de reabilitação chega a ser mais importante que o de novas construções. Como forma de incentivo e organização da atividade são constituídas agências, com apoio do estado, onde se estuda a reabilitação. Os estudos compreendem os levantamentos do parque imobiliário, da situação da população e suas necessidades, das condições físicas das edificações e das possibilidades de sua reabilitação incluindo diagnósticos físicos, previsão de custos e planejamento financeiro. Estas agências se encarregam ainda de divulgar as possibilidades, físicas e financeiras, e de organizar os participantes das operações. Em alguns países europeus os códigos de obra, considerando a situação diferenciada da reabilitação, permitem adaptações e estabelecem critérios apropriados à esta condição de obra.

Como subsídio à formulação da política pública voltada à reabilitação de edificações para fins residenciais apresentam-se alguns estudos realizados no bairro de Santa Cecília, em São Paulo.

Santa Cecília encontra-se entre a região central e bairros valorizados. No bairro há completa infra-estrutura e oferta de serviços inclusive com a presença do metrô.

As primeiras ocupações, residenciais, datam de 1890 a 1900. Como em diversos outros bairros centrais da cidade, as residências foram sendo substituídas pelos prédios de apartamentos. No caso de Santa Cecília este processo iniciou-se na década de 1930 mas tomou impulso na década de 1950 e até hoje se processa, em especial nas áreas mais atraentes para o capital imobiliário. Os prédios do bairro são relativamente velhos para o padrão de São Paulo e apresentam falta de manutenção adequada. Em pesquisa realizada no bairro, constatou-se uma média de 38 anos dos prédios, dentre os que foram levantados.

Segundo dados da Secretaria das Finanças do Município de São Paulo, 70,84% da área construída do bairro tem uso residencial e as edificações com este uso apresentam elevado coeficiente de aproveitamento: é de 5,27 a relação média entre a área construída e a área dos terrenos residenciais, o que sinaliza a forte presença dos prédios de apartamentos. O segundo uso mais freqüente no bairro é o de escritórios e comércio com uma presença de 22,74% e um coeficiente de construção de somente 2,49, bem menor, portanto, que o residencial.

Santa Cecília embora apresente a mesma tendência de redução de população que se manifesta em todas áreas centrais de São Paulo, ainda apresenta um forte contingente de moradores. Dados levantados pela Emplasa, mostram que o distrito de Santa Cecília, no período de 1991 e 1996, perdeu 2,49% de seu moradores, enquanto o do Pari perdeu 6,34%, o do Bom Retiro 5,20% e o da Sé 4,88%. No mesmo período o município de São Paulo cresceu 0,40% e o distrito do Jardim Angela, na periferia da cidade, cresceu 4,50%.

Apesar de apresentar uma condição relativamente privilegiada, em comparação com outras áreas centrais, encontra-se aí também problemas de degradação no bairro e em seus edifícios. Os edifícios em pior estado de conservação e maiores conflitos urbanísticos e sociais encontram-se nas proximidades do elevado Costa e Silva (Minhocão) e do Largo de Santa Cecília. As melhores condições são verificadas no setor que faz divisa com a região de Higienópolis.

Nos edifícios existentes os problemas mais comuns estão associados às instalações hidráulicas, de gás e aos serviços de impermeabilização. As instalações elétricas não comportam mais as necessidades atuais e verificam-se alguns conflitos ligados à pequena oferta de garagens nos prédios, embora as facilidades de transporte coletivo no bairro compensem esta dificuldade.

O moradores se mostram contentes de habitar o bairro. Destacam que o local "têm de tudo", referindo-se à infra estrutura, ao comércio, aos serviços e à facilidade de deslocamento. Na pesquisa de Origem e Destino da Companhia do Metropolitano de São Paulo de 1997, chega-se ao percentual de 36% da população ocupada residindo e trabalhando no mesmo distrito. Segundo a mesma pesquisa, no distrito há uma proporção de 1,02 empregos por habitante, enquanto essa proporção é de 0,47 para o município e de 0,41 para a região metropolitana.

A infra estrutura e localização de Santa Cecília suplanta alguns aspectos negativos e faz com que as pessoas que têm melhor condição financeira não deixem o bairro em massa. Em diversos edifícios visitados foi possível identificar iniciativas de melhoria dos edifícios reformando suas instalações elétricas e trabalhos de impermeabilização e pintura. Em alguns casos, troca de elevadores e reformulação dos halls.

As reformas e melhorias são prioritariamente nas áreas internas dos edifícios. Alguns relatos mostram que a execução de obras emergenciais, como adequação às normas de segurança, em muitos casos quebrou o ciclo de deterioração do edifício e retomou iniciativas de manutenção e de recuperação da auto estima de seus moradores. São ações pontuais, sem planejamento. É difícil a obtenção do consenso das decisões relativas às obras de melhoria nos edifícios - são condomínios habitados por gente de possibilidades e interesses diferentes.

O bairro, segundo levantamentos da Companhia do Metropolitano de São Paulo, tem uma alta incidência de propriedade em locação, chegando a 45% dos domicílios contra uma média de 20% para o município. Nas tomadas de decisão sobre reabilitação do edifício, nas reuniões de condomínio, só têm poder de voto os proprietários. Os inquilinos exercem de forma indireta sua influência na decisão, inclusive por conta da omissão de parte dos proprietários. Nas deliberações sobre o espaço público encontram-se outros agentes envolvidos: proprietários de comércio e serviços e as diversas áreas e esferas do poder público.

A reabilitação envolve assim interesses que podem ser conflitantes:

· os proprietários moradores são os maiores interessados na melhoria no edifício e no bairro. Para estes valem a pena os sacrifícios econômicos e o empenho pessoal;

· os locatários identificam nas obras o risco de elevação dos valores de locação, que poderia levar à sua expulsão do prédio ou do bairro;

· os proprietários não moradores, se dividem em proprietários de uma só unidade que, em geral, é fundamental para sua renda e proprietários de várias unidades. Os primeiros freqüentemente têm interesse na reabilitação, mas encontram dificuldades para concretizar o investimento, até por que parte de sua renda depende justamente do imóvel desvalorizado. Para os proprietários de vários imóveis o investimento em reabilitação é visto com ressalvas, devido a anos de baixa rentabilidade do mercado locatício. Há também as unidades em situação jurídica não definida causando o abandono destas.

Entre os conflitos de uso apontados pelos moradores entrevistados foi destacado o problema de ruído de alguns bares, e de árvores que são eliminadas para melhor visualização das casas comerciais.

Verifica-se no bairro a ocupação de prédios pelos movimentos organizados de moradia- foi feita a ocupação de um prédio público por movimento de moradia que reivindica a reabilitação com recursos públicos e aquisição por financiamento subsidiado. Os movimentos populares por moradia, atentos que estão devido à sua premente necessidade, têm hoje nas áreas centrais um dos principais eixos de atuação e reivindicação. Não se deseja somente um teto, isolado e carente de ambiente urbano. Deseja-se participar e usufruir da cidade e de sua infra-estrutura.

Registra-se também em Santa Cecília uma experiência de reabilitação de edifício residencial conduzido exclusivamente pela iniciativa privada, que adquiriu e reabilitou dois edifícios que foram vendidos com financiamento privado.

Os problemas da exclusão social manifestam-se no bairro através da presença de pessoas sem moradia, abrigada nas ruas, a presença de comércio ambulante ilegal e de alguns cortiços em condições precárias. Evidentemente estes problemas não ocorrem somente na Santa Cecília, porém alguns setores do bairro apresentam condições propícias ao atendimento das necessidades emergenciais da população carente.

Os conflitos sociais, os problemas de degradação urbana e dos edifícios tendem a provocar o rebaixamento dos valores dos aluguéis e de venda dos imóveis. Por outro lado, as melhorias realizadas nos edifícios ou no espaço urbano podem causar a rápida substituição da população do bairro. É preciso o apoio do poder público para que seja possível fazer face ao desafio de evitar o processo de expulsão e manter um perfil diversificado de uso do solo e de renda da população moradora no bairro

A proposta de atendimento da moradia social em forma de locação subsidiada com opção pela aquisição posterior têm aspectos bastante positivos pois não permite a rápida apropriação do diferencial causado pela valorização e facilita a integração do morador ao tecido social.

A utilização compulsória dos imóveis vagos, de acordo com o instrumento previsto no Estatuto da Cidade, recém aprovado pelo Congresso Nacional, pode ser uma forma de ampliar o número de imóveis disponíveis para locação e reduzir a pressão de aumento dos valores dos aluguéis. Vale destacar que não é uma medida de impacto imediato considerando os prazos previsto na legislação para sua aplicação.

Santa Cecília mostra-se um bairro central que oferece condições favoráveis para a reabilitação de seus edifícios e do espaço público, desde que se esteja atento à necessidade de contemplar os direitos e interesses dos diversos interlocutores envolvidos no processo. Ao poder público cabe o importante papel de gestor do processo de reabilitação.


  Urbanismo  
Agora, mãos à obra

Sancionado pelo presidente e complementado por MP, Estatuto da Cidade depende do empenho de cada município

Ana Maria Ciccacio
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


A depender dos esforços já empreendidos por órgãos do Governo Federal, alguns prefeitos e vereadores, universidades e entidades da sociedade civil ligadas a questões urbanas, habitacionais, sociais e ambientais, são grandes as chances de que o Estatuto da Cidade, em vigor a partir de outubro, ascenda do papel para o cotidiano brasileiro, passando a integrar o conjunto das leis que pegam.

Em seminários e debates, o que se observa é um processo extremamente rico de discussão sobre a nova lei em vários municípios do país — o Brasil possui mais de 5,5 mil municípios. A capital paulista, com problemas urbanos proporcionais à sua imensa população e vasto território, apostou firme na difusão da nova lei e, no âmbito nacional, uma parceria firmada entre a Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (Sedu/PR) e a Caixa Econômica Federal produziu entre setembro e o começo de outubro, por todo o país, 36 seminários para prefeitos, secretários municipais, vereadores e outros administradores públicos com o mesmo fim, além de uma cartilha para se compreender o Estatuto da Cidade (ver o box).

O Governo Federal, por sinal, tem agido prontamente também em outros níveis quando se trata do Estatuto da Cidade. Em 4 de setembro, o presidente Fernando Henrique Cardoso, respondendo como prometera ao anseio geral por disciplinamento no uso do solo urbano com base em sua função social, editou a Medida Provisória de nΊ 2.220. Com isso, não protelou, mas resolveu a questão dos vetos que havia feito a alguns artigos do Estatuto da Cidade por ocasião do sancionamento da lei, em 10 de julho.

A MP reintroduz o direito à concessão de uso especial para moradia, que irá regularizar a ocupação de imóveis públicos invadidos há mais cinco anos — 75% das favelas de São Paulo, cerca de 1.200, acham-se em áreas do poder público. As únicas ressalvas, adiantadas por urbs n0 22, dizem respeito a imóveis destinados ao uso comum do povo e a projetos de urbanização, defesa nacional, preservação ambiental e proteção dos ecossistemas naturais, construção de represas e obras congêneres e vias de comunicação. A MP, além disso, cria o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano (CNDU), uma reivindicação antiga no Brasil e à qual também se vincula o sucesso futuro do Estatuto da Cidade, como destaca o sociólogo Eduardo Graeff, assessor especial do presidente da República e coordenador das gestões que resultaram na nova redação (ver o box).

Uma conquista

"Desde a Constituinte trabalhamos com a perspectiva de que o direito à cidade venha a se tornar um indutor de reforma e desenvolvimento urbano, tendo como ponto de partida o enfrentamento das desigualdades sociais", diz o advogado Nelson Saule Jr., do Instituto Polis e grande colaborador de Graeff, referindo-se à importância da presteza com que o presidente Fernando Henrique Cardoso editou a MP.

"O Estatuto da Cidade é produto de muitas mãos e demandas", enfatiza a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, também do Instituto Polis. "Contém diretrizes e princípios gerais para uma política urbana e estabelece instrumentos novos de ação que, se bem aplicados pelas gestões municipais, com base na ausculta permanente à população, como a própria lei exige, conduzirão a mudanças positivas para as cidades brasileiras." Para a socióloga Maria Ruth Sampaio do Amaral, diretora da FAUUSP, também chegou o momento de ultrapassar a simples demanda de participação dos habitantes. "É necessário conferir aos cidadãos os meios de exercê-la, com os riscos que ela comporta."

Pela primeira vez, na avaliação da geógrafa Arlete Moysés Rodrigues, vice-presidente da Cohab, a cidade é entendida pela legislação como um bem coletivo, "sendo necessário pensar a população e seu bem-estar como riqueza a ser construída com qualidade para todos". Da mesma maneira que o Estatuto da Criança e do Adolescente abandonou o termo "menor", por sua carga preconceituosa e excludente, o Estatuto da Cidade substitui a noção de espaço urbano pelo sentido mais abrangente de espaço coletivo, segundo a arquiteta Maria Lúcia Refinetti, da FAUUSP.

O processo de urbanização da humanidade é mundial — só no Brasil, 80% da população concentra-se hoje em cidades —, de modo que nunca foi tão premente atuar pela inclusão social. "Na verdade, desde a Conferência Habitat 1, realizada pela ONU no Canadá, os países são instados a formular legislações com essa finalidade. O congresso que São Paulo realizará vai coroar essa primeira fase de construção de uma legislação contundente e objetiva", comemora a advogada Evangelina Pinho, diretora do Resolo — Departamento de Regularização do Solo (Resolo), da Sehab. "O Estatuto da Cidade não se tornará letra morta, até porque são grandiosos os problemas urbanos enfrentados por nossas cidades. É impossível passar sem ser notado."

Avanços

Segundo a assistente social Grazia de Grazia, do atuante Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), a multiplicação de favelas está menos relacionada a campanhas de ocupações, como querem alguns, do que ao enfraquecimento da economia. "Com o Estatuto, pela primeira vez essas populações terão que ser consideradas pelo Plano Diretor das cidades, que para elas terão de planejar condições decentes de vida", afirma Grazia. "Se conseguirmos regularizar todas as terras ocupadas até 30 de junho de 2001 (limite estabelecido pela MP) já será um grande avanço. Mas evidentemente não bastará. O país precisa formular uma política habitacional para pessoas de baixa renda."

Regulamentação jurídica sem requalificação urbanística, por outro lado, não tem o menor sentido na opinião da arquiteta Ermínia Maricato, da FAUUSP. "Será um equívoco regularizar ocupações em áreas privadas ou públicas nas condições em que estão, comprometidas com má qualidade urbanística." O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, no comando da Sempla, tem isso em mente: "Preocupa-nos a possibilidade de uma concessão real de uso coletiva ser requerida antes de podermos proceder, com os ocupantes, a uma urbanização que transforme favelas em bairros. A precipitação cristalizaria ocupações inconvenientes para os próprios moradores. Mas penso que o bom senso prevalecerá".

Está nos planos da Sehab tornar essas áreas mais saudáveis do ponto de vista urbanístico, com a importação de serviços básicos e infra-estrutura, e, posteriormente, proceder à sua regularização cartorária. "Já temos um conjunto de 150 favelas arroladas, algumas com mais de 40 anos, a ser atingidas por ações imediatas da Prefeitura", diz Evangelina. "Algumas já se vem tentando regularizar desde a gestão Mário Covas na Prefeitura, e que a gestão Luiza Erundina encaminhou na forma de projeto de concessão especial de uso para moradia, mas a Câmara sequer votou. Agora essas famílias poderão receber o benefício. Quanto aos distritos Sé e República, no Centro, alguns edifícios vazios talvez possam ser convertidos de escritório a moradia."

Estratégico

Com o Estatuto da Cidade, o fato é que o Plano Diretor em municípios com população superior a 20 mil habitantes terá que especificar tudo isso e muito mais. No caso de São Paulo, o secretário Wilheim garante que o Plano Diretor em elaboração, a entrar brevemente em debate público, conterá um setor definindo o critério de uso de cada um dos instrumentos de gestão enumerados no Estatuto da Cidade. No documento, áreas destinadas a Zonas de Especial Interesse Social (Zeis) deverão estar claramente mapeadas, assim como as de preempção, reservando à Prefeitura o direito de primeira oferta de compra. O secretário Paulo Teixeira, da Sehab, adianta que essas áreas poderão estar contidas na velha região industrial de São Paulo (o chamado "anel de ferrugem"), hoje com centenas de galpões, fábricas e ramais ferroviários desativados, e que tem início na Zona Oeste (Lapa, Barra Funda), corta a região central (Brás, Pari, Mooca) e se estende-se até Santo Amaro.

Uma das principais críticas a Planos Diretores elaborados no passado é que eram tecnocratas demais e propunham uma cidade ideal, desconsiderando a cidade real, que crescia independentemente deles. Segundo Haroldo Pinheiro, presidente da Direção Nacional do IAB, o Estatuto da Cidade coloca o Plano Diretor nos trilhos corretos. "Daqui para a frente, o Plano Diretor deverá ser mais estrutural e trabalhar de forma mais holística, inclusive promovendo a interface com a zona rural e, também no caso de cidades com mais de 500 mil habitantes, com os planos de transporte urbano, preservação de mananciais etc." Na mesma direção apontam os arquitetos Luiz Carlos Costa, da FAUUSP, e Domingos Theodoro de Azevedo Neto, para os quais um modelo seria o PITU 2020. "O Plano Diretor não deve fazer um planejamento para um ano, mas para daqui a 15 ou 20", diz Carlos Costa. "Ele deve tratar apenas das questões realmente estruturais, deixando às subprefeituras as soluções das demandas locais", acrescenta Azevedo Neto.

"É no Plano Diretor que a cidade vai acordar, vai decidir qual a melhor política para o seu desenvolvimento, que diretriz deve seguir", diz Evangelina Pinho. "No caso de São Paulo, o Plano Diretor deve visar à estruturação da cidade em um sentido macro, mais geral, mas também deve tratar do planejamento local, para que seja compatível com a legislação que passa a vigorar e com a futura, no local das subprefeituras, no bairro mesmo, no Centro. O Plano Diretor vai ter que compatibilizar a questão urbanística com a ambiental, a de desenvolvimento econômico da cidade metrópole com o entorno metropolitano. Há uma série de problemas comuns, como a destinação do lixo, a preservação de mananciais e de reservas florestais, o transporte coletivo etc."

Mais do que um plano urbanístico, o Plano Diretor tenderá a ser um instrumento jurídico, permitindo ou não legitimar uma ação, conforme o advogado parecerista de questões urbanas Paulo José Vilela Lomar, chefe da Assessoria Jurícida da Sempla. "Uma desapropriação poderá ser questionada se não for realizada para alcançar objetivos traçados pelo Plano Diretor. Sua eficácia, além disso, também dependerá dos objetivos estratégicos nele determinados. Se o objetivo for gerir a cidade no sentido da inclusão social, terá de haver um grande esforço coletivo e ampla discussão visando a essa meta."

Quanto à polêmica questão do IPTU progressivo, há uma unanimidade entre as pessoas aqui ouvidas por urbs. O progressivo no tempo, estabelecido pelo Estatuto da Cidade, tem um papel disciplinador do contexto urbano e, por seu efeito extra-fiscal, poderá ser aplicado em paralelo ao IPTU progressivo no espaço, que é aquele cuja implantação Erundina tentou em sua gestão e Marta Suplicy volta a colocar como possibilidade já para o próximo ano e segundo o qual quem pode mais paga mais. A aplicação tanto de um como de outro, segundo o jurista Urbano Ruiz, da Associação Juízes para a Democracia, tornou-se menos conflitante depois da Emenda Constitucional nΊ 29, do ano passado. Ainda assim, pelo Artigo 15, Inciso 35 da Constituição Federal, quem se sentir lesado ou ameaçado de lesão pode recorrer ao Judiciário. "A dialética nessa discussão é saudável", afirma Ruiz. Mas, na verdade, ganhar ou perder dependerá muito mais da mobilização social em prol das conquistas até agora alcançadas.

Para sair do papel

Em São Paulo, os debates sobre o Estatuto da Cidade começaram menos de um mês depois de sancionada a nova lei. Um dos primeiros, em 7 de agosto, foi promovido pelo arquiteto e vereador Nabil Bonduki. Na USP foram realizados pelo menos dois e, recentemente, em meados de outubro, a Prefeitura de São Paulo acolheu no Centro de Convenções do Anhembi o I Congresso Nacional pelo Direito à Cidade, organizado pelo Fórum Nacional pela Reforma Urbana e IAB, entre outras entidades. Principalmente, todas as capitais do país, incluindo São Paulo, e cidades mais populosas dos principais Estados (caso de Santos) foram brindadas com os seminários realizados pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República (Sedu/PR) e Caixa Econômica Federal (CEF). "Foi uma primeira abordagem, com o objetivo de tornar o Estatuto da Cidade conhecido, estando a cartilha à disposição nas superintendências regionais da CEF", diz a urbanista Vera Ribeiro, coordenadora da Sedu. "Nosso próximo passo, se bem que talvez aconteçam outros seminários, será difundir informações mais técnicas, por exemplo as relativas ao Plano Diretor, por Internet."

Conselho será democrático

Um decreto presidencial deverá definir a composição do recém-criado Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano (CNDU). Na expectativa, algumas instituições sugerem que o conselho seja o mais representativo possível. "Pensamos em algo como o Comitê Istambul + 5, que seguindo orientação da ONU, teve metade de membros do governo e metade da sociedade civil", diz o arquiteto Haroldo Pinheiro, presidente da Direção Nacional do IAB. "Devem estar representadas entidades consagradas no trato de questões urbanas, como as de arquitetos, geógrafos e do Fórum Nacional de Reforma Urbana. São instâncias muito ativas e que precisam participar até para que o CNDU exista de fato", opina Evangelina Pinho, da Sehab em São Paulo. A preocupação tem eco em Brasília. "É intenção do Governo Federal que o conselho inclua representantes das áreas acadêmica e técnica e também de entidades ligadas à habitação e reforma urbana, como o Comitê Istambul", informa Eduardo Graeff, assessor especial do presidente Fernando Henrique Cardoso.


  Entrevista  
Um projeto de São Paulo a partir do Centro


A história — passados dez anos — é conhecida: preocupados com o estado de abandono do Centro de São Paulo e assistindo à saída de empresas, instituições e até de moradores da região, o presidente do BankBoston (então Banco de Boston) no Brasil, Henrique de Campos Meirelles, junto com um grupo de executivos de diversas organizações e de profissionais liberais, fundou, em 11 de outubro de 1991, uma entidade para lutar pela recuperação do prestígio, da beleza e do poder de atração da área — a Associação VIVA O CENTRO. Meirelles conhecia bem, de suas constantes viagens aos Estados Unidos, o processo de requalificação do centro de Boston e imaginava que algo semelhante pudesse ser feito em São Paulo. Hoje presidente mundial do BankBoston e do FleetBoston Global Bank e residindo em Nova York e Boston, este engenheiro de 56 anos, formado pela Escola Politécnica da USP e que optou pela carreira de executivo do mercado financeiro, não oculta a decisão de, ao se aposentar, dedicar-se à vida pública no Brasil, como parlamentar por seu Estado natal, Goiás, como dirigente do terceiro setor em São Paulo ou até as duas atividades ao mesmo tempo. Além de atento às questões administrativas paulistanas e à cena brasileira, Meirelles usa seu privilegiado posto de observação para entender o cenário internacional como poucos conseguem. No final de outubro, de sua residência em Boston, ele falou por telefone sobre os dez anos da VIVA O CENTRO (cujo Conselho Deliberativo preside até hoje), o potencial do Centro e fatos do panorama internacional a Jule Barreto, editor, e Ana Maria Ciccacio, editora assistente de urbs.

urbs - Ao contrário de algumas metrópoles do chamado Primeiro Mundo, São Paulo tem abismos sociais enormes e carece de uma cultura política disseminada. Como engajar a população num projeto de transformação urbana e, principalmente, de recuperação do Centro ? Como obter um consenso?

Henrique Meirelles – Eu acho que o consenso já existe, no sentido de que não se encontra muita gente que discorde da idéia de que é preciso recuperar o Centro.



O que falta, então? Por que o Centro ainda aguarda maior empenho do poder público, se há um consenso?

O que falta é mais engajamento. E sobretudo mais empenho do poder público. A recuperação do Centro passa pela questão da transferência para lá da sede do governo do Estado. Seria importantíssimo o governo estadual levar a sua sede para o Centro, tanto o gabinete do governador quanto a residência. Isso geraria uma grande ocupação de imóveis — e o Estado é um grande proprietário na área central—, imóveis que estão vazios e que seriam ocupados. A partir daí o comércio se expandiria para atender os novos usuários e viriam os profissionais liberais, dando início a um círculo virtuoso.



Um start no processo...

Exatamente. Com os profissionais liberais para atender os funcionários públicos viriam também os restaurantes, bares, lojas, tudo isso trazendo mais gente, a qual por sua vez geraria mais demanda, ocuparia mais imóveis, usaria mais serviços, buscaria mais entretenimento e cultura.



O governador Mario Covas parecia bastante interessado nesse projeto. Após sua morte, a transferência do Palácio parece que deixou de ser prioridade. Passando agora ao papel da Associação VIVA O CENTRO: ela foi criada em 1991, com o objetivo de resgatar o prestígio e a qualidade urbana do Centro. Depois evoluiu muito. Hoje pensa o Centro de forma estrutural, como um território estratégico. Como o sr. enxerga o futuro desta VIVA O CENTRO cada vez mais integrada ao processo global da metrópole?

A Associação deve institucionalizar-se, afirmar-se como um centro de debates e de novas idéias. Quanto mais ampliar sua visão estratégica do Centro, mais tenderá a crescer, a ampliar sua própria visão, sua cultura e abrangência. Seria algo absolutamente natural ela se institucionalizar e fazer parte da estrutura da cidade, como acontece em outros países. A sociedade civil tem que ser cada vez mais agente e parte integrante das transformações urbanas e sociais.



Além de espaço emblemático, de marca da cidade, o Centro tem um lugar na distribuição das atividades e funções determinadas ou induzidas pelo novo paradigma tecnológico, econômico e cultural cujos efeitos se conhecem por globalização?

Claro, o Centro dispõe de um enorme potencial nesse sentido. Nós próprios, na instituição em que trabalho, tomamos a decisão de instalar na região um centro de alta tecnologia. Será o centro mundial do nosso Global Bank, ou seja, o centro de tecnologia e operações do banco para toda a área internacional, incluindo-se uma "fábrica" de software. Isso já vem sendo implantado no Edifício New BKB, no Largo de São Bento. O Centro apresenta todas as condições para receber empreendimentos como esse. O que é preciso é que as empresas façam investimentos pesados como fizemos. E, naturalmente, o poder público precisa melhorar as condições ambientais da área. O Centro tem personalidade, tem transporte, é um lugar muito bonito. Ele exige que se faça nele algo de grande poder indutor, como a transferência para lá do governo do Estado, para deflagrar umo círculo virtuoso de animação e qualidade urbana e de vida.



Como o sr. explica a decisão do BankBoston de mudar sua sede principal do Centro para a região da Marginal Pinheiros? A opção refletiria uma inadequação do Centro para reter ou receber modernas instalações corporativas?

O banco não está mudando a sua sede. Ele está fazendo uma descentralização de recursos, que é o que se faz hoje no mundo inteiro. Se você olha para Manhattan, verá um processo semelhante. Em Downtown, que é o centro clássico, encontram-se o stock market e as atividades de alta tecnologia a ele ligadas, com seus próprios investimentos, ao passo que os bancos comerciais estão em Midtown, na parte mais central da ilha. A tendência é a mesma em São Paulo. As áreas de negócios e atendimento ao cliente do banco vão para a Marginal Pinheiros, porque estarão perto dos seus clientes. Não faz sentido tais clientes se deslocarem para o Centro e depois voltarem à região da Marginal Pinheiros. Já o centro de tecnologia do nosso Global Bank se instalará no Centro. Na minha opinião, o centro tecnológico é mais importante para o Centro do que as áreas de negócio e atendimento.



Qual a vocação do Centro?

Hoje mesmo (17 de outubro) participei de uma reunião na New York Citizen Partnership, que é algo similar à VIVA O CENTRO. Discutimos os efeitos na cidade dos atentados de 11 de setembro. Abordamos as vocações dos diversos setores da cidade, na perspectiva de que é preciso aproveitar essas vocações. A vocação do Centro de São Paulo é a de um pólo de tecnologia, sim, mas também de centro de cultura, de centro político e governamental, de espaço de vida coletiva.



São Paulo é uma metrópole global da chamada semiperiferia do capitalismo, mas também uma megacidade extremamente problemática. Que gênero de políticas públicas recomendaria para que a São Paulo pobre, ou local, possa se reconciliar com a São Paulo dos fluxos mundiais de informação, poder e riqueza?

Em primeiro lugar, a criação de empregos na esfera da alta tecnologia. Desenvolver o grande e novo projeto para São Paulo que tem início na transformação do Centro num pólo de tecnologia e cultura, e também de governo, com a transferência para lá do gabinete do governador e das secretarias de Estado. O que se tem que fazer é criar na área central uma infinidade de empregos, o que vai induzir a integração da cidade dos fluxos com a cidade pobre, e a partir daí deflagrar um amplo e profundo processo de desenvolvimento em toda a cidade. Essa conciliação só se dará com a elevação da qualidade de vida das pessoas para que elas possam se integrar ao mercado mundial de trabalho. Na medida em que elas permaneçam marginalizadas, essa dicotomia entre global e local persistirá em São Paulo.



Voltando a Nova York: o sr. acredita que as duas torres do World Trade Center devam ser reconstruídas? Ou o lugar deve ser ocupado por um parque, um memorial?

Não creio que as torres sejam reconstruídas. Há um grande debate sobre isso. De um lado um memorial, algo de acentuado caráter público, que não seja alvo de atentados. De outro, há o lado combativo da cidade, aquela que não se rende nunca, que sempre faz de novo...



E mais alto ainda.

Mais alto e mais duas torres, um desafio. Os debates vão continuar, mas acho que acabará prevalecendo um equipamento mais comunitário, na linha de um memorial.



Vivemos um período algo ciclotímico, de ansiedade e depressão. Parece que o atentado contra os Estados Unidos deu um último empurrão numa crise que já se prefigurava. Como países emergentes, e o Brasil em particular, poderão se proteger de suas fragilidades e da excessiva dependência dos mercados financeiros num momento desses?

O Brasil precisa cumprir três tarefas fundamentais: em primeiro lugar, equilibrar o orçamento do governo. Não é tão difícil. O governo deve anunciar déficit público zero e tomar medidas sérias para atingir a meta. A taxa de juros deve cair dramaticamente, e também as despesas de juros. Assim se chega ao déficit zero. Em segundo lugar, o Brasil precisa empreender uma reforma em seu mercado de capitais, criando transparência e assegurando fontes de financiamento à economia. Em resumo, precisa formar um autêntico mercado de capitais. Por fim, o país precisa reformar o seu sistema de previdência, o que significa reforçar a previdência privada para gerar poupança interna, para livrar-se da exagerada dependência da poupança internacional.



Precisa dar início a um ciclo de desenvolvimento econômico auto-sustentável.

Auto-sustentável e muito vigoroso.



A economia globalizada é seletiva em seus mercados, exclui uns dois terços da população mundial por irrelevância. Pensa-se nela como intrinsecamente excludente. Mas a longo prazo essa economia não vai necessitar desse mercado potencial que hoje despreza? A inclusão de todos na produção e na distribuição de riqueza não seria, mais do que uma utopia de justiça social, um imperativo de racionalidade econômica?

A economia contemporânea de base informacional não é essencialmente excludente, como era a economia na Idade Média, primordialmente extrativa. Nela, tanto melhor quanto mais se conseguisse concentrar o resultado da extração da matéria-prima. Hoje a economia é basicamente de informação e tecnologia, o que quer dizer que quanto maior o mercado, quanto mais ampla a participação de todos na economia, mais exponencialmente cresce o resultado. Ou seja, a dinâmica da economia mudou completamente. Por isso países milenarmente estagnados, como a China e alguns outros da Ásia, começam a ingressar na economia mundial. Ao contrário do que acontecia há meio século, os Estados Unidos não celebram o enfraquecimento do Japão. É ruim para os americanos que o Japão esteja numa crise recorrente. Hoje existem parcerias, não mais a competição de estilo tradicional. E a soma, na economia contemporânea, tem um resultado sinérgico: dois mais dois são seis. Quanto mais gente entrar no mercado, mais o mercado e o produto crescem. Algo que, infelizmente, o Brasil não entendeu ainda.



Qual seria a opção correta para o Brasil, o Mercosul ou a Alca? Ou ambas?

Fortalecer o Mercosul é sempre importante, mas a crise argentina mostra as suas limitações. Demonstra claramente que nós temos que participar de uma área de livre comércio das Américas. Os eventos de 11 de setembro favorecem esse processo na medida em que os Estados Unidos começam a perceber, hoje, que não podem se isolar, têm que se integrar mais. E isso favorece o Mercosul, favorece o Brasil e favorece a Alca.



O Brasil e particularmente São Paulo poderão, um dia, contar com a sua experiência de executivo internacional em benefício de seus projetos de desenvolvimento e progresso social, seja na administração pública, seja, por exemplo, na articulação de parcerias entre poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil? Quais os seus projetos para o dia em que retornar ao Brasil — mesmo porque os executivos também se retiram de suas atividades e voltam ao país de origem?

Vou me aposentar e entrar na vida pública. É uma decisão. E há duas formas de entrar na vida pública: ingressar na política, e nesse caso o caminho natural seria uma vaga no Senado por Goiás, meu estado natal, e o chamado terceiro setor, um trabalho de interesse público como o que vimos fazendo em São Paulo, inclusive através da VIVA O CENTRO. As duas formas não são necessariamente excludentes. De qualquer modo, não vou esperar a idade limite para me aposentar. E não vou me aposentar para jogar golfe.


  Em Tempo  
Boas perspectivas para o Bixiga


O bairro central do Bixiga , oficialmente conhecido como Bela Vista, chega aos 131 anos com grandes perspectivas. Em setembro, foi lançado o Projeto Bela Vista Viva, iniciativa de um pool empresarial formado pelo Grupo Silvio Santos, que mantém a sede de suas empresas e o Teatro Imprensa na Rua Jaceguai e planeja inaugurar em 2003 um grande centro de entretenimento e lazer no bairro, o Grupo Hudson Petróleo, dono do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e o grupo multinacional CIE Brasil, proprietário do Teatro Abril, em conjunto com a Prefeitura e Governo do Estado e apoio da VIVA O CENTRO e comunidade. A primeira fase do projeto, já em andamento, compreende limpeza e pintura de fachadas, paisagismo, iluminação, limpeza geral e recuperação de bens públicos nas ruas Major Diogo, Jaceguai e Humaitá e trecho inicial da Avenida Brigadeiro Luís Antonio. A médio prazo, outras empresas devem se unir ao pool em busca dos recursos para implantar o projeto da Emurb para o bairro, que, entre outras ações, prevê a reestruturação dos baixos do Viaduto Júlio de Mesquita Neto. A longo prazo, o plano prevê soluções mais profundas de requalificação, a ser discutidas com a Prefeitura, o Governo do Estado, a comunidade e o empresariado local.

Rodin volta à Pinacoteca


Depois de vista por cerca de 200 mil pessoas em sua passagem pela Pinacoteca do Estado, em 1995, a arte escultórica de Auguste Rodin retorna ao espaço com o espetacular gesso em alto-relevo de "A Porta do Inferno", obra inspirada na Divina Comédia, de Dante, e em poemas esparsos de Baudelaire. Outras 43 esculturas em bronze, mármore, gesso e barro cozido acompanham a Porta, além de 25 desenhos e dez fotografias. A Pinacoteca fica no Parque da Luz, 2, acesso pela Estação Tiradentes do metrô, tel. 229-9844. Até 9 de dezembro.

Um novo Sesc no Centro


Uma grande expectativa cerca a futura conversão do antigo prédio da Mesbla, na confluência das ruas 24 de Maio e D. José de Barros, em uma das unidades mais completas do Sesc na cidade de São Paulo. Afinal, desde meados de julho, quando adquiriu o prédio em leilão realizado pelo BCN Leasing, a entidade acena com a construção de um complexo cultural e desportivo com capacidade para receber um público diário superior a 5 mil pessoas. O Sesc contratou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha para desenvolver o projeto, que deve contemplar um teatro/auditório, oficinas culturais, salas de ginástica e piscina aquecida. Entre compra e reforma, a entidade deverá investir cerca de R$ 15 milhões.

 
Música em estréia nacional no Belenzinho


Bem próximo do Centro e com acesso facilitado pelo metrô, desenrola-se há algum tempo um programa de difusão da música erudita brasileira inédito no país. Trata-se da série Concertos Sesc & Sinfonia Cultura, todos os domingos, às 11h, no Teatro do Sesc Belenzinho (Av. Álvaro Ramos, 991), com a Orquestra Sinfônica da Rádio e TV Cultura, sob a regência do titular Lutero Rodrigues ou de maestros convidados. Sem essa ousada série, cujo ponto alto são as estréias nacionais, muitos de nossos autores contemporâneos dificilmente ouviriam suas obras executadas. Importante: a Rádio Cultura FM tem gravado e retransmitido todos esses concertos, o que significa dizer também que o registro documental está garantido.

 
O humor do kitsch no Masp-Centro


O Masp-Centro tem em cartaz a bem humorada mostra Viva o Kitsch!, essa arte popular com apelo sentimental e sem grandes pretensões artísticas, mas com força para provocar as mais disparatadas reações. São 1.550 peças com os mais variados temas, cores e tamanhos, mais "altares" dedicados a Marilyn Monroe e Elvis Presley, expostos a partir de um projeto do próprio Masp com o crítico de arte Olney Krüse, o maior especialista em kitsch do Brasil. O Masp-Centro fica na Galeria Prestes Maia, acesso pela Estação Anhangabaú ou São Bento do metrô, tel. 283-2585. Até 20 de dezembro.

O Gato Que Ri faz 50 anos


Um dos restaurantes mais tradicionais do Centro, O Gato Que Ri, no Largo do Arouche, completa 50 anos em outubro, depois de uma reforma que o modernizou sem descaracterizar seu estilo rústico. Famoso por suas massas veramente italianas, a casa surgiu em 1951 pelas mãos da imigrante italiana Amélia Mazotti Montanari, que transmitiu sua arte ao masseiro José Cândido Paz Filho, responsável pela parte cantineira. A partir de 1992, sob nova direção, o restaurante recuperou o padrão de qualidade de seus melhores dias, chegando ao meio século com força total à mesa.


  Cultura  
Memória da energia

Acervo com a história da eletricidade em São Paulo transfere-se para o Centro em 2002

Ana Francisca Ponzio


No início do século, a companhia canadense Light, que iniciou a geração e a distribuição de energia elétrica em São Paulo, publicou um anúncio intitulado "... e a vista, madame?". Tendo um rosto feminino como ilustração, o texto publicitário lembrava as mulheres que, além de proteger a "dentadura magnífica", tratar a "cútis adorável" e primar pela "elegância do penteado", elas também deveriam cuidar melhor da vista. "Que nota desprimorosa ter que forçar os olhos, semi-cerra-los, franzir as sobrancelhas, enrugar a face, para fitar um objecto qualquer! Evite esta attitude anti-esthetica. Proteja sua visão. Cuide de seus olhos, dando-lhes luz abundante", dizia essa propaganda que hoje faz parte de um acervo primoroso sobre a memória paulistana, mantido pela Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo (FPHESP).

Uma das curiosidades do acervo, as peças publicitárias que festejaram o advento da luz elétrica em São Paulo apontavam, por exemplo, o expressivo avanço do consumo. Marcando o fim da era das velas, candeeiros e lampiões a gás, a Light já contava, em 1901, com 1.045 consumidores, que em 1958 saltaram para 854.926. Informações desse tipo, disponíveis na FPHESP, fazem dessa instituição fundada em 1998 um parâmetro para a pesquisa na cidade. Com uma biblioteca que reúne 15 mil títulos, além de jornais brasileiros e europeus publicados entre 1899 e 1964, o acervo também possui 3.160 objetos museológicos, 254 mil documentos fotográficos e cerca de 200 fitas de videocassete que traçam o percurso não só do fornecimento da energia elétrica, como também do desenvolvimento da metrópole paulistana.

Por enquanto, a FPHESP está situada nas oficinas da Eletropaulo do Cambuci, que já abrigou a maior fábrica da Light em São Paulo. "A empresa era auto-suficiente e aqui fazia-se desde a manutenção de transformadores, única atividade mantida até hoje, até postes de concreto, peças de mobiliário, carrocerias e tapeçarias de bondes", diz a arquiteta Vera Maria de Barros Ferraz, presidente-executiva da FPHESP. Desde a criação da instituição, Vera vem coordenando, junto com o superintendente técnico Renato Diniz, a implantação do acervo, que ganhará nova sede no Centro de São Paulo em 2002. Com inauguração prevista para o final do próximo ano, as futuras instalações prometem somar mais um atrativo cultural à região central da cidade.

Alameda Cleveland, 601. Neste futuro endereço da FPHESP, morou o irmão de Santo Dumont —– Henrique — entre o ano de 1894 até meados da década de 20 do século passado. Situada num terreno de 3.018 metros quadrados, demarcado durante o auge do loteamento do bairro de Campos Elíseos, a antiga moradia foi vendida para o Colégio Stafford em 1926. Nos últimos anos, após ter sido inclusive ocupada por sem-tetos, passou para a esfera da Secretaria Estadual da Cultura. "Recebemos a casa, que provavelmente foi projetada por Ramos de Azevedo, em 6 de junho deste ano. A partir de então, passamos a fazer um levantamento do local, além de reconstruir sua história", explica Vera, que está desenvolvendo a recuperação da construção, em conjunto com uma equipe de arquitetos formada por Danilo Calvilla, Mariana Rolim e Roberta Martins Souza.

A antiga morada de Henrique Santos Dumont possui área total construída de 2.112 metros quadrados. Recuperada, permitirá que a FPHESP atue com maior sofisticação. "Nosso pilar de sustentação será a área de apoio à pesquisa, que ficará aberta para consulta inclusive aos sábados e domingos. Outra possibilidade da futura sede, que a atual não permite, por se alojar numa área operacional, é a recepção de crianças, que terão na Fundação um instrumental didático", afirma Vera. Criada a partir dos núcleos de memória das empresas energéticas vinculadas à administração estadual – ou seja, Cesp, Comgás, CPFL e Eletropaulo – a FPHESP começou a ser concebida durante o programa de desestatização, com o objetivo de conservar o patrimônio histórico dessas instituições.

"A missão da Fundação é preservar e divulgar um acervo que, além de contar a história da energia elétrica, também procura ensinar como usá-la racionalmente", acrescenta Vera, que já atende mais intensamente o público estudantil nos seis núcleos museológicos da FPHESP, localizados no interior paulista. Constituindo o patrimônio arquitetônico da Fundação, tais unidades funcionam em dois imóveis urbanos (o Sobrado de Itu, construído em 1847, e o prédio da antiga subestação de Jundiaí, dos anos 10) e em quatro pequenas usinas hidrelétricas (a de Corumbataí, edificada em 1895 no município de Rio Claro e tombada pelo CONDEPHAAT; a de São Valentim, de 1911, em Santa Rita do Passa Quatro; a da cidade de Salesópolis, de 1913, além da Usina do Jacaré, de 1944, em Brotas).

No Museu da Energia de Itu, por exemplo, ocorrem exposições educativas, que mostram como a energia elétrica influenciou o cotidiano da cidade que, no início do século passado, abrigou a Cia. Ituana de Força e Luz. Por meio de uma rede informatizada, o museu de Itu, assim como os demais similares do interior, pode usufruir do acervo da FPHESP de São Paulo o qual, por sua vez, também coloca à disposição do público informações sobre esses polos pioneiros da distribuição de energia. Cercados de significado histórico, esses prolongamentos da Fundação também compõem uma trajetória peculiar. Em sua origem, estão os senhores e escravos, cujos ritos sociais – como os saraus de cantigas portuguesas e os batuques africanos – transcorriam à luz de velas. Testemunha dessa época, o antigo sobrado que hoje abriga o museu de Itu também relembra, por meio de seu acervo e de sua programação de eventos, como os eletrodomésticos mudaram os hábitos, nas décadas posteriores.

"Nossas exposições revelam o passado mas também mostram a modernização extensiva ao século 21", diz Vera, que mantém na sede do Cambuci uma exposição permanente de objetos, mobiliário e mesmo obras de arte. Pinturas de Benedito Calixto, Gregório Gruber, Arcangelo Ianelli, Evandro Carlos Jardim, Tomie Ohtake e Claudio Tozzi fazem parte do acervo da fundação, em cujo interior é possível se deleitar com preciosidades que ganharão maior visibilidade na futura sede. Estimulando a imaginação, a coleção permite vislumbrar os encantos da antiga província de São Paulo por meio, por exemplo, de um telefone de parede, movido a manivela, dos anos 10. Ou ainda pelos lampiões a gás de vários modelos, fabricados entre 1872 e 1937, quando foi apagado o último desses aparelhos na cidade. Também incluindo relógios do início do século 20 e postes ornamentais que garantiam a iluminação do centro paulistano, o museu da FPHESP proporciona uma viagem no tempo. "Quando a energia elétrica começou a ser usada, a região central da cidade era um local nobre, onde tudo acontecia", lembra Vera.

Do centro paulistano, o acervo da FPHESP guarda duas peças marcantes: os postes de madeira esculpida, que serviram de modelos para os pilares externos do Teatro Municipal. Inaugurada em 1911, a principal sala de espetáculos de São Paulo teve toda sua instalação elétrica feita pela Light, que se responsabilizou, inclusive, pela colocação das 46 lâmpadas de arco-chama nas escadarias e na esplanada que em 1928 ganharia o nome de Praça Ramos de Azevedo. Imagens do teatro em seus primórdios foram cuidadosamente captadas pelo fotógrafo Guilherme Gaensly (1843-1928), fotógrafo nascido na Suíça, que emigrou para o Brasil com sua família em 1848. De Gaensly, que tornou-se uma espécie de fotógrafo oficial da cidade, a Fundação possui 726 registros, inclusive os antigos negativos em vidro, cujas imagens permanecem conservadas com grande nitidez.

Neste ano, a vida e a obra fotográfica de Gaensly foram recuperadas no livro Imagens de São Paulo: Gaensly no Acervo da Light (1899-1925), editado pela FPHSP. Primeira publicação especial da Fundação, o volume proporciona, segunda Vera Ferraz, uma viagem pela história da técnica fotográfica e da urbanização paulista. Considerado um dos mais importantes profissionais do período em que a fotografia se estabelecia como linguagem, Gaensly produziu imagens com grande rigor técnico e formal. Em sua coleção, disponível na FPHSP, é possível reconhecer o passado de São Paulo em fotos que vão da Hospedaria dos Imigrantes à Garagem de Bondes da Villa Marianna. Desses registros, que incluem os cartões postais que Gaensly também cultivou como especialidade, a capital paulista emerge plena de charme, ostentando uma placidez inacreditável nos dias de hoje.

Além do livro, as fotos de Gaensly ilustram outras publicações da FPHESP, como História & Energia. Compondo uma bibliografia específica, esses livretos contam com textos minuciosos, capazes de contribuir com a pesquisa de estudantes e historiadores. "Recebemos um público diversificado, que também inclui decoradores, publicitários, profissionais de televisão, além de alunos que vão da escola básica à universidade", diz Vera, que espera aperfeiçoar o acesso à consulta na sede a ser inaugurada em 2002.

No número 462 da Rua Lavapés, onde a FPHESP funciona provisoriamente, as consultas ao acervo podem ser agendadas pelo telefone 279-6237 ou pelo e-mail editoria@fphesp.org.br. Na Internet, a Fundação também está acessível no site www.fphesp.org.br.


  Cultura  
A caminho do centenário

Aos 90 anos, o Teatro Municipal de São Paulo é o principal espaço cênico da cidade e uma importante peça para a mecânica de recuperação do Centro


O nosso Metropolitan. A nossa Ópera Garnier. O nosso Scala. Isto é, o nosso Teatro Municipal, o mais importante espaço cênico de São Paulo. Mas não só. Desde que foi inaugurado, em 12 de setembro de 1911 – e não no dia 11, como apregoam os impressos, pois os cenários da companhia do barítono italiano Titta Ruffo, que vinham da Argentina, atrasaram -, o teatro é uma caixa de ressonância da vida nacional, a ponto de, templo da chamada cultura clássica, apontar os caminhos da modernidade. As três noites que constituíram a Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, com suas investidas contra o "Já Visto, a Velharia, a Caduquice, o Mercantilismo", como vociferou uma revista de então, marcaram época e ainda ecoam na cultura brasileira. "Por aqui", diz a diretora da instituição, Lúcia Camargo, "passou todo o desenvolvimento cultural de São Paulo e, por extensão, do Brasil. É um símbolo. É a jóia da coroa."

A partir da estréia da ópera inaugural, "Hamlet", do francês Ambroise Thomas, que o cartaz italianizado chamava "Amleto", encenada para 1.816 poltronas ocupadas, o Teatro Municipal integrou a cidade quase provinciana, menos de 400 mil habitantes, ao circuito internacional. Em 90 anos, a sala de espetáculos em forma de ferradura recebeu o melhor da cultura do século 20. A lista é longa e, mesmo incompleta, reluz: Tito Schipa, Isadora Duncan, Enrico Caruso, Nijinski, Ana Pavlova, Arthur Rubinstein, Beniamino Gigli, Arturo Toscanini, Louis Jouvet, Alicia Alonso, Vittorio Gassmann, Maria Callas, Renata Tebaldi, Marcel Marceau, Margot Fonteyn, Jean-Louis Barrault, Vivien Leigh, Ralph Richardson, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Miles Davis... Sem contar a prata da casa, de Villa-Lobos a Magdalena Tagliaferro, de Leopoldo Fróes a Souza Lima, de Bidu Sayão a Guiomar Novaes, de Procópio Ferreira a Camargo Guarnieri, de Vinícius de Morais a João Gilberto...

Em 90 anos, o teatro viu de tudo. No dia da inauguração, viu um raro desfile de elegância — Madame Jorge Tibiriçá, registrou um cronista, vestia uma "toilette de calipso de seda marinho, coberta com rica túnica de filó" — e motivou o primeiro congestionamento de trânsito da cidade. São Paulo, que só vira um automóvel em 1904, já tinha centenas de veículos circulando e mais de 20 mil pessoas se acotovelaram às portas do teatro. Viu mais. A ascensão e a queda da lavoura cafeeira, revoluções e crises políticas, os processos de industrialização e migração interna, a cidade que enriquecia e ao mesmo tempo se proletarizava. Sobretudo viu São Paulo se transformar num fenômeno urbanístico e duplicar, a cada década, a população, colocando-se entre as maiores metrópoles do mundo. O teatro, como a cidade, não podia parar. Se num primeiro momento viu São Paulo se ligar ao mundo, contribuiu depois, com os corpos estáveis, para formar artistas brasileiros. Mais orgulho para a diretora.

"É uma maravilha completar 90 anos com os corpos estáveis — Orquestra Sinfônica Municipal, Orquestra Experimental de Repertório, Coral Lírico, Coral Paulistano, Balé da Cidade de São Paulo e Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo —, mais as duas escolas — Escola Municipal de Bailado e Escola Municipal de Música —, trabalhando!", afirma.

É do povo

O Teatro Municipal chega aos 90 anos com as crises da idade, menos graves do que outras crises, como aquelas provocadas pelo descaso e pela má condução das coisas artístico-culturais, marcas de administrações municipais recentes. Por duas vezes, em 1951 e de 1986 a 1991, passou por profundas reformas. Estrutura teatral de seu tempo, que os mestres e operários italianos, sob a batuta dos arquitetos conterrâneos Cláudio e Domiziano Rossi, a pedido do escritório de Ramos de Azevedo, ergueram num terreno desapropriado do morro do Chá, no vale do Anhangabaú, o velho teatro precisa de um permanente trabalho de modernização para que esteja, como está, apto a receber todo tipo de espetáculo, principalmente óperas, desde o momento de sua inauguração e até hoje sua razão de ser. É assim que pensa Lúcia Camargo, sonhando com a reativação do restaurante que, nos anos 20, era uma das coqueluches da cidade. "Seria uma boa opção no Centro", diz.

Da mesma forma, quer instituir o cargo de diretor musical, uma temporada de ópera com oito espetáculos para 2002 e insistir na linha "ideológica" da casa, ou seja, colocar a instituição a serviço do processo de inclusão social e cultural da população. O teatro é do povo! Nos 90 anos, presentes como os espetáculos preparados pelos corpos estáveis; a montagem de "Il Trovatore", de Giuseppe Verdi, no final de outubro; e a mostra "Ópera" (autógrafos, cartões-postais, fotografias, maquetes), até dezembro no Salão dos Arcos. Porém o principal presente foi a "independência" do teatro — hoje o Municipal é um departamento da Prefeitura. Imagine São Paulo sem o Teatro Municipal. Estranho, não é? Faltaria muito. Ou tudo. É a medida da importância de nosso Metropolitan. (Federico Mengozzi)


  Cultura  
O festival do Centro

Mosteiro de São Bento abre-se para um dos importantes eventos musicais da cidade


Na singularidade está a força do Festival Internacional São Bento de Órgão. Primeiro porque festivais de órgão não são tão comuns quanto os de piano ou de ópera. Em segundo lugar, porque esse festival, que começou modestamente em 1994, chega à oitava edição prestes a consolidar um lugar no restrito circuito dos dez maiores festivais mundiais do gênero, aos quais fazem questão de comparecer os organistas mais renomados do planeta. Por fim, o locus desse evento, o tradicionalíssimo Mosteiro de São Bento, no largo de mesmo nome, acha-se no mais populoso e dinâmico centro metropolitano da América do Sul, o Centro da cidade de São Paulo, que de uns anos para cá começa a dar sinais de recuperação, depois de ter caído em profunda decadência.

De 23 de outubro a 11 de dezembro, em plena Primavera, o mosteiro se abre para a oitava edição do festival, patrocinada pela Fundação BankBoston, com apoio da Associação VIVA O CENTRO, Associação Paulista de Organistas e Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, como as anteriores. Dá o tom da temporada 2001 a música organística norte-americana — de Charles Ives (1874-1954) a Anthony Newman (nasc. 1941), não sem que o cardápio inclua obras consagradas do repertório internacional, como as de Bach, Vivaldi, Haendel e Mozart e, ainda, peças de compositores brasileiros (Furio Franceschini, João Faustini e Amaral Vieira) e do romântico europeu Josef Gabriel Rheinberger (1839-1901), de quem se registra o centenário de morte este ano. (Ver programação completa na pág. 53)

A expectativa do pianista e compositor Amaral Vieira, coordenador artístico do festival, é de que o público dobre este ano em relação ao da sétima edição. "Teremos a presença de organistas de primeira, com discografia de tirar o chapéu", garante.

Entre os intérpretes, há os consagrados, na faixa de 60 a 70 anos, como John Weaver, que foi catedrático do Departamento de Órgão da famosa Julliard School of Arts, de Nova York, e Frederick Swamn, requisitado para recitais em Milão, Berlim e Wiesbaden. Vêm, ainda, Paul Jacobs, de 24 anos, que no ano passado tocou a obra completa de Bach em um concerto que durou 18 horas, em Nova York, e Herndon Spillman, primeiro a gravar a obra completa para órgão do francês Maurice Duruflé, o que lhe rendeu o Grand Prix du Disque, na França. A abertura do festival, no dia 23 de outubro, esteve a cargo do brasileiro Ary Aguiar Jr., que entre outros feitos já realizou a integral das obras de Mendelssohn e das sonatas de Gilmant para órgão. Em uma das próximas apresentações a VIVA O CENTRO será homenageada pelo seu 100 aniversário. (Ana Maria Ciccacio)

Facilidades de sobra

O ingresso para o Festival Internacional São Bento de Órgão é gratuito. Pode-se chegar ao Mosteiro de São Bento de metrô, pelas estações São Bento e Anhangabaú, ou de carro, havendo estacionamento no local com serviço de valet park. Pelo menos dois bons cafés, com cardápio de lanches, servem a região: o Café Girondino, na Rua Boa Vista, 365; e o Café Bar Efigênia, Boulevard São Bento, Largo São Bento.


  Livros  
O centro na metrópole do século XXI


Aproveitando as comemorações de seu 10Ί aniversário, a Associação VIVA O CENTRO entregou à comunidade, em meados de outubro, mais uma contribuição resultante de sua vocação geradora e difusora de conhecimento sobre questões metropolitanas — o livro Os Centros das Metrópoles – Reflexões e Propostas para a Cidade Democrática do Século XXI (co-edição com a Imprensa Oficial do Estado e a Editora Terceiro Nome, 199 págs., R$ 30). A obra, coordenada pela arquiteta Regina Prosperi Meyer, da FAUUSP e consultora da VIVA O CENTRO, reúne trabalhos produzidos por especialistas em questões urbanas para o Seminário Internacional Centro XXI, realizado em 1995 pela VIVA O CENTRO com apoio da FAUUSP e da Agência Habitat da ONU e que se constituiu em um dos encontros preparatórios ao Habitat II, último grande encontro global realizado pela ONU no século XX. Os textos foram revistos e, em alguns casos, atualizados pelos autores e tratam da importância dos centros metropolitanos como instrumentos de estruturação social e urbana e de inserção das cidades nas redes mundiais de informação, riqueza e poder. Abre o volume a conferência de inauguração do evento, proferida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Entre os especialistas brasileiros, além de Regina Meyer, escrevem a antropóloga Ruth Cardoso, os arquitetos Joaquim Guedes, Ermínia Maricato, Nestor Goulart Reis Filho e Jorge Wilheim e a administradora Maria Emília Rocha Mello de Azevedo Entre os do Exterior, há textos assinados pelo arquiteto Bernard Huet e o sociólogo François Ascher, da França, pelo urbanista Jordí Borja e o arquiteto Manuel de Solá-Morales, da Espanha, pelo arquiteto Nuno Portas, de Portugal, e pelo arquiteto e planejador David Gosling, dos EUA. À venda na VIVA O CENTRO, à Rua Líbero Badaró, 471, 22Ί andar, e nas livrarias.

Bixiga revelado


Não só de teimosas (como conseguem resistir ao abandono do bairro?) cantinas, da Vai-Vai ou das festas de rua vive o Bixiga, comunidade a dois passos da Praça da Bandeira, mas também de mistérios (por que o nome?), lendas, de seus grandes músicos (Canhoto, de Abismos de Rosas, nasceu lá, Agostinho dos Santos também, Adoniran é filho adotivo). Não há bairro de história tão controvertida e, de resto, tão mal contada. O ex-professor de línguas neolatinas, ex-gerente de restaurantes, pesquisador da história da gastronomia paulistana, cronista e colaborador de urbs João Sacchetto, aliás Podanovsky, matronímico com que assina suas páginas, resolveu escrever nada menos que um livro definitivo, ou quase, sobre o bairro. Bixiga: Pingos nos Is (Sodepro, 207 páginas, R$ 15) é resultado de pesquisas em todos os arquivos disponíveis, públicos e privados, de entrevistas e investigações que consumiram três anos de esforço. O leitor que aprecia esta revista não pode deixar de ler. É leitura empolgante. O texto é caprichado. No final, um estudo da cozinha "cantineira" e um roteiro de restaurantes do bairro como não se fez até agora. À venda em alguns restaurantes do bairro e no Museu do Bixiga, mas o leitor pode solicitá-lo a Podanovsky pelo tel. 6283-4222.

Litoral em postais


O resultado é, mais uma vez, esplêndido. Após o sucesso do livro Lembranças de São Paulo, com imagens paulistanas de cartões postais, os pesquisadores João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo lançam Lembranças de São Paulo – O Litoral Paulista nos Cartões Postais e Álbuns de Lembranças, com mais de 500 imagens. Editado pela Solaris com patrocínio da Petrobrás, a obra custa R$ 118 nas livrarias e é um tesouro de iconografia de uma região pouco conhecida (principalmente as cidades fora da Baixada Santista) nas primeiras décadas do século. Para ver, encantar-se e guardar

Moradia irregular


Favelas e Cortiços: Análise de uma Experiência Didática (FAUUSP, 69 páginas, R$ 15), dos professores da FAUUSP Antonio Claudio Moreira Lima e Moreira, Maria Cristina da Silva Leme e Suzana Paternak Tashner, analisa a realidade de uma cidade fragmentada, onde metade da população mora de forma irregular. O estudo mostra como em São Paulo as pessoas se vêem pressionadas a improvisar soluções para cobrir a inexistência, no âmbito do poder público, de uma política de moradia para populações de baixa renda.

Marco cultural


Durante anos, uma reivindicação permanente da Sinfônica do Estado foi a criação de uma sede própria. Em 1999, essa reivindicação não somente foi atendida pelo Governo do Estado com a criação da Sala São Paulo, na antiga Estação Júlio Prestes, como o novo equipamento cultural passou a impulsionar o processo de requalificação do Centro. A história toda, desde a origem da cidade, é resgatada pelo excelente Sala São Paulo – Café, Ferrovia e a Metrópole (Arquivo do Estado: Secretaria de Estado da Cultura, 232 páginas, R$ 69), sob a coordenação de José Roberto Walker.

Exclusão, num retrato sem retoque


Um contundente estudo sobre a maneira desastrosa, durante a gestão Maluf, com que se processaram a extensão da Avenida Faria Lima e a construção da "nova centralidade" no Sudoeste, tendo a Avenida Água Espraiada como espinha dorsal, faz do livro Parceiros da Exclusão (Editorial Boitempo, 207 páginas, R$ 33), da arquiteta Mariana Fix, um sério alerta para que casos como esses não se repitam nem na cidade de São Paulo nem em qualquer outra. No primeiro caso, o da Faria Lima, ainda existiu algum projeto, contido na Lei de Operação Urbana Faria Lima, aprovada pela Câmara, sobre o qual a classe média da região pôde exercer seu poder de pressão e forçar algumas mudanças no interesse da comunidade. Em Água Espraiada, nem isso. Nunca houve uma Lei de Operação Urbana Água Espraiada. O projeto de lei enviado pela prefeita Luiza Erundina à Câmara Municipal, no começo dos anos 90, foi retirado na gestão seguinte, de Maluf. Novos estudos foram empreendidos pelo Departamento de Operações Urbanas da Emurb, que resultaram em modificações no projeto do sistema viário e de drenagem, mas mantiveram a relocação das famílias faveladas para pequenos conjuntos habitacionais dentro do perímetro da própria intervenção, algo previsto e recomendado pelo instrumento legal. Esse segundo projeto, no entanto, nunca foi reenviado à Câmara, o que não impediu a Prefeitura de seguir em frente. Maluf mandou canalizar o córrego e construiu a Avenida Água Espraiada, conforme projeto da empresa Temag, seguindo especificações técnicas da Secretaria de Vias Públicas e da Diretoria de Obras da Emurb. A idéia inicial de "parque linear" ao longo do córrego cedeu lugar a uma grande avenida, enquanto uma população de cerca de 50 mil pessoas, instalada em favelas com mais de 20 anos de existência, foi simplesmente empurrada para 30 quilômetros de distância ou mais, cedendo lugar aos monumentais edifícios que hoje emolduram a Marginal Pinheiros. Somente 5% dessas pessoas conseguiram casas da Prefeitura. No último ano da gestão Pitta, esta contratou dois consultores, o arquiteto Alberto Botti e a paisagista Miranda Magnoli, para, junto com a equipe da Emurb, desenvolver um terceiro estudo para a Operação Urbana Água Espraiada. Desde a posse de Marta Suplicy, a Emurb procede a um balanço de todas as operações urbanas existentes e, no caso de Água Espraiada, já fala na necessidade de um quarto estudo. Talvez o único problema no livro seja atribuir o cruel processo de exclusão social de Água Espraiada a um instrumento que sequer existiu e não à gestão da cidade à época. Tivesse agido eticamente, o prefeito não teria permitido a expulsão da população de baixa renda para a periferia da cidade, mas enviado à Câmara um projeto de lei de operação urbana em que os empresários teriam que, como contrapartida, erguer conjuntos habitacionais populares na região. Prejuízo duplo: para as pessoas, que perderam seus empregos, indo morar nos extremos da cidade, e para os cofres públicos, que arcaram com os custos de uma mera, mas caríssima, avenida.

A.M.C. e J.B.


  Registro  
O evento dos dez anos da VIVA O CENTRO


Uma década de trabalho e de conquistas. Cerca de 800 convidados, entre autoridades, empresários, associados da VIVA O CENTRO, integrantes de Ações Locais e jornalistas compareceram ao Teatro Municipal em 15 de outubro para celebrar o 10Ί aniversário da Associação. A festa foi marcada pela exibição de um vídeo mesclando a história da cidade à da VIVA O CENTRO, por uma homenagem a 10 personalidades cujas atuações foram consideradas de grande relevância para o sucesso do trabalho da entidade e pelo lançamento do livro Os Centros das Metrópoles, a mais nova contribuição da VIVA O CENTRO ao estudo das cidades.

Votorantim, Klabin e Prefeitura renovam a Praça Ramos


A recuperação da Praça Ramos de Azevedo está entre os exemplos do que pode produzir a parceria entre a iniciativa privada e a Prefeitura em benefício do Centro. A Companhia Brasileira de Alumínio, do Grupo Vorantim, recuperou o jardins e os mantém impecáveis. Na seqüência, as Indústrias Klabin patrocinaram o restauro do Monumento a Carlos Gomes e da Fonte dos Desejos (foto), com o apoio da AÇÃO LOCAL Ramos de Azevedo. Resultado: a cidade tem de volta uma de suas belas praças completamente renovada. O start do processo foi dado pelo BankBoston, que recuperou e mantém os jardins e fontes do Vale do Anhangabaú.

Superevento fotográfico no Centro


O Centro tornou-se palco de uma grande festa em meados de setembro com a realização, pela Secretaria de Estado da Cultura, da jornada fotográfica Foto São Paulo. Cerca de três mil fotógrafos profissionais e amadores, entre eles funcionários da VIVA O CENTRO e integrantes das AÇÕES LOCAIS, saíram às ruas para captar diferentes aspectos da área central. Planeja-se montar uma exposição com as imagens geradas, que passarão a integrar o acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS).

VIVA O CENTRO em ato de apoio à Bovespa


A Associação VIVA O CENTRO (na foto, o presidente da Diretoria Executiva, Marco Antonio Ramos de Almeida) participou de manifestação de solidariedade à Bovespa contra a cobrança da CPMF nas operações em bolsa, o que acarreta uma crescente migração de negócios com ações do Brasil para a bolsa de Nova York.

Associação participa de seminário no Condephaat


O presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO, Marco Antonio Ramos de Almeida, foi um dos convidados ao seminário "Desafios do Centro de São Paulo", promovido no mês passado pelo Condephaat, órgão da Secretaria de Estado da Cultura, responsável pela preservação do patrimônio histórico. Também participaram o arquiteto Paulo Mendes da Rocha e o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, além do presidente do Condephaat, José Roberto Melhem.


  Mesa  
Com jeito de clube

Semi-ocultos em prédios de escritório, restaurantes em estilo privé têm portas abertas para o público no Centro

João Podanovsky
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


O capitalismo é mau? Nem sempre. Embora, historicamente, a ganância tenha levado a maioria dos donos dos meios de produção à selvagem exploração da capacidade produtiva dos trabalhadores. A tal tipo de regime econômico mais acertado seria chamar-lhe capetalismo. Foi engendrado e é gerido, com luciferina competência, pelo engenhoso príncipe das trevas.

Mas, sim senhor, o capitalismo pode ser bom. Desde que promova uma harmoniosa cooperação entre capitalistas e trabalhadores, satisfatória para uns e outros.

E o que tem isso a ver com gastronomia? Muito. O mau capitalismo é inimigo figadal da arte culinária. Poupando farta bateria de argumentos, atentemos apenas para a materialista filosofia do time is money. Bem interpretado, o provérbio inglês é divisa sentenciosa do capitalismo saudável: o tempo dedicado ao trabalho (só ele) deve ser otimizado racionalmente, em função do robustecimento do capital. Mal entendido, é slogan satanicamente capetalista: todo o tempo deve ser empregado em produzir dinheiro.

Daí o "almoço de negócios", prática abominável imposta aos mais graduados operários do mefistofélico sistema: os engravatados executivos.

Senhoras e senhores, nem todo o tempo é para fazer dinheiro. Não o tempo do sono, não o do lazer, não o do ócio prazeroso, não o do amor, não o sagrado tempo da refeição.

Almoço executivo



Transformar o almoço numa indigesta reunião de negócios? Demoníaca desumanidade! Mentes concentradas em cifras e interesses materiais impossibilitam ao paladar o gozo dos prazeres da mesa, a deliciada e consciente deglutição do cibus, o despreocupado vagar ruminativo.

Simpático, e por certo frutuoso, é convidar os parceiros comerciais para uma agradável pausa nas negociações e, juntos, irem saborear uma gostosa refeição, num ambiente muito especial. Uma ou duas horas consagradas à gula e à descontraída conversação sobre amenidades podem fazer amigos, riqueza muito maior que o vil metálico money.

Ah, mas estamos no Centro, e por aqui existem muitos restaurantes, bons sim, mas populares demais. Ambiente digno de certos convidados não há.

Engano, amigo. Quer quatro indicações de ambientes palacianos, à altura do mais emproado comensal? Lugares finos, digníssimos, senhoriais. Por estarem convenientemente escondidos em pisos superiores, muita gente até pensa serem privativos de sócios. Pois são franqueados ao público. Usufrua-os, leve a eles seus convidados especiais, deslumbre-os.

La Bourse

3233-2451 3233-2437. Rua 15 de Novembro, 275, 9° andar, prédio da Bovespa. Segunda a sexta, almoço (12h-16h) e happy hour (16h-19h). Espaço suntuoso pertencente à Bolsa de Valores, desde sempre aberto ao público em geral.


O restaurante é, desde 1989, de dois craques há muito amados pelos gurmês paulistanos: Santos (José Aparecido), formado no Senac, treinado em hotéis multi-estrelados, e Joãozinho (João Salustiano), cria do Ca’d’Oro e do La Tambouille. Na chefia da cozinha, outro craque: o pernambucano Raimundo Joaquim de Sousa, dos bons tempos do Leonardo’s do dr. Oswaldo Benvenutti.

Atmosfera inglesa, couro e mogno, madeira em profusão, tapetes persas e lustres de cristal, conforto burguês nas poltronas do grande bar ou às espaçadas mesas do enorme salão. Atendimento distinto do próprio Santos e três metres da velha guarda (Waldemar, Loiola, Murilo), acolitados por 12 garçons. Apesar de tanta aristocracia, preços democráticos.

Para os apressados, Cardápio Executivo (R$20): cuver, entrada, prato quente, sobremesa. Para os apaixonados, Prato do Dia, destaque para o arroz-feijão-pastéis das quartas (R$17,50), a roupa-velha das quintas (R$ idem), o bacalhau das sextas (R$25). Para os sábios amantes do slow-food, pausado à la carte com sugestões bem variadas: sopa de cebola, caesar’s salad, camarão à grega, salmão grelhado, codornas, picanha de cordeiro, filé com risoto de açafrão, boas massas e muito mais.

"Satisfação garantida, ou seu dinheiro de volta", brinca Joãozinho. E jura: "Nunca tive de devolver um tostão para nenhum doutor."

Restaurante do Jóquei

3104-1215 239-5433. Rua Boa Vista, 280, 9° andar (esquina da Ladeira Porto Geral). Segunda a sexta (menos feriado).


Em suntuosidade e conforto, empate com o restaurante da Bolsa. Aqui, mais tapetes persas, perdulariamente espalhados sobre o mármore travertino do piso, e mais espaços. Além da sala de estar e dois grandes salões de refeições, várias outras salas para almoços reservados (total privacidade para duas, dez, vinte. até cem pessoas) ou para eventos (até 300 pessoas sentadas). Mesas também no terraço, vista panorâmica do Parque D. Pedro II (tão feiosão, ansiando pelo marciano projeto "Belezura"). Apesar da amplidão, assim-ó de gente, executivos de todos os escalões.

Pertence ao Jockey Club, mas há dois anos está arrendado para a empresa GR S.A. Jockey Club. Competente gerência-sorriso de Márcio Alexandre e Patrícia Guedes.

Bufê vistoso (R$17) com 17 saladas, 3 pratos quentes (um de massa), guarnições, 6 sobremesas. Grandes pedidas são a feijoada das quartas, o bacalhau das sextas (tentador o à baiana), os pastéis-arroz-feijão de todo dia.

Quem preferir pode pedir à la carte, aliás à la grande carte: chef Lu (Luís Carlos), paulistano de raízes alagoanas, cria da GR, tem mão internacional. Despesa? Os mesmíssimos indolores 17 reais. Não é incrível?

The Club

3107-4575 ou 4576. Rua Líbero Badaró, 471, 13° andar (Edifício Bolsa de Mercadorias). Entrada também pelo Anhangabaú, 386). Segunda a sexta (menos feriado), almoço das 12h às 15h. Das janelas, vista do Viaduto do Chá e Vale do Anhangabaú, o mais belo cartão postal da cidade.


O nome ilude: não é de clube nenhum, é apenas em memória de um clube de cafeicultores que antes ocupou o espaço. Desde 1980, criação para aplausos e propriedade do casal Della Torre (Elizabeth e Francisco, filhos de italianos).

Claro e distinto requinte. Piso creme de tábuas largas, nostalgia nas paredes decoradas com belas fotos de São Paulo d’outros tempos, alvas toalhas, piano suave. Atendimento de garçons clássicos presidido pela própria dona, onipresente, incansável.

Dois salões. No da esquerda (com piano), belo bufê quente e frio, salgado e doce. Preços diversificados: só frios, 14 opções, R$12 – só quentes, 4 sugestões, R$12,90 (um tiquinho mais às quartas, feijoada, e às sextas, bacalhau e camarão) – só sobremesas, 16 tentações, R$3,80 – tudo, R$22,80.

Atenciosa, dona Elizabeth gorjeia para o repórter curioso os campeões da preferência: segunda-feira, picadinho carioca e lombo à mineira; terça, pato com repolho roxo e purê de maçã; sexta, bobó de camarão. À entrada, aperitivos (batidinhas gostosas), sirva-se.

Salão à direita, mais tranqüilo, sofisticação de sousplats, ideal para quem preferir serviço à la carte.

Circolo Italiano

257-1322. Av. Ipiranga, 344, 2° andar (esquina São Luís: Edifício Itália). Elevador: botão 1C. Manobristas para estacionamento interno, pago. Diariamente almoço (12h-15h) e jantar (19h-22h), domingo só almoço.


‘Alvas 49 mesas no amplo salão, piso de lajotões de granito, bons quadros na decoração, imensa parede de vidro sobre a Av. Ipiranga. Ambiente fino, serviço classudo.

Culinária premiada com o Diploma di Buona Cucina concedido pela Accademia Italiana Della Cucina, para orgulho dos sócios e do chef cearense Raimundo Paulo de Morais, há mais de 25 anos no Circolo. Mesmo com tanta vaticana pompa, preços quase franciscanos.

Cardápio variadíssimo, basicamente italiano, com deliciosas brasilidades como feijoada (às quartas, R$18), pollo alla "passarinho" (R$15) e "goiabada" com formaggio (R$3,50). Cuver, R$1.90. quaglia com polenta (codornas, R$17,50).

Todo dia 29, gnocchi della fortuna no almoço e jantar, simpática tradição, completamente desconhecida na Itália.


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Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
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Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
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