ANO V   -   No. 22   -   julho / agosto 2001
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Cidade  Valorizar a 9 de Julho
Um projeto para a Avenida
Capa  O amesquinhamento da estética urbana
Do Autor  Miséria do urbanismo
Do Leitor  De quem, afinal, é a selvageria?
Urbanismo  A lei das cidades
Entrevista  Unir forças por São Paulo
Cultura  Histórico e Geográfico em busca de apoio
Mesa  Nem só de pão elas vivem
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  Cartas  
Fura-fila

Muito boa a matéria sobre o Fura-Fila (urbs nΊ 21). Fruto de um debate ocorrido entre especialistas daárea central, ficou a certeza de que o projeto teve o objetivo de angariar votos para o ex-prefeito Celso Pitta. Foi mais uma obra que ludibriou a população.
Antonio Paes, Baratão, vereador
por e-mail

Construir e inaugurar a primeira linha do Fura-Fila terá o seguinte significado na campanha eleitoral do ano que vem: Maluf e Pitta, e também o Duda Mendonça, têm amplamente comprovada a sua visão de estadistas e gestores da metrópole, tanto que a prefeita Marta Supicy rendeu-se à genialidade do projeto do Fura-Fila.
Ricardo A. Rodrigues
por e-mail

Infelizmente a prefeita Marta Suplicy caiu na armadilha Se inaugurar a linha do Fura-Fila, dará ensejo para que o candidato Maluf diga que foi obra sua. Se não conseguir terminá-la, vai ser tachada de incompetente. No entanto, se suspender as obras, mesmo que descumprindo a tal promessa de campanha, denunciará o absurdo que é o Fura-Fila e dará margem apenas para mais um ataque de Maluf, que aliás viria de qualquer jeito, com ou sem a construção do Fura-Fila pela prefeita.
Carlos Alberto Pacheco
Goiânia-GO

Em vez de gastar recursos públicos preciosos com um meio de transporte fantasioso e marqueteiro, sem qualquer impacto positivo na cidade, mas um agente de degradação, por que a prefeita não investe em corredores de ônibus e principalmente no metrô, com o Governo do Estado? Não seria muito mais lógico e proveitoso? Não dê cumprimento à promessa fraudulenta dos ex-prefeitos, Marta!
José L. Gomes
São Paulo-SP

Meu caro Marco Antonio: recebi e li com muita atenção a urbs de avbril/maio; quero cumprimentá-los pela clareza e alcance das idéias e posições definidas no debate em torno do Fura-Fila. Sua visão sobre a utilização do espaço úblico é irretorquível e a posição da KVIVA O CENTRO a respeito do problema, definido em três itens na chamada "Um Furo n’Água", um exemplo para todos nos.
Alberto Botti
São Paulo-SP

Mesa

Sou leitora, desde a primeira urbs, dos artigos de João Podanovsky. Trata-se de textos de muita beleza estilística e informação sobre um capítulo da história de São Paulo, a restauração. Tenho, de João, dois preciosos livros escritos em parceria com o saudoso crítico de gastronomia Paulo Cotrim. Neles há o levantamento histórico de mais de cem restaurantes paulistanos. É um formidável trabalho de pesquisa que prossegue nas páginas dessa revista. Deveria ganhar patrocínio para uma obra de fôlego. Gostaria de cumprimentar o autor pela beleza de sua escrita e pela seriedade com que faz a, para mim, melhor seção de "sociologia de restaurantes" (o que Mino Carta, contou Joâo certa vez, pediu que Cotrim fizesse em sua coluna no primeiro Jornal da Tarde) da nossa imprensa.
Josete V. Raymundo
por e-mail

Traço

Cada vez melhor a seção Traço. Os artistas são ótimos. As duas última edições estão de arrasar! O Marcos Garuti e o Edson de Souza merecem lugar cativo em urbs. Os outros também são muito bons.
Vanderlei L. Richard
São Paulo-SP



  Cidade  
Valorizar a 9 de Julho

Projeto da Associação VIVA O CENTRO é exposto e ganha o apoio de instituições da área



O projeto "9 de Julho: Recuperação e Revalorização Ambiental", elaborado pela Associação VIVA O CENTRO para reverter o processo de degradação urbana de um dos principais eixos de acesso ao Centro, foi apresentado a autoridades municipais, especialistas e representantes de empresas e instituições da área pelo presidente da Diretoria Executiva da entidade, Marco Antonio Ramos de Almeida, dia 3 de julho, na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. O projeto prevê a implantação de medidas de relativa simplicidade (ver texto nesta página), que poderiam ser financiadas pela iniciativa privada. Os participantes do encontro manifestaram sua aprovação ao projeto, sendo o próximo passo a formação de grupos de trabalho integrados pelas instituições interessadas.

"A avenida é uma das portas de entrada do Centro e pode ser recuperada a partir de elementos que já existem e não precisam ser construídos ou reconstruídos", explicou Marco Antonio Ramos de Almeida. Limpeza permanente das escadarias, iluminação dos viadutos, pintura de muros e reformulação e aperfeiçoamento de percursos de pedestres são algumas das providências propostas.

Estiveram presentes ao evento o secretário municipal de Infra-Estrutura Urbana, Walter Rasmussen Júnior, o presidente da Emurb, Maurício Faria, a administradora regional da Sé, Clara Ant, e representantes da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, do Museu de Arte de São Paulo (Masp), do templo israelita Beth-El e dos hospitais Nove de Julho e Sírio-Libanês, além de dirigentes e técnicos da Fundação Getúlio Vargas.



  Cidade  
Um projeto para a Avenida

Valdir Z. Zanetti*


Nos primeiros anos do século XX, ali do alto do espigão central, junto à recém-inaugurada Avenida Paulista, do belvedere do Trianon, olhando em direção ao Norte, destacava-se um córrego de águas limpas, o Saracura, envolvido por encostas arredondadas e cobertas por relvas. Ao fundo, o núcleo urbano central e o bairro do Bixiga, atual Bela Vista. Se tivéssemos realizado registros cinematográficos ao longo dos anos, com intervalos de cinco anos, teríamos um filme de animação que permitiria assistir, numa grande tela de cinema, à construção de uma paisagem urbana. Teríamos uma visão fantástica, a partir desse fragmento de paisagem, da transformação da pequena, mas agitada, cidade em metrópole industrial e terciária.

Romantismo à parte, um grande desafio nos é colocado ao examinarmos a paisagem atual da Avenida 9 de Julho, ou seja, de assumi-la como produto do nosso processo urbano, reconhecendo suas marcas específicas, seus pontos fortes e fracos, assim como sua presença marcante na paisagem urbana paulistana. É fundamental enfatizarmos que as transformações ocorridas neste trecho do território urbano estão sincronizadas com a transformação da aglomeração urbana como um todo.

A velocidade de transformação da cidade de São Paulo, ao longo de um século, obriga-nos a refletir sobre as várias cidades estampadas na sua paisagem urbana. O trecho da Avenida 9 de Julho entre o Centro e a Paulista é um testemunho das sobreposições de elementos construídos em nome da adaptação às necessidades de uma emergente metrópole nacional. Percorrendo o trecho, do Vale do Anhangabaú ao túnel, reconheceremos uma unidade ambiental e paisagística bem marcante da cidade de São Paulo, onde se destacam os viadutos dos anos 40 e a massa de edifícios residenciais dos anos 50 e 60.

Destacam-se também intervenções viárias dos anos 70, elevados e novos viadutos, que revelam uma preocupação com o tráfego de veículos que se destinam a regiões mais distantes ou, simplesmente, criando novas rotas para facilitar o fluxo, eliminando cruzamentos em níveis. Muitas dessas obras deixaram seqüelas, ou seja, espaços laterais ou sob os viadutos e elevados sem uma definição clara de usos. Em nome de melhorar o fluxo na cidade como um todo, trouxeram um impacto negativo para o âmbito local.

Degradação

Certamente, esses espaços sem definição clara de uso, desde sua concepção, ou em decorrência de ocupações improvisadas e precárias, são fatores que contribuíram para a degradação ambiental deste trecho da avenida. Outros aspectos visíveis de degradação podem ser atribuídos ao próprio aumento do fluxo de automóveis e ônibus a diesel, que se intensificou a partir dos anos 70. Os altos índices de ruído e poluição do ar contribuíram para a desvalorização dos imóveis, especialmente os residenciais.

Associados a esses dois aspectos – corredor de transporte e sobras de espaços sob viadutos – , vamos encontrar o abandono ou a ineficiência na conservação dos espaços públicos ligados à circulação de pedestres, na maioria usuários do transporte coletivo. É lamentável o estado desses percursos: passeios esburacados e escuros, escadarias transformadas em banheiros a céu aberto e má conservação dos espaços cenográficos, que antes revelavam a intenção de ir além dos aspectos eminentemente funcionais e continham a preocupação com a estética urbana, sendo exemplos o tratamento dado à entrada do Túnel 9 de Julho e aos viadutos mais antigos.

Esses fatores de degradação e abandono do espaço público, de certa forma, contaminam os imóveis e os espaços privados, principalmente no trecho em que a calha da avenida é mais estreita e os recuos da massa edificada é menor – entre a Praça da Bandeira e a Praça 14 Bis. É fácil constatar esse fenômeno ao observarmos as fachadas escuras e sujas das edificações, com suas pinturas ou lavagens vencidas, e os terrenos particulares, com alto potencial construtivo, deixados sem uso ou utilizados como estacionamento do início dos anos 70 até hoje.

A recuperação

Após visualizar esse quadro de degradação, poderíamos ficar com uma visão pessimista. Ao contrário, percebemos um grande potencial de recuperação ambiental, a curto e médio prazos. Para tanto, temos de romper com uma visão de desprezo pelo patrimônio construído, seja formado por infra-estrutura e equipamentos públicos, seja por imóveis particulares – a qualidade da paisagem urbana não é revelada somente pelos edifícios de valor histórico, mas, principalmente, pelas edificações comuns, cuja volumetria e aspectos visuais das fachadas contribuem para qualificar a paisagem urbana.

Esta potencialidade é revelada ao detectarmos, em meio aos focos de degradação e abandono, exemplos significativos de investimentos que vão desde edifícios novos de apartamentos, erguidos nos anos 80 e 90, passando por ampliações de hospitais, como o Nove de Julho e o Sírio Libanês, até a recém-iniciada obra da nova sede da Federação do Comércio de São Paulo.

Daí estarmos convencidos que, a partir de um programa, que começa com um conjunto de intervenções modestas, é possível iniciar um processo que contamine positivamente este trecho da Avenida 9 de Julho, altamente significativo do ponto de vista da memória paulistana e estratégico para a recuperação ambiental.

Será importante a contribuição do sistema de transporte, através de melhorias operacionais, ou seja, maior racionalidade operacional do corredor 9 de Julho no seu conjunto, colocando em prática o conceito de linha-tronco, com ônibus de melhor padrão e maior capacidade, bem como a utilização de energia menos poluente que o diesel, ou seja, o trólebus biarticulado ou outros.

Outras medidas em curso, como a implementação do plano metropolitano de transporte, deverão contribuir para a redução do volume de ônibus que chega ao Terminal Bandeira, sinalizando a perspectiva de uma recuperação mais acelerada dos espaços públicos e privados. A entrada em operação das linhas 4 e 5 do metrô oferecerá novas rotas alternativas para o usuário do transporte coletivo, permitindo reduzir o volume de passageiros transportados por ônibus no corredor 9 de Julho-Santo Amaro. Daí a importância de ser iniciado um programa de recuperação ambiental que dê respostas imediatas para neutralizar o processo de degradação e abandono de espaços públicos importantes por seu valor simbólico, caso dos viadutos e espaços cenográficos, ou pelo uso intensivo de pedestres e usuários do transporte coletivo.

Proposições

Apresentamos, a seguir, um conjunto de proposições e melhorias necessárias para contribuir com a montagem de um programa de ação imediata, que deverá contar com a mobilização de agentes públicos e privados na sua viabilização.

O trecho em questão foi subdividido em cinco áreas, nas quais foram detectadas possibilidades de intervenções que podem induzir uma melhoria ambiental urbana a partir de atuações pontuais e ao longo de percursos de pedestres. Assim, temos:

Área 1 – Entrada do Túnel/Fundação Getúlio Vargas

· Reforma e iluminação dos espaços cenográficos e ajardinados da entrada do túnel, além da utilização apropriada de seus espaços úteis.

· Promoção da ocupação adequada de espaço sob o Viaduto Bernardino Tranchesi (cerca de 210 m2).

· Estímulo à limpeza das fachadas dos edifícios
· Revisão da iluminação pública, especialmente nos percursos e travessias de pedestre.

Área 2 - Elevado 9 de Julho/Praça 14 Bis

· Estação de embarque: redefinição de uso dos espaços sob o elevado (aproximadamente 1.300 m2) – criar uma espécie de galeria comercial e de serviços para apoio ao usuário do transporte público e pedestres em geral. Esta área deverá ser ocupada com boxes comerciais, floricultura, banca de jornais, sanitários e telefones públicos. A implantação e o gerenciamento do espaço poderiam ser realizados através de parceria entre poder público e iniciativa privada.

· Limpeza e reforma dos estacionamentos sob o viaduto (área aproximada de 2.600 m2).

· Especificação, em projeto, elementos de fechamento, pintura, abrigos de posto de controle, pintura e iluminação, de modo a garantir uma qualidade desses espaços já explorados comercialmente com estacionamento.

· Alargamento e melhoria de passagem de pedestres (50 m2). Deixar passagem de 3 a 4 metros de largura, garantindo o máximo de transparência e boa iluminação.

Área 3 – Viadutos Leste-Oeste e Martinho Prado

· Melhorar o percurso do pedestre no trecho que vai da parada de ônibus na 9 de Julho até a Rua Augusta, que possui intensa movimentação dia e noite. Colocação de pisos apropriados, iluminação e tratamentos dos canteiros. Há espaços sob o viaduto que poderiam ser equipados com boxes comerciais, sanitários, telefones públicos, etc, criando uma espécie de galeria bem iluminada, o que contribuiria para a conservação e segurança desses becos escuros, especialmente à noite. O sacolão ali existente poderia ser reformado e melhor integrado ao percurso.

· Reforma, restauração e iluminação, valorizando os aspectos cenográficos do Viaduto Martinho Prado e implantação de um sistema de limpeza e lavagem regular de suas escadarias.

Área 4 – Viadutos Major Quedinho e 9 de Julho

· Recuperação e restauração desses dois viadutos, além de iluminação que valorize os aspectos cenográficos e a questão de segurança para circulação de pedestres.

· No caso do Viaduto 9 de Julho, há que redefinir usos e ocupações das áreas úteis previstas no seu projeto original. Rever a utilização das suas escadarias, lavagem regular e iluminação apropriada.

· Tratamento paisagístico apropriado das sobras de terrenos particulares e públicos entre os viadutos.

Área 5 – Terminal Bandeira

· Realização de plano específico para a área, criando processo de recomposição da paisagem urbana a partir dos terrenos desocupados ou com usos indefinidos – lotes vagos ou seqüelas de intervenções urbanas do passado. Esta área representa o maior desafio do programa proposto, e demanda plano de médio prazo que deve ser elaborado e implementado em sintonia com os planos de transporte, municipal e metropolitano. A requalificação desta área é importante por possibilitar uma melhor integração entre espaços bastante significativos entre si: Vale do Anhangabaú, Ladeira da Memória, Praça da Bandeira e Câmara Municipal.

* Arquiteto, coordenador da área de Arquitetura e Urbanismo da Associação Viva o Centro


  Capa  
O amesquinhamento da estética urbana

De como, asperamente bonita em sua provisoriedade e mutação, São Paulo vem se tornando uma cidade visualmente desagradável por falta de uma política, e sobretudo de uma clara vontade, de embelezamento

Federico Mengozzi e Jule Barreto
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina
Ilustrações de Edison de Souza



Economicamente pujante, multicultural, laboratório de inovação social... mas cinzenta, confusa. Feia. É quase um consenso entre os que discutem a cidade. Feia mesmo?

A bem da verdade, é tornada feia. A gigantesca massa construída, os logradouros, a topografia e a arquitetura são personalíssimos e nem cabe considerá-los feios em seu conjunto: são a marca da cidade, e nenhuma cidade é feia em si mesma. O que há é uma produção artificial de feiúra. Postes e equipamentos toscos e mal situados, fiação elétrica a céu aberto, pichações, caiação de guias, postes e canteiros de árvores, desleixo na manutenção dos espaços públicos e monumentos, falta de interesse e zelo pela coisa pública — este é o feio real de São Paulo. Outros preferem enxergá-lo em manifestações visuais típicas dos grandes aglomerados urbanos com intensa vida comercial e de serviços: painéis luminosos, out-doors, cartazes. E há ainda quem busque, na confusão de signos e cores e na profusão das chamadas interferências urbanas, um sentido de beleza ou uma estética da energia e da diversidade.

O fato é que, como realidade socialmente construída, São Paulo é um gigantesco mostruário de desencontros estéticos. Para o historiador Nicolau Sevcenko, autor de Orfeu Extático na Metrópole, a cidade registrou um processo de crescimento espantoso e de difícil compreensão — em cem anos, saltou de 240 mil para 10 milhões de habitantes. O primeiro administrador público a antever a real dimensão desse processo foi o prefeito Antonio Prado, entre 1899 e 1911. "Ele pretendeu dar à cidade uma composição urbanística à altura da riqueza que estava concentrando e com a ajuda de urbanistas franceses criou o primeiro projeto, centrado no Vale do Anhangabaú, que deu a fisionomia urbana da área central. A idéia era pensar a cidade em função de grandes áreas verdes que possibilitassem à população estabelecer um convívio interclassista, um primeiro passo no sentido de uma consciência de cidadania". Sevcenko acredita ser mais necessário do que nunca repensar São Paulo e restabelecer, nela, a escala humana e o equilíbrio estético.

O que há de verdadeiramente feio em São Paulo é o que se faz dela à margem dos processos culturais e históricos — uma anti-estética mais acidental, ditada por equívocos administrativos e interesses imediatos, do que propriamente estrutural. A metrópole anárquica e tentacular de cujas origens, nos anos 20, Nicolau Sevcenko fala em seu livro está acima de padrões estereotipados de beleza, como estão as labirínticas metrópoles asiáticas e — para ficar num exemplo de que pobreza não gera feiúra urbana — os bairros populares caprichosamente assentados nas bruscas encostas de La Paz. Desenhem-se melhor os equipamentos, enterrem-se os fios, limpem-se as guias, cuide-se das praças, permita-se à pedra e ao cimento a sua cor natural, removam-se as garatujas de spray, consinta-se que a festa luminosa do néon expanda-se nos ambientes do entretenimento, e a cidade ruidosa e áspera — e bela — voltará à cena. Respeite-se a cultura que dá forma e significado ao bairro popular, integrando-a de forma privilegiada às soluções urbanísticas. Contenham-se os abusos do interesse privado, estimulem-se as práticas de embelezamento, e São Paulo resgatará um reprimido esplendor.

"São Paulo está se transformando numa cidade feia. Pena, pois seu patrimônio arquitetônico é único no mundo", diz o artista plástico Gregório Gruber. Para ele, a cidade possui lugares de grande fotogenia, como o Vale do Anhangabaú, e simplesmente deslumbrantes, como o conjunto arquitetônico da Luz. Ambas estão a exigir urgentes medidas antidegradação.

Insista-se ainda uma vez que a São Paulo feia não é aquela que resulta de sua apropriação para a convivência e o uso, da evolução social traduzida em espaço organizado. Supremos monumentos do engenho coletivo, as cidades são sempre belas, à maneira de cada uma. Liverpool e Birmingham são bonitas se respeitado o seu passado fabril. O emaranhado de vielas de Casablanca é tão interessante quanto o das favelas Heliópolis e da Rocinha. Não há feiúra urbana socialmente produzida, como a beleza o é. O comércio informal de rua, com suas barracas e tabuleiros, pode ser um dos elementos de identidade de uma aglomeração urbana se constituído solidamente ao longo do tempo, expressão de um arranjo de sobrevivência estável e em harmonia com o meio. Ou, como ocorre em São Paulo, o mais visível sintoma de uma crise no emprego e na distribuição da riqueza — a irrupção de um desarranjo. Por não ser o efeito de uma lenta maturação do processo de acomodação social, integrado à cidade, resulta não na singularidade identitária, mas no feio. É evitável e, nesse sentido, artificial. Os camelôs "incomodam os pedestres, tornam a cidade feia com suas barracas e tabuleiros desajeitados e nos dão a face mais visível do enorme abismo social em que vivemos", escreveu no quinzenário PT em Movimento (edição de 1 a 15 de junho) o diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Economia Informal, da CUT, Marco Antônio Maldonado. As periferias são visualmente agressivas e desagradáveis não porque seus moradores as queiram assim, ou as tenham edificado para ser feias, mas, sobretudo, porque os poderes públicos as abandonam.

Tomem-se alguns exemplos. Lugares cuja beleza arquitetônica e paisagística desaparece sob camadas de postes de cimento ao lado de outros de valor histórico, sustentando fios elétricos e de trólebus e cercados por outros, de placas de sinalização de trânsito e semáforos, como acontece maciçamente em São Paulo, podem reabilitar-se com uma providência simples (ainda que, é claro, exigindo investimento) como o ocultamento da fiação em galerias técnicas subterrâneas e a unificação da iluminação pública, semáforos e sinalização de trânsito num poste único, de linhas modernas, como os da Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Os cabos dos trólebus deveriam ser fixados nas paredes dos prédios, dispensando postes. Um programa de mobiliário urbano livraria a cidade de abrigos de ônibus como os do Largo do Paissandu, semelhantes a casamatas de concreto sufocando a delicada Igreja do Rosário dos Homens Pretos. Os camelôs podem instalar-se em shoppings populares, beneficiar-se de linhas de financiamento e tornar-se comerciantes de fato. São Paulo é uma das poucas metrópoles do mundo, talvez a única, em que se procura impor um padrão rebuscado de piso de calçadas, com ladrilhos de estética discutível e reposição difícil, sem um a priori essencial, a valorização do pedestre e o ordenamento do uso do subsolo. Cidades como Nova York e Paris preferem pisos padronizados de cimento, lajotas simplificadas ou asfalto, práticos e de reposição imediata. Aqui e lá, os resultados estéticos são diametralmente opostos. Uma calçada paulistana, cujos ladrilhos — amiúde substituídos por remendos grosseiros — decorados com o mapa estilizado do Estado, presunçosamente sofisticados, disputam espaço e visibilidade com postes de cimento, paredes pichadas e sacos de lixo, não agrada à vista nem ao caminhante. Já a calçada parisiense...

A feiúra urbana não é uma fatalidade. Ela se produz por intervenções no processo de experiências coletivas que, ao longo do tempo, configuram a cidade. Tais medidas administrativas nem sempre são felizes – com freqüência, são descabidas e oportunistas – e não resultam em beleza. Esta, aliás, é muitas vezes tratada como algo supérfluo, atributo de dominação de classe (a São Paulo burguesa que embelezou o seu Triângulo no início do século XX) ou é vítima de experiências urbanísticas desastradas e de administrações ruins. No entanto, ela é essencial. Pensadores e urbanistas como o espanhol Jordi Borja não se cansam de insistir: "O luxo no espaço público e nos equipamentos coletivos não é desperdício, é justiça. Os programas públicos de habitação, infra-estrutura e serviços devem incorporar a dimensão estética como prova de qualidade urbana e de reconhecimento de uma necessidade social", escreveu.

A beleza urbana é, sim, uma necessidade social. Para o psicanalista Renato Mezan, ela permite às pessoas integrar-se a uma idéia de civilização: "O cidadão não se sente um indivíduo isolado, mas alguém que faz parte de uma coletividade e que é, em parte, responsável por ela", disse a urbs. "O embelezamento da cidade, o desenho primoroso dos equipamentos públicos, calçadas consertadas, jardins cuidados são um sinal de que há alguém zelando pelo bem comum. Isso atende ao lado infantil das pessoas, à necessidade de proteção, e ao lado adulto, à vontade de empreender". Mezan entende que a beleza urbana é um fator de equilíbrio, ao passo que a depredação e o abandono revelam uma revolta latente — e impotente — que nada agrega e fere o espírito de cidadania. Além de elemento de justiça, a beleza da cidade é fator de saúde mental coletiva.

Qual beleza?

Mas onde, e em quê, estão o belo e o feio em São Paulo? Talvez o principal motivo da feiúra que se produz na cidade seja a indefinição de um ideal estético. Há alguns anos, a revista Veja São Paulo publicou reportagem sobre poluição visual, assunto que ninguém sabe exatamente o que é — a própria revista concentrou-se muito mais nos luminosos e out–doors, esquecendo-se da asfixiante fiação aérea —, mas que sinaliza um difuso protesto contra o enfeiamento da cidade. Diversos leitores enviaram cartas à redação sobre a matéria, uma dos quais com a opinião de que Veneza, e não Las Vegas, deveria ser o modelo estético para São Paulo. Essa percepção rarefeita e por vezes bizarra do que pode ser belo numa cidade como São Paulo afeta principalmente o poder público que, no mais das vezes, se contenta em emitir leis que restringem as supostas fontes de feiúra, quase todas relacionadas à propaganda comercial, sem sequer esboçar um modelo de ambiente esteticamente valorizado a ser perseguido, inclusive reforçando, e não suprimindo, as características hoje rotuladas de "poluição visual".

"Centros urbanos carregados de sinais comerciais, luminosos, placas, acabam compondo um tipo de beleza", afirma o arquiteto e designer gráfico Francisco Inácio Homem de Melo. A beleza, insiste, é algo relativo. Quando um pintor como o renascentista italiano Domenico Ghirlandaio elege como modelo um ancião com o nariz disforme e produz um esplêndido retrato que hoje está no Museu do Louvre, em Paris, é preciso rediscutir os padrões estéticos, inclusive do espaço urbano. O discurso de que só a arquitetura pode conferir beleza à cidade é estreito, diz o designer. A parafernália semiótica que caracteriza uma metrópole como São Paulo, para muitos um testemunho de irremissível feiúra, pode significar beleza. Arquitetos e administradores públicos ainda estariam impregnadas daquela visão preconceituosa e limitada que Homem de Melo, em artigo escrito em 1994 especialmente para a coletânea de ensaios Entre História e Projeto, por ocasião do Encontro Preparatório ao Seminário Internacional Centro XXI, da Associação VIVA O CENTRO, denominou "signofobia".

Ele cita um exemplo de como os signos comerciais podem compor um padrão de beleza urbana associado à vocação histórica de um setor da cidade. No projeto do arquiteto uruguaio Hector Ziglieca para a Rua 25 de Março as placas e fachadas falsas existentes permanecem, por fazer parte da paisagem tradicional e expressar o vigor da região. Se é belo o que traduz a "alma" da cidade — vitalidade anárquica em São Paulo, contemplação e equilíbrio em Florença e Veneza, livre jogo de sorte e azar em Las Vegas, o brilho do show biz no distrito teatral de Nova York, o compra-e-vende de tantas ruas de Tóquio, Istambul e Bangkok —, qual o critério firme para distingüir o que é feio do que é bonito? Homem de Melo sugere separar ruído de informação, numa aproximação de urbanismo e jornalismo. O Minhocão, via elevada que rasga uma parte da área central da cidade, é puro ruído e poderia ser implodido sem nenhuma lástima. Seu fim contribuiria para a recuperação do Centro. Já a novaiorquina Times Square, com sua profusão fantástica de néon e demais elementos de "poluição visual", é informação. Mais ainda, é um cenário identificador, um "valor de marca" da Big Apple. O mesmo poderia ser aplicado à Cinelândia que, por décadas a fio, até os anos 60, fez da Avenida São João e redondezas um dos eixos de entretenimento mais animados e iluminados do mundo até que o progressivo abandono do Centro (com a omissão dos responsáveis pela paisagem urbana) transformasse a via no que é hoje à noite, um agônico cenário pontilhado pelo amarelo tétrico do vapor de sódio da iluminação pública.

E tem mais, prossegue Homem de Melo. Se há algo que realmente enfeia o Centro da cidade, muitíssimo mais do que qualquer sinal visual, é a degradação ambiental e a miséria. Estas sim, e não a proliferação de signos, deveriam ser o alvo das leis — assegurando moradia aos sem-teto, reprimindo o uso predatório dos espaços públicos. De resto, é absurdo pretender que a cidade se transforme em Paris ou que aquela esquina central se converta num recanto bucólico. A história de São Paulo é outra. E, por isso mesmo, não se sustenta a pretensão de que sua arquitetura seja eloquente por si mesma, que dê conta de toda possibilidade de beleza urbana. Muitas vezes a placa que traz escrito "pastelaria" é mais importante do que a arquitetura que oculta. Tal posição, diz o arquiteto, pode passar a idéia de que, já que tudo deve ser aceito, então que se deixe tudo do jeito que está. Nada disso. Cada caso é um caso e exige avaliação específica. A finada Cinelândia, para ressurgir, deve ser tratada como o micro-universo de signos luminosos que historicamente foi, da mesma forma que deteriorados conjuntos arquitetônicos, como a sucessão de fachadas antigas (uma das únicas da cidade) entre o Correio e o Largo do Paissandu, na mesma Cinelândia, têm de ser recuperada como tais, sem prejuízo, no exemplo em questão, de um ambiente feericamente iluminado — para isso existe a iluminação cênica. Hector Ziglieca tem fortes razões para entender que o banimento dos anúncios comerciais da Rua 25 de Março significaria esvaziá-la de seu significado para a cidade e mesmo para alguns países vizinhos — um paraíso de compras.

Pichação oficial

O poder público que não vê com bons olhos painéis luminosos mesmo em zonas de entretenimento noturno, e que diz combater a pichação desenfreada, paradoxalmente é o mesmo que patrocina a mais sistemática forma de enfeiamento da cidade: a caiação de guias, postes, canteiros de árvores e, pasme-se, até monumentos. Trata-se de outra definição de feiúra urbana: resultado de intervenções incompreensíveis, ilógicas, inúteis e inconseqüentes. Burras, enfim. Contraponto perfeito aos garranchos de spray nas fachadas, a pichação oficial não tem rigorosamente utilidade alguma, a não ser como artimanha de marketing para fazer crer que a cidade está sendo bem zelada pela Prefeitura. A idéia de caiar, como lembraram os jornalistas Marcos Augusto Gonçalves e João Mellão Neto em artigos na imprensa, veio do prefeito Jânio Quadros e inspira-se no paisagismo dos quartéis, onde tudo é religiosamente pintado de branco — Jânio queria transmitir justamente essa imagem à população. Maluf e Pitta gostaram e continuaram caiando. A atual gestão, gostando ou não, idem. Foi nela que mais uma vez foi caiada a bela estátua de pedra que reproduz a figura de um cão, no Largo do Arouche, numa série de atentados cujo início, na era Pitta, urbs denunciou (setembro/outubro de 1999). Em cidade alguma do mundo, inclusive naquelas sem a importância de São Paulo, se vê algo semelhante.

À parte o ataque aos monumentos, há casos em que o grotesco extrapola em agressão à própria natureza dos objetos que deveriam embelezar a rua. A Avenida Inajar de Souza, que cruza uma sucessão de bairros carentes de beleza na Zona Norte, tinha longo trecho de seu amplo canteiro central decorado por grandes rochas, num arranjo paisagístico de notável efeito dramático. Pois as últimas administrações, inclusive a atual, "mataram" as rochas. Ao ser pintadas de branco, deixaram de ser pedras. Parecem volumes disformes de gesso, encardidos e pichados, sem qualquer significado ou interesse. Mas a estética castrense transformada em política visual urbana tem, para felicidade de São Paulo, duras limitações. Por mais desatento e crédulo que o cidadão seja, vai perceber o disparate da guia caiada ao lado dos buracos da calçada, o canteiro tinindo de branco abrigando mato e árvores semi-mortas por abandono, as bordas dos canteiros centrais das avenidas do Centro, escrupulosamente pinceladas, convivendo com o lixo. A pacata rua da Vila Santa Maria, na Zona Norte, onde mora um dos autores desta reportagem, não é varrida regularmente pela AR, mas tem seus postes e guias caiados pontualmente. Fica um enorme mistério: quanto custa aos cofres públicos — que se diz estarem vazios até para comprar vassouras, lâmpadas e papel higiênico para as administrações regionais — gastar tanta tinta (calcule-se quanto rende uma lata ou galão, quanto custa, e multiplique-se por alguns milhares de quilômetros de ruas, duas ou três vezes por mês), com finalidade no mínimo bisonha.

urbs tentou falar com o secretário Arlindo Chinaglia, de Implementação das Subprefeituras, responsável pelas administrações regionais, mas a sua assessoria de imprensa preferiu ela mesma dar a explicação: a caiação permitiria uma melhor visualização do ambiente, principalmente a portadores de alguma insuficiência visual. Curiosamente, a mesma explicação foi dada à revista pela assessoria da Secretaria das Administrações Regionais, há alguns anos, quando procurou o secretário Alfredo Mário Savelli para que justificasse a caiação (por fim encontrado, este logo encerrou o assunto afirmando que a caiação "é uma tradição que vem do Jânio e vai continuar"). Da explicação mais recente pode-se extrair a conclusão de que São Paulo tem um número avassalador de pessoas com alguma deficiência visual, uma vez que metrópoles como Buenos Aires, Rio de Janeiro, Paris, Nova York e Cidade do México não caiam suas ruas, e, pior, uma vez que a caiação aqui se justifica pela visualização sobretudo dos limites das pistas de rolamento, essas pessoas que enxergam mal estariam dirigindo veículos, ao arrepio do código de trânsito.

Se a "borradeira" (como classificou a pichação branca o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, na mesma ocasião em que urbs procurou Savelli) fosse aplicada apenas em esquinas e pontos perigosos, faria até algum sentido para especialistas como o engenheiro Roberto Scaringella, diretor do Instituto Nacional de Segurança no Trânsito. "Desde que, é óbvio, não sature o campo visual de quem dirige", afirmou. Não é o caso. Satura sim, e também de quem não dirige. A propósito, sabe-se que o arquiteto Jorge Wilheim, homem de formação cosmopolita que organizou a megaconferência Habitat II das Nações Unidas e já deve ter visto barbaridades mundo afora, é contrário à caiação. Teria mesmo estranhado por que ela não fora suspensa pela nova gestão, de que faz parte como secretário de Planejamento Urbano.

Em tempo: a caiação é um serviço terceirizado. A assessoria do secretário Chinaglia não soube informar quanto a(s) empresa(s) recebe(m) da Prefeitura para executar tal serviço. Seja o quanto for, em função dos efeitos estéticos e da penúria da cidade, é uma feiúra caríssima. (Colaborou Ana Maria Ciccacio)


  Do Autor  
Miséria do urbanismo

Jule Barreto


Imagino o Fórum Centro Vivo como um grupo aguerrido e bem disposto à frente de uma coleção, mais do que uma coligação, de siglas e entidades cujo propósito é melhorar a cidade, em especial para os mais fragilizados socialmente — e isso é bom. Pretendem fazer cidade, praticar um urbanismo para os excluídos. É ótimo. E faz sentido: boa parte desses militantes freqüenta ou freqüentou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e outras escolas de excelência. Por tudo isso, eu esperava muito mais da réplica que encaminharam a urbs para contestar meu artigo Isto, Sim, É Capitalismo Selvagem (nΊ 20). Se o leitor tiver a paciência de cotejar o texto do Centro Vivo com o referido artigo, perceberá que a réplica não contesta nenhum dos meus argumentos, preferindo associar-me a uma conspiração de poderosos para limpar o Centro dos pobres e, o que é espantoso, esboçando, nas entrelinhas do irado panfleto, a alternativa de cidade por que lutam. Uma cidade na qual os pobres devem continuar o que sempre foram e serão — desesperançadamente pobres —, porque sem eles a utopia e, suponho, a razão mesma da existência desse Centro Vivo caem por terra. É um urbanismo da miséria.

Começam por denunciar meu "artifício" de isolar maldosamente o "capitalismo selvagem" do comércio lúmpen dos camelôs do "capitalismo civilizado" dos hotéis, restaurantes e bancos. Falam das minhas vistas grossas ao fato de as máfias que controlam os camelôs estarem em parte nas próprias empresas que fornecem as mercadorias. Insistem em que não enxergo nos meganegócios imobiliários da região da Berrini o padrão privatista e excludente, que atribuo apenas à máfia das barracas e sua mão-de-obra servil. Que a Buenos Aires dolarizada do ditador (sic) Cavallo não é exatamente um exemplo para São Paulo e que minha cegueira (ou má-fé) fez com que não citasse a zona sul da capital argentina, "outrora muito mais rica do que São Paulo"(!), como trágica contrapartida ao charmoso Puerto Madero. Em síntese, um discurso sem pé nem cabeça. Se o leitor tem meu artigo à mão, vai constatar que cito Buenos Aires como bom exemplo de valorização dos espaços públicos e de um esforço para gerar alternativa de trabalho e renda em campos não tradicionais de uma aparentemente esgotada economia urbana. Verá que o padrão privatista de exclusão socioespacial a que me refiro inclui, naturalmente, a ocupação especulativa do solo. Que, evidentemente, as grandes empresas fornecedoras, os donos de barracas, os contrabandistas, os ladrões de cargas, os sonegadores de impostos, os fiscais corruptos e os camelôs integram um só complexo de atividades ilegais. Mesmo assim, sem romantizar o camelô, coloco-o como o lado mais fraco e explorado do esquema. De que tortuoso substrato ideológico, ou de que arsenal de espertezas, sacaram a idéia de que os ataco? Vamos aos antecedentes. Já circulando a urbs que trouxe meu artigo, um dirigente do Centro Vivo telefonou-me e, gentilmente, solicitou espaço na edição seguinte — já em produção gráfica — para a réplica. Prometi-lhe espaço na presente. Claro que o fiz por considerá-los bem-intencionados, ainda que ingênuos em seu radicalismo retórico e mal instrumentalizados em termos de visão de cidade. No entanto, em sua réplica, os líderes do Centro Vivo caem na tentação de falsificar meus pontos de vista para facilitar sua tarefa de combatê-los (em vão, diga-se). Não fosse esse viés rancoroso, a tréplica nem seria escrita.

Sim, a questão dos camelôs como "moluscos urbanos", metáfora da descartabilidade humana que tanto os incomoda. Não fui eu quem os inventou e os mantém assim, mas os que os querem assim para sempre. Eu gostaria de vê-los como comerciantes formais, em lojas ou quiosques dignos, fora das calçadas. Porque ninguém de boa fé vislumbrará dignidade num trabalho que envolve disputa de espaço com pedestres, é execrado por estes e pelo comércio regular e, para completar, expõe-se como nenhum outro a extorsões e constrangimentos. A hiperexploração do camelô o faz molusco, da mesma forma que, no século XIX, o proletário (e sua subjetividade) foi tornado coisa, res, pela apropriação e autonomia do produto de sua força de trabalho. Assim, a afoita indignação dos dirigentes do Centro Vivo é apenas indicativa de insensibilidade social e da superficialidade de suas abordagens.

Não rechaço "a alternativa de regulação da economia informal proposta pela Prefeitura", como escrevem, mesmo porque, no artigo, referi-me ao que disse Marta Suplicy numa visita à VIVA O CENTRO em plena campanha eleitoral. E não rechacei nada. Simplesmente problematizei uma questão espinhosa demais para ser enunciada de forma simplista (como a candidata o fez) e maniqueísta (como a coloca o Centro Vivo). Se me perguntarem se concordo com o projeto de economia solidária do vereador José Eduardo Cardozo, responderei que ele toca o cerne da questão. O camelô não pode continuar sendo a ponta de desova de mercadorias a cujo controle não tem acesso. Acredito também que há uma vanguarda sindical da categoria enxergando muito além das meras aparências. O esquema de fornecimento e distribuição é criminoso, a condição do camelô é aviltante e a ocupação das calçadas por barracas não difere, em substância, de outras formas de privatização do espaço público. Se realmente luta com sinceridade pelos camelôs, o Centro Vivo bem que poderia acenar com um destino melhor para eles.

Compreendo e relevo a ignorância dos autores sobre a zona sul de Buenos Aires — San Telmo, La Boca e, já fora da capital, Avellaneda —, região tradicionalmente pobre e deteriorada muito antes da reurbaniuzação de Puerto Madero. Para sermos exatos, desde a epidemia de febre amarela de 1871.

Difícil, contudo, é tolerar a má fé com que afirmam, sem qualquer cautela, que eu pretendo retirar os camelôs da cidade "como lixo" e empurrá-los para locais em que não há fluxo de compradores, onde poderão fracassar e, nesse caso, por incompetência deles. Serão essas as armas do Centro Vivo — confiar numa presumida falta de informação do leitor — para criar um Inimigo e, nessa polarização astuta, definir-se como paladinos dos miseráveis? A desonestidade (mais pueril do que cínica) dessa distorção acaba por invalidar o único trecho com algum conteúdo em toda a réplica, apesar do tom de jargão: o parágrafo final. Uma vez lido o que vem antes, quem poderá acreditar em que tenha sido escrito com sinceridade?


  Do Leitor  
De quem, afinal, é a selvageria?

Fórum Centro Vivo


O sr. Jule Barreto, editor da revista urbs, lança hipóteses em seu artigo Isto, Sim, é Capitalismo Selvagem (nΊ 20, fevereiro/março de 2001) com a suposta boa intenção de defender um amplo conjunto de excluídos dentre os quais estariam: a) os pobres camelôs e seus pobres consumidores, vítimas do crime organizado e dos esquemas ilegais de distribuição de mercadorias contrabandeadas e de baixo valor agregado; b) os assalariados aviltados pela superexploração decorrente da disputa por empregos; c) o poder público usurpado de uma parcela da arrecadação; d) todos os cidadãos expropriados do espaço público ocupado pelos camelôs; e) toda a população que é vítima dessas atividades que retardariam o desenvolvimento da economia e da cidade de São Paulo.

A tese do autor, entretanto, constitui-se num ardil, uma vez que imputa aos camelôs toda a responsabilidade da desgraça que é sua existência e do mal que causam à cidade, aos trabalhadores e ao desenvolvimento. É o que diz literalmente este trecho do artigo: "o comércio informal de rua (...) impede ou atrapalha o desenvolvimento de atividades formais geradoras de emprego e renda e é indutor de empobrecimento, hiperexploração do trabalho e desemprego." O sr. Jule Barreto, entretanto, não questiona por que o capitalismo brasileiro produz uma massa tão grande de excluídos, sem acesso aos direitos humanos elementares. Ao invés disso, atribui à população que dirige-se ao comércio informal, por necessidade de sobrevivência, responsabilidade exclusiva por sua condição, com o objetivo de defender, ao final do artigo, sua remoção definitiva da área central.

Outro artifício utilizado pelo autor é a separação entre o que seria o "capitalismo selvagem", dos camelôs, e o "capitalismo civilizado", dos hotéis, restaurantes, centros culturais e bancos. Se o sr. Jule Barreto lembrasse a origem do termo "capitalismo selvagem", associada ao período dos "barões ladrões" norte-americanos na virada do século XIX para o XX, teria percebido que a pilhagem econômica comandada pelos grandes trusts que compravam o congresso americano para fazer negócios tem grande semelhança com o que ocorre hoje no Brasil. Neste caso, o autor precisaria ampliar o foco de seus ataques dirigidos exclusivamente ao comércio informal para questionar o funcionamento de toda a economia. Não é casual a descrição que o sr. Jule Barreto faz da "economia camelô" involuntariamente aplicar-se ao próprio capitalismo contemporâneo celebrado em Davos: "apoia-se em esquemas ilegais e criminosos para atingir a sua finalidade de gerar um máximo de lucro para um mínimo de beneficiários."

Se os nós da questão fossem desatados desde o princípio, o sr. Jule Barreto teria que lembrar a seus leitores que as "máfias" de fornecedores de mercadorias para camelôs muitas vezes começam dentro das grandes empresas, nas suas contabilidades paralelas e no desvio de produtos do fisco. Basta perguntar para um vendedor de cachorro-quente como ele compra salsicha "de boa marca" no contrabando e como os pacotes de cigarro da Souza Cruz aparecem nos seus tabuleiros. Não foi descoberto recentemente que o próprio Carrefour vendia celulares a preços baixos porque eram provenientes de lotes de carga roubada?

Apesar de o autor constatar que o padrão privatista e excludente da economia brasileira é um fenômeno generalizado, da elite que se mura e se protege ao camelô que ocupa a rua, ele permanece atacando somente o último. Por que o sr. Jule Barreto não conta que a construção das novas sedes da Rede Globo e do BankBoston na Av. Berrini dá-se em terrenos altamente valorizados pela recente remoção de 50 mil favelados do córrego Água Espraiada, durante a gestão Maluf? Aos favelados, muitos deles morando na região antes mesmo da construção dos prédios da Bratke e Collet nos anos 70, não foi dada nenhuma alternativa habitacional. Receberam apenas indenizações ao redor de 1,5 mil reais, parte delas pagas por um pool de "civilizados" empresários da Berrini interessados na remoção. O resultado foi que os terrenos e edifícios da Av. Berrini foram imensamente valorizados enquanto a população, em sua maioria, teve que comprar ou construir barracos em outras favelas, inclusive na beira dos mananciais da cidade. Isso é "capitalismo civilizado"?

A inversão continua. "Entra o camelô, fogem os hotéis, os restaurantes, os últimos cinemas", diz ele. Novamente o autor não faz questão de lembrar que grande parte das elites abandonou o Centro entre os anos 30 e 60 movida pela especulação imobiliária e pela criação de bairros exclusivos na região sudoeste da cidade (Higienópolis, Jardins, Itaim, Morumbi etc). Com isso o Centro se popularizou e ainda hoje permanece pouco ocupado, com diversos edifícios vazios, aguardando a revalorização imobiliária. Para pressionar o uso social dessas propriedades, os movimentos de moradia fizeram ocupações e negociam políticas habitacionais para a região. Mas esses fatos não interessam, pois o "RG e a biografia" que o autor pretende impingir ao Centro são outros. A luta travada contra o camelô, como o sr. Jule Barreto afirma, é, na verdade, parte da luta contra "o ladrãozinho pé-de-chinelo, o menino de rua, o sem-teto, gente que perambula ou vive pela região", não para que estes sejam incluídos e participem do projeto de um Centro vivo, mas para que saiam do Centro dando lugar aos investimentos e ao retorno triunfal da elite em sua reintegração de posse.

Por fim, não deixa de ser esdrúxula a apologia do padrão Buenos Aires de renovação da área central no momento em que a economia argentina ameaça ir pelos ares. Um país sem moeda própria, dolarizado, incapaz de pagar servidores públicos, médicos e professores e que acabou de dar todos poderes a um pequeno ditador local chamado Cavallo, isso é exemplo para o Brasil? Entretanto, a cidade de Buenos Aires e sua "fashionable" operação urbana de Puerto Madero foram escolhidas como contraponto a São Paulo: ações de um país civilizado que sabe aproveitar as oportunidades do turismo internacional. Certamente o autor não visitou a "zona sur" da cidade de Buenos Aires, outrora muito mais rica do que São Paulo, e nem se deu conta do violento processo de segregação e expulsão trazido pela renovação da área central e de Puerto Madero.

Pois bem: depois de rechaçar a alternativa de regulação da economia informal proposta pela prefeitura petista e desprezar uma solução dialogada com os trabalhadores e seu sindicato (que não chega nem a ser mencionado ao longo do artigo), o sr. Jule Barreto termina sua tese em tom de "realismo fantástico": pretende metamorfosear o camelô, transformando-o de "molusco urbano, grudado na calçada como um mexilhão à rocha" em "micro-empresário" de "shoppings populares". Demagogia que não mascara a violência que tem por trás: retirar da cidade os camelôs como lixo e, na melhor das hipóteses, dar-lhes o "direito" de vender seus produtos em locais onde não há trânsito de pessoas. Se não der certo, não há problema, a falha foi deles, que não souberam conduzir o negócio próprio. Cinismo este que parte dos mesmos grupos que exigem do Estado as máximas garantias e os mínimos riscos para atuar no Brasil.

Todos desejamos devolver à cidade seus espaços públicos e acabar com a superexploração dos trabalhadores. Mas essa questão não pode ser tratada da forma como faz o sr. Jule Barreto, pois do contrário estaremos construindo mais intolerância, preconceito e exclusão em nome da civilidade e da revalorização do Centro.


  Urbanismo  
A lei das cidades

Com 37 anos de atraso, o Estatuto da Cidade é aprovado no Senado e sancionado pelo presidente da República. Sua aplicação dependerá dos planos diretores e da visão dos prefeitos

Ana Maria Ciccacio
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina



Uma boa notícia agitou as cidades brasileiras, sobretudo metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no início deste segundo semestre. O presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou em 10 de julho o Estatuto da Cidade, documento legal disciplinador da questão fundiária que regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição de 1988, referentes à função social da propriedade urbana.

O Estatuto da Cidade chega com 37 anos de atraso em relação ao Estatuto da Terra — lei 4.504, de 30 de novembro de 1964, que regulamentou o uso e a ocupação da terra no meio rural. Nesse intervalo, a população brasileira urbanizou-se vertiginosamente, sem que as administrações das cidades, principalmente das grandes, tivessem instrumentos legais para orientar a expansão imobiliária, evitar a ocupação de terras lindeiras a mananciais e reservas verdes, conter a poluição e degradação ambiental, e, acima de tudo, dar uma resposta socialmente aceitável à gravíssima proliferação de favelas e cortiços.

Entre outros itens, o Estatuto da Cidade prevê o direito de usucapião individual ou coletivo para áreas privadas, estabelece o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo no tempo em até 15% sobre propriedades que não cumprirem sua função social e torna obrigatório que toda cidade com mais de 20 mil habitantes, e as integrantes de áreas de especial interesse turístico e de regiões metropolitanas, além daquelas inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com impacto ambiental de dimensão regional ou nacional, produzam um Plano Diretor, com a finalidade de implementar a aplicação do Estatuto da Cidade em seus territórios.

São medidas que muitos prefeitos, urbanistas, arquitetos, sociólogos e ONGs dedicadas à habitação e ao meio ambiente aguardavam há muito tempo. Tanto que a expectativa era de que o Estatuto da Cidade, depois de tramitar pelo Congresso Nacional por 12 anos (ver o box), fosse aprovado na íntegra. No entanto, o presidente vetou os artigos que vão do 15 ao 20, correspondentes à regularização da ocupação de imóveis públicos invadidos há mais de cinco anos.

Novo texto

O presidente afirmou que o veto foi amplamente discutido e negociado com instituições e entidades interlocutoras para esse caso. Os dispositivos excluídos, segundo o presidente, propiciavam uma interpretação duvidosa, em que até praças públicas poderiam ser ocupadas e ter a posse posteriormente regularizada pela prefeitura, daí exigirem uma nova redação. O novo texto, prometeu o presidente, virá na forma de um projeto de lei ou de uma Medida Provisória (MP), embora tudo leve a crer que a MP seja a opção escolhida, pois Fernando Henrique deixou clara sua intenção de agilizar ao máximo essa providência.

Para quem já teve acesso à nova redação, caso do senador Mauro Miranda (PMDB-GO), relator do Estatuto da Cidade no Senado Federal, as alterações propostas pela Presidência da República são pertinentes. Segundo o senador, o texto original não fixava um limite para a avaliação das áreas públicas ocupadas ininterruptamente há mais de cinco anos e o novo determina a data de 30 de junho de 2001, propiciando, portanto, um controle sobre futuras invasões. Além disso, entre os artigos 17 e 18, a Presidência da República propõe que se insira um parágrafo único, especificando as áreas excluídas de regularização de posse. Conforme a proposta, serão considerados de uso público, ou seja, de ocupação proibida, "os imóveis públicos destinados ao uso comum do povo, os de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e de proteção dos ecossistemas naturais, os reservados à construção de represas e obras congêneres e os que constituam vias de comunicação".

A expectativa, agora, é de que a MP venha o mais rápido possível. Somente na cidade de São Paulo, como divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 75% das favelas estão em áreas pertencentes ao poder público ou empresas a ele relacionadas, caso da Favela Heliópolis, que se encontra em terras da Cohab. O arquitetoNabil Bonduki, vereador pelo PT em São Paulo, está entre os que esperam agilidade na emissão dessa MP. No restante, sua avaliação do Estatuto da Cidade é muito positiva.

Instrumento poderoso

Para Bonduki, o Estatuto da Cidade dá ao município maior poder de intervenção no combate à especulação imobiliária e estimula o planejamento ordenado da cidade por meio do Plano Diretor. "Nunca se deu muita importância para o setor urbano no Brasil. Temos que tirar o atraso. É por isso que as grandes cidades brasileiras encontram-se na situação em que estão, inchadas e repletas de problemas. A reforma agrária, talvez porque o Estatuto da Terra exista há tanto tempo, tem sido mais discutida e privilegiada do que a reforma urbana. O Estatuto da Cidade constitui um avanço no sentido de tirar esse atraso."

Haroldo Pinheiro, presidente da Direção Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), compara o Estatuto da Cidade à Lei de Responsabilidade Fiscal. "Como esta, o Estatuto da Cidade representa uma lei de responsabilidade social na gestão urbana, na medida em que obriga os prefeitos a gerirem a cidade de forma mais transparente, mais democrática e estabelece diversas instâncias de consultas públicas. É uma espécie de caixa de ferramentas para a aplicação dos preceitos constitucionais, a fim de fazer valer o objetivo principal que é a função social da cidade."

Carlos Fernando Andrade, presidente do IAB-Rio de Janeiro, diz que o Estatuto da Cidade é um instrumento poderoso, mas tudo dependerá do uso que a cidade lhe der. "Como um instrumento musical, alguém tem que saber tocá-lo. A cidade vai ter que elaborar um bom Plano Diretor e preparar pessoal para colocá-lo em prática." E com ele concorda Nabil Bonduki, para quem o grande desafio colocado ao gestor urbano pelo Estatuto da Cidade, além de toda a pressão que este sofrerá, é dar maior qualificação ao pessoal técnico encarregado de implementá-lo na administração pública. No IAB-SP, o presidente Gilberto Belleza destaca na lei a importância do IPTU progressivo sobre solo e imóveis não utilizados ou subutilizados, principalmente em relação à cidade de São Paulo, que se expandiu horizontamente de forma brutal, enquanto áreas já dotadas de boa infra-estrutura possuem muitos terrenos e edifícios vagos.

O artigo 5Ί do Estatuto da Cidade, que trata do IPTU progressivo, é realmente um dos mais polêmicos. Nesse caso o município pode intimar os proprietários a construírem nos terrenos ou loteá-los. Se isso não ocorrer, pode tributar o imóvel até a alíquota máxima de 15%. Ao fim de cinco anos, permanecendo a situação, a prefeitura pode desapropriar o imóvel pagando o valor fiscal com títulos da dívida pública.

A direção do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi) afirma que o item não poderia ser aplicado a imóveis edificados. "O que preocupa o Secovi é a interpretação que se dará a solo não edificado, subutilizado ou não utilizado", explica Eduardo Della Manna, diretor de Legislação Urbana da entidade. "Há correntes radicais achando que qualquer edificação que não estiver sendo utilizada deverá ser passível de IPTU progressivo e ao fim de cinco anos desapropriada. A melhor argumento foi dado pelo presidente do Secovi, Romeu Chap Chap." Segundo Chap Chap, "existem casos de imóveis ou de terrenos vagos com litígios familiares ou de herança em discussão, o que é muito diferente de ter um imóvel deliberadamente desocupado, visando à especulação imobiliária."

O advogado tributarista Ives Gandra Martins é de opinião que esse impasse somente será resolvido nos tribunais. "A progressividade é possível nos impostos pessoais, como o Imposto de Renda, e não nos reais, que incidem sobre coisas, como o IPTU. Não há aí uma inconstitucionalidade manifesta, que qualquer aluno de primeiro ano de Direito consegue detectar. É o tipo de coisa cuja interpretação definitiva só o Supremo Tribunal Federal pode dar." Mas há quem não veja nenhum problema constitucional no IPTU progressivo.

O advogado parecerista de questões urbanas Paulo José Vilela Lomar, chefe da Assessoria Jurídica da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo (Sempla), diz que entrar na Justiça é direito de todo cidadão, mas as chances de obter sucesso nesse caso é quase nenhuma. "Desta vez o IPTU progressivo está autorizado não só na Constituição, em seu artigo 182, parágrafo 4, como também pelo Estatuto da Cidade, que autoriza expressamente a progressividade. Então, na minha opinião, do ponto de vista da inconstitucionalidade, esse argumento de que o IPTU progressivo é confiscatório é falso. Com ele, a lei induz o cumprimento da função social da propriedade."

Na Sempla, o titular da pasta, arquiteto Jorge Wilheim, que chegou a colaborar com estudos para o projeto original do Estatuto da Cidade, ainda em 1989, vê com otimismo a chegada da lei disciplinadora da questão fundiária nas cidades. E adianta para até o final deste ano um projeto de Plano Diretor para São Paulo, a ser colocado em discussão com toda a sociedade.

Para o senador Mauro Miranda, daqui para a frente o importante é divulgar o Estatuto da Cidade entre os milhares de prefeitos do país. "Acima de tudo, fundamental é que esses prefeitos formulem planos diretores atrevidos, que em vez de espalhar a cidade horizontalmente, atraiam as pessoas de volta às áreas com infra-estrutura urbana já instalada e paga. O Estatuto da Cidade resulta de muito trabalho e do apoio de muita gente pelo Brasil a fora, gente aí de São Paulo inclusive, como as arquitetas Hermínia Maricato e Regina Meyer, da FAUUSP. Agora é difundí-lo para que também a sociedade possa exigir o cumprimento da função social da propriedade em território urbano."

Gestação demorada
Remonta ao ano de 1963 o primeiro marco do Estatuto da Cidade, segundo o presidente da Direção Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Haroldo Pinheiro. Na época, a entidade promoveu um importante seminário no Rio de Janeiro e em São Paulo, que se tornaria conhecido como Seminário do Quitandinha. Pela primeira vez, e com a veemência requerida, debateu-se em profundidade a questão da habitação e da necessidade de uma reforma urbana que levasse em consideração o conjunto das cidades brasileiras. O Brasil ainda era um país predominantemente rural — entre 60% e 70% da população viviam no campo. Tudo indicava, no entanto, que a situação se inverteria dramaticamente nas décadas seguintes, com o inchaço crescente das cidades. Mesmo assim, o marco seguinte apenas viria a se materializar 24 anos depois, quando forças organizadas da sociedade civil, IAB entre elas, conseguiram que parlamentares constituintes incluíssem na Constituição de 88 artigos estabelecendo uma política urbana para o país, os de número 182 e 183. A intensidade da participação popular deu origem, inclusive, ao Fórum Nacional de Reforma Urbana, hoje sob coordenação de Grazia de Grazia. Na seqüência, como esses artigos da Constituição Federal exigissem regulamentação, o senador Pompeu de Souza, do PMDB-DF, incumbiu-se de elaborar o Projeto de Lei 181 do Senado Federal, precursor do atual Estatuto da Cidade, que rapidamente, no ano seguinte, seria aprovado pelos senadores, mas ao ser encaminhado à Câmara, ficaria dez anos adormecido. Uma emenda ali, outra acolá, procedimentos protelatórios, somente em 1999 o deputado Inácio Arruda, do PC do B-CE recebeu a tarefa de ser o relator do Estatuto da Cidade, na Câmara. "Arruda, contando com o empenho do deputado Ronaldo César Coelho, do PSDB-RJ, conseguiu ordenar as emendas e harmonizar não só as diversas tendências na Câmara como também dialogar com os movimentos populares de base e entidades não governamentais voltadas às questões urbanas, e, assim, formular um substitutivo ao Projeto de Lei do Senado, que levou o número 5.788, e foi aprovado pelos parlamentares no ano passado", lembra Haroldo Pinheiro. No Senado, como ocorrera com a primeira versão, o substitutivo do Estatuto da Cidade teve aprovação em tempo recorde, meados de junho deste ano, graças ao empenho do senador Mauro Miranda, do PMDB-GO, sendo então encaminhado à sanção da Presidência da República. "Trata-se de um documento há muito esperado e que, apesar de requerer medida provisória que dê uma solução ao problema criado pelos vetos aos artigos 15 a 20, cria novas regras para o uso do solo urbano e instrumentos para que as prefeituras regularizem, ao menos num primeiro momento, áreas como favelas situadas em terrenos privados", diz Haroldo Pinheiro. Hoje, mais de 80% dos brasileiros concentram-se em cidades, algumas, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, caoticamente urbanizadas.


Promessa de mudança para as cidades por Regina P. Meyer
Vivemos, como é notório, um momento histórico para as cidades brasileiras pois estão se conjugando três aspectos de grande força: o "planejamento urbano" clássico perdeu a autoridade como ação norteadora do desenvolvimento urbano, seu sucessor, o denominado "planejamento estratégico", não ganhou ainda a confiabilidade necessária para que se torne uma real alternativa e, acima de tudo, nossas cidades são produzidas dentro dos mais altos índices de liberalidade urbana. Pois bem, é justamente nessa encruzilhada sombria que é aprovada no Congresso Nacional e sancionada pelo presidente da República a Lei de Desenvolvimento Urbano que se propõe enfrentar os mais contundentes problemas das cidades brasileiras. A atormentada trajetória desse projeto de lei, desde a formulação até a sua aprovação e sanção, evidencia os interesses com quais esteve e estará colidindo. Num país em que a leis são submetidas à classificação binária da "lei que pega" e "lei que não pega", é preciso que a sociedade tenha todos os meios de agir e reagir a qualquer ameaça aos seus interesses.

A leitura da Lei de Desenvolvimento Urbano – o Estatuto da Cidade – nos reanima, pois dá uma clara impressão, como se diz em linguagem corriqueira, que o seu texto marca uma reação à altura da ofensa. No seu conjunto, nos artigos, nos parágrafos, nas disposições e diretrizes, tudo converge para o nó górdio da questão urbana contemporânea no Brasil, qual seja, os limites que o Estado deve impor aos interesses do capital nas suas relações com a cidade. As análises acadêmicas já haviam colocado com clareza cristalina, desde os anos 60, que os problemas urbanos no Brasil eram estruturais. De lá para cá os novos conteúdos da problemática urbana estão constantemente confirmando as teses já levantadas. Esse é o caso das questões ecológicas que se somaram de forma contundente aos problemas mais triviais do passado. A legislação urbanística não desconheceu essa escalada e reagiu com leis que procuraram criar limites e disciplinar o direito de propriedade em favor de interesses coletivos. Relendo-as podemos concluir que as leis, independentemente de suas qualidades e acertos, não conduzem um processo de urbanização e nem tampouco de urbanificação, isto é, de melhorias urbanas.

Portanto, apesar da necessidade de manter o sentido crítico e, sobretudo, de não desprezar a nossa experiência histórica, trata-se agora de saudar o novo instrumento, duramente conquistado como já disse, que representa hoje mais que uma esperança para as cidades brasileiras, espaços onde moram 82% da população brasileira. Para tanto é preciso olhar adiante, e olhar adiante nesse momento significa entender como o "valor social da propriedade" poderá efetivamente tornar-se um instrumento de intervenção na cidade existente. É uma diretriz de grande destaque no Estatuto da Cidade a garantia do direito a cidades sustentáveis. Para que a sustentabilidade não se torne mais um jargão de turno a LDU é clara: é necessário assegurar o acesso amplo à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos. Enfim, está ali colocada a questão do "direito à cidade" em termos muito próximos daquele que Henri Lefèbvre já havia apontado em 1972, isto é, a justa distribuição dos benefícios do crescimento econômico presentes no espaço urbano para o conjunto da sociedade.

Com base em três instrumentos de alto alcance social e econômico, o Estatuto busca garantir o cumprimento da função social da propriedade urbana de forma efetiva. Os três elementos dessa revolução são: o caráter compulsório do parcelamento ou edificação, o imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo e a desapropriação para fins de reforma urbana. Cada um desses elementos é por si só um tremendo avanço; associados poderão criar um recomeço para o problema urbano brasileiro. Ao lado destes instrumentos, é preciso enfatizar o papel radical que poderá alcançar a regularização fundiária elevada à condição de diretriz da política urbana. Atende-se através dos instrumentos de regularização fundiária um dos mais graves problemas urbanos brasileiros, pois há casos, como o de Recife, em que 50% da sua área urbana é definida como ilegal.

É difícil não reconhecer o avanço introduzido pelo Estatuto da Cidade. No entanto, seria equivocado não perceber os riscos de se verem frustradas as expectativas de transformação. Sem enfrentar e vencer as próximas batalhas, o Estatuto da Cidade poderá tornar-se mais um instrumento perfeitamente formulado mas estéril na sua aplicabilidade. A luta agora muda de patamar. O Governo Federal oferece aos municípios um instrumento e uma grande responsabilidade de iniciar o processo de transformação urbana, de espalhar por todo o país uma urbanização responsável. Caberá à sociedade estimular e fiscalizar os municípios para que daqui para frente estes apliquem as diretrizes gerais do Estatuto sancionado pelo presidente, de acordo com as especificidades de cada município e da realidade local, através da Lei Orgânica Municipal e do Plano Diretor.



  Entrevista  
Unir forças por São Paulo

(Ana Maria Ciccacio e Jule Barreto)


LUIZ GONZAGA BELLUZZO


Estudioso de Marx, Ricardo e Keynes, da inflação e das contradições do capitalismo brasileiro, o economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo tem duas paixões declaradas — o Palmeiras e a cidade de São Paulo. Autor de muitos livros (como O Senhor e o Unicórnio e Valor e Capitalismo) e ensaios, falta a esse paulistano de 58 anos escrever sobre a sua cidade. Comprometeu-se, agora, a fazê-lo. O livro, para a Editora Record, conterá desde suas vivências de infância e juventude na provinciana São Paulo dos anos 40 e 50 até uma radiografia da sociedade e da economia da metrópole, a exemplo do que escreveu o colega Carlos Lessa sobre o Rio, para a mesma coleção. Anunciado algumas vezes mas ainda sem texto final, os leitores terão que esperar. Enquanto isso, urbs foi ouvir esse ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do governo Quércia falar sobre as perspectivas de São Paulo como metrópole do capitalismo global avançado inserida no quadro das mazelas brasileiras. A saída é atacar frontalmente problemas como a exclusão social, a recuperação do Centro e o aperfeiçoamento da infra-estrutura. Prefeitura e Estado deveriam unir-se nesse esforço.

urbs – Depois de O Rio de Todos os Brasis, do economista Carlos Lessa, que inaugurou a coleção Metrópoles da Editora Record, é a vez do seu livro sobre São Paulo, não? Há uns dois ou três meses a editora chegou a anunciá-lo para julho.

Luiz Gonzaga Belluzzo – Infelizmente não. Eu avisei à editora que não havia como escrevê-lo. Estava terminando um livro sobre a economia brasileira, demorei demais para terminá-lo. Expliquei isso... Preciso de um pouco mais de tempo.

Bem, o livro do Lessa foi um aperitivo maravilhoso. E agora?

Cheguei a argumentar que havia gente mais habilitada do que eu para escrever o livro, como o Nicolau Sevcenko, que acaba de publicar um trabalho belíssimo sobre a cidade. Insistiram em que fosse eu. Por que eu? Porque, disseram eles, você tem uma grande identificação com a cidade. Sim, mas outros também têm... De qualquer forma, eu ficaria sem identidade se não me reconhecesse como paulistano.

Está bem! Vamos ter mesmo que aguardar seu livro. Mas explique essa identificação com São Paulo.

O Palmeiras é um desses elos de identidade... Creio que vivi e assisti a um momento importante da transformação da cidade provinciana em metrópole. Causou-me impressão muito forte e definiu a minha visão da vida social ter assistido, creio que em 1947, eu ainda pequeno, a uma queima de ônibus na Praça da Sé. Na época o Partido Comunista ainda era legal. Essa manifestação popular na Sé me permitiu entender o que significava esta cidade, o seu metabolismo social. Naquela ocasião a população operária paulistana era muito européia — não há nisso nenhum juízo de valor, apenas uma constatação —, as migrações internas no Brasil ainda eram relativamente pequenas, e eu, neto de imigrantes, tentava entender o que se passava, a conformação que a cidade assumia. Morava na Liberdade e ia muito ao Belenzinho, ao Brás, freqüentava o Colégio São Luís, também ia aos Jardins. A cidade, àquela época, já era muito interessante. Ela seria outra se tivesse havido uma visão estratégica do futuro. Resumindo, vi a passagem da província à metrópole industrial e desta à desordem de hoje.

Em 1947 São Paulo era uma pré ou protometrópole, com carências imensas, sem saneamento, sem metrô...

Mas, apesar disso, era uma cidade, digamos, elegante, relativamente ordenada, com seus bairros operários... Estava longe da deformidade monstruosa de hoje. Lembro-me de que minha avó foi morar num bairro distante, que hoje é pertíssimo, e o carro atolava na lama a cada viagem que fazíamos para visitá-la. As deficiências de infra-estrutura eram grandes, principalmente de saneamento. Mas o problema da energia elétrica não era tão grave e o sistema de transporte público, com a CMTC, era público mesmo e melhor do que hoje — apenas não conseguiu acompanhar a expansão da cidade.

Essa São Paulo era melhor para os pobres?

Mesmo para os mais pobres, que nunca foram muito beneficiados pela infra-estrutura, a situação era mais confortável. Não se tinha esse espetáculo de uma periferia completamente abandonada. O Estado não era ausente. Hoje até a polícia tem medo de ir à periferia. Isso não existia, até porque a polícia era considerada exemplar, tecnicamente preparada. A antiga Guarda Civil era uma polícia civilizada.

Quando essa cidade mais humana começou a transformar-se no monstro disforme de hoje?

Mais visivelmente a partir dos anos 60, sobretudo depois do golpe militar de 64. Menos pela força de atração da cidade do que pela força de repulsão das regiões mais pobres. As pessoas começaram a se acumular nas periferias, muito acima das possibilidades de absorção de mão-de-obra. Esse acúmulo de pobreza nas margens da cidade representou uma expansão e uma ocupação do solo absolutamente irracionais. Lembro-me que, no começo dos anos 70, o economista italiano Paolo Ciro Zarbini veio ao Brasil, hospedou-se em minha casa, e eu lhe perguntei o que achava de São Paulo. Sua resposta foi: é uma cidade que não tem passado, nem presente, nem futuro.

O que ele queria dizer?

Que é uma enorme diversidade de estilos, uma falta de uniformidade arquitetônica... Com as coisas sendo construídas e destruídas sucessivamente, sem formar uma seqüência. Ele, que participava de uma campanha contra a especulação imobiliária, imaginem vocês, em Roma, me disse que seria inconcebível que uma cidade européia tivesse tal falta de controle de uso do solo e de distribuição das áreas entre as várias atividades. Tudo isso, para mim, é particularmente penoso. Talvez eu faça uma avaliação dessa São Paulo mais favorável do que deveria ser. Quando a vivi nos anos 50, talvez a visse pelos olhos ingênuos — mas nem tanto, meu pai sempre me informava sobre as coisas — de uma criança. De qualquer forma, o declínio da vida urbana civilizada em São Paulo é um fenômeno que se acentuou muito nos últimos anos. Temos uma boa oferta de espetáculos, de bens culturais, mas a verdade é que mal conseguimos usufruir dessa rica estrutura que a cidade oferece porque a vida, aqui, é muito desconfortável.

Pergunta hoje um tanto desmoralizada: faltou, e falta, planejamento?

Quando se fala em planejamento, logo perguntam: em que mundo você pensa que vive? Hoje não existe mais isso, imagine! Não é assim, é preciso manter alguma capacidade de coordenação.

Não é a mão invisível que vai...

Não é a mão invisível que vai resolver os problemas da cidade. Foi ela, aliás, que a levou ao estado em que hoje está, junto com a mão visível de alguns malandros.

De qualquer forma, a São Paulo dos anos 40 ou 50 era uma cidade que quase nada tem a ver com a metrópole atual. A São Paulo de hoje é tão essencialmente diferente daquela que parece impraticável um discurso de identidade, uma utopia urbana lastreada na memória de um passado mais ou menos recente. Esse, sim, é o caso do Rio, como se percebe no livro de Carlos Lessa. Mas São Paulo é uma cidade global de periferia ou semi-periferia, uma formidável máquina econômica e cultural, com uma organização social explosiva.

São Paulo pode ser comparada à Los Angeles de Blade Runner. Com enormes desigualdades e diversidade cultural e étnica que pouquíssimas cidades do mundo têm, talvez só algumas americanas. Não encontra paralelo na América Latina, nem Buenos Aires, México ou Rio. O fato é que a metrópole industrial que é a capital do Estado mais industrializado do Brasil está se transformando num grande centro financeiro e de serviços, em algo que é preciso qualificar melhor. Houve algum deslocamento de fábricas, mas a cidade não perdeu suas características industriais. Até os anos 70 era apenas o centro industrial do Brasil, depois capturou a primazia também na órbita financeira. Ao contrário do que se costuma dizer, não vem perdendo a primazia no cenário brasileiro.

E na esfera cultural?

O (Carlos) Lessa é meu amigo querido e não quero atiçar rivalidades (risos), mas São Paulo tem uma incomparável riqueza cultural, e não só nas artes plásticas ou na literatura, mas na produção científica. Na minha opinião, a cidade pouco aproveita esse potencial. O Centro deveria se transformar num grande espaço de cultura, e não só para as artes, o cinema, os vernissages, o teatro. A cidade tem um potencial enorme para desenvolver em grande escala a produção de software. Falta um prefeito com a coragem de investir nisso. Seria economicamente muito vantajoso também para a Prefeitura. Cresceriam muito a receita pública e a renda derivadas dos serviços. Estado e Prefeitura poderiam se unir para estimular essa economia, em vez de entrar na guerra fiscal para atrair indústrias convencionais.

Que papel teria o Centro nessa alavancagem econômica?

Quando meu amigo Aluísio Nunes Ferreira (atual secretário de Assuntos Políticos da Presidência da República) foi candidado a prefeito de São Paulo, recomendei-lhe que, em sua plataforma de governo, começasse por uma reestruturação do Centro. E como se faz isso em qualquer cidade do mundo? Ocupando o Centro com atividades que atraiam as pessoas. Os últimos prefeitos que tivemos não se preocuparam com o Centro.

No caso dos dois últimos, que já se foram, foi pior que isso. Houve má vontade e incompetência. Além disso, o Centro sempre foi um grande negócio em termos de propinas e extorsões.

Maluf é um gerador de problemas para a cidade. Ele corresponde muito a essa visão predadora que boa parte das pessoas ainda tem de construir coisas, fazer obras, deslocar o engarrafamento de um lugar para outro, sem uma visão coerente da cidade. Do jeito em que as coisas agora estão, eu temo que o prefeito, no caso a prefeita, se limite a tratar dos problemas mais imediatos. Na minha opinião, ela deveria convocar os habitantes para um esforço conjunto, e os arquitetos, os urbanistas, os engenheiros, os comunicadores, os técnicos e até os economistas podem dar uma contribuição importante para repensar a cidade. São Paulo está assumindo uma trajetória assustadora. O Centro se deslocou para a Paulista, depois foi para a Faria Lima, agora está na Berrini...

Ensaia deslocar-se para a região da Rua Verbo Divino...

É uma cidade nômade. Hoje a Paulista já é uma zona decadente.

Como São Paulo e região metropolitana poderão manter o seu protagonismo de cidade global? Até que ponto os seus problemas vão comprometer a permanência aqui dos comandos, das fontes de financiamento e tecnologias de ponta, dos serviços avançados, dos nós de articulação com as redes e mercados mundiais?

Ninguém nega que vai ser altamente positivo para São Paulo transformar-se num protagonista global. Pois bem, como vai desempenhar esse papel com um alto índice de criminalidade, de miséria, de ineficiência, um trânsito caótico, um sistema de telecomunicações ainda insuficiente? A cidade exige uma resposta adequada do ponto de vista de sua concepção urbana. Precisa desenvolver o potencial de prestação de serviços avançados, que são catalisadores da rede de relações econômicas que está se estabelecendo a partir da reestruturação da economia mundial. Isso exige um setor público muito ágil e previdente, capaz de se antecipar ao que vai acontecer. Para que se consolide como metrópole global, ainda que da periferia ou semi-periferia do sistema, São Paulo exige do setor privado, e sobretudo do setor público, essa capacidade de prever e antecipar-se.

Não faltaria à cidade um projeto estratégico?

Claro, esse é o drama de uma cidade como São Paulo, que passa a participar dos fluxos e redes globais num país pobre e desigual, com as carências nacionais nela se reproduzindo de forma aguda. Isso pode ser resolvido se tivermos uma estratégia e meios de financiamento adequados. Naturalmente que os desequilíbrios acumulados, que resultam nesse depósito de populações muito pobres nas periferias, só se resolverão com um ataque frontal, não com as políticas atuais. Estas são simplesmente formas de manter a situação mais ou menos como está.

Quer dizer que sem fortes e conseqüentes políticas sociais São Paulo não se sustenta como metrópole global?

Não há como consolidar a cidade como nó importante da rede global sem que se resolva o problema da marginalização de sua população. E isso exige políticas sociais avançadas, que resgatem esses contingentes de sua condição de penúria extrema. Além disso, é preciso que essas pessoas sejam preparadas para participar da nova realidade. Já não é mais o tempo em que o migrante vinha para cá, aprendia a ser torneiro mecânico dentro da empresa. É muito mais complexa e completa a formação que ele precisa ter. Não adianta fazer programas de treinamento curtos. E sim programas de longo prazo para integrar de fato essa população. Se não podemos por um lado negar a vocação global de São Paulo, por outro temos de reconhecer que uma metrópole de país subdesenvolvido, com todas essas características negativas de que falamos, não vai ver seus problemas dissiparem-se espontaneamente, sobretudo o da exclusão social. É preciso muita visão estratégica e jogo de cintura.

Voltemos ao Centro de São Paulo, e aqui falamos em área central, incluindo-se bairros centrais e grandes áreas semi-abandonadas ao longo da ferrovia. Essa necessária estratégia de desenvolvimento econômico com inclusão social não poderia começar nessa região, a mais bem equipada de infra-estrutura e também a mais negligenciada? A área central não poderia ser o modelo dessa metrópole global e socialmente equilibrada de que estamos falando?

Seria muito mais racional adensar e modernizar o Centro, aproveitando-se melhor a infra-estrutura instalada. Isso facilitaria tudo, inclusive — se você quiser — o policiamento da cidade. Mas prevalece o modelo de expansão irracional de que já falamos, conduzido por administradores corruptos e pela especulação imobiliária. Foi isso que levou à atual conformação da cidade.

Como deveria ser instrumentalizada uma política de recuperação e desenvolvimento da área central da cidade?

Estou aqui como sapo de fora... Quem deveria explicar isso são os urbanistas, não um economista. Mas eu penso numa agência constituída pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, com a participação de agentes privados, como instrumento de elaboração de projetos abrangentes e de mobilização de recursos, tendo em vista essa característica global que a cidade vem assumindo. Creio que devem ser projetos esteticamente e culturalmente atraentes, feitos para o trabalho, a moradia e o lazer.

O abandono do Centro e dos bairros centrais adensáveis é o maior escândalo de desperdício numa cidade que precisa urgentemente dinamizar sua economia e a ela integrar sua população, não lhe parece?

É aglomerando que você utiliza melhor a infra-estrutura. O desperdício se traduz no deslocamento dos centros e das atividades. Não haveria sinal mais claro de que retomamos contato com a civilização do que a recuperação do nosso Centro, com o aproveitamento de sua infra-estrutura e do potencial de uso e freqüência pelas pessoas.

As cidades globais são, muitas vezes, semelhantes a enclaves territoriais, mais ligadas às suas iguais no mundo do que ao próprio hinterland. Já São Paulo tem na retaguarda o território articulado e dinâmico do Estado e com ele mantém estreita interrelação. Isso nos dá, creio, uma enorme vantagem comparativa. Não seria o caso de melhor fomentar e planejar essa integração?

São Paulo tem realmente essa vantagem. É o que, na minha opinião, impediu que a catástrofe da política econômica do país fosse maior aqui. Mas não podemos nos esquecer de que o que ocorreu com a Capital está se reproduzindo nas cidades do Interior. Campinas tinha, à época em que fui trabalhar na Unicamp, uns 350 mil habitantes, hoje tem um milhão. Atraiu muitas indústrias intensivas em tecnologia. A região é o segundo pólo industrial do Brasil, mas a cidade tem os mesmos problemas que encontramos em São Paulo: favelização, desemprego, violência...

O centro de Campinas não transmite uma idéia da importância da cidade.

Em 30 anos houve uma forte deterioração do centro de Campinas, antes civilizadíssimo. Pois esse padrão vem se reproduzindo também nas cidades médias do Estado, algumas delas com índices de criminalidade às vezes maior que os de São Paulo.

Quais as causas?

Só para ficarmos no aspecto da infra-estrutura, nota-se que o Estado mantém uma grande diferença em relação aos demais Estados, é só cruzar a fronteira para perceber. Basta olhar as rodovias. Mas a nossa rede ferroviária, que nos daria uma vantagem relativa adicional, foi totalmente sucateada. Nos últimos anos esse conjunto de problemas se agravou pela queda no nível de investimento público. Mas ninguém está dizendo que é uma situação insolúvel. O Estado de São Paulo ainda dispõe de uma vantagem relativa, tem um sistema econômico mais ou menos integrado, com uma agricultura muito produtiva. Talvez seja o caso de pensar numa estratégia agrícola um pouco mais diversificada. De qualquer forma, prefiro ser governador de São Paulo do que presidente do Brasil (risos).

Fala-se em queda da participação do Estado no PIB nacional, mas esta estabilizou-se em 35% ou 36%, um índice muito alto. Fala-se ainda num esvaziamento econômico, com a fuga de indústrias.

A idéia é equivocada. O que há é uma mudança na composição da indústria paulista, com o crescimento dos setores mais intensivos em tecnologia. A guerra fiscal apenas deslocou uma boa parte das indústrias de alimentos, do setor têxtil...

Do automobilístico...

Só em parte. O automobilístico continua em larga medida concentrado aqui. O que se moveu para cá, verdadeiramente, foi a indústria eletro-eletrônica e de telecomunicações. Esta está localizada basicamente em torno da cidade de São Paulo. Temos que distinguir dois fenômenos: o efeito de centralização e o baixo crescimento da indústria em termos gerais. Apesar de não ter havido essa propalada perda de substância econômica em São Paulo, o fato é que o baixo crescimento contribuiu para agravar alguns desequilíbrios já observados na década anterior. A nova industrialização absorve menos mão-de-obra. Esse aspecto, conjugado com um baixíssimo nível de investimento público, levou a uma queda no nível de emprego ainda nos anos 80. A faixa de emprego desceu de patamar, e isso muito menos pelas transformações tecnológicas que ocorreram na indústria, que são naturais e eram esperadas, e muito mais porque o setor público — governos federal e estadual — investiu pouquíssimo. Esse é o responsável maior pela elevada taxa de desemprego em São Paulo. O desemprego relativamente baixo dos anos 80 deveu-se sobretudo ao emprego no setor público. Depois, à crise da economia, que não foi vencida pela estabilização, adicionaram-se fatores de desgaste social como o desemprego, uma alta taxa de criminalidade, uma quebra na qualidade dos serviços públicos.

Para encerrar, vamos tocar num assunto que deixa as pessoas eriçadas à esquerda e à direita, um tabu. São as dezenas de milhares de camelôs que brotam do desemprego e da pobreza e tomam conta da cidade, reproduzindo esse padrão de exclusão. Confundem-se com o crime organizado, com o roubo de cargas rodoviárias, com a sonegação de impostos. No entanto, revelam uma tremenda capacidade de sobrevivência e de empreendimento. A transformação do camelô em micro-empresário, com acesso ao crédito e integração à economia produtiva, como recomenda o economista peruano Hernando de Soto, não lhe parece possível e desejável?

Nem sempre concordo com as análises de Hernando de Soto, mas nesse caso ele tem razão. Como têm razão os que reclamam a criação dos chamados bancos do povo. É preciso integrar os pobres, incluindo-se aí os camelôs, nos circuitos legais da economia. Em primeiro lugar, garantindo-lhes o acesso à propriedade. Em segundo, assegurando o acesso ao crédito. É preciso realizar as duas coisas, mas esse exercício não será feito espontaneamente pelo mercado. O Estado é que tem que criar as instituições capazes de garantir a democratização da propriedade e do crédito. Ou seja, sistemas de crédito públicos, sistemas públicos de transferência de propriedade é que asseguram a participação dos pobres nos circuitos econômicos. E, já que estamos falando na recuperação do Centro, talvez seja ela a oportunidade para que os camelôs adquiram propriedade em condições adequadas e possam gerenciar o seu negócio, porque têm clientela e encontram uma forma de baratear o custo da comercialização para os consumidores de mais baixa renda. O que não se pode fazer é perpetuar a ilegalidade.

  Cultura  
Histórico e Geográfico em busca de apoio

Dificuldades abalam a instituição que, no entanto, já tem um projeto para reaver sua importância e melhor atender à comunidade

Ana Cândida Vespucci
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Se as gestões ora empreendidas lograrem êxito, o venerando Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, fundado há 107 anos, deverá passar em breve por ampla modernização, conforme projeto concebido para reforçar o seu papel de importante centro de pesquisas. Ao ser instalado em 1894, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, e ainda durante muito tempo após transferir-se, em 1954, para a sede própria que ocupa até hoje na Rua Benjamin Constant, toda a vida intelectual da metrópole confluía para o Centro.

Desde que construiu sua sede própria, a instituição vinha alugando espaços disponíveis no edifício com o objetivo de garantir a independência econômica que lhe permitia dispensar os sócios da contribuição mensal e os aportes financeiros da Prefeitura e do Estado. Com o declínio do Centro e a saída de muitos inquilinos do edifício, os recursos foram minguando. Até 1996, o grupo Itamaraty, que se estava no prédio havia 33 anos e ocupava o térreo e outros andares inteiros, além de arcar com as despesas de água, energia e segurança, permitiu que a receita ao menos se equiparasse às despesas. A saída da empresa e de outros inquilinos consumiu, no entanto, as sobras de caixa. Hoje os gastos de manutenção superam os recursos em 100%.

Pelos cálculos do presidente Roberto Machado Carvalho, "há muito não temos superávit". Não que a instituição tenha, em outras épocas, experimentado alguma largueza. Segundo a secretária da administração Sandra Maria de Souza Cruz, nunca foi possível submeter o acervo de jornais, documentos, livros e outros testemunhos raros da história do País a um processo que garantisse a sua preservação, achando-se ele acondicionado em cartolinas amarradas com barbante.

São duas as frentes prioritárias em que o Instituto quer atacar. A primeira é voltar a garantir as despesas de manutenção e funcionamento. A outra é tratar da preservação de seus bens e da implantação de modernos mecanismos de consulta.

Acervo

A instituição mantém um arquivo, uma hemeroteca, um museu e uma biblioteca. Entre os 8 mil títulos da Hemeroteca Júlio de Mesquita encontra-se, por exemplo, a coleção completa do Correio Braziliense, primeiro jornal do País, publicado em Londres em 1808, que pregava a Independência e chegava ao Brasil clandestinamente. O arquivo reúne documentos raros, como atas da Assembléia Legislativa, a primeira planta da cidade de São Paulo, de 1910, doada pelo francês Jules Martin, construtor do primeiro Viaduto do Chá, além dos arquivos de Armando de Salles Oliveira, Washington Luís e Alfredo Mesquita. A Biblioteca Afonso de Taunay dispõe de 70 mil livros, com duas salas especializadas no Império e na República, enquanto o Museu José Bonifácio contém um dos mais importantes acervos da Revolução Constitucionalista de 1932.

O projeto de reorganização será garantido por convênios com as universidades de São Paulo (USP) e Estadual Paulista (Unesp), que já enviariam estagiários para empreender a recatalogação, recuperação e informatização de todo o material. "São convênios meramente técnicos, portanto dependem de verba", explica o historiador e jornalista Hernani Donato, um dos diretores do Instituto. Para serem executados, basta que a Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa — aprove um financiamento de R$ 2 milhões. A resposta está prevista para este mês. Trata-se, afirma Alexandre Hecker, sócio do IHGSP, de um trabalho meticuloso, demorado e dispendioso, que exige equipamentos especiais e muito caros. "Sem a verba solicitada, dificilmente conseguiríamos desenvolvê-lo."

Acesso restrito

Somada às condições inadequadas de preservação, a falta de caixa para manter a instituição em funcionamento está restringindo o acesso ao acervo. Museu, só com hora marcada. Um único funcionário divide-se entre a biblioteca e a hemeroteca, sendo que esta não abre sem solicitação prévia. Os acervos dos dois espaços só estão disponíveis no período das 13 às 18 horas, às segundas, terças e quartas, com o intuito de liberar o atendente para trabalhos de manutenção na parte da manhã e em dois dias completos da semana.

Sandra Maria de Souza Cruz diz que o Instituto não registra mensalmente mais do que 60 ou 70 consultas — freqüência baixa, levando-se em conta a importância do material que abriga. Mas lembra que com apenas 11 funcionários, entre eles dois ascensoristas, dois vigias e duas faxineiras, dificilmente seria possível atender a um número maior de pesquisadores.
Cogitam-se alternativas para substituir receitas provenientes de aluguéis. Embora haja muito espaço para alugar. os valores praticados na região estão aviltados. Machado Carvalho está mais confiante nas articulações da Sociedade Amigos do Instituto, criada há dois anos para lhe dar suporte.

Presidida pelo advogado Luiz Antonio Sampaio Gouveia, a Sociedade Amigos do Instituto está em ação. "Foi fundada, tem estatutos, diretoria e conselho, um processo complexo que demanda trabalho e tempo. Não é pouco o que fizemos nesse período", diz o presidente. Integrada por nomes como Antonio Candido de Mello e Souza, Modesto Carvalhosa e José Mindlin, o próximo passo da Sociedade será implantar uma política de difusão institucional. "Tenho certeza de que assim os recursos virão", afirma Gouveia.

Seu raciocínio é simples: "Ninguém se interessa em preservar o que não conhece. Poucos sabem que há preciosas coleções de jornais da colônia italiana no acervo. É fundamental sensibilizar a comunidade, democratizando o Instituto para atrair contribuições". Além dos contatos que já vêm fazendo com o objetivo de levantar recursos, Gouveia está empenhado no trabalho de divulgação, para o qual deve contar com a colaboração do jornalista Florestan Fernandes Filho. Alexandre Hecker também acredita que, melhorando suas condições visibilidade, o IHGSP voltará a se tornar um pólo aberto à comunidade.

Machado Carvalho lembra que o acervo, formado a partir de doações, é um bem de interesse da sociedade, o que, na sua opinião, justifica a retomada de aportes financeiros do Estado e do Município, já que voltar a contar com contribuições financeiras mensais de seus sócios seria, segundo Donato, "romper uma tradição".


  Mesa  
Nem só de pão elas vivem

JOÃO PODANOVSKY
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Em números arredondados, os 10 milhões de bocas paulistanas contam hoje, para seus crônicos problemas de fome ou gula, com o pronto socorro de quatro mil padarias. Elas assam diariamente 16 milhões de pãezinhos franceses, além de não sei quantos filões e bengalas, ciabatas e bisnagas, broas e roscas, croissants e baguetes, quase duzentas variedades de pães salgados e doces, sírios e italianos, de trigo ou centeio, simples ou recheados.

Mas será que a função de uma padaria se reduz a fazer pão? Essa instituição quase sagrada tem história. No passado, desempenhou em São Paulo dois outros meritórios papéis. Um como agente criador de algumas especialidades típicas da culinária paulistana. Outro como elemento catalisador da comunidade, fomentador de amizades, ponto de encontro.

Louvação I

Você já leu um artigo, uma página, um parágrafo, uma linha pelo menos, sobre a contribuição das padarias para a formação da culinária paulistana? Talvez tenha lido, isso sim, que culinária paulistana não existe. Que as comidas mais comuns em São Paulo são de fato adventícias: pizza e macarronada são italianas, quibes e esfias são árabes, churrasco é gaúcho, feijoada veio do Nordeste.

Os que ainda teimam com alegações tão simplistas deveriam ir a uma cantina ou pizzaria em companhia de um turista italiano, a qualquer balcão de salgadinhos com um libanês, a uma churrascaria-rodízio com um gaúcho da fronteira, ao Bolinha com algum visitante nordestino. E ouvir atentamente o que diriam os insuspeitos visitantes.

Porque São Paulo mudou tudo, desvairadamente. Simplificou receitas, substituiu ingredientes (aboliu muitos), inventou novo modo de fazer. Freqüentemente, o resultado final distanciou-se demais do modelo original. É a lei da evolução, da qual não escapa a culinária. Houve transposição cultural seguida de acomodação regional, houve paulistanização.

Pois bem, as padarias tiveram papel significativo nesse processo recriador. Em seus fornos (porque há um século só elas tinham fornos), a pizza napolitana – exemplo mais eloqüente – metamorfoseou-se em paulistana. Quibes e esfias viraram salgadinhos de balcão, remotamente semelhantes a homônimos quitutes árabes. O próprio pãozinho francês, existe na França?

Louvação II

Outra missão – cuja relevância não pode ser ignorada pelos sociólogos – historicamente cumprida pela padaria foi a de sempre ela ter sido ponto de encontro para a comunidade. Sobretudo para os homens.

O grupo forma-se aos poucos, ao cair da tarde. Homens de diversas profissões, de diferentes níveis sociais e de escolaridade. Irrealizados experts em futebol e administração pública, utópicos reformadores, quixotescos anarquistas, afinados cantores nélson-gonçalvinos, comentaristas políticos, filósofos, poetas, pândegos, piadistas – variada fauna de palradores halterocopistas. Todos unidos pelo mútuo conhecimento amistoso ou por laços de velha amizade. Nenhuma preocupação com o volume da conversa e das risadas. Pressa também nenhuma: em casa, as mulheres querem sossego no horário das novelas. A padaria é uma ágora grega antiga, onde a liberdade de opinião é garantida pela pureza democrática.

A cerveja – que os antigos romanos chamavam de vinho de cevada – é o combustível habitual do bate-papo. Fosse Cristo, fisicamente, um dos presentes, hesitaria em transformar água nesse vinho, caso acabasse a bebida? Numa festa de casamento, em Caná, não hesitou.

Busca ansiosa

Há anos não freqüento uma roda dessas. Vou procurar uma. Levarei um tema polêmico para provocar debate acalorado. O seguinte parece pertinente ao nosso assunto.

O primeiro milagre de Cristo não foi multiplicar pães para alimentar a multidão. Foi transformar água em vinho, numa festa de casamento. Que lição tirar desses evangelhos? Que o homem, ser social, tem mais precisão de vinho e alegria do que ele mesmo, ser animal, tem necessidade de pão e barriga cheia? Consultemos os engenhosos Vieiras de padaria.

 

Primeira tentativa: a pequena e simpática Alteza no Arouche. Lateral reservada para serviço de bar e lanches, cinco mesinhas em convidativa varandinha sobre a calçada. Ótimos sanduíches, pastéis e coxinhas. Mas onde a clássica roda do intelectualizado papo furado? Estômago feliz, coração carente, debate gorado.

Segunda tarde, Higienópolis, Benjamin Abrahão na Rua Maranhão (220). Belo prédio. Na rampa de acesso, bancos de jardim e mesas sob praianos guarda-sóis. No salão, esplendorosa exposição de incontáveis pães.

Mestre Abrahão! Cara de caboclo árabe, vida novelesca que daria filme empolgante com passagens divertidas umas, lacrimogêneas outras, exemplares todas. Salvo da malandragem por uma fada espanhola aparecida em Ponta Porã (namorada, esposa). De garoto paupérrimo a maior autoridade em panificação e confeitaria deste país, fama espalhada pelo mundo inteiro. Hoje, 76 anos, saúde abalada, conta com sócios preciosos para a administração da elegante padaria: as filhas e genros Mara e Carlos, Shirley e Cláudio.

Freguesia chique, atmosfera burguesa. Onde nossos procurados exegetas? Barriga cheia, coração apertado, debate protelado.

Terceira investida, Praça João Mendes, Santa Teresa. Das padarias em atividade, a mais antiga. O nome vem da rua onde nasceu (1872) e funcionou até a década de 1940. Há seis anos da família Maturana, que promoveu radical reforma: teto rebaixado, paredes espelhadas, balcões frigoríficos revestidos de granito, temerária substituição do forno a lenha pelo elétrico, interminável balcão em L para uma multidão ávida por lanches e refeições à la carte. Modernidade sem passado. Debate impossível.

Quarto pôr-do-sol, Rua Japurá, esquina com Maria Paula, bem em frente à Câmara Municipal. Palma de Ouro. Inaugurada em 1964, nome em homenagem a Anselmo Duarte, diretor premiado em Cannes (1962) com a Palma de Ouro. Comprada em 94 pela família Simão: seu Augusto, pai de Carlos e Jaime Antônio, este pai de Jaime Magalhães. Em agosto de 2000, caprichosa reforma. Resultado deslumbrante. Atmosfera dos anos 60, gosto de época marcado por pastilhas, piso quadriculado em preto-e-branco e outros detalhes Fotos-painéis nas paredes externas e internas ajudam a evocar a São Paulo daqueles anos dourados. Cuidados decorativos de Luciana, a arquiteta, esposa de Jaime Antônio.

Maravilhosos pães, bolos, doces e salgados, degustáveis em estilosas altas mesinhas, ou ao balcão de café e lanches. Em salão anexo, rico bufê variado, por quilo, qualidade assinada pelo jovem Jaime, estudante de Gastronomia (Anhembi).

Muita gente fina, muito político emproado, chance remota de promover nosso debate bíblico-gastronômico.

Última esperança, o boêmio Bixiga. Na Rua Rui Barbosa, a Italianinha é a mais antiga padaria do bairro, iniciada em 1896. Até os anos 60, quando foi comprada pela família Franciulli, era enorme e chamava-se Lucânia. O alargamento da Rui Barbosa tornou a casa apertadinha, mal comportando uma infinidade de pães italianos, queijos e embutidos, vinhos, vinagres e azeites, muitos outros produtos nacionais e importados. O povo se encarregou de rebatizá-la como Italianinha.

Mas já não havia espaço para os conversadores vespertinos, que tinham de se conformar com a calçada. Para eles os irmãos Franciulli (Alexandre, Wílson) abriram ao lado um lugar especial, com chope alemão e cervejas, petiscos e antepastos, massas e cabrito, mesinhas até na calçada: Santo Bar. Abre às 17h (sábado e domingo às 11h), entra pela madrugada. Segunda folga.

Até que enfim nosso debate pôde acontecer. Animadíssimo. das 6 da tarde às 10 da noite. Das bobagens e agudezas proferidas poderia resultar interessante livreto sobre a tese "Beber não é pecado" (lema do Santo Bar), argumentação desenvolvida a partir das bodas de Caná.

Nossa busca não acabou em fracasso por um triz. Deveríamos ter ido à Lapa, ao Brás, à Mo-oca, enfim aos bairros. Por lá teríamos encontrado o que tanto procuramos logo no primeiro dia. Com certeza.


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