ANO V   -   No. 20   -   fevereiro / março 2001
CONTEÚDO DESTA EDIÇÃO

Panorama  Uma agência de desenvolvimento para o Centro
Capa  O Centro além dos trilhos
Cidade Adeus, crack
Entrevista  A cidade que abandonou a si mesma
Em Tempo  Leilão marca os 15 anos da BM&F
Salão Paulista ocupa o prédio dos Correios
...e do Disque-Denúncia
Anote o telefone da Ouvidoria Municipal...
Feira na Júlio Prestes vale a visita
Hotel Eldorado ganha mais conforto
Imagens do Centro na nova sede do Ministério Público
Cultura  Duas Cidades, mais do que livros
Livros  Leia, por uma cidade melhor
Mesa  A esquina de São Paulo
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  Cartas  
Pichação oficial

Constato, com certo aborrecimento, que as novas Administrações Regionais continuam pintando as guias e postes com cal, ajudando a sujar ainda mais a cidade, no caso de um branco-encardido que se confunde com a pichação generalizada, reforçando-a. Ora, essa caiação não tem qualquer sentido e utilidade, enfeia terrivelmente a paisagem urbana, atrapalha a percepção da sinalização regulamentar de trânsito e representa desperdício de dinheiro público. Se Buenos Aires, Nova York, Paris e Cidade do México, entre outras metrópoles, não precisam de guias caiadas, mas apenas de limpeza e manutenção e da sinalização regulamentar, por que São Paulo insiste — e justamente na gestão democrática de Marta Suplicy — nessa borradeira que foi marketing janista-malufista para fingir um zelo administrativo que nunca existiu? Por que não, simplesmente, manter limpas as ruas e equipamentos, como fazem as outras cidades?

Alcione Caxambu
por e-mail


Cinelândia

A Associação VIVA O CENTRO propôs, há alguns anos, uma parceria entre a Prefeitura, o governo do Estado e a iniciativa privada para desenvolver atividades de entretenimento (cinemas, teatros, bares e restaurantes etc.) na Avenida São João e transversais, resgatando a tradição da extinta Cinelândia. A idéia é ótima. Uma Cinelândia ou Broadway paulistana poderia, além de animar a cidade e atrair turistas, gerar milhares de postos de trabalho e multiplicar atividades como hotéis, restaurantes, lojas e serviços especializados. Todas as grandes cidades têm o seu distrito noturno, decorado por uma profusão de anúncios de néon. Até o Rio trata de recuperar o seu, em torno do Teatro Municipal.

Carlos Alberto Pacheco
Goiânia-GO


Belezura urgente

Agora que temos prefeita de verdade e um competente urbanista na Secretaria de Planejamento, sugiro que o desastrado projeto que, sob pretexto de transformar a Avenida São João num boulevard, converteu a mais tradicional via pública do Centro num aleijão urbano, seja imediatamente revisto. As calçadas em dois níveis e o calçadão no trecho inicial da avenida, ao lado do Correio. Para não falar do pórtico absurdamente feio e despropositado na esquina com o Largo do Paissandu, um primor de mau-gosto. Belezura neles!

Josete B. Raymundo
por e-mail


As três últimas administrações da cidade de São Paulo deixaram muito a desejar em termos de preservação, conservação, planejamento urbano. O Centro está abandonado, desvalorizado, pichado, sujo, inseguro para seus moradores e o comércio. (...) As calçadas desniveladas e mal feitas, desiguais, quebradas. Iluminação colocada em local impróprio, sinalização confusa, excesso de placas, falta de faixas de sinalização no solo para pedestres. (...) Precisamos de Administrações Regionais mais atuantes e em sintonia com os moradores, comerciantes, hotéis, empresários, Polícia Militar, bombeiros etc. Se temos que fazer, por que não fazer bem feito? Regularizar e organizar os estacionamentos e a Zona Azul, definir melhor os locais de parada de táxis e ônibus. A fiação elétrica e telefônica nas principais ruas e avenidas deveria ser subterrânea. Mais limpeza, regularidade na coleta de lixo, incentivo a comerciantes e moradores para colaborar, mais postos policiais. Vigilância eletrônica monitorada por câmeras colocadas em pontos estratégicos e grande movimentação e mais visados pelos punguistas.

Pedro Néris
São Paulo-SP


Arte Sacra

Foi a leitura da reportagem sobre o Museu de Arte Sacra, estampada na edição nΊ 19 de urbs, que me animou a revisitar esse belo espaço cultural de São Paulo, desta vez acompanhada de meus filhos e alguns sobrinhos adolescentes. Estive a primeira vez no MAS no começo dos anos 1980, e, confesso, ele não me pareceu tão vistoso e acolhedor como agora. Compensou o prazer de percorrer suas salas renovadas, de admirar as peças do acervo e de ver minha garotada impressionada com a riqueza de detalhes presente no Presépio Napolitano. Espero que outras pessoas também o visitem. E faço votos de que o nosso governador libere a verba necessária para o projeto de ampliá-lo, interligando-o à estação Tiradentes do Metrô.

Silvia Mathias
por e-mail


  Panorama  
Uma agência de desenvolvimento para o Centro

"Só um organismo dotado de capacidade operacional e de recursos técnicos e institucionais será capaz de potencializar a estrutura produtiva do Centro"

Marco Antonio Ramos de Almeida
Presidente da Diretoria Executiva da Associação VIVA O CENTRO


A proposta da VIVA O CENTRO para a requalificação da área central de São Paulo é organicamente inseparável de um projeto mais amplo de cidade. Significa que tão importante quanto as intervenções nas periferias é a existência de um Centro poderoso, multifuncional, democrático e esteticamente capacitado a sintetizar a imagem da metrópole e a imprimir-lhe coesão (e coerência) funcional e simbólica. Além desse caráter aglutinador, o Centro é a região da cidade que oferece maior retorno, em distribuição social de riquezas, qualidade de vida e visibilidade, em relação aos investimentos, públicos e privados, que recebe. Incentivo à habitação, valorização dos espaços públicos, disciplinamento da ocupação do solo e aperfeiçoamento dos serviços públicos fazem parte de um receituário do Centro que tem, como uma de suas premissas, o desenvolvimento de atividades econômicas, pois ele já dispõe de um background econômico que cabe aproveitar ao máximo, em benefício da vocação de cidade mundial de São Paulo e do incremento do emprego e da renda de seus habitantes. São instituições do porte das duas bolsas (BM&F e Bovespa), a melhor infra-estrutura de telecomunicações por fibras ópticas do País e um já significativo número de empresas de serviços avançados, que se beneficiam, ademais, do fácil acesso por transporte público. A tudo isso há que acrescentar o fato auspicioso de que a prefeita Marta Suplicy tem afirmado, peremptoriamente, que a recuperação da área central de São Paulo é uma prioridade de sua gestão.

A Associação VIVA O CENTRO acredita que a tarefa de trazer investimentos privados para o Centro e nele estimular novas e diversificadas atividades, gerando-se um círculo virtuoso de investimentos privados, de receitas públicas crescentes e de mais postos de trabalho, deverá ser assumida por uma agência de desenvolvimento que possa atuar de forma direta, autônoma e com a mesma dinâmica, linguagem e princípios do setor privado que se propõe atrair. A principal vantagem dessa fórmula está na possibilidade de conciliação entre o modo empresarial de agir e a finalidade maior do interesse público. O formato específico que a agência venha a assumir depende de uma análise acurada das condições objetivas em que irá operar e das normas jurídicas e administrativas que a condicionem.

Só um organismo dotado de capacidade operacional efetiva e de recursos técnicos e institucionais será capaz de potencializar ao máximo a estrutura produtiva instalada de uma região extremamente complexa como a área central de São Paulo — centro nervoso de uma região metropolitana com um PIB de U$ 147 bilhões (dado de 1997), equivalente ao de um país como Portugal e maior que o do Chile —, maior pólo bancário do Brasil e destino diário de mais de 2 milhões de pessoas, o que corresponde a 22% do total das viagens intra-metropolitanas. Lidar com a economia de uma área como essa é tarefa para um organismo de estrutura operacional e filosofia de ação tipicamente privadas, porém subordinado a um projeto político-administrativo mais amplo e ao interesse da região e da cidade como um todo.

A sabedoria está em fazer com que o interesse privado e o interesse público não se excluam, mas se complementem. E, por sua polivalência e diversidade, o Centro é um espaço extremamente favorável a essa síntese.


  Capa  
O Centro além dos trilhos

Numa grande e até há pouco desvalorizada região de várzea em plena área central de São Paulo surgem hotéis, complexos empresariais e de eventos e edifícios residenciais de qualidade

ANA MARIA CICCACIO e JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


O rio, antiga barreira, vai ganhar calha mais profunda e água limpa, ou quase. A várzea vem sendo drenada e recebeu avenidas. Do lado oposto do rio, delimitando a várzea no rumo do Centro da cidade, está outra e mais complicada barreira, os trilhos ferroviários. Mas estes estão sendo preparados para os modernos trens metropolitanos que, a partir do próximo ano, vão operar integrados à rede de metrô. Sim, a grande faixa de terra alagadiça tradicionalmente desprezada pela construção civil e pelo poder público tem metrô, e é ao longo de suas linhas — ao norte, nas proximidades da Ponte das Bandeiras e, a oeste, em torno de um imenso terminal intermodal, na confluência dos bairros da Barra Funda e Água Branca — que vem acontecendo, com menos alarde do que nas avenidas Faria Lima e Luís Carlos Berrini, a mais impressionante transformação urbana em curso na Região Metropolitana de São Paulo.

Trata-se de pólos com alguns fortes atributos de centralidade — espécie de expansão do Centro além dos trilhos — e equipamentos ligados à economia moderna. Em dois desses pólos a metamorfose é mais espetacular. No entorno do Terminal Barra Funda, onde já existiam o Memorial da América Latina e os atuais estúdios da TV Record, surgiram no final da última década, em localização até então inimaginável — debruçadas na ferrovia — uma torre de 30 andares de escritórios e as quatro primeiras de um complexo empresarial, num vasto terreno de 95 mil metros quadrados que, na primeira metade do século XX, abrigou diversas unidades das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Outra edificação notável e recente é a nova sede da Federação Paulista de Futebol, com um grande heliponto no topo. A pouca distância dali, na Avenida Francisco Matarazzo, em terreno antes ocupado por dependências da Eucatex, surge rapidamente um magazine da rede internacional Goody’s.

O outro pólo está nas imediações do pavilhão de exposições do Parque Anhembi, onde até há menos de meio século só havia um pequeno aeródromo, o Campo de Marte. É lá que, próximo ao complexo de eventos e compras (dois shopping centers, pavilhão de exposições e recintos de convenções) do Center Norte, inaugurado em 1984, estão sendo projetados e construídos diversos hotéis administrados por redes internacionais, dotados de estrutura de eventos e voltados principalmente ao público de negócios. Um novo pavilhão de exposições, bem ao lado do Anhembi, está sendo lançado neste início de ano.

Vista em toda a extensão, em grande-angular, a região revela um certo vazio entre os dois pólos. Trata-se de um território cujo aproveitamento depende de melhoramentos na infra-estrutura e mudanças na legislação de uso e ocupação do solo (boa parte é Z-8, o que significa uso especial, e Z-2 e Z-3, para ocupação de baixa densidade). Os quarteirões entre a Avenida Pacaembu e a várzea do Bom Retiro são ocupados predominantemente por galpões, cortiços e uma grande favela na confluência dos rios Tietê e Tamanduateí. Mas é nesta faixa depreciada, bem no trevo da Ponte da Casa Verde, que um hotel de cadeia internacional, o Ibis São Paulo Expo, funciona há um ano com aproveitamento recordista de mais de 70%. Lá também estão o legendário e incompleto edifício do Tribunal Regional do Trabalho (o do juiz Lalau), cuja conclusão vai ser executada pela Caixa Econômica Federal, as novas instalações do Fórum Criminal e as duas torres de escritórios de 18 andares do Millennium Business Center, em fase de acabamento, construídas pela Tecnum. Rente aos trilhos ferroviários a Klabin-Segall acaba de lançar o Cores da Barra, conjunto de quatro edifícios residenciais de padrão elevado, com 25 andares cada e um total de 400 apartamentos, em terreno de 13 mil metros quadrados. Por fim, na área também funcionam clubes tradicionais e um gigantesco parque de diversões, o Playcenter. Há, contudo, uma outra fronteira, ainda a ser desbravada. Trata-se dos inúmeros galpões, armazéns e ramais desativados ao longo da ferrovia. Na visão de alguns especialistas, como Tadeu Masano, da Fundação Getúlio Vargas, a Barra Funda e todos os bairros que acompanham os trilhos da antiga Santos-Jundiaí, da Lapa ao Ipiranga, podem dar lugar a núcleos comerciais, residenciais, de lazer e de serviços, unindo a populosa e precária Zona Leste ao afuente sudoeste e recompondo uma das mais profundas fraturas do organismo sócio-urbano de São Paulo (ver o box).

Pode parecer incrível que esse território espremido entre o rio e a estrada de ferro, de uso ainda indefinido e contornos vagos, mas equipado com boa infra-estrutura e situado em ponto estratégico — no eixo de acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos e à rede rodoviária do Estado, e lindeiro ao maior pólo financeiro do Brasil, o Centro — só agora esteja sendo descoberto. Não foi bem assim. Desde os anos 70 a TV Cultura está presente na região. O Center Norte chegou nos anos 80 e a Ricci Engenharia em seguida. A Cultura construiu seus estúdios no extremo oeste da várzea, na divisa com a Lapa, entre o rio e os trilhos e no meio de terrenos vagos, galpões de transportadoras, armazéns e residências operárias. A Ricci, que assumiu e terminou a construção da citada torre de 30 andares, adquiriu o terreno da Matarazzo para erguer um complexo de escritórios e serviços com 14 torres dotadas de tecnologia de última geração. Da mesma forma, a rede hoteleira Accor planejou o Ibis SP Expo, com 280 apartamentos e padrão três estrelas, na Ponte da Casa Verde, apostando no futuro da área e ajudando a fazê-lo. O mesmo se pode dizer do Center Norte, com os três grandes hotéis que está construindo antes que a região seja reurbanizada e embelezada pelos poderes públicos. Na verdade, todos vêm contribuindo decisivamente para integrar à cidade a antiga e esquecida várzea.

Barra Funda

O desenvolvimento de um complexo de escritórios, compras, cultura, lazer e transporte na região do Terminal Barra Funda não se deu por acaso. Além do metrô, do Memorial da América Latina e do interesse da Ricci em construir o Centro Empresarial Água Branca, a Prefeitura, ainda na gestão Luiza Erundina, percebeu o potencial da área e deu início a um projeto de desenvolvimento que ganhou forma de lei em 1995, na administração Maluf — a Operação Urbana Água Branca. Mas a decisão da Ricci de investir às margens da via férrea foi determinante.

"A reocupação de áreas historicamente mais antigas, tornadas obsoletas em sua função original, está acontecendo no mundo inteiro", resume José Stefanes Ferreira Gringo, diretor da Ricci. "O que nos fez olhar para a Água Branca foi o movimento de industrialização no sentido de Sorocaba e Mogi Mirim, criando um novo cinturão industrial em torno da metrópole. A região da Barra Funda e Água Branca é o ponto da cidade mais bem localizado em relação a esse novo cinturão e ao aeroporto internacional e, além disso, dispõe de infra-estrutura de telefonia e transporte de massa". Acrescente-se a esse quadro um estoque de terrenos aproveitáveis estimado em quase 600 mil metros quadrados, fora a gleba da Matarazzo.

A primeira fase do Centro Empresarial está em andamento. As duas primeiras torres de 20 andares, cada uma com 18 mil m2 de escritórios de alto padrão, já foram entregues. Outras duas estarão prontas em agosto. Nessa ocasião deverá ser entregue também a Casa das Caldeiras, um espaço cultural instalado na antiga casa de força que servia as fábricas. A segunda fase, com mais seis edifícios de dimensões semelhantes mas com arquitetura diferente, avançará na direção do Viaduto Pompéia. A terceira e última será implantada próximo ao Viaduto Antártica e seu projeto será definido em função da demanda. Beneficiada pela Operação Urbana Água Branca, que permitiu a flexibilização do zoneamento, sem o que o empreendimento não seria possível, a Ricci está construindo, como contrapartida, uma avenida entre o terreno e a ferrovia, ligando o Terminal Barra Funda à Avenida Santa Marina. A obra já tem o seu primeiro trecho executado e, quando concluída, absorverá um investimento de R$ 20 milhões. Graças a ela, o impacto representado pela nova população flutuante, estimada em 35 mil pessoas, não vai saturar o sistema viário existente. A avenida será a única via de acesso ao conjunto, poupando a Avenida Francisco Matarazzo de um acúmulo de tráfego e tornando possível a sua conversão em boulevard.

A melhor surpresa, contudo, é a nova sede que o Museu de Arte Contemporânea, MAC, vai levantar em terreno de 4.800 metros quadrados, correspondente aos 5% da área total que, pela lei da Operação Urbana, devem ser reservados para uso institucional (outros 10% são destinados a áreas verdes). O museu pretende realizar um concurso público, provavelmente de âmbito internacional, para a escolha do projeto. "Poderemos também fazer um convite a arquitetos para que encaminhem suas propostas", esclarece José Teixeira Coelho, professor da Universidade de São Paulo e diretor do MAC. "Esperamos dar início a esse processo até meados de 2001, no máximo".

Com algumas das 14 torres em funcionamento, mais o novo MAC e a Casa das Caldeiras, o Centro Empresarial estabelecerá uma relação sinérgica com os equipamentos já existentes no entorno, como o Parque da Água Branca, os shoppings West Plaza e Bourbon, o Sesc Pompéia e, cruzando a ferrovia, o Memorial, o Terminal Barra Funda e as futuras instalações da Reitoria e do Instituto de Artes do Planalto da Universidade Estadual Paulista, Unesp, que vão ocupar um terreno ao lado do terminal. Escolas, aliás, é o que não falta na região. As universidades privadas Paulista (Unip), Bandeirante (Uniban) e Nove de Julho têm campi nesse setor da Barra Funda.

Mas será a Operação Urbana, cujo incentivo básico é o aumento de potencial construtivo em troca da cessão de áreas para uso público e institucional, ampliação do sistema viário e drenagem (ver o box), suficiente para garantir qualidade à expansão do bairro? Uma orientação urbanística mais propositiva é o que contém um plano elaborado pela Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, a ser examinado e aprovado pela Comissão Normativa de Legislação Urbana, CNLU. Ele ajudará na negociação entre a Prefeitura e os governos estadual e federal, proprietários da maioria dos imóveis à margem da ferrovia (sendo o primeiro o responsável pelo programa de despoluição do Tietê). A Prefeitura também terá facilitado o diálogo com proprietários, empresários e moradores da região, ao permitir que eles vislumbrem a configuração espacial que se pretende dar ao bairro. De acordo com o arquiteto Vladir Bartalini, coordenador de Operações Urbanas da Emurb, é impossível impor normas rígidas à arquitetura dos edifícios, mas o projeto dos espaços públicos é de responsabilidade da Prefeitura. "O plano define as configurações espaciais das áreas verdes a ser implantadas em terrenos ainda livres e também o sistema viário. Além disso, estabelece os gabaritos máximos em alguns pontos para valorizar as características espaciais da região. O encadeamento dos espaços públicos, que procuramos assegurar, tem por objetivo favorecer ao usuário clareza na leitura dos aspectos espaciais mais significativos, desde sempre presentes e ignorados, como a ferrovia e o rio", explica Bartalini. O estudo prevê a relocação, num único leito, dos trilhos ferroviários que cortam a área, liberando cerca de 80 mil metros quadrados de terrenos para construção de moradias e complementação do sistema viário. Também contempla a extensão até a Lapa, de um lado, e até as proximidades da Avenida Pacaembu, do outro, da avenida implantada pela Ricci. Com isso, entre outros benefícios, seria possível transformar a Francisco Matarazzo em boulevard e tornar desnecessários os primeiros 300 metros do Elevado Costa e Silva, possibilitando a demolição do trecho. Por fim, propõe o parcelamento das glebas ainda desocupadas, com a cessão de 15% de cada uma delas para a implantação de espaços públicos — parques, praças, vias — articulados entre si e com os já existentes nos dois lados da ferrovia (ver o box).

Anhembi

Antes da retificação do Tietê, na primeira metade do século XX, o rio invadia as margens a cada cheia. Um desses pontos de alagamento era a região da antiga Rua da Coroa, onde hoje está a cabeceira norte da Ponte Cruzeiro do Sul. As lagoas perenes entre os meandros do rio chegaram a inspirar o projeto de uma Cidade Náutica, numa época em que havia regatas no Tietê. Décadas depois, o vasto terreno pantanoso liberado pela retificação do rio foi sendo ocupado. O Terminal Rodoviário Tietê e o complexo Center Norte (Shopping Center Norte, Lar Center, Expo Center Norte) são dos anos 80.

No lado oeste da ponte, entre o rio e o Campo de Marte, um ambicioso projeto do final dos anos 60 anunciava a construção, numa área de 400 mil metros quadrados, de um pavilhão de exposições de 78 mil metros quadrados e um palácio de convenções para 4 mil pessoas, integrado a um hotel, um shopping center e um parque aquático com piscinas. O empreendimento ficou nos dois primeiros edifícios. O lugar é genericamente conhecido como Parque Anhembi, nome original do projeto. Ainda que incompleto e mesmo obsoleto, o conjunto constitui, com o Expo Center Norte, o maior centro de feiras, exposições e convenções de São Paulo. De acordo com dados do São Paulo Convention & Visitors Bureau, 98% dos eventos dessa natureza realizados na cidade acontecem lá, atraindo a maior parte dos cerca de 3 milhões de turistas de negócios que todo ano visitam São Paulo. Quase a metade desse contingente se hospeda, em média, 5 ou 6 dias em hotéis e flats da capital. Computando-se o público local, são 6,5 milhões de pessoas/ano freqüentando os eventos do Anhembi e do Center Norte, como a Bienal do Livro, a Fenasoft, a UD e o Salão do Automóvel.

Se o boom da Barra Funda até o momento concentra-se nos escritórios de alto nível, a que vão juntar-se o MAC, a Unesp, serviços (inclusive hotéis nas imediações) e os já existentes terminal intermodal e Memorial da América Latina, a explosão da região do Anhembi — entre a cabeceira oeste do Campo de Marte, os limites a leste do bairro de Santana e o presídio do Carandiru no sentido norte — é marcada pela construção de grandes hotéis, em geral acoplados a centros de convenções e lazer. O maior empreendedor, até agora, tem sido a empresa proprietária do Center Norte, a Otto Baumgart. Ela está erguendo o Centro Hoteleiro Norte, Nortel, um conjunto de quatro torres de nove andares na confluência das avenidas General Ataliba Leonel e Luís Dumont Villares, formado por 345 unidades de flat (que, administradas pela Parthenon, do grupo Accor, funcionarão como um hotel comum), centro de convenções e equipamentos de lazer. A inauguração será em agosto de 2001. Outro hotel, já funcionando parcialmente sob a marca Novotel, localiza-se próximo ao Shopping Center Norte e, quando totalmente concluído, no final do ano, vai oferecer 426 apartamentos, espaços para convenções e outras facilidades. Por fim, perto do rio e colado ao pavilhão de exposições, começa a ganhar forma o Expo Center Norte Hotel, com 250 quartos e inauguração prevista para 2002.

Mas o impulso hoteleiro da região vai muito além. No início da Rua Voluntários da Pátria, entre o Anhembi e o Terminal Tietê, um estabelecimento da marca internacional Comfort, com cerca de 200 quartos, está em fase de acabamento. Próximo ao acesso norte da Ponte da Casa Verde, fazendo contraponto ao Ibis e a meio caminho da Barra Funda, está sendo lançado o Quality Hotel & Conference Center Anhembi, administrado pela Choice Atlantica Hotels, com 312 apartamentos e padrão 4 estrelas. As obras terão início em dezembro e devem durar de 30 a 36 meses. Em fase de planejamento, sem previsão para lançamento e início das obras, o São Paulo International Convention Hotel, megaempreendimento da Cyrela e da Brazil Realty, com 900 unidades de flat, 400 conjuntos de escritórios, área de 7 mil metros quadrados para feiras e convenções, restaurante, boate e lojas, deverá surgir em terreno de 30 mil metros quadrados na Marginal Tietê.

A grande e mais recente novidade chega por conta da Alcântara Machado, empresa que já foi dona do Anhembi antes que, inviabilizado o projeto original, este fosse assumido pela Prefeitura e repassado à Fiesp. Ela acaba de readquirir a estrutura incompleta do hotel projetado no final dos anos 60 pelos arquitetos Jorge Wilheim (atual secretário municipal de Planejamento Urbano) e Miguel Juliano e que, desde a interrupção do empreendimento, tem sido um dos mais famosos "esqueletos" da cidade. O reinício das obras do hotel faz parte de um esforço conjunto da Alcântara Machado e da Anhembi Turismo e Eventos, empresa pública municipal, para recuperar e modernizar o Parque Anhembi, tornando-o internacionalmente competitivo. O investimento é estimado em R$ 180 milhões, dos quais R$ 80 milhões para a conclusão do hotel. A intenção do empresário Caio de Alcântara Machado é, até 2003, inaugurar o hotel — um três-estrelas com 780 apartamentos, o maior do Brasil — e, na área circunvizinha, um centro de convenções, um pavilhão de exposições e um estacionamento subterrâneo para 3 mil carros, que vão funcionar integrados ao Palácio de Convenções e à área de feiras e exposições existentes. O Sambódromo, passarela do crescentemente animado carnaval paulistano, faz parte desse conjunto.

Tantos hotéis e recintos de exposições e eventos, incluindo-se os pertencentes aos hotéis em construção, não terminarão por configurar uma superoferta, com risco de ociosidade e até de quebradeira? Segundo os especialistas, esse perigo não existe. São Paulo tem uma forte demanda reprimida por locais de eventos, chegando a perder muitos destes por falta de espaços adequados. Além disso, faltam hotéis na cidade. "São Paulo ficou muitos anos sem investimentos na área de hotelaria", afirma Aristides de La Plata Cury, superintendente geral do São Paulo Convention & Visitors Bureau. "Mas a modalidade dos flats está contribuindo para a viabilização de novos hotéis, principalmente em regiões como o Anhembi e o Expo Center Norte, de grande demanda por concentrar feiras e exposições". Há também que considerar outros dois aspectos.

Um deles é a geração de novas demandas — não só por hotéis mas por centros de compras, de exposições, de convenções, de lazer e entretenimento, de serviços — por um efeito de atração e multiplicação despertado pelos empreendimentos em curso. Os 780 quartos do Anhembi, por exemplo, são vistos com tranqüilidade pela diretora de marketing do Center Norte, Glorinha Baumgart. "Será muito bom para nós", afirmou a urbs, confiante na sinergia que a sua empresa ajudou a deflagrar na área e que parece longe de se esgotar. Outro aspecto é a localização estratégica. Tal como a Barra Funda, a região do Anhembi/Center Norte está no eixo viário que liga o aeroporto de Guarulhos ao dinâmico Interior do Estado, onde está a segunda economia do país, e tangencia o Centro de São Paulo, principal pólo financeiro, jurídico e administrativo da metrópole. A dificuldade de acesso a outras centralidades, como a região da Faria Lima/Berrini, contribui para o florescimento de um núcleo de negócios, hotelaria e serviços mais próximo do Centro — com suas grandes bolsas, serviços avançados e atrações culturais e turísticas — , da rede rodoviária e do aeroporto internacional. Aliás, em menor escala, o fenômeno dos hotéis vem se reproduzindo ao longo do acesso ao aeroporto pela Via Dutra.

Expansão do Centro

A consolidação da região do Anhembi e do Center Norte, e da Barra Funda e parte da Água Branca, como subcentralidades dinâmicas baseadas em prestação de serviços, escritórios e residência não é um fato surpreendente para alguns urbanistas e para a Associação VIVA O CENTRO. Em seu estudo São Paulo Centro – Uma Nova Abordagem, de 1996, a entidade propõe a reformulação da Avenida Tiradentes, hoje uma via de tráfego pesado que virtualmente secciona o bairro monumental da Luz, e a sua transformação numa via-parque, com o tráfego de passagem fluindo em pistas rebaixadas. Essa nova Tiradentes não só facilitaria a permeabilidade entre as duas margens, onde estão equipamentos culturais como o Museu de Arte Sacra e a Pinacoteca do Estado, como estabeleceria uma ligação qualificada do Centro à região da Ponte das Bandeiras e do Carandiru. Afinal, os equipamentos da área são típicos de uma cidade mundial como São Paulo, e a sua interrelação com o Centro é orgânica, inclusive pela proximidade — máximo de dois quilômetros em linha reta — e pelo potencial de adensamento dos bairros centrais entre ambos.

Mas a realização plena dos pólos Barra Funda e Anhembi ainda depende de fortes intervenções do poder público. As vias marginais ao rio precisam ser redesenhadas e receber tratamento paisagístico, assim como os terrenos lindeiros, que carecem de uma ocupação planejada. O complexo penitenciário do Carandiru terá que ser removido e a sua área transformada num grande parque público, como chegou a ser anunciado pelo Governo do Estado. Diversas favelas e cortiços, nos dois lados do rio, devem ser urbanizados. Os trabalhos de despoluição e aprofundamento da calha do Tietê não podem sofrer atraso ou interrupção, e o projeto da Secretaria de Transportes Metropolitanos de uma ligação ferroviária expressa entre o Aeroporto de Cumbica e o Campo de Marte tem que ser encarada como obra prioritária. O Campo de Marte necessita de estudos que demonstrem a possibilidade de convertê-lo em aeroporto para aviões executivos. O Plano Integrado de Transporte Urbano, Pitu, do Governo do Estado, em articulação com o metrô, proverá a médio prazo a região de um eficiente sistema de transporte de massa, constituindo-se em ligação rápida e confortável com os municípios do ABC e os populosos bairros da Zona Leste. Obras de drenagem e construção de piscinões pouparão a várzea e pontos mais distantes do rio, como as imediações do Carandiru, das freqüentes inundações a cada temporada de chuvas. O hóspede dos hotéis, o participante dos eventos, o morador, o trabalhador, o turista e o estudante exigirão parques, vias arborizadas, pontos de encontro, locais de lazer, restaurantes, bares, comércio especializado, escolas, galerias de arte e muita qualidade estética. Parece um sonho distante. Mas, há vinte anos, quem poderia imaginar que a grande e desolada várzea se transformaria no que é hoje?

Conheça os incentivos
A Operação Urbana Água Branca foi criada pela lei municipal 11.774, de 1995, com a finalidade de estabelecer diretrizes e incentivos para acelerar o desenvolvimento urbano de uma região formada por parte dos bairros da Barra Funda e Água Branca, em torno do Memorial da América Latina e do Terminal Barra Funda. Determina novos padrões de uso e ocupação do solo e induz ao aproveitamento dos grandes terrenos vazios existentes na antiga várzea do Rio Tietê e na orla da ferrovia. Tem como objetivos específicos o adensamento da área e o incentivo à expansão do setor terciário, ao uso residencial e à produção de moradias de interesse social, ampliação do sistema viário e de drenagem, a implantação de equipamentos e espaços de uso coletivo e a melhora dos padrões ambientais e paisagísticos da área. Esta é delimitada pela Avenida Pacaembu, ruas Paraguaçu, Traipu e Turiassu, Avenida Pompéia, Rua Carlos Vicari e avenidas Santa Marina e Comendador Martinelli (ver o mapa).

Para beneficiar-se com a modificação de índices e características de parcelamento, uso e ocupação do solo e subsolo e de normas de edificação, com a cessão onerosa do espaço público aéreo ou subterrâneo e com a regularização de construções ou reformas em desacordo com a legislação, após avaliação de uma comissão técnica coordenada pela Emurb, o interessado deverá pagar uma contrapartida, que poderá ser financeira — com os valores depositados num fundo especial —, em obras públicas vinculadas aos objetivos da Operação Urbana (como a execução de avenidas e trabalhos de drenagem) ou com a doação de bens imóveis dentro do perímetro, como terrenos e edificações. Outro aspecto da OUAB é o incentivo à recuperação e manutenção de edifícios protegidos pelo patrimônio histórico (tombados ou enquadrados na categoria Z8-200), através do mecanismo de transferência de potencial construtivo. Informações sobre a Operação Urbana Água Branca, assim como sobre a Operação Urbana Centro, podem ser obtidas na Emurb pelo fone (11)232-2622.

Um futuro para o "anel de ferrugem"
Com a obsolescência de seu parque manufatureiro tradicional e sua expansão e consolidação como pólo de serviços, associadas à perda de importância da ferrovia no transporte de grandes cargas industriais e agrícolas, São Paulo recebeu de presente uma espécie de ferradura formada por centenas de galpões, fábricas e ramais desativados ao longo do anel ferroviário que tem início na Zona Oeste, corta a região central e prolonga-se na direção sudeste até o bairro do Ipiranga, podendo estender-se, já sem os trilhos, numa seqüência de fábricas vazias, à região de Santo Amaro. Presente ou problema? Segundo estudos desenvolvidos pelo economista Tadeu Masano, professor da Fundação Getúlio Vargas e especialista em geografia de mercado, presente mesmo — e dos grandes. A faixa ferroviária é hoje uma zona morta que, dependendo do destino que se der a ela, pode ser a solução para uma boa parte dos flagelos de São Paulo, a começar pelo desemprego e pela compartimentação da cidade num quadrante sudoeste afluente e moderno e numa imensa Zona Leste assolada pelo desemprego e pela pobreza, ambos separados pelos trilhos ferroviários e suas áreas ociosas.

O que Masano propõe é a criação, por um esforço conjunto do Estado e do Município, de uma companhia de desenvolvimento que, através da implantação coordenada de projetos privados e públicos, estimule a transformação planejada da orla ferroviária numa nova fronteira urbana, formada por pólos residenciais, de serviços, de pesquisa de novas tecnologias, de comércio, educação, lazer, cultura, congressos e convenções, hotelaria e negócios. Além disso, o território abrigaria centros de treinamento e reciclagem de mão-de-obra para enfrentar o desemprego. Conectando essa gama de atividades a outras regiões da metrópole, trens modernos e de alta freqüência, previstos numa etapa seguinte do já em implantação Programa Integrado de Transportes Urbanos (Pitu), do Governo do Estado), percorreriam os trilhos atuais.

Uma vez convertido em "ferradura da sorte", o "anel de ferrugem" de Masano — que é também doutor em planejamento urbano pela FAUUSP — funcionaria como uma faixa de integração dos lados rico e pobre da cidade, contribuindo para reduzir brutais diferenças sociais e de renda e constituindo-se num pólo dinâmico de economia moderna, moradia e convivência. "Qualquer projeto para salvar São Paulo terá que achar uma nova função e identidade para essa zona morta em que se transformaram nossos tradicionais bairros fabris", disse Masano a urbs. " E um dos grandes desafios da nova gestão municipal é recuperar essa região tão bem localizada e provida de infra-estrutura e devolvê-la à cidade".


  Cidade  
Adeus, crack

Há um ou outro usuário, mas o núcleo de distribuição e consumo da droga, em pleno bairro central de Santa Efigênia, não mais existe, expulso pelo policiamento e pela ocupação cultural

Federico Mengozzi
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina



Cracolândia, mas pode chamar de Terra do Nunca. Nunca o sonho, nunca a paz, nunca o amanhã. Até meados de 1999, era assim que se desenrolava o canto de desesperança de crianças e adolescentes que viviam naquela terra de ninguém como se vivessem numa espécie de Brejo da Cruz. Eles também se alimentavam de luz — a pedra de crack queimando em cachimbos feitos com canetas esferográficas, embalagens de alimentos, isqueiros de plástico. O constrangedor espetáculo de usuários fumando crack a céu aberto ocorria tanto de dia quanto de noite, pelas calçadas do bairro de Santa Efigênia, no Centro de São Paulo. De agosto de 1999 a agosto de 2000, numa ação que se estende aos dias de hoje, uma combinação de operação policial e recuperação do espaço urbano conseguiu estancar, se não acabar de vez, com os "bons tempos" do crack livre.

"A Cracolândia não existe mais", garante o delegado Marco Antonio Martins Ribeiro de Campos, diretor do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) e responsável direto pelo mutirão anticrack. Do jeito que era, com centenas de menores - crianças e adolescentes são as maiores vítimas do crack –procurando e consumindo a droga nas ruas próximas à Estação da Luz, acabou. Antes, nem dava para andar. Era uma vergonha nacional. Hoje, pode-se passar a qualquer hora do dia ou da noite por lá. Há somente casos isolados, semelhantes aos que podem ser encontrados em outros pontos da cidade.

Os domínios da Cracolândia ficavam longe, muito longe, a anos-luz da Disneylândia ou de qualquer lugar mítico da infância e da juventude. Os domínios da Cracolândia ficavam perto, muito perto, a metros do núcleo histórico de São Paulo, num quadrilátero que, a grosso modo, tem como fronteiras a Avenida Rio Branco, a Avenida Duque de Caxias, a Rua Mauá, a Avenida Casper Líbero e a Avenida Ipiranga. Detalhe: o prédio do Denarc — um motivo a mais para a indignação do delegado Ribeiro de Campos – fica ao lado, na Rua Brigadeiro Tobias. Para quem viveu a realidade da Terra do Crack, como o motorista Manuel Lira, há 25 anos no ponto de táxi do Largo General Osório, em frente aos hotéis Piratininga e Plaza Piratininga, era possível detectar um usuário, muitas vezes também atuando como traficante, à distância. A agressividade, o desleixo e a magreza, sem contar o comportamento compulsivo e obsessivo, eram denunciadores. Às vezes, como no caso de usuários que vinham de longe, bastava observar alguém com um isqueiro sempre à mão.

"Quem fuma, acende o cigarro e guarda o isqueiro", diz Lira. O usuário de crack, de tão ansioso, fica com o isqueiro na palma da mão, pronto para acender o cachimbo e aspirar a fumaça.

Tragédia Urbana

A alma da Cracolândia ficava no cruzamento da Rua dos Protestantes com Rua dos Gusmões. No início dos anos 90, quando o crack entrou com força avassaladora na cidade, criando dependentes de forma quase instantânea, já era uma região degradada, caracterizada pelo baixo meretrício, o casario abandonado, hotéis baratos, ruas malcuidadas e precariamente iluminadas. Segundo o delegado Ribeiro de Campos, o cenário ideal para que por lá se instalassem traficantes e usuários. "Pobreza não significa crime", alerta. "Mas o abandono propicia uma incidência maior de ocorrências criminosas." Era ali que, sob os olhos do poder público, que fazia vistas grossas ao livre tráfico e consumo da droga, centenas de usuários, principalmente crianças e adolescentes, viviam histórias da Terra do Nunca. Enfim, uma tragédia urbana sob a luz do sol. No círculo vicioso – e viciado – do crack, a pedra era um fim em si mesma. Não havia espaço para o sonho, para a paz, para o amanhã.

Não havia espaço para a esperança, como lembra a ex-menina de rua Esmeralda do Carmo Ortiz no recém-lançado Esmeralda – Por que não Dancei(Editora Senac, com apoio da Fundação BankBoston). "O crack pra mim era tudo. Eu colocava a droga em primeiro lugar, e tudo que eu fazia não era por mim, mas sim pra sustentar o meu vício: roubava, vendia drogas, mentia... Eu vivia pra usar e usava pra viver... Perdi o amor-próprio e pelas pessoas, e o pior: perdi a dignidade." Para Esmeralda — e, por extensão, para os usuários de crack, esse subproduto fumável da cocaína que surgiu na Colômbia no final dos anos 70 —, o futuro era negro. Quem sabe uma overdose? Ou talvez uma morte violenta? "Achava que ia morrer de overdose. Meu maior sonho era esse... Eu chegava a dizer pra quem tinha pedra: ‘Se eu não te pagar, você pode me matar amanhã’. Eu colocava a minha vida em jogo..." O crack atinge o cérebro em segundos, dá prazer – "é mais gostoso do que leite Moça", escreveu Esmeralda – e todo tipo de reação, de insônia a mania de perseguição.

Histórias semelhantes à de Esmeralda, caso raro de alguém que conseguiu deixar o vício para dar seu testemunho, fizeram a fama da Cracolândia. Quase sempre histórias que se confundiam com a desagregação familiar e a exclusão social, já que o crack, feito com os restos do refino da cocaína, é, em essência, uma droga de pessoas pobres. Por isso é que freqüentemente, não fosse o tráfico uma atividade criminosa, está associado ao aumento da criminalidade. No círculo vicioso do crack, rouba-se para fumar e fuma-se para roubar. Lembra Esmeralda: "Pra mim não existia mais isso de viver sem droga. Então eu aterrorizava o centro da cidade por causa de R$ 10. Eu roubava qualquer um que estivesse na frente. Às vezes eu estava com tanta fissura que via um policial parado na minha frente e ficava pensando: ‘Vou dar um bote no revólver dele, vou sair correndo, vou lá na boca – a Cracolândia - e troco por uns cinco papéis...’"

Ainda hoje, lembra o taxista Lira, os assaltos no semáforo da Rua Mauá com a Rua General Couto de Magalhães estão diretamente ligados ao consumo da droga. Os menores ameaçam os motoristas e quase que imediatamente trocam o produto do assalto, dinheiro, jóias, relógios, por pedras de crack cujos preços vão de R$ 2 a R$ 15. "Acabava a droga e tudo ficava sem graça", escreveu Esmeralda. Era preciso mais droga. "E pra isso eu precisava roubar." Foi para interromper esse círculo vicioso que, em fevereiro de 1999, ao assumir a Secretaria da Segurança Pública, o secretário Marco Vinício Petrelluzzi anunciou o fechamento definitivo da Cracolândia. "As drogas, principalmente o crack, estão ligadas cada vez mais aos assassinatos e aos assaltos... Nos latrocínios, os ladrões fumam crack, atacam e matam. Nos assaltos com violência também." Da declaração passou-se à ação, escorada pela participação de entidades como a Vara Especial da Infância e da Juventude, do S.O.S. Criança e da Secretaria Municipal da Habitação (Sehab).

A operação se deu em várias frentes, da repressão propriamente dita, com a prisão de 170 traficantes, à interdição de imóveis suspeitos, com o fechamento de 33 hotéis e 17 bares, metade dos quais não pagavam impostos urbanos havia anos. Tudo a partir de um completo levantamento que incluiu registros fotográficos e fílmicos dos freqüentadores da Cracolândia. No total, cerca de 300 policiais do Denarc e da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) estiveram envolvidos na operação contra o crack, o "inimigo público número 1", segundo a definição do secretário Petrelluzzi. "Desta vez, a limpeza da região será definitiva", disse então o delegado Ribeiro de Campos. Hoje, alguns meses depois do encerramento da fase mais intensa do mutirão anticrack, ele confirma: "Havia anos se tentava acabar com a Cracolândia, o núcleo de distribuição do crack, e não se conseguia. A repressão foi eficiente, e o trabalho persiste, mas foi preciso mais. Por exemplo: a limpeza física da área foi fundamental".

Aqui e lá fora, a falta de limpeza e a iluminação deficiente atraem os bandidos, está convencido ainda hoje Ribeiro de Campos. Sem contar que, no caso do crack, os traficantes armazenavam a droga em montes de entulho, buracos de ruas, paredes deterioradas. Então, a Prefeitura de São Paulo, que já tinha colaborado na interdição dos hotéis e bares suspeitos, respondeu ao apelo do delegado ao pé da letra e procedeu à lavagem diária da Cracolândia, com desinfetante, ao mesmo tempo em que ordenava a intensificação dos serviços de varredura das ruas e coleta de lixo, prometendo também substituir as lâmpadas convencionais por outras de vapor de sódio, que dão maior luminosidade. Era preciso dar um basta à cada vez maior degradação da área e responder à requalificação urbana proposta por projetos pioneiros como a Sala São Paulo, o mais moderno espaço de concertos do país, inaugurada em julho de 1999. Dois meses depois, sintomaticamente, balas perdidas atingiram as vidraças do prédio.

Âncora Cultural

Instalada no Grande Hall da Estação Júlio Prestes, erguida entre 1926 e 1938, como parte de sua transformação em sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Sala São Paulo trouxe para o centro uma nova legião de freqüentadores e chamou a atenção para o patrimônio arquitetônico e histórico da região da Estação da Luz. "Foi em 1995", lembra Marcos Mendonça, secretário de Estado da Cultura, "que, pela primeira vez, pensei sobre a possibilidade de transformar a velha Estação Júlio Prestes num complexo cultural. Tratava-se de proposta arrojada que implantaria, em definitivo, em São Paulo, uma política de requalificação urbana através da cultura. Hoje, a Júlio Prestes, renovada pela cultura, se transformou em âncora para a requalificação urbana de todo o Centro, resgatando do passado a história de uma cidade, já quase perdida, devolvendo-a a seus cidadãos."

Quatro anos depois, a um custo de R$ 44 milhões, a estação, que ainda preserva suas funções originais, ligada ao transporte de massa, transformou-se num complexo que inclui sala sinfônica com 1.500 lugares, nove salas de ensaio para orquestras, sala de música de câmara, estúdios de gravação e restaurantes. Mais. Transformou-se em símbolo do programa de recuperação de uma área que testemunhou a transformação da cidade de taipa de pilão em cidade de tijolos, da vila provinciana em metrópole cosmopolita. E em símbolo do que pode o poder público quando se alia à iniciativa privada - a Associação Viva o Centro foi responsável pelo projeto de implantação de um complexo cultural na Estação Júlio Prestes. Para Mendonça, a estação foi apenas o começo. Na seqüência, a Secretaria trabalha para transformar o antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), ao lado da Sala São Paulo, na Escola Superior de Música e Artes Cênicas.

"A Sala São Paulo é um sucesso", alegra-se o secretário. "No ano passado, apresentou um evento a cada dia e meio, cerca de 200 eventos, com público médio de mil pessoas em cada. Recebeu um público de 200 mil pessoas, mais do que o Teatro Municipal. Mas os equipamentos culturais da região vão se ampliar ainda mais. Logo depois do Carnaval inauguramos um teatro de múltiplo uso, com 800 lugares, no mesmo edifício da Júlio Prestes e ao lado da Sala São Paulo, com entrada independente. E estamos trabalhando nas obras da Escola Superior de Música e Artes Cênicas que ocupará o antigo prédio do Dops."

A requalificação pela cultura, reconhece Marcos Mendonça, é uma tendência universal. À medida em que se ampliam os equipamentos ou se intensificam as ações culturais, atrai-se um público novo e muda-se o perfil de uma região. "A recuperação de um espaço ajuda a recuperar a região toda. Nesse sentido, contamos com uma integração maior dos governos estadual e municipal, cuja colaboração, reconheço, não era efetiva. A transformação dos cinemas do Centro, boa parte deles decadentes, em teatros, depende da Prefeitura."

Enquanto a Broadway paulistana integra o terreno das idéias, dois exemplos de ações culturais que atraem novos públicos à paisagem deteriorada da Cracolândia já são realidade. A Feira de Artes e Antigüidades da praça Júlio Prestes, em frente à Sala São Paulo, acontece aos domingos, das 8h às 18h, e a Rua do Choro, na Rua General Osório, ocorre sempre aos sábados, das 16h às 20h.

Ao lado de trabalhos em madeira e metal, antigüidades, material filatélico e numismático, reunidos por 260 expositores, a Feira de Artes e Antigüidades abre espaço para a apresentação de bandas e orquestras, grupos de dança e teatro, bem como para mostras de artes plásticas e atividades infantis, da brincadeira tradicional (cantigas de roda, jogo da amarelinha) à prática de esportes físicos e mentais (vôlei, xadrez). Um centro de alimentação oferece cardápios típicos de vários países – China, Itália, Japão, Portugal etc. -, bem como a cozinha regional do Estado de São Paulo. A feira, inaugurada no final de novembro, é organizada pela Sociedade Amigos da Praça Júlio Prestes, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura. A renda obtida reverte para a associação, que deve reaplicá-la no projeto.

Já a Rua do Choro, projeto da Secretaria em parceria com o Programa Empreendedor Cultural do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), inaugurada na metade de dezembro, fixa a Rua General Osório, em plena Cracolândia, como um recanto de chorinhos e chorões. Segundo a opinião do flautista Altamiro Carrilho, chorão de longa data e um dos artistas que já se apresentaram no lugar, é o gênero mais importante da MPB. A Rua do Choro é um desdobramento das rodadas que acontecem, há mais de 30 anos, na loja de instrumentos musicais Contemporânea. O Programa Empreendedor Cultural do Sebrae tem alcance nacional e se destina a revitalizar os centros das capitais – o projeto também atua em João Pessoa, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Luís. Para reforçar o pólo musical, a secretaria alugou e reformou um casarão da área, transformando-o em sede do Clube do Choro, com atividades dedicadas ao gênero.

Saudade?

Se depender das palavras da nova prefeita da cidade, Marta Suplicy, a Cracolândia vai ficar mesmo na saudade – e quem é que teria, à exceção de traficantes e dependentes, saudade? "Limpar a cidade é o que eu mais sonho. Penso em tirar a pichação, limpar as praças, iluminar... É limpeza nos dois sentidos: moral e concreta." Além de limpar, diz a prefeita, é preciso promover o uso habitacional da região central. É aí que entram os prédios abandonados da Cracolândia. "Há a possibilidade de desapropriação. O financiamento popular da Caixa Econômica Federal é de R$ 20 mil para a compra de uma casa. Um absurdo. A Prefeitura vai negociar um aumento ou entrar com mais R$ 5 mil. Aí dá para comprar no Centro. Se a administração municipal não fizer isso, não tem como a cidade ser recuperada, porque você só resgata um centro se põe gente morando ali."



O resultado da repressão policial e da requalificação urbana começa a ser visível. A comerciante Marta Rodella, da GP Musical, loja de instrumentos musicais instalada em plena Rua do Choro, reconhece que a região melhorou bastante. "O quarteirão está mais limpo e há mais policiamento. A freqüência também melhorou. Mais gente entra na loja. Já se vêem famílias na região e diminuiu o número de menores fumando crack sentados nas calçadas. Novas iniciativas deveriam ser tomadas." Para o delegado Ribeiro de Campos, os comerciantes estão se interessando pela área, abrem-se restaurantes, reformam-se prédios. Depois, diz, a melhoria também advém da própria diminuição do consumo de crack na cidade. "Os menores estão usando cola de sapateiro", diz. "É preciso investir no policiamento constante, ostensivo, para que os traficantes e usuários não voltem. E é necessário também um trabalho permanente de prevenção por parte da sociedade civil, principalmente junto às escolas."

A administração municipal anterior terminou sem que destinasse mais de 10%, dos R$ 64 milhões previstos no orçamento, para o Programa de Valorização do Centro. Em contrapartida, o novo secretário municipal de Cultura, Marco Aurélio Garcia, pretende se reaproximar do Estado e promover ações efetivas de recuperação da Cracolândia. "A Prefeitura vai voltar a investir no Projeto Monumenta", revela o secretário. Como se sabe, o Projeto Monumenta, promovido pelo Ministério da Cultura com o apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tem por objetivo a recuperação do patrimônio histórico de nove cidades brasileiras, incluindo São Paulo. No início do ano passado, a Capital dispunha de US$ 8,5 milhões, concedidos a fundo perdido, desde que entrasse com 20% do total que recebesse para projetos aprovados. Mas a Prefeitura não apresentou qualquer projeto, argumentando não dispor de recursos para pagar a contrapartida exigida.


Hotéis e bares suspeitos foram fechados

Como fenômeno de massa, a Cracolândia pode ter acabado. Mas seu último suspiro ainda não ocorreu. "O nome Cracolândia é um estigma", reconhece o delegado Ribeiro de Campos. Basta parar alguns minutos no largo General Osório, a um passo da Sala São Paulo e diante da futura Escola Superior de Música, para, com alguma sorte – ou melhor, com muito azar -, encontrar menores com cachimbos fumegantes. Aí, vê-se um personagem maltrapilho, envolto num cobertor imundo, ou outro personagem, com um comportamento meio estranho, andando para cima e para baixo, de maneira compulsiva. Histórias como a de Esmeralda. Histórias como a de M.T., que fugiu de casa devido ao abuso sexual praticado por homens da própria família e entrou no vício; como a de E.P.S., que cumpriu 3 anos e 50 dias por envolvimento com a droga e voltou a fumar assim que saiu da cadeia; como a de C.J.S., que se prostitui para sustentar o vício e chegou a fumar 30 pedras numa única noite.

Ou como a de R.S.S., que pulou de esconderijo em esconderijo quando a polícia começou o mutirão anticrack. Para voltar, acredita, quando tudo passar: "Quando a polícia for embora, todo mundo volta. A Boca do Lixo não acabou. Só está mais sossegada. Eu não saio daqui. É a minha casa". R.S.S., de 22 anos, vive na região desde os 8 anos e é dependente de crack - nunca o sonho, nunca a paz, nunca o amanhã - há seis anos.


  Entrevista  


A cidade que abandonou a si mesma

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo não é especialista em nada, a não ser — como os jornalistas se definem a si mesmos — em generalidades. Mas é uma daquelas instâncias a que os responsáveis por decisões complicadas, principalmente de governo, sonham discretamente em sempre consultar. É que esse paulistano de 56 anos, criado nas Perdizes e morador de uma rua arborizada próxima ao Centro, tem a rara qualidade jornalística de perceber — e valorizar — o centro do que verdadeiramente interessa: a verdade luminosa mas banal, perfeita mas comezinha e cotidiana, na parafernália das falas oficiais e do vozerio impresso e televisado, como faz semanalmente na última página de Veja e, vez por outra, em reportagens especiais na mesma revista. Profissional com longo histórico em diversas publicações, por três anos correspondente em Paris e tido como um dos melhores textos da imprensa brasileira, Roberto freqüentemente se engalfinha com a São Paulo que ama (e critica) sem uma benevolência que enxerga, por exemplo, nos ricos, prontos a tolerar que os pobres maltratem a cidade como compensação para a dignidade que ela e suas elites lhes confiscam. Ana Maria Ciccacio, editora assistente, e Jule Barreto, editor de urbs, selecionaram trechos de uma longa conversa com o jornalista, em fevereiro.

urbs - A cidade parece ter encerrado um ciclo catastrófico e pode estar pronta para um grande salto, para recuperar oito anos de desgoverno, abandono e pilhagem. Não lhe parece um disparate que, segundo uma pesquisa recente da Folha de S. Paulo, 61% dos paulistanos se mudariam da cidade se pudessem?

Roberto Pompeu de Toledo –Em Paris ou Londres o resultado não seria muito diferente. As pessoas gostariam de sair mas não significa que vão sair. É claro que São Paulo tem muito mais problemas do que outras cidades, inclusive do Brasil. Mas, na hora do vamos-ver, você vai sair mesmo? Não vai. Esse tipo de pesquisa, ou pesquisite, serve mais para desinformar do que para informar. Uma bobagem.

Segundo outra pesquisa, no mesmo jornal, a personalidade pública que mais tem a cara de São Paulo é o ex-prefeito Paulo Maluf. Não esclarece qual cara, a abominável ou a positiva, a boa ou a ruim. Voltando ao assunto, o parisiense, o catalão de Barcelona também tem a nostalgia do campo. Vai para lá nas férias e duas ou três semanas depois já está querendo voltar.


É isso. Independentemente da qualidade de vida e dos serviços que oferecem, as grandes cidades são fontes de inquietações muito maiores do que os locais de férias da pessoas. O indivíduo sai de Paris, vai tomar leite de vaca tirado na hora na Normandia, vai para a Côte D’Azur, que maravilha! É claro que ele gostaria de deixar Paris, mas isso é outra história. Ele não vai conseguir levar outro tipo de vida. Na verdade, declara que quer mudar, mas não quer de fato.

No caso de São Paulo, essa declaração parece corresponder a uma irritação ou revolta, a uma demanda reprimida, como se o cidadão quisesse mas já não pudesse se identificar com a cidade.


Se as cidades fossem entes aos quais se pudesse aplicar uma psicanálise, uma psicoterapia, você detectaria em São Paulo um problema de descentramento. O problema de identidade paulistano está em que a cidade não sabe onde é o seu centro. Da mesma forma que as pessoas, as cidades e os seus espaços precisam estar centrados. E o centro de referência, o self de São Paulo, é o seu Centro histórico.

Por que esse desgarramento em relação ao Centro?


Houve um equívoco enorme, por várias razões que não cabe citar aqui. Há um erro imenso toda vez que que uma cidade abandona o seu centro. É como abandonar a si mesma. São Paulo seguiu um modelo perverso que vem das cidades americanas, menos de Nova York, onde Manhattan sempre foi e continua sendo o centro. Gostamos de copiar as coisas erradas dos Estados Unidos, no caso o abandono dos centros e a suburbanização. As coisas certas, como a reversão desse processo, que já está acontecendo lá, não copiamos.

Tampouco copiamos as cidades européias.


Imagine se Paris vai abandonar seu núcleo central, ou Londres, ou Roma, ou Madri! É inimaginável que deixem de ser elas mesmas. São Paulo cometeu a loucura de abandonar o Centro e correr atrás da utopia maluca de construir outra cidade na Avenida Paulista, depois na Faria Lima, na Berrini e sabe-se lá mais onde.

E agora paga um alto preço, não?


Muito alto, inclusive no que diz respeito à auto-estima, à noção de referência das pessoas. Eu vejo as gerações novas, as de meus filhos, que têm 30 anos, não conhecerem as ruas do Centro, não saberem onde fica a Rua Líbero Badaró, a Marconi. A São Bento talvez até saibam, mas precisam pensar um pouco... É um absurdo o abandono do Centro durante a noite. Vira uma cidade fantasma, assustadora. E não se trata só da violência, do medo. Você simplesmente declara morta uma realidade — morreu, é cidade fantasma, foi abandonada pelos seus habitantes e ponto final. É isso que você percebe quando visita o Centro depois das oito da noite.

Como mudar isso?


É fundamental encontrar modos de ocupação noturna do Centro. Um deles é o uso residencial, tem se falado muito nisso. Mas é preciso transformar o Centro num grande lugar de encontro, com restaurantes, bares, teatros e muito mais.

Escolas...


Uma boa idéia que ouvi recentemente, creio que do João Sayad (secretário municipal das Finanças e Desenvolvimento Econômico), propõe uma universidade municipal no Centro.

Outro secretário da atual gestão, Jorge Wilheim, do Planejamento Urbano, defende a idéia de um pólo universitário aproveitando edifícios ociosos ou decadentes na área mais antiga do Centro, o Triângulo.


A mais fantasmagórica dessas ruas é a Álvares Penteado, onde há diversos prédios vazios, alguns deles muito bonitos. Não são ocupados nem de dia nem de noite, é espantoso. Isso exigiria uma intervenção decidida do poder público e da iniciativa privada, o que também levaria a uma reforma na cabeça das pessoas, para que elas se reconciliem com o Centro da cidade, principalmente as gerações mais novas. Para que o Centro volte a ter a função que todos os centros de cidade têm, que é centrar, devolver a centralidade. Nem falo de Paris, que é uma utopia de cidade — ninguém vai repetir Paris. Falo de Jundiaí, que não conheço bem, mas que deve ter uma relação dos moradores com a cidade, e com o centro, muito mais afetuosa e saudável que São Paulo.

No mínimo menos complicada e ambígua.


Muito menos. O Rio de Janeiro também sofreu o mesmo processo de fuga do centro, lá você tem uma representação gráfica dessa fuga ainda mais dramática, um caminho em direção ao sul com o abandono de cada etapa da fuga para as pessoas desamparadas. Mas o Rio, pela boa relação dos seus moradores com a cidade e graças a administrações municipais muito mais felizes do que as nossas, acabou se reencontrando com o seu centro, aquilo que se espera que São Paulo agora faça. É evidente que no Rio foi mais fácil porque o centro carioca tem maior valor histórico e arquitetônico.

Mas centro metropolitano não é só patrimônio histórico. O de São Paulo tem uma grande vantagem sobre o do Rio, a presença das bolsas de valores e de futuros, de um pólo de negócios, de empresas que usam tecnologias da informação. Nosso patrimônio histórico é humilde, mas o centro do Rio, fora um patrimônio riquíssimo, não tem uma economia dinâmica que sustente, sozinha, a requalificação urbana. O de São Paulo tem, está desperdiçado.


O centro do Rio foi ou ainda é sede de estatais, da Petrobrás, do BNDES. Teve até há pouco uma bolsa de valores. É, ou foi, uma economia que ajudou a ancorar a região.

O Rio foi capital do Império, da República até 1960, ganhou instituições, palácios, museus, monumentos e parques que São Paulo nunca teve.


São Paulo sempre foi capital de província. Em qualquer país, a capital nacional recebe mais investimentos públicos, embelezamento. É onde estão as sedes do governo e do parlamento, os tribunais, as embaixadas, onde se fazem as homenagens aos heróis da Pátria, os panteons, tudo isso em geral nos centros.

O Rio sempre foi muito dependente do Estado.


E também Recife, Salvador, Belém, até Belo Horizonte. A história de São Paulo está vinculada à iniciativa privada, não ao Estado ou à Corte. Nossa origem é privada, o que desde o início difere São Paulo das cidades litorâneas. Ela foi feita no meio do mato por aventureiros e caçadores de índios. Um lugar absolutamente hostil ao europeu. São Paulo esqueceu o Estado e foi esquecido por ele durante muito tempo. Experimentou um desenvolvimento paralelo e divergente. Rio, Recife e Salvador foram centros de maior progresso durante o Império, enquanto São Paulo só se torna uma cidade importante no final do século XIX, por volta de 1870, graças ao café.

E depois com a indústria.

Sim — mas só quase quatro séculos depois! Até então foi uma cidade absolutamente secundária, distante dos principais centros do país, para não dizer do mundo, e esquecida pelos investimentos públicos. São Paulo fez-se por si. Essa história muito diferente explica alguma coisa do que hoje é a cidade, uma certa tendência à provisoriedade que você nota em todas as etapas da sua história.

Um acampamento, mais que uma cidade?

Um ponto de passagem, um trampolim para o sertão. No século XIX foi passagem para os estudantes da Academia de Direito.

São Paulo foi ameaçada de morte várias vezes, ressurgia por golpes do acaso. Vivia da caça de índios até que se descobriu ouro no século XVII, houve um tremendo esvaziamento, os paulistas foram todos para Minas e outras regiões, São Paulo se tornou um vilarejo...

De mulheres.

Já era, ficou menor ainda. Ressurgiu com a faculdade de Direito, que veio para cá em 1827 em meio a forte oposição — como as elites podiam mandar seus filhos para aquele lugar? São Paulo parecia condenada a ser tão só uma vila de estudantes até que mais uma vez fomos salvos por um golpe de sorte, quando o café migra do Vale do Paraíba rumo ao oeste da província. A cidade vira um pólo importante, embora ainda sofrendo ameaças. Se hoje São Paulo rivaliza, pelo menos em tamanho, com as grandes cidades do mundo, durante muito tempo foi comparada com Santana do Parnaíba. No século XIX, sua rival era Campinas. São Paulo só não perdeu porque era era um caminho mais fácil para o porto de Santos.

A crise ou insuficiência recorrentes da esfera pública em São Paulo não decorre disso?


Em tudo São Paulo é mais incorreto. Para o bem ou para o mal, nossa tradição privatista é maior do que a de qualquer lugar do Brasil. O lado bom disso é a menor dependência do Estado. O ruim é uma espécie de hipertrofia dessa tendência de querer resolver tudo sem o coletivo. A exacerbação disso é Alphaville, um anti-modelo de cidade que pretende resolver todos os seus problemas sozinho e que se dane o resto.

Mas seus moradores e usuários não querem pagar pedágio para usar uma rodovia construída pelo Estado a pedido principalmente deles.


Acho o cúmulo reclamarem do pedágio. Foram eles que se instalaram lá, que debandaram. Acham o valor do pedágio uma exploração. Depois que o poder público foi sobrecarregado com o custo de uma nova estrada, porque a primeira era insuficiente para atendê-los, não querem pagar para usá-la. Mas a decisão de romper com o poder público é deles. Quem vai morar em Alphaville talvez não tenha consciência — mas é preciso ter — de que está rompendo com a coletividade e abrindo mão da segurança pública, da escola pública, do hospital público. Então que paguem por isso. Querem uma ferrovia? Paguem-na.

Não é a mesma lógica do shopping center?

Há uma diferença fundamental. No shopping o pobre não entra, mas não há controle ostensivo, já está implícito que não é lugar de pobre. Em Alphaville é explícito: tem que apresentar documentos, justificar o acesso. Mas não é algo exclusivo de São Paulo. É uma tendência não digo mundial, mas pelo menos americana.

A recuperação do Centro seria um contrapeso a essa tendência a segregar e isolar-se?


O Centro é democrático. É uma espécie de cruzamento de todo mundo, pobre e rico. A rua do Centro é assim, pertence a todos. Nosso desejo é que o Centro recuperado vá contra essa privatização da cidade. E que induza a uma sociedade mais homogênea, a uma cidade mais harmoniosa.



Tem-se esperança na ação de uma Prefeitura honesta e competente, na vontade e pressão dos segmentos sociais dinâmicos e, por que não, num colapso da utopia isolacionista. A privatização se dá nos extremos. Sai o rico, entram o camelô e o sem-teto, e vice-versa. A classe média procura se isolar como pode. Um dia, para não desaparecer, ela terá que lutar pelo espaço, pela escola, pelo hospital, pelo transporte públicos.

Bem, privatização se confunde com segregação. Em São Paulo os pobres estão num lugar, os ricos em outro, e o máximo que se encontram é quando a empregada cruza com o patrão. Outros encontros não existem. Um anda de carro, outro de ônibus. Vão a escolas e hospitais diferentes. Qual a utopia? Para onde caminhar? A grande meta seria as classes médias voltarem a frequentar a escola pública, a usar o hospital público, o transporte público. Os serviços teriam que melhorar. O usuário desses serviços, hoje, é basicamente o pobre, que não tem cacife para reclamar. A qualidade do ensino público é um exemplo. Vai melhorar à medida em que as classes médias estiverem presentes. Porque, hoje, não é só a falta de cacife político a responsável pelo abandono do equipamento e do serviço público, mas também a inexistência de condições de avaliá-los. Os desprovidos de educação não podem avaliar se o filho está sendo ou não bem educado na escola.

Então essa mescla de pobres, remediados e classe média é um objetivo a ser perseguido?


Cada um no lugar dos outros, essa é a solução. E nesse sentido está se desenhando, aqui, uma situação de segregação ainda pior do que, digamos, no Rio de Janeiro. Lá pelo menos existe a favela incrustrada no meio da cidade. É um problema enorme, claro, mas o pobre está muito mais próximo. Mora-se em belíssimos prédios em São Conrado e a favela da Rocinha está logo ao lado. Já em São Paulo são cada vez mais raros os bairros com populações mistas. O ideal seriam populações mistas por toda parte. Seria um modelo de cidade.

E o camelô, como fica? Deve ou não ocupar a cidade toda, inclusive o Centro, como acontece hoje?


Todo mundo fala no camelô. É complicadíssimo. Mas qual é o problema do camelô? Vejam que paradoxo: vender bugigangas na calçada é ilegal mas, no fundo, o enorme problema de consciência das classes privilegiadas brasileiras impede que seja aplicada a lei.

Explique.


A consequência dessa má consciência das elites por seus muitos privilégios é o afrouxamento da lei. Se você não garante trabalho e renda adequada às pessoas, não lhes dá condições de ir à escola, de ser atendidas no hospital, de morar decentemente, você lhes dá o quê? Permissividade. Você tolera o camelô nas calçadas, a invasão de terrenos por desabrigados. Tolera favelas em lugares absurdos, como a que existe na confluência do Tamanduateí com o Tietê. Essa tolerância é a compensação que as elites oferecem aos pobres.

Os dois rios de que você falou não são rios, mas canais de esgoto.


Isso me leva a um outro tema, a má relação de São Paulo com as águas. Não falo dos mananciais. Estou pensando nos rios. São Paulo é uma das duas únicas — depois eu digo qual a outra — cidades do mundo onde os rios que as cruzam são feios. Em todo lugar o rio é uma maravilha, dá ordem à cidade. A ponte é a alegria do arquiteto. Já em São Paulo é tudo muito feio, os rios, as pontes.... Eu achava que São Paulo era caso único, até conhecer Juiz de Fora. O que eles fazem com o Rio Paraibuna é ainda pior.

São Paulo sempre deu as costas para os rios?

Às vezes se dão as costas ao rio porque a cidade fica distante dele. Nunca foi o caso de São Paulo. Na origem havia o Anhangabaú, o Tamanduateí, e a relação era boa. A má relação começa com a explosão da cidade, depois daquela data que já mencionamos, 1870, quando a urbanização encosta no Tietê..

Até em décadas mais recente, os rios eram limpos, úteis. Forneciam água, havia regatas no Tietê...


Davam paisagem, horizonte, pontos de referência, ordenamento. As cidades se ordenam ao redor do Sena, do Tâmisa, do Prata. O Rio de Janeiro se ordena ao redor da baía, do oceano, da lagoa. E São Paulo tem uma carência enorme de pontos de referência. O medo que as pessoas de fora têm da cidade vem menos de seu gigantismo e trepidar frenético e mais da dificuldade de se orientar e locomover aqui. Os rios nos fariam um bem imenso se não os tivéssemos afogado. O que acontece com o Tamanduateí é espantoso. Vocês já viram que ele está preso entre grades, entre vigas que o atravessam? Encarceraram o rio, já não fosse ele feio, sujo, já não existisse aquele tampão de concreto...



O paulistano também faz isso com as árvores. É o mesmo fenômeno?

É a mesma falta absoluta de cuidado, seja com os rios e a vegetação ou com qualquer tipo de embelezamento. Vejam só a quantidade de pneus que se jogam nos rios. É de assustar. Por que nos rios? Mas a relação da cidade com as águas era outra no passado. Ainda há reminiscências disso. A Ladeira Porto Geral tem esse nome porque conduzia a um porto no Tamanduateí, perto da atual Rua 25 de Março.

Como dar início a um movimento, a um grande esforço para recompor a ruptura entre o paulistano e sua cidade? Como recuperar a boa relação entre ambos?


Há que começar pelo poder público. Por mais que a tradição de São Paulo seja privatista, por mais que a capacidade de investimento público esteja comprometida, tem que ser por iniciativa e sob a liderança dele. E por poder público entenda-se Prefeitura. É dela o papel de mobilizar a opinião pública, fazer com que as pessoas se agreguem para que as coisas aconteçam.

Como você enxerga a disposição da mídia de participar dessa empreitada?


Houve um tempo em que se procurou federalizar ao máximo a cobertura da imprensa, e isso em parte ainda acontece. Foi até compreensível se levarmos em conta os problemas que o país teve, hiperinflação, planos econômicos, moedas novas, com a conseqüente superexposição de ministros da área econômica. Essa cobertura tem que ser feita, mas se chegou a um ponto em que ela passa a encobrir e prejudicar a cobertura local e regional. Em São Paulo, mais do que no Rio, foi evidente esse fenômeno de relegar as notícias da cidade para os fundos da edição. Pouco se dá de importância ao prefeito e menos ainda à Câmara Municipal, a não ser recentemente, ainda assim em função dos escândalos. Nesse ponto, o de chamar a atenção da mídia para o prefeito e a Câmara, o (ex-prefeito Celso) Pitta deu uma grande contribuição, será um prefeito inesquecível (risos). Um enorme holofote foi colocado em cima dele e dos vereadores e eu percebo que uma boa parte dessa moçada, desses repórteres, continua em cima dos problemas da cidade. Estão cobrindo a Marta (Suplicy, prefeita), embora ela seja uma novidade, é mulher etcétera. Quero crer que não seja só por isso, mas por seus projetos. A televisão está fazendo uma cobertura que não havia antes, em especial o SP TV (da TV Globo) do meio-dia. Nele há uma boa cobertura dos escândalos, mas também das necessidades e carências da população. Eles põem a câmera à disposição da comunidade e cobram resultados.

Nos jornais, o noticiário local e metropolitano está melhor e mais amplo.

Mas o noticiarismo puro não conduz a nada. E preciso debater, discutir a cidade. Da mesma forma como já temos, às pencas, pensadores da economia analisando e debatendo na mídia, devemos trazer para ela os pensadores da cidade e a reflexão sobre os problemas urbanos.

Você é capaz de dar exemplos de relações de amor ou ódio, não da população, mas de prefeitos com a cidade?

Lembrei-me da Marta Suplicy pintando o Pacaembu, em janeiro. E gostaria de repetir o que costumo dizer sempre, que Paulo Maluf destesta São Paulo. Tenho duas evidências disso. A primeira é a construção daquela via elevada, o Minhocão, claramente uma monstruosidade. A segunda é a destruição, pela administração Maluf, da concha acústica que existia no Estádio do Pacaembu.

Onde está hoje o chamado tobogã.

Ela dava toda a graça arquitetônica do estádio. Além de ser o elemento mais elegante, mais distintivo e característico, a concha acústica fechava a ferradura do estádio e hoje seria muito mais útil do que o tobogã, porque o Pacaembu é talvez mais usado para espetáculos do que para futebol. Seria um palco formidável. O que eu tenho a dizer é o seguinte: ponham abaixo esse tobogã e reconstruam a concha acústica.

E o Minhocão?


Em várias cidades do mundo as vias elevadas estão sendo demolidas. Uma das grandes idéias do Conde (Luís Paulo Conde, ex-prefeito do Rio de Janeiro), que ele não pôde realizar, previa a demolição do trecho da via elevada Perimetral que corta a Praça Quinze de Novembro, onde fica o edifício do Paço Imperial e que, como se pode ver em gravuras e fotos do século XIX, se debruçava sobre a baía. O imperador despachava a dois passos do mar e ia de barco para casa, em São Cristóvão. O elevado liquidou com essa vizinhança que se tinha do mar.

No entanto, a prefeitura conseguiu rebaixar o leito da avenida que corre sob o elevado, tirando o tráfego pesado da superfície. Talvez agora, com o prefeito César Maia, saia a solução definitiva. E o Minhocão, é o caso de demolir? Haverá resistência?

Provavelmente. Vão dizer que é uma obra muito grande, que é complicado ficar sem ela de repente. Mas por que não intervir nele, até mesmo demolir? É possível fazer muita coisa, sim. O Rio, pelo que você me conta, está fazendo.


  Em Tempo  
Leilão marca os 15 anos da BM&F


Com um leilão beneficente de jóias, a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) comemorou, no dia 31 de janeiro, seus 15 anos de atividades, aproveitando a ocasião para inaugurar oficialmente o funcionamento interligado dos dois edifícios da instituição, na esquina da Praça Antonio Prado com a Rua João Brícola, após uma grande reforma que modernizou totalmente a sua infra-estrutura e instalações. O tradicional hall de entrada, na Praça Antonio Prado, tornou-se mais imponente e agora abriga um videowall que registra em tempo real imagens de seu movimentado pregão. Durante a festa, atrizes famosas como Letícia Spiller e Sílvia Pfeiffer desfilaram as jóias criadas para a BM&F pelo designer Antonio Bernardo. A totalidade da renda arrecadada no leilão foi destinada ao Comitê Brasileiro do Ano Internacional do Voluntário. Em breve discurso, a prefeita Marta Suplicy ressaltou a importância da nova sede da BM&F no processo de recuperação do Centro de São Paulo.

Salão Paulista ocupa o prédio dos Correios


Não deixe de ver a bela exposição das 319 obras selecionadas pelo 52Ί Salão Paulista de Belas Artes, este ano ocupando o saguão do edifício onde funcionou a Agência Central dos Correios e que deverá abrigar, em futuro ainda não definido, o Centro Cultural dos Correios. O Salão, criado em 1934, realizou-se durante muitos anos na Galeria Prestes Maia e é um dos mais tradicionais eventos culturais do Centro de São Paulo.

...e do Disque-Denúncia


Inaugurado em 25 de outubro pelo Instituto São Paulo Contra a Violência, do qual participa a Associação VIVA O CENTRO, o Disque Denúncia atendeu em apenas três meses a cerca de 12 mil chamadas. Ajudou a solucionar mais de 150 casos até o final de janeiro e evitou uma fuga de presos do 29Ί DP. O Disque-Denúncia atende 24 horas por dia, diariamente, pelo telefone 0800-156315, e garante o absoluto anonimato do denunciante.

Anote o telefone da Ouvidoria Municipal ...


Denúncias e reclamações sobre irregularidades cometidas por agente da administração direta ou indireta do Município agora têm canal garantido. A prefeita Marta Suplicy criou a Ouvidoria Geral Municipal, que inicia suas atividades sob a direção do sociólogo Benedito Domingos Mariano, ex-ouvidor da Polícia do Estado. Mariano conta inicialmente com dez funcionários, um andar inteiro no prédio da Procuradoria Geral do Município, ambiente de trabalho informatizado e um serviço de telefone com quatro troncos, que pode ser acessado pelo número 0800-175717. Com isso, estima atender de 100 a 150 chamadas diárias.

Feira na Júlio Prestes vale a visita


Acontecendo aos domingos, das 10 às 19h, com cerca de 280 expositores, a simpática feira da Praça Júlio Prestes (foto) oferece artesanato, antigüidades, artes plásticas e área de alimentação. Ela foi inaugurada em novembro e é coordenada pela Associação de Amigos da Praça Júlio Prestes, que luta pela recuperação da região de Santa Efigênia. Segundo o arquiteto André Goldman, responsável pelo lay out da praça e um dos organizadores da feira, "o objetivo é estender a ação da Associação para o entorno, Bom Retiro, Luz e Santa Efigênia como um todo. Tivemos uma boa parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e estamos estudando um trabalho com moradores de rua, em parceria com a Secretaria de Assistência Social do Município. A Câmara dos Dirigentes Lojistas de Santa Efigênia e a Associação dos Comerciantes do Bom Retiro têm colaborado bastante. Nesses poucos meses de existência a feira já produziu alguns reflexos na região, como pequenas mudanças na qualidade dos serviços e limpeza de bares e lanchonetes".

Hotel Eldorado ganha mais conforto


A chegada de grandes redes hoteleiras internacionais a São Paulo está motivando hotéis tradicionais do Centro a investir em reformas para aumentar sua eficiência e competitividade. O exemplo mais recente é do Hotel Eldorado Boulevard, na Avenida São Luís, que está aplicando cerca de R$ 1,5 milhão em reforma interna, principalmente nos apartamentos, que estão recebendo nova decoração. Quatro andares já foram concluídos. A última etapa do empreendimento é a reforma do lobby, ainda neste primeiro semestre. As salas de reuniões e o salão de convenções também estão sendo modernizados.

Imagens do Centro na nova sede do Ministério Público


A mudança das instalações do Ministério Público de São Paulo para o histórico edifício da Rua Riachuelo, 115, esquina com Rua Cristóvão Colombo, a poucos metros da Faculdade de Direito da USP, é marcada pela pequena mas significativa exposição São Paulo Espaço e Memória, com nove fotografias em preto-e-branco de Murillo Medina. As imagens apresentam alguns dos mais emblemáticos edifícios e logradouros do Centro da cidade. A exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e tem caráter permanente.


  Cultura  
Duas Cidades, mais do que livros

A livraria, importante referência político-cultural no passado, investe na
articulação da comunidade por melhoramentos urbanos

Ana Cândida Vespucci
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina


Maria Antônia: reaproximando o Centro das pessoas


Em dezembro de 1954, o frei José Petronillo de Santa Cruz inaugurava na Praça das Bandeiras uma pequena livraria e editora, com o objetivo de suprir as necessidades dos dominicanos, por títulos de Teologia e Filosofia. Instalou-a no 10Ί andar do edifício nΊ 42 e lhe deu o nome de Duas Cidades, inspirado em um livro homônimo de Santo Agostinho, no qual o autor tratava das diferenças entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. Com o tempo, Santa Cruz, também professor de sociologia, detectou uma forte demanda por livros sobre outras áreas do saber e foi diversificando seu acervo. Ao incluir obras sobre sociologia, política, crítica literária, folclore, arquitetura e urbanismo, entre outras, acabou por atrair um público heterogêneo. Ao editar, dispensava o mesmo cuidado com a qualidade que pautava o abastecimento de suas prateleiras. Presenteou os leitores com inéditos de Mário de Andrade, como O Turista Aprendiz, e de Murilo Mendes, com as poesias de Convergência, além de brindá-los com uma série de obras de nomes como Antônio Cândido. No auge dos fervilhantes anos 60, precisamente em 1967, época em que fatores políticos concorreram para aguçar o interesse pela vida cultural, a Duas Cidades instalava-se na Rua Bento Freitas e consolidava seu papel de agente, tornando-se um ponto de encontro de estudantes e intelectuais. Naquele tempo, segundo a arquiteta Cecília Scharlach, ainda ia-se à "cidade". Mesmo porque, além de escolas e universidades, o Centro concentrava o comércio e os serviços e era onde os paulistanos encontravam equipamentos culturais — teatros e cinemas, por exemplo — e de entretenimento, a exemplo de bares e restaurantes. A Rua Augusta apenas começava a emergir como artéria comercial e de lazer e o único shopping de São Paulo, o Iguatemi, havia pouco fora construído.

Acervo selecionado

O professor Davi Arrigucci Jr. cursava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na Rua Maria Antônia, quando se tornou freqüentador da Duas Cidades, nos anos 60. Para ele, a livraria deve a posição de que desfruta como uma das melhores de São Paulo, em primeiro lugar, à diversificação de seu acervo. "Ela se abriu para as mais variadas culturas, da inglesa à hispano-americana e, assim, desempenhou um papel importante na vida universitária." Para Maria Antônia de Santa Cruz, viúva de José Petronillo, com quem se casara em 1993, há no entanto outro fator importante. Trabalhando na livraria desde 1971 e hoje à frente dos negócios desde que o marido faleceu em 1997, ela relembra: "Os universitários tinham fome de saber, freqüentavam mesmo, procuravam títulos e a grande maioria lia em outros idiomas." Ela tem certeza de que nesses 30 anos que separou a Duas Cidades de seus melhores momentos recrudesceu e alastrou-se o desinteresse dos jovens pela leitura, embora não saiba se pode-se ou não atribuir o fato à concorrência da Internet e de outros meios eletrônicos de comunicação. A verdade é que, segundo ela, todos preferem simplificar: "Quando vêm, pedem logo uma tradução". Na sua opinião, contudo, a fuga das escolas e universidades e o deslocamento de outras atividades para os bairros, que contribuíram para o esvaziamento do Centro e de sua vida cultural, assim como para a deterioração de seu espaço urbano, têm peso importante na queda da freqüência à livraria

Arrigucci concorda, mas lembra que a célebre frase de Monteiro Lobato, "uma nação se faz com homens e livros", não está superada. Acha que, se o nível do ensino subisse, junto se elevaria o interesse dos jovens pela leitura, o que significa que falta estímulo, fundamental já que, no seu entendimento, "o livro é o instrumento central de relação com o mundo"e a livraria "um ponto de encontro para a troca de conhecimento". Por isso, Arrigucci observa que a Duas Cidades deve a posição que ocupa na história da vida cultural paulistana ao tirocínio do professor Santa Cruz, opinião da qual partilha a arquiteta Cecília Scharlach: "Ele teve um papel muito importante, agora exercido por Maria Antônia; amava os livros, conhecia diferentes segmentos da cultura, incentivando sempre novas possibilidades." Foi por intermédio dele que Cecília, então cursando a faculdade de arquitetura e hoje com escritório nas vizinhanças da Duas Cidades, descobriu, por exemplo, a poeta russa Marina Tsvetaeva em edições francesas, conheceu muitos freqüentadores, como o próprio Arrigucci, e participou de vários encontros literários.

Arrigucci resume a função de José Petronillo Santa Cruz: "Grandes livreiros são conselheiros", diz ele, acrescentando que livro é um objeto especial e delicado e sua fruição requer orientação. Cecília, por exemplo, mora ao lado do Shopping Pátio Higienópolis, mas evita suas livrarias porque acha que os vendedores não são informados a ponto de orientá-la. Acredita, portanto, que casas como a Duas Cidades e a Cultura, esta no Conjunto Nacional, Avenida Paulista, capazes de um atendimento diferenciado, têm de resistir à banalização. Mesmo porque, voltando à Duas Cidades, ainda há muita vida cultural no Centro de São Paulo com a Escola de Sociologia e Política, o Sesc Vila Nova, a Faculdade de Direito da USP, a Aliança Francesa, enfim, locais que reúnem um contingente de intelectuais, professores, artistas e estudantes com grande poder de influência –, Centro agora revigorado por novas iniciativas, como o complexo Júlio Prestes. Conclui, portanto, que uma recuperação do Centro pode devolver à Duas Cidades o público que lhe pertence.

Resistência

Um acervo diversificado mas selecionado com critério tornou a livraria Duas Cidades conhecida em todo o país. Maria Antônia registra encomendas de várias cidades distantes, pedidos feitos via Internet ou telefone, pessoas que sabem onde encontrar obras indisponíveis no circuito comercial. A demanda externa cobre a lacuna deixada pela queda na freqüência, mas do ponto de vista humano não satisfaz. Ela quer devolver à casa a efervescência de outrora e atrair quem queira dividir o espaço com antigos freqüentadores que, a exemplo do próprio professsor Antônio Cândido, de Cecília Scharlach, do poeta Augusto Massi, ainda hoje correm os olhos e os dedos pelos títulos reunidos pela Duas Cidades.

Para o professor Antônio Cândido, "a livraria Duas Cidades sempre representou um papel de grande importância na vida cultural de São Paulo, devido à qualidade excepcional de seu acervo e a eficiência de seus serviços". Além disso, faz questão de destacar o mestre, "está ligada a ela a editora de mesmo nome, que tem enriquecido nossa bibliografia com títulos de primeira ordem".

Na esteira dessa tradição, Maria Antônia não pretende abandonar o endereço que Santa Cruz elegeu e pelo qual sente profundo apreço. Concorda que o Centro da cidade está caótico, de difícil acesso, muito violento e sujo e, portanto, a despeito das ações para requalificá-lo, ainda pouco atraente. Mas prefere tomar outras medidas. Além de modernizar seus serviços, lançando mão da Internet como ferramenta complementar de comunicação com o público, está investindo na linha editorial e na região em que está instalada. "O Centro tornou-se distante", mas ela pretende reaproximá-lo. Além dos encontros periódicos de leitura regados a café italiano, em parceria com a Editora 34, está lançando a coleção Espírito Crítico, que reedita obras como Ao Vencedor as Batatas, de Roberto Schwarz, e já conta com cinco títulos –– o último, prestes a sair, Parceiros do Rio Bonito, de Antônio Cândido –– com o intuito de reavivar o sabor dos velhos tempos.

Paralelamente, Maria Antônia também integra o movimento Núcleo de Ação Comunitária A Arte do Convívio, criado para implantar projetos de revitalização da Vila Buarque. Em dezembro, moradores e comerciantes da microrregião participaram de um mutirão de limpeza e do plantio de 74 espécies de árvores frutíferas e ornamentais em dois quarteirões da Rua Rego Freitas e dois da Santa Isabel. Ela conta que se cotizaram, levantaram em torno de R$ 7 mil para comprar árvores já desenvolvidas, contando com a colaboração da Prefeitura na abertura das valas. Explica ainda que o movimento optou por adquirir espécies diferentes com o intuito de diversificar e atrair uma avifauna igualmente variada. Com a orientação de um biólogo, escolheram-se ipê, jacarandá, pata-de-vaca, ibisco, além de pitangueira, jaboticabeira e amoreira, todas adequadas ao local, já que não interferem no solo nem na fiação aérea. As decisões são extraídas de discussões com a população local e as ações coordenadas por 15 integrantes do núcleo que se reúnem semanalmente na Duas Cidades. Com o apoio do Instituto dos Arquitetos do Brasil, instalado no bairro, o núcleo já está preparando a publicação de um edital para o concurso que escolherá um projeto de iluminação, calçamento e paisagismo, dando continuidade ao programa.

A grande preocupação de Maria Antônia é envolver todos os moradores, e sem nenhum preconceito, ou seja, levando em conta que nas últimas décadas a região transformou-se em ponto de prostituição e mendicância, além de receber o comércio informal. "Não podemos discriminar ninguém. Afinal, parte dessa população é moradora do bairro. É importante contar com toda a cooperação, bem como conscientizá-la de que arborização, limpeza e ordem podem melhorar a qualidade de vida de todos." Os moradores de rua, por exemplo, seriam arregimentados para cuidar das árvores, uma forma de fazê-los se sentir parte da comunidade. Os reflexos das iniciativas já estão se estendendo para outros locais, segundo Maria Antônia, que recebeu ligações de pessoas das avenidas São Luiz e Vieira de Carvalho, interessadas em desenvolver projetos semelhantes.

Livrarias do Centro

Duas Cidades: livros de ciências humanas, cinema, música, teatro, filosofia. Entrega em todo o país. De 2a a 6a , das 8h às 18h; sábados, das 9h às 13h. Rua Bento Freitas, 158, tel. (11) 220-5134.

Ernesto Reichmann: livros científicos na área de saúde, cobrindo de psicologia a veterinária. De 2ͺ a 6ͺ, das 8h30 às 18h30; sábados, das 8h30 às 14h. Rua D. José de Barros, 168, 6Ί andar.

Francesa: livros didáticos, ciências humanas, informática e artes em geral, somente em francês. De 2a a 6a , das 8h30 às 18h; sábados, das 9h30 às 13h. Entrega em todas as regiões do país. Rua Barão de Itapetininga, 275, tel. (11) 231-4555.

Italiana: publicações italianas em diferentes áreas, de culinária a filosofia e direito. Entrega em todo o país. De 2a a 6a , das 9h às 18h30; sábados, das 9h às 13h. Avenida São Luiz, 192, loja 18, tel. (11) 259-8915.

Kosmos: publicações nacionais e importadas de diferentes áreas, além de livros raros e gravuras. Vende por reembolso. De 2a a 6a, das 9h30 às 18h30; sábados até 13h. Avenida. São Luiz, 258, loja 6, tel. (11) 258-3244.

Martins Fontes: acervo variado. De 2ͺ a 6ͺ, das 9h às 19h; sábados, das 9h às 14h. Rua Dr. Vila Nova, 309, tels. (11) 259-8836 e 257-0697.

Nobel: acervo diversificado, com publicações sobre filosofia, sociologia, política, entre outras. Aceita pedidos por telefone. Rua Maria Antônia, 108. De 2a a 6a , das 8h às 19h; sábados, das 9h às 17h, tel. (11) 257 2530. E Rua XV de Novembro, 118. De 2a a 6a , das 9h às 19h; sábados, das 9h às 14h, tel. (11) 3104-6325.

Siciliano: livros de todas as áreas (ficcional, didática, paradidática, etc.). De 2ͺ a 6ͺ, das 9h às 21h; sábados, das 9h às 19h. Atendimento por telefone. Rua Barão de Itapetininga, 227, tels. (11) 257-5986 e 0800 17 2055.

Triângulo: acervo variado, com ênfase aos livros técnicos. De 2ͺ a 6ͺ, das 8h às 19h; sábados, das 9h às 13h. Consultas e encomendas também por telefone. Rua Barão de Itapetininga, 255, tel. (11) 231-0922.


  Livros  
Leia, por uma cidade melhor


Diversos lançamentos sobre a cultura e o ambiente urbanos já estão nas livrarias. urbs apresenta alguns.

Exclusão: A mais recente obra da antropóloga Teresa Caldeira é uma investigação sobre as complicadas relações entre as instituições da polícia e da Justiça, a democracia, a violência urbana, a segregação social e a construção da cidade através de espaços compartimentados e fortificados, tendo como justificativa o isolamento das camadas sociais potencialmente "perigosas", isto é, os pobres e marginalizados, tudo articulado e incrementado por uma múltipla e generalizada "fala do crime" ou narrativa da violência. Publicado originalmente em inglês nos Estados Unidos, onde a autora leciona na Universidade da Califórnia, Cidade de muros - Crime, segregação e cidadania em São Paulo (Edusp/Editora 34, 399 páginas, R$ 32) lança uma luz sobre o tema do público versus privado, inclusive sobre os espaços urbanos, o que faz dele uma obra indispensável para as pessoas e entidades envolvidas nas lutas urbanas e no esforço pela recuperação da área central de São Paulo. O livro nos dá uma idéia da enorme complexidade das tarefas que o cidadão engajado nos problemas da cidade, o profissional da arquitetura e da comunicação, as lideranças comunitárias e os planejadores e gestores das diversas políticas públicas têm pela frente: o desmonte da cidade-fortaleza, a reconstrução das instituições, a crítica profunda e conseqüente do laissez faire urbanístico e do planejamento baseado tão só numa espécie de contra-fala da violência e da exclusão. Não se espere uma conclusão única e "amarrada" de Cidade de muros, mas uma problematização de questões já vigentes, uma torrente de revelações de anéis e microprocessos de segregação e violência até então insuspeitados e, justificando plenamente a leitura, um vigor analítico que reforça no leitor a sua auto-percepção como sujeito social e histórico. (J.B)

Modernidade: Carl Schorske é professor emérito de história da Universidade de Princeton e um dos principais representantes da corrente que mescla mirada histórica e análise cultural para a compreensão do presente. No livro Pensando com a História, Indagações na Passagem para o Modernismo (Editora Companhia das Letras, 282 páginas, R$ 28,50) Schorske reúne uma seleta de ensaios na qual perscruta o contexto urbanístico na virada do século XIX para o XX, época que corresponde ao surgimento do modernismo e permite compreender o impacto da modernidade nas cidades e vice-versa. Como paradigma o pesquisador focaliza suas lentes sobre a Viena do final do século, mais exatamente na segunda parte do livro, "O Eclipse de Clio". (A.M.C.)

Memória: O comerciante inglês Edmund Pink encontra-se entre aqueles viajantes – caso do francês Debret, do alemão Rugendas e do holandês Eckhout – cuja vinda ao Brasil, no século XIX, resultou em importante registro para a posteridade. Pink documentou com aquarelas e um diário tudo o que viu e o impressionou, dando especial destaque à capital e ao interior de São Paulo. Esse legado constitui a base do livro São Paulo de Edmund Pink (120 páginas, R$ 60), requintada publicação da Dórea Books and Art (DBA) com patrocínio da Bovespa, textos de apresentação de Alfredo N. Rizkallah e José Mindlin, artigo crítico de Nicolau Sevcenko, mais a transcrição e tradução do diário do viajante inglês e, principalmente, suas expressivas aquarelas. (A.M.C.)

Urbanismo: O 17Ί volume da série Folha Explica, assinado pela arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, da PUC-Campinas e do Instituto Polis, mostra como a cidade de São Paulo, em sua evolução histórica, chegou a mais de 10 milhões de habitantes convivendo com a grandiosidade econômica e também com o desemprego, a miséria, a falta de planejamento e a violência, passando pela desastrosa combinação de caos habitacional e de trânsito. O livro São Paulo (Publifolha, 88 páginas, R$ 9,90) tem o papel de introduzir o leitor nas questões urbanas e sociais que oprimem sua gente. A cidade é descrita como uma megametrópole dispersa que, a despeito de seus enormes problemas, mantém em aberto a possibilidade de sua reconstrução. (A.M.C.)

Morada: Casas Paulistas – Fragmentos de uma Utopia Urbana (Editora Formarte, 116 páginas, R$ 38, patrocínio Dedalus Sistemas), de Iatã Canabrava, reúne cerca de 90 fotos coloridas e P&B selecionadas de uma série de 500, captadas durante três meses de trabalho e que procuram contar um pouco da história da cidade a partir de suas casas e prédios. Os capítulos estruturam-se por períodos históricos, tendo como ponto de partida as casas bandeirantistas, entre as quais se destaca a Aldeia de Carapicuíba. Vêm a seguir os palacetes dos barões do café, com a casa de Ramos de Azevedo em primeiro plano; o processo de verticalização da cidade, tendo como símbolo o edifício Martinelli; e vilas operárias, como as existentes no Brás e no Bom Retiro. (A.M.C.)


  Mesa  
A esquina de São Paulo

A notícia é para grande júbilo.
Chope espumoso voltou a jorrar das torneiras do Bar Brahma, na esquina da Ipiranga com São João

João Podanovski
Fotos: Jesus Carlos/Imagenlatina


A nova é boa sobretudo para paulistanos que acreditam na revalorização do Centro da cidade. Revalorização que acontecerá não por mirabolante passe de mágica, nem por misterioso lance de taumaturgia. Resultará de vontades empenhadas, de trabalho racional, de ações planejadas e executadas com seriedade e afinco. Troque o poder público a incúria criminosa por zelo responsável, substituam os poderes privados o estéril conformismo por reação operosa, e o fenômeno acontecerá.

Aí está o exemplo do Bar Brahma, lindamente restaurado e reaberto à alegria. Nada de prestidigitação ou milagre. O Brahma renasceu graças ao desassombro de três empresários que tiveram coragem de investir alto naquilo em que acreditavam. E foi o primeiro presente recebido pela cidade no alvorecer do novo século e milênio. Ou melhor, segundo presente, se o primeiro tiver sido a posse de Marta, prefeita preocupada com o Centro, com sua recuperação e "belezura". O tempo dirá.

Detalhemos a boa nova.


Gente bonita e animação na esquina mais famosa da cidade

Chope & violinos ciganos

Em 1946, o presidente Dutra proibiu o jogo no Brasil. Cerraram-se então as portas do velho Cassino Marabá. O belo espaço ocioso em esquina nobre despertou o interesse de Henrique Hillebrecht, alemão culto, poliglota, viajado, charmosamente corcunda.

Negociante de faro fino, criador de vários estabelecimentos gastronômicos em São Paulo, como o famoso Caverna Paulista na Líbero Badaró, Hillebrecht transformou em boate o bar com mezanino (Avenida Ipiranga, 787) e em confeitaria o amplo salão anexo (São João, 677). Manteve para os dois negócios o nome tradicional: Marabá. Dois anos de elegância em cerejeira, couros, espelhos. Mas, para o bolso, resultados pífios. Capitular? Jamais. Corrigir a fórmula, isso sim.

Em 1948, apoiado pela Cervejaria Brahma, o arguto corcunda ligou os dois espaços, fez as necessárias adaptações e brindou a cidade com o Bar e Restaurante Brahma. Sucesso total. Noitadas de chope e chucrute ao som de violinos ciganos, clientela alegre confraternizada em boêmia cantoria.

Fase de ouro: anos 50, 60, 70. Ótimo chope, comida muito boa, música festiva, nobre ambiente, freqüentadores de prol.

Década de 1980, prenúncios de decadência. Donos que sucederam ao alemão (desde 1968) careciam de tino para não deixar a casa envelhecer, para adequá-la ao ritmo e gosto dos novos tempos, para preservá-la da deterioração que sucateou tantas outras relíquias do velho Centro.

Anos 90, calamitosos. Desleixo, baixo padrão culinário, músicos envelhecidos ("mais tossindo que tocando", como observou não me lembra que cronista), sumiço dos bons clientes, dívidas acumuladas, falência à vista. Ciosa de sua imagem, a Cervejaria Brahma retirou nome e bandeira. Numa tentativa de sobrevida, a casa fechou para reforma sumária, tornou a abrir (1997) rebatizada como São João 677. Para salvar o cofre vazio, apelou-se até para comida por quilo. Foi o fim. Portas fechadas em 98.

Por pouco toda a tradição de uma casa um dia gloriosa não acabou sepultada para sempre sob mesas de bingo ou bancos de mais uma dessas pequenas-igrejas-grandes-negócios. Felizmente a administradora do imóvel teve a desinteressada sensatez de aprovar a proposta financeiramente menos cobiçável: ressuscitar o Brahma.

Chope, MPB & jazz

Os novos locatários pretendiam recuperar a antiga bandeira para a casa. A clássica cervejaria quis saber: "Mas quem são esses meninos?" Os meninos da Brahma são os empresários Álvaro Aoás, 38 anos (você o conhece do Café São Paulo Antigo?), Luís Marcelo Lacerda, 47 (consultor em administração e organização de empresas), Rosalém do Prado, também 47 (especializado em refrigeração).

Chegada sua hora e vez, os "meninos" mostraram o que sabe fazer uma juventude amadurecida. Confiaram o dificultoso trabalho de restauro a um arquiteto experiente e a meticulosos profissionais do Liceu de Artes e Ofícios.

O ambiente foi recriado, mantida a atmosfera dos anos 50. As paredes, emolduradas por frisos de ouro, mereceram a elaboração de uma tinta especial, cor acamurçada de pêssego maduro. Colunas robustas sustentam nas alturas o teto claro, do qual pendem lustres importados cascateantes em pingentes de cristal. O velho piano Gaveau voltou a soar afinado. Pelo amplo salão alonga-se interminável balcão de escura maciça madeira, encimado por máquinas de ótimo café e douradas chopeiras.

Escolheram a dedo 80 funcionários: cozinheiros, barmen, metres, garçons, recepcionistas simpáticas, porteiros bem-apessoados. Para diretor cultural e musical contrataram o veterano Clayber de Souza, o melhor gaitista do Brasil, arrolado pela crítica européia entre os dez melhores do mundo.

Em 10 de janeiro de 2001 devolveram o Bar Brahma ao público. Ao todo, mais de 400 lugares em quatro gostosos espaços: grande varanda coberta na calçada da São João, amplo salão, bar aconchegante com entrada pela Ipiranga, mezanino do bar.

Sucesso imediato, merecido prêmio à obra bem-feita, à fórmula exata. Almoço concorridíssimo, noite agitada até alta madrugada. Porque tudo agrada na casa: a dignidade da recepção, o charme antigo do ambiente dourado, a excelência da música ao vivo, a prestimosidade do atendimento, o bom padrão culinário, o notável capricho de cada detalhe, a presença ativa dos donos vigilantes. Pode ir, dona Marta: o Brahma soma "belezura" com gostosura.

Bar Brahma
3333-0955 – São João, 677 e Ipiranga, 787 – Diariamente 24 horas – Manobristas para o estacionamento interno (R$7,00 - tempo livre) – Ao vivo, 12h-16h e 18h30-02h, MPB, jazz, softmusic internacional – Completo serviço de choperia e bar (boa variedade de porções e petiscos) – Refeições à la carte a qualquer hora do dia e da noite (entradas, saladas, massas, carnes, aves, peixes - despesa final por pessoa em torno de R$35,00) – Opção de fino bufê executivo das 12h às 16h (R$16,80) – Chope claro (R$2,50) e escuro (R$3,00)


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Revista Urbs - Publicação bimestral editada pela Associação Viva o Centro, com o patrocínio especial do Bank Boston, Banco Itaú Serasa e Pinheiro Neto - Advogados; e apoio institucional da Prefeitura Municipal do Município de São Paulo.

Conselho Editorial: Jorge da Cunha Lima, Jule Barreto, Marco Antonio Ramos de Almeida, Mary Lou Paris, Marta Dora Grostein, Regina Prosperi Meyer, Rosely Carmona, Antonio José A. G. Zagatto, Lu Rodrigues, Ana Maria Ciccacio (secretária).

Editor: Jule Barreto
Editora Assistente: Ana Maria Ciccacio
Editora de Arte: Lu Rodrigues
Editora de arquitetura e urbanismo: Regina Prosperi Meyer
Colaboram nesta edição: Ana Francisca Ponzio, Frederico Mengozzi, João Podanovski, Marcos Capobianco, Marcos Garuti (Traço), Katia Canova (produção de imagens)
Fotografia: Jesus Carlos (Imagenlatina), Marcelo Santos
Tratamento de imagens: Delcine de Assis
Fotolito: Unigraph
Impressão: Takano Editora Gráfica

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