O Centro além dos trilhos
Numa grande e até há pouco desvalorizada região de várzea em plena área central de São Paulo surgem hotéis, complexos empresariais e de eventos e edifícios residenciais de qualidade
ANA MARIA CICCACIO e JULE BARRETO
Fotos de Jesus Carlos/Imagenlatina
O rio, antiga barreira, vai ganhar calha mais profunda e água limpa, ou quase. A várzea vem sendo drenada e recebeu avenidas. Do lado oposto do rio, delimitando a várzea no rumo do Centro da cidade, está outra e mais complicada barreira, os trilhos ferroviários. Mas estes estão sendo preparados para os modernos trens metropolitanos que, a partir do próximo ano, vão operar integrados à rede de metrô. Sim, a grande faixa de terra alagadiça tradicionalmente desprezada pela construção civil e pelo poder público tem metrô, e é ao longo de suas linhas ao norte, nas proximidades da Ponte das Bandeiras e, a oeste, em torno de um imenso terminal intermodal, na confluência dos bairros da Barra Funda e Água Branca que vem acontecendo, com menos alarde do que nas avenidas Faria Lima e Luís Carlos Berrini, a mais impressionante transformação urbana em curso na Região Metropolitana de São Paulo.
Trata-se de pólos com alguns fortes atributos de centralidade espécie de expansão do Centro além dos trilhos e equipamentos ligados à economia moderna. Em dois desses pólos a metamorfose é mais espetacular. No entorno do Terminal Barra Funda, onde já existiam o Memorial da América Latina e os atuais estúdios da TV Record, surgiram no final da última década, em localização até então inimaginável debruçadas na ferrovia uma torre de 30 andares de escritórios e as quatro primeiras de um complexo empresarial, num vasto terreno de 95 mil metros quadrados que, na primeira metade do século XX, abrigou diversas unidades das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Outra edificação notável e recente é a nova sede da Federação Paulista de Futebol, com um grande heliponto no topo. A pouca distância dali, na Avenida Francisco Matarazzo, em terreno antes ocupado por dependências da Eucatex, surge rapidamente um magazine da rede internacional Goodys.
O outro pólo está nas imediações do pavilhão de exposições do Parque Anhembi, onde até há menos de meio século só havia um pequeno aeródromo, o Campo de Marte. É lá que, próximo ao complexo de eventos e compras (dois shopping centers, pavilhão de exposições e recintos de convenções) do Center Norte, inaugurado em 1984, estão sendo projetados e construídos diversos hotéis administrados por redes internacionais, dotados de estrutura de eventos e voltados principalmente ao público de negócios. Um novo pavilhão de exposições, bem ao lado do Anhembi, está sendo lançado neste início de ano.
Vista em toda a extensão, em grande-angular, a região revela um certo vazio entre os dois pólos. Trata-se de um território cujo aproveitamento depende de melhoramentos na infra-estrutura e mudanças na legislação de uso e ocupação do solo (boa parte é Z-8, o que significa uso especial, e Z-2 e Z-3, para ocupação de baixa densidade). Os quarteirões entre a Avenida Pacaembu e a várzea do Bom Retiro são ocupados predominantemente por galpões, cortiços e uma grande favela na confluência dos rios Tietê e Tamanduateí. Mas é nesta faixa depreciada, bem no trevo da Ponte da Casa Verde, que um hotel de cadeia internacional, o Ibis São Paulo Expo, funciona há um ano com aproveitamento recordista de mais de 70%. Lá também estão o legendário e incompleto edifício do Tribunal Regional do Trabalho (o do juiz Lalau), cuja conclusão vai ser executada pela Caixa Econômica Federal, as novas instalações do Fórum Criminal e as duas torres de escritórios de 18 andares do Millennium Business Center, em fase de acabamento, construídas pela Tecnum. Rente aos trilhos ferroviários a Klabin-Segall acaba de lançar o Cores da Barra, conjunto de quatro edifícios residenciais de padrão elevado, com 25 andares cada e um total de 400 apartamentos, em terreno de 13 mil metros quadrados. Por fim, na área também funcionam clubes tradicionais e um gigantesco parque de diversões, o Playcenter. Há, contudo, uma outra fronteira, ainda a ser desbravada. Trata-se dos inúmeros galpões, armazéns e ramais desativados ao longo da ferrovia. Na visão de alguns especialistas, como Tadeu Masano, da Fundação Getúlio Vargas, a Barra Funda e todos os bairros que acompanham os trilhos da antiga Santos-Jundiaí, da Lapa ao Ipiranga, podem dar lugar a núcleos comerciais, residenciais, de lazer e de serviços, unindo a populosa e precária Zona Leste ao afuente sudoeste e recompondo uma das mais profundas fraturas do organismo sócio-urbano de São Paulo (ver o box).
Pode parecer incrível que esse território espremido entre o rio e a estrada de ferro, de uso ainda indefinido e contornos vagos, mas equipado com boa infra-estrutura e situado em ponto estratégico no eixo de acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos e à rede rodoviária do Estado, e lindeiro ao maior pólo financeiro do Brasil, o Centro só agora esteja sendo descoberto. Não foi bem assim. Desde os anos 70 a TV Cultura está presente na região. O Center Norte chegou nos anos 80 e a Ricci Engenharia em seguida. A Cultura construiu seus estúdios no extremo oeste da várzea, na divisa com a Lapa, entre o rio e os trilhos e no meio de terrenos vagos, galpões de transportadoras, armazéns e residências operárias. A Ricci, que assumiu e terminou a construção da citada torre de 30 andares, adquiriu o terreno da Matarazzo para erguer um complexo de escritórios e serviços com 14 torres dotadas de tecnologia de última geração. Da mesma forma, a rede hoteleira Accor planejou o Ibis SP Expo, com 280 apartamentos e padrão três estrelas, na Ponte da Casa Verde, apostando no futuro da área e ajudando a fazê-lo. O mesmo se pode dizer do Center Norte, com os três grandes hotéis que está construindo antes que a região seja reurbanizada e embelezada pelos poderes públicos. Na verdade, todos vêm contribuindo decisivamente para integrar à cidade a antiga e esquecida várzea.
Barra Funda
O desenvolvimento de um complexo de escritórios, compras, cultura, lazer e transporte na região do Terminal Barra Funda não se deu por acaso. Além do metrô, do Memorial da América Latina e do interesse da Ricci em construir o Centro Empresarial Água Branca, a Prefeitura, ainda na gestão Luiza Erundina, percebeu o potencial da área e deu início a um projeto de desenvolvimento que ganhou forma de lei em 1995, na administração Maluf a Operação Urbana Água Branca. Mas a decisão da Ricci de investir às margens da via férrea foi determinante.
"A reocupação de áreas historicamente mais antigas, tornadas obsoletas em sua função original, está acontecendo no mundo inteiro", resume José Stefanes Ferreira Gringo, diretor da Ricci. "O que nos fez olhar para a Água Branca foi o movimento de industrialização no sentido de Sorocaba e Mogi Mirim, criando um novo cinturão industrial em torno da metrópole. A região da Barra Funda e Água Branca é o ponto da cidade mais bem localizado em relação a esse novo cinturão e ao aeroporto internacional e, além disso, dispõe de infra-estrutura de telefonia e transporte de massa". Acrescente-se a esse quadro um estoque de terrenos aproveitáveis estimado em quase 600 mil metros quadrados, fora a gleba da Matarazzo.
A primeira fase do Centro Empresarial está em andamento. As duas primeiras torres de 20 andares, cada uma com 18 mil m2 de escritórios de alto padrão, já foram entregues. Outras duas estarão prontas em agosto. Nessa ocasião deverá ser entregue também a Casa das Caldeiras, um espaço cultural instalado na antiga casa de força que servia as fábricas. A segunda fase, com mais seis edifícios de dimensões semelhantes mas com arquitetura diferente, avançará na direção do Viaduto Pompéia. A terceira e última será implantada próximo ao Viaduto Antártica e seu projeto será definido em função da demanda. Beneficiada pela Operação Urbana Água Branca, que permitiu a flexibilização do zoneamento, sem o que o empreendimento não seria possível, a Ricci está construindo, como contrapartida, uma avenida entre o terreno e a ferrovia, ligando o Terminal Barra Funda à Avenida Santa Marina. A obra já tem o seu primeiro trecho executado e, quando concluída, absorverá um investimento de R$ 20 milhões. Graças a ela, o impacto representado pela nova população flutuante, estimada em 35 mil pessoas, não vai saturar o sistema viário existente. A avenida será a única via de acesso ao conjunto, poupando a Avenida Francisco Matarazzo de um acúmulo de tráfego e tornando possível a sua conversão em boulevard.
A melhor surpresa, contudo, é a nova sede que o Museu de Arte Contemporânea, MAC, vai levantar em terreno de 4.800 metros quadrados, correspondente aos 5% da área total que, pela lei da Operação Urbana, devem ser reservados para uso institucional (outros 10% são destinados a áreas verdes). O museu pretende realizar um concurso público, provavelmente de âmbito internacional, para a escolha do projeto. "Poderemos também fazer um convite a arquitetos para que encaminhem suas propostas", esclarece José Teixeira Coelho, professor da Universidade de São Paulo e diretor do MAC. "Esperamos dar início a esse processo até meados de 2001, no máximo".
Com algumas das 14 torres em funcionamento, mais o novo MAC e a Casa das Caldeiras, o Centro Empresarial estabelecerá uma relação sinérgica com os equipamentos já existentes no entorno, como o Parque da Água Branca, os shoppings West Plaza e Bourbon, o Sesc Pompéia e, cruzando a ferrovia, o Memorial, o Terminal Barra Funda e as futuras instalações da Reitoria e do Instituto de Artes do Planalto da Universidade Estadual Paulista, Unesp, que vão ocupar um terreno ao lado do terminal. Escolas, aliás, é o que não falta na região. As universidades privadas Paulista (Unip), Bandeirante (Uniban) e Nove de Julho têm campi nesse setor da Barra Funda.
Mas será a Operação Urbana, cujo incentivo básico é o aumento de potencial construtivo em troca da cessão de áreas para uso público e institucional, ampliação do sistema viário e drenagem (ver o box), suficiente para garantir qualidade à expansão do bairro? Uma orientação urbanística mais propositiva é o que contém um plano elaborado pela Empresa Municipal de Urbanização, Emurb, a ser examinado e aprovado pela Comissão Normativa de Legislação Urbana, CNLU. Ele ajudará na negociação entre a Prefeitura e os governos estadual e federal, proprietários da maioria dos imóveis à margem da ferrovia (sendo o primeiro o responsável pelo programa de despoluição do Tietê). A Prefeitura também terá facilitado o diálogo com proprietários, empresários e moradores da região, ao permitir que eles vislumbrem a configuração espacial que se pretende dar ao bairro. De acordo com o arquiteto Vladir Bartalini, coordenador de Operações Urbanas da Emurb, é impossível impor normas rígidas à arquitetura dos edifícios, mas o projeto dos espaços públicos é de responsabilidade da Prefeitura. "O plano define as configurações espaciais das áreas verdes a ser implantadas em terrenos ainda livres e também o sistema viário. Além disso, estabelece os gabaritos máximos em alguns pontos para valorizar as características espaciais da região. O encadeamento dos espaços públicos, que procuramos assegurar, tem por objetivo favorecer ao usuário clareza na leitura dos aspectos espaciais mais significativos, desde sempre presentes e ignorados, como a ferrovia e o rio", explica Bartalini. O estudo prevê a relocação, num único leito, dos trilhos ferroviários que cortam a área, liberando cerca de 80 mil metros quadrados de terrenos para construção de moradias e complementação do sistema viário. Também contempla a extensão até a Lapa, de um lado, e até as proximidades da Avenida Pacaembu, do outro, da avenida implantada pela Ricci. Com isso, entre outros benefícios, seria possível transformar a Francisco Matarazzo em boulevard e tornar desnecessários os primeiros 300 metros do Elevado Costa e Silva, possibilitando a demolição do trecho. Por fim, propõe o parcelamento das glebas ainda desocupadas, com a cessão de 15% de cada uma delas para a implantação de espaços públicos parques, praças, vias articulados entre si e com os já existentes nos dois lados da ferrovia (ver o box).
Anhembi
Antes da retificação do Tietê, na primeira metade do século XX, o rio invadia as margens a cada cheia. Um desses pontos de alagamento era a região da antiga Rua da Coroa, onde hoje está a cabeceira norte da Ponte Cruzeiro do Sul. As lagoas perenes entre os meandros do rio chegaram a inspirar o projeto de uma Cidade Náutica, numa época em que havia regatas no Tietê. Décadas depois, o vasto terreno pantanoso liberado pela retificação do rio foi sendo ocupado. O Terminal Rodoviário Tietê e o complexo Center Norte (Shopping Center Norte, Lar Center, Expo Center Norte) são dos anos 80.
No lado oeste da ponte, entre o rio e o Campo de Marte, um ambicioso projeto do final dos anos 60 anunciava a construção, numa área de 400 mil metros quadrados, de um pavilhão de exposições de 78 mil metros quadrados e um palácio de convenções para 4 mil pessoas, integrado a um hotel, um shopping center e um parque aquático com piscinas. O empreendimento ficou nos dois primeiros edifícios. O lugar é genericamente conhecido como Parque Anhembi, nome original do projeto. Ainda que incompleto e mesmo obsoleto, o conjunto constitui, com o Expo Center Norte, o maior centro de feiras, exposições e convenções de São Paulo. De acordo com dados do São Paulo Convention & Visitors Bureau, 98% dos eventos dessa natureza realizados na cidade acontecem lá, atraindo a maior parte dos cerca de 3 milhões de turistas de negócios que todo ano visitam São Paulo. Quase a metade desse contingente se hospeda, em média, 5 ou 6 dias em hotéis e flats da capital. Computando-se o público local, são 6,5 milhões de pessoas/ano freqüentando os eventos do Anhembi e do Center Norte, como a Bienal do Livro, a Fenasoft, a UD e o Salão do Automóvel.
Se o boom da Barra Funda até o momento concentra-se nos escritórios de alto nível, a que vão juntar-se o MAC, a Unesp, serviços (inclusive hotéis nas imediações) e os já existentes terminal intermodal e Memorial da América Latina, a explosão da região do Anhembi entre a cabeceira oeste do Campo de Marte, os limites a leste do bairro de Santana e o presídio do Carandiru no sentido norte é marcada pela construção de grandes hotéis, em geral acoplados a centros de convenções e lazer. O maior empreendedor, até agora, tem sido a empresa proprietária do Center Norte, a Otto Baumgart. Ela está erguendo o Centro Hoteleiro Norte, Nortel, um conjunto de quatro torres de nove andares na confluência das avenidas General Ataliba Leonel e Luís Dumont Villares, formado por 345 unidades de flat (que, administradas pela Parthenon, do grupo Accor, funcionarão como um hotel comum), centro de convenções e equipamentos de lazer. A inauguração será em agosto de 2001. Outro hotel, já funcionando parcialmente sob a marca Novotel, localiza-se próximo ao Shopping Center Norte e, quando totalmente concluído, no final do ano, vai oferecer 426 apartamentos, espaços para convenções e outras facilidades. Por fim, perto do rio e colado ao pavilhão de exposições, começa a ganhar forma o Expo Center Norte Hotel, com 250 quartos e inauguração prevista para 2002.
Mas o impulso hoteleiro da região vai muito além. No início da Rua Voluntários da Pátria, entre o Anhembi e o Terminal Tietê, um estabelecimento da marca internacional Comfort, com cerca de 200 quartos, está em fase de acabamento. Próximo ao acesso norte da Ponte da Casa Verde, fazendo contraponto ao Ibis e a meio caminho da Barra Funda, está sendo lançado o Quality Hotel & Conference Center Anhembi, administrado pela Choice Atlantica Hotels, com 312 apartamentos e padrão 4 estrelas. As obras terão início em dezembro e devem durar de 30 a 36 meses. Em fase de planejamento, sem previsão para lançamento e início das obras, o São Paulo International Convention Hotel, megaempreendimento da Cyrela e da Brazil Realty, com 900 unidades de flat, 400 conjuntos de escritórios, área de 7 mil metros quadrados para feiras e convenções, restaurante, boate e lojas, deverá surgir em terreno de 30 mil metros quadrados na Marginal Tietê.
A grande e mais recente novidade chega por conta da Alcântara Machado, empresa que já foi dona do Anhembi antes que, inviabilizado o projeto original, este fosse assumido pela Prefeitura e repassado à Fiesp. Ela acaba de readquirir a estrutura incompleta do hotel projetado no final dos anos 60 pelos arquitetos Jorge Wilheim (atual secretário municipal de Planejamento Urbano) e Miguel Juliano e que, desde a interrupção do empreendimento, tem sido um dos mais famosos "esqueletos" da cidade. O reinício das obras do hotel faz parte de um esforço conjunto da Alcântara Machado e da Anhembi Turismo e Eventos, empresa pública municipal, para recuperar e modernizar o Parque Anhembi, tornando-o internacionalmente competitivo. O investimento é estimado em R$ 180 milhões, dos quais R$ 80 milhões para a conclusão do hotel. A intenção do empresário Caio de Alcântara Machado é, até 2003, inaugurar o hotel um três-estrelas com 780 apartamentos, o maior do Brasil e, na área circunvizinha, um centro de convenções, um pavilhão de exposições e um estacionamento subterrâneo para 3 mil carros, que vão funcionar integrados ao Palácio de Convenções e à área de feiras e exposições existentes. O Sambódromo, passarela do crescentemente animado carnaval paulistano, faz parte desse conjunto.
Tantos hotéis e recintos de exposições e eventos, incluindo-se os pertencentes aos hotéis em construção, não terminarão por configurar uma superoferta, com risco de ociosidade e até de quebradeira? Segundo os especialistas, esse perigo não existe. São Paulo tem uma forte demanda reprimida por locais de eventos, chegando a perder muitos destes por falta de espaços adequados. Além disso, faltam hotéis na cidade. "São Paulo ficou muitos anos sem investimentos na área de hotelaria", afirma Aristides de La Plata Cury, superintendente geral do São Paulo Convention & Visitors Bureau. "Mas a modalidade dos flats está contribuindo para a viabilização de novos hotéis, principalmente em regiões como o Anhembi e o Expo Center Norte, de grande demanda por concentrar feiras e exposições". Há também que considerar outros dois aspectos.
Um deles é a geração de novas demandas não só por hotéis mas por centros de compras, de exposições, de convenções, de lazer e entretenimento, de serviços por um efeito de atração e multiplicação despertado pelos empreendimentos em curso. Os 780 quartos do Anhembi, por exemplo, são vistos com tranqüilidade pela diretora de marketing do Center Norte, Glorinha Baumgart. "Será muito bom para nós", afirmou a urbs, confiante na sinergia que a sua empresa ajudou a deflagrar na área e que parece longe de se esgotar. Outro aspecto é a localização estratégica. Tal como a Barra Funda, a região do Anhembi/Center Norte está no eixo viário que liga o aeroporto de Guarulhos ao dinâmico Interior do Estado, onde está a segunda economia do país, e tangencia o Centro de São Paulo, principal pólo financeiro, jurídico e administrativo da metrópole. A dificuldade de acesso a outras centralidades, como a região da Faria Lima/Berrini, contribui para o florescimento de um núcleo de negócios, hotelaria e serviços mais próximo do Centro com suas grandes bolsas, serviços avançados e atrações culturais e turísticas , da rede rodoviária e do aeroporto internacional. Aliás, em menor escala, o fenômeno dos hotéis vem se reproduzindo ao longo do acesso ao aeroporto pela Via Dutra.
Expansão do Centro
A consolidação da região do Anhembi e do Center Norte, e da Barra Funda e parte da Água Branca, como subcentralidades dinâmicas baseadas em prestação de serviços, escritórios e residência não é um fato surpreendente para alguns urbanistas e para a Associação VIVA O CENTRO. Em seu estudo São Paulo Centro Uma Nova Abordagem, de 1996, a entidade propõe a reformulação da Avenida Tiradentes, hoje uma via de tráfego pesado que virtualmente secciona o bairro monumental da Luz, e a sua transformação numa via-parque, com o tráfego de passagem fluindo em pistas rebaixadas. Essa nova Tiradentes não só facilitaria a permeabilidade entre as duas margens, onde estão equipamentos culturais como o Museu de Arte Sacra e a Pinacoteca do Estado, como estabeleceria uma ligação qualificada do Centro à região da Ponte das Bandeiras e do Carandiru. Afinal, os equipamentos da área são típicos de uma cidade mundial como São Paulo, e a sua interrelação com o Centro é orgânica, inclusive pela proximidade máximo de dois quilômetros em linha reta e pelo potencial de adensamento dos bairros centrais entre ambos.
Mas a realização plena dos pólos Barra Funda e Anhembi ainda depende de fortes intervenções do poder público. As vias marginais ao rio precisam ser redesenhadas e receber tratamento paisagístico, assim como os terrenos lindeiros, que carecem de uma ocupação planejada. O complexo penitenciário do Carandiru terá que ser removido e a sua área transformada num grande parque público, como chegou a ser anunciado pelo Governo do Estado. Diversas favelas e cortiços, nos dois lados do rio, devem ser urbanizados. Os trabalhos de despoluição e aprofundamento da calha do Tietê não podem sofrer atraso ou interrupção, e o projeto da Secretaria de Transportes Metropolitanos de uma ligação ferroviária expressa entre o Aeroporto de Cumbica e o Campo de Marte tem que ser encarada como obra prioritária. O Campo de Marte necessita de estudos que demonstrem a possibilidade de convertê-lo em aeroporto para aviões executivos. O Plano Integrado de Transporte Urbano, Pitu, do Governo do Estado, em articulação com o metrô, proverá a médio prazo a região de um eficiente sistema de transporte de massa, constituindo-se em ligação rápida e confortável com os municípios do ABC e os populosos bairros da Zona Leste. Obras de drenagem e construção de piscinões pouparão a várzea e pontos mais distantes do rio, como as imediações do Carandiru, das freqüentes inundações a cada temporada de chuvas. O hóspede dos hotéis, o participante dos eventos, o morador, o trabalhador, o turista e o estudante exigirão parques, vias arborizadas, pontos de encontro, locais de lazer, restaurantes, bares, comércio especializado, escolas, galerias de arte e muita qualidade estética. Parece um sonho distante. Mas, há vinte anos, quem poderia imaginar que a grande e desolada várzea se transformaria no que é hoje?
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A Operação Urbana Água Branca foi criada pela lei municipal 11.774, de 1995, com a finalidade de estabelecer diretrizes e incentivos para acelerar o desenvolvimento urbano de uma região formada por parte dos bairros da Barra Funda e Água Branca, em torno do Memorial da América Latina e do Terminal Barra Funda. Determina novos padrões de uso e ocupação do solo e induz ao aproveitamento dos grandes terrenos vazios existentes na antiga várzea do Rio Tietê e na orla da ferrovia. Tem como objetivos específicos o adensamento da área e o incentivo à expansão do setor terciário, ao uso residencial e à produção de moradias de interesse social, ampliação do sistema viário e de drenagem, a implantação de equipamentos e espaços de uso coletivo e a melhora dos padrões ambientais e paisagísticos da área. Esta é delimitada pela Avenida Pacaembu, ruas Paraguaçu, Traipu e Turiassu, Avenida Pompéia, Rua Carlos Vicari e avenidas Santa Marina e Comendador Martinelli (ver o mapa).
Para beneficiar-se com a modificação de índices e características de parcelamento, uso e ocupação do solo e subsolo e de normas de edificação, com a cessão onerosa do espaço público aéreo ou subterrâneo e com a regularização de construções ou reformas em desacordo com a legislação, após avaliação de uma comissão técnica coordenada pela Emurb, o interessado deverá pagar uma contrapartida, que poderá ser financeira com os valores depositados num fundo especial , em obras públicas vinculadas aos objetivos da Operação Urbana (como a execução de avenidas e trabalhos de drenagem) ou com a doação de bens imóveis dentro do perímetro, como terrenos e edificações. Outro aspecto da OUAB é o incentivo à recuperação e manutenção de edifícios protegidos pelo patrimônio histórico (tombados ou enquadrados na categoria Z8-200), através do mecanismo de transferência de potencial construtivo. Informações sobre a Operação Urbana Água Branca, assim como sobre a Operação Urbana Centro, podem ser obtidas na Emurb pelo fone (11)232-2622.
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Um futuro para o "anel de ferrugem"
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Com a obsolescência de seu parque manufatureiro tradicional e sua expansão e consolidação como pólo de serviços, associadas à perda de importância da ferrovia no transporte de grandes cargas industriais e agrícolas, São Paulo recebeu de presente uma espécie de ferradura formada por centenas de galpões, fábricas e ramais desativados ao longo do anel ferroviário que tem início na Zona Oeste, corta a região central e prolonga-se na direção sudeste até o bairro do Ipiranga, podendo estender-se, já sem os trilhos, numa seqüência de fábricas vazias, à região de Santo Amaro. Presente ou problema? Segundo estudos desenvolvidos pelo economista Tadeu Masano, professor da Fundação Getúlio Vargas e especialista em geografia de mercado, presente mesmo e dos grandes. A faixa ferroviária é hoje uma zona morta que, dependendo do destino que se der a ela, pode ser a solução para uma boa parte dos flagelos de São Paulo, a começar pelo desemprego e pela compartimentação da cidade num quadrante sudoeste afluente e moderno e numa imensa Zona Leste assolada pelo desemprego e pela pobreza, ambos separados pelos trilhos ferroviários e suas áreas ociosas.
O que Masano propõe é a criação, por um esforço conjunto do Estado e do Município, de uma companhia de desenvolvimento que, através da implantação coordenada de projetos privados e públicos, estimule a transformação planejada da orla ferroviária numa nova fronteira urbana, formada por pólos residenciais, de serviços, de pesquisa de novas tecnologias, de comércio, educação, lazer, cultura, congressos e convenções, hotelaria e negócios. Além disso, o território abrigaria centros de treinamento e reciclagem de mão-de-obra para enfrentar o desemprego. Conectando essa gama de atividades a outras regiões da metrópole, trens modernos e de alta freqüência, previstos numa etapa seguinte do já em implantação Programa Integrado de Transportes Urbanos (Pitu), do Governo do Estado), percorreriam os trilhos atuais.
Uma vez convertido em "ferradura da sorte", o "anel de ferrugem" de Masano que é também doutor em planejamento urbano pela FAUUSP funcionaria como uma faixa de integração dos lados rico e pobre da cidade, contribuindo para reduzir brutais diferenças sociais e de renda e constituindo-se num pólo dinâmico de economia moderna, moradia e convivência. "Qualquer projeto para salvar São Paulo terá que achar uma nova função e identidade para essa zona morta em que se transformaram nossos tradicionais bairros fabris", disse Masano a urbs. " E um dos grandes desafios da nova gestão municipal é recuperar essa região tão bem localizada e provida de infra-estrutura e devolvê-la à cidade".
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