|
“Esmola, comida e brinquedo mantém criança na rua”,
garante coordenador de Assistência Social da Subprefeitura da Sé
Por
Ana Maria Cicaccio
No Centro de São Paulo, a Coordenadoria de Assistência e
Desenvolvimento Social da Subprefeitura da Sé, sob responsabilidade de Renato Barreiros,
faz a ponte entre a necessidade de atendimento a crianças e adolescentes e os
serviços proporcionados pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social
da Prefeitura - Smads - (veja quais são abaixo).
A seguir, a entrevista de Barreiros ao informeOnLine
Viva o Centro:
O Artigo 5º do ECA diz que o poder público se omite quando deixa uma
criança na rua, sujeita à violação de seus direitos. O Sr. concorda com isso?
O poder público não delibera sobre isso, acata. O que a
Justiça entende é que o poder público tem que disponibilizar os meios para
acolher essa criança e que não pode acolhê-la à força. O que procuramos fazer é
convencê-la a receber a assistência proporcionada. Os serviços sociais da
Prefeitura são direcionados a dar atenção e dignidade a essas crianças.
O ECA deveria receber uma emenda?
Não posso opinar por não ter conhecimento jurídico
suficiente sobre isso.
Permanecemos todos, sociedade e poder público sem fazer nada enquanto
crianças menores de 12 anos continuam dormindo na rua, drogando-se, sendo
estupradas, furtando e tendo suas vidas consumidas em pouquíssimo tempo?
Esse cenário pode ser mudado com uma atitude da sociedade para
que essas crianças e adolescentes não fiquem na rua. O que acontece hoje é que
muita gente dá comida, roupa, dinheiro e brinquedos para essas crianças e
adolescentes. Com isso, mantém a situação. Para que sair da rua e ir para uma
Casa de Acolhida ou um Creca ou um abrigo, se tem tudo na rua? Agora tem até
uma ONG distribuindo barracas, do tipo iglu, para crianças em situação de rua.
Por que ir para uma Casa de Acolhida onde há regras, onde se exigirá freqüência
à escola, estudo e comportamento socialmente adequado?
A rua ilude as crianças e o adulto colabora com essa ilusão, é isso?
É falso, perverso. Não trará futuro a ninguém. Não há
conforto, a não ser ilusão de conforto.
E o que a Prefeitura tem feito para mudar isso?
Temos a campanha “Não dê esmola, dê futuro” e, além disso,
temos feito contato com as ONGs mostrando-lhes que dar coisas nas ruas para as
crianças e adolescentes não é o caminho. Essas ONGs poderiam destinar
alimentos, brinquedos e dinheiro para as Casas de Acolhida. Que se integrem aos
serviços sociais da Prefeitura. Isso vai forçar que essas crianças procurem os
serviços assistenciais que oferecemos, e assim poderemos realmente fazer algo
por elas.
Algumas ONGs defendem que é preciso dar esmola.
Muitas outras já se conscientizaram de que não. Vamos
conseguir convencer as que faltam e também ao cidadão individualmente, porque
ninguém deve dar esmola.
Assistencialismo não resolve?
Dar qualquer coisa e ir embora não resolveu nunca. Em uma
Casa de Acolhida a criança vai ter de atendimento à saúde a matrícula na
escola, acompanhamento escolar e,quando necessário, atenção psicológica e de
libertação da dependência química. O Projeto Equilíbrio, com o Hospital das
Clínicas e o Projeto Quixote, vai nessa direção.
Por que a criança não fica nos serviços oferecidos pela Prefeitura?
O que acontece é que nessa condição da rua, com alimento,
dinheiro, roupa, brinquedo e tudo o mais, a criança não se sente obrigada a
ficar em lugar
nenhum. Você pode ter a melhor pessoa do mundo para convencer
essa criança de que a rua não é lugar para ela que não vai adiantar. Os apelos
são fortes demais.
Se a Prefeitura, como o Sr. diz, está fazendo o seu papel, o que falta?
Falta apoio da sociedade para que essas crianças possam ser
acolhidas por nossos serviços sociais. A Smads tem feito campanha para a
população perceber isso e colaborar, mas é claro que demora a assimilação
disso. Tem que haver um pacto entre a sociedade e a Prefeitura de que são os
nossos serviços sociais que vão recuperar essa criança e esse adolescente, e não
aquele Real que se dá no farol.
Criança
e Adolescente: o que a Prefeitura oferece no Centro
Núcleo Sócio Educativo (NSE)
São espaços de convivência no
contraturno da escola, onde as crianças e adolescentes desenvolvem atividades
de convivência visando um espaço de socialização diferente do oferecido pela
escola formal. Estão divididos por faixa etária: NSE I, de 6 a 12 anos; NSE II, de 12 a 15 anos;
NSE III, de 15 a 18 anos; e
NSE IV, de 18 a 24 anos. Os NSEs III e IV
trabalham com cursos profissionalizantes e têm como objetivo preparar esses
jovens e adolescentes para o mercado de trabalho.
Cedeca - Centro de Defesa dos
Direitos da Criança e do Adolescente
É um serviço que tem como objetivo
dar apoio jurídico e social para famílias em situação de vulnerabilidade social
ou que necessitem de alguma orientação jurídica.
Creca - Centro de Referência da
Criança e do Adolescente
É um serviço de acolhida que funciona
como "porta de entrada" à assistência social, onde as crianças
tiradas da rua recebem as primeiras ações de acolhimento. A finalidade é de
reconstrução da história da criança ou adolescente, mediante o trabalho de
educadores, psicólogos e assistentes sociais. O tempo de permanência máximo
neste serviço é de 2 meses.
Casas de Acolhida
Também é um serviço de acolhida,
entretanto voltado para casos onde não é possível o retorno imediato para a
família, seja qual motivo for. A equipe técnica deste serviço tem um tempo maior
para trabalhar com a criança ou o adolescente acolhido e a família para poder
dar um resolução mais adequada ao caso.
Abrigos
Serviço de acolhida específico para
demandas judiciais das Varas da Infância e Juventude. Fazem o mesmo trabalho
que as Casas de Acolhida, mas com abrigados que foram encaminhados pela
justiça.
Presença Social nas Ruas.
Serviço de abordagem de rua, em
que
os educadores de rua têm por objetivo reconstruir a história das crianças e
adolescentes de rua, de modo que eles possam ter meios para sair da condição de
rua. Também conta com o trabalho de psicólogos e assistentes sociais para dar
suporte aos atendidos.
|
|