|
Preocupação da Viva o Centro com fachadas históricas tem apoio de arquitetos e
urbanistas
Por Ana Maria Ciccacio
Repercutiu favoravelmente entre arquitetos e urbanistas o
alerta feito pela Viva o Centro
sobre a destruição de fachadas históricas na área central depois da retirada de
anúncios indicativos em desacordo com a Lei Cidade Limpa. A lei é boa, ninguém
questiona. No entanto, proprietários e locatários de edifícios com fachadas
históricas, e não só estes, precisam de orientação para não descaracterizar a
paisagem. Acompanhe o que dizem os especialistas e o diretor do DPH, Walter
Pires.
|
Regina Hirata
Fachadas históricas no Centro precisam ser preservadas |
Arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre,
professor da FAUUSP e presidente do Conselho Municipal de Preservação do
Patrimônio (Conpresp): “É importante a Viva o Centro, como parte da sociedade,
expressar esse tipo de preocupação. O que acontece é que a Prefeitura não tem um
quadro de fiscalização com pessoal preparado para perceber detalhes de
originalidade nas fachadas. Quem está é o técnico, mas não cabe a ele
fiscalizar. Além disso, falta à Prefeitura fazer uma campanha de conscientização
dos proprietários de bens tombados. A Viva o Centro, ao observar essa
necessidade, faz um importante alerta. Uma coisa são os anúncios indicativos.
Outra coisa é perceber na fachada o que está atrapalhando, o que está errado e
precisa ser retirado e o que não está e precisa ser mantido. Isso exige um olhar
preparado e crítico, de alguém que tenha conhecimento de arquitetura. É muito
boa a proposta da Viva o Centro. O
Conpresp tem uma equipe pequena, só administrativa. E o DPH também. É necessário
montar equipes de atendimento para isso, com estagiários de arquitetura. A
Prefeitura tem que chegar mais perto da população.”
Francisco Zorzete, da
Companhia de Restauro, empresa responsável por importantes trabalhos no Centro,
como na BM&F e no Centro Cultural Banco do Brasil: “É muito bacana
São Paulo ter aceitado a Lei Cidade Limpa. Essa ‘vai pegar’ em termos de
paisagem, qualidade do ar, da água e do verde. Esse é o caminho, buscar conforto
urbano. Quanto à falta de informação que a Viva o Centro levanta, é exatamente
isso. Sabe quantos foram beneficiados pela Lei de Fachadas no ano passado?
Apenas um. Se existe uma lei, a Prefeitura tem que criar uma forma de
aplicabilidade eficiente dessa lei, com orientação, encaminhamento. Tem que
fazer comunicados aos proprietários e locatários dos imóveis tombados,
respeitá-los. Eles são os guardiões das jóias raras da cidade. Tem que haver uma
estratégia para conquistá-los para a preservação da nossa arquitetura. Quando a
gente vê algumas aberrações, como as fotografadas pela Viva o Centro, muitas vezes elas nem
são fruto de desrespeito do proprietário, mas de pura falta de conhecimento. Ele
acha que ao pintar ou revestir está fazendo o bem. Há boa vontade nisso, só que
ninguém foi orientá-lo de como deveria ser feito. Esse evento da EPMídia,
paralelo ao 4º Pró Síndico, ‘Encontro de Condomínios Históricos da Cidade de São
Paulo’, previsto para o início do segundo semestre, vem de encontro a essa
necessidade. Vai orientar esses proprietários, síndicos e locatários de
edifícios históricos. Existe, sim, uma diferença entre reformar e restaurar, mas
restaurar não é bicho de sete cabeças.
Na reforma, o proprietário faz o que quer, usa a cor e os materiais que
quer. O restauro tem critério, é científico, mais delicado, mas o resultado será
o mesmo: você poder limpar, recuperar e devolver a beleza. Reformar e restaurar
são conceitos próximos, a única diferença é que no segundo caso é preciso ter
critério. Se no Centro há cerca de 1.000 edifícios tombados, vamos fazer uma
cartilha e entregar a cada proprietário, falando sobre a importância desse bem e
de como será compensador recuperá-lo e mantê-lo em bom estado.
Principalmente, é preciso informá-lo sobre os dispositivos
legais de isenção que podem ajudar. Além da Lei de Fachadas, que isenta de IPTU,
há a Lei Rouanet (Imposto de Renda), a Lei Marcos Mendonça (ISS). São pelo menos
três mecanismos de captação de recursos, que devem ser conhecidos e
utilizados”.
Davi Vital Brasil, professor do Curso de
Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes de São
Paulo: “Falta mesmo divulgar os mecanismos que podem beneficiar o
proprietário do bem tombado. Seria muito útil saber como funciona a Lei de
Fachadas, assim como as leis de incentivos à cultura, que também beneficiam o
patrimônio histórico. Com imóveis tombados não pode ser qualquer tipo de
recuperação. Não dá para pintar ou colocar azulejo sem qualquer critério. A
recuperação deve ser adequada a cada caso e feita por profissional habilitado na
especificação exigida. Se é massa raspada, terá que ser massa raspada; se a
fachada é revestida, terá de ser revestida. Evidentemente que aplicar material
cerâmico ou qualquer outro tipo de material em bem tombado é totalmente
inconveniente, da mesma forma que pintar de qualquer jeito. Quanto à criação de
uma equipe especial no DPH, acho que ela também seria muito útil, mas, para
isso, teria que ser formada por técnicos qualificados – engenheiros ou
arquitetos”.
Regina Helena Vieira
Santos, coordenadora da equipe de estagiários da
Zeladoria Urbana da Subprefeitura da Sé: “Não dá para falar apenas em
patrimônio histórico, devemos falar em patrimônio cultural.
Existem alguns projetos de arquitetura moderna que não estão
tombados, mas que é importantíssimo preservar. Nossa experiência pode ser útil
nesse caso. Explico: como um dos pontos que a Zeladoria observa é a poluição
visual e a Rua Augusta se encontrava excessivamente poluída, começamos por
desenhar o estado em que se encontrava. Na mesma ocasião surgiu a Lei Cidade
Limpa. Durante dois meses, 20 estagiários sob minha orientação percorreram as
quadras da Augusta, fazendo um levantamento fotográfico das fachadas
irregulares. A poluição visual agride o pedestre, enfeia a cidade e, em geral,
esconde fachadas que camuflam muita arquitetura boa. Com o fim do levantamento,
eles formularam sugestões para melhorar as fachadas que foram descobertas. Não é
nenhuma proposta de fachada, mas apenas sugestões para adequar o que existe à
lei. O resultado do trabalho está na exposição ‘Despoluiççao Visual da Rua
Augusta’, que fica até 30/6 no Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2.073), com
entrada franca.”
Dostoiévscki Vieira Silbone, da EPMídia, que
realizará em agosto o
Encontro de Condomínios Históricos da Cidade de São Paulo,
paralelamente ao 4º Pró-Síndico:
“O que levou a EPMídia a promover esse encontro foi a constatação de que
a maioria dos síndicos, no Centro de São Paulo – e eu moro no Centro –
desconhece a legislação que favoreceria os projetos de restauração das fachadas
de seus condomínios. Por mais
esclarecidos que sejam os síndicos, muitos ainda acreditam que empresas privadas
ou estatais irão bancar R$ 4 milhões ou R$ 5 milhões em obras só porque os
prédios em que estão têm valor histórico. Pode até aparecer um interessado. Mas
será um em um milhão.
E por uma questão de visibilidade. Não conhecem direito nem a
Lei de Fachadas, nem a Rouanet, nem a Mendonça, nada. Falta divulgação,
informação, por isso a gente decidiu fazer esse
encontro. Enfim, ajudar a despertar da inércia. Eles estão numa região
que tem solução, que tem política, só que não sabem como implantar melhorias
em seus prédios.
O síndico é o ‘microprefeito’ dessa esfera condominial. É a
solução. Por isso essa idéia de conscientizar, que a Viva o Centro está propondo, é muito
boa.”
Veja
também
Diretor do DPH pede união de esforços em prol do patrimônio
|