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São Paulo de Perfil na Biblioteca da Viva o Centro
Por Ana Maria Ciccacio
Um mergulho em temas de
relevância para a cidade de São Paulo, como o seu Centro Histórico, o cotidiano
do metrô, a saúde a partir da escola de medicina no Espigão da Paulista, o Rio
Tietê, a religiosidade da população, os liames entre Portugal e Brasil
presentes na cultura e na arquitetura da cidade. Nove dos 26 livros-reportagem
da Coleção São Paulo de Perfil,
importante projeto coletivo desenvolvido desde 1987, portanto há 21 anos, por
sucessivas turmas do Curso de Jornalismo da ECA-USP, sob orientação da
professora-pesquisadora Cremilda Medina, foram doados no final de setembro à Biblioteca
da Associação Viva o Centro e passam
a incrementar o seu acervo.
Os títulos são muito sugestivos e remetem ao
anseio de compreender a metrópole pela ótica de seus habitantes, a essência
mesma do jornalismo. Nau dos Desejos recolhe flagrantes da forte ligação
filial entre Portugal e o Brasil. Vamos ao Centro é particularmente
interessante por ser uma edição de 1994, três anos depois da fundação da Viva
o Centro, quando São Paulo começava a se preocupar com a recuperação de seu
Centro Histórico. Em suas páginas, conflitam o saudosismo de uns com o desejo
de contemporaneidade de outros e a esperança de todos no futuro.
Fazendo história
Farra Alforria, volume 11 da coleção, mostra como é possível se
divertir em São Paulo
e como o espaço da liberdade, da alforria, é o da farra, ou o da brincadeira
sem culpa. Guia das Almas vasculha a religiosidade da população
paulistana de modo respeitoso e sem preconceitos. Tietê, Mãe das Águas
palmilha a artéria histórica que deu rumo ao Estado de São Paulo do século XVI
ao XX. Cotidianos do Metrô, além de perfis de muitos de seus usuários,
traz uma entrevista da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik sobre o mais
importante e funcional transporte público da modernidade.
Em Sagas do Espigão desfilam os 90
anos da Faculdade de Medicina da USP e o Complexo das Clínicas, na Avenida Dr.
Arnaldo. Caminho do Café, Paranapiacaba: Museu Esquecido resgata a
história dos trilhos em São
Paulo e dessa parada no Alto da Serra, o fim do planalto,
antes da descida para o litoral. Por fim, e numa edição recente, de 2004, vem USP
Leste e seus Vizinhos, sobre as fundações do novo campus da universidade na
zona leste de São Paulo.
A coleção
“Durante dez anos (1987-1996), o Projeto São Paulo de Perfil foi acoplado
às disciplinas que ministrei cujo conteúdo abordava a teoria e a prática da
grande reportagem, e que estavam situadas em dois semestres, um pré-requisito
do outro, no terceiro ano diurno e no quarto noturno do curso de Jornalismo da
ECA/USP”, explica Cremilda Medina. “A cada semestre letivo correspondia um ato
culminante, a publicação de um livro-reportagem. Aos vinte exemplares, se
sucederam um de 1997, da graduação, e um em processo de edição, da
pós-graduação.”
Segundo Cremilda, há também uma
série iniciada na UnB, cujo primeiro exemplar – Narrativas a Céu Aberto –, realizado por alunos de mestrado em
1997, foi publicado pela editora da universidade, em Brasília. “De 1997
em diante, o projeto migrou para um espaço que passei a coordenar na ECA – o
Fórum Permanente Interdisciplinar. Aí se oferecem disciplinas optativas, se
organizam seminários, leituras dirigidas e também se dá continuidade no Fórum
às séries Novo Pacto da Ciência e São Paulo de Perfil. Alunos de graduação
de qualquer unidade da USP ou de outras universidades podem freqüentar a
disciplina Narrativas da
Contemporaneidade. Aos jovens se somam os estudantes maduros do Programa
Universidade Aberta à Terceira Idade da USP. No segundo semestre, após o
primeiro de estudos e laboratório, o grupo cria e desenvolve voluntariamente o
exemplar agora anual da coleção.”
Multiplicando
São Paulo de Perfil tornou-se tão interessante e polifônico que, a
partir de 2004, também deu origem a um projeto de pesquisa acoplado à
dissertação de mestrado de Katiuscia Lopes. Por ele, a pesquisadora vem
desenvolvendo saraus com leituras dramáticas, envolvendo textos (narrativas) da
coleção. Colaboram também nessas sessões outros pesquisadores e alunos da
Terceira Idade, com destaque para Izaura Marques Piffer. No seu currículo,
Izaura conta a passagem pela radionovela e, por isso, dá uma valiosa
contribuição de atriz nos saraus coordenados por Katiuscia.
Principalmente, os estudos de
recepção dos conteúdos desses livros foram precedidos de um convênio firmado
com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, em 1989, que atingiu
estudantes do curso secundário. “Durante oito anos foi possível receber o retorno da leitura crítica de alunos de
segundo grau em um grupo de escolas selecionadas pela Secretaria na 16ª
Delegacia de Ensino”, lembra Cremilda.
“Professores de várias
disciplinas da esfera das humanas incorporaram os livros-reportagem ao plano de
trabalho, os alunos respondiam com textos e discussão de grupo à respectiva
leitura e o resultado retornava à pesquisa original”, continua contando a
coordenadora. “Do feedback de várias
turmas, elaboraram-se três grandes linhas de estudo para a narrativa da
contemporaneidade praticada pelos jornalistas, mas com validez para outras
narrativas que abordem o presente histórico.”
Cremilda Medina recorda que os
alunos de segundo grau salientam, em suas avaliações, o grau de legibilidade dos
livros sobre São Paulo. “Por contraste com os livros didáticos, mesmo os de
História, os frutidores de 16, 17 anos, consideram bem mais atraente a cena e
saga contemporâneas narradas com a vitalidade o protagonismo, das histórias de
vida.”
Na Biblioteca da Viva o Centro, que abre ao público às
sextas, das 9h30 às 12 e das 14h às 17h, também podem ser encontrados outros
dois exemplares dessa experiência: Bahia
de Perfil: Narrativas de todos os Santos, que resultou do curso de
especialização Jornalismo Contemporâneo das Faculdades Jorge Amado, que foi
coordenado por Cremilda Medina; e Mococa
Doces Histórias, com o perfil dessa cidade do interior paulista por seus
habitantes, em outra vivência com estudantes de jornalismo locais.
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