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02/10/08

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São Paulo de Perfil na Biblioteca da Viva o Centro

 

Por Ana Maria Ciccacio

 

Um mergulho em temas de relevância para a cidade de São Paulo, como o seu Centro Histórico, o cotidiano do metrô, a saúde a partir da escola de medicina no Espigão da Paulista, o Rio Tietê, a religiosidade da população, os liames entre Portugal e Brasil presentes na cultura e na arquitetura da cidade. Nove dos 26 livros-reportagem da Coleção São Paulo de Perfil, importante projeto coletivo desenvolvido desde 1987, portanto há 21 anos, por sucessivas turmas do Curso de Jornalismo da ECA-USP, sob orientação da professora-pesquisadora Cremilda Medina, foram doados no final de setembro à Biblioteca da Associação Viva o Centro e passam a incrementar o seu acervo.

 

Os títulos são muito sugestivos e remetem ao anseio de compreender a metrópole pela ótica de seus habitantes, a essência mesma do jornalismo. Nau dos Desejos recolhe flagrantes da forte ligação filial entre Portugal e o Brasil. Vamos ao Centro é particularmente interessante por ser uma edição de 1994, três anos depois da fundação da Viva o Centro, quando São Paulo começava a se preocupar com a recuperação de seu Centro Histórico. Em suas páginas, conflitam o saudosismo de uns com o desejo de contemporaneidade de outros e a esperança de todos no futuro.

 

Fazendo história

 

Farra Alforria, volume 11 da coleção, mostra como é possível se divertir em São Paulo e como o espaço da liberdade, da alforria, é o da farra, ou o da brincadeira sem culpa. Guia das Almas vasculha a religiosidade da população paulistana de modo respeitoso e sem preconceitos. Tietê, Mãe das Águas palmilha a artéria histórica que deu rumo ao Estado de São Paulo do século XVI ao XX. Cotidianos do Metrô, além de perfis de muitos de seus usuários, traz uma entrevista da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik sobre o mais importante e funcional transporte público da modernidade.

 

Em Sagas do Espigão desfilam os 90 anos da Faculdade de Medicina da USP e o Complexo das Clínicas, na Avenida Dr. Arnaldo. Caminho do Café, Paranapiacaba: Museu Esquecido resgata a história dos trilhos em São Paulo e dessa parada no Alto da Serra, o fim do planalto, antes da descida para o litoral. Por fim, e numa edição recente, de 2004, vem USP Leste e seus Vizinhos, sobre as fundações do novo campus da universidade na zona leste de São Paulo.

 

A coleção

 

“Durante dez anos (1987-1996), o Projeto São Paulo de Perfil foi acoplado às disciplinas que ministrei cujo conteúdo abordava a teoria e a prática da grande reportagem, e que estavam situadas em dois semestres, um pré-requisito do outro, no terceiro ano diurno e no quarto noturno do curso de Jornalismo da ECA/USP”, explica Cremilda Medina. “A cada semestre letivo correspondia um ato culminante, a publicação de um livro-reportagem. Aos vinte exemplares, se sucederam um de 1997, da graduação, e um em processo de edição, da pós-graduação.”

 

Segundo Cremilda, há também uma série iniciada na UnB, cujo primeiro exemplar – Narrativas a Céu Aberto –, realizado por alunos de mestrado em 1997, foi publicado pela editora da universidade, em Brasília. “De 1997 em diante, o projeto migrou para um espaço que passei a coordenar na ECA – o Fórum Permanente Interdisciplinar. Aí se oferecem disciplinas optativas, se organizam seminários, leituras dirigidas e também se dá continuidade no Fórum às séries Novo Pacto da Ciência e São Paulo de Perfil. Alunos de graduação de qualquer unidade da USP ou de outras universidades podem freqüentar a disciplina Narrativas da Contemporaneidade. Aos jovens se somam os estudantes maduros do Programa Universidade Aberta à Terceira Idade da USP. No segundo semestre, após o primeiro de estudos e laboratório, o grupo cria e desenvolve voluntariamente o exemplar agora anual da coleção.”

 

Multiplicando

 

São Paulo de Perfil tornou-se tão interessante e polifônico que, a partir de 2004, também deu origem a um projeto de pesquisa acoplado à dissertação de mestrado de Katiuscia Lopes. Por ele, a pesquisadora vem desenvolvendo saraus com leituras dramáticas, envolvendo textos (narrativas) da coleção. Colaboram também nessas sessões outros pesquisadores e alunos da Terceira Idade, com destaque para Izaura Marques Piffer. No seu currículo, Izaura conta a passagem pela radionovela e, por isso, dá uma valiosa contribuição de atriz nos saraus coordenados por Katiuscia.

 

Principalmente, os estudos de recepção dos conteúdos desses livros foram precedidos de um convênio firmado com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, em 1989, que atingiu estudantes do curso secundário. “Durante oito anos foi possível receber o retorno da leitura crítica de alunos de segundo grau em um grupo de escolas selecionadas pela Secretaria na 16ª Delegacia de Ensino”, lembra Cremilda.

 

“Professores de várias disciplinas da esfera das humanas incorporaram os livros-reportagem ao plano de trabalho, os alunos respondiam com textos e discussão de grupo à respectiva leitura e o resultado retornava à pesquisa original”, continua contando a coordenadora. “Do feedback de várias turmas, elaboraram-se três grandes linhas de estudo para a narrativa da contemporaneidade praticada pelos jornalistas, mas com validez para outras narrativas que abordem o presente histórico.”

 

Cremilda Medina recorda que os alunos de segundo grau salientam, em suas avaliações, o grau de legibilidade dos livros sobre São Paulo. “Por contraste com os livros didáticos, mesmo os de História, os frutidores de 16, 17 anos, consideram bem mais atraente a cena e saga contemporâneas narradas com a vitalidade o protagonismo, das histórias de vida.”

 

Na Biblioteca da Viva o Centro, que abre ao público às sextas, das 9h30 às 12 e das 14h às 17h, também podem ser encontrados outros dois exemplares dessa experiência: Bahia de Perfil: Narrativas de todos os Santos, que resultou do curso de especialização Jornalismo Contemporâneo das Faculdades Jorge Amado, que foi coordenado por Cremilda Medina; e Mococa Doces Histórias, com o perfil dessa cidade do interior paulista por seus habitantes, em outra vivência com estudantes de jornalismo locais.

 

 
 
   
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