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O comércio dos camelôs no Centro
O
comércio dos camelôs é causa direta de problemas gravíssimos para São Paulo,
para a sociedade como um todo e para o próprio camelô.
Ocupação
predatória dos espaços públicos, exploração e pauperização do trabalhador,
deflagração de deseconomias, agravamento do desemprego, reforço à segregação
sócio-espacial, evasão de receitas públicas e consolidação do crime organizado
são os traços essenciais desse comércio em toda a cidade, sem qualquer ganho a
não ser, e em escala milionária, para os verdadeiros donos do negócio — as
quadrilhas e máfias do crime organizado.
É no
Centro, contudo, que o problema atinge forma mais perversa e insustentável, não
só devido às características funcionais, cívicas e simbólicas da região mas por
se configurar como matriz para a reprodução do negócio em toda a cidade. Além
disso, o comércio dos camelôs inibe o extraordinário potencial da área para a
geração de empregos e renda.
É
somente a partir do Centro que uma firme postura administrativa capaz de conter
a desenfreada expansão e domínio dessa atividade sobre a cidade legal e formal
poderá ser assumida e posta em prática.
Como é hoje exercido em toda a cidade, o comércio dos
camelôs significa:
- Privatização dos espaços públicos, com desrespeito frontal à
premissa de que tais espaços devem ser de uso exclusivo do cidadão
enquanto pedestre e usuário das calçadas, vias pedestrianizadas, praças e
parques, e não do cidadão enquanto agente de interesses privados, como é o
comerciante, de que espécie for;
- Degradação dos espaços coletivos, da ordem e
da paisagem urbana;
- Geração de deseconomias e pauperização, ao constituir-se tal
comércio numa atividade cartelizada, dedicada à comercialização de
mercadorias contrabandeadas, falsificadas ou oriundas de furto de cargas
rodoviárias, e por ao mesmo tempo explorar de forma implacável a sua força
de trabalho assalariada;
- Perdas de receitas públicas, por não recolher impostos e
por depender do fornecimento de mercadorias por empresas que igualmente se
valem da elisão fiscal ou por grupos criminosos;
- Agravamento do desemprego, ao causar a redução do
faturamento do comércio estabelecido com o qual concorre direta e
deslealmente, levando-o a dispensar funcionários. Ao mesmo tempo, a
presença maciça de camelôs nas áreas mais densas e ativas da cidade
afastam investimentos que, caso fossem concretizados, estariam gerando
muitos postos de trabalho — hotelaria, comércio qualificado e turismo são
alguns exemplos — mais receitas públicas e mais qualidade urbana e de
vida;
- Retrocesso social caracterizado pela
hiperexploração do assalariado e pela precarização extrema das relações de
trabalho;
- Agravamento dos problemas de segurança pública ao ocupar — sempre de
forma inadequada e desordenada, porque alheia e até hostil à função
precípua do logradouro — espaços de grande movimento que poderiam, em
situação normal, ser bem policiados e monitorados;
- Reforço do processo de exclusão e
compartimentação sócio-espacial da cidade, ao expulsar para bairros segregados e
shopping centers o comércio tradicional, importante agente de animação
urbana, e ao impedir que novos empreendimentos e investimentos contribuam
para a diversificação das funções de cada região, principalmente da área
central;
- Retrocesso em relação aos direitos do
consumidor,
uma vez que a natureza do comércio dos camelôs impossibilita a aplicação
da lei — uma das grandes conquistas da cidadania — que os define e
regulamenta.
No
Centro, esse tipo
de comércio, ademais de apresentar essas características em escala ampliada,
constitui-se num problema específico por se tratar, a região, de área central
metropolitana com alta complexidade funcional, grande influência econômica e um
valor histórico e simbólico rigorosamente único.
Ou seja: no Centro, o comércio dos camelôs,
tal como é praticado, assume caráter profundamente anti-social porque:
- Impede a geração de emprego e renda ao
degradar o espaço público e inviabilizar o Centro como área por excelência
para o desenvolvimento de atividades ligadas ao turismo, entretenimento,
hotelaria, educação e cultura — justamente as que, hoje em dia, mais geram
postos de trabalho e receita;
- Deflagra, no Centro, com a expulsão do
comércio tradicional e qualificado e sua clientela, um processo de
segregação sócio-espacial que se dissemina por toda a cidade;
- Gera insegurança pessoal ao estabelecer um
clima de desordem e balbúrdia que favorece o aumento brutal do número de
ocorrências policiais e correlatas (males súbitos, atropelamentos,
desinteligências etc.). Dados da Polícia Militar revelam redução de até
80% dessas ocorrências em locais de onde os camelôs foram totalmente
removidos;
- Gera insegurança patrimonial, ao dificultar,
em casos de emergência, o acesso e a circulação de viaturas de bombeiros
pelas ruas estreitas da região central. É importante realçar que existem
na área mais de 400 edifícios tombados pelo patrimônio histórico,
edificações essas contíguas umas às outras — o que facilita a propagação
do fogo — e não dotadas de dispositivos modernos de combate a incêndios.
- Favorece uma rotina de corrupção do agente
público, caso da chamada máfia dos fiscais, e atenta contra a imagem da
cidade ao revelar, em sua região mais turística, tradicional e visitada, a
face extremamente anárquica e agressiva de uma economia e de uma sociedade
desorganizadas e a impotência do poder público diante do fenômeno.
A
Associação entende que, para o correto equacionamento da questão, é necessário
considerar dois aspectos básicos.
O primeiro
é uma escala de prioridades na qual figure em primeiro lugar o interesse do
cidadão em geral, em segundo o do cidadão enquanto consumidor e, por último, o
do cidadão enquanto comerciante/vendedor.
O segundo
aspecto é que não haja uma solução padronizada para toda a cidade, e sim que
cada região tenha respeitadas as suas peculiaridades, necessidades, demandas e
potencialidades.
Respeitando-se esses dois aspectos, ao poder público
caberia:
- Regulamentar esse tipo de comércio, dentro
da legislação em vigor, de forma que ele se instale apenas em lugares
adequados e, principalmente, desvinculado das quadrilhas e cartéis que
domina a atividade;
- Proibir terminantemente a atividade dos camelôs no Centro
(distritos Sé e República) e em outros locais da cidade, onde isso se
revestir de interesse público e de acordo com as características de cada
bairro.
A proibição do comércio dos camelôs no Centro, por seu
caráter definitivo e taxativo,
- permitiria que a Polícia Militar colaborasse
no controle da atividade dos camelôs na área, tarefa exeqüível desde que
não implique verificação de TPUs e outros aspectos burocráticos;
- eliminaria de uma vez por todas os riscos de
que voltem a funcionar amplos e pervasivos esquemas de corrupção dos
agentes públicos, e
- facilitaria enormemente um programa de
recuperação da área central de São Paulo, com reflexos imediatos na
geração de empregos e nas receitas públicas.
Essa
proibição não significa, necessariamente, a remoção pura e simples dos camelôs
da área, mas apenas de seus espaços públicos.
Se
instalados em edificações ou terrenos ocupando lotes urbanos, dentro das
quadras, os camelôs poderão conviver de forma não predatória com o organismo do
Centro. Para tanto, e como pré-condição sine qua non, será preciso
retirá-los completamente das ruas e praças para evitar que concorram com os que
já estejam legalmente localizados.
A
Associação Viva o Centro propõe que, no Centro, sejam utilizados edifícios
vazios, armazéns ociosos e terrenos vagos para a instalação, em condições
satisfatórias de organização e higiene, núcleos ou centros de comércio popular,
com os camelôs transformados em micro-empresários e recolhendo impostos. Da
mesma forma, reprova com veemência a instituição de qualquer tipo de de taxa
pelo uso do espaço público por camelôs, por considerar esses espaços
rigorosamente inegociáveis na perspectiva de seu uso para fins privados. Por
fim, considera equivocado o argumento de que não adianta remover camelôs de
determinados locais sob o pretexto de que passarão a ocupar outros pontos. E,
para que essas remoções, que devem prosseguir sem interrupções, sejam perenes e
efetivas, há a necessidade de que a Prefeitura sinalize com uma inabalável
disposição de impedir que os locais liberados voltem a ser ocupados por camelôs.
A
Associação sugere ainda que, com relação ao restante da cidade, sejam criados
pela Prefeitura — em parceria eventual com a iniciativa privada — centros de
comércio popular próximos aos grandes troncos rodoviários, que poderiam abrigar
a maior parte dos vendedores que hoje congestionam as calçadas e locais de uso
coletivo de praticamente toda a cidade. Esses centros podem ser grandes
mercados ao ar livre combinando comércio, entretenimento e serviços (como os de
Hong Kong, Lima e Brasília, este o famosa "Paraguai" que atrai
milhares de usuários e turistas), acessíveis por linhas regulares de ônibus e
dispondo de grandes espaços para estacionamento, inclusive de ônibus fretados;
e também feiras ao estilo das nordestinas em bairros mais remotos, pequenos e
médios mercados cobertos (ocupando, inclusive, galpões ferroviários e
instalações fabris ociosos e edifícios vazios) e, até mesmo, shoppings
populares construídos pela iniciativa privada e dotados da infra-estrutura
encontrada nos shopping centers comuns, à exceção dos equipamentos supérfluos e
do luxo. Essas estruturas de comercialização seriam instaladas de acordo com as
características e demandas de cada região da cidade.
É importante notar que a regulamentação existente sobre a
atividade, por referir-se unicamente à ocupação do espaço público, não prevê o
uso ou incentivo ao uso de terrenos e imóveis pelo comércio dos camelôs, o que,
uma vez regulamentado, contribuiria decisivamente para a desocupação das
calçadas, calçadões e outros espaços de uso coletivo.
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